REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511102158
Renata Lirias1
Ana Lívia Trolesi Jarduli1
Jéssica Amâncio2
Lívia Maria Ribeiro Rosário2
Pablo Miranda Andrade2
Cintia Aline Martins2
Resumo
O presente estudo teve como objetivo analisar e comparar a prevalência da incontinência urinária (IU) em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates, avaliando a influência dessa modalidade de exercício sobre a força e funcionalidade do assoalho pélvico. Trata-se de um estudo transversal, observacional, comparativo e quantitativo, realizado com 55 mulheres adultas, divididas em dois grupos: praticantes de Pilates há pelo menos três meses (n=26) e não praticantes (n=29). A coleta de dados foi conduzida entre maio e agosto de 2025, utilizando um questionário estruturado para caracterização da amostra e o International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF), instrumento validado para o português, para mensurar a gravidade e o impacto da IU. Os resultados mostraram que a frequência (p=0,15), a gravidade (p=0,16) e o impacto dos sintomas (p=0,57) não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, embora as praticantes de Pilates tenham apresentado menores médias em todos os domínios avaliados. Observou-se ainda que o grupo praticante apresentou maior nível de escolaridade (p=0,00) e menor número de partos (p=0,02), fatores que podem atuar como variáveis protetoras. Conclui-se que, embora não tenham sido observadas diferenças estatísticas, a prática regular de Pilates demonstrou tendência favorável à manutenção da continência urinária e à saúde do assoalho pélvico, podendo ser considerada uma estratégia preventiva relevante na Fisioterapia e na Saúde da Mulher.
Palavras-chave: Incontinência Urinária; Pilates; Assoalho Pélvico; Prevalência; Saúde da Mulher.
Abstract
This study aimed to analyze and compare the prevalence of urinary incontinence (UI) in women who practice and do not practice Pilates, assessing the influence of this exercise modality on pelvic floor strength and functionality. This was a cross-sectional, observational, comparative, and quantitative study conducted with 55 adult women, divided into two groups: Pilates practitioners for at least three months (n=26) and non-practitioners (n=29). Data collection was carried out between May to August 2025 using a structured questionnaire for participant characterization and the International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF), validated for Portuguese, to measure UI severity and impact. Results showed no statistically significant differences between groups regarding frequency (p=0.15), severity (p=0.16), or impact (p=0.57) of symptoms, although Pilates practitioners presented lower mean scores in all evaluated domains. The practitioner group also demonstrated a higher education level (p=0.00) and fewer childbirths (p=0.02), which may act as protective variables. It is concluded that, although no significant differences were observed, regular Pilates practice showed a favorable tendency toward maintaining urinary continence and pelvic floor health, suggesting it as a relevant preventive strategy in Physiotherapy and Women’s Health.
Keywords: Urinary Incontinence; Pilates; Pelvic Floor; Prevalence; Women’s Health.
1. INTRODUÇÃO
A Incontinência Urinária (IU) é uma condição prevalente que afeta a saúde física, psicológica e social de milhões de mulheres em todo o mundo, comprometendo atividades diárias, autoestima e qualidade de vida. Definida como a perda involuntária de urina, sua ocorrência está associada a múltiplos fatores de risco, como envelhecimento, obesidade, multiparidade, menopausa, tabagismo e cirurgias ginecológicas (MACÊDO; CARVALHO, 2024). Estima-se que entre 25% e 45% das mulheres adultas apresentem algum grau de IU ao longo da vida, configurando-a como um problema relevante de saúde pública (NAGAMINE; DANTAS; SILVA, 2021).
A integridade funcional da musculatura do assoalho pélvico (AP) é essencial para a continência urinária, uma vez que atua no suporte dos órgãos pélvicos, no controle esfincteriano e na estabilidade da região lombo-pélvica. Alterações anatômicas, neurológicas ou hormonais podem comprometer o desempenho dessa musculatura, predispondo ao aparecimento da IU. Nesse sentido, o fortalecimento direcionado do AP é reconhecido como estratégia preventiva e terapêutica eficaz, recomendada por diretrizes internacionais para mulheres com ou sem sintomas urinários (SOUZA et al., 2017; LEMOS et al., 2018).
