TRAINING OF THE PELVIC FLOOR MUSCULATURE IN MEN WITH STRESS URINARY INCONTINENCE AFTER PROSTATECTOMY SURGERY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511122120
Maria Cailani Brito Benicio1
Neyla França Pinheiro1
Rafaella Medeiros Dantas1
Suzane Lobato da Silva1
Thaiana Bezerra Duarte2
Resumo
Introdução: O câncer de próstata é o tumor mais comum entre os homens e a segunda principal causa de morte por câncer no Brasil. A prostatectomia radical, tratamento padrão para casos potencialmente curáveis, pode causar complicações como a incontinência urinária de esforço. Diante disso, o treinamento da musculatura do assoalho pélvico (TMAP) destaca-se como um recurso fisioterapêutico eficaz para a reabilitação desses pacientes. Objetivo: Avaliar a eficácia do TMAP, isolado ou com eletroterapia, no tratamento da incontinência urinária pós prostatectomia. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão de literatura cujo levantamento da literatura ocorreu entre setembro de 2025 nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS. Resultados: Foram analisados 6 estudos totalizando 226 pacientes com incontinência urinária pós-prostatectomia, submetidos a diferentes protocolos fisioterapêuticos. Observou-se que o TMAP, isolado ou associado à eletroestimulação e biofeedback, promoveu melhora significativa na força muscular, redução da perda urinária e aumento da qualidade de vida dos pacientes, confirmando a eficácia da fisioterapia na recuperação da continência urinária após a cirurgia. Conclusão: O treinamento dos músculos do assoalho pélvico, associado ou não à eletroterapia e ao biofeedback, é eficaz na recuperação da continência urinária e na melhora da qualidade de vida após a prostatectomia. No entanto, ainda há necessidade de padronização dos protocolos e de mais estudos voltados à população masculina para fortalecer as evidências na reabilitação urológica.
Palavras-chave: Prostatectomia. Treinamento da musculatura do assoalho pélvico. Incontinência Urinária. Fisioterapia. Homens.
Abstract
Background: Prostate cancer is the most common tumor among men and the second leading cause of cancer-related death in Brazil. Radical prostatectomy, the standard treatment for potentially curable cases, can cause complications such as stress urinary incontinence. In this context, pelvic floor muscle training (PFMT) stands out as an effective physiotherapeutic resource for the rehabilitation of these patients. Pourpose: Evaluate the efficacy of TMAP, alone or with electrotherapy, in the treatment of post-prostatectomy urinary incontinence. Methods: This is a literature review in which the bibliographic search was conducted from September 2025 in the PubMed, SciELO, and LILACS databases. Results: Six studies totaling 226 patients with post-prostatectomy urinary incontinence, who underwent different physiotherapy protocols, were analyzed. It was observed that pelvic floor muscle training (PFMT), alone or in combination with electrostimulation and biofeedback, promoted significant improvement in muscle strength, reduction in urinary leakage, and increased quality of life for the patients, confirming the effectiveness of physiotherapy in the recovery of urinary continence after surgery. Conclusion: Training of the pelvic floor muscles, whether combined with electrotherapy and biofeedback or not, is effective in recovering urinary continence and improving quality of life after prostatectomy. However, there is still a need for standardization of protocols and more studies focused on the male population to strengthen the evidence in urological rehabilitation.
Keywords: Prostatectomy. Pelvic floor muscle training. Urinary incontinence. Physiotherapy. Men.
1. INTRODUÇÃO
O câncer de próstata (CP) é o tumor não cutâneo mais prevalente entre os homens e a segunda principal causa de óbito por câncer no país. Esse tipo de câncer é responsável por 13,4% das mortes malignas no sexo masculino (Incidência de Câncer no Brasil, 2023). O câncer de próstata é o tipo de câncer mais comum entre os homens. As opções de tratamento incluem a cirurgia de prostatectomia, radioterapia e terapia hormonal, no entanto, essas alternativas podem resultar em efeitos colaterais indesejados, como incontinência urinária, que também podem gerar mudanças emocionais como ansiedade, insônia e depressão (Mariana et al., 2019). Nesse contexto, a prostatectomia radical é considerada a cirurgia padrão ouro para pacientes com câncer de próstata em estágio potencialmente curável, pois envolve a remoção completa da próstata e das vesículas seminais. Após o procedimento, é comum que os pacientes apresentem uma variedade de sintomas, como diminuição da capacidade física, infecções no trato urinário, constipação, impotência sexual e incontinência urinária (Mata et al., 2015).
