REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508151112
Rodrigo Nunes Rodrigues1
Marthana de Maria Araújo Miranda2
Marna Maria Araújo Miranda Estevão3
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo investigar a prática de suicídio cometido por adolescentes com a análise da obra O Suicídio de Émile Durkheim. Nesse contexto, abordaremos dados da Organização Mundial da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz sobre o número de suicídios cometidos no mundo e no Brasil. É um tema de alta relevância e impacto, pois, cada vez mais, os adolescentes estão cometendo atentado contra a própria vida. Analisaremos como os fatores sociais, mencionados por Émile Durkheim interferem na vida dos adolescentes. Veremos como é primordial o apoio da família, da escola e da comunidade que possuem um papel fundamental na prevenção ao suicídio, pois fornecem apoio psicológico e protegem contra o assédio, a violência, o bullying e o isolamento social. Por fim, abordaremos algumas medidas de combate ao suicídio feitas pelo governo brasileiro.
Palavras-chave: suicídio. Émile Durkheim. Adolescentes. Fatores sociais.
Abstract
This study investigates adolescent suicide through the lens of Émile Durkheim’s Le Suicide, integrating data from the World Health Organization and the Oswaldo Cruz Foundation on global and Brazilian suicide rates. The analysis highlights how Durkheim’s identified social factors—such as integration, regulation, and social cohesion—shape adolescent vulnerability to self-inflicted harm. Emphasis is placed on the pivotal role of family, educational institutions, and community networks in prevention, as they provide psychological support and protection against harassment, violence, bullying, and social isolation. The paper concludes by outlining governmental initiatives in Brazil aimed at mitigating adolescent suicide.
Keywords: suicide. Émile Durkheim. Adolescents. Social factors.
INTRODUÇÃO
A prática do suicídio é um dos temas de grande relevância e impacto na população mundial. Ele acarreta uma dor imensurável nas famílias que, muitas vezes, não sabem do estado depressivo de um parente ou, mesmo sabendo tentam ajudar, embora, muitas vezes, não disponham de recursos suficientes.
Para Ribeiro e Moreira (2018), o suicídio é um dos assuntos mais antigos ligados à saúde humana e à maneira como as sociedades e comunidades influenciam os indivíduos. Historicamente, sua importância social pode ser observada desde a Grécia Antiga. Nos tempos modernos, em especial, a partir do século XVIII, tem sido abordado como um fenômeno social, analisado sob enfoques históricos, sociológicos, econômicos e filosóficos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2010), cerca de 700 mil pessoas cometem suicídio ao ano por todo o mundo e, para cada uma pessoa que falece, outras vinte tentaram tirar toda a vida e quatro tentativas não são notificadas.
O suicídio de adolescentes no Brasil tem se tornado um tema de grande relevância diante do crescente número de casos registrados nos país. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (2024), a taxa de suicídio entre crianças e adolescentes teve um maior aumento em relação a taxa de suicídios da população adulta de uma maneira em geral, pois, enquanto a taxa de suicídio cometido pelas crianças e adolescentes foi de 6% ao ano entre os anos de 2010 e 2022, a taxa de suicídio da população adulta foi de 3,7% ao ano no mesmo período.
Conforme Santos (2025), várias áreas da ciência tentam explicar e procurar uma causa para esse fenômeno, desde as ciências naturais que buscam tendências biológicas, psicológicas e mentais até a sociologia que tenta explicar por meio das causas sociais.
É na sociologia que destacamos o autor Émile Durkheim e sua obra O Suicídio, escrita em 1897, que tenta explicar o suicídio por meio de fatores sociais em vez de causas unicamente psicológicas e individuais. O autor argumenta que fatores sociais, como religião, família e estrutura econômica afetam muito mais uma pessoa tirar a própria vida do que qualquer outro tipo de fator.
Para Braga e Dell’Aglio (2013), o comportamento suicida pode ser dividido em três tipos: a ideação suicida (a ideia de retirar a própria vida, que ocorre por meio de pensamentos, ideias e o desejo de se matar), tentativa de suicídio e suicídio consumado. Para eles, a ideia de suicídio não ocorre de maneira rápida, tendo o indivíduo já demonstrado anteriormente a vontade de cometer tal ato.
