PERFIL DE USUÁRIOS QUE REALIZARAM TESTES RÁPIDOS PARA INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS EM SERVIÇO DE CONSULTÓRIO NA RUA EM PORTO ALEGRE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511122126


Karla Tatiane Viana1
Bruna Hentges2
Luciana Barcellos Teixeira3


Resumo

Objetivo: Caracterizar o perfil sociodemográfico e clínico de usuários em situação de rua que realizaram testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C ofertados pelo Consultório na Rua em uma gerência distrital de Porto Alegre. Métodos: Estudo quantitativo, descritivo, realizado a partir dos registros de usuários testados entre janeiro e dezembro de 2017. As variáveis incluíram sexo, idade, escolaridade e raça/cor, bem como resultados dos testes rápidos e histórico de tuberculose. Os dados foram analisados por estatística descritiva no software SPSS 18.0. Resultados: A amostra incluiu 278 indivíduos, com média de idade de 36,6 ± 11,1 anos e predominância do sexo masculino (75,1%). A maioria possuía ensino fundamental incompleto (62,5%) e autodeclarou-se negra (50,9%). Em relação aos testes rápidos, 22,8% foram reagentes para HIV, 32,2% para sífilis, 0,4% para hepatite B e 5,3% para hepatite C. A prevalência de tuberculose informada foi de 4,0%. Conclusão: Os achados evidenciam alta prevalência de IST entre pessoas em situação de rua, especialmente HIV e sífilis, associadas a vulnerabilidades sociais e raciais. O Consultório na Rua se mostra dispositivo estratégico para ampliação do acesso e redução das iniquidades em saúde.

Palavras-chave: população em situação de rua; doenças sexualmente transmissíveis; testes rápidos; HIV; sífilis.

Abstract

Objective: To characterize the sociodemographic and clinical profile of homeless individuals who underwent rapid testing for HIV, syphilis, hepatitis B, and hepatitis C provided by the Street Clinic (“Consultório na Rua”) in a district of Porto Alegre, Brazil.Methods: A quantitative descriptive study was conducted using records of users tested between January and December 2017. Variables included sex, age, education, and race/color, as well as results of rapid tests and history of tuberculosis. Data were analyzed using descriptive statistics (SPSS 18.0).Results: The sample comprised 278 individuals, with a mean age of 36.6 ± 11.1 years and predominance of males (75.1%). Most had incomplete elementary education (62.5%) and self-identified as Black (50.9%). Among those tested, 22.8% were reactive for HIV, 32.2% for syphilis, 0.4% for hepatitis B, and 5.3% for hepatitis C. Tuberculosis was reported by 4.0%. Conclusion: The findings highlight the high prevalence of STIs among the homeless population, particularly HIV and syphilis, reflecting deep social and racial vulnerabilities. Street Clinics play a key role in expanding access to care and addressing health inequities.

Keywords: homeless persons; sexually transmitted infections; rapid diagnostic tests; HIV; syphilis.

Introdução

As infecções sexualmente transmissíveis (IST) configuram um importante problema de saúde pública em escala mundial e nacional, exigindo ações contínuas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento oportuno. O enfrentamento das IST no Brasil é prioridade do Sistema Único de Saúde (SUS), tendo em vista os impactos individuais, coletivos e sociais dessas doenças, e a sua estreita relação com desigualdades estruturais e vulnerabilidades sociais (ARAÚJO et al., 2018).

Dentre as IST, o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e a sífilis apresentam destaque pela magnitude e persistência epidemiológica. Em 2023, aproximadamente 39,9 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo; e foram registradas cerca de 1,3 milhões de novas infecções naquele ano (UNAIDS, 2024). No Brasil, a notificação de novos casos de HIV em 2023 aumentou cerca de 4,5% em relação ao ano anterior, e a taxa de mortalidade registrada foi de 3,9 óbitos por 100 mil habitantes (BRASIL, 2024).

