PERIODISATION OF MYOFASCIAL RELEASE IN AMATEUR BODYBUILDERS BEFORE AND AFTER COMPETITION: AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511131114
Alcemir Soares do Vale1
Anderson Carlos Chrisostomo Pacheco1
Ralissa Costa dos Santos1
Thaísa Costa de Souza1
Jéssica Farias Macedo2
Resumo
Introdução: A liberação miofascial integra o repertório de técnicas fisioterapêuticas utilizadas no contexto esportivo para otimizar o desempenho, prevenir lesões e favorecer a recuperação tecidual. No fisiculturismo amador, modalidade caracterizada por ciclos intensivos de treinamento, dietas restritivas e elevadas demandas musculoesqueléticas, a periodização dessa técnica assume relevância crescente, embora ainda careça de fundamentação científica sistematizada. Objetivo: Analisar, por meio de uma revisão integrativa, em que período da preparação – pré ou pós-competição – a aplicação da liberação miofascial demonstra maior eficácia no desempenho atlético de praticantes de fisiculturismo amador. Materiais e métodos: A pesquisa foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais indexadas, contemplando publicações entre os anos de 2020 e 2025. Foram incluídos estudos completos em português, inglês e espanhol que abordassem a aplicação da técnica no contexto esportivo. No total, foram identificados 32 artigos, dos quais 7 atenderam aos critérios metodológicos após processo de triagem, leitura integral e classificação conforme o nível de evidência. Resultados: Os estudos indicam que a liberação miofascial apresenta maior impacto quando aplicada no período pré-competitivo, promovendo aumento da amplitude de movimento, flexibilidade e recuperação imediata após treinos intensivos, embora possam ocorrer efeitos adversos leves e transitórios. No período pós-competitivo, a utilização mostrou-se menos frequente, mas ainda associada à redução de dores residuais e à manutenção da mobilidade. Conclusão: Conclui-se, de modo preliminar, que a técnica, quando aplicada de forma estratégica e periodizada, constitui uma ferramenta de suporte relevante para a prática do fisiculturismo amador, reforçando a importância de intervenções fisioterapêuticas baseadas em evidências voltadas à otimização do desempenho e à recuperação muscular adequada.
Palavras-chave: Adesão. Desempenho. Fisiculturismo. Liberação miofascial. Periodização.
Abstract
Introduction: Myofascial release is part of the physiotherapeutic repertoire used in the sports context to optimise performance, prevent injuries, and enhance tissue recovery. In amateur bodybuilding, a discipline marked by intensive training cycles, restrictive diets, and high musculoskeletal demands, the periodisation of this technique gains increasing relevance but still lacks systematised scientific evidence. Objective: To analyse, through an integrative review, in which phase of preparation – pre- or post-competition – the application of myofascial release demonstrates greater effectiveness in athletic performance. Materials and method: The search was conducted in national and international indexed databases between 2020 and 2025, including full-text studies in Portuguese, English, and Spanish that addressed the application of the technique to sport. A total of 32 articles were identified, of which 7 met methodological criteria after screening, full-text reading, and evidence-level classification. Results: The findings indicate that myofascial release shows a stronger impact when applied during the precompetitive phase, enhancing range of motion, flexibility, and immediate recovery after intensive training, although mild and transient adverse effects may occur. In the postcompetitive phase, adherence was less frequent but still associated with benefits in reducing residual pain and maintaining mobility. Conclusion: It is concluded, on a preliminary basis, that when strategically applied and periodised, the technique represents a relevant support tool for amateur bodybuilding practice, reinforcing the importance of evidence-based physiotherapeutic approaches aimed at optimising performance and promoting adequate muscle recovery.
Keywords: Adherence. Bodybuilding. Myofascial release. Performance. Periodisation.
