A UTILIZAÇÃO DE IMPLANTE ZIGOMÁTICO PARA REABILITAÇÃO DE MAXILA ATRÓFICA: UMA REVISÃO DE LITERATURA

THE USE OF ZYGOMATIC IMPLANT FOR REHABILITATION OF ATROPHIC MAXILLA: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510310333


Joseli Beatriz Oliveira Da Cruz¹
Bárbara Talita Da Silva Marçalo¹
Ryan Augusto Arruda De Oliveira¹
João José Cossatis²


Resumo

O avanço da idade está diretamente relacionado à perda óssea, especialmente nas regiões maxilares. A maxila, composta majoritariamente por osso trabecular, é menos densa e mais suscetível à reabsorção do que a mandíbula. Este estudo teve como objetivo revisar a literatura sobre a eficácia dos implantes zigomáticos (IZ) na reabilitação da maxila atrófica. A pesquisa foi realizada nas bases PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), utilizando descritores como “Atrophic Maxilla”, “Zygomatic Implants” e “Mouth Rehabilitation”, combinados com operadores booleanos “AND” e “OR”. Os IZ surgiram como alternativa eficaz para pacientes com atrofia maxilar severa. Três técnicas principais são descritas: intrasinusal (Brånemark, 1980), extrasinusal (Stella e Warner, 2000) e extramaxilar (2008). A evolução desses métodos busca reduzir complicações e melhorar o prognóstico. São indicados quando há insuficiência óssea para implantes convencionais, devido à pneumatização do seio maxilar, falhas em enxertos, necessidade de evitar morbidade cirúrgica ou após ressecções ósseas por tumores ou traumas. Entretanto, há contraindicações: absolutas, como infecções, patologias malignas e sinusite ativa; e relativas, como tabagismo, doenças sistêmicas descompensadas (diabetes, HIV) e falta de colaboração do paciente. Para minimizar falhas, é essencial um planejamento criterioso, com exames de imagem detalhados, especialmente tomografia computadorizada, e avaliação das condições locais e sistêmicas.

Conclui-se que os implantes zigomáticos, quando bem indicados, são uma excelente alternativa para reabilitação de maxilas atróficas, apresentando altas taxas de sucesso e resultados comparáveis aos implantes convencionais.

Palavras-chave: Maxila atrófica. Implantes zigomáticos. Reabilitação bucal.

1 INTRODUÇÃO

O avanço da idade está diretamente relacionado à perda óssea, especialmente nas regiões maxilares (TRULSSON et al., 2002). O osso maxila é formado, majoritariamente, por osso trabecular, um osso menos denso e mais susceptível à reabsorção óssea se comparado à mandíbula. Essa característica apresenta um dos maiores desafios para a reabilitação oral dessa região, especialmente quando a reabilitação envolve o uso de implantes (PAREL et al., 2001; RAO et al., 2021).

Per-Ignvar Brånemark foi um dos autores que mais estudou o uso dos implantes dentários. Ele percebeu que, para os implantes terem sucesso, precisariam obter uma união direta entre o osso e a superfície dos implantes, sem a interposição de tecido fibroso, ou seja, um processo denominado osseointegração (BRÅNEMARK et al., 2001). Além disso, o autor estudou diversos tipos de materiais que poderiam ser utilizados para os implantes e o que mais obteve uma osseointegração e biocompatibilidade, além de resistência mecânica, sendo capaz de suportar as cargas e forças mastigatórias, foi o titânio (GOKER et al., 2020; NAVE & QUERALT, 2020).

No entanto, quando a ausência de estrutura óssea remanescente no local da colocação dos implantes, como maxilas atróficas, isso pode comprometer a estabilidade deles e, consequentemente, o sucesso do tratamento (MARQUES et al., 2015; GOKER et al., 2022). Sendo assim, com intuito de contornar esse desafio da atrofia maxilar, diversas técnicas de enxertia óssea têm sido aplicadas, como a regeneração óssea guiada, enxertos em bloco, elevação do seio maxilar, enxertos no assoalho nasal, técnicas inlay e onlay, além da técnica split-crest (ALMEIDA et al., 2018; WANG et al., 2018).

No entanto, embora eficazes em muitos casos, esses procedimentos apresentam desvantagens e limitações, como tempo prolongado de tratamento, necessidade de múltiplas intervenções cirúrgicas e maior risco de insucesso, além de fatores como a idade, diabetes e pacientes imunossuprimidos que podem dificultar ainda mais o sucesso do tratamento (JACKSON & LOTLIKAR, 2024; MOLINA et al., 2021).