O presente artigo tem como objetivo apresentar a teoria do suicídio de Émile Durkheim, a contribuição dos fatores sociais para o suicídio na adolescência e a importância da integração social na juventude, o papel da escola e da família na proteção de jovens, bem como estratégias de políticas públicas para a redução do suicídio.
A condução da presente pesquisa se baseará em um estudo qualitativo, com abordagem descritiva, visando compreender o que leva os adolescentes a cometer atentado contra a própria vida e propor medidas de intervenção social para mitigar as causas. A escolha da abordagem se justifica pela necessidade de explorar os desafios específicos desse campo e descrever de forma detalhada os fenômenos relacionados ao suicídio.
O artigo está estruturado em três partes, além desta introdução e da conclusão. A primeira parte trata sobre a teoria do suicídio. A segunda parte trata sobre os fatores sociais que influenciam o suicídio na adolescência. A terceira parte trata sobre prevenção, intervenção social e políticas públicas para combater o suicídio entre adolescentes.
A revisão bibliográfica contará com a análise do livro O Suicídio de Émile Durkheim e de artigos acadêmicos, como aqueles que tratam sobre a abordagem do suicídio de adolescentes e jovens no Brasil (Ribeiro; Moreira, 2018) e sobre medida protetivas (Silva; Neto, 2020).
Por fim, espera-se que esta análise permita compreender a relevância de combater o suicídio e a importância de fazer políticas públicas antissuicidas no Brasil, fomentando ações governamentais baseadas e evidências científicas e comprometidas com a saúde dos adolescentes.
1. DURKHEIM E A TEORIA DO SUICÍDIO
Émile Durkheim, ainda jovem, escreveu o livro O Suicídio e a repercussão da obra nos meios intelectuais e acadêmicos foi quase que instantânea, pois ele parecia querer validar dois escritos feitos anteriormente: Divisão do Trabalho Social e As Regras do Método Sociológico (Vares, 2017).
Durkheim afirma que suicídio seria “todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela saiba que deveria produzir esse resultado. A tentativa é o ato assim definido, mas interrompido antes que dele resulte a morte” (Durkheim, 2000, p.14).
Vares (2017) cita em seu artigo que Durkheim divide o livro o Suicídio em três volumes. O primeiro volume fala a respeito sobre os fatores extrassociais que poderiam justificar o suicídio, baseando a sua teoria em elementos psicopatológicos, climáticos, genético e na influência da imitação. Na segunda parte, fala sobre a teoria do suicídio e suas implicações que é considerada a parte mais relevante de sua obra, pois advém na tipificação do fenômeno. Por fim, na terceira parte, mostra um exame do suicídio um exame do suicídio enquanto fenômeno social de caráter mais amplo.
Iremos nos ater na segunda parte do volume de sua obra.
Durkheim classifica o suicídio em quatro tipos: suicídio egoísta, suicídio altruísta, suicídio fatalista e suicídio anômico. Iremos estudar cada um dos quatro tipos.
Para o sociólogo (2000), suicídio egoísta é praticado pelas pessoas que não estão ligados a nenhum grupo social e que não se encontram e não estão mais sobre a influência da sociedade, da religião e da família. Conclui-se, então, que nesse tipo de suicídio, o indivíduo não está mais integrado em nenhuma comunidade fazendo com que ele retire a própria vida.
O segundo tipo de suicídio mencionado por Durkheim (2000) é o altruísta. Aqui, diferentemente do primeiro tipo citado acima, ocorre quando o indivíduo está integrado na sociedade de maneira excessiva, praticando o ato de se matar em prol do grupo pelo qual está inserido.