A sífilis, causada pela bactéria Treponema pallidum, também representa grave problema de saúde pública. Em 2023 foram notificados 242.826 casos de sífilis adquirida, 86.111 casos em gestantes e 25.002 casos de sífilis congênita no país, além de 196 óbitos por sífilis congênita (BRASIL, 2024). O mesmo boletim epidemiológico apontou taxas crescentes de sífilis em gestantes e de sífilis congênita, demonstrando a necessidade de aprimorar as estratégias de rastreamento e tratamento na atenção básica.

As hepatites virais seguem o mesmo padrão de relevância. Segundo o Ministério da Saúde, entre 1999 e 2018, foram notificados 233.027 casos de hepatite B e 228.695 casos de hepatite C (BRASIL, 2019). Entretanto, não há dados específicos sobre a ocorrência dessas infecções na população em situação de rua, o que reforça lacunas na vigilância e nas ações de prevenção voltadas a grupos em vulnerabilidade social.

A população em situação de rua constitui um grupo heterogêneo, cujas condições de vida estão marcadas pela exclusão, pobreza extrema, ruptura de vínculos familiares e inexistência de moradia convencional. A Política Nacional para a População em Situação de Rua, instituída pelo Decreto nº 7.053/2009, define esse grupo e estabelece princípios como igualdade, equidade, dignidade e direito à convivência social (BRASIL, 2009). O surgimento e a ampliação dessa população relacionam-se a processos históricos de exclusão social, desemprego, dependência química, violência e ausência de políticas de proteção social (VARANDA; ADORNO, 2004; COSTA, 2005).

Em resposta às necessidades específicas dessa população, o Ministério da Saúde instituiu, em 2011, as Equipes de Consultório na Rua (CR) por meio da Portaria nº 122, como estratégia de atenção básica voltada ao cuidado integral e intersetorial (BRASIL, 2011). O CR realiza atendimento itinerante com equipes multiprofissionais, articulando-se com outros pontos da rede de saúde e assistência social, com o objetivo de garantir o acesso de pessoas em situação de rua às ações de promoção, prevenção e tratamento (MARQUES; PASSOS, 2016).

O enfrentamento das IST, especialmente HIV e sífilis, está entre as atribuições dos CR, considerando a elevada vulnerabilidade dessa população. A descentralização do diagnóstico e a introdução dos testes rápidos (TR) representam avanços significativos na ampliação do acesso e no diagnóstico precoce, reduzindo o intervalo entre testagem e início do tratamento (ARAÚJO et al., 2018). Esses testes apresentam elevada sensibilidade e especificidade, baixo custo e tempo reduzido de execução, o que os torna adequados para o trabalho itinerante e em contextos de difícil acesso (BRASIL, 2017).

O conceito de vulnerabilidade, proposto por Ayres et al. (2012), é central para compreender a complexidade do processo saúde–doença entre as pessoas em situação de rua. Segundo os autores, a vulnerabilidade envolve dimensões individuais, sociais e programáticas, que se articulam e determinam a exposição ao risco e a capacidade de resposta das pessoas às doenças. A população em situação de rua vivencia vulnerabilidade ampliada, marcada por fatores estruturais, ausência de moradia, racismo, desigualdade social e fragilidade de vínculos institucionais, o que agrava a ocorrência de IST.

No Brasil, estudos sobre o perfil epidemiológico de IST nessa população ainda são escassos, limitando o planejamento de ações mais equitativas e integradas. O trabalho de Londero, Ceccim e Bilibio (2014) destaca que a implementação de políticas específicas de atenção à saúde da população de rua, como o CR, é essencial para garantir o direito à saúde e promover o acesso a cuidados contínuos e resolutivos. No entanto, desafios persistem, como a intersetorialidade frágil e o preconceito institucional (SERAFINO; LUZ, 2015).