1. INTRODUÇÃO
O fisiculturismo, ou Bodybuilding, configura-se como um esporte competitivo no qual simetria, volume e definição muscular são avaliados por árbitros que observam detalhadamente cada aspecto corporal. Essa busca pela perfeição estética exige dedicação, disciplina e rigor físico. Atletas amadores, muitas vezes, recorrem a práticas pouco saudáveis, como dietas extremas, uso de anabolizantes, laxantes e diuréticos, na tentativa de alcançar o corpo idealizado. Tal comportamento impacta tanto a saúde física quanto o equilíbrio psicológico, ampliando riscos de adoecimento (Junior, 2024).
De acordo com a Confederação Brasileira de Musculação, Fisiculturismo e Fitness, são promovidos cerca de 70 eventos anuais (CBMFF). Esse cenário reflete a visibilidade adquirida pelo esporte nas redes sociais e nos palcos, com atletas amadores alcançando projeção nacional e internacional. Nos últimos anos, a modalidade expandiu-se de forma expressiva, com a criação de novas categorias e o crescimento do número de competições em todo o território nacional. Contudo, a crescente popularidade traz consigo o aumento da pressão competitiva e da busca por técnicas que favoreçam o desempenho.
O contexto competitivo demanda uma preparação estruturada em fases distintas, conhecidas como “off season” e “pré contest”. No primeiro estágio, prioriza-se o ganho de massa muscular, associado a treinos intensos e nutrição voltada à hipertrofia. Já o período pré-competitivo busca a redução da gordura corporal para melhor definição estética, exigindo dieta restritiva e aumento da carga de treinamento (Stefanou, 2023). Ambos os momentos submetem o corpo a estresse fisiológico elevado e a maiores riscos de lesões musculoesqueléticas, o que torna fundamental o uso de estratégias complementares de suporte (Spyrou, 2020).
Entre as técnicas de suporte, destaca-se a liberação miofascial, recurso fisioterapêutico que atua sobre o tecido conjuntivo denominado fáscia. Essa estrutura, responsável por envolver músculos, nervos e vasos sanguíneos, é determinante para a biomecânica corporal. Alterações em sua integridade podem comprometer a mobilidade e gerar disfunções musculoesqueléticas. Nesse sentido, a técnica promove benefícios como maior flexibilidade, relaxamento, melhora da circulação e redução de tensões musculares, fatores essenciais na preparação e recuperação esportiva (Aranda et al., 2024).
A utilização crescente da liberação miofascial entre fisiculturistas amadores reforça sua relevância no desempenho esportivo, seja para prevenção de lesões ou para otimização da performance. Estudos apontam efeitos positivos sobre a amplitude de movimento, a redução de dores tardias e a recuperação muscular (Shalamzari; Minoonejad; Seido, 2022). Entretanto, ainda são escassas as investigações que analisam sua eficácia em períodos específicos de preparação. A carência de evidências científicas aplicadas ao ambiente amador amplia a necessidade de revisões sistemáticas e integrativas sobre o tema (Bardini, 2023).
Nesse panorama, torna-se pertinente a produção acadêmica que articule fundamentos fisioterapêuticos, literatura científica atualizada e relatos da prática esportiva. A análise crítica dos efeitos temporais da técnica pode oferecer subsídios relevantes para orientar a atuação clínica, promover saúde e melhorar o rendimento. Além disso, o estudo contribui para preencher lacunas no campo esportivo amador, onde os recursos de suporte nem sempre são acessíveis. O objetivo deste artigo é analisar em que período da preparação — pré ou pós-competição — a aplicação da técnica de liberação miofascial é mais eficaz para otimizar o desempenho de atletas amadores de fisiculturismo.
2. MATERIAIS E MÉTODO
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, método que possibilita reunir, avaliar e sintetizar resultados de pesquisas relevantes para responder à questão norteadora proposta. A busca foi realizada nas bases PubMed, Scielo, Biblioteca Virtual em Saúde e Google Scholar, com recorte temporal entre abril e agosto de 2025. Foram empregados os descritores “liberação miofascial”, “fisiculturismo”, “bodybuilding”, “atletas amadores” e “performance esportiva”, combinados por operadores booleanos AND e OR. A investigação seguiu as etapas: identificação do problema, definição da questão, aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, triagem, análise crítica e síntese final dos estudos selecionados.