Em busca de alternativas para enfrentar a dificuldade de atrofia da região maxila, o pesquisador Brånemark apresentou, no ano de 1990, uma solução inovadora: o implante zigomático (BRÅNEMARK, 1998). Essa técnica surgiu como uma alternativa viável, principalmente em casos de maxilas atróficas, seja devido ao envelhecimento natural do paciente ou à necessidade de ressecções decorrentes de lesões (BRÅNEMARK et al., 2004).

Os implantes zigomáticos (IZ) possuem um comprimento superior ao dos implantes convencionais e podem variar entre 30 e 62,5 mm. Eles são ancorados no osso zigomático, conhecido por sua alta densidade cortical e baixa taxa de reabsorção, mesmo em pacientes idosos (CARVALHO et al., 2011; HIRSCH et al., 2004).

A primeira técnica que surgiu foi a intrasinusal dos IZ, descrita por Brånemark, sendo essa a original. Após alguns anos, a mesma foi aprimorada, dando lugar a outras como extrasinusal e, posteriormente, extramaxilar, a qual é uma variação da extrasinusal. Essa mudança ocorreu porque o protocolo original estava associado a efeitos colaterais inflamatórios e à emergência palatina com angulação excessiva da cabeça do implante, o que dificultava a reabilitação protética (MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006; BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013).

A cirurgia do implante de zigomático é, em sua maioria, realizada em ambiente hospitalar, sob anestesia geral, garantindo maior conforto e segurança ao paciente. No entanto, estudos recentes demonstram a viabilidade da realização em ambiente ambulatorial, com o uso de sedação consciente e anestesia local (AGLIARDI et al., 2017; ALMEIDA et al., 2017).

Diversas pesquisas indicam que os implantes zigomáticos apresentam altas taxas de sucesso e boa aceitação por parte dos pacientes, especialmente quando associados a protocolos de carga imediata (FERNÁNDEZ-RUIZ et al., 2021; ABDEL-RAHMAN et al., 2024). Atualmente, os avanços tecnológicos são cada vez mais utilizados em cirurgias. As técnicas cirúrgicas assistidas por computador, como o CAD/CAM (Computer Aided Design/Computer Aided Manufacturing) e a CAS (Computer Aided Surgery), novas abordagens têm sido incorporadas à prática clínica. Inicialmente utilizadas na cirurgia protética oral, essas tecnologias se consolidaram, nas últimas décadas, como ferramentas valiosas para reconstruções craniofaciais complexas (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023).

Apesar dos avanços, a técnica ainda apresenta desafios transoperatórios, como sangramentos excessivos, dificuldade de visualização e a presença de estruturas anatômicas nobres próximas ao trajeto do implante, e complicações pós-operatórias que incluem sinusite, infecções, comprometimento do nervo infraorbitário, fístulas orofaciais, além de queixas relacionadas à fonética e à adaptação protética (APARICIO et al., 2020; JACKSON & LOTLIKAR, 2024).

Portanto, embora alguns estudos de acompanhamento apresentem resultados satisfatórios, ainda há limitações e complicações que reforçam a necessidade de mais pesquisas sobre o tema. O trabalho tem como objetivo realizar um levantamento bibliográfico sobre a eficácia da utilização de implantes zigomáticos na reabilitação da maxila atrófica, suas vantagens e limitações.

2 METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura fundamentada em estudos que buscam avaliar a utilização de implante zigomático para reabilitação de maxila atrófica.

Nesse estudo, foi realizado o levantamento bibliográfico na base de dados PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) para seleção dos artigos. Além disso, foram utilizados descritores específicos (DeCS/MeSH), em inglês e português: “Atrophic Maxilla” / “Maxila atrófica”, “zygomatic implants” / “Implantes de zigomático” e “Mouth Rehabilitation” / “Reabilitação bucal” para padronização da busca em diferentes bases de dados. Ademais, também foram utilizados os operadores booleanos “AND” e “OR” para melhorar a estratégia de pesquisa por meio de combinações.