Podemos citar o exemplo, para facilitar a compreensão do suicídio altruísta, da reportagem da BBC, do caso ocorrido em Jonestown, em 1978, na Guiana Inglesa, em que liderados pelo pastor e fundador do Templo Popular Jim Jones, 918 pessoas beberam um veneno misturado a um ponche de frutas, cometendo o maior suicídio coletivo registrado na história.4
O suicídio anômico, segundo Durkheim (2000), citado por De Faria (2014) corresponde ao
suicídio que ocorre em indivíduos que vivem em uma sociedade em crise. Este tipo de suicídio acontece quando as normas sociais e as leis que governam a sociedade não correspondem aos objetivos de vida do indivíduo. Não se identificando com as normas da sociedade, o suicídio passa a ser uma maneira de escapar. (De Faria, 2014, p.18)
Este tipo de suicídio é o que predomina, atualmente, na população, pois, compreende as pessoas que estão sem emprego, que passaram por separações conjugais, que tiveram perdas familiares ou que se encontram em profunda depressão sem perspectivas para o futuro.
Por fim, citado na nota de rodapé da obra O Suicídio (1897), temos o suicídio fatalista que, segundo o sociólogo “é aquele que resulta de um excesso de regulamentação, aquele cometido pelos indivíduos cujo futuro está implacavelmente barrado, cujas paixões são violentamente reprimidas por uma disciplina opressiva”. (Durkheim, 2000, p.353).
Ainda em sua obra O Suicídio (1897), o autor faz outra diferença em relação ao suicídio egoísta e ao suicídio anômico. Vejamos:
Os suicidas de ambos os tipos sofrem do que chamamos de “mal do infinito”. Mas esse mal não assume a mesma forma nos dois casos. Naquele, a inteligência racional é atingida e se hipertrofia além da medida; neste, é a sensibilidade que se superexcita e se desregula. Em um, o pensamento, de tanto se voltar sobre si mesmo, já não tem objeto; no outro, a paixão, não reconhecendo mais limites, não tem mais objetivo. O primeiro perde-se no infinito do sonho; o segundo, no infinito do desejo.” (Durkheim, 2000, p. 368)
Após o estudo sobre os tipos de suicídio mencionados pelo sociólogo Èmile Durkheim, vamos nos atentar ao suicídio de adolescentes e os diferentes motivos que os fazem atentar contra a própria vida.
2. FATORES JURÍDICOS SOCIAIS CONCERNENTES AO SUICÍDIO
Segundo o site Etimologia, o significado de adolescente é
à nível etimológico, tem referência no latim adolescentia, determinado pelo sufixo ad-, interpretado como uma direção para frente, como padrão de movimento e progresso. Este elemento acompanha a palavra alescere, por alere, com raiz no indo-europeu *al-, sobre a ideia de crescimento (estágio de expansão ou mudanças que se reflete perfeitamente no adolescente), este último termo considerado também como á raiz do adjetivo exposto no latim adolescens.5
O Estatuto da Criança e do Adolescentes (ECA), em seu artigo 4º aduz
“É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”
O artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deixa claro que é dever de todos assegurar o direito à vida aos adolescentes. Pressões externas podem levá-lo a cometer o atentado contra a própria vida. Vejamos, abaixo, um exemplo real de suicídio cometido por um adolescente. Foi alterado o seu nome para preservar a sua identidade.
O ano era 2004. João Silva (nome fictício) estudava em uma grande escola privada na cidade de Fortaleza/CE. Era um aluno tímido, retraído, daqueles que ficava todo vermelho quando o professor chamava o seu nome. Possuía poucos amigos (eu era um deles) e não era um aluno popular no colégio. Na época, não existia redes sociais como há hoje. Então, a interação entre os colegas era na sala de aula e, quando muito, pelo telefone.
Dentro de casa, João Silva sofria uma certa pressão dos pais por boas notas. Algo que, dificilmente, tirava. Por mais que se esforçasse, não conseguia atender aos desejos dos pais.
Ao final do ano, após o término regular das aulas, tinha ficado de recuperação em cinco disciplinas. O pai, muito exigente, lhe cobrava muito para passar de ano. Um pouco antes do Natal, João Silva, por volta das cinco horas da manhã, por razões desconhecidas (ou não!) resolveu atentar contra a própria vida e se atirou da sacada do próprio apartamento em que morava. Era o décimo quinto andar.