Os critérios de inclusão compreenderam artigos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis em português, inglês ou espanhol, com acesso integral e que abordassem a liberação miofascial no contexto esportivo. Foram aceitos ensaios clínicos, estudos observacionais, revisões sistemáticas, metanálises e relatos de caso que analisassem efeitos sobre mobilidade, recuperação muscular, performance ou prevenção de lesões. Os critérios de exclusão abrangeram estudos duplicados, trabalhos anteriores a 2020, resumos de congresso, dissertações não indexadas, artigos sem texto completo e pesquisas que se restringissem à reabilitação clínica desvinculada da prática esportiva competitiva.
A busca resultou em 32 publicações inicialmente encontradas, das quais 4 foram removidas por duplicidade, restando 28 estudos únicos. A triagem de títulos e resumos reduziu o número para 16 publicações elegíveis, das quais 4 foram excluídas por não atenderem aos critérios. Restaram 12 artigos submetidos à leitura integral, sendo 5 eliminados por ausência de dados específicos sobre liberação miofascial aplicada ao fisiculturismo ou esportes de força. Ao final do processo, 7 estudos foram incluídos para análise, representando o corpo documental que embasou esta revisão, conforme pode ser observado na imagem a seguir, esse percurso metodológico assegurou rigor, transparência e reprodutibilidade.
Figura 1. Fluxograma da Pesquisa.

Elaborado: Autores (2025)
Os estudos selecionados foram analisados criticamente por meio de fichamento estruturado que contemplou autores, ano, objetivo, amostra, metodologia, instrumentos de avaliação, resultados e conclusões. Além disso, cada trabalho foi classificado quanto ao nível de evidência e relevância prática para a atuação fisioterapêutica e esportiva. A síntese dos dados foi organizada em categorias temáticas, diferenciando os efeitos da liberação miofascial em períodos pré e pós-competição, bem como suas implicações para desempenho, prevenção de lesões e recuperação. Essa organização garantiu clareza na interpretação dos achados e forneceu subsídios consistentes para discussão dos resultados obtidos.
A seção de resultados foi estruturada em três categorias, cada uma representada por um quadro temático e acompanhada de análise crítica. A primeira categoria abrangeu os efeitos subjetivos relatados pelos atletas sobre benefícios e malefícios da técnica. A segunda categoria reuniu dados referentes à utilização da liberação miofascial no período pré-competitivo, destacando frequência de uso e finalidades principais. Já a terceira categoria contemplou o grau de adesão e a percepção de performance no período pós-competição. Essa disposição categorial possibilitou integrar evidências quantitativas e qualitativas, permitindo a interpretação comparativa entre diferentes momentos da preparação esportiva.
3. RESULTADOS
Com o objetivo de relatar os efeitos da liberação miofascial na preparação de atletas, foram selecionados oito artigos dos últimos cinco anos, sendo seus resultados sintetizados no Quadro 1.
Quadro 1 – Artigos selecionados para revisão relacionados à liberação miofascial.
