PREVENTION OF SURGICAL SITE INFECTIONS: A SYSTEMATIC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510141651
Veronica Escolano Maso1
Francine Guimarães Botinha2
Anna Maria Benevenuto Hollenbach3
Déborah Rodrigues Didó4
Gabriel Monteiro Bueno5
Heloísa Silva Medeiros6
José Leandro Dias de Carvalho7
Júlia Caroline Alves do Carmo8
Karla Christina Ferreira9
Berenice Moreira10
Resumo
As infecções do sítio cirúrgico (ISC) representam uma das complicações mais relevantes da prática cirúrgica, associadas a elevada morbimortalidade e custos hospitalares. Apesar dos avanços em técnicas de assepsia, antissepsia e profilaxia antimicrobiana, sua incidência permanece significativa, variando conforme tipo de cirurgia, tempo operatório, condições clínicas do paciente e nível de desenvolvimento regional. O objetivo deste estudo foi identificar e analisar as principais estratégias de prevenção das ISC e os fatores de risco relacionados, Tratou-se de uma Revisão de Escopo (Scoping Review) conduzida conforme as diretrizes do PRISMA-ScR, com busca nas bases SciELO, PubMed e BVS entre junho e agosto de 2025, abrangendo estudos sobre estratégias preventivas e fatores de risco associados às ISC Os resultados demonstraram que a profilaxia antibiótica cirúrgica, quando administrada no momento adequado, é a intervenção mais eficaz. O uso de curativos avançados, como os de pressão negativa ou impregnados com prata, apresentou resultados heterogêneos, sugerindo benefício apenas em populações específicas de maior risco. Outras medidas, como a otimização da oxigenação, manutenção da normotermia, controle glicêmico e técnica cirúrgica meticulosa, mostraram impacto positivo na prevenção. Conclui-se que a redução das taxas de ISC depende de uma abordagem multifatorial, que una protocolos padronizados baseados em evidências, educação continuada das equipes e monitoramento por indicadores de processo. A personalização das estratégias de acordo com o perfil do paciente e a realidade institucional é essencial para garantir maior segurança e qualidade assistencial.
Palavras-chave: Cuidado pré-operatório; Fatores de risco; Técnica cirúrgica.
1. INTRODUÇÃO
A Medicina hodierna passou, sabidamente, por diversos avanços e tendências no processo de aprimoramento. A área cirúrgica, da mesma forma, tem sido desenvolvida desde os tempos antigos e aperfeiçoada através dos séculos, tornando possível a realização de procedimentos operatórios complexos, bem como outros tidos como simples, ambos voltados ao objetivo de aumentar a sobrevida dos pacientes.
Na antiguidade, os cirurgiões eram de certa forma limitados em sua profissão: não havia anestésicos, os instrumentos ainda eram rudimentares, a hemostasia e cauterização dependiam do emprego de ervas, brasas e óleo fervente (Valladão, 2024), ao mesmo passo em que os pacientes eram assolados por complicações advindas do ato cirúrgico – dentre elas, as temidas infecções, que em grande parte dos casos levavam ao óbito.
Na era da cirurgia moderna, o inglês Joseph Lister (1827-1912) baseado nos estudos de Louis Pasteur (1822-1895) sobre a fermentação causada por microrganismos vivos, propôs que esses germes eram os responsáveis pela má cicatrização e supuração das feridas cirúrgicas. Com essa premissa, Lister introduziu medidas profiláticas, como a aplicação de soluções e curativos antibacterianos nas feridas, estabelecendo as bases da antissepsia (Sabiston, 2019). Em seguida, Ernst Von Bergmann (1836-1907) aprimorou o conceito de “cirurgia limpa”, sugerindo que a erradicação completa dos germes desde o início do ato operatório, por meio da esterilização dos instrumentos em altas temperaturas, garantiria a assepsia (LIMA, 2017). Embora tais avanços científicos tenham levado à instituição de medidas anti-sépticas e assépticas, protocolos rígidos de paramentação e procedimentos-padrão, seria lógico esperar que as cirurgias atuais estivessem isentas de complicações infecciosas. No entanto, este não é o cenário que se observa.