A família, em um primeiro momento, disse que ele tinha ido ajeitar as luzes pisca-pisca para o Natal que estavam na sacada, desequilibrou e caiu. Algo que foi desmentido posteriormente pelo laudo cadavérico.
Esse adolescente que se suicidou era amigo do autor.
O caso real acima retrata como fatores sociais (familiares, amigos, econômicos, etc) retratados por Émile Durkheim em sua obra o Suicídio (1897) interfere na vida de um indivíduo. Esse é um dos vários exemplos que acontecem todos os dias no Brasil, segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Esses fatores sociais, como bem citado por De Barros et al (2017) decorre de mudanças fisiológicas e patológicas, pois esse grupo passa por uma fase “turbulenta”, que decorre de questionamentos afetivos, familiares e, principalmente, sociais. Carências emocionais e conflitos internos tem potencial de deixar o adolescente mais suscetível à influência dos seus pares e do meio sociocultural em que está inserido.
Segundo Dutra (2002), citado por Braga e Dell’Aglio (2013), a solidão é um sentimento frequente entre adolescentes que tentam o suicídio. Esses jovens mencionam a ausência de amizades e a falta de alguém com quem possam compartilhar vivências e angústias, o que os torna mais propensos a desenvolver dificuldades emocionais, comportamentais e afetivas.
Os adolescentes possuem uma grande necessidade de aceitação no meio em que estão inseridos. Com o advento da internet que gerou facilidade de comunicação entre as pessoas por meio das redes sociais, a “cultura do cancelamento”6 está cada vez mais presente na vida deles. Isso faz com que se sintam tristes, angustiados, encaminhando para uma depressão profunda.
Segundo Lima e Viana (2024), a pandemia acelerou a digitalização da sociedade, levando adolescentes a utilizarem a internet de maneira mais intensa, tanto para fins educacionais quanto recreativos, o que, por sua vez, ampliou as vulnerabilidades relacionadas a prática do suicídio por meio de desafios digitais.
Infelizmente, esses desafios mascarados de jogos acabam ceifando a vida de adolescentes como no caso do jogo da “Baleia Azul”, que surgiu na Rússia, no ano de 2015 e, posteriormente, se espalhou pelo mundo.7
Esse jogo consistia em o adolescente completar 50 desafios, que, na verdade, era uma sequência de trocas de mensagens nas redes sociais para eles executarem tarefas para serem cumpridas. As tarefas iam desde assistir filmes de terror, automutilação até a última que seria ceifar a própria vida. No Brasil, fez vítimas nos Estados do Mato Grosso, Rio de Janeiro e Paraíba.8
Para De Faria (2014), na fase da adolescência, um aspecto que se destaca é a sua natureza impulsiva. Jamais, a condição da saúde mental desses jovens pode ser ignorada. Mais do que isso, é essencial analisar ambos os fatores em conjunto, pois a combinação entre impulsividade e fragilidade emocional pode representar um risco elevado para o suicídio.
Por meio dessa natureza impulsiva, os jovens, com medo de não aceitação, acabam fazendo algo contra, muitas vezes, a sua própria vontade somente para serem aceitos em determinado grupo, pois, caso não estejam inseridos, podem ficar isolados, sem amigos e serem vítimas de bullying.
Para Da Silva e Barros (2021), outros fatores que contribuem para a ideação suicida são:
perdas de pessoas importantes, isolamento social, transtornos mentais, conflitos familiares, abuso de álcool e drogas, baixa autoestima, sintomas depressivos, abandono, transtornos alimentares, estresse, abusos físicos, sexuais ou psicológicos, exposição a violência, orientação sexual, falta de habilidade para lidar com situações do cotidiano.
