PATIENT-SPECIFIC TITANIUM PLATES FOR MANDIBULAR FRACTURES – LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510301908
Paola Campos Mello Venturini
Nicholas Pascuotte Filippetti
Hélio de Jesus Kiyochi Júnior
Kelly Cristine Tarquinio Marinho
Levy Anderson Cesar Alves
Juliana Bellini Pereira da Silva
RESUMO
As fraturas mandibulares são lesões frequentes na região facial, frequentemente resultantes de traumas de alta energia, acidentes automobilísticos, quedas, agressões físicas e procedimentos cirúrgicos. O tratamento visa restaurar a função mastigatória, a oclusão dentária e a integridade estética, sendo a estabilização rígida dos fragmentos ósseos essencial para prevenir complicações como má consolidação, infecção e deformidades. As placas de titânio, especialmente as personalizadas, têm se destacado pela elevada resistência mecânica, biocompatibilidade e adaptação anatômica precisa. A incorporação de tecnologias digitais, como tomografia computadorizada de feixe cônico, planejamento assistido por computador (CAD/CAM) e manufatura aditiva (impressão 3D), possibilita confecção de placas sob medida, promovendo redução do tempo cirúrgico, melhor distribuição de cargas e recuperação funcional mais eficiente. Apesar das vantagens, limitações incluem custo elevado, necessidade de mão de obra especializada e acesso restrito à tecnologia. Comparativamente, as placas personalizadas demonstram superioridade funcional, estabilidade biomecânica e resultados estéticos em relação às placas convencionais de estoque, embora ambas possam demandar remoção em casos de complicações ou desconforto. Este artigo revisa as indicações, processos de fabricação e evidências clínicas sobre o uso de placas de titânio em fraturas mandibulares, ressaltando avanços tecnológicos e desafios na prática clínica.
Palavras-chave: Fraturas mandibulares; Placas de titânio; Reconstrução mandibular; Placas personalizadas; CAD/CAM; Impressão 3D; Estabilidade biomecânica.
ABSTRACT
Mandibular fractures are common facial injuries, often resulting from high-energy trauma, motor vehicle accidents, falls, physical assaults, and surgical procedures. Treatment aims to restore masticatory function, dental occlusion, and aesthetic integrity, with rigid stabilization of bone fragments being essential to prevent complications such as malunion, infection, and deformities. Titanium plates, especially patient-specific ones, have demonstrated high mechanical strength, biocompatibility, and precise anatomical adaptation. The integration of digital technologies, including cone-beam computed tomography, computer-aided design/manufacturing (CAD/CAM), and additive manufacturing (3D printing), allows for customized plate fabrication, reducing operative time, improving load distribution, and enhancing functional recovery. Despite these advantages, limitations include high cost, specialized personnel requirements, and restricted technology access. Comparatively, patient-specific plates offer superior functional outcomes, biomechanical stability, and aesthetic results over conventional stock plates, although both may require removal in cases of complications or discomfort. This article reviews indications, manufacturing processes, and clinical evidence on the use of titanium plates in mandibular fractures, highlighting technological advances and clinical challenges.
Keywords: Mandibular fractures; Titanium plates; Mandibular reconstruction; Patient-specific plates; CAD/CAM; 3D printing; Biomechanical stability.
INTRODUÇÃO
As fraturas mandibulares constituem uma das lesões mais frequentes que acometem a face, representando aproximadamente dois terços de todas as fraturas que acometem a face. A alta incidência está relacionada à posição anatômica proeminente da mandíbula, o que a torna particularmente suscetível a diferentes tipos de trauma, como acidentes automobilísticos, quedas, agressões físicas, incidentes esportivos e lesões por projéteis. Além disso, fatores socioeconômicos, idade e gênero também exercem influência significativa sobre a etiologia dessas fraturas, sendo os homens os mais acometidos (Otano et al., 2024; Rosa et al., 2022).
A classificação dessas fraturas leva em consideração a localização anatômica, incluindo regiões como côndilo, ramo, coronoide, ângulo, corpo, sínfise e parassínfise. O tratamento tem como principal objetivo a restauração da função mastigatória e da oclusão dentária, o que é alcançado por meio da redução anatômica precisa e da estabilização dos fragmentos ósseos. A falha nesse processo pode ocasionar complicações como consolidação viciosa, má oclusão e infecção, comprometendo tanto a função quanto a estética do paciente (Che et al., 2024; Rosa Et al., 2022).
Os avanços técnicos permitiram a consolidação do uso de sistemas de osteossíntese em titânio na prática clínica. Esses sistemas, compostos por placas e parafusos, apresentam elevada resistência mecânica,biocompatibilidade e capacidade de promover estabilidade adequada. Existem atualmente diversos modelos de fixação em titânio,cuja escolha depende de fatores como a extensão do defeito, o padrão da fratura, a condição sistêmica e a adesão do paciente ao tratamento. A fixação pode ser realizada sob o princípio de suporte de carga, indicado em casos de fraturas complexas, ou de compartilhamento de carga, utilizado em fraturas menos extensas (Hijazi et al.,2023; Otano et al., 2024; Rosa et al., 2022).
Além disso, a incorporação de tecnologias digitais tem aprimorado a previsibilidade dos procedimentos reconstrutivos. O uso de tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), design auxiliado por computador (CAD) e manufatura assistida por computador (CAM) permite o’planejamento virtual tridimensional das cirurgias, possibilitando a personalização das placas e a melhor adaptação às estruturas anatômicas do paciente. Essa Abordagem contribui para maior precisão, redução do tempo operatório e diminuição do risco de complicações intra e pós-operatórias (Che et al., 2024; Hijazi et al., 2023).