Para seleção dos artigos, o presente estudo sistematizou critérios de inclusão e exclusão. Os critérios de inclusão para esta revisão de literatura foram: estudos transversais, longitudinais, comparativos e/ou ensaios clínicos randomizados ou não, e relatos de casos, sendo todos realizados em humanos. Os estudos selecionados apresentaram diferentes idiomas, sendo tanto estudos em inglês quanto em português, sendo todos os textos completos que abordam a utilização de implantes zigomáticos. Já, como critérios de exclusão, foram descartadas revisões de literatura, revisões sistemáticas com ou sem meta-análise e estudos em animais.

Após a leitura dos títulos e resumos identificados nas bases de dados PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e (BVS), os estudos que preenchessem os critérios de inclusão foram selecionados e lidos na íntegra.

Além disso, os estudos foram avaliados de forma a identificar as principais informações e sintetizar de forma clara e objetiva seus resultados. A princípio, para organizar as informações dos artigos selecionados, foi realizada uma simples tabela a fim de obter as informações sobre cada estudo e organizar os tópicos discutidos nesse estudo.

Logo após, o presente estudo obteve os dados sobre os artigos selecionados e buscou avaliar de forma crítica e imparcial, avaliando todos os estudos de forma singular. Os principais tópicos abordados no estudo foram: principais indicações, contraindicações, técnicas cirúrgicas, benefícios e possíveis complicações dos implantes zigomáticos.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A qualidade e expectativa de vida da população têm aumentado ao longo dos anos; não obstante, a odontologia tem cada vez mais se moldado para melhorar os tratamentos odontológicos. Atualmente, os implantes dentários em zigoma para pacientes com atrofia maxilar apresentam uma opção estratégica para alcançar resultados satisfatórios. Pacientes edêntulos passam por diversas dificuldades em sua vida; a mastigação, fonética e estética são só alguns dos demais desafios que esses indivíduos enfrentam.

Quantas às técnicas cirúrgicas, alguns trabalhos evidenciaram uma grande evolução nas técnicas. Os implantes zigomáticos, técnicas como intrasinusal, extrasinusal e extramaxilar foram as que mais ganharam destaque nesse método (MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006; BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013). Vale ressaltar que a estabilidade primária dos implantes é fundamental para o sucesso da osseointegração, devendo-se obter torque de inserção entre 35 e 60N (GOKER et al., 2020; NAVE & QUERALT, 2020). Além disso, o fechamento dos tecidos moles deve ser realizado de forma adequada para prevenir exposição do implante e facilitar a cicatrização (APARICIO et al., 2020; JACKSON & LOTLIKAR, 2024).

Primeiramente, o conhecimento anatômico e aprofundado sobre as estruturas é essencial para o cirurgião executar de forma precisa e cuidadosa a técnica (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023). A realização desse tipo de procedimento, tradicionalmente, é em ambiente hospitalar, embora alguns estudos mostrem que é possível ser executada em ambulatório com sedação consciente em alguns casos (AGLIARDI et al., 2017; ALMEIDA et al., 2017). Vale ressaltar que o planejamento pré-operatório é de suma importância para uma boa execução cirúrgica. A utilização de exames radiográficos detalhados, como a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC), é um dos exames principais para realizar um bom planejamento. Isso se deve ao fato de que a TCFC permite uma visualização de forma clara, principalmente das estruturas nobres, como nervos e artérias (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023). Além disso, o uso de tecnologias assistidas por computador, como CAD/CAM e navegação cirúrgica, vem sendo cada vez mais utilizado pela otimização do planejamento, além de apresentar uma execução promissora na área (WANG et al., 2018).

3.1 Tipos de técnica cirúrgica

Atualmente, ainda não há um consenso sobre a técnica ideal para realização dos implantes zigomáticos, principalmente em relação ao grau da ancoragem óssea e à inclinação dos implantes (APARICIO et al., 2006).

A técnica intrasinusal original foi a primeira desenvolvida para a colocação de implantes zigomáticos, descrita por Brånemark em 1980. Ela consiste na realização, por meio de uma incisão crestal, ou seja, um corte realizado sobre a crista do rebordo alveolar, com extensão bilateral até a região do primeiro molar superior. Após a incisão, é feito um deslocamento amplo mucoperiosteal a fim de obter a visualização da parede anterior do seio. Então, o acesso é realizado por meio de osteotomia na parede do seio, o que permite uma visualização direta da cavidade sinusal. Por fim, a perfuração óssea é iniciada na região do primeiro pré-molar superior com a broca helicoidal de 2,9mm, em direção no sentido póstero-superior, por meio do seio maxilar, até que alcance o osso zigomático. O preparo cirúrgico é realizado com brocas progressivas sob irrigação constante de soro fisiológico e, ao final, o implante zigomático é inserido, sendo ancorado apicalmente no osso zigomático e cervicalmente na crista alveolar, com a instalação do cicatrizador para o fechamento (BRÅNEMARK, 1998; BRÅNEMARK et al., 2004; CARVALHO et al., 2011; HIRSCH et al., 2004).

