PREVALÊNCIA DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA EM MULHERES: O IMPACTO DA PRÁTICA DO PILATES NA SAÚDE DO ASSOALHO PÉLVICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511102158


Renata Lirias1
Ana Lívia Trolesi Jarduli1
Jéssica Amâncio2
Lívia Maria Ribeiro Rosário2
Pablo Miranda Andrade2
Cintia Aline Martins2


Resumo 

O presente estudo teve como objetivo analisar e comparar a prevalência da incontinência urinária (IU)  em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates, avaliando a influência dessa modalidade de  exercício sobre a força e funcionalidade do assoalho pélvico. Trata-se de um estudo transversal,  observacional, comparativo e quantitativo, realizado com 55 mulheres adultas, divididas em dois grupos:  praticantes de Pilates há pelo menos três meses (n=26) e não praticantes (n=29). A coleta de dados foi  conduzida entre maio e agosto de 2025, utilizando um questionário estruturado para caracterização da  amostra e o International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF),  instrumento validado para o português, para mensurar a gravidade e o impacto da IU. Os resultados  mostraram que a frequência (p=0,15), a gravidade (p=0,16) e o impacto dos sintomas (p=0,57) não  apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, embora as praticantes de Pilates  tenham apresentado menores médias em todos os domínios avaliados. Observou-se ainda que o grupo  praticante apresentou maior nível de escolaridade (p=0,00) e menor número de partos (p=0,02), fatores  que podem atuar como variáveis protetoras. Conclui-se que, embora não tenham sido observadas  diferenças estatísticas, a prática regular de Pilates demonstrou tendência favorável à manutenção da  continência urinária e à saúde do assoalho pélvico, podendo ser considerada uma estratégia preventiva  relevante na Fisioterapia e na Saúde da Mulher. 

Palavras-chave: Incontinência Urinária; Pilates; Assoalho Pélvico; Prevalência; Saúde da Mulher.

Abstract 

This study aimed to analyze and compare the prevalence of urinary incontinence (UI) in women who  practice and do not practice Pilates, assessing the influence of this exercise modality on pelvic floor  strength and functionality. This was a cross-sectional, observational, comparative, and quantitative  study conducted with 55 adult women, divided into two groups: Pilates practitioners for at least three  months (n=26) and non-practitioners (n=29). Data collection was carried out between May to August  2025 using a structured questionnaire for participant characterization and the International  Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF), validated for Portuguese, to  measure UI severity and impact. Results showed no statistically significant differences between groups  regarding frequency (p=0.15), severity (p=0.16), or impact (p=0.57) of symptoms, although Pilates  practitioners presented lower mean scores in all evaluated domains. The practitioner group also  demonstrated a higher education level (p=0.00) and fewer childbirths (p=0.02), which may act as  protective variables. It is concluded that, although no significant differences were observed,  regular Pilates practice showed a favorable tendency toward maintaining urinary continence  and pelvic floor health, suggesting it as a relevant preventive strategy in Physiotherapy and  Women’s Health. 

Keywords: Urinary Incontinence; Pilates; Pelvic Floor; Prevalence; Women’s Health.

1. INTRODUÇÃO 

A Incontinência Urinária (IU) é uma condição prevalente que afeta a saúde física,  psicológica e social de milhões de mulheres em todo o mundo, comprometendo atividades  diárias, autoestima e qualidade de vida. Definida como a perda involuntária de urina, sua  ocorrência está associada a múltiplos fatores de risco, como envelhecimento, obesidade,  multiparidade, menopausa, tabagismo e cirurgias ginecológicas (MACÊDO; CARVALHO,  2024). Estima-se que entre 25% e 45% das mulheres adultas apresentem algum grau de IU ao  longo da vida, configurando-a como um problema relevante de saúde pública (NAGAMINE;  DANTAS; SILVA, 2021). 

A integridade funcional da musculatura do assoalho pélvico (AP) é essencial para a  continência urinária, uma vez que atua no suporte dos órgãos pélvicos, no controle esfincteriano  e na estabilidade da região lombo-pélvica. Alterações anatômicas, neurológicas ou hormonais  podem comprometer o desempenho dessa musculatura, predispondo ao aparecimento da IU.  Nesse sentido, o fortalecimento direcionado do AP é reconhecido como estratégia preventiva e  terapêutica eficaz, recomendada por diretrizes internacionais para mulheres com ou sem  sintomas urinários (SOUZA et al., 2017; LEMOS et al., 2018). 