Apesar dos avanços, complicações como má consolidação, não união óssea, instabilidade dos fragmentos e infecção ainda constituem desafios relevantes. Esses eventos podem estar relacionados a fatores sistêmicos, como distúrbios metabólicos e má nutrição, ou a condições locais, como instabilidade mecânica, contato inadequado entre os fragmentos e aplicação incorreta dos dispositivos de fixação (Hijazi et al., 2023; Otano et al., 2024).
Diante da relevância das fraturas mandibulares e da ampla utilização das placas de titânio na fixação e reconstrução óssea, torna-se essencial compreender as possibilidades terapêuticas disponíveis e os avanços tecnológicos que vêm transformando a prática clínica. Nesse contexto, este artigo tem como objetivo revisar a literatura sobre o uso de placas de titânio em fraturas mandibulares, com ênfase nas aplicações atuais e no papel das placas personalizadas no aprimoramento dos resultados cirúrgicos.
METODOLOGIA
Este estudo constituiu uma revisão de literatura sobre o uso de placas de titânio personalizadas na reconstrução de fraturas mandibulares. A seleção dos artigos foi realizada entre os meses de abril e outubro, considerando publicações em português e inglês disponíveis em bases de dados reconhecidas, como PubMed, Scielo, Google Scholar e outras plataformas científicas pertinentes.
Foram inicialmente identificados mais de 40 artigos utilizando os descritores: mandibular fractures, titanium plates, patient-specific plates, CAD/CAM, 3D printing, reconstruction, fraturas mandibulares, placas de titânio, placas personalizadas e combinações correlatas. Após análise de título, resumo e conteúdo completo, foram incluídos 20 artigos que atendiam aos critérios de relevância clínica, qualidade metodológica, atualidade das informações e pertinência ao tema proposto.
Foram excluídos estudos duplicados, revisões secundárias não sistemáticas, relatos de caso isolados sem relevância científica consolidada e publicações com dados incompletos ou inconsistentes. Os dados extraídos abordaram: indicações clínicas, técnicas de fabricação de placas, comparações entre placas personalizadas e de estoque, resultados funcionais e estéticos, complicações e perspectivas futuras.
A síntese do material permitiu organizar as informações em tópicos temáticos, favorecendo a análise crítica e a discussão sobre os avanços tecnológicos e os desafios do uso de placas de titânio personalizadas em fraturas mandibulares.
REVISÃO DE LITERATURA
1. Anatomia da Mandíbula
A mandíbula é um osso que está localizada no terço inferior da face e é o único osso móvel do esqueleto facial, possuindo formato em “U” que compreende um corpo e dois ramos ascendentes. Sua posição anterior e proeminente a torna particularmente exposta a forças externas, o que a torna uma estrutura vulnerável a diversos tipos de traumas (Otano et al., 2024).
Em termos anatômicos, a mandíbula é composta por duas camadas principais: uma externa de osso cortical denso, responsável pela resistência estrutural, e uma interna de osso trabecular esponjoso, que confere leveza e alguma flexibilidade ao osso. A espessura do osso cortical varia de acordo com a região anatômica, oscilando entre 1 mm e 4 mm, o que influencia diretamente na resistência local às fraturas (Hijazi et al., 2023; Webi et al., 2022).
As principais estruturas anatômicas incluem: o processo alveolar, responsável por sustentar os dentes inferiores; o’processo condilar, que se articula com o osso temporal formando a articulação temporomandibular (ATM); o’processo coronóide, onde se insere o músculo temporal; o’forame mandibular, por onde passa o nervo alveolar inferior; e a sínfise mandibular, região central de fusão das metades mandibulares (Hijazi et al., 2023).
Além de seu papel estrutural, a mandíbula é essencial como ponto de inserção muscular. Os músculos envolvidos na abertura mandibular incluem o digástrico e o pterigóideo lateral, enquanto o fechamento da mandíbula é realizado principalmente pelo masseter, temporal e pterigóideo medial. Outros músculos, como o genioglosso, gênio-hióideo, bucinador, platisma, milo-hióideo, mentual,depressor do lábio inferior e depressor do ângulo da boca, participam da estabilização mandibular e de funções complementares (Otano et al., 2024).
Funcionalmente, a mandíbula é imprescindível para processos fisiológicos como mastigação, deglutição, fonação, respiração e manutenção da oclusão dentária. Seu movimento é viabilizado pela ação coordenada dos músculos mastigatórios e da ATM, sendo regulado pelas forças oclusais e pelas estruturas articulares. A mandíbula também desempenha papel fundamental no crescimento e desenvolvimento craniofacial, influenciando diretamente a simetria e proporção facial (Webi et al., 2022; Hijazi et al., 2023; Xia et al., 2020).
2. Fraturas Mandibulares
A vulnerabilidade da mandíbula a fraturas decorre de sua posição anatômica exposta, de sua proeminência facial e das variações na espessura e densidade óssea ao longo de sua extensão. A mandíbula é o segundo osso facial mais acometido por fraturas, sendo superado apenas pelo osso nasal (Otano et al., 2024).
A distribuição das fraturas mandibulares varia conforme a região anatômica e o mecanismo de trauma. As áreas mais afetadas incluem o corpo mandibular (29,5%), o ângulo (27,3%), o côndilo (21,1%), a sínfise (19,5%), o ramo (2,4%)e o processo coronóide (0,2%). Essa distribuição reflete tanto a anatomia óssea quanto os vetores de força resultantes dos diferentes tipos de trauma (Hijazi et al., 2023; Webi et al., 2022).