A segunda técnica desenvolvida foi a extrasinusal, em 2000, por Stella e Warner, que tem como característica a preservação da integridade da membrana de Schneider, o que reduz o risco de complicações sinusais (MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006; STELLA & WARNER, 2000). Essa técnica, o implante é posicionado lateralmente ao seio maxilar, surgindo em posição mais vestibular, o que proporciona uma melhor angulação protética. A perfuração para colocação do implante é realizada na parede lateral da maxila e segue um trajeto externo ao seio maxilar até o osso zigomático (MIGLIORANÇA et al., 2006; BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013).

Em 2008, a técnica extramaxilar representa uma evolução adicional, com o posicionamento dos implantes completamente externo às estruturas maxilares (BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013). A abordagem busca tende a minimizar mais as complicações relacionadas ao seio maxilar e pode oferecer emergência protética mais favorável, o que facilita a reabilitação posteriormente ao paciente (MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006; BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013).

3.2 Indicações e contraindicações

Indicação dos implantes zigomáticos

Os implantes zigomáticos têm como indicação primária pacientes que não possuem osso suficiente na região maxila para colocação de implantes (TRULSSON et al., 2002; PAREL et al., 2001; RAO et al., 2021). Existe uma classificação para denominar uma maxila atrófica; há indicação de implantes zigomáticos quando o remanescente ósseo é inferior a 5-7mm (BRÅNEMARK et al., 2004; CARVALHO et al., 2011).

Além disso, pacientes que foram submetidos a maxilectomia por algum tipo de neoplasia ou que precisaram realizar uma ressecção em uma grande área ou até mesmo áreas submetidas ao traumatismo extenso também constituem uma das indicações para o uso de implantes zigomáticos (JACKSON & LOTLIKAR, 2024; MOLINA et al., 2021; JACKSON & LOTLIKAR, 2024).

O processo de pneumatização do seio maxilar pode apresentar uma reabsorção óssea alveolar, consolidando assim uma indicação para uso de implantes zigomáticos. Isso acontece quando há perda dos elementos dentários posterior, o osso alveolar é absorvido ao longo do tempo, o que faz com que o seio fique mais próximo da linha cortical e impeça a realização da técnica tradicional no rebordo alveolar (PAREL et al., 2001; RAO et al., 2021; ALMEIDA et al., 2018; WANG et al., 2018).

Outras situações que podem ser indicadas são a ineficácia de tratamentos prévios com enxertos ósseos ou elevação de seio maxilar (JACKSON & LOTLIKAR, 2024; MOLINA et al., 2021). A falha dessas técnicas de enxertia regenerativas convencionais pode ser contornada por meio da ancoragem dos implantes em zigoma, a qual independe do osso maxila (MARQUES et al., 2015; GOKER et al., 2022). Algumas situações em que deseja evitar a morbidade associada aos enxertos ósseos autógenos ou quando o paciente possui alguma comorbidade sistêmica, os implantes em zigoma podem apresentar uma solução com menos tempo de tratamento e sem necessidade de múltiplas intervenções cirúrgicas (AGLIARDI et al., 2017; ALMEIDA et al., 2017; FERNÁNDEZ-RUIZ et al., 2021; ABDEL-RAHMAN et al., 2024).

Contraindicação dos implantes zigomáticos

As contraindicações dos implantes zigomáticos devem ser consideradas, avaliando os fatores locais e sistêmicos dos pacientes. Elas podem ser classificadas em absolutas e relativas e podem comprometer o sucesso do tratamento (APARICIO et al., 2020; JACKSON & LOTLIKAR, 2024).

A respeito das contraindicações absolutas, pode-se destacar como fatores locais as infecções agudas não controladas, alterações anatômicas severas no complexo zigomático-maxilar e patologias malignas. Além disso, quando há presença de sinusite aguda ou crônica não tratadas, também constitui uma contraindicação temporária até que consiga reverter o quadro (NAVE & QUERALT, 2020; JACKSON & LOTLIKAR, 2024; MOLINA et al., 2021).