Entre os recursos não invasivos disponíveis, o método Pilates tem despertado crescente  interesse, pois integra o treinamento do “core” à respiração e ao controle postural, favorecendo  a ativação sinérgica dos músculos profundos do tronco e do AP. Evidências sugerem que a  prática regular de Pilates pode melhorar a força perineal, reduzir episódios de perda urinária e  contribuir para maior consciência corporal (COUTO; TOIGO, 2019; DE AMORIM et al., 2019;  FARIAS et al., 2021). No entanto, apesar desses resultados promissores, estudos também  apontam que mulheres fisicamente ativas continuam apresentando prevalência significativa de  IU, especialmente em modalidades de impacto, com índices que variam entre 10% e 55% em  exercícios moderados e até 80% em atletas de elite (SILVA; PALLES; FERREIRA, 2020). 

Esse contraste evidencia uma lacuna importante: ainda não está totalmente esclarecido se  o Pilates, praticado de forma sistemática, exerce papel protetor contra a IU em mulheres da  população geral, ou se seus benefícios são mais evidentes apenas em protocolos específicos  voltados ao treinamento do assoalho pélvico. A maioria dos estudos existentes apresenta limitações metodológicas (pequenas amostras, ausência de grupo comparativo ou falta de  padronização da intervenção), o que dificulta estabelecer conclusões consistentes. 

Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar e comparar a  prevalência da incontinência urinária em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates,  avaliando a influência dessa modalidade de exercício sobre a força e a funcionalidade do  assoalho pélvico. O propósito é fornecer evidências que contribuam para a prática clínica da  Fisioterapia Pélvica e para a construção de estratégias preventivas em saúde da mulher. 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  

A musculatura do assoalho pélvico (AP) é composta por músculos, fáscias e ligamentos  que sustentam os órgãos pélvicos, auxiliam no controle esfincteriano e contribuem para a  estabilidade da região lombo-pélvica. Alterações na sua integridade, seja por enfraquecimento  muscular, lesões obstétricas ou mudanças hormonais, podem resultar em disfunções como  incontinência urinária (IU), prolapso genital e disfunções sexuais (KHALE; LEONHARDT;  PLATZER, 2000). 

A IU, definida como a perda involuntária de urina, é classificada em esforço, urgência e  mista, e apresenta alta prevalência mundial. Entre seus principais fatores de risco destacam-se  idade avançada, multiparidade, tipo de parto, obesidade, menopausa e fraqueza muscular do AP  (DALLEY; MOORE, 2001; MACÊDO; CARVALHO, 2024). Além de ser um problema  funcional, a IU está associada à redução da autoestima, isolamento social e piora da qualidade  de vida, o que reforça sua relevância clínica e epidemiológica. 

A fisioterapia pélvica é considerada abordagem de primeira linha para IU, utilizando  recursos como cinesioterapia, biofeedback, eletroestimulação e protocolos de fortalecimento do  AP (FITZ et al., 2012; DEMBOSKI; KICHIJANOSKI, 2021). Nos últimos anos, o método  Pilates tem se consolidado como estratégia complementar na reabilitação e prevenção dessas  disfunções. Baseado nos princípios de concentração, respiração, controle e ativação do “core”,  o Pilates promove recrutamento sinérgico do transverso do abdome, multífidos e AP,  favorecendo o suporte visceral e o controle urinário (SOUZA et al., 2017; LEMOS et al., 2018).

Estudos sugerem que o Pilates melhora a força e a resistência do AP, reduz episódios de  IU e aumenta a consciência corporal das mulheres (COUTO; TOIGO, 2019; DE AMORIM et  al., 2019; DE LUCA et al., 2020; FARIAS et al., 2021). Uma revisão sistemática recente  reforçou que a prática regular do método pode atuar tanto de forma preventiva quanto  terapêutica, mostrando impacto positivo na funcionalidade pélvica e na qualidade de vida  (GONÇALVES et al., 2023). 