A etiologia mais comum para fraturas mandibulares são os acidentes automobilísticos, seguido por quedas, agressões físicas, traumas esportivos e lesões por arma de fogo ou arma branca. As consequências clínicas variam de acordo com a extensão e localização da fratura, podendo incluir dor intensa, alteração da oclusão dentária, desvio mandibular, dificuldade respiratória, edema e comprometimento funcional (Rosa et al., 2022; Webi et al., 2022).
Do ponto de vista clínico e reconstrutivo, defeitos mandibulares causados por traumas requer estratégia de reconstrução adequada para restaurar a integridade estrutural e funcional da mandíbula. A falha em realizar uma reconstrução eficaz pode levar a consolidação viciosa, má oclusão e disfunções da ATM. Portanto, a abordagem cirúrgica deve considerar aspectos biomecânicos,anatômicos e estéticos para garantir uma recuperação satisfatória (Xia et al., 2020; Che et al., 2024).
3. Indicações de Placa
As placas de titânio são amplamente recomendadas para estabilização rígida em fraturas mandibulares complexas e deslocadas, nas quais os segmentos ósseos apresentam desvio significativo. Nesses casos, a aplicação das placas possibilita uma redução precisa e oferece estabilidade adequada para a consolidação óssea, minimizando riscos de consolidação viciosa, má oclusão e infecções que podem comprometer tanto a função quanto a estética facial. (Rosa et al., 2022; Che et al., 2024)
Em situações de reconstrução mandibular após ressecções tumorais, traumas graves, osteonecrose ou infecções severas, as placas personalizadas de titânio desempenham papel fundamental ao restabelecer a continuidade óssea. Elas fornecem suporte mecânico necessário para fixação de enxertos ósseos ou retalhos vascularizados, contribuindo para a manutenção da função mastigatória e da simetria facial (Xia et al., 2020; Hijazi et al., 2023).
Nos casos de mandíbulas severamente atróficas, geralmente decorrentes da reabsorção óssea progressiva após perda dentária, a estrutura óssea remanescente é reduzida principalmente ao osso cortical, tornando-se fina e frágil. Nestes pacientes, o risco de fraturas aumenta consideravelmente durante procedimentos como a instalação de implantes dentários, o que justifica o uso de placas de titânio como reforço estrutural para prevenir fraturas e garantir maior segurança no tratamento (Fabris et al., 2019).
A extração de terceiros molares inferiores profundamente inclusos, especialmente em pacientes idosos ou com lesões ósseas pré-existentes, é uma situação que eleva o risco de fratura mandibular. Nesses casos, o emprego profilático de placas de titânio atua na proteção da estrutura óssea, evitando complicações durante e após o procedimento cirúrgico (Onica et al., 2025).
Em cirurgias que envolvem grande descolamento periosteal ou manipulação óssea intensa, é comum manter placas de titânio fixadas por períodos mais prolongados para prevenir fraturas tardias. Essa abordagem oferece suporte adicional à mandíbula durante a recuperação, especialmente em pacientes com fatores de risco ou em procedimentos complexos (Onica et al., 2025).
Pacientes com fatores sistêmicos ou locais, tais como aqueles submetidos à radioterapia na região de cabeça e pescoço, usuários de medicamentos que alteram o’metabolismo ósseo, portadores de doenças sistêmicas,tabagistas e bruxistas, apresentam maior vulnerabilidade a complicações ósseas. Nestes casos, o uso de placas personalizadas assegura maior estabilidade e suporte durante intervenções cirúrgicas, compensando eventuais fragilidades anatômicas ou biológicas (Fabris et al., 2019).
O planejamento cirúrgico otimizado é fundamental para o sucesso desses procedimentos. O uso de tecnologias digitais avançadas, como a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), softwares de modelagem CAD/CAM manufatura aditiva (impressão 3D), permite a definição precisa da geometria das placas e o posicionamento exato dos parafusos. Essa precisão contribui para a redução significativa do tempo operatório e para melhores desfechos clínicos, aumentando a segurança e eficácia do tratamento (Che et al., 2024).
4. Processo de Fabricação de Placas Personalizadas de Titânio para Reconstrução Mandibular
A fabricação de placas personalizadas para reconstrução mandibular inicia-se com a aquisição de imagens médicas em alta resolução, geralmente obtidas por meio de tomografia computadorizada (TC) convencional ou tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), que oferece menor exposição à radiação e excelente definição anatômica. Essas imagens são convertidas em arquivos no formato DICOM e processadas em softwares especializados, como o InVesalius®, para a reconstrução tridimensional da anatomia mandibular do paciente. A Modelagem virtual resultante serve de base para o planejamento cirúrgico e para o desenvolvimento de uma placa que se ajusta perfeitamente às particularidades anatômicas individuais. (Che et al., 2024; Otano et al., 2024; Hijazi et al., 2023; Rivera et al., 2019)
Um defeito ósseo segmentar da mandíbula caracteriza-se pela perda completa de um segmento mandibular específico, podendo decorrer de infecções, osteomielite, ressecções tumorais ou fraturas cominutivas. Nesses casos, a reconstrução imediata é fundamental para restaurar a integridade funcional e estética da região afetada. As próteses mandibulares personalizadas, fabricadas por meio de impressão 3D, podem ser projetadas para se ajustarem precisamente às dimensões e formato do defeito ósseo. A utilização de sistemas de planejamento e fabricação assistidos por computador (CAD/CAM) permite incorporar essas próteses ao planejamento pré-operatório e à produção de implantes metálicos adaptados individualmente, favorecendo melhores resultados cirúrgicos e recuperação acelerada (Chen et al., 2024).