| Autor/Ano | Tipo de Estudo | Objetivos do Estudo | Intervenção | Resultados |
| Junior 2020 | Relato de caso. | Avaliar a aplicação da LM na prevenção de lesão muscular. | Liberação miofascial instrumental com ventosa, raspadores e theragun nos músculos dos membros inferiores, uma vez por semana com duração de 60 minutos. | Redução de dores musculares, diminuição do cansaço físico e ausência de novas lesões. |
| Horbach et al., 2023 | Estudo transversal. | Avaliar e comparar a eficácia da mobilização miofascial em adultos praticantes regulares de exercícios físicos, considerando as técnicas utilizadas e a percepção dos praticantes. | Estudo com 160 participantes, via questionário online, avaliando técnicas aplicadas e sua eficácia, analisadas por estatística descritiva. | A técnica gera resultados satisfatórios, promovendo bem-estar e benefícios à saúde de praticantes de atividade física. |
| Pauli; Costa 2024 | Abordagem descritiva. | O estudo investigou os efeitos da prática de liberação miofascial sobre a mobilidade muscular, flexibilidade e a performance física de atletas de amadores. | 6 atletas do sexo masculino, 14 atendimentos antes dos treinos e 02 antes dos jogos, durante o período de 60 dias. | A liberação miofascial é eficaz como estratégia de preparação muscular a curto prazo, melhorando flexibilidade e desempenho imediato, mas necessita ser associada a outras intervenções para gerar resultados duradouros. |
| Segovia Chaux et al. 2022 | Intervenção longitudinal. | Analisar efeitos da LM + Dry Needling em dor e flexibilidade em praticantes de Muay Thai. | 7 atletas >18 anos; 4 sessões; LM manual (10 min) + LM instrumental (10 min) + dry needling (15 min); avaliações antes/depois. | Redução significativa da dor e melhora da flexibilidade; bom custo-benefício clínico. |
| Zhang et al. 2020 | Ensaio experimental randomizado crossover | Avaliar efeitos imediatos do SMR em flexibilidade, salto e equilíbrio | 18 jovens atletas (14 homens, 24 ± 2; 4 mulheres, 23 ± 1); 2 sessões crossover (SMR vs controle); auto-LM foam roller + bola dupla. | SMR aumentou flexibilidade e equilíbrio dinâmico; melhora imediata de desempenho. |
| Shalamzari et al. 2022 | Ensaio clínico randomizado | Investigar efeitos de SMR sobre razão H:Q e ADM do joelho em atletas com encurtamento de isquiotibiais | 24 universitários homens; 8 semanas; 3 grupos (SMR, alongamento, controle); sessões regulares. | SMR melhorou razão H:Q e amplitude de movimento do joelho comparado ao controle. |
| Fortin et al. 2020 | Estudo quase-experimental (ensaio intra-sujeitos) | Avaliar efeitos agudos da ALM, alongamento e aquecimento em atletas de basquetebol. | 14 atletas juvenis; protocolo único comparando ALM, alongamento estático/dinâmico e aquecimento; testes de agilidade, força de preensão e salto vertical. | ALM apresentou melhora imediata de agilidade e força semelhante a outras técnicas de aquecimento. |
Elaborado: Autores (2025).
A análise dos artigos selecionados permitiu a organização dos achados em três categorias temáticas, que dialogam diretamente com os objetivos da pesquisa. Cada categoria contempla aspectos específicos do uso da liberação miofascial por atletas amadores, abrangendo tanto percepções subjetivas quanto indicadores de frequência e adesão à técnica. A sistematização dos dados possibilitou identificar convergências e divergências entre os estudos, revelando tendências relevantes no contexto esportivo. A primeira categoria refere-se aos efeitos subjetivos relatados, destacando benefícios e possíveis malefícios associados ao uso da técnica.
Tabela 1 – Efeitos Subjetivos da Liberação Miofascial.

Elaborado: Autores (2025).
A análise da Tabela 1 evidencia que a liberação miofascial apresenta efeitos amplamente positivos sobre o bem-estar físico e emocional de atletas amadores. Os relatos mais recorrentes destacam a sensação de relaxamento muscular, a melhora da circulação e a redução de dores tardias pós-treino, aspectos diretamente relacionados à recuperação e à preparação para novos estímulos. Por outro lado, os estudos também apontam desconfortos temporários durante a aplicação da técnica, dor residual em alguns casos e pequenos hematomas.
