REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511151528
Ana Paula Pinheiro
Gabriell Henrique Riedi Beatto
João Victor Barbosa Lucas
Millena Marcela Gomes Ferreira
Orientadores: Dr. Ângelo Keppe
Dr. Vinícius Ribeiro de Oliveira
RESUMO
Objetivo: Este artigo apresenta uma revisão sistemática da literatura publicada entre os anos de 2000 e 2025 com o propósito de analisar a incidência da Pré-eclâmpsia (PE) e mapear os principais fatores de risco associados, fornecendo um panorama atualizado sobre a epidemiologia da condição. Métodos: Realizou-se uma pesquisa abrangente em bases de dados científicas (incluindo PubMed, Scielo e LILACS) utilizando descritores chave como “pré-eclâmpsia”, “incidência”, “fatores de risco” e “epidemiologia”. Foram selecionados estudos de coorte, ensaios clínicos randomizados e meta-análises que abordassem a variação da incidência e a relevância dos fatores de risco em diferentes contextos geográficos. Resultados: A análise dos dados de mais de duas décadas reitera a PE como uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal. A incidência global varia notavelmente entre 2% e 8% das gestações, com uma carga desproporcionalmente maior em países de baixa e média renda, onde a mortalidade relacionada é mais elevada. Identificou-se uma “assinatura” de alto risco, destacando os fatores consistentemente associados: história prévia de PE, hipertensão crônica, diabetes pré-gestacional, obesidade (IMC maior a 30) e gravidez múltipla. Além disso, a nuliparidade e a idade materna avançada permanecem como riscos moderados, sendo cruciais para o rastreamento primário. A repercussão materno-fetal sublinha a importância da doença, com destaque para a restrição de crescimento fetal e o parto prematuro. Conclusão: A Pré-eclâmpsia mantém uma incidência significativa e geograficamente variável. A identificação e estratificação precisas dos fatores de risco são fundamentais para o sucesso das estratégias de prevenção, como a implementação precoce de ácido acetilsalicílico (AAS) em gestantes de alto risco, visando a redução da morbimortalidade associada ao binômio materno-fetal.
Palavras-chave: pré-eclâmpsia; incidência; fatores de risco; revisão sistemática; gestação; epidemiologia.
ABSTRACT
Objective: This article presents a systematic review of the literature published between 2000 and 2025 aiming to analyze the incidence of Pre-eclampsia (PE) and map the main associated risk factors, providing an updated overview of the condition’s epidemiology. Methods: A comprehensive search was conducted in scientific databases (including PubMed, Scielo, and LILACS) using key descriptors such as “pre-eclampsia,” “incidence,” “risk factors,” and “epidemiology.” Cohort studies, randomized controlled trials, and meta-analyses addressing the variation in incidence and the relevance of risk factors in different geographical contexts were selected.c Results: The analysis of data spanning over two decades reinforces PE as a leading cause of maternal and perinatal morbidity and mortality. The global incidence varies significantly between $1\%$ and $8\%$ of pregnancies, with a disproportionately higher burden in low- and middle-income countries, where related mortality is higher. A consistent “high-risk signature” was identified, highlighting factors repeatedly associated with elevated risk: previous history of PE, chronic hypertension, pre-gestational diabetes, obesity (BMI greater than 30), and multiple gestation. Furthermore, nulliparity and advanced maternal age remain moderate but crucial risks for primary screening. The maternal-fetal repercussions, particularly fetal growth restriction and preterm birth, underscore the seriousness of the disease. Conclusion: Pre-eclampsia maintains a significant and geographically variable incidence. The accurate identification and stratification of these risk factors are essential for the success of preventive strategies, such as the early implementation of acetylsalicylic acid (ASA) in high-risk pregnant women, aiming to reduce the associated maternal-fetal morbidity and mortality.
Keywords: pre-eclampsia; incidence; risk factors; systematic review; pregnancy; epidemiology.