Com o modelo 3D da mandíbula, procede-se ao design da placa utilizando softwares CAD (Computer-Aided Design), como o Rhinoceros®. Nesta etapa, a geometria da placa é definida, levando em consideração as especificidades anatômicas e biomecânicas do paciente. Em seguida, aplica-se a análise estrutural por elementos finitos (FEA),que avalia a resistência mecânica do projeto, bem como a distribuição de tensões e possíveis deformações, assegurando a integridade e funcionalidade do implante. (Rivera et al., 2019; Hijazi et al., 2023)
O avanço do planejamento virtual 3D e da impressão 3D possibilita a confecção de implantes personalizados, garantindo melhor adaptação anatômica, resultados estéticos superiores e redução do tempo cirúrgico. A placa impressa atua como molde para o reposicionamento preciso dos fragmentos ósseos, facilitando a fixação e acelerando a cicatrização, além de diminuir riscos como pseudoartrose e infecções. Em fraturas cominutivas, a reconstrução virtual é fundamental para reconstituir a anatomia antes da fabricação do implante. Apesar dos benefícios, a tecnologia ainda é pouco acessível devido a custos e à necessidade de pessoal qualificado (Rivera et al., 2019; Pandrey et al., 2025; Shilo et al., 2025).
A fabricação da placa ocorre por meio da manufatura aditiva, ou impressão 3D, que constrói o implante camada por camada a partir de pós metálicos. As tecnologias predominantes são o Selective Laser Melting(SLM), que utiliza laser para a fusão seletiva do pó metálico, conferindo acabamento superficial de alta qualidade e controle rigoroso da porosidade, e o Electron Beam Melting (EBM), que emprega feixe de elétrons, destacando-se pela velocidade de produção e pelas excelentes propriedades mecânicas dos implantes produzidos. Outras técnicas, como estereolitografia, sinterização seletiva a laser (SLS) e jato aglutinante, podem ser utilizadas conforme a fase de desenvolvimento e prototipagem do implante. Essa abordagem minimiza desperdício de material e possibilita a criação de geometrias complexas com alta precisão. (Pandrey et al., 2025; Rivera et al., 2019)
O design da placa pode incorporar superfícies porosas ou texturizadas para favorecer a osseointegração, aumentando a fixação e a estabilidade a longo prazo. O planejamento prévio também contempla o número, a posição e angulação dos parafusos, otimizando a fixação e reduzindo o tempo cirúrgico. O polimento seletivo das áreas em contato com tecidos moles, como o lado bucal, visa proporcionar maior conforto ao paciente e minimizar irritações. A espessura da placa é ajustada conforme as demandas mecânicas e anatômicas, sendo comum variações entre 1,5 mm e 3,0 mm, buscando equilíbrio entre resistência, leveza e adaptação anatômica para garantir funcionalidade e conforto. (Pandrey et al., 2025; Abbasi et al., 2024; Rivera et al., 2019; Onica et al., 2025; Rosa et al., 2022)
O titânio é o material preferencialmente utilizado na fabricação dessas placas devido à sua leveza, elevada resistência à corrosão e notável biocompatibilidade. Naturalmente, sua superfície desenvolve uma camada fina de óxido de titânio (TiO₂), que funciona como barreira protetora, embora possua porosidade que permite certa liberação gradual de íons metálicos. Com o tempo, essa camada pode atingir até 200 nanômetros de espessura, facilitando a migração de íons para os tecidos adjacentes. Para mitigar esse efeito, aplica-se o tratamento de anodização térmica, que cristaliza e espessa a camada de óxido, conferindo propriedades isolantes que aprimoram a estabilidade biológica e previnem reações adversas. (Rosa et al., 2022; Maia et al., 2010)
Durante a cirurgia, a placa personalizada atua como guia para o reposicionamento exato dos segmentos ósseos, eliminando a necessidade da tradicional dobra manual intraoperatória. Essa precisão reduz o tempo cirúrgico e o estresse mecânico sobre o implante. A fixação ocorre por meio de parafusos de titânio, cuja quantidade e disposição são definidas previamente no planejamento digital. As abordagens cirúrgicas podem variar entre a via intraoral — preferida por evitar cicatrizes externas — e a submandibular, dependendo da localização da fratura e das condições clínicas do paciente. (Almansoori et al., 2019; Che et al., 2024; Medrado Filho et al., 2021)
Os desafios atuais da fabricação dessas placas incluem a necessidade de elevado conhecimento técnico, domínio de softwares avançados de bioengenharia e acesso a impressoras de alta precisão. Apesar do custo ainda elevado, espera-se que a tecnologia se torne mais acessível com o avanço e disseminação dos processos. As Perspectivas futuras apontam para a produção sob demanda, com planejamento virtual em tempo real,integração com guias cirúrgicos e soluções cada vez mais individualizadas, visando resultados funcionais e estéticos superiores para pacientes com traumas mandibulares. (Pandrey et al., 2025; Shilo et al., 2025)
5. Tipos de Placas Utilizadas na Cirurgia Mandibular
As miniplacas são amplamente utilizadas na fixação de fraturas mandibulares devido às suas dimensões reduzidas e boa capacidade de estabilização óssea, o que permite uma aplicação versátil em todas as regiões anatômicas da mandíbula. Com espessuras geralmente variando entre 1,5mm e 2,0 mm, essas placas são indicadas principalmente para fraturas simples, nas quais os fragmentos ósseos mantêm certa integridade e conseguem suportar carga funcional. (Rosa et al., 2022)
A classificação das placas pode ser feita conforme o modo de carga funcional, distinguindo-se dois tipos principais: fixação tipo Load- Sharing (compartilhamento de carga) e fixação tipo Load-Bearing(suporte total de carga). A fixação Load-Sharing é empregada quando o osso fraturado ainda é capaz de suportar parte da força mastigatória, de modo que a miniplaca atua em conjunto com o osso na sustentação funcional.