Entre os recursos não invasivos disponíveis, o método Pilates tem despertado crescente interesse, pois integra o treinamento do “core” à respiração e ao controle postural, favorecendo a ativação sinérgica dos músculos profundos do tronco e do AP. Evidências sugerem que a prática regular de Pilates pode melhorar a força perineal, reduzir episódios de perda urinária e contribuir para maior consciência corporal (COUTO; TOIGO, 2019; DE AMORIM et al., 2019; FARIAS et al., 2021). No entanto, apesar desses resultados promissores, estudos também apontam que mulheres fisicamente ativas continuam apresentando prevalência significativa de IU, especialmente em modalidades de impacto, com índices que variam entre 10% e 55% em exercícios moderados e até 80% em atletas de elite (SILVA; PALLES; FERREIRA, 2020).
Esse contraste evidencia uma lacuna importante: ainda não está totalmente esclarecido se o Pilates, praticado de forma sistemática, exerce papel protetor contra a IU em mulheres da população geral, ou se seus benefícios são mais evidentes apenas em protocolos específicos voltados ao treinamento do assoalho pélvico. A maioria dos estudos existentes apresenta limitações metodológicas (pequenas amostras, ausência de grupo comparativo ou falta de padronização da intervenção), o que dificulta estabelecer conclusões consistentes.
Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar e comparar a prevalência da incontinência urinária em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates, avaliando a influência dessa modalidade de exercício sobre a força e a funcionalidade do assoalho pélvico. O propósito é fornecer evidências que contribuam para a prática clínica da Fisioterapia Pélvica e para a construção de estratégias preventivas em saúde da mulher.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A musculatura do assoalho pélvico (AP) é composta por músculos, fáscias e ligamentos que sustentam os órgãos pélvicos, auxiliam no controle esfincteriano e contribuem para a estabilidade da região lombo-pélvica. Alterações na sua integridade, seja por enfraquecimento muscular, lesões obstétricas ou mudanças hormonais, podem resultar em disfunções como incontinência urinária (IU), prolapso genital e disfunções sexuais (KHALE; LEONHARDT; PLATZER, 2000).
A IU, definida como a perda involuntária de urina, é classificada em esforço, urgência e mista, e apresenta alta prevalência mundial. Entre seus principais fatores de risco destacam-se idade avançada, multiparidade, tipo de parto, obesidade, menopausa e fraqueza muscular do AP (DALLEY; MOORE, 2001; MACÊDO; CARVALHO, 2024). Além de ser um problema funcional, a IU está associada à redução da autoestima, isolamento social e piora da qualidade de vida, o que reforça sua relevância clínica e epidemiológica.
A fisioterapia pélvica é considerada abordagem de primeira linha para IU, utilizando recursos como cinesioterapia, biofeedback, eletroestimulação e protocolos de fortalecimento do AP (FITZ et al., 2012; DEMBOSKI; KICHIJANOSKI, 2021). Nos últimos anos, o método Pilates tem se consolidado como estratégia complementar na reabilitação e prevenção dessas disfunções. Baseado nos princípios de concentração, respiração, controle e ativação do “core”, o Pilates promove recrutamento sinérgico do transverso do abdome, multífidos e AP, favorecendo o suporte visceral e o controle urinário (SOUZA et al., 2017; LEMOS et al., 2018).
Estudos sugerem que o Pilates melhora a força e a resistência do AP, reduz episódios de IU e aumenta a consciência corporal das mulheres (COUTO; TOIGO, 2019; DE AMORIM et al., 2019; DE LUCA et al., 2020; FARIAS et al., 2021). Uma revisão sistemática recente reforçou que a prática regular do método pode atuar tanto de forma preventiva quanto terapêutica, mostrando impacto positivo na funcionalidade pélvica e na qualidade de vida (GONÇALVES et al., 2023).