Algumas condições clínicas podem influenciar diretamente o prognóstico do procedimento e, em determinados casos, configurar contraindicações absolutas ou relativas, como ocorre nas doenças sistêmicas descompensadas. A diabetes mellitus não controlada, a osteoporose severa e os distúrbios de coagulação são exemplos em que deve haver uma avaliação criteriosa da relação risco-benefício do paciente (JACKSON & LOTLIKAR, 2024; MOLINA et al., 2021). Além disso, pacientes em uso de bisfosfonatos ou submetidos à radioterapia em região de cabeça e pescoço exigem avaliação minuciosa e especializada, uma vez que tais condições comprometem os processos de cicatrização e remodelação óssea (JACKSON & LOTLIKAR, 2024).

Indivíduos tabagistas que fazem uso superior a 10 cigarros por dia também constituem um fator de risco significativo, sendo assim considerada uma contraindicação relativa à colocação de implantes. O cirurgião-dentista deve alertar os pacientes tabagistas para que parem de fumar pelo menos 2 semanas antes da cirurgia e mantenham a abstinência durante todo o período da cicatrização (ALMEIDA et al., 2017; APARICIO et al., 2020).

No mais, e não menos importante, uma das condições que podem configurar como contraindicação para colocação de implantes é a cooperação dos pacientes em relação à higienização. Indivíduos que não conseguem manter o equilíbrio entre o biofilme têm que realizar intrusão de higiene oral até que consigam obter resultados satisfatórios (BRACKMANN et al., 2017; FERNÁNDEZ-RUIZ et al., 2021; ABDEL-RAHMAN et al., 2024).

Portanto, é indubitável uma avaliação detalhada da tomografia para analisar se o paciente tem limitação anatômica considerável, como volume inadequado do osso zigomático ou até mesmo alguma proximidade com outras estruturas nobres (WANG et al., 2018; BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023).

3.3 Taxa de sobrevivência dos implantes zigomáticos

Os achados desta revisão confirmam a elevada eficácia dos implantes zigomáticos como alternativa viável na reabilitação de maxilas com atrofia severa (GOKER et al., 2020; NAVE & QUERALT, 2020; MARQUES et al., 2015; GOKER et al., 2022). As taxas de sobrevivência relatadas, variando de 95% a 100%, aproximam-se dos índices observados em implantes convencionais instalados em osso de boa qualidade (NAVE & QUERALT, 2020; MARQUES et al., 2015). É importante, contudo, interpretar esses resultados considerando o contexto: trata-se de uma solução indicada para cenários anatômicos altamente desafiadores, nos quais técnicas convencionais deixam de ser aplicáveis (TRULSSON et al., 2002; PAREL et al., 2001; RAO et al., 2021).

A superioridade dos protocolos de carga imediata observada nos estudos analisados representa um achado de destaque, com implicações clínicas diretas (AGLIARDI et al., 2017; ALMEIDA et al., 2017; FERNÁNDEZ-RUIZ et al., 2021; ABDEL-RAHMAN et al., 2024). Tal benefício pode estar relacionado ao efeito estabilizador da prótese, que reduz a micromovimentação dos implantes durante o processo de osseointegração (BRÅNEMARK et al., 2001). Além disso, a carga imediata confere vantagens psicossociais relevantes, ao evitar o período de edentulismo e proporcionar restauração funcional imediata (ALMEIDA et al., 2017; FERNÁNDEZ-RUIZ et al., 2021; ABDEL-RAHMAN et al., 2024).

3.4 Evolução das técnicas cirúrgicas

A evolução das técnicas de instalação de implantes zigomáticos demonstra uma tendência clara de redução da morbidade associada ao procedimento (BRÅNEMARK, 1998; BRÅNEMARK et al., 2004; CARVALHO et al., 2011; HIRSCH et al., 2004; MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006; BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013). A técnica intrasinusal, embora pioneira, apresentava desvantagens importantes, como emergência protética excessivamente palatina e maior risco de complicações sinusais (BRÅNEMARK, 1998; BRÅNEMARK et al., 2004). O desenvolvimento da abordagem extrasinusal trouxe um avanço significativo, possibilitando melhor posicionamento protético e menor impacto sobre o seio maxilar (MALÓ et al., 2008; MIGLIORANÇA et al., 2006). Posteriormente, as técnicas extramaxilares surgiram como refinamento adicional, permitindo maior individualização da abordagem cirúrgica de acordo com a anatomia do paciente (BRACKMANN et al., 2017; MALÓ et al., 2013). Entretanto, essas técnicas exigem experiência avançada e uma curva de aprendizado mais extensa, representando um desafio adicional para o cirurgião (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023).