INTRODUÇÃO
A pré-eclâmpsia (PE) é uma complicação hipertensiva grave da gestação, que afeta entre 2% e 8% das gestantes em todo o mundo (LUO et al., 2016). Caracteriza-se pelo aumento da pressão arterial após a 20ª semana de gestação em mulheres previamente normotensas, frequentemente associado à proteinúria ou disfunção de órgãos maternos, incluindo rins, fígado e sistema nervoso central (PEIXOTO et al., 2023).
A doença apresenta etiologia multifatorial, envolvendo alterações imunológicas, inflamatórias e vasculares, com impacto direto na perfusão uteroplacentária (JIKAMO et al., 2023). A PE é um desafio clínico significativo devido à sua imprevisibilidade, variabilidade na apresentação e potencial para complicações maternas graves, como eclâmpsia, síndrome HELLP, insuficiência renal aguda, acidente vascular cerebral e descolamento prematuro de placenta, bem como complicações fetais, incluindo restrição de crescimento intrauterino, prematuridade e morte perinatal (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
Apesar dos avanços em obstetrícia, a incidência da PE permanece relevante, principalmente em regiões com cobertura insuficiente de pré-natal (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021). A identificação precoce dos fatores de risco — ou “assinatura” de risco — possibilita direcionar estratégias preventivas e monitoramento intensivo das gestantes de alto risco (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023).
Neste contexto, esta revisão sistemática objetiva consolidar informações recentes sobre a incidência da PE e fatores de risco associados, fornecendo base para estratégias clínicas e de saúde pública fundamentadas em evidências.
JUSTIFICATIVA
A relevância deste estudo decorre de fatores clínicos, epidemiológicos e socioeconômicos:
- Impacto clínico e obstétrico: A PE continua entre as principais causas de mortalidade materna e perinatal, sendo responsável por complicações graves e necessidade de intervenções precoces (PEIXOTO et al., 2023).
- Disparidades geográficas e socioeconômicas: Estudos demonstram maior incidência em regiões com menor acesso a cuidados pré-natais e pior condição socioeconômica, evidenciando desigualdades no risco (JIKAMO et al., 2023).
- Rastreio precoce e prevenção: A identificação de gestantes com perfil de alto risco é fundamental para intervenções precoces, como profilaxia farmacológica, acompanhamento intensivo e monitoramento clínico rigoroso (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
- Lacunas na literatura nacional: Apesar de dados relevantes no Brasil, ainda há carência de estudos que integrem múltiplos fatores de risco em perfis preditivos, sobretudo em populações vulneráveis (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021).
Diante disso, esta revisão sistemática justifica-se como instrumento de consolidação do conhecimento, oferecendo subsídios para protocolos clínicos e políticas públicas eficazes.
OBJETIVOS
Geral
Revisar sistematicamente a literatura sobre a incidência da PE e caracterizar a assinatura dos fatores de risco associados.
Específicos
- Sintetizar dados sobre a incidência global e nacional da PE (LUO et al., 2016).
- Identificar e analisar fatores de risco clínicos, maternos e sociodemográficos (PEIXOTO et al., 2023).
- Discutir o conceito de assinatura de fatores de risco para predizer gestantes de alto risco (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023).
- Apresentar estratégias preventivas baseadas em evidência (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
- Evidenciar lacunas e oportunidades de pesquisa futura (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021).
DESENVOLVIMENTO
Metodologia da Revisão
Esta revisão sistemática foi conduzida com base em estudos publicados entre 2000 e 2025, utilizando as bases PubMed, Embase, Scopus e SciELO. Foram incluídos:
- Estudos de coorte prospectiva e retrospectiva;
- Estudos caso-controle;
- Revisões sistemáticas e meta-análises.
Critérios de inclusão: gestantes ≤16 semanas para análise precoce de fatores de risco, definição clara de PE segundo a International Society for the Study of Hypertension in Pregnancy (ISSHP), população ≥1.000 participantes e publicações em inglês, português ou espanhol.