Apesar disso, a literatura também mostra que mulheres fisicamente ativas, inclusive atletas, apresentam elevada prevalência de IU, sugerindo que a atividade física, por si só, não constitui fator protetor absoluto. Esportes de alto impacto, como corrida e ginástica, podem aumentar a pressão intra-abdominal e sobrecarregar o AP, elevando o risco de perda urinária (SILVA; PALLES; FERREIRA, 2020). Essa dualidade evidencia que nem toda modalidade de exercício exerce efeito benéfico sobre a função pélvica.
Assim, permanece a necessidade de investigar se modalidades específicas, como o Pilates, realmente promovem benefícios consistentes para a saúde do AP em diferentes perfis de mulheres. Estudos comparativos entre praticantes e não praticantes de Pilates são relevantes para compreender se a prática atua de forma preventiva contra a IU ou se seus efeitos são mais evidentes apenas em populações já sintomáticas. Essa análise crítica pode subsidiar o desenvolvimento de protocolos fisioterapêuticos baseados em evidências, direcionados à saúde da mulher e à prevenção de disfunções pélvicas.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como transversal, observacional, comparativo e com abordagem quantitativa, desenvolvido entre maio e agosto de 2025 no Studio AC Fisioterapia e Pilates, na cidade de Varginha – MG. A amostra foi composta por 55 mulheres adultas, recrutadas de forma aleatória tanto no estúdio de Pilates quanto na comunidade local, e divididas em dois grupos: praticantes regulares de Pilates há pelo menos três meses, com frequência mínima de duas sessões semanais (n=26), e não praticantes de atividade física regular nos últimos seis meses, consideradas sedentárias (n=29). Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes do início da coleta de dados.
Foram incluídas no estudo mulheres entre 30 e 60 anos, que se enquadram nos critérios de prática ou ausência de prática de Pilates. Excluíram-se gestantes e puérperas até seis meses pós-parto, mulheres com doenças neurológicas graves, portadoras de doenças do trato urinário não relacionadas à incontinência urinária e aquelas submetidas a cirurgias pélvicas recentes. A caracterização da amostra foi realizada por meio de um questionário estruturado que contemplava variáveis sociodemográficas, ginecológicas e obstétricas. Em seguida, aplicou-se o International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF), traduzido e validado para o português por Tamanini et al. (2004), utilizado para mensurar a frequência, a gravidade e o impacto da incontinência urinária sobre a qualidade de vida. A coleta foi conduzida presencialmente no estúdio ou, quando necessário, de forma online, assegurando sigilo e privacidade às voluntárias.
Os dados obtidos foram registrados em planilha eletrônica do Microsoft Excel® e posteriormente analisados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), versão 20.0. Inicialmente, foram aplicadas estatísticas descritivas, com cálculo de médias, desvios padrão, frequências absolutas e percentuais. O teste de Shapiro-Wilk foi empregado para verificar a normalidade da distribuição dos dados, e, de acordo com o comportamento das variáveis, utilizou-se o teste de Mann-Whitney U para dados não paramétricos e o teste t de Student para amostras independentes em dados paramétricos. Em todas as análises adotou-se um nível de significância de p<0,05.
4. RESULTADOS
A amostra final foi composta por 55 mulheres, sendo 26 praticantes de Pilates e 29 não praticantes. A análise comparativa entre os grupos demonstrou homogeneidade em variáveis antropométricas e profissionais, não havendo diferença estatisticamente significativa em idade, peso, altura ou ocupação. No entanto, observou-se diferença relevante quanto ao nível de escolaridade, com maior proporção de mulheres com ensino superior no grupo praticante de Pilates (p=0,00), o que pode indicar um viés relacionado ao perfil socioeducacional das participantes.