Embora não comprometam a adesão, esses efeitos indesejados ressaltam a necessidade de acompanhamento profissional para aplicação correta. Assim, percebe-se que a técnica apresenta relação custo-benefício favorável, sendo reconhecida pelos atletas como estratégia preventiva e recuperativa de alto valor para o rendimento esportivo.
A sistematização dos dados referentes à fase pré-competitiva está organizada na Tabela 2, que apresenta o número de atletas identificados, a frequência de uso da técnica e as finalidades principais observadas. Os resultados evidenciam três níveis de adesão: alta, moderada e baixa, distribuídos conforme a experiência esportiva e o momento de preparação. A maior parte dos atletas amadores relatou utilização frequente da técnica, de duas a três vezes por semana, com foco na redução de tensões e na otimização dos treinos intensivos. Já em fases iniciais, a prática ocorre de modo moderado, geralmente uma vez por semana, voltada para ganhos de mobilidade articular. Entre iniciantes, por sua vez, o uso eventual é justificado como recurso de prevenção de sobrecargas musculares.
Tabela 2 – Utilização da Liberação Miofascial na Fase Pré-Competição

Elaborado: Autores (2025).
A análise da Tabela 2 confirma que a fase pré-competitiva concentra maior adesão à liberação miofascial, sobretudo entre atletas mais experientes, que relatam utilizá-la de duas a três vezes por semana. Esse padrão reforça a função estratégica da técnica para reduzir tensões musculares e otimizar treinos intensos, enquanto iniciantes tendem a recorrer de forma eventual, apenas para prevenção de sobrecargas. Tal cenário evidência que a técnica se consolida como recurso essencial de preparação física e estética antes das competições. Em sequência, a investigação também considerou a adesão no período pós-competitivo, cujos resultados estão sistematizados na Tabela 3, que destaca diferentes níveis de frequência e percepção da técnica após os eventos.
Tabela 3 – Grau de Adesão Pós-Competição.

Elaborado: Autores (2025).
A Tabela 3 revela que a adesão pós-competitiva é mais irregular, variando entre alta, moderada e baixa conforme o suporte fisioterapêutico disponível. Atletas com acompanhamento relatam benefícios evidentes na recuperação muscular e maior disposição para retomar treinos progressivos, enquanto praticantes sem suporte contínuo descrevem apenas alívio de dores residuais e melhora discreta da mobilidade. Já os iniciantes apresentam baixa frequência de uso, com percepções limitadas de impacto sobre a performance. Esses achados sugerem que a técnica é valorizada sobretudo no momento pré-competitivo, mas ainda pouco consolidada como rotina após competições. Esse contraste entre fases cria o ponto central que será explorado na seção seguinte de Discussão, na qual os resultados serão interpretados em diálogo crítico com a literatura científica revisada.
4. DISCUSSÃO
Os resultados apontam que a liberação miofascial proporciona benefícios consistentes, sobretudo na flexibilidade, na circulação e na redução de tensões musculares. Esses efeitos têm sido validados em revisões sistemáticas que apontam ganhos relevantes para atletas em modalidades de alta exigência física (Aranda et al., 2024). Apesar de desconfortos pontuais, como dor durante a aplicação, os estudos destacam que tais efeitos adversos são transitórios e não comprometem a adesão. Dessa forma, a técnica é reconhecida pelos atletas como estratégia preventiva e de suporte ao desempenho, em especial na fase de preparação.
O período pré-competitivo mostrou-se o momento de maior utilização da técnica, refletindo a necessidade de estratégias que auxiliem no enfrentamento de treinos intensivos e dietas restritivas. Pesquisas anteriores já evidenciaram que essa fase aumenta a sobrecarga muscular, elevando riscos de fadiga e lesões (Cyrino et al., 2008). A liberação miofascial, nesse cenário, atua como recurso para ampliar a amplitude de movimento e reduzir tensões acumuladas. Esse uso frequente reforça seu papel estratégico, tornando-a aliada para potencializar a estética corporal e a performance exigida em competições.