Foram extraídos dados sobre a incidência, magnitude da associação (OR/RR), fatores clínicos e sociodemográficos, além de limitações metodológicas. Estudos heterogêneos quanto à definição de PE ou cobertura pré-natal foram analisados com cautela (LUO et al., 2016; PEIXOTO et al., 2023).
Epidemiologia e Incidência
Globalmente, a PE afeta cerca de 2% a 8% das gestações, sendo a incidência maior em países de média e baixa renda (JIKAMO et al., 2023). Estudos brasileiros indicam prevalência entre 1,5% e 7,5%, com diferenças regionais significativas: em áreas urbanas com cobertura pré-natal adequada, a prevalência varia de 2% a 3%, enquanto em regiões rurais ou populações vulneráveis, pode atingir 6% a 8% (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021).
Entre os fatores associados à incidência estão: nuliparidade, idade materna <20 ou >35 anos, hipertensão crônica, obesidade, diabetes pré-gestacional e acesso limitado ao pré-natal (LUO et al., 2016). Em comparação internacional, a prevalência nos EUA é de 3–5%, enquanto em países africanos pode ultrapassar 7%, refletindo desigualdades no cuidado obstétrico (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023).
Fisiopatologia
A PE envolve múltiplos mecanismos fisiopatológicos:
- Disfunção endotelial: diminuição da vasodilatação mediada por óxido nítrico, aumento de fatores antiangiogênicos (sFlt-1) e inibição de VEGF (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
- Inflamação sistêmica: ativação de células imunológicas, liberação de citocinas pró-inflamatórias e desequilíbrio materno-placentário (PEIXOTO et al., 2023).
- Alterações placentárias: má perfusão uteroplacentária, hipóxia e estresse oxidativo, levando à produção de substâncias vasoativas (LUO et al., 2016).
- Mecanismos renais e cardiovasculares: retenção de sódio, aumento da resistência vascular sistêmica e hipertensão arterial (JIKAMO et al., 2023).
O entendimento desses mecanismos permite correlacionar fatores clínicos com risco individual de PE e fundamentar estratégias preventivas.
Fatores de Risco
- Hipertensão crônica
- Gestantes hipertensas prévias apresentam risco elevado de PE (RR ~5,1). O manejo pré-gestacional e controle rigoroso da pressão são essenciais (PEIXOTO et al., 2023).
- História prévia de PE
- A história de PE em gestação anterior aumenta o risco (RR ~8,4), justificando acompanhamento intensivo e profilaxia com ácido acetilsalicílico (LUO et al., 2016).
- Obesidade
- IMC ≥30 kg/m² aumenta risco (RR ~2,8), devido a inflamação crônica e disfunção endotelial (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
- Diabetes pré-gestacional
- Diabetes tipo 1 ou 2 eleva risco (RR ~3,7), sendo essencial manejo glicêmico rigoroso (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021).
- Nuliparidade e idade materna extrema
- Primíparas apresentam OR ~2,5; mulheres <20 ou >35 anos também têm risco aumentado (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023).
- Condições socioeconômicas
- Baixo nível educacional, nutrição inadequada e acesso limitado ao pré-natal aumentam risco, especialmente em países de baixa renda (JIKAMO et al., 2023).
Assinatura de Fatores de Risco
O conceito de assinatura envolve a combinação de múltiplos fatores para identificar gestantes de alto risco. Estudos sugerem que perfis combinando hipertensão prévia, obesidade, diabetes, nuliparidade, idade materna extrema e baixa cobertura pré-natal permitem previsão mais precisa de PE (LUO et al., 2016; PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
A utilização de modelos preditivos com múltiplos fatores (biofísicos, bioquímicos e clínicos) tem se mostrado promissora para intervenções precoces e personalizadas (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023).
Estratégias Preventivas
- Profilaxia farmacológica: ácido acetilsalicílico (100–150 mg/dia) antes de 16 semanas em gestantes de alto risco (PEIXOTO et al., 2023).
- Monitoramento intensivo: pressão arterial, proteinúria e exames laboratoriais periódicos (LUO et al., 2016).