Tabela 1 – Dados sociodemográficos das participantes

Na comparação entre os grupos, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas em idade, peso e altura, indicando homogeneidade nas variáveis antropométricas. Da mesma forma, a distribuição ocupacional mostrou-se semelhante (p=0,296), afastando a possibilidade de viés decorrente da profissão.
Entretanto, verificou-se diferença significativa quanto ao nível de escolaridade (p=0,00). O grupo de praticantes de Pilates apresentou maior proporção de mulheres com ensino superior completo (80,8%; n=21), enquanto no grupo não praticante esse percentual foi de 51,7% (n=15). Além disso, 27,6% (n=8) das não praticantes tinham apenas o ensino médio completo e 13,8% (n=4) o ensino médio incompleto, contrastando com apenas 3,8% (n=1) das praticantes com escolaridade neste nível. Esse achado demonstra maior concentração de mulheres com instrução formal elevada no grupo de praticantes, enquanto o grupo não praticante apresentou distribuição mais heterogênea e níveis de escolaridade inferiores.
No que se refere às características ginecológicas e obstétricas, a prevalência autorreferida de perda urinária inicial foi maior entre as não praticantes (13,8%; n=4) do que entre as praticantes (7,7%; n=2), sem diferença estatística significativa (p=0,47). Contudo, a análise obstétrica evidenciou discrepâncias relevantes entre os grupos. A proporção de mulheres com filhos foi significativamente maior entre as não praticantes (79,3%; n=23) em comparação às praticantes (50,0%; n=13), com p=0,02. Também se observou diferença no número de filhos (p=0,00): no grupo não praticante, 37,9% (n=11) relataram ter dois filhos e 20,7% (n=6) três filhos, enquanto no grupo praticante a maior parte era de mães com apenas um filho (50,0%; n=13).
O tipo de parto também apresentou distribuição distinta (p=0,04). A cesariana foi relatada por 72,4% (n=21) das não praticantes e por 42,3% (n=11) das praticantes, configurando maior prevalência desse procedimento entre as primeiras. Esses resultados revelam que, embora a perda urinária inicial não diferisse entre os grupos, havia heterogeneidade significativa em variáveis obstétricas conhecidas como fatores de risco para a incontinência urinária.
Tabela 02 – Histórico Ginecológico e Obstetrício das participantes do estudo

O principal achado do estudo, referente à prevalência e ao impacto da incontinência urinária, mostrou que a prática do Pilates não esteve associada a uma redução estatisticamente significativa dos sintomas. Apesar de os escores médios do grupo praticante terem sido menores em todos os domínios avaliados, as diferenças não atingiram significância estatística, conforme detalhado na Tabela 3.
Tabela 03 – Análise de Comparação Intergrupos

Embora o grupo de praticantes de Pilates tenha apresentado valores médios consistentemente inferiores em todos os domínios do ICIQ-SF, indicando menor frequência, gravidade e impacto da incontinência urinária, as diferenças não alcançaram significância estatística. Na análise da frequência dos episódios, o grupo não praticante obteve média de 0,44±0,94, enquanto o grupo praticante apresentou 0,26±1,00, com p=0,15. Quanto à intensidade das perdas urinárias, as médias foram de 0,62±1,08 para não praticantes e 0,30±0,92 para praticantes, sem diferença significativa (p=0,16). O impacto da IU nas atividades cotidianas seguiu o mesmo padrão, com valores próximos entre os grupos (0,51±1,57 vs. 0,42±1,39; p=0,57). O escore total do questionário também não mostrou diferença estatística (1,58±3,11 vs. 1,00±3,24; p=0,18).
De forma geral, os resultados apontam uma tendência clínica favorável ao grupo que pratica Pilates, mas sem robustez estatística suficiente para confirmar associação significativa entre a prática e a redução dos sintomas de incontinência urinária.