Apesar disso, a literatura também mostra que mulheres fisicamente ativas, inclusive atletas,  apresentam elevada prevalência de IU, sugerindo que a atividade física, por si só, não constitui  fator protetor absoluto. Esportes de alto impacto, como corrida e ginástica, podem aumentar a  pressão intra-abdominal e sobrecarregar o AP, elevando o risco de perda urinária (SILVA;  PALLES; FERREIRA, 2020). Essa dualidade evidencia que nem toda modalidade de exercício  exerce efeito benéfico sobre a função pélvica. 

Assim, permanece a necessidade de investigar se modalidades específicas, como o Pilates,  realmente promovem benefícios consistentes para a saúde do AP em diferentes perfis de  mulheres. Estudos comparativos entre praticantes e não praticantes de Pilates são relevantes  para compreender se a prática atua de forma preventiva contra a IU ou se seus efeitos são mais  evidentes apenas em populações já sintomáticas. Essa análise crítica pode subsidiar o  desenvolvimento de protocolos fisioterapêuticos baseados em evidências, direcionados à saúde  da mulher e à prevenção de disfunções pélvicas.

3. METODOLOGIA  

O presente estudo caracteriza-se como transversal, observacional, comparativo e com  abordagem quantitativa, desenvolvido entre maio e agosto de 2025 no Studio AC Fisioterapia  e Pilates, na cidade de Varginha – MG. A amostra foi composta por 55 mulheres adultas,  recrutadas de forma aleatória tanto no estúdio de Pilates quanto na comunidade local, e  divididas em dois grupos: praticantes regulares de Pilates há pelo menos três meses, com  frequência mínima de duas sessões semanais (n=26), e não praticantes de atividade física  regular nos últimos seis meses, consideradas sedentárias (n=29). Todas as participantes  assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes do início da coleta de  dados.

Foram incluídas no estudo mulheres entre 30 e 60 anos, que se enquadram nos  critérios de prática ou ausência de prática de Pilates. Excluíram-se gestantes e puérperas até seis  meses pós-parto, mulheres com doenças neurológicas graves, portadoras de doenças do trato  urinário não relacionadas à incontinência urinária e aquelas submetidas a cirurgias pélvicas  recentes. A caracterização da amostra foi realizada por meio de um questionário estruturado  que contemplava variáveis sociodemográficas, ginecológicas e obstétricas. Em seguida,  aplicou-se o International Consultation on Incontinence Questionnaire – Short Form (ICIQ-SF),  traduzido e validado para o português por Tamanini et al. (2004), utilizado para mensurar a  frequência, a gravidade e o impacto da incontinência urinária sobre a qualidade de vida. A  coleta foi conduzida presencialmente no estúdio ou, quando necessário, de forma online,  assegurando sigilo e privacidade às voluntárias. 

Os dados obtidos foram registrados em planilha eletrônica do Microsoft Excel® e  posteriormente analisados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®),  versão 20.0. Inicialmente, foram aplicadas estatísticas descritivas, com cálculo de médias,  desvios padrão, frequências absolutas e percentuais. O teste de Shapiro-Wilk foi empregado  para verificar a normalidade da distribuição dos dados, e, de acordo com o comportamento das  variáveis, utilizou-se o teste de Mann-Whitney U para dados não paramétricos e o teste t de  Student para amostras independentes em dados paramétricos. Em todas as análises adotou-se um nível de significância de p<0,05. 

4. RESULTADOS  

A amostra final foi composta por 55 mulheres, sendo 26 praticantes de Pilates e 29 não  praticantes. A análise comparativa entre os grupos demonstrou homogeneidade em variáveis  antropométricas e profissionais, não havendo diferença estatisticamente significativa em idade,  peso, altura ou ocupação. No entanto, observou-se diferença relevante quanto ao nível de  escolaridade, com maior proporção de mulheres com ensino superior no grupo praticante de  Pilates (p=0,00), o que pode indicar um viés relacionado ao perfil socioeducacional das  participantes.

Tabela 1 – Dados sociodemográficos das participantes

Fonte: Autoras (2025). As variáveis descritivas foram apresentadas conforme média (M), Desvio Padrão  para Média (±DPM) e porcentagem (%). As comparações intergrupos foram dadas mediante teste de  Mann-Whitney U, para amostras não paramétricas e teste t para amostras independentes, em dados  paramétricos. Valor de significância adotado para este estudo: p<0,05. *p<0,05.