Entre essas complicações, a incontinência urinária (IU) pode ocorrer devido a danos no esfíncter, que alteram a configuração da junção entre a bexiga e a uretra, dificultando a retenção da urina. Como a uretra prostática é removida durante a cirurgia, o esfíncter uretral externo passa a ser o principal responsável por manter a continência (Kakihara et al., 2007).
Quando ocorre essa disfunção torna-se a incontinência, dessa forma, a incontinência urinária de esforço ocorre quando há perda involuntária de urina durante situações que aumentam a pressão no abdômen, sem que o músculo detrusor se contrai (Abrams et al., 2003). Trata-se, portanto, de uma complicação frequentemente observada em homens submetidos à prostatectomia radical, independentemente do método cirúrgico utilizado (Hodges et al., 2019).
Nesse sentido, o tratamento ideal para incontinência urinária após prostatectomia radical (IUPPR) é o fisioterapêutico e inclui o treinamento da musculatura do assoalho pélvico (Kakihara et al., 2007). Evidências mais recentes demonstram que a fisioterapia vem sendo apresentada como padrão ouro para a reeducação da IU devido a sua elevada eficácia (Figueiredo et al., 2008). Percebe-se que há uma deficiência no número de publicações evidenciando a associação entre a cinesioterapia no treinamento da musculatura do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária no pós-operatório imediato (Kubagawa et al., 2006).
Treinamento da musculatura do assoalho pélvico (TMAP) é um dos principais recursos utilizados na fisioterapia, sendo introduzido por Kegel em 1948 com o objetivo de aumentar a força e a resistência dessa região. A prática desses exercícios têm demonstrado uma taxa de sucesso na melhora dos sintomas que varia entre 56% e 84% (Felicíssimo et al., 2007). De que forma o treinamento da musculatura do assoalho pélvico (TMAP) contribui para a melhora da incontinência urinária de esforço no pós-operatório de prostatectomia? Assim, com a intenção de contribuir com o conhecimento na área da IUPPR, torna-se relevante a realização do presente estudo, que tem o objetivo de analisar a eficácia do treinamento da musculatura do assoalho pélvico na incontinência urinária de esforço em pós-prostatectomia.
2. MATERIAIS E MÉTODO
Trata-se de uma revisão de literatura. As bases de dados utilizadas foram PubMed, SciELO e LILACS. Para a seleção dos artigos foram empregados descritores nos idiomas português e inglês, sendo utilizadas as palavras-chave: “Prostatectomia”, “Treinamento da musculatura do assoalho pélvico”, “Incontinência urinária” e “Fisioterapia”. A estratégia de busca foi realizada por meio do operador booleano “AND” entre os descritores, como: “Prostatectomia” AND “Treinamento da musculatura do assoalho pélvico” AND “Incontinência urinária” AND “Fisioterapia”.
Foram incluídas publicações nos idiomas português e inglês. A busca nas bases de dados foi realizada em setembro de 2025. Como critérios de inclusão, foram selecionados estudos do tipo ensaio clínico randomizado que descreveram intervenções fisioterapêuticas para o tratamento de homens submetidos à prostatectomia radical, com fraqueza muscular da musculatura do assoalho pélvico, em pós-operatório tardio. Como critérios de exclusão, foram descartados artigos que não estavam disponíveis na íntegra, que não estavam nos idiomas português e inglês, que não abordaram incontinência urinária de esforço e aqueles que apresentaram complicações no pós-operatório.
Para a organização e apresentação dos dados identificados e coletados, foram elaboradas tabelas informativas construídas pelos autores, contendo as seguintes informações: autor e ano, tipo de estudo, objetivo de estudo, instrumento da coleta de dados/intervenção e resultado.
3. RESULTADOS
Após a busca nas bases de dados, foram encontradas 49 publicações, das quais 4 estavam duplicadas. As 45 restantes foram analisadas com base nos títulos e resumos. Dentre essas, 27 foram excluídas por não abordarem a população masculina, por tratarem de complicações no pós-operatório ou por se tratarem de revisões de literatura. Das 18 publicações remanescentes, foi realizada a leitura na íntegra, resultando na exclusão de 12 estudos por não apresentarem casos de incontinência urinária por esforço e por não estarem disponíveis na íntegra. Assim, 6 estudos atenderam aos critérios de inclusão e integraram esta revisão conforme mostra a figura 1.
Figura 1: Fluxograma do estudo.

A síntese dos estudos incluídos nesta revisão está apresentada na tabela 1, onde descreve de forma cronológica os estudos selecionados de acordo com autor, ano, tipo de estudo, objetivo, metodologia e resultados. A tabela evidencia os 6 estudos que abordam o treinamento da musculatura do assoalho pélvico em homens no pós-operatório de prostatectomia, evidenciando a fisioterapia como intervenção principal para a reabilitação de incontinência urinária de esforço.
Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão.
| AUTOR/ANO | TIPO DE ESTUDO | OBJETIVO | METODOLOGIA | RESULTADOS |
| Ruofan, Shi et al., 2025 | Ensaio clínico randomizado prospectivo multicêntrico | Comparar a eficácia de diferentes modalidades de treinamento dos músculos do assoalho pélvico para melhorar a recuperação da incontinência urinária de esforço (IUE) em pacientes com câncer de próstata após prostatectomia radical. | 201 pacientes com câncer de próstata foram avaliados; 101 completaram o estudo. Randomização em três grupos: 1. S-PFMT – treinamento padrão dos músculos do assoalho pélvico; 2. SI-PFMT– treinamento interativo somatossensorial; 3. S PFMT + MS – treinamento padrão combinado com estimulação magnética. Avaliação em 1, 3 e 6 meses após a cirurgia por meio do questionário ICIQ-UI SF e teste de absorvente de 1 hora. | Todos os grupos apresentaram melhora significativa da IUE em 3 e 6 meses (p<0,001). Aos 6 meses, o grupo S-PFMT+MS apresentou melhora significativamente e maior em relação ao SPFMT (p=0,033) e ao SIPFMT (p=0,011). A análise de sobrevida Bayesiana indicou eficácia superior sustentada do SPFMT+MS. |
| Yasheng Huang, et al., 2023 | Estudo clínico prospectivo randomizado. | Avaliar a eficácia clínica da estimulação elétrica de baixa frequência do assoalho pélvico combinada com treinamento de elevação anal no tratamento da incontinência urinária após prostatectomia radical em uma coorte chinesa. | 55 pacientes com incontinência urinária após prostatectomia radical. Divididos em dois grupos: grupo controle (apenas treinamento de elevação anal) e grupo de tratamento (treinamento de elevação anal + estimulação elétrica de baixa frequência do assoalho pélvico). | O grupo de tratamento apresentou melhora significativa mais rápida do controle urinário em relação ao grupo controle nas 2 a 10 primeiras semanas (p< 0,05). |
| Akiko, Matsunaga et al., 2022 | Estudo intervencionista prospectivo. | Avaliar o efeito do treinamento muscular do assoalho pélvico (PFMT) guiado por ultrassom transperineal (TPUS) na incontinência urinária (IU) prolongada após prostatectomia radical assistida por robô (RARP) | 30 homens com incontinência urinária de esforço persistente após prostatectomia radical foram submetidos a treinamento do assoalho pélvico com biofeedback guiado por ultrassonografia transperineal, em sessões quinzenais por 3 meses. A gravidade da incontinência foi avaliada pelo teste do absorvente de 24 horas e a qualidade de vida pelo questionário IQOL. | Em comparação com os dados anteriores ao PEMT guiado por TPUS, a frequência das contrações dos músculos do assoalho pélvico (MAP) e a duração da contração sustentada melhoraram significativamente após o PEMT guiado por TPUS (pocorre > 1 ano após RARP) |
| Ariane, Santos et al., 2016 | Estudo do tipo quantitativo descritivo não randomizado. | Avaliar os efeitos da eletroestimulação funcional endo anal na recuperação funcional da continência urinária de homens submetidos a prostatectomia. | A eletroestimulação funcional foi realizada com o voluntário em decúbito lateral, joelhos e quadril semiflexionados, introduziu-se o eletrodo anal com gel lubrificante. Nos primeiros 10 minutos utilizou se frequência de 10 Hz, com largura de pulso de 250μs e nos próximos 10 minutos, 50 Hz, com largura de pulso 700 μs. | Os efeitos da eletroestimulação endo-anal na recuperação da incontinência urinária em homens pós prostatectomia foi eficaz; O volume de perda urinária involuntária diminuiu significativamente, a pressão dos músculos do assoalho pélvico aumentou. Além disso, a qualidade de vida melhorou nos aspectos limitações de atividades diárias e relações pessoais. |
| Patrícia, Zaidan et al., 2014 | Estudo observacional. | Determinar a resposta dos músculos do assoalho pélvico e potenciais alterações no estado de incontinência urinária em homens prostatectomizados submetidos à estimulação elétrica. | Foram avaliados 10 pacientes (idade média de 64 ± 7 anos) com incontinência urinária pós prostatectomia radical. O tratamento foi realizado com estimulação elétrica utilizando eletrodo endo anal (Dualpex 961 – Quark), associada ao biofeedback eletromiográfico (Miotool-uro, Miotec). A incontinência urinária foi mensurada quanto à interferência na vida diária por meio de uma Escala Visual Analógica (EVA). | Após 16 sessões de eletroestimulação, observou-se aumento de 59% na atividade elétrica dos músculos do assoalho pélvico, além de reduções de 54% no número de fraldas utilizadas e de 58% na interferência da incontinência urinária nas atividades diárias. De forma geral, os resultadosforam satisfatórios. |