4.1 Análise Estatística
Os dados coletados foram inseridos em uma planilha do Excel® do Windows. Utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA). Para as variáveis descritivas, foram calculadas a média, o desvio padrão, a porcentagem e a frequência absoluta. Inicialmente, o teste de Shapiro-Wilk foi aplicado para verificar se os dados seguiam uma distribuição normal (MIOT, 2017; SHAPIRO; FRANCIA, 1972). Para as análises de comparação foi aplicado o teste de Mann-Whitney U. O nível de significância considerado neste estudo foi de p<0,05.
5. DISCUSSÃO
Este estudo comparou mulheres praticantes e não praticantes de Pilates quanto à prevalência e ao impacto da incontinência urinária (IU), utilizando o ICIQ-SF como medida padronizada. O achado central foi a ausência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos domínios de frequência, gravidade, impacto e escore total do ICIQ-SF, embora as médias tenham sido consistentemente menores entre as praticantes de Pilates (frequência 0,26±1,00 vs. 0,44±0,94; gravidade 0,30±0,92 vs. 0,62±1,08; impacto 0,42±1,39 vs. 0,51±1,57; soma 1,00±3,24 vs. 1,58±3,11). Em outras palavras, há sinal clínico favorável aos praticantes, sem robustez estatística suficiente para afirmar associação entre a prática e a redução dos sintomas.
Uma leitura cuidadosa dos dados de caracterização ajuda a entender esse desfecho. Os grupos mostraram homogeneidade antropométrica e ocupacional, afastando viés profissional imediato. Contudo, emergiram desigualdades relevantes em escolaridade e histórico obstétrico. As praticantes exibiram maior nível educacional (80,8% com superior completo), diferença estatisticamente significativa. Já as não praticantes apresentaram mais maternidade (79,3% vs. 50%), maior número de filhos e perfil de parto distinto, com diferenças significativas entre os grupos. Esses fatores são preditores clássicos de risco para IU e podem ter atuado como confundidores, elevando o risco basal no grupo não praticante e, simultaneamente, favorecendo o perfil comportamental/preventivo do grupo praticante.
Outro aspecto crucial é o baixo nível de sintomas na amostra. A prevalência autorreferida de perda urinária no baseline foi baixa e semelhante entre os grupos (13,8% vs. 7,7%; p=0,47), cenário compatível com um efeito teto (ceiling effect): quando a maioria das participantes já apresenta escores próximos do mínimo do ICIQ-SF, o estudo perde sensibilidade para detectar diferenças entre grupos, mesmo que um efeito real exista. Em termos metodológicos, isso reduz a potência estatística efetiva e aumenta o risco de erro tipo II.
O delineamento transversal também limita inferências causais e a atribuição de efeitos à prática do Pilates. Além disso, a intervenção foi definida por “praticar Pilates ≥3 meses”, mas não se reportou a padronização de conteúdo (p. ex., inclusão sistemática de treino específico de MAP, progressões de dose/volume, supervisão certificada), o que dilui o “mecanismo” investigado. Em síntese, a combinação de amostra pouco sintomática, confundidores obstétricos/educacionais e exposição não padronizada ajuda a explicar a não significância estatística, sem invalidar a direção clínica observada.
Do ponto de vista clínico, mesmo sem significância estatística, a consistência das médias menores entre praticantes sugere que a prática regular de Pilates pode contribuir para manutenção da continência, sobretudo se o método for orientado à ativação sinérgica do “core” com ênfase no assoalho pélvico. Importa destacar que a diferença educacional observada — maior entre praticantes — associa-se, em geral, a maior literacia em saúde e adesão a comportamentos preventivos, o que reforça a necessidade de controle estatístico ou estratificação dessas variáveis em estudos subsequentes. Entre os pontos fortes do trabalho destacam-se: (i) uso de instrumento validado (ICIQ-SF) para avaliação da IU; (ii) caracterização ampla das participantes, permitindo mapear potenciais confundidores; (iii) consistência na direção dos efeitos a favor das praticantes em todos os domínios do ICIQ-SF. Esses elementos aumentam a credibilidade interna dos achados, ainda que não tenham atingido significância.