3.5 Tecnologias assistidas por computador

O uso de tecnologias digitais no planejamento e na execução das cirurgias marcou um avanço importante para a previsibilidade dos resultados (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023). Recursos como CAD/CAM e sistemas de navegação cirúrgica permitem visualização tridimensional detalhada da anatomia e planejamento preciso da trajetória dos implantes (WANG et al., 2018). A navegação em tempo real, em particular, mostrou-se útil em casos de maior complexidade anatômica, reduzindo o risco de danos a estruturas críticas (BOLZONI et al., 2023; BHALERAO et al., 2023).

Apesar disso, ainda faltam estudos comparativos que quantifiquem de forma objetiva os reais benefícios dessas tecnologias na redução de complicações ou na melhoria dos desfechos clínicos (WANG et al., 2018). Também é necessário considerar o elevado custo dos equipamentos e a demanda por treinamento especializado para sua implementação (BOLZONI et al., 2023).

3.6 Limitações da literatura atual

A avaliação crítica da literatura disponível evidencia limitações metodológicas que comprometem a solidez da evidência (APARICIO et al., 2020; JACKSON & LOTLIKAR, 2024). Entre elas, destacam-se a heterogeneidade dos critérios de sucesso, a variabilidade no tempo de acompanhamento e a ausência de grupos controle adequados, fatores que dificultam a comparação entre os estudos (GOKER et al., 2020; NAVE & QUERALT, 2020; MARQUES et al., 2015; GOKER et al., 2022). Além disso, muitos trabalhos deixam de relatar de maneira sistemática a ocorrência de complicações, o que pode levar à subestimação de sua real frequência (NAVE & QUERALT, 2020).

Outro ponto relevante é a escassez de ensaios clínicos randomizados que comparem implantes zigomáticos com outras modalidades de reconstrução da maxila, constituindo uma lacuna significativa na literatura científica (TRULSSON et al., 2002; PAREL et al., 2001; RAO et al., 2021). Ensaios desse tipo seriam fundamentais para embasar diretrizes clínicas mais sólidas acerca das indicações ideais de cada técnica (APARICIO et al., 2020).

4 CONCLUSÃO

Portanto, o presente estudo conclui que os implantes zigomáticos é uma excelente opção, quando indicado, para reabilitar pacientes com maxilas atróficas, apresentando altas taxas de sobrevivência entre 95% a 98%, semelhantes ou até superiores às dos implantes convencionais em alguns casos. A evolução das técnicas ao longo dos anos como a intrasinusal para as abordagens extrasinusais e ZAGA, fez com que reduzisse significativamente as complicações, como parestesia e sinusite, além de proporcionar um melhor pós-operatório para os pacientes e aumentando o prognóstico dos tratamentos.

O protocolo de carga imediata mostrou melhores resultados do que o de carga tardia, proporcionando maior taxa de sobrevivência e qualidade de vida, já que o paciente não fica em período edêntulo. As complicações mais comuns são sinusite, infecção de tecidos moles e parestesia, geralmente ocorrendo nos primeiros 6 meses. Apesar dos bons resultados, ainda faltam ensaios clínicos robustos e padronizados. Assim, a indicação deve ser feita com cautela, considerando fatores anatômicos, sistêmicos e a expertise técnica do profissional.

REFERÊNCIAS

ABDEL-RAHMAN, F. H.; HEGAZY, S. A.; NAGIB, M. A.; IBRAHIM, A. M.; HABIB, A. Evaluation of Quality of Life and Satisfaction with Fixed Prostheses on Zygomatic Implants vs All-on-Four Concept: A Randomized Clinical Study. The Journal of Contemporary Dental Practice, v. 25, n. 2, p. 141-147, 2024.

AGLIARDI, E. L.; ROMEO, D.; PANIGATTI, S.; DE ARAÚJO NOBRE, M.; MALÓ, P. Immediate full-arch rehabilitation of the severely atrophic maxilla supported by zygomatic implants: a prospective clinical study with minimum follow-up of 6 years. International Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 46, n. 12, p. 1592-1599, 2017.

ALMEIDA, P. H. T.; CACCIACANE, S. H.; FRANÇA, F. M. G. Stresses generated by two zygomatic implant placement techniques associated with conventional inclined anterior implants. Annals of Medicine and Surgery, v. 30, p. 22-27, 2018.

ALMEIDA, P. H. T.; SALVONI, A. D.; FRANÇA, F. M. G. Evaluation of satisfaction of individuals rehabilitated with zygomatic implants as regards anesthetic and sedative procedure: A prospective cohort study. Annals of Medicine & Surgery, v. 22, p. 22-29, 2017.

APARICIO, C.; LÓPEZ-PIRIZ, R.; ALBREKTSSON, T. ORIS Criteria of Success for the Zygoma-Related Rehabilitation: The (Revisited) Zygoma Success Code. The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 35, n. 2, p. 366-378, 2020.

APARICIO, C.; OUAZZANI, W.; GARCIA, R.; AREVALO, X.; GRANADOS, C.; PLANELL, J. A. A prospective clinical study on titanium implants in the zygomatic arch for prosthetic rehabilitation of the atrophic edentulous maxilla with a follow-up of 6 months to 5 years. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 8, n. 3, p. 114-122, 2006.

BHALERAO, A.; MARIMUTHU, M.; WAHAB, A.; AYOUB, A. Flapless placement of zygomatic implants using dynamic navigation: an innovative technical note. The British Journal of Oral & Maxillofacial Surgery, v. 61, n. 2, p. 136-140, 2023.

BOLZONI, A. R.; ZINGARI, F.; GALLO, F.; GOKER, F.; BERETTA, P.; DEL FABBRO, M., et al. Zygomatic implant guided rehabilitation based on inverted support technique: a pilot study. PubMed, v. 27, n. 3 Suppl, p. 77-91, 2023.

BRACKMANN, M. S.; VIEIRA, R.; RIBEIRO JÚNIOR, P. D.; SARTORI, I. A. M.; PADOVAN, L. E. M. Avaliação da satisfação de reabilitações com implantes zigomáticos. Revista de Odontologia da UNESP, v. 46, n. 6, p. 357-361, 2017.

BRÅNEMARK, P. I. Zygomaticus fixtures for rehabilitation of the severely resorbed maxilla: patient and clinician benefits. Periodontology 2000, v. 17, n. 1, p. 203-210, 1998.

BRÅNEMARK, P.; GRONDAHL, K.; WORTHINGTON, P. Osseointegration and autogenous onlay bone grafts: reconstruction of the edentulous atrophic maxilla. Kimberly Drive: Quintessence, 2001.

BRÅNEMARK, P.; GRÖNDAHL, K.; ÖHRNELL, L.; NILSSON, P.; PETRUSON, B.; SVENSSON, B., et al. Fixação de zigoma no tratamento de atrofia avançada da maxila: técnica e resultados a longo prazo. Scandinavian Journal of Plastic and Reconstructive Surgery and Hand Surgery, v. 38, n. 2, p. 70-85, 2004.

CARVALHO, A. M.; TAVARES, A. M.; SARMENTO, V. A.; VALENÇA, A. M. G. Reabilitação de maxilas atróficas com implantes zigomáticos: relato de casos. Revista Brasileira de Ciências da Saúde, v. 15, n. 2, p. 281-286, 2011.

FERNÁNDEZ-RUIZ, J. A.; SÁNCHEZ-SILES, M.; GUERRERO-SÁNCHEZ, Y.; PATO-MOURELO, J.; CAMACHO-ALONSO, F. Evaluation of Quality of Life and Satisfaction in Patients with Fixed Prostheses on Zygomatic Implants Compared with the All-on-Four Concept: A Prospective Randomized Clinical Study. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 7, p. 3426, 2021.

GOKER, F.; GRECCHI, E.; DEL FABBRO, M.; GRECCHI, F. Clinical outcome of 302 zygomatic implants in 110 patients with a follow‐up between 6 months and 7 years. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 22, n. 3, p. 415-423, 2020.