As infecções do sítio cirúrgico (ISC) são definidas como um tipo de complicação decorrente de uma intervenção operatória que pode comprometer desde a incisão, tecidos, órgãos e cavidades, com ou sem colocação de implantes, em pacientes internados ou ambulatoriais. Elas ocorrem em até 30 dias após o procedimento ou até três meses se houver colocação de prótese (Medeiros; Taha; Fagundes, 2023). A incidência das ISC depende do tipo de cirurgia (limpa, potencialmente contaminada, contaminada e infectada), local, porte e preparo da equipe. Atualmente, sabe-se que grande parte das mortes por procedimentos cirúrgicos estão relacionadas às ISC, com incidência atingindo mais de três quartos dos casos (Marques, 2005), sendo a maior parte desencadeada por bactérias oriundas da própria pele do paciente (Sabiston, 2019).
Uma meta-análise global realizada por Danwang et al. (2020) sobre as ISC após a apendicectomia, revelou que a incidência varia significativamente de acordo com o nível de desenvolvimento de cada região. O estudo apontou que o continente africano possui a maior carga de infecções, enquanto a Europa e as Américas apresentam a menor contagem de casos. Além disso, verifica-se uma relação significativa entre o tempo mais longo e ISC, já que quanto mais expostas as cavidades, maior a chance de contaminação (Cheng et al., 2017).
Dentre esses fatores de risco, Martin et al. (2016) elucidou a relação entre diabetes e ISC, destacando a vulnerabilidade causada pela variação hiperglicêmica antes e após o procedimento. Além disso, indivíduos imunossuprimidos, como aqueles infectados pelo HIV e transplantados, são particularmente vulneráveis a infecções oportunistas neste contexto (Millar; Cox, 2023) (Biyun et al., 2024). Desse modo, a probabilidade de contaminação durante um procedimento cirúrgico engloba uma complexa interação de fatores, que vão desde locais e aspectos biológicos do paciente até fatores tecnológicos e o nível de experiência e disponibilidade da equipe de saúde.
A maior parte das ISC é de origem intraoperatória, ocorrendo durante o procedimento ou devido a persistência de hematomas ou tecido desvitalizado, sendo menos comuns durante trocas de curativos (Medeiros; Taha; Fagundes, 2023). Para classificar tais infecções, a Agência Nacional de Vigilância em Saúde (ANVISA) utiliza critérios que definem os planos teciduais acometidos: a) Infecção do Sítio Cirúrgico incisional superficial (ISC-IS); b) Infecção do Sítio Cirúrgico incisional profunda (ISC-IP); e c) Infecção do Sítio Cirúrgico em órgão ou cavidade (ISC-OC), além de outros sítios específicos (Brasil, 2017).
No Brasil, consoante a relatórios da ANVISA, observou-se no ano de 2024 uma taxa de 6,1% de ISC em procedimentos cardíacos, assim como 1,73% em partos cirúrgicos. Esta última representa a mais alta taxa relatada nos últimos 10 anos (Brasil, 2024). Além disso, é necessário elencar o dano causado à vida dos pacientes e de suas famílias, especialmente porque os fatores de risco são, muitas vezes, passíveis de prevenção. Diante deste cenário, o presente estudo torna-se fundamental para ratificar a importância da aplicação de técnicas e medidas corretas que mitiguem a ocorrência de danos aos indivíduos submetidos ao ato operatório. Neste contexto, o objetivo deste estudo foi identificar e analisar as principais estratégias de prevenção das ISC e os fatores de risco relacionados, a fim de subsidiar protocolos clínicos baseados em evidências.
2. METODOLOGIA
Tratou-se de uma Revisão de Escopo (Scoping Review) da literatura, cujo objetivo foi mapear e sintetizar o conhecimento disponível sobre as estratégias de prevenção de Infecções do Sítio Cirúrgico (ISC) e os fatores de risco associados. A metodologia foi guiada pelas diretrizes do PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews), garantindo transparência e reprodutibilidade do processo.