Durante esse período da vida, é essencial que o adolescente desenvolva a sua autoconsciência, o que gera a compreensão de sua identidade nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais. (De Barros et al, 2017)
Somente com autoconsciência, que não precisa de aceitação por parte de determinado grupo e com o apoio da família, da escola e da sociedade em que convive de maneira geral, esses jovens podem começar a diminuir a rejeição que possam vir de seus pares.
3. PREVENÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE AO SUICÍDIO
Antes de iniciarmos, vale conceituar o que são políticas públicas.
As políticas públicas podem ser compreendidas como instrumentos de intervenção do Estado na sociedade, estruturadas a partir das diretrizes ideológicas e das prioridades definidas pelo grupo político que ocupa o poder, e concretizadas por meio de programas, projetos e ações direcionadas a determinadas demandas sociais (Dye, 1984, apud Carvalho, 2024)
A prevenção do suicídio infantil necessita de intervenções sociais tanto da escola quanto da família e da comunidade no qual o adolescente está inserido.
No contexto escolar, segundo Prado e Pinto (2022), a escola pode desempenhar um papel fundamental no fortalecimento da autoestima, da confiança nas próprias capacidades e da capacidade de adaptação dos alunos. Para isso, é essencial promover iniciativas que incentivem esses aspectos, ao mesmo tempo em que reforçam os laços afetivos entre os estudantes e sua rede de apoio. Dessa forma, os jovens terão um ambiente seguro onde possam buscar ajuda sempre que enfrentarem dificuldades. Além disso, a instituição de ensino pode atuar no desenvolvimento das habilidades sociais, que são essenciais para a construção e manutenção de relações interpessoais saudáveis, ajudando os alunos a lidar melhor com desafios e conflitos do dia a dia.
Para os autores, ainda, há diversos aspectos psicossociais que a escola pode contribuir, como estimular relações de cooperação entre alunos e alunos e professores, estreitar relações com a família, fornecer suporte psicológico, atentar contra o isolamento social, violência, assédio e o bullying.
Para Baggio et al. (2012, apud Machado et al, 2014)
a escola (a partir de uma pesquisa com adolescentes escolares de um município da grande Porto Alegre, com idade entre 12 e 18 anos) é um meio para que as principais estratégias de prevenção sejam adotadas, salientando o papel promocional e de proteção à saúde dos alunos, já que é neste ambiente que os padrões de relacionamento e comportamento podem ser reproduzidos. Abordam a escola como local privilegiado onde situações problemáticas podem ser identificadas. Foi identificado no estudo prevalência de 6,3% dos adolescentes com planejamento suicida, atentando para o fato de o comportamento desta porcentagem interferir no comportamento dos outros adolescentes. Ainda mostram que relações adversas na família, isolamento, agressões e sintomas depressivos são fatores relacionados à prevalência do planejamento suicida. Destaca-se também a importância dos professores para identificar estes problemas e trabalhálos com os jovens.
Segundo Da Silva e Barros (2021), a implementação de um programa de apoio no ambiente escolar pode ser uma estratégia eficaz para prevenir e enfrentar a depressão e o suicídio entre adolescentes. Ao oferecer suporte emocional e psicológico dentro da escola, os adolescentes têm a oportunidade de encontrar um espaço acolhedor onde possam expressar suas angústias e receber a orientação correta para lidar com os desafios dessa fase da vida.
E completam dizendo que
este programa pode ser desenvolvido por um profissional da área da psicologia ou da psicopedagogia, com a colaboração dos próprios adolescentes, professores e coordenadores, podendo ser um projeto multidisciplinar. O projeto deve ter como objetivo promover o desenvolvimento de habilidades para que o adolescente consiga lidar com as questões enfrentadas nessa fase, além de palestras psicoeducativas a respeito dos temas que permeiam essa fase, criar um espaço de acolhimento e confiança para que os adolescentes possam “se abrir” sobre sentimentos e dificuldades, além de promover conversas e discussões sobre outros assuntos que eles tenham interesse, com o intuito de que haja envolvimento emocional e engajamento (ABERASTURY, 1983; ALVES, 2008; BAHLS, 2002; COSTA et al, 2014; OMS, 2019; SCHOEN-FERREIRA; AZNARFARIAS; SILVARES, 2003, apud DA SILVA E BARROS, 2021).
Já no contexto familiar, a família é de suma importância para combater o suicídio. É nela que o amor, o companheirismo, a paciência e o ensinamento vem primeiro, desde que seja uma família estruturada com fortes laços afetivos e emocionais.
Pesquisadores de diversas áreas concordam que a família desempenha um papel essencial na abordagem e prevenção do suicídio e da automutilação. Eles destacam que muitos adolescentes que chegam a atentar contra a própria vida enfrentam desafios familiares, seja por vivenciarem conflitos, pela falta de proteção ou pelo ineficaz suporte psicossocial adequado. A família faz parte de uma rede de apoio fundamental, capaz de oferecer suporte emocional e psicológico ao indivíduo. A vivência dentro desse núcleo influencia diretamente a maneira como a pessoa enxerga e atribui significado à própria vida. (Silva e Neto, 2020)
No ano de 2006, o governo brasileiro publicou a Portaria 1.826/2006 que instituiu as Diretrizes Brasileiras para um Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio, cujos principais objetivos são:
I- desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida, de educação, de proteção e de recuperação da saúde e de prevenção de danos;
II- desenvolver estratégias de informação, de comunicação e de sensibilização da sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido;
III- organizar linha de cuidados integrais (promoção, prevenção, tratamento e recuperação) em todos os níveis de atenção, garantindo o acesso às diferentes modalidades terapêuticas;
IV- identificar a prevalência dos determinantes e condicionantes do suicídio e tentativas, assim como os fatores protetores e o desenvolvimento de ações intersetoriais de responsabilidade pública, sem excluir a responsabilidade de toda a sociedade;
V- fomentar e executar projetos estratégicos fundamentados em estudos de custo-efetividade, eficácia e qualidade, bem como em processos de organização da rede de atenção e intervenções nos casos de tentativas de suicídio;
VI- contribuir para o desenvolvimento de métodos de coleta e análise de dados, permitindo a qualificação da gestão, a disseminação das informações e dos conhecimentos;
VII- promover intercâmbio entre o Sistema de Informações do SUS e outros sistemas de informações setoriais afins, implementando e aperfeiçoando permanentemente a produção de dados e garantindo a democratização das informações; e
VIII- promover a educação permanente dos profissionais de saúde das unidades de atenção básica, inclusive do Programa Saúde da Família, dos serviços de saúde mental, das unidades de urgência e emergência, de acordo com os princípios da integralidade e da humanização.
Com essa portaria, o governo brasileiro pretende reduzir o suicídio e as tentativas de suicídio, fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e as políticas públicas, dar uma maior efetividade na prevenção ao suicídio, ter uma maior articulação entre os setores e níveis de governo, fornecer um maior acolhimento as populações mais vulneráveis e melhorar a atuação do profissional da saúde para, rapidamente, identificar pessoas com tendência suicida.
Ainda preocupado com o assunto, o governo brasileiro criou, em 2013, a campanha do Setembro Amarelo. Vejamos9:
Em 2013, Antônio Geraldo da Silva, presidente da ABP, deu notoriedade e colocou no calendário nacional a campanha internacional Setembro Amarelo®. E, desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM divulgam e conquistam parceiros no Brasil inteiro com essa linda campanha. O dia 10 deste mês é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a iniciativa acontece durante todo o ano. Atualmente, o Setembro Amarelo® é a maior campanha anti estigma do mundo! Em 2024, o lema foi “Se precisar, peça ajuda!” e diversas ações já estão sendo desenvolvidas.
A campanha visa conscientizar, orientar e prevenir o suicídio. Faz parte de uma gama de ações, assim como o Outubro Rosa (campanha sobre o câncer de mama) e o Novembro Azul (campanha contra o câncer de próstata) que o governo federal realiza, ao longo do ano, para alertar toda a população das doenças graves e, às vezes, silenciosas, existentes.