GOKER, F.; GRECCHI, F.; GRECCHI, E.; DEL FABBRO, M.; AGLIARDI, E. L.; BUCCELLATO, F. R. P., et al. Clinical outcomes of fully and partially threaded zygomatic implants in a cohort of patients with minimum 7.5-year follow-up. European Review for Medical and Pharmacological Sciences, v. 26, n. 3 Suppl, p. 35-44, 2022.

HIRSCH, J. M.; ÖHRNELL, L. O.; HENRY, P. J.; ANDREASSON, L.; BRÅNEMARK, P. I.; CHIAPASCO, M., et al. A clinical evaluation of the zygoma fixture: One year of follow-up at 16 clinics. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 62, p. 22-29, 2004.

JACKSON, D. C.; LOTLIKAR, P. P. Zygomatic implant on a severely resorbed maxillary arch in a HIV positive patient. Considerations in medical work up and treatment planning: A case report. Oral and Maxillofacial Surgery Cases, v. 10, n. 2, p. 100350, 2024.

MALÓ, P.; DE ARAÚJO NOBRE, M.; LOPES, A.; FERRO, A.; MOSS, S. Extramaxillary Surgical Technique: Clinical Outcome of 352 Patients Rehabilitated with 747 Zygomatic Implants with a Follow-Up between 6 Months and 7 Years. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 17, p. e153-e162, 2013.

MALÓ, P.; DE ARAÚJO NOBRE, M.; LOPES, A.; FRANCISCHONE, C. The extra-maxillary surgical approach for placement of zygomatic implants: a prospective clinical report. International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 23, n. 5, p. 947-952, 2008.

MARQUES, E.; PAULO; DE, A.; GENINHO THOMÉ; ELISA MATTIAS SARTORI; UHLENDORF, J. Multiple Zygomatic Implants as an Alternative for Rehabilitation of the Extremely Atrophic Maxilla: A Case Letter With 55 Months of Follow-Up. Journal of Oral Implantology, v. 41, n. 1, p. 97-100, 2015.

MIGLIORANÇA, R. M.; STELLA, J. P.; VERRI, F. R.; DE MELLO, C. C. A modified technique for zygomatic implants: the extrasinus approach. International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 21, n. 6, p. 977-984, 2006.

MOLINA, G.; MAZZEY, G.; CORONADO, C. Surgical and prosthetic management of a severely atrophic maxilla, using nasal and sinus lifts along with incisive canal implants. A case report. Oral and Maxillofacial Surgery Cases, v. 7, n. 1, p. 100210, 2021.

NAVE, P.; QUERALT, A. Zygomatic Implants for the Rehabilitation of Atrophic Maxillae: A Retrospective Study on Survival Rate and Biologic Complications of 206 Implants with a Minimum Follow-up of 1 Year. The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 35, n. 6, p. 1177-1186, 2020.

PAREL, S. M.; BRÅNEMARK, P. I.; OHRNELL, L. O.; SVENSSON, B. Remote implant anchorage for the rehabilitation of maxillary defects. The Journal of Prosthetic Dentistry, v. 86, n. 4, p. 377-381, 2001.

RAO, S.; DEEPAKK SANGOLIKAR; MISHRA, S.; CHOWDHARY, R. Rehabilitation of Severe Atrophic Ridges with Zygomatic Implant and/or All-on-4 Treatment Concepts—A Case Series. Nigerian Journal of Clinical Practice, v. 24, n. 9, p. 1410-1413, 2021.

STELLA, J. P.; WARNER, M. R. Sinus slot technique for simplification and improved orientation of zygomaticus dental implants: a technical note. International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 15, n. 6, p. 889-893, 2000.

TRULSSON, U.; ENGSTRAND, P.; BERGGREN, U.; NANNMARK, U.; BRÅNEMARK, P. I. Edentulismo e reabilitação oral: experiências da perspectiva dos pacientes. European Journal of Oral Sciences, v. 110, n. 6, p. 417-424, 2002.

WANG, F.; BORNSTEIN, M. M.; HUNG, K.; FAN, S.; CHEN, X.; HUANG, W., et al. Application of Real-Time Surgical Navigation for Zygomatic Implant Insertion in Patients With Severely Atrophic Maxilla. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 76, n. 1, p. 80-87, 2018.


¹ Discente do Curso de Odontologia da Universidade do Grande Rio “Professor José de Souza Herdy”.
² Docente do Curso de Odontologia da Universidade do Grande Rio “Professor José de Souza Herdy”.

Rolar para cima