Na comparação entre os grupos, não foram observadas diferenças estatisticamente  significativas em idade, peso e altura, indicando homogeneidade nas variáveis antropométricas.  Da mesma forma, a distribuição ocupacional mostrou-se semelhante (p=0,296), afastando a  possibilidade de viés decorrente da profissão. 

Entretanto, verificou-se diferença significativa quanto ao nível de escolaridade  (p=0,00). O grupo de praticantes de Pilates apresentou maior proporção de mulheres com ensino  superior completo (80,8%; n=21), enquanto no grupo não praticante esse percentual foi de  51,7% (n=15). Além disso, 27,6% (n=8) das não praticantes tinham apenas o ensino médio  completo e 13,8% (n=4) o ensino médio incompleto, contrastando com apenas 3,8% (n=1) das  praticantes com escolaridade neste nível. Esse achado demonstra maior concentração de  mulheres com instrução formal elevada no grupo de praticantes, enquanto o grupo não  praticante apresentou distribuição mais heterogênea e níveis de escolaridade inferiores. 

No que se refere às características ginecológicas e obstétricas, a prevalência  autorreferida de perda urinária inicial foi maior entre as não praticantes (13,8%; n=4) do que  entre as praticantes (7,7%; n=2), sem diferença estatística significativa (p=0,47). Contudo, a  análise obstétrica evidenciou discrepâncias relevantes entre os grupos. A proporção de  mulheres com filhos foi significativamente maior entre as não praticantes (79,3%; n=23) em  comparação às praticantes (50,0%; n=13), com p=0,02. Também se observou diferença no  número de filhos (p=0,00): no grupo não praticante, 37,9% (n=11) relataram ter dois filhos e 20,7% (n=6) três filhos, enquanto no grupo praticante a maior parte era de mães com apenas  um filho (50,0%; n=13). 

O tipo de parto também apresentou distribuição distinta (p=0,04). A cesariana foi  relatada por 72,4% (n=21) das não praticantes e por 42,3% (n=11) das praticantes, configurando  maior prevalência desse procedimento entre as primeiras. Esses resultados revelam que, embora  a perda urinária inicial não diferisse entre os grupos, havia heterogeneidade significativa em  variáveis obstétricas conhecidas como fatores de risco para a incontinência urinária. 

Tabela 02 – Histórico Ginecológico e Obstetrício das participantes do estudo

Fonte: Autoras (2025). As variáveis descritivas foram apresentadas conforme porcentagem (%). As comparações intergrupos foram dadas mediante teste de Mann-Whitney U, para amostras não paramétricas. Valor de significância adotado para este estudo: p<0,05. *p<0,05.

O principal achado do estudo, referente à prevalência e ao impacto da incontinência  urinária, mostrou que a prática do Pilates não esteve associada a uma redução estatisticamente  significativa dos sintomas. Apesar de os escores médios do grupo praticante terem sido menores  em todos os domínios avaliados, as diferenças não atingiram significância estatística, conforme  detalhado na Tabela 3.

Tabela 03 – Análise de Comparação Intergrupos

Fonte: Autoras (2025). As variáveis descritivas foram dadas mediantes média, desvio padrão,  frequência e porcentagem. Legenda: M=Média; ± DPM: Desvio padrão para a média; IC: Intervalo de  Confiança, 95%. As comparações intergrupos foram dadas mediante teste de Mann-Whitney U, para  amostras não paramétricas. Valor de significância adotado para este estudo: p<0,05.

Embora o grupo de praticantes de Pilates tenha apresentado valores médios  consistentemente inferiores em todos os domínios do ICIQ-SF, indicando menor frequência,  gravidade e impacto da incontinência urinária, as diferenças não alcançaram significância  estatística. Na análise da frequência dos episódios, o grupo não praticante obteve média de  0,44±0,94, enquanto o grupo praticante apresentou 0,26±1,00, com p=0,15. Quanto à  intensidade das perdas urinárias, as médias foram de 0,62±1,08 para não praticantes e 0,30±0,92  para praticantes, sem diferença significativa (p=0,16). O impacto da IU nas atividades  cotidianas seguiu o mesmo padrão, com valores próximos entre os grupos (0,51±1,57 vs.  0,42±1,39; p=0,57). O escore total do questionário também não mostrou diferença estatística  (1,58±3,11 vs. 1,00±3,24; p=0,18). 