A adesão no período pós-competitivo apresentou menor frequência, principalmente entre atletas amadores sem suporte fisioterapêutico. Contudo, estudos destacam que a manutenção da prática após competições favorece a recuperação estrutural e reduz dores residuais (Segovia Chaux et al., 2022). Essa discrepância entre pré e pós-competição evidencia que a técnica ainda é valorizada de forma pontual, quando poderia ser incorporada como rotina de recuperação. Assim, a aplicação contínua se mostra relevante não apenas para desempenho, mas também para preservação da saúde musculoesquelética a longo prazo.
Os resultados deste estudo quanto aos ganhos de flexibilidade com a utilização da SMR estão em consonância com pesquisas anteriores, que também apontaram efeitos positivos da técnica sobre a amplitude de movimento. Alterações nas propriedades mecânicas do tecido miofascial podem explicar, ao menos em parte, esses benefícios, já que a substância coloidal apresenta sensibilidade à estimulação mecânica, tornando-se mais fluida após a aplicação da massagem. Tais mudanças podem diminuir a aderência entre as camadas fasciais e favorecer maior extensibilidade e elasticidade dos tecidos conjuntivos (Zhang et al. 2020).
A liberação miofascial promove ganhos temporários na amplitude de movimento, flexibilidade e propriocepção, favorecendo o desempenho esportivo. Seus efeitos, como o aumento do fluxo sanguíneo e da temperatura corporal, embora breves, melhoram a execução motora. A técnica estimula mecanorreceptores, como o órgão tendinoso de Golgi e os corpúsculos de Pacini, Meissner e Ruffini, influenciando o sistema nervoso, a percepção corporal e o controle motor. Além disso, reduz estresse e ansiedade, contribuindo para o equilíbrio emocional dos atletas (Pauli; Costa, 2024).
Ostheimer (2020) define a liberação miofascial como uma técnica realizada por fisioterapeutas que aplicam pressão em pontos gatilho, favorecendo o relaxamento e o alongamento muscular profundo. Seus benefícios incluem maior mobilidade articular, melhora da circulação, da respiração e da consciência corporal, além de promover relaxamento físico e emocional duradouro. A técnica também reduz a tensão muscular, ativa a musculatura, auxilia na eliminação do ácido lático, acelera a recuperação e contribui significativamente para a prevenção de dores tardias e lesões musculoesqueléticas.
No estudo de Borges (2022), a aplicação da técnica da liberação miofascial mostrou-se uma intervenção de elevada relevância no fisiculturismo, apresentando efeitos positivos multifatoriais. Os resultados indicam que a técnica contribuiu para prevenir lesões, aliviar dores e reduzir tensões miofasciais, preservando a funcionalidade musculoesquelética. Além disso, promoveu ganhos de força, flexibilidade e amplitude de movimento, aspectos diretamente ligados à otimização da performance em modalidades que tenham demanda de alta sobrecarga mecânica e controle motor refinado, como é o caso do fisiculturismo.
De acordo com Horbach et al. (2023), manifestações de desconforto, tais como dor durante a aplicação da técnica seja comum, seus benefícios superam os possíveis efeitos adversos. A técnica abrange não apenas aspectos fisiológicos, mas também psicológicos, influenciando positivamente a experiência do atleta. Tal integração entre esses fatores contribui não apenas para a otimização do desempenho. Essa integração físico-psicocognitiva favorece a motivação intrínseca e o fortalecimento da adesão aos programas de treinamento, essenciais para resultados sustentáveis em esportes de alta exigência.
Os efeitos subjetivos relatados pelos atletas, como relaxamento, redução de tensões musculares e bem-estar emocional, confirmam a relevância da técnica no âmbito psicofisiológico do treinamento esportivo. Tais manifestações, embora perceptivas, têm implicações para compreender a interação entre fatores físicos e psicológicos na otimização da performance. Além disso, essas percepções associam-se a maior sensação de funcionalidade e percepção de eficiência corporal (Bardini, 2023), reforçando que benefícios da técnica extrapolam a biomecânica e abrangem dimensões psicocognitivas do desempenho.