Esse tipo é mais indicado para fraturas lineares e não cominutivas, onde não há perda significativa de tecido ósseo, sendo as miniplacas de 1,5 mm a 2,0 mm adequadas para esse cenário. Já a fixação Load-Bearing é utilizada em casos nos quais o osso não consegue contribuir para a sustentação, como em fraturas cominutivas, defeitos ósseos extensos ou mandíbulas atróficas. Nessa situação, a placa precisa absorver totalmente as forças biomecânicas do processo mastigatório, exigindo placas mais espessas, entre 2,4 mm e 3,0 mm, normalmente classificadas como placas de reconstrução. (Rosa et al., 2022)
Quanto aos sistemas de fixação, as placas de titânio podem ser empregadas com sistemas convencionais ou do tipo locking. No sistema locking, o parafuso se fixa diretamente à placa através de uma rosca interna, garantindo maior estabilidade ao conjunto. Essa fixação é especialmente benéfica em situações onde o contato uniforme entre placa e osso não pode ser assegurado, como em fraturas com geometria irregular ou em casos com significativa perda óssea. (Rosa et al., 2022)
Os formatos e configurações das placas são escolhidos conforme a localização e complexidade da fratura. Entre as opções mais frequentes encontram-se placas de 4 ou 6 furos, placas duplas compostas por duas placas de 4 ou 6 furos, e placas com formato em “duplo Y” ou outras conformações específicas, recomendadas especialmente para áreas como a sínfise ou o corpo mandibular, principalmente em fraturas multifocais ou que apresentam instabilidade mecânica acentuada. (Rosa et al., 2022)
A decisão sobre qual placa utilizar deve considerar o padrão da fratura, sua localização anatômica, a qualidade do osso, a extensão do trauma e a necessidade de suporte funcional imediato. Placas mais finas e menos rígidas são indicadas para fraturas simples e estáveis, enquanto placas mais espessas e resistentes são preferidas para situações de maior carga funcional, assegurando adequada estabilização dos segmentos ósseos e favorecendo o’processo de consolidação óssea (Rosa et al., 2022).
6. Vantagens e Desvantagens das Placas de Titânio na Cirurgia Mandibular
As placas de titânio são amplamente reconhecidas por suas vantagens, principalmente em relação à fixação rígida que proporcionam, garantindo a estabilidade dos fragmentos ósseos durante o processo de consolidação da fratura. O’Titânio apresenta excelente biocompatibilidade e alta resistência mecânica, reduzindo significativamente os riscos de deslocamento ósseo e complicações como má oclusão e consolidação viciosa. Além disso, o material desenvolve espontaneamente uma fina camada de óxido de titânio (TiO₂) em sua superfície, o que favorece a osteointegração progressiva, aumentando a estabilidade e a longevidade do implante, promovendo uma recuperação funcional mais eficaz. O tratamento de superfície por anodização térmica espessa e cristaliza essa camada de óxido, funcionando como uma barreira isolante contra a liberação de íons metálicos, reduzindo o risco de reações inflamatórias, corrosão e toxicidade local. (Otano et al., 2024; Che et al., 2024 ou Hijazi et al., 2023; Maia et al., 2010)
O uso de placas personalizadas fabricadas por manufatura aditiva contribui para maior precisão cirúrgica e redução do tempo operatório, eliminando a necessidade de dobras intraoperatórias e permitindo uma adaptação exata à anatomia do paciente. Isso diminui o estresse mecânico sobre a placa e o risco de falhas estruturais. Outra vantagem importante é a ausência de morbidade relacionada ao local doador, diferentemente dos enxertos autógenos, evitando complicações e proporcionando um pós- operatório mais confortável. A correspondência anatômica das placas personalizadas permite um melhor reposicionamento dos segmentos ósseos, restabelecendo adequadamente asimetria facial, a oclusão dentária e a função mandibular. O Design avançado dessas placas, frequentemente incorporando superfícies porosas e geometria otimizada, promove a distribuição uniforme das cargas funcionais, evitando concentrações de estresse e minimizando a reabsorção óssea ao redor do implante. A adaptação cirúrgica também é facilitada, tornando as intervenções menos invasivas, com menor tempo sob anestesia e melhor integração com os tecidos moles. (Webi et al., 2022; Pandrey et al., 2025; Figueiredo et al.,2020; Che et al., 2024)
Outro avanço relevante refere-se ao uso de endopróteses de titânio específicas para o paciente na reconstrução completa da mandíbula, considerado um marco revolucionário no campo da cirurgia reconstrutiva. Essa abordagem oferece uma série de benefícios importantes, incluindo maior precisão na restauração da forma anatômica, eliminação da necessidade de trauma adicional no local doador, significativa redução do tempo operatório e do período de reabilitação, além da ausência de limitações anatômicas relacionadas à presença de grandes vasos. A correta instalação da prótese,confirmada radiologicamente, resultou em melhora imediata da estética facial e recuperação funcional relevante. Embora os resultados clínicos de curto prazo sejam promissores, essa estratégia ainda levanta questionamentos sobre o comportamento estrutural sob carga mastigatória prolongada. No entanto, a ausência de complicações infecciosas ou de exposição do implante ao longo do tempo observada em alguns estudos sugere o potencial dessas endopróteses como alternativa viável de reabilitação definitiva (Chernohorskyi et al., 2021).