Os estudos foram selecionados com base nos seguintes critérios: População (P): Pacientes de ambos os sexos, em todas as faixas etárias, submetidos a procedimentos cirúrgicos de qualquer porte. Conceito (C): Estratégias de prevenção de ISC, fatores de risco clínicos, cirúrgicos, ambientais e medidas de prevenção (incluindo profilaxia antimicrobiana, antissepsia, manejo perioperatório e protocolos assistenciais). Contexto (C): Estudos realizados em qualquer ambiente assistencial (hospitalar, ambulatorial, etc.). Delineamento: Foram contemplados diferentes delineamentos para mapear a literatura (ensaios clínicos, estudos de coorte, estudos transversais, estudos qualitativos, guias de prática clínica e revisões). Restrições: Foram considerados apenas artigos originais, publicados na íntegra e revisados por pares. Não houve restrição de idioma nem de data de publicação. Foram excluídos editoriais, comentários, cartas ao editor, resumos de eventos científicos e estudos sem descrição clara das estratégias de prevenção analisadas.
A busca bibliográfica foi realizada entre os meses de junho e agosto de 2025, nas seguintes bases de dados eletrônicas: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), National Library of Medicine (PubMed) e Virtual Health Library (BVS).Utilizou-se uma estratégia de busca abrangente, combinando descritores controlados e termos livres em português e inglês: Estratégia: (“infecção do sítio cirúrgico” OR “surgical wound infection”) AND (“prevenção” OR “prevention”) AND (“fator de risco” OR “risk factor”). Busca Adicional (Literatura Cinzenta): Além das bases, as referências bibliográficas dos artigos selecionados e documentos relevantes de órgãos reguladores (como ANVISA ou WHO) foram examinados para inclusão de estudos adicionais.
A seleção dos estudos foi conduzida em duas etapas, de forma independente, por dois revisores, conforme o rigor metodológico da revisão de escopo: Primeira Etapa (Triagem): Análise dos títulos e resumos. A busca inicial resultou em um total de 1.850 registros nas bases de dados. Após a remoção das duplicatas, 1.430 estudos foram avaliados, e 210 foram considerados potencialmente elegíveis. Segunda Etapa (Elegibilidade): Avaliação dos textos completos. Os 210 artigos foram lidos na íntegra. Desse total, 150 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios P-C-C, resultando em 60 estudos para inclusão final. Em caso de divergência entre os revisores em qualquer uma das etapas, um terceiro pesquisador foi consultado para a decisão final. Todo o processo de seleção foi registrado e documentado em um fluxograma PRISMA-ScR.
A etapa de coleta de dados visou criar um mapa da evidência. Foi utilizado um formulário padronizado para extrair informações dos 60 estudos incluídos. Características Gerais: Autor, ano de publicação, país, tipo de delineamento. Características da População: Tamanho da amostra, faixa etária, tipo de procedimento cirúrgico. Fatores Mapeados: Fatores de risco descritos, medidas preventivas específicas utilizadas, metodologia aplicada e principais resultados. Nos casos de múltiplas publicações de um mesmo estudo, a versão mais recente e completa foi priorizada. Os dados foram sintetizados por meio de uma análise descritiva e agrupados em categorias temáticas para mapear a evidência.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES:
Uma meta-análise global em 2020 demonstrou que a incidência de ISC é significativamente influenciada por fatores geográficos e técnicos. O estudo revelou que o continente africano apresenta a maior carga de infecções do sítio cirúrgico após apendicectomia, em contraste com as menores taxas observadas na Europa e nas Américas. Este estudo apontou também maior incidência de ISC em apendicectomias abertas em comparação com as laparoscópicas. Adicionalmente, indicou que a duração do procedimento cirúrgico está diretamente relacionada a um risco maior de infecção, visto que a exposição prolongada das cavidades expostas eleva a probabilidade de contaminação. Além disso, a presença de diabetes e a variação da glicemia antes e após a cirurgia foram fatores de risco significativos para a ISC. Indivíduos imunossuprimidos, como aqueles com HIV e transplantados, foram os mais vulneráveis a infecções oportunistas nesse contexto.
Dentre os métodos de prevenção, tem se a utilização de curativos sobre feridas cirúrgicas, a qual tem como principal objetivo proteger a incisão contra contaminações externas, reduzir o acúmulo de exsudato e favorecer a cicatrização. No entanto, de acordo com a revisão sistemática da Cochrane (2016), as evidências disponíveis não são suficientes para confirmar que o uso de curativos reduz o risco de infecção de sítio cirúrgico em feridas cicatrizando por primeira intenção, nem que um tipo específico de curativo seja mais eficaz do que outro. A análise, que reuniu ensaios clínicos randomizados comparando diferentes tipos de curativos ou a ausência deles, concluiu que os resultados disponíveis apresentam baixo ou muito baixo nível de certeza, devido ao pequeno número de estudos e à alta variabilidade metodológica entre eles. Assim, a escolha do curativo deve basear-se em fatores como custo, conforto do paciente e preferência do profissional, até que novas evidências mais robustas estejam disponíveis (COCHRANE WOUNDS GROUP, 2016).