Dessa forma, compreender as características sociodemográficas e clínicas das pessoas em situação de rua que realizam testes rápidos em serviços de Consultório na Rua é fundamental para orientar políticas públicas, aprimorar a gestão da atenção básica e fortalecer as ações de promoção da equidade. Assim, o presente estudo tem como objetivo caracterizar o perfil sociodemográfico e clínico de usuários em situação de rua que realizaram testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C ofertados pelo Consultório na Rua em uma gerência distrital de Porto Alegre, contribuindo para a discussão sobre vulnerabilidade social e o papel do CR na resposta às IST.

Métodos

Trata-se de um estudo quantitativo, descritivo e transversal, desenvolvido a partir dos registros de atendimentos realizados pelo Consultório na Rua vinculado a uma Gerência Distrital de Saúde do município de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Este trabalho integra um projeto de pesquisa mais amplo, intitulado “Descentralização do diagnóstico de HIV por meio de teste rápido em um distrito de saúde de Porto Alegre”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (CAAE nº 84627318.4.0000.5338), com dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

A população do estudo foi composta por todos os usuários em situação de rua atendidos pelo Consultório na Rua que realizaram testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (IST) no período de janeiro a dezembro de 2017. Foram incluídos todos os registros com informações completas referentes à testagem e às variáveis sociodemográficas e clínicas analisadas. Casos com ausência de dados essenciais foram excluídos da base de análise.

Os dados foram obtidos a partir dos registros administrativos do serviço e das planilhas consolidadas pela equipe da Gerência Distrital, preenchidas pelos profissionais de saúde no momento do atendimento. As informações foram organizadas em planilhas do Microsoft Excel® e posteriormente exportadas para o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), versão 18.0, utilizado para processamento e análise.

As variáveis analisadas incluíram características sociodemográficas e clínicas. As informações sociodemográficas contemplaram idade, sexo, escolaridade e raça/cor. A idade foi registrada em anos completos no momento da testagem, sendo posteriormente utilizada como variável contínua para o cálculo da média e do desvio-padrão. O sexo foi classificado em feminino e masculino, conforme o registro profissional. A escolaridade foi obtida por autorrelato do usuário e categorizada em não alfabetizado, ensino fundamental incompleto, ensino fundamental completo, ensino médio incompleto, ensino médio completo e ensino superior incompleto ou completo. A variável raça/cor foi autodeclarada, conforme as categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): branca, preta, parda, amarela e indígena. Para fins analíticos, as categorias preta e parda foram agrupadas como população negra.

As variáveis clínicas compreenderam os resultados dos testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C, e a presença de histórico de tuberculose. Os resultados dos testes foram registrados como reagente ou não reagentes, conforme o protocolo vigente do Ministério da Saúde. A informação sobre tuberculose baseou-se no autorrelato dos usuários quanto a diagnóstico prévio ou tratamento em curso.

Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas, e medidas de tendência central e dispersão (média e desvio-padrão) para as variáveis contínuas. Os resultados foram apresentados em tabelas que expressam o perfil sociodemográfico e o perfil clínico dos usuários em situação de rua que realizaram os testes rápidos no período analisado. Não foram aplicadas análises inferenciais, uma vez que o objetivo do estudo foi descrever o perfil dos indivíduos atendidos pelo serviço.

Resultados

Foram analisados 278 registros de usuários em situação de rua que realizaram testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (IST) no Consultório na Rua de uma gerência distrital de Porto Alegre, no período de janeiro a dezembro de 2017. A Tabela 1 apresenta o perfil sociodemográfico dos participantes.

A média de idade foi de 36,6 anos (±11,1), variando entre 18 e 69 anos. A faixa etária predominante concentrou-se entre adultos jovens e de meia-idade, refletindo o perfil epidemiológico comumente observado nessa população. O sexo masculino foi majoritário, correspondendo a 75,1% (n=208) dos registros, enquanto 24,9% (n=69) eram do sexo feminino.