No entanto, algumas desvantagens e desafios ainda permanecem. Há controvérsias na literatura sobre a necessidade de remoção das placas após a consolidação óssea, uma vez que placas assintomáticas podem permanecer no organismo por tempo indefinido, enquanto em outros casos a retirada se faz necessária por infecção, exposição, dor crônica ou desconforto mecânico. Complicações pós-operatórias como infecções, fístulas, exposição da placa, afrouxamento de parafusos e até fraturas da própria placa são mais frequentes em placas convencionais, especialmente quando a adaptação é inadequada durante a cirurgia. Placas superficiais podem ser palpáveis, causando desconforto ao paciente, e interferir em exames de imagem, dificultando o diagnóstico e o planejamento terapêutico. Além disso, o titânio, como outros implantes metálicos, pode apresentar limitações importantes, como interferência com sessões de radioterapia, produção de artefatos em exames de tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética, além de estar associado a um aumento na incidência de cirurgias secundárias em pacientes que necessitam de remoção da placa após a cicatrização da fratura. A presença prolongada da placa pode induzir atrofia óssea local e, em pacientes com cobertura insuficiente de tecidos moles, sensibilidade térmica a variações ambientais, principalmente em temperaturas frias (Otano et al., 2024; Al Mansoori et al., 2019; Sukegawa et al., 2020; Maia et al., 2010; Webi et al., 2022).
Placas convencionais de estoque apresentam desvantagens relacionadas à necessidade de moldagem intraoperatória, o’que prolonga o tempo cirúrgico e eleva o risco de erros na adaptação, comprometendo a rigidez e a biomecânica da fixação, além de possível deformação do material durante o’manuseio. Por outro lado, as placas personalizadas, embora apresentem resultados clínicos superiores, ainda possuem custo elevado devido à tecnologia avançada, mão de obra especializada e maior tempo de planejamento pré-operatório, limitando sua disponibilidade em alguns centros cirúrgicos. Também há desconhecimento acerca da durabilidade a longo prazo dessas placas personalizadas,sendo necessários estudos mais extensos para avaliar sua resistência mecânica, estabilidade óssea e ausência de complicações. (Almansoori et al., 2019; Pandrey et al., 2025; Shilo et al., 2025)
Além disso, a fabricação dessas placas requer rigoroso controle de qualidade e conformidade com normas técnicas e regulatórias, o que, aliado à variabilidade entre fabricantes e protocolos de validação, representa um desafio para padronização clínica. Pacientes submetidos à radioterapia de cabeça e pescoço apresentam risco aumentado de complicações relacionadas à exposição do implante, infecção e má cicatrização, devido à vascularização comprometida e qualidade prejudicada dos tecidos moles, evidenciando a necessidade de cuidados especiais nesse grupo. (Pandrey et al., 2025; Xia et al., 2020)
Um relato clínico descreve um paciente do sexo masculino que apresentou perda da porção anterior da mandíbula, cuja deformidade só foi adequadamente corrigida com o uso deprótese personalizada de titânio. Este método revelou-se superior às técnicas tradicionais de enxerto ósseo autógeno, especialmente em função da complexidade anatômica envolvida e da necessidade de correção simultânea do arco mandibular, da posição do mento e da simetria facial em um único procedimento. Apesar dos resultados iniciais positivos, ressalta-se a importância do acompanhamento a longo prazo para avaliação da estabilidade funcional e estética da reconstrução. Ademais, estudos contemporâneos indicam que pacientes submetidos a reconstruções mandibulares pós-traumas severos, como ferimentos por arma de fogo, frequentemente requerem múltiplas intervenções cirúrgicas e tratamento contínuo, a fim de alcançar resultados clínicos satisfatórios, o que destaca o papel fundamental das placas de titânio personalizadas como elemento estruturante nessas abordagens complexas (Abbasi et al., 2024).
7. Placa personalizada x placa de estoque: comparação e evidências clínicas
A comparação entre placas de titânio personalizadas e placas de estoque para reconstrução mandibular tem sido objeto de diversos estudos clínicos e laboratoriais, especialmente devido às diferenças observadas na performance biomecânica, nos resultados funcionais e no tempo operatório. Em um estudo clínico conduzido com 20 pacientes, divididos equitativamente em dois grupos, investigaram-se aspectos clínicos relevantes relacionados ao uso das placas convencionais e das placas sob medida. No grupo tratado com placas de estoque, a média de idade foi de 34,6 anos, variando entre 22 e 73 anos, com equilíbrio entre os sexos (cinco homens e cinco mulheres). Já no grupo das placas personalizadas, a média de idade foi de 35,2 anos, com predominância masculina (oito homens e duas mulheres), e variação etária de 19 a 75 anos (Che et al., 2024).
As fraturas mandibulares mais frequentes foram localizadas na região do ângulo, seguidas por acometimentos na sínfise e em combinações envolvendo côndilo, sínfise e parassínfise. As avaliações pré-operatórias não revelaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto às características das fraturas, garantindo maior confiabilidade na comparação dos desfechos. Após seis semanas da intervenção cirúrgica, observou-se que não houve diferença significativa entre os grupos nas taxas de complicações clínicas. Ambos apresentaram parestesias,hipoestesias e queixas subjetivas relacionadas ao desconforto oclusal. No entanto, as forças oclusais apresentaram recuperação significativamente maior no grupo que recebeu placas personalizadas, sugerindo superioridade na eficiência funcional e na reabilitação biomecânica desses pacientes (Che et al., 2024).