Outro fator relevante é o uso de oxigênio suplementar no período perioperatório, que visa otimizar a oxigenação tecidual e a cicatrização. A revisão sistemática com metanálise de Gomes et al. (2022) demonstrou que a fração inspirada de oxigênio (FiO₂) ≥ 80% está associada à redução significativa da incidência de ISC em cirurgias colorretais, em comparação com a oxigenação convencional. O efeito benéfico está relacionado ao aumento da atividade de neutrófilos e à melhora da defesa imunológica local, embora o uso rotineiro de hiperóxia deva ser cuidadosamente avaliado devido aos riscos potenciais do excesso de oxigênio. Assim, a suplementação de oxigênio pode ser considerada uma medida adjuvante eficaz na prevenção de ISC em procedimentos específicos, quando aplicada de forma criteriosa e baseada em protocolos padronizados (GOMES et al., 2022).
Além dos curativos, profilaxia antibiótica cirúrgica (PAC) é uma das estratégias mais eficazes para a prevenção de infecções de sítio cirúrgico (ISC), as quais representam uma das principais causas de morbimortalidade pós-operatória. De acordo com Brocard et al. (2021), o uso adequado de antibióticos profiláticos está associado à redução significativa da incidência de ISC em diversos tipos de cirurgia, incluindo procedimentos ortopédicos, ginecológicos e urológicos. As evidências indicam que a administração do antibiótico antes da incisão cirúrgica, preferencialmente entre 60 e 120 minutos antes do início da operação, é o momento mais eficaz para alcançar níveis terapêuticos adequados no tecido e minimizar o risco de contaminação bacteriana durante o ato cirúrgico.
Os autores ressaltam ainda que a eficácia da profilaxia antibiótica está diretamente relacionada ao tempo, dose e escolha adequada do fármaco, sendo as cefalosporinas de primeira geração, como a cefazolina, as mais utilizadas e eficazes em grande parte das intervenções. A revisão também destaca que o uso prolongado ou pós-operatório de antibióticos não traz benefícios adicionais e pode, inclusive, contribuir para o aumento da resistência antimicrobiana e de efeitos adversos desnecessários.
Buscar estratégias de prevenção da ISC impulsiona constantemente a exploração de abordagens inovadoras. Dessa forma, a profilaxia antibiótica cirúrgica (PAC) é uma estratégia comprovadamente eficaz na redução de infecções do sítio cirúrgico (ISC), sendo relevante a administração do antibiótico no período intraoperatório, uma vez que a administração após a cirurgia não demonstrou ter o mesmo impacto (Brocard et al.,2021).
A eficácia dos curativos na prevenção de infecções do sítio cirúrgico (ISC) apresenta resultados diversos com conclusões contraditórias em determinados casos. No entanto, curativos de pressão negativa não reduziram o risco de ISC em feridas de laparotomia (Flynn et al., 2020). De modo similar, um estudo de 2018 concluiu que curativos impregnados com prata não diminuem a incidência de ISC após cirurgia cardíaca em adultos (Vieira et al., 2018).
Nesse mesmo sentido, vale ressaltar que o uso desses curativos avançados como medida de prevenção adjuvante, têm resultados heterogêneos em revisões sistemáticas, mas observa-se que certos materiais, como curativos com prata, já citados, ou tecnologia de pressão negativa, podem ter impacto benéfico em certas populações, como mulheres submetidas à cesariana e pacientes oncológicos (Martins et al., 2021; Zhang et al., 2022). Portanto, é importante individualizar e selecionar as técnicas para cada paciente, considerando o tipo de cirurgia, o perfil clínico cirúrgico do paciente e os riscos envolvidos de cada um. (Karlakki et al., 2021; WHIST Trial, 2020).