Por outro lado, as limitações merecem ênfase: (a) delineamento transversal, impedindo causalidade; (b) ausência de cálculo amostral reportado (o que pode ter subdimensionado a amostra para diferenças pequenas, porém clinicamente relevantes); (c) heterogeneidade obstétrica e educacional entre os grupos, sem ajuste por covariáveis; (d) exposição ao Pilates não padronizada (dose, conteúdo e foco no MAP), que reduz a validade de constructo; e (e) baixa prevalência/gravidade de IU, produzindo efeito teto
Com base nisso, recomenda-se que pesquisas futuras adotem ensaios clínicos randomizados (ECR), com cálculo amostral e intervenção padronizada (p. ex., protocolo de Pilates com foco explícito em MAP, progressões de volume/intensidade e checagens de aderência), além de análises ajustadas (ANCOVA ou regressão) para paridade (número/tipo de partos) e escolaridade — variáveis que demonstraram desequilíbrio entre os grupos neste estudo. Em termos de desfechos, sugerem-se medidas objetivas de função do assoalho pélvico (perineometria, USG perineal, EMG de superfície), além de questionários de qualidade de vida complementares, o que pode aumentar a sensibilidade para captar benefícios funcionais e subjetivos em diferentes níveis de severidade da IU. Subanálises por menopausa e status hormonal, embora não tenham diferido aqui, também podem ser relevantes em amostras maiores
Finalmente, do ponto de vista prático, os dados sustentam uma mensagem equilibrada para a clínica: o Pilates, enquanto abordagem global de controle motor e fortalecimento do “core”, pode integrar programas preventivos para a saúde pélvica, especialmente quando combinado a treinamento específico de MAP e educação miccional. Entretanto, evidência causal ainda requer intervenções controladas e amostras com maior carga de sintomas, nas quais seja possível observar mudanças clinicamente significativas nos escores do ICIQ-SF.
6. CONCLUSÃO
O presente estudo buscou analisar a prevalência e o impacto da incontinência urinária em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates. Embora as médias dos escores do ICIQ SF tenham sido consistentemente menores no grupo praticante, indicando tendência clínica favorável, as diferenças não atingiram significância estatística. Esse achado sugere que a prática do método, da forma como foi avaliada, pode contribuir para o controle dos sintomas, mas ainda não é possível afirmar com rigor científico que o Pilates isoladamente exerce efeito protetor sobre a incontinência urinária.
Fatores como maior escolaridade entre praticantes e maior número de gestações e cesarianas entre não praticantes demonstraram ser potenciais variáveis de confusão, interferindo diretamente na interpretação dos resultados. Além disso, a baixa prevalência de sintomas na amostra e o delineamento transversal limitaram a detecção de diferenças significativas, configurando importante limitação metodológica.
Apesar dessas restrições, o estudo apresenta relevância ao reforçar a necessidade de protocolos padronizados de Pilates com foco específico na ativação do assoalho pélvico e ao destacar a importância de se considerar características ginecológicas, obstétricas e socioeducacionais na análise de grupos.
Conclui-se, portanto, que a prática do Pilates mostra-se uma estratégia promissora para manutenção da saúde pélvica, mas ainda carece de evidências consistentes que confirmem sua eficácia na prevenção ou redução da incontinência urinária. Recomenda-se a realização de ensaios clínicos randomizados, com amostras maiores, protocolos padronizados de intervenção e medidas complementares de avaliação, a fim de ampliar o nível de evidência e subsidiar recomendações clínicas mais robustas.
REFERÊNCIAS
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1Discentes do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis e-mail: renata.lirias@alunos.unis.edu.br
2Docentes do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis. Mestre em Ciências da Reabilitação. e-mail: fisioterapia@unis.edu.br