O Setembro Amarelo (amarelo porque é a cor que simboliza vida e esperança) orienta a sociedade a reconhecer sinais de quando uma pessoa está necessitando de ajuda, além de direcionar meios para proteger as vítimas (Dietre, et al).
Assim, é perceptível que tanto a escola, quanto a família e a comunidade são essenciais para a prevenção do suicídio de adolescentes e que o governo brasileiro está, cada vez mais, elaborando políticas públicas para a prevenção do suicídio.
CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar os aspectos relacionados ao suicídio cometido por adolescentes no Brasil fazendo uma análise da teoria de Émile Durkheim sobre como os fatores sociais (familiares, amigos, econômicos, etc) influenciam no cometimento do suicídio.
A teoria do suicídio de Émile Durkheim é uma base para entendermos o comportamento suicida por meio de quatro tipos de suicídio mencionado por ele.
Analisamos que pressões externas advindas dos ambientes em que frequentam fazem com que os adolescentes ceifem a própria vida por diversos motivos, seja por aceitação ou pressão psicológica.
A escola, a família e a comunidade tem papel primordial para evitar o comportamento suicida identificando possíveis causas.
Esse comportamento é preocupante, pois, no Brasil, os números vêm crescendo mais em comparação a taxa de suicídio da população adulta. Para tentar combater e diminuir os números de suicídio entre os adolescentes, o país vem fazendo diversas políticas públicas, como o Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio aprovado em 2006 e a campanha do Setembro Amarelo, lançada no ano de 2013.
Diante deste cenário, é imprescindível o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas mais abrangentes e eficazes para garantir a redução do suicídio entre adolescentes. Recomenda-se a ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) para todos os municípios para garantir um atendimento especializado em saúde mental para os adolescentes. Outra medida fundamental seria a capacitação de profissionais da saúde e da educação para identificarem de maneira precoce o sofrimento psíquico e a ideação suicida. É salutar, também, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) treinando agentes comunitários para identificar possíveis sinais de risco em visitas domiciliares.
Na seara da educação, o desenvolvimento de programas de saúde mental nas escolas, por meio de rodas de conversa e educação socioemocional e a inclusão de temas como bullying, ansiedade e depressão nos assuntos a serem debatidos em sala de aula.
Só assim, com a aprovação e a realização de políticas públicas, com o apoio familiar, escolar e da comunidade, poderemos diminuir o risco de suicídio entre os adolescentes.
4Jonestown, 40 anos: o que levou ao maior suicídio coletivo da história, 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46258859. Acesso em: 25 mar. 2025.
5VESCHI, Benjamin. Etimologia de adolescente, Disponível em: https://etimologia.com.br/adolescencia/. Acesso em 26 de mar. 2025.
6MENDES, Rafael Pereira da Silva. “Cultura do cancelamento”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/cultura-do-cancelamento.htm. Acesso em: 26 de mar. 2025. “A cultura do cancelamento é a prática de organizar um boicote virtual de pessoas percebidas como desviantes. Ela pode levar a pessoa julgada ao esquecimento social. Essa cultura tem se espalhado pelas redes sociais, e suas dinâmicas provocam impactos significativos.”
7FAJARDO, Vanessa. MORENO, Ana Carolina. Jogo da “Baleia Azul” e seus desafios: cinco dicas para a prevenção de pais e alunos, 2017. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/jogo da-baleia-azul-e-seus-desafios-cinco-dicas-para-prevencao-de-pais-e-alunos.ghtml. Acesso em: 8 de abril de 2025.
8Idem.
9Campanha Setembro Amarelo Salva Vidas. Disponível em: https://www.setembroamarelo.com/. Acesso em 27 de mar. 2025.
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1Advogado. Mestrando em Direito pelo Centro Universitário Christus – Unichristus. E-mail: rodrigonrodrigues@hotmail.com
2Cirurgiã-dentista. Mestra em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: marthanamiranda@gmail.com
3Médica residente em Ginecologia/Obstetrícia pelo Hospital Universitário Alcides Carneiro – UFCG. E-mail: marnamiranda319@gmail.com