| Kakihara, Sens et al., 2007 | Estudo prospectivo,randomizado controlado. | Avaliar o efeito do treinamento funcional do assoalho pélvico, associado ou não à eletroestimulação, na recuperação da continência urinária após prostatectomia radical. | 20 pacientes com incontinência urinária pós prostatectomia radical, distribuídos aleatoriamente em dois grupos: Grupo controle (n=10) treinamento funcional do assoalho pélvico; Grupo Investigação (n=10) treinamento funcional do assoalho pélvico+ eletroestimulação endo anal. Avaliação com pad test, Escala Visual Analógica (EVA) da incontinência, EVA do problema e número de fraldas, realizadas em 3, 6 e 12 meses. | Ambos os grupos apresentaram melhora significativa da incontinência urinária ao longo de 12 meses (queda no pad test, EVA e número de fraldas). Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos, ou seja, a eletroestimulação não acrescentou melhora adicional ao treinamento funcional do assoalho pélvico. |
Nesta revisão, foram analisados estudos que somaram um total de 226 pacientes com incontinência urinária pós prostatectomia radical, submetidos a diferentes formas de reabilitação fisioterapêutica. A idade dos participantes variou entre 50 e 79 anos, predominando homens idosos e de meia-idade. Os recursos fisioterapêuticos utilizados incluíram a eletroestimulação de baixa frequência aplicada ao assoalho pélvico, biofeedback por eletromiografia, treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) com e sem o uso de ultrassom transperineal (TPUS). O número de sessões variou de 4 a 35 atendimentos, com frequência semanal ou em dias alternados, e duração média de 20 a 30 minutos por sessão, dependendo do protocolo adotado. De forma geral, os estudos mostraram melhora significativa na força muscular do assoalho pélvico, redução da perda urinária e melhora da qualidade de vida dos participantes.
O estudo de Shi et al. (2025) teve como objetivo comparar diferentes métodos de treinamento dos músculos do assoalho pélvico (TMAP) em pacientes com incontinência urinária de esforço (IUE) após prostatectomia radical. Entre os protocolos aplicados, um dos grupos recebeu o TMAP associado à estimulação magnética. Essa estimulação foi realizada com frequência de 10 Hz, em ciclos de 5 segundos ligados e 5 segundos desligados, com sessões de 20 minutos, duas vezes por semana, totalizando de 10 a 12 sessões.
O estudo realizado por Zhu et al. (2023) combinou estimulação elétrica de baixa frequência e treinamento de elevação anal. O protocolo envolve contrações anais e perianais sustentadas por mais de 5 segundos, 30 repetições por grupo, 10 grupos diários e estimulação elétrica de 40 Hz, com voltagem entre 10 e 15 V e sessões de 30 minutos em dias alternados.
Já no estudo de Matsunaga et al. (2022) foi utilizado o ultrassom bidimensional de matriz curva (1–5 MHz) como ferramenta de feedback visual para o paciente durante a contração da MAP. O exame foi realizado em posição lateral, sem contato direto com pênis ou escroto, proporcionando maior conforto e precisão na execução dos exercícios.
No estudo realizado por Santos et al. (2016) os participantes foram posicionados em decúbito lateral, com contração anal observada manualmente e graduada pela escala de Ortiz (1994). O protocolo incluiu 10 sessões de eletroestimulação funcional endoanal com o Dualpex 961, aplicadas três vezes por semana em dias alternados, com duração de 20 minutos cada. Foram utilizados 10 Hz (250 µs) nos primeiros 10 minutos e 50 Hz (700 µs) nos 10 minutos finais. Observou-se melhora significativa da IUE e aumento da pressão da MAP.
No estudo de Zaidan et al. (2014) empregou eletrodo endoanal (Dualpex 961 – Quark) em decúbito lateral, com frequência de 65 Hz, largura de pulso de 500 μs e corrente bifásica. As sessões, de 20 minutos, foram realizadas duas vezes por semana, totalizando 16 sessões, com contrações ativas-assistidas e intensidade ajustada à tolerância do paciente. No estudo realizado por Sens et al., (2007) o grupo controle realizou eletroestimulação endoanal (Dualpex 961 Uro) durante 20 minutos, uma vez por semana. Foram utilizados 8 Hz para incontinência de urgência, 35 Hz para deficiência esfincteriana e 50 Hz após três meses de tratamento. Constatou-se ausência de diferença significativa entre a eletroestimulação isolada e o treinamