PREVALÊNCIA DE PARASITOS GASTROINTESTINAIS EM CÃES EM CONDOMÍNIO RESIDENCIAL DE GUARULHOS

PREVALENCE OF GASTROINTESTINAL PARASITES IN DOGS IN A RESIDENTIAL CONDOMINIUM IN GUARULHOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510312134


Elisa Zanoni Volpi Facundo1
Prof. Dr. Aldo Francisco Alves Neto2


Resumo 

A crescente população de animais de companhia em áreas urbanas verticalizadas, como Guarulhos,  eleva a importância do controle de parasitos com potencial zoonótico, especialmente em espaços de uso  coletivo. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de parasitos  gastrointestinais em cães domiciliados de um condomínio residencial no município de Guarulhos (SP),  relacionando os achados laboratoriais com informações obtidas por meio de questionário aplicado aos  tutores. Os resultados demonstraram que, embora a maioria dos tutores realize a vermifugação periódica  e adote medidas básicas de higiene, ainda há ocorrência de infecções parasitárias, com destaque para  Ancylostoma spp. e Giardia duodenalis, agentes de reconhecida importância zoonótica. A correlação  entre o acesso dos cães a áreas externas e a presença de parasitos confirmou a influência dos fatores  ambientais na disseminação das infecções. Os dois casos positivos identificados foram acompanhados  individualmente, permitindo observar a eficácia dos tratamentos adotados e a importância do  acompanhamento clínico. A iniciativa de elaborar material educativo e instalar um quadro informativo  no espaço pet do condomínio mostrou-se uma ferramenta relevante para a conscientização dos tutores  sobre a necessidade de medidas preventivas contínuas. Conclui-se que o controle das parasitoses  gastrointestinais em cães domiciliados requer ações integradas de vigilância sanitária, manejo ambiental  e educação em saúde. A atuação do médico-veterinário é fundamental nesse contexto, tanto na  prevenção e diagnóstico quanto na orientação dos tutores, visando à promoção do bem-estar animal e à  proteção da saúde pública. 

Palavras-chave: Cães. Parasitoses gastrointestinais. Prevenção. Zoonoses.

1. INTRODUÇÃO 

A relação entre animais de companhia e seres humanos representa muitos benefícios  para a sociedade de um modo geral, contribuindo para o bom desenvolvimento físico, social e  emocional de crianças e com o bem-estar de seus tutores, especialmente os idosos (SHIOTA,  2022; TATIBANA; COSTA-VAL, 2009). 

No entanto, essa convivência próxima pode representar riscos à saúde pública,  especialmente quando não há manejo sanitário adequado. Diversas zoonoses são transmitidas  por parasitos intestinais presentes nas fezes de cães e gatos, como Ancylostoma spp., Toxocara  spp., Giardia spp. e Cryptosporidium spp., que podem infectar seres humanos direta ou  indiretamente (KATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007; GREENE, 2015). 

O número de animais de estimação no Brasil tem crescido de forma expressiva,  superando 160 milhões de pets, com densidade estimada de 1,6 animal por residência, sendo  que os cães representam 62,2 milhões desse total (EQUIPE CÃES E GATOS, 2024). Esse  aumento na população animal urbana demanda maior atenção às práticas de higiene,  vermifugação e controle ambiental, principalmente em locais de uso coletivo, como praças,  parques e condomínios residenciais (CRMV-SP, 2018). 

O ambiente urbano, muitas vezes caracterizado pela alta densidade populacional e pela  presença de áreas verdes de uso comum, favorece a disseminação de parasitos gastrointestinais  quando não há manejo adequado das fezes e cuidados sanitários regulares. A falta de  conscientização dos tutores sobre os riscos zoonóticos pode potencializar a contaminação  ambiental (HEUKELBACH; OLIVEIRA; FELDMEIER, 2003). 

O município de Guarulhos (SP) possui ampla área urbana e populosa, com densidade  demográfica de 4.053,57 habitantes por quilômetro quadrado (IBGE, 2022), além de acentuado  do número de condomínios verticais, representando 22,88% dos domicílios da cidade, com  aumento de quase 12% na quantidade de apartamentos entre os anos de 2020 e 2022 (LUDWIG,  2022).  

Considerando o aumento populacional, a verticalização das grandes cidades e a nova  relação que as pessoas estabelecem com seus cães, surgiu a demanda por espaços de lazer a  serem compartilhados com animais. Alguns condomínios residenciais contam com espaço pet  e existem áreas em parques e praças públicas, onde os animais podem andar livremente. Um  dos principais benefícios desses espaços é a interação entre os cães, que podem manifestar o  comportamento natural da espécie (CRMV-SP, 2018).

Como a prevalência de parasitoses é alta em países de clima quente, como o Brasil,  acometendo, inclusive, animais vermifugados periodicamente (CAMPOS, 2014), torna-se  relevante avaliar a ocorrência de parasitos gastrointestinais em cães domiciliados que  frequentam áreas comuns, a fim de compreender o risco de transmissão zoonótica e propor  medidas de prevenção. 

Nesse contexto, o presente trabalho tem por objetivo avaliar a prevalência de parasitos  gastrointestinais em cães domiciliados de um condomínio residencial no município de  Guarulhos (SP), correlacionando os achados laboratoriais com as práticas de manejo, higiene e  controle sanitário adotadas pelos tutores, a fim de identificar possíveis fatores de risco e  subsidiar ações de prevenção e conscientização sobre zoonoses. 

2. REVISÃO DA LITERATURA 

2.1 Importância das parasitoses gastrointestinais  

As parasitoses gastrointestinais em cães constituem um relevante problema na medicina  veterinária e na saúde pública, devido à sua ampla distribuição e ao potencial zoonótico  (KATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007). Essas infecções, causadas por diversos grupos  de helmintos e protozoários que acometem o trato digestivo, podem provocar desde quadros  subclínicos até manifestações graves, como diarreia, anemia e desnutrição (GREENE, 2015).  

Os principais agentes responsáveis incluem os nematoides Ancylostoma spp., Toxocara  spp., Strongyloides stercoralis e Trichuris vulpis; os protozoários Giardia duodenalis Cryptosporidium spp.; e o cestódeo Dipylidium caninum (TAYLOR; COOP; WALL, 2017;  MARTINS, 2019). Essas espécies são amplamente relatadas na literatura como as mais  prevalentes em cães domiciliados e errantes no Brasil (FERRAZ et al., 2019; RIBEIRO; LIMA;  KATAGIRI, 2022; LEÃO et al., 2020; SNAK et al., 2020; FARIAS et al., 2013).  

A infecção ocorre principalmente pela via fecal-oral, por meio da ingestão de ovos,  larvas ou cistos presentes em alimentos, água ou superfícies contaminadas (TAYLOR; COOP;  WALL, 2017), sendo a manutenção de boas práticas de higiene e manejo sanitário essencial  para a prevenção dessas zoonoses (TROCCAP, 2019). 

2.2 Fatores que potencializam as infecções parasitárias 

A prevalência e a intensidade das infecções gastrointestinais em cães estão diretamente  relacionadas a fatores ambientais, imunológicos e comportamentais (CAMPOS, 2014;  HEUKELBACH; OLIVEIRA; FELDMEIER, 2003; TAYLOR; COOP; WALL, 2017). 

Ambientes úmidos, sombreados e com acúmulo de matéria orgânica favorecem a sobrevivência  de ovos e larvas de helmintos (KATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007; CAMPOS, 2014).  A idade e o estado fisiológico dos animais também influenciam a suscetibilidade, sendo  que filhotes e idosos apresentam maior vulnerabilidade em virtude da imaturidade ou do  declínio imunológico (LEÃO et al., 2020; RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022). A ausência  de vermifugação regular e o contato com solos contaminados ou outros animais infectados  aumentam a exposição e a taxa de reinfecção (CAMPOS, 2014; FARIAS et al., 2013), enquanto  fatores adicionais, como alimentação inadequada, presença de ectoparasitas e coinfecções  bacterianas, agravam o quadro clínico e potencializam os sintomas (GREENE, 2015; SILVA et al., 2016). 

2.3 Principais parasitos gastrointestinais e seus ciclos biológicos 

O Ancylostoma spp. é um dos helmintos mais frequentemente encontrados em cães e  apresenta grande relevância zoonótica. Seu ciclo biológico envolve a eliminação de ovos nas  fezes, que, em condições favoráveis de umidade e temperatura, eclodem e liberam larvas  infectantes (L3). A infecção ocorre por penetração cutânea ou ingestão das larvas, que migram  pela circulação até os pulmões e, posteriormente, ao intestino delgado, onde atingem a fase  adulta e se alimentam de sangue, podendo causar anemia severa e enterite hemorrágica  (TAYLOR; COOP; WALL, 2017).  

A patogenia da espécie A. caninum caracteriza-se por uma anemia hemorrágica aguda  ou crônica, mais comumente observada em filhotes jovens ou com menos de um ano de idade,  por infecção transmamária. Também pode haver quadro de diarreia acompanhada por sangue e  muco. Em contrapartida, em cães mais velhos, as infecções costumam ser mais amenas e a  anemia, de menor gravidade, devido à resposta compensatória da medula óssea. O estado  nutricional do animal influenciará a progressão da anemia, entretanto, se este apresentar  deficiência de ferro, desenvolverá anemia hipocrômica microcítica (TAYLOR; COOP; WALL,  2017). 

A espécie A. braziliense ocasiona discreto distúrbio digestivo e, ocasionalmente,  diarreia. Apesar de não ser hematófaga, pode causar determinado grau de hipoalbuminemia  pelo extravasamento intestinal de plasma e outros componentes (MONTEIRO, 2018). De  acordo com Taylor, Coop e Wall (2017), a hipoproteinemia pode levar ao edema subcutâneo e  mesentérico, além de efusão serosa nas cavidades corporais. Em casos de exposição percutânea  recente intensa, pode haver desenvolvimento de dermatite.

Em humanos, a penetração acidental das larvas de A. braziliense na pele pode causar a  larva migrans cutânea (LMC), também conhecida como bicho geográfico, uma zoonose que  causa dermatite e ocorre mais frequentemente em crianças, que possuem hábito de brincar na  terra ou areia, constituindo um problema de saúde pública (HEUKELBACH; OLIVEIRA;  FELDMEIER, 2003; ATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007).  

Embora nos seres humanos as larvas infectantes de A. braziliense não se desenvolvam,  uma vez que o ciclo do parasita não é adaptado para se desenvolver no trato digestivo humano,  as lesões cutâneas podem persistir por semanas, com risco de evoluírem para gangrena,  resultante de uma infecção secundária (MONTEIRO, 2018). 

A infecção por Ancylostoma spp. pode ser agravada por fatores como vermifugação  irregular, acúmulo de fezes em áreas externas, umidade elevada e ausência de limpeza adequada  dos locais frequentados pelos cães (HEUKELBACH; OLIVEIRA; FELDMEIER, 2003;  FARIAS et al., 2013). 

Outro helminto de grande importância é o Toxocara spp., que possui um ciclo direto,  com a infecção ocorrendo pela ingestão de ovos embrionados presentes no solo, na água ou em  alimentos contaminados. Após a ingestão, as larvas eclodem no intestino, migram para o fígado  e pulmões, e retornam ao intestino para atingir a fase adulta (KATAGIRI; OLIVEIRA SEQUEIRA, 2007). Os ovos são muito resistentes às condições adversas do tempo, o que  favorece sua prolongada permanência no ambiente (MONTEIRO, 2018). 

Além de problemas gastrointestinais, a infecção pode levar a pneumonia devido à  migração larval, que pode estar associada à tosse, aumento da frequência respiratória, e secreção  nasal espumosa. Vermes adultos podem causar enterite mucoide e até oclusão parcial ou  completa do intestino (MARTINS, 2019). Nos casos mais raros, há perfuração intestinal com  peritonite ou, bloqueio dos ductos biliares no fígado em algumas situações, e a maioria das  mortes ocorre durante a fase pulmonar (TAYLOR; COOP; WALL, 2017). 

Nos humanos, a infecção ocorre pela ingestão de ovos embrionados e pode causar a  síndrome de larva migrans visceral (LMV) e ocular (LMO) (FIGUEIREDO et al., 2005). A  LMV pode causar lesões hepáticas, como hepatomegalia e eosinofilia; a LMO, leões oculares,  visto que presença da larva retina induz a formação de um granuloma, resultando em perda  parcial da visão. Em situações mais graves, a migração da larva para o nervo óptico pode levar  à perda total da visão (MONTEIRO, 2018)

O Strongyloides stercoralis é outro nematoide de importância médica e veterinária.  Apresenta ciclo direto e indireto, com alternância entre formas de vida livre e parasitária. No  ciclo parasitário, as larvas infectantes penetram pela pele, alcançam a circulação, migram para  os pulmões e, após serem deglutidas, se instalam no intestino delgado, onde atingem a fase  adulta e iniciam a postura de ovos (TAYLOR; COOP; WALL, 2017). A infecção se dá por  meio de penetração ativa das larvas L3 na pele, causando irritação e, em casos mais graves,  diarreia crônica, perda de peso e autoinfecção em cães imunossuprimidos, ou por ingestão  acidental de alimentos ou água contaminada (MONTEIRO, 2018).  

A passagem das larvas pelo parênquima pulmonar pode desencadear processos  inflamatórios, tais como bronquite e pneumonia. As formas adultas estabelecidas no lúmen  intestinal promovem a erosão das vilosidades, o que resulta em um processo infeccioso e no  desenvolvimento de enterite catarral, caracterizada por intensa produção de muco.  Adicionalmente, pode ocorrer diarreia pelo aumento do peristaltismo intestinal, resultando em  má absorção alimentar e desidratação (TAYLOR; COOP; WALL, 2017). 

Os sinais clínicos da infecção por S. stercoralis em seres humanos é amplo, variando  desde o estado assintomático até a presença de distúrbios gastrointestinais, como dor abdominal  e diarreia, e tosse. A penetração percutânea de larvas infectantes também pode causar larva  currens, um sinal cutâneo raro e patognomônico de estrongiloidíase. Em pacientes  imunocomprometidos, a exacerbação da autoinfestação representa um risco significativo,  podendo evoluir para a síndrome de hiperinfestação, estrongiloidíase disseminada e bacteremia,  potencialmente fatal (TROCCAP, 2019). 

O Trichuris vulpis, também conhecido como verme-chicote, é um nematoide que se  aloja no intestino grosso e no ceco, fixando-se à mucosa intestinal, onde se alimenta de sangue  e tecido. Os ovos eliminados nas fezes são altamente resistentes e podem permanecer viáveis  no solo por anos (KATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007; TRAVERSA, 2011).  

A infecção ocorre pela ingestão de ovos embrionados provenientes do solo ou água  contaminados, sendo comum em ambientes com solo úmido e alta densidade populacional de  cães. Após a ingestão, o ovo embrionado libera a L1, no intestino delgado, que segue para o  intestino grosso onde passa por quatro mudas (MONTEIRO, 2018). Os sinais clínicos incluem  diarreia mucossanguinolenta, anemia e, em casos severos, prolapso retal (MARTINS, 2019). O  potencial zoonótico do Trichuris vulpis é controverso, segundo Traversa (2011), e tem sido objeto de debate, uma vez que poucos casos de suposta infecção humana foram descritos e, no  geral, associados a sinais gastrointestinais. 

Em relação aos protozoários, os coccídeos são frequentemente classificados como  patógenos de menor importância clínica, causando doença principalmente em cães e gatos  jovens ou em indivíduos imunossuprimidos. Entretanto, a infecção pelo protozoário Giardia pode ser clinicamente significativa (ETTINGER; FELDMAN; CÔTÈ, 2022).  

A Giardia duodenalis é um protozoário flagelado que causa giardíase em cães e  humanos. Seu ciclo é direto, envolvendo duas formas evolutivas: o cisto, que é a forma  infectante, capaz de sobreviver por meses no meio ambiente, e o trofozoíto, que se multiplica  no intestino delgado e possui ventosas responsáveis por manter o parasito fixo na mucosa  intestinal para se alimentar (FERREIRA; DESTRO, 2020; MARTINS, 2019). 

A infecção ocorre pela ingestão de cistos presentes em água ou alimentos contaminados.  Nos cães, provoca diarreia intermitente, pela erosão da mucosa intestinal, fezes pastosas, perda  de peso, desidratação e problemas de absorção de nutrientes, sendo mais frequente em filhotes  e animais imunossuprimidos (RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022; TAYLOR; COOP;  WALL, 2017). A giardíase é considerada uma zoonose de grande importância para a saúde  pública, sendo uma das principais causas de surtos de diarreia em crianças que frequentam  creches, o que aumenta a disseminação da doença (SNAK et al., 2020).  

O Cryptosporidium spp. é outro protozoário de grande importância zoonótica, que  acomete principalmente cães jovens. A infecção ocorre pela ingestão de oocistos esporulados  eliminados nas fezes de animais infectados, presentes em água ou alimentos contaminados, bem  como por contato direto com pessoas ou animais infectados (SILVA et al., 2016). 

O ciclo de vida do Cryptosporidium spp. é monoxênico, e a transmissão se dá por  oocistos contendo quatro esporozoítas, que são eliminados nas fezes já maduros e infecciosos,  devido à esporulação que ocorre no hospedeiro. O desenvolvimento do parasita é intracelular, mas  extracitoplasmático, progredindo através de estágios de merontes e gametogonia até a produção  de novos oocistos. Além disso, certas espécies produzem oocistos de parede espessa, para  transmissão externa via fezes, e oocistos de parede fina, que se rompem no intestino,  estabelecendo um ciclo de autoinfecção (TAYLOR; COOP; WALL, 2017). 

Esse parasito se multiplica nas células epiteliais do intestino delgado, causando  destruição das vilosidades intestinais e má absorção de nutrientes. Em cães saudáveis, a infecção tende a ser autolimitante, mas em animais debilitados pode causar diarreia severa e  desidratação (GREENE, 2015). 

Os primeiros casos de humanos parasitados foram registrados na década de 1970 e,  como os oocistos de Cryptosporidium são resistentes a desinfetantes utilizados no tratamento  de água de abastecimento, constituem um problema de saúde pública (MONTEIRO, 2018). No  Brasil, o gênero Cryptosporidium é considerado um dos três principais patógenos associados à  diarreia infecciosa em crianças, contribuindo de forma significativa para as taxas de morbidade  e mortalidade na faixa etária de zero a cinco anos (SILVA et al., 2016). 

O Cystoisospora spp. também é um protozoário intestinal que afeta principalmente  filhotes, sendo responsável por quadros de diarreia e perda de peso. Em animais  imunocomprometidos, pode causar fezes pastosas com presença de muco, hematoquesia,  êmese, anemia, dor abdominal, desidratação, apatia, prostração e fraqueza (MARTINS, 2019).  O ciclo biológico é monoxênico, com reprodução sexuada e assexuada no intestino do  hospedeiro. Os oocistos eliminados nas fezes tornam-se infectantes após esporulação no  ambiente (MARTINS, 2019; RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022). 

Ao atingirem o intestino do hospedeiro, os esporozoítas penetram a parede intestinal e,  via circulação sanguínea ou linfática, dispersam-se para diversos tecidos, com predileção por  linfonodos mesentéricos e fígado, onde formam cistos unicelulares em crescimento  (MONTEIRO, 2018). A ingestão desses cistos monozoicos leva à infecção intestinal no cão  como hospedeiro definitivo, onde ocorrem as fases de merogonia, seguida de gametogonia,  culminando na formação e excreção dos oocistos nas fezes (GREENE, 2015).  

O Dipylidium caninum é um cestódeo, popularmente conhecido como tênia do cão,  comum em cães e gatos, transmitido pela ingestão acidental de pulgas ou piolhos contaminados  com cisticercoides. Após a ingestão, o parasito se desenvolve no intestino delgado e elimina  proglotes repletas de ovos nas fezes (GREENE, 2015), ou ativamente pelo ânus, liberando as  cápsulas ovígeras. 

Enquanto as pulgas adultas são estritamente hematófagas e não ingerem os ovos, no  estado larval são capazes de ingeri-los e, na cavidade larval geral, transformam-se em larvas  cisticercoides. O cão, hospedeiro definitivo, é infectado ao se coçar e se lamber, ingerindo  acidentalmente os hospedeiros intermediários (pulga ou piolho) que, após digeridos, liberam a  forma larval cisticercoide. Em 20 a 30 dias essa forma larval torna-se um cestódeo adulto.

A infecção é geralmente assintomática, mas pode causar prurido anal, levando os cães  a manifestarem o comportamento de esfregar o períneo no solo, desconforto abdominal e, em  alguns casos, diarreia (MARTINS, 2019). Em humanos, especialmente crianças, a infecção  ocorre por ingestão acidental de pulgas contendo a forma larval, ao beijarem ou serem lambidas  por animais contaminados, podendo permanecer assintomáticas ou apresentar irritação perianal  e/ou distúrbios intestinais leves. É possível a visualização de proglotes nas fezes ou em torno  da região perianal da criança (TROCCAP, 2019) 

2.4 Diagnóstico 

O diagnóstico das parasitoses gastrointestinais é realizado por meio de exames  coproparasitológicos, que possibilitam identificar ovos, cistos ou larvas nas fezes dos animais.  As técnicas mais empregadas incluem a flutuação simples (Willis-Molay), a centrífugo flutuação (Faust et al.) e a sedimentação espontânea, cuja escolha varia conforme o tipo de  parasito pesquisado (KATAGIRI, 2006; TÁPARO et al., 2006). 

A técnica de Willis-Molay é amplamente utilizada na análise de fezes de pequenos  animais, sendo voltada à identificação de ovos de helmintos, cistos e oocistos de protozoários.  A solução empregada nesse método permite que essas estruturas flutuam, aderindo à parte  superior de uma lamínula posicionada na superfície do líquido. No entanto, alguns ovos de  trematódeos e cestódeos não flutuam nesse procedimento, e os cistos de Giardia sp. podem  sofrer distorção (MONTEIRO, 2018). 

A técnica de Faust et al., baseada na centrífugo-flutuação em solução de sulfato de  zinco, requer o uso de centrífuga e apresenta indicações semelhantes às da técnica de Willis,  sendo, contudo, mais apropriada para a pesquisa de Giardia sp., uma vez que, diferentemente  da solução salina, o sulfato de zinco não causa deformação dos cistos desse protozoário  (MONTEIRO, 2018). 

Silva et al. (2022) compararam diferentes técnicas coproparasitológicas no diagnóstico  de parasitos em cães e concluíram que o método descrito por Willis (1927) apresentou o menor  número de resultados falso-negativos, enquanto a técnica de Faust et al. (1938) foi a única que  permitiu a observação de Giardia spp. 

Resultado semelhante foi relatado por Katagiri (2006), que constatou maior  sensibilidade da técnica de centrífugo-flutuação com sulfato de zinco no diagnóstico coproparasitológico de parasitas gastrintestinais de cães, ao avaliar duas técnicas convencionais  e um kit comercial. 

De forma complementar, Novaes e Martins (2015) também analisaram diferentes  técnicas parasitológicas para o diagnóstico de helmintoses caninas e recomendaram a utilização  do método de Willis, destacando sua praticidade, baixo custo e agilidade na execução e leitura  das lâminas, já que requer apenas uma solução supersaturada. 

Independentemente da técnica adotada, as amostras fecais devem ser analisadas  cuidadosamente para evitar resultados falso-negativos ou falso-positivos, como ocorre, por  exemplo, na identificação de Giardia spp., cujos cistos podem ser confundidos com leveduras.  Além disso, para Giardia spp., recomenda-se a análise de amostras coletadas em dias  consecutivos, uma vez que a eliminação de cistos pode ocorrer de forma intermitente nas fezes  (GREENE, 2015). 

No caso de Dipylidium caninum, o diagnóstico geralmente é baseado no histórico  clínico e nos sinais observados, como a presença de pulgas e a visualização de proglotes nas  fezes, nos pelos ou ao redor do ânus. É fundamental diferenciar as proglotes de D. caninum daquelas pertencentes ao gênero Taenia, o que pode ser feito pela análise morfológica,  observando-se a presença de dois poros genitais bilateralmente simétricos localizados na região  central do segmento (TROCCAP, 2019). 

2.5 Tratamento e controle 

A literatura evidencia que as parasitoses gastrointestinais em cães permanecem entre os  principais desafios da medicina veterinária preventiva, especialmente devido à persistência  ambiental dos agentes e ao risco zoonótico (RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022;  TRAVERSA, 2011). O contato direto com solo ou superfícies contaminadas, bem como a  manipulação de fezes de animais infectados, pode resultar na infecção de humanos,  principalmente crianças (FIGUEIREDO et al., 2005). 

O tratamento antiparasitário visa eliminar os agentes e reduzir a contaminação  ambiental, deve ser direcionado conforme o agente etiológico identificado e administrado de  acordo com a faixa etária e o peso do animal (TROCCAP, 2019). Anti-helmínticos como  pyrantel pamoato, febantel, fembendazol, milbemicina oxima e moxidectina são eficazes contra  a maioria dos nematoides, Ancylostoma spp. e Toxocara spp. (TAYLOR; COOP; WALL,  2017). Nos casos mais graves, a terapia anti-helmíntica deve ser combinada com terapia de suporte, como terapia com fluídos eletrólitos, transfusão de sangue ou suplementação de ferro,  para combater a anemia resultante da perda de sangue causada pela infecção (TROCCAP,  2019). 

No tratamento de protozoários, como Giardia duodenalis, o metronidazol e o  fembendazol são amplamente utilizados (FERREIRA; DESTRO, 2020). Como a reinfecção é  um problema comum, podem ser necessárias múltiplas intervenções terapêuticas para  erradicação do parasito. Adicionalmente, há relatos de que o uso de corticosteroides pode  induzir a reativação de infecções latentes (ETTINGER; FELDMAN; CÔTÈ, 2022). 

Em relação a Cryptosporidium spp., ainda não há uma terapia totalmente eficaz  disponível. O tratamento é sintomático e pode ser associado ao uso de antibióticos, como  azitromicina, nitazoxanida ou paromomicina, que apresentam atividade anticriptosporídica  (GREENE, 2015). 

As sulfonamidas são os fármacos de eleição para o tratamento de infecções por  Cystoisospora spp., em razão da ampla disponibilidade e da baixa toxicidade em comparação a  outros agentes (GREENE, 2015). 

Além do tratamento farmacológico, a prevenção das parasitoses gastrointestinais  depende da adoção de medidas sanitárias e profiláticas, como a vermifugação periódica, a  remoção diária das fezes, a higienização adequada dos ambientes — que devem ser mantidos  secos e bem ventilados — e o controle de ectoparasitas, especialmente pulgas. Em canis,  recomenda-se a limpeza diária com desinfetantes à base de amônia, visando à descontaminação  das instalações (TROCCAP, 2019). 