Esse desempenho pode ser atribuído à precisão obtida na redução dos segmentos ósseos fraturados e à adaptação exata promovida pelas placas sob medida, fabricadas com base em imagens tomográficas tridimensionais do paciente. Essa acurácia elimina a dependência da habilidade técnica do cirurgião para a moldagem intraoperatória, reduzindo variações indesejadas no resultado final e promovendo maior estabilidade na fixação (Che et al., 2024).
A análise biomecânica em estudos in vitro reforça a superioridade das placas personalizadas em relação à rigidez estrutural. A maior rigidez conferida por essas próteses personalizadas favorece o reposicionamento ósseo com maior precisão e sustenta adequadamente as cargas funcionais durante o processo de cicatrização, contribuindo para uma reabilitação mais precoce da função mandibular e redução da incidência de microdeformações ou falhas na fixação (Figueiredo et al., 2020).
Adicionalmente, as placas personalizadas oferecem vantagens operatórias consideráveis. A confecção prévia das peças com base na anatomia individual do paciente, por meio da impressão 3D, reduz significativamente o tempo cirúrgico, uma vez que dispensa a necessidade de dobra e adaptação intraoperatória. Essa agilidade no posicionamento e fixação do dispositivo contribui para menor tempo sob anestesia, menor sangramento e menor risco de complicações intraoperatórias, além de reduzir o’desgaste físico do cirurgião e da equipe (Al Mansoori et al., 2019; Xia et al., 2020; Che et al., 2024).
No que diz respeito aos resultados estéticos e funcionais,pacientes submetidos à reconstrução com placas personalizadas relataram melhorias significativas na qualidade de vida pós-operatória. A adaptação anatômica precisa proporcionou melhor restauração da simetria facial, da função mastigatória e da oclusão, promovendo recuperação estética e funcional mais satisfatória quando comparada aos casos tratados com placas convencionais (Che et al., 2024).
Apesar do uso ainda amplamente difundido das placas de estoque na prática clínica, suas limitações são evidentes. A Moldagem manual intraoperatória exige alto grau de destreza técnica, aumenta o tempo cirúrgico e pode comprometer a estabilidade se realizada de forma inadequada. Isso pode resultar em deformações das placas, afrouxamento dos parafusos ou até mesmo fraturas do sistema de fixação, elevando o risco de insucesso no tratamento (Al Mansoori et al., 2019).
Independentemente do tipo de placa utilizada, tanto as convencionais quanto as personalizadas podem demandar remoção futura, seja por complicações ou por questões funcionais ou protéticas. Entre as principais causas de remoção estão infecções com deiscência da ferida,exposição do material, fratura do dispositivo, desconforto devido à palpabilidade ou soltura dos parafusos. Em alguns casos, a retirada da placa pode ser motivada por necessidade de reabilitação protética, extração dentária associada ou reconstruções secundárias — especialmente em pacientes pediátricos, cujas estruturas ósseas ainda estão em desenvolvimento (Sukegawa et al., 2020).
A maior parte das complicações que levam à remoção ocorre no primeiro ano pós-operatório, embora existam registros de remoção tardia, mesmo após cinco anos da instalação. Fatores como idade, sexo, condições sistêmicase características da fratura devem ser cuidadosamente monitorados no acompanhamento de longo prazo, a fim dereduzir riscos e garantir a durabilidade dos resultados obtidos com o uso dessas placas (Sukegawa et al., 2020).
DISCUSSÃO
As placas personalizadas de titânio representam um avanço significativo na reconstrução de fraturas mandibulares, oferecendo adaptação anatômica precisa, estabilidade biomecânica superior e redução do tempo cirúrgico. Sua fabricação baseada em imagens tridimensionais do paciente permite o planejamento prévio do posicionamento dos segmentos ósseos e dos parafusos, eliminando a necessidade de dobras intraoperatórias e diminuindo o risco de erros técnicos. Che et al. (2024) ressaltam que essa precisão contribui para recuperação funcional precoce, melhora da força oclusal e eficiência mastigatória, enquanto Al Mansoori et al. (2019) destacam que, mesmo em fraturas complexas, a tecnologia reduz o estresse mecânico sobre o cirurgião e a equipe. Apesar das vantagens, a acessibilidade ainda é limitada pelo custo elevado e pela necessidade de equipamentos e mão de obra especializada. (Che et al., 2024; Almansoori et al., 2019; Rosa et al., 2022; Figueiredo et al., 2020)
A superioridade biomecânica das placas personalizadas também é evidente em estudos in vitro, que demonstram maior rigidez estrutural e capacidade de suportar cargas mastigatórias, prevenindo microdeformações durante a cicatrização óssea. Figueiredo et al. (2020) enfatizam que essa característica favorece a reabilitação precoce da função mandibular, enquanto as placas de estoque dependem da habilidade do cirurgião para adaptação intraoperatória, podendo comprometer a estabilidade e aumentar o risco de falhas. Sukegawa et al. (2020) acrescentam que, embora as placas personalizadas apresentem menor incidência de complicações, ainda é essencial o acompanhamento clínico a longo prazo, principalmente em casos complexos ou em pacientes com fatores de risco sistêmicos. (Figueiredo et al., 2020; Sukegawa et al., 2020; Che et al., 2024)