Em relação à escolaridade, observou-se predominância de níveis educacionais mais baixos. A maior proporção dos participantes possuía ensino fundamental incompleto (62,5%), seguido por ensino médio incompleto (14,4%), ensino fundamental completo (9,7%) e ensino médio completo (9,4%). Apenas 1,5% possuíam ensino superior (completo ou incompleto), e 2,5% declararam-se não alfabetizados. Esses achados indicam importante desigualdade educacional, associada às condições de vulnerabilidade social da população estudada.

Quanto à raça/cor, 50,9% (n=141) dos indivíduos autodeclararam-se negros (pretos e pardos), 45,8% (n=127) brancos e 3,2% (n=9) indígenas ou amarelos. Essa distribuição reforça a presença significativa da população negra entre as pessoas em situação de rua atendidas pelo serviço, expressando a dimensão racial da vulnerabilidade social e do acesso à saúde.

Tabela 1. Perfil sociodemográfico de pessoas em situação de rua que realizaram testes rápidos em Porto Alegre, 2017.

CaracterísticasN (%)
Idade (média ± DP)36,62 ± 11,13
Sexo
Feminino69 (24,9)
Masculino208 (75,1)
Escolaridade
Não alfabetizado7 (2,5)
Fundamental incompleto173 (62,5)
Fundamental completo27 (9,7)
Médio incompleto40 (14,4)
Médio completo26 (9,4)
Superior incompleto/completo4 (1,5)
Raça/cor
Branca127 (45,8)
Negra (pretos e pardos)141 (50,9)
Indígena/Amarela9 (3,2)
Total278

Em relação ao perfil clínico (Tabela 2), observou-se que 22,8% (n=61) dos usuários apresentaram resultado reagente para HIV, representando mais de um em cada cinco testados. A reatividade para sífilis foi ainda mais elevada, atingindo 32,2% (n=83), o que demonstra ampla circulação da infecção entre as pessoas em situação de rua acompanhadas pelo serviço. Para hepatite C, foram identificados 5,3% (n=14) de resultados reagentes, enquanto apenas 0,4% (n=1) foi reagente para hepatite B. A proporção de indivíduos com histórico de tuberculose foi de 4,0% (n=11), número compatível com estimativas anteriores para essa população e indicativo da sobreposição de vulnerabilidades.

Tabela 2. Perfil clínico de pessoas em situação de rua que realizaram testes rápidos em Porto Alegre, 2017.

VariávelN (%)
HIV reagente61 (22,8)
Sífilis reagente83 (32,2)
Hepatite B reagente1 (0,4)
Hepatite C reagente14 (5,3)
Tuberculose11 (4,0)
Total278 (100)

Discussão

O presente estudo descreveu o perfil sociodemográfico e clínico de pessoas em situação de rua que realizaram testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C em um Consultório na Rua de Porto Alegre. Observou-se predominância de indivíduos do sexo masculino, adultos jovens, negros e com baixa escolaridade, perfil semelhante ao descrito em outros estudos sobre essa população (BARBOSA et al., 2018; LONDERO; CECCIM; BILIBIO, 2014). O predomínio masculino reflete as condições de exclusão social associadas ao viver nas ruas, enquanto o percentual expressivo de mulheres evidencia vulnerabilidades acrescidas, relacionadas a desigualdades de gênero, à violência e ao risco aumentado de IST (PIMENTA et al, 2019).

A baixa escolaridade e a alta proporção de pessoas negras observadas reforçam o papel das desigualdades sociais e raciais na determinação do adoecimento. Em Porto Alegre, embora a maioria dos casos notificados de HIV/Aids nos últimos anos tenha ocorrido em pessoas brancas, as maiores taxas de detecção correspondem à população negra, que representa apenas um quinto dos habitantes do município (PORTO ALEGRE, 2018; RIBEIRO et al, 2023). O percentual encontrado neste estudo (mais da metade de usuários negros) confirma que o recorte racial é um marcador importante de vulnerabilidade à infecção.