Além dos curativos, a otimização da oxigenação é uma medida preventiva relevante de grande eficácia na prevenção de infecções do sítio cirúrgico (Vieira et al., 2018). Sob tal propósito, é de extrema relevância analisar os efeitos de diferentes concentrações de oxigênio inalado no risco de infecção pós-operatória, de maneira a aliar às medidas tradicionais novas abordagens (Zhu et al.,2022). Dessarte, a complexidade das ISC exige atuação pluridimensional, atrelando o conhecimento histórico a evidências científicas atuais para garantir a segurança e o bem-estar dos pacientes cirúrgicos.
A prevenção das infecções de sítio cirúrgico está diretamente relacionada ao fortalecimento e aplicação da Avaliação Nacional de Práticas de Segurança do Paciente no ambiente hospitalar (ANVISA,2020). Visto que, a aplicação de indicadores de processo é essencial para monitorar a aplicação das medidas de assepsia, antissepsia, administração correta da profilaxia antimicrobiana e paramentação da equipe em todas as instituições. A utilização dessas normas auxilia não apenas na detecção precoce de falhas, mas é essencial na implementação de estratégias de melhoria contínua e fortalecimento da segurança institucional (SILVA et al., 2016).
Além das medidas técnicas, fatores epidemiológicos também influenciam diretamente a incidência de ISC. Por exemplo, em países em desenvolvimento, são reportadas taxas significativamente mais elevadas de infecções, especialmente em cirurgias eletivas limpas e limpas-contaminadas, do que em países desenvolvidos, o que reflete limitações estruturais e falhas na implementação dos protocolos de prevenção (Allegranzi et al., 2019). Ademais, fica evidente que pacientes imunocomprometidos ou transplantados, apresentam maior suscetibilidade a complicações infecciosas, demandando protocolos individualizados de profilaxia e acompanhamento (Millar; Cox, 2023; Peña et al., 2022).
Em suma, fica claro que a prevenção das ISC não deve integrar apenas profilaxias técnicas, mas também sociais e econômicas, permitindo intervenções mais efetivas e adaptadas à realidade de cada contexto cirúrgico e social. Ou seja, demanda de uma abordagem multifatorial e multidisciplinar que una protocolos padronizados e educação constante, assegurando maior segurança e qualidade assistencial ao paciente.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
As infecções do sítio cirúrgico (ISC) persistem como uma complicação grave e desafiadora na prática cirúrgica contemporânea, representando um significativo ônus para os sistemas de saúde, os profissionais e, sobretudo, para os pacientes. Esta revisão escopo evidenciou que a prevenção das ISC é um empreendimento complexo que demanda uma abordagem multifatorial e integrada, estendendo-se por todo o período perioperatório.
Os resultados consolidados demonstram que fatores de risco bem estabelecidos, como procedimentos de longa duração, estado imunológico do paciente e o nível de desenvolvimento da região onde a cirurgia é realizada, são determinantes cruciais na incidência de ISC. A análise das estratégias preventivas revela que a profilaxia antibiótica cirúrgica (PAC), administrada no momento correto, permanece como um pilar incontestável e de alta eficácia. Por outro lado, intervenções adjuvantes, como o uso de curativos avançados (de pressão negativa ou impregnados com prata), apresentam resultados heterogêneos na literatura, não demonstrando benefício universal consistente, mas podendo ser considerados para populações específicas de alto risco.
Ficou claro que não existe uma solução única. A prevenção eficaz é alcançada através da adesão estrita a protocolos padronizados que agreguem múltiplas medidas baseadas em evidências: técnica cirúrgica meticulosa, antissepsia adequada, controle glicêmico perioperatório, normotermia e oxigenação tecidual otimizada. A implementação bem-sucedida dessas medidas está intrinsecamente ligada ao fortalecimento da cultura de segurança do paciente, com monitoramento contínuo através de indicadores de processo e resultado.
Portanto, conclui-se que a redução das taxas de ISC depende da conjugação de esforços que envolvam desde a aplicação rigorosa de medidas técnicas consagradas até o investimento em educação permanente das equipes, adequação da estrutura hospitalar e a personalização das estratégias de prevenção de acordo com o perfil de risco individual de cada paciente e o contexto socioeconômico de cada serviço. A vigilância constante e a análise crítica dos dados locais são essenciais para guiar intervenções direcionadas e promover a melhoria contínua da qualidade assistencial, assegurando desfechos cirúrgicos mais seguros.
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