De forma geral, os resultados apontam uma tendência clínica favorável ao grupo que  pratica Pilates, mas sem robustez estatística suficiente para confirmar associação significativa  entre a prática e a redução dos sintomas de incontinência urinária. 

4.1 Análise Estatística 

Os dados coletados foram inseridos em uma planilha do Excel® do Windows. Utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20.0 (SPSS Inc.,  Chicago, IL, USA). Para as variáveis descritivas, foram calculadas a média, o desvio padrão, a  porcentagem e a frequência absoluta. Inicialmente, o teste de Shapiro-Wilk foi aplicado para verificar se os dados seguiam uma distribuição normal (MIOT, 2017; SHAPIRO; FRANCIA,  1972). Para as análises de comparação foi aplicado o teste de Mann-Whitney U. O nível de  significância considerado neste estudo foi de p<0,05.  

5. DISCUSSÃO 

Este estudo comparou mulheres praticantes e não praticantes de Pilates quanto à  prevalência e ao impacto da incontinência urinária (IU), utilizando o ICIQ-SF como medida  padronizada. O achado central foi a ausência de diferenças estatisticamente significativas entre  os grupos nos domínios de frequência, gravidade, impacto e escore total do ICIQ-SF, embora  as médias tenham sido consistentemente menores entre as praticantes de Pilates (frequência  0,26±1,00 vs. 0,44±0,94; gravidade 0,30±0,92 vs. 0,62±1,08; impacto 0,42±1,39 vs. 0,51±1,57;  soma 1,00±3,24 vs. 1,58±3,11). Em outras palavras, há sinal clínico favorável aos praticantes,  sem robustez estatística suficiente para afirmar associação entre a prática e a redução dos  sintomas. 

Uma leitura cuidadosa dos dados de caracterização ajuda a entender esse desfecho. Os  grupos mostraram homogeneidade antropométrica e ocupacional, afastando viés profissional  imediato. Contudo, emergiram desigualdades relevantes em escolaridade e histórico obstétrico.  As praticantes exibiram maior nível educacional (80,8% com superior completo), diferença  estatisticamente significativa. Já as não praticantes apresentaram mais maternidade (79,3% vs.  50%), maior número de filhos e perfil de parto distinto, com diferenças significativas entre os  grupos. Esses fatores são preditores clássicos de risco para IU e podem ter atuado como  confundidores, elevando o risco basal no grupo não praticante e, simultaneamente, favorecendo  o perfil comportamental/preventivo do grupo praticante. 

Outro aspecto crucial é o baixo nível de sintomas na amostra. A prevalência  autorreferida de perda urinária no baseline foi baixa e semelhante entre os grupos (13,8% vs.  7,7%; p=0,47), cenário compatível com um efeito teto (ceiling effect): quando a maioria das  participantes já apresenta escores próximos do mínimo do ICIQ-SF, o estudo perde  sensibilidade para detectar diferenças entre grupos, mesmo que um efeito real exista. Em termos  metodológicos, isso reduz a potência estatística efetiva e aumenta o risco de erro tipo II. 

O delineamento transversal também limita inferências causais e a atribuição de efeitos  à prática do Pilates. Além disso, a intervenção foi definida por “praticar Pilates ≥3 meses”, mas  não se reportou a padronização de conteúdo (p. ex., inclusão sistemática de treino específico de  MAP, progressões de dose/volume, supervisão certificada), o que dilui o “mecanismo” investigado. Em síntese, a combinação de amostra pouco sintomática, confundidores  obstétricos/educacionais e exposição não padronizada ajuda a explicar a não significância  estatística, sem invalidar a direção clínica observada. 

Do ponto de vista clínico, mesmo sem significância estatística, a consistência das  médias menores entre praticantes sugere que a prática regular de Pilates pode contribuir para  manutenção da continência, sobretudo se o método for orientado à ativação sinérgica do “core”  com ênfase no assoalho pélvico. Importa destacar que a diferença educacional observada — maior entre praticantes — associa-se, em geral, a maior literacia em saúde e adesão a  comportamentos preventivos, o que reforça a necessidade de controle estatístico ou  estratificação dessas variáveis em estudos subsequentes. Entre os pontos fortes do trabalho  destacam-se: (i) uso de instrumento validado (ICIQ-SF) para avaliação da IU; (ii) caracterização  ampla das participantes, permitindo mapear potenciais confundidores; (iii) consistência na  direção dos efeitos a favor das praticantes em todos os domínios do ICIQ-SF. Esses elementos  aumentam a credibilidade interna dos achados, ainda que não tenham atingido significância. 

Por outro lado, as limitações merecem ênfase: (a) delineamento transversal, impedindo  causalidade; (b) ausência de cálculo amostral reportado (o que pode ter subdimensionado a  amostra para diferenças pequenas, porém clinicamente relevantes); (c) heterogeneidade  obstétrica e educacional entre os grupos, sem ajuste por covariáveis; (d) exposição ao Pilates  não padronizada (dose, conteúdo e foco no MAP), que reduz a validade de constructo; e (e)  baixa prevalência/gravidade de IU, produzindo efeito teto 

Com base nisso, recomenda-se que pesquisas futuras adotem ensaios clínicos  randomizados (ECR), com cálculo amostral e intervenção padronizada (p. ex., protocolo de  Pilates com foco explícito em MAP, progressões de volume/intensidade e checagens de  aderência), além de análises ajustadas (ANCOVA ou regressão) para paridade (número/tipo de  partos) e escolaridade — variáveis que demonstraram desequilíbrio entre os grupos neste  estudo. Em termos de desfechos, sugerem-se medidas objetivas de função do assoalho pélvico  (perineometria, USG perineal, EMG de superfície), além de questionários de qualidade de vida  complementares, o que pode aumentar a sensibilidade para captar benefícios funcionais e  subjetivos em diferentes níveis de severidade da IU. Subanálises por menopausa e status  hormonal, embora não tenham diferido aqui, também podem ser relevantes em amostras  maiores 

Finalmente, do ponto de vista prático, os dados sustentam uma mensagem equilibrada  para a clínica: o Pilates, enquanto abordagem global de controle motor e fortalecimento do  “core”, pode integrar programas preventivos para a saúde pélvica, especialmente quando combinado a treinamento específico de MAP e educação miccional. Entretanto, evidência  causal ainda requer intervenções controladas e amostras com maior carga de sintomas, nas quais  seja possível observar mudanças clinicamente significativas nos escores do ICIQ-SF. 

6. CONCLUSÃO 

O presente estudo buscou analisar a prevalência e o impacto da incontinência urinária  em mulheres praticantes e não praticantes de Pilates. Embora as médias dos escores do ICIQ SF tenham sido consistentemente menores no grupo praticante, indicando tendência clínica  favorável, as diferenças não atingiram significância estatística. Esse achado sugere que a prática  do método, da forma como foi avaliada, pode contribuir para o controle dos sintomas, mas ainda  não é possível afirmar com rigor científico que o Pilates isoladamente exerce efeito protetor  sobre a incontinência urinária. 

Fatores como maior escolaridade entre praticantes e maior número de gestações e  cesarianas entre não praticantes demonstraram ser potenciais variáveis de confusão,  interferindo diretamente na interpretação dos resultados. Além disso, a baixa prevalência de  sintomas na amostra e o delineamento transversal limitaram a detecção de diferenças  significativas, configurando importante limitação metodológica. 

Apesar dessas restrições, o estudo apresenta relevância ao reforçar a necessidade de  protocolos padronizados de Pilates com foco específico na ativação do assoalho pélvico e ao  destacar a importância de se considerar características ginecológicas, obstétricas e  socioeducacionais na análise de grupos. 

Conclui-se, portanto, que a prática do Pilates mostra-se uma estratégia promissora para  manutenção da saúde pélvica, mas ainda carece de evidências consistentes que confirmem sua  eficácia na prevenção ou redução da incontinência urinária. Recomenda-se a realização de  ensaios clínicos randomizados, com amostras maiores, protocolos padronizados de intervenção  e medidas complementares de avaliação, a fim de ampliar o nível de evidência e subsidiar  recomendações clínicas mais robustas.

REFERÊNCIAS 

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1Discentes do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis e-mail: renata.lirias@alunos.unis.edu.br
2Docentes do Curso Superior de Fisioterapia do Grupo Unis. Mestre em Ciências da Reabilitação. e-mail:  fisioterapia@unis.edu.br