Para reduzir o risco de contaminação humana, é essencial reforçar os cuidados com a  qualidade da água de consumo, que deve ser tratada, filtrada e/ou fervida. Também são medidas  preventivas relevantes a higienização adequada das mãos e calçados, o cuidado no manuseio de  alimentos, o uso de luvas ao recolher fezes de animais e a limpeza regular dos ambientes  compartilhados entre cães e humanos (TROCCAP, 2019; MONTEIRO, 2018; CAMPOS, 2014;  GREENE, 2015). 

Portanto, o controle das parasitoses gastrointestinais em cães deve ser contínuo e  multidisciplinar, a fim de prevenir a transmissão de doenças, sobretudo as de potencial  zoonótico. Esse processo envolve a participação conjunta do médico-veterinário, dos tutores e  da comunidade. O diagnóstico precoce, o tratamento adequado e as medidas profiláticas são fundamentais para assegurar o bem-estar animal e proteger a saúde pública (TRAVERSA,  2011; RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022). 

3. METODOLOGIA  

O estudo foi realizado em um condomínio residencial, localizado no Bairro Vila  Antonieta, na Cidade de Guarulhos (SP), cuja edificação consiste em duas torres de 28 andares,  com 06 apartamentos por pavimento, totalizando 336 domicílios. O condomínio conta com área  específica para recreação de animais, “espaço pet”, e outras áreas verdes de uso comum, locais  onde ocorre maior concentração de cães e, consequentemente, maior possibilidade de  contaminação ambiental por fezes.  

Durante o período de 08 a 19 de junho de 2025, foi enviado ao grupo de moradores, via  aplicativo de mensagens (Whatsapp), um questionário online, elaborado por meio da plataforma  Google Forms, composto de questões relacionadas ao manejo sanitário, acesso a ambiente  externo, vermifugação, vacinação, controle de ectoparasitas e hábitos de convivência dos  animais.  

Essas informações foram compiladas em gráficos e utilizadas para correlacionar os fatores  de risco com os resultados laboratoriais, buscando compreender a influência dos cuidados  domiciliares na ocorrência de parasitos gastrointestinais.  

Os tutores que responderam ao questionário, e voluntariamente manifestaram interesse  na realização do exame coproparasitológico, receberam um coletor universal e instruções de  como coletar as fezes do animal. No momento da entrega dos coletores, foram anotados os  dados referentes ao sexo, raça e idade dos animais. 

As coletas foram realizadas pelos tutores, imediatamente após a evacuação, no período  de 20 a 27 de junho de 2025, totalizando treze amostras, constituindo-se uma amostragem por  conveniência. Os coletores foram devidamente identificados com os dados dos cães, data e hora  da coleta, e conservados sob refrigeração até a entrega ao laboratório parceiro.  

No laboratório, as amostras foram processadas no mesmo dia em que foram recebidas,  por meio das técnicas coproparasitológicas de Willis-Molay (1921) e de Faust et al. (1938),  metodologias amplamente utilizadas que permitem identificar ovos de helmintos e oocistos de  protozoários por meio de flutuação em soluções de densidade adequada (KATAGIRI, 2006;  SILVA et al., 2022).  

Em seguida, foram examinadas sob microscópio óptico e a identificação dos parasitos  foi realizada com base nas características morfológicas descritas por Taylor, Coop e Wall (2017) e Greene (2015), considerando tamanho, formato, coloração e presença de estruturas  internas. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A pesquisa teve como objetivo avaliar a prevalência de parasitos gastrointestinais em  cães domiciliados de um condomínio residencial no município de Guarulhos (SP),  correlacionando os resultados laboratoriais com as informações obtidas por meio de  questionário aplicado aos tutores. A análise conjunta dos dados permitiu compreender a  influência de fatores de manejo, hábitos de convivência e práticas higiênico-sanitárias na  ocorrência de parasitoses e na possível disseminação de agentes zoonóticos. 

Doze moradores responderam ao questionário e as respostas revelaram que os cães  residem dentro das unidades habitacionais, convivendo diretamente com os membros da  família, conforme demonstrado no Gráfico I. Essa convivência próxima reflete o vínculo afetivo  entre humanos e animais, mas também aumenta o risco de exposição a agentes zoonóticos,  especialmente quando não há rotina adequada de desparasitação e limpeza dos ambientes.  Segundo Tatibana e Costa-Val (2009), a relação homem-animal, quando não acompanhada de  medidas sanitárias adequadas, pode representar risco à saúde pública. 

Observou-se que todos os cães possuem acesso frequente às áreas externas do  condomínio, conforme indicado no Gráfico II, o que representa um fator de risco para  contaminação. O contato direto com o solo e a presença de fezes em locais compartilhados  favorecem a disseminação de formas infectantes de helmintos e protozoários. Heukelbach,  Oliveira e Feldmeier (2003) destacam que ambientes úmidos, sombreados e com grande  circulação de animais favorecem a sobrevivência de ovos e larvas, aumentando o potencial de infecção.

Um estudo realizado por Campos (2014), observou que os animais que defecam dentro  de casa têm uma probabilidade 1,8 vezes menor de serem infectados por parasitas  gastrointestinais do que aqueles que defecam na área externa da residência. Isso se deve ao fato  de que a adoção de medidas de higiene mais rigorosas na limpeza do local de defecação interna  diminui consideravelmente o risco de reinfecção do animal. 