A prevalência de 22,8% de HIV e 32,2% de sífilis entre os usuários testados indica forte presença de IST na população em situação de rua. Esses resultados são compatíveis com os achados de Grangeiro et al. (2012) e Pinto et al. (2014), que identificaram taxas elevadas de infecção em moradores de rua e associação entre coinfecção e uso inconsistente de preservativos. Tais condições refletem a vulnerabilidade social e programática descrita por Ayres et al. (2012), que envolve tanto os contextos de vida quanto a dificuldade de acesso a serviços de saúde adequados.

A oferta de testes rápidos pelo SUS constitui uma importante estratégia de ampliação do acesso ao diagnóstico e de redução das barreiras geográficas e institucionais (ROCHA et al., 2018; CARVALHO et al., 2016). No contexto do Consultório na Rua, essa prática é essencial, pois permite a identificação imediata de casos reagentes e o encaminhamento para tratamento, fortalecendo o vínculo e a continuidade do cuidado (SANTANA et al, 2014). Estudos como o de Marques e Passos (2016) ressaltam que o CR representa um dispositivo inovador de atenção básica, voltado à integralidade e à equidade.

Embora a prevalência de tuberculose neste estudo tenha sido de apenas 4%, o agravo permanece um problema relevante entre pessoas em situação de rua, conforme demonstram Alecrim et al. (2016) e Hino, Santos e Rosa (2018). A ausência de testagem específica para tuberculose pode ter contribuído para a subnotificação, mas o resultado indica a importância de integrar ações de controle de tuberculose, IST e hepatites no cuidado ofertado pelos CR, considerando a interrelação desses agravos.

Por fim, destaca-se o papel estratégico do Consultório na Rua na efetivação dos princípios do SUS, especialmente da equidade. O serviço atua junto a populações historicamente excluídas, oferecendo cuidado integral e intersetorial. Conforme defendem Marques e Passos (2016), o CR não apenas amplia o acesso aos serviços de saúde, mas também contribui para a garantia de direitos e o enfrentamento das desigualdades estruturais. Os achados deste estudo reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas que reconheçam as especificidades da vida na rua e assegurem continuidade de cuidado às pessoas em situação de vulnerabilidade.

Considerações finais

O presente estudo evidenciou que a população em situação de rua atendida pelo Consultório na Rua em Porto Alegre apresenta marcantes vulnerabilidades sociais, expressas pelo predomínio de homens adultos jovens, negros e com baixa escolaridade. A elevada proporção de resultados reagentes para HIV e sífilis indica importante carga de infecções sexualmente transmissíveis nesse grupo, associada a condições de desigualdade social, estigmatização e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Esses achados reforçam o papel estratégico do Consultório na Rua como dispositivo de Atenção Primária voltado à equidade e à integralidade do cuidado. A oferta de testes rápidos e o acompanhamento próximo dos usuários constituem ferramentas fundamentais para o diagnóstico precoce, a interrupção da cadeia de transmissão e a ampliação do acesso ao tratamento.

O fortalecimento das ações intersetoriais, integrando saúde, assistência social e direitos humanos, é essencial para enfrentar as iniquidades que afetam a população em situação de rua. Recomenda-se a ampliação das estratégias de testagem, o desenvolvimento de políticas específicas para adesão ao tratamento e a continuidade dos estudos que abordam os determinantes sociais e raciais da vulnerabilidade às IST. Em síntese, os resultados deste estudo contribuem para o aprimoramento das políticas públicas voltadas a populações em vulnerabilidade, reafirmando a necessidade de práticas de cuidado baseadas na equidade, no respeito à dignidade humana e no reconhecimento das múltiplas dimensões da exclusão social.

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1Enfermeira, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2Doutora em Epidemiologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
3Docente no Departamento de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio Grande do Sul