- Controle de comorbidades: hipertensão, diabetes, obesidade e dislipidemia (PIRMANSYAH; BERAWI, 2024).
- Educação e acompanhamento: incentivo à cobertura pré-natal adequada, orientação nutricional e rastreamento de sinais de alerta (JIKAMO et al., 2023).
Limitações da Literatura
- Definições heterogêneas de PE entre estudos.
- Populações hospitalares, limitando a generalização.
- Pouca integração de biomarcadores emergentes com fatores clínicos.
- Escassez de dados sobre minorias étnicas ou populações vulneráveis (BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH, 2021).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Pré-eclâmpsia (PE) persiste como uma das síndromes obstétricas mais desafiadoras, mantendo uma incidência global significativa que varia amplamente entre 2% e 8% e que se traduz diretamente em altas taxas de morbimortalidade materna e perinatal (LUO et al., 2016; JIKAMO et al., 2023). Os achados desta revisão sistemática reforçam que a simples vigilância da pressão arterial é insuficiente. É a identificação precoce da “assinatura de fatores de risco” ou seja, o perfil clínico e demográfico combinado (História prévia de PE, HAC, DM, Obesidade) que se mostra o pilar fundamental para uma abordagem proativa e eficaz.
A correta estratificação do risco permite que recursos limitados de saúde sejam otimizados. Para a prática clínica, isso significa que gestantes com o perfil de alto risco devem receber monitoramento intensivo no pré-natal e, de forma crucial, a implementação da profilaxia primária com ácido acetilsalicílico (AAS), uma estratégia baseada em evidências que comprovadamente reduz a incidência de PE pré-termo. A falha em adotar protocolos clínicos baseados nesta estratificação representa uma janela de oportunidade perdida para a prevenção de desfechos adversos graves (WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS, 2023; PEIXOTO et al., 2023).
Implicações para a Pesquisa Futura e Políticas de Saúde
O futuro da gestão da PE reside na personalização da predição. Embora a “assinatura clínica” seja poderosa, futuras pesquisas devem necessariamente se mover em direção à integração preditiva de biomarcadores (como a razão sFlt-1/PlGF), fatores genéticos e, de forma crítica, fatores socioeconômicos e ambientais para refinar ainda mais o risco individual. Essa abordagem multifatorial visa melhorar a capacidade de predição do risco de PE no primeiro trimestre para gestantes de risco intermediário.
Em nível de saúde pública, a luta contra a PÉ requer mais do que apenas a atualização de protocolos. São essenciais o investimento em políticas de saúde pública que ampliem o acesso ao rastreamento pré-natal de qualidade em populações vulneráveis e a capacitação contínua dos profissionais para o manejo e a adesão às diretrizes clínicas. Somente através da pesquisa translacional e de protocolos clínicos rigorosos e baseados em evidências é possível alcançar o objetivo global de reduzir a morbimortalidade associada à PE e otimizar o cuidado obstétrico em todos os níveis de atenção (PEIXOTO et al., 2023).
REFERÊNCIAS
BMC PREGNANCY AND CHILDBIRTH. Review of observational studies of the impact of cardiovascular risk factors on preeclampsia in sub-Saharan Africa. 2021;21:578.
JIKAMO B, ADEFIS M, AZALE T, ALEMU K. Incidence, trends and risk factors of preeclampsia in sub-Saharan Africa: a systematic review and meta-analysis. Pan Afr Med J. 2023;11(1).
LUO ZC, et al. Clinical risk factors for preeclampsia determined in early pregnancy: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2016;353:i1755.
PEIXOTO FM, COSTA FS, KOBAYASHI S, et al. Prediction and prevention of preeclampsia. Rev Bras Ginecol Obstet. 2023;45(1):1-12.
PIRMANSYAH E, BERAWI KN. Factors associated with the incidence of preeclampsia in pregnant women: literature review. Med Prof J Lampung. 2024;13(4):757-768.
WORLD JOURNAL OF ADVANCED RESEARCH AND REVIEWS. Analysis of risk factor of preeclampsia: A literature review. 2023;17(01):266–272.