Comparada a outras estratégias, como alongamentos e aquecimentos, a liberação miofascial apresenta vantagens específicas, sua aplicação imediata melhora equilíbrio dinâmico e mobilidade, favorecendo a execução técnica (Shalamzari; Seidi, 2022). No fisiculturismo, em que a simetria e a estética dependem de amplitude articular, característica essencial ao reduzir desequilíbrios musculares, contribuindo para corrigir assimetrias, aspecto fortemente valorizado em avaliações competitivas. Dessa forma, sua inserção em pré-competição mostra-se coerente com as demandas específicas da modalidade.
No entanto, nos estudos de (Fortini et. al., 2020) indicam que tanto a Auto liberação Miofascial (ALM) quanto o Aquecimento Específico (AE) são estratégias eficazes na preparação para treinamentos e competições, gerando efeitos imediatos sobre a agilidade, variável essencial ao desempenho esportivo. Contudo, não houve diferenças estatisticamente significativas entre os métodos, sugerindo que a escolha pode basear-se na preferência do atleta ou profissional, já que os efeitos agudos foram equivalentes. Também não se observaram diferenças relevantes na força dos membros inferiores nas análises realizadas.
No estudo de Junior (2020), observou-se que a intervenção implementada não exigiu interromper o programa regular de treinamentos e competições, preservando, portanto, a continuidade da rotina esportiva do atleta. Esse resultado indica que estratégias preventivas podem reduzir riscos de sobrecarga e potencializar o desempenho atlético, promovendo melhora do condicionamento físico, otimização da performance e aumento da massa muscular. Assim, intervenções preventivas bem integradas ao treinamento configuram-se como recurso estratégico de alta aplicabilidade no alto rendimento.
Outro ponto relevante é a vulnerabilidade de atletas amadores ao uso de anabolizantes e rotinas extenuantes. Estudos indicam que essas práticas elevam riscos musculoesqueléticos, reforçando a importância de medidas preventivas (Stefanou et al., 2023). Nesse contexto, a liberação miofascial destaca-se como recurso acessível e eficaz para reduzir sobrecargas e promover equilíbrio funcional. Seu impacto é mais evidente no período pré-competitivo, embora a manutenção no pós-competição amplie benefícios. Esses achados confirmam a relevância da técnica como ferramenta fisioterapêutica no fisiculturismo amador.
5. CONCLUSÃO
A análise realizada demonstra que a liberação miofascial constitui um recurso fisioterapêutico eficaz e seguro para atletas amadores, incluindo os praticantes de fisiculturismo. Entre os principais efeitos observados destacam-se a redução de tensões musculares, o aumento da flexibilidade e o alívio de dores musculares tardias, fatores diretamente associados à melhora do desempenho competitivo. Apesar de eventuais desconfortos transitórios durante a aplicação, a técnica é amplamente reconhecida como ferramenta preventiva e de suporte, reforçando sua importância no processo de preparação física e estética frente às elevadas demandas impostas pela modalidade.
Observou-se que a técnica é mais utilizada e valorizada no período pré-competitivo, refletindo a busca por estratégias que otimizem o rendimento em momentos de maior sobrecarga física e psicológica. No pós-competitivo, entretanto, sua aplicação ocorre de forma menos frequente e pontual, o que indica uma percepção ainda restrita quanto ao seu potencial de recuperação e preservação musculoesquelética. Conclui-se que a liberação miofascial promove efeitos benéficos para o fisiculturismo amador e contribui significativamente para o cuidado integral do atleta, recomendando-se a ampliação de estudos que abordem sua eficácia e aplicabilidade nessa modalidade esportiva.
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