Em relação às práticas de higiene, verificou-se que os tutores realizam a remoção das fezes  imediatamente após a defecação conforme ilustrado no Gráfico III. Essa medida é importante,  visto que o descarte tardio das fezes contribui para a contaminação ambiental, permitindo a  maturação de ovos e cistos e a perpetuação do ciclo de vida dos parasitos. Katagiri e Oliveira Sequeira (2007) ressalta que a higienização frequente das áreas de convivência é essencial  para reduzir a carga parasitária no ambiente urbano. 

A pesquisa de Campos (2014) mostrou que o hábito dos proprietários de recolherem as  fezes de seus animais é uma medida de proteção eficaz contra infecções parasitárias, visto que  cães cujos donos adotam essa prática têm cerca de 2,4 vezes mais chances de serem protegidos  contra o desenvolvimento de parasitoses, em comparação com aqueles cujos donos não a fazem.  Como as formas infectantes dos parasitas precisam de tempo no ambiente para se tornarem  viáveis para a infecção, a coleta diária das fezes diminui tanto a contaminação de seres humanos  quanto o risco de reinfecção dos cães após o tratamento com vermífugos.

No que se refere à vermifugação, observou-se que a maioria dos tutores realiza o  controle antiparasitário, porém de forma não padronizada, conforme evidenciado no Gráfico  IV. A irregularidade na administração dos vermífugos pode comprometer a eficácia do  tratamento e favorecer infecções recorrentes (TROCCAP, 2019; FARIAS et al., 2013). Além  disso, verificou-se que muitos tutores não associam o controle de endoparasitos ao de  ectoparasitas, o que é fundamental para evitar a transmissão de parasitos como Dipylidium  caninum (GREENE, 2015). 

O Gráfico V demonstra que aproximadamente um terço dos tutores relatou episódios de  diarreia em seus animais nos últimos meses. Essa manifestação clínica é um sintoma comum  em infecções por Ancylostoma spp., Giardia duodenalis e Cryptosporidium spp., que  comprometem a integridade da mucosa intestinal e podem provocar distúrbios gastrointestinais  de intensidade variável (FERREIRA; DESTRO, 2020; GREENE, 2015). 

Campos (2014) ressalta que a ausência de exames coproparasitológicos de rotina para  identificar infecções subclínicas incentiva o uso indiscriminado de anti-helmínticos de amplo  espectro. Tal prática, a longo prazo, pode levar ao desenvolvimento de resistência parasitária,  particularmente em relação aos princípios ativos mais frequentemente empregados. 

A análise coproparasitológica confirmou a presença de ovos e cistos em parte das  amostras avaliadas, como apresentado no Gráfico VI, indicando a exposição dos cães aos agentes pesquisados. A taxa de positividade encontrada é semelhante à observada por Farias et  al. (2013) e Ferraz et al. (2019), que relataram prevalências comparáveis em cães domiciliados  de diferentes regiões do Brasil. 

Entre os parasitos identificados, Ancylostoma spp. e Giardia duodenalis foram os mais  frequentes, conforme demonstrado no Gráfico VII. O primeiro é um helminto de grande  importância zoonótica, responsável pela enterite hemorrágica em cães e pela larva migrans cutânea em humanos (CDC, 2025; GREENE, 2015). Já a Giardia duodenalis é um protozoário  flagelado que causa diarreia intermitente e má absorção intestinal, mais comumente em cães  jovens e imunocomprometidos (FERREIRA; DESTRO, 2020; MARTINS, 2019), sendo  reconhecido como um dos parasitas mais frequentes em seres humanos e uma das principais  etiologias de diarreia não viral em humanos e animais (RIBEIRO; LIMA; KATAGIRI, 2022).

A morfologia típica dos ovos de Ancylostoma spp. e dos oocistos de Giardia duodenalis foi observada nas amostras analisadas conforme descrito por Taylor, Coop e Wall (2017) e  Martins (2019), respectivamente. Esses resultados são compatíveis com os obtidos por Ribeiro,  Lima e Katagiri (2022), que também verificaram a predominância desses dois agentes em cães  domiciliados. 

A associação entre a alta frequência de acesso às áreas externas e a positividade nas  amostras reforça o papel do ambiente como reservatório e fonte de reinfecção, uma vez que os ovos e cistos são altamente resistentes e capazes de sobreviver por longos períodos,  especialmente em locais úmidos e sombreados. Leão et al. (2020) e Snak et al. (2020)  constataram que animais mantidos em locais coletivos ou com solo exposto apresentam risco  significativamente maior de infecção por parasitos gastrointestinais, mesmo sob cuidados  regulares. 

Os resultados dos exames foram prontamente enviados aos tutores por aplicativo de  mensagens (WhatsApp) e, nos casos positivos, os tutores foram orientados a buscarem  atendimento veterinário e sugestão de tratamento. 

Todos os animais positivos já possuem acompanhamento veterinário, com protocolo  vacinal em dia, aliado ao uso de vermífugos e anti-pulgas e carrapatos. Junto a isso, os  responsáveis indicaram que os animais convivem no mesmo ambiente com crianças e idosos. 

O fato de os animais positivos apresentarem infecção parasitária, mesmo após  protocolos de vermifugação, corrobora o resultado observado por Campos (2014), que verificou  prevalência de 59% de parasitismo em cães, apesar de 81% dos tutores declararem realizar  vermifugação. Esse achado sugere o uso incorreto dos anti-helmínticos ou a ausência de  medidas de descontaminação ambiental, fatores que favorecem a reinfecção (SNAK et al.,  2020). 

Diante dos casos positivos identificados, foi realizado um acompanhamento individual.  A amostra positiva para Giardia spp. pertence a uma Yorkshire fêmea de 10 meses, adquirida  de um canil cerca de uma semana antes da coleta. Segundo Ferreira e Destro (2020), as  infecções por Giardia são mais prevalentes em filhotes devido à imaturidade imunológica,  sendo também comuns em animais de rua e de canis. Leão et al. (2020) relataram prevalência  de 71,68% de parasitos zoonóticos em cães de canis, com Giardia spp. representando 22,12%  das amostras positivas. A higienização e desinfecção adequadas das instalações são  fundamentais para prevenir a giardíase e evitar a contaminação do ambiente (FERREIRA;  DESTRO, 2020). Assim, a tutora foi orientada a comunicar o proprietário do canil sobre o  resultado, a fim de possibilitar medidas corretivas e tratamento dos demais animais do local. 

O segundo caso positivo foi de Ancylostoma spp., detectado em um cão da raça Border  Collie macho de quatro anos, com histórico de colite.  

Após três meses da divulgação dos resultados, os tutores foram novamente contatados  para acompanhamento da conduta terapêutica. Apesar da recomendação para consulta  veterinária, ambos optaram pela automedicação. O tutor do Border Collie relatou a administração de Fenzol Pet 500 mg (Fembendazol), enquanto a tutora da Yorkshire utilizou  Giardicid 50 mg (Metronidazol e Sulfadimetoxina). 

Visando avaliar a eficácia do tratamento, realizou-se nova coleta para exame  coproparasitológico. A cadela, da raça Yorkshire, passou por nova investigação clínica, com  coproparasitológico seriado em três amostras coletadas em dias alternados (30/09, 02/10 e  04/10/2025), todas negativas. Um quarto exame, realizado em 08/10/2025 também apresentou  resultado negativo, confirmando a eficácia do tratamento. De forma semelhante, o Border  Collie foi submetido a novo exame na mesma data e obteve resultado negativo, demonstrando a  eliminação do parasito e a efetividade da conduta adotada. 

Por fim, diante da relevância do tema e com base nos resultados obtidos, foi  desenvolvido um material educativo em formato digital, distribuído aos moradores do  condomínio, e um quadro informativo instalado no espaço pet. O objetivo dessas ações foi  conscientizar os tutores sobre a importância dos cuidados com os cães que frequentam áreas de  uso coletivo, destacando a necessidade de prevenção e controle das doenças parasitárias e a  redução dos riscos de transmissão a outros animais e humanos. 

Dessa forma, os resultados deste estudo reforçam que o controle efetivo das parasitoses  gastrointestinais requer não apenas o uso adequado de anti-helmínticos, mas também a  conscientização dos tutores e o manejo higiênico-ambiental apropriado. A atuação do médico veterinário é essencial como agente de orientação e educação em saúde, promovendo práticas  responsáveis que assegurem o bem-estar animal e humano (TATIBANA; COSTA-VAL, 2009;  TROCCAP, 2019). 

5. CONCLUSÃO 

O estudo permitiu identificar e analisar a ocorrência de parasitos gastrointestinais em  cães domiciliados residentes em um condomínio do município de Guarulhos (SP), evidenciando  que, mesmo em ambientes controlados e com tutores atentos à saúde de seus animais, as  infecções parasitárias ainda se fazem presentes. Os resultados obtidos demonstraram a presença  de Ancylostoma spp. e Giardia duodenalis como os principais agentes parasitários, ambos de  relevância zoonótica e amplamente distribuídos em ambientes urbanos. 

A correlação entre as respostas dos questionários e os resultados laboratoriais mostrou  que fatores como o acesso dos cães às áreas externas, a frequência irregular de vermifugação e  a variação nas práticas higiênico-sanitárias contribuem significativamente para a manutenção e  disseminação das parasitoses. Embora a maioria dos tutores realize medidas preventivas básicas, a ausência de padronização no uso de antiparasitários demonstram a necessidade de  maior conscientização. 

O acompanhamento dos casos positivos possibilitou compreender que a infecção pode  ocorrer mesmo em animais submetidos a protocolos de vermifugação e com cuidados regulares  de saúde. Esse achado reforça a importância do diagnóstico coproparasitológico periódico e da  adoção de medidas preventivas complementares, como a higienização ambiental e o controle  simultâneo de ectoparasitas, para interromper o ciclo de transmissão e evitar reinfecções. A  efetividade do tratamento nos dois casos acompanhados demonstrou que, quando corretamente  conduzido, o manejo terapêutico permite a eliminação completa dos parasitos. 

A experiência também ressaltou a relevância da atuação do médico-veterinário não  apenas como responsável pelo diagnóstico e tratamento, mas como agente de educação  sanitária. A elaboração e distribuição de materiais educativos no condomínio, aliadas à  instalação de um quadro informativo no espaço pet, contribuíram para a sensibilização dos  tutores quanto à importância dos cuidados preventivos e à responsabilidade compartilhada no  controle de zoonoses. 

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1Discente do Curso Superior em Medicina Veterinária da Universidade de Guarulhos, Campus Centro. e-mail:  elisa_zanoni@hotmail.com
2Docente do Curso Superior em Medicina Veterinária da Universidade de Guarulhos, Campus Centro. Doutor  em Imunopatologia Veterinária (Universidade Paulista). e-mail: aldoparasitologia@gmail.com