Quanto às indicações clínicas, a literatura apresenta consenso parcial sobre o uso das placas personalizadas. Fabris et al. (2019) e Onica et al. (2025) recomendam sua aplicação em mandíbulas atróficas, pacientes pós-radioterapia ou com fragilidade óssea, devido à maior segurança estrutural e prevenção de fraturas. Por outro lado, Xia et al. (2020) e Pandrey et al. (2025) alertam que a utilização indiscriminada em fraturas pequenas ou ossos relativamente preservados pode não ser necessária e aumentar custos, reforçando que a escolha deve ser individualizada, considerando qualidade óssea, extensão da fratura e fatores biológicos. (Fabris et al., 2019; Onica et al., 2025; Xia et al., 2020; Pandrey et al., 2025)
O titânio, material predominante na confecção dessas placas, apresenta vantagens reconhecidas quanto à biocompatibilidade, leveza e resistência mecânica, favorecendo a osteointegração e longevidade do implante. Tratamentos de superfície, como a anodização térmica, aumentam a estabilidade biológica e reduzem a liberação de íons metálicos. Entretanto, Otano et al. (2024) e Maia et al. (2010) alertam para limitações, incluindo interferência em exames de imagem, atrofia óssea local e sensibilidade térmica em áreas com pouca cobertura de tecido mole, enquanto Al Mansoori et al. (2019) lembram que placas de estoque, embora menos precisas, continuam mais acessíveis e fáceis de aplicar. (Otano et al., 2024; Maia et al., 2010; Almansoori et al., 2019; Webi et al., 2022)
O processo de fabricação das placas personalizadas, envolvendo aquisição de imagens médicas, reconstrução 3D, planejamento CAD/CAM e impressão 3D, é considerado um diferencial para a precisão cirúrgica. Che et al. (2024) enfatizam que a confecção baseada na anatomia individual permite posicionamento exato e redução de tempo operatório, enquanto Rivera et al. (2019) e Pandrey et al. (2025) destacam que a análise por elementos finitos assegura distribuição uniforme das tensões e resistência mecânica adequada. Apesar dessas vantagens, o custo elevado e a necessidade de mão de obra especializada ainda limitam o uso amplo dessa tecnologia. (Che et al., 2024; Rivera et al., 2019; Pandrey et al., 2025; Hijazi et al., 2023; Onica et al., 2025; Abbasi et al., 2024; Shilo et al., 2025)
A comparação com placas de estoque evidencia diferenças importantes. Placas convencionais exigem moldagem intraoperatória, demandam maior habilidade técnica e prolongam o tempo cirúrgico, podendo resultar em deformações, afrouxamento de parafusos ou instabilidade da fixação. Em contrapartida, placas personalizadas oferecem adaptação exata, distribuição otimizada de cargas e menor risco de complicações, embora impliquem custos mais elevados e planejamento prévio mais complexo. Sukegawa et al. (2020) destacam que a escolha do tipo de placa deve equilibrar recursos disponíveis, características do paciente e complexidade da fratura. (Almansoori et al., 2019; Sukegawa et al., 2020; Che et al., 2024)
A literatura também discute a necessidade de remoção das placas, um ponto de divergência. Placas personalizadas, quando assintomáticas, podem permanecer no organismo sem complicações, enquanto em casos de exposição, infecção ou desconforto, a retirada é indicada. O acompanhamento prolongado é essencial para avaliar durabilidade, estabilidade funcional e estética, principalmente em pacientes pediátricos ou com fraturas complexas, reforçando a necessidade de decisões individualizadas. (Sukegawa et al., 2020; Che et al., 2024)
Em síntese, a discussão evidencia que as placas personalizadas de titânio oferecem vantagens significativas em termos de precisão cirúrgica, adaptação anatômica, estabilidade biomecânica e resultados funcionais e estéticos. Contudo, limitações relacionadas a custo, acessibilidade e necessidade de tecnologia avançada mantêm as placas de estoque como alternativa válida em contextos clínicos específicos, especialmente em fraturas simples ou centros com recursos restritos. A escolha deve ser cuidadosamente ponderada, considerando evidências científicas, características individuais do paciente e objetivos clínicos. (Che et al., 2024; Almansoori et al., 2019; Rosa et al., 2022; Pandrey et al., 2025; Figueiredo et al., 2020)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A reconstrução mandibular constitui um dos maiores desafios da cirurgia bucomaxilofacial, exigindo precisão técnica, estabilidade funcional e resultados estéticos satisfatórios. As placas de titânio consolidaram-se como padrão ouro nesse contexto devido à sua biocompatibilidade, resistência mecânica e previsibilidade clínica. Com o avanço das tecnologias digitais, especialmente os sistemas CAD/CAM e a manufatura aditiva, tornou-se possível confeccionar placas personalizadas que se ajustam com precisão à anatomia do paciente, otimizando o tempo cirúrgico, reduzindo complicações e proporcionando resultados funcionais e estéticos superiores. Apesar das vantagens evidentes, persistem desafios relacionados ao custo elevado, à necessidade de infraestrutura tecnológica adequada e à escassez de estudos clínicos de longo prazo que avaliem o comportamento biomecânico e a durabilidade dessas placas. Ainda assim, é inegável que a integração entre engenharia biomédica e cirurgia maxilofacial representa uma transformação significativa no campo reconstrutivo, promovendo procedimentos mais seguros, previsíveis e individualizados. Assim, a integração entre ciência, tecnologia e prática clínica tende a consolidar um novo paradigma na reconstrução mandibular, no qual a personalização das placas de titânio representa não apenas um avanço técnico, mas um passo significativo rumo a reabilitações mais previsíveis, funcionais e esteticamente superiores, com maior benefício ao paciente e à prática cirúrgica como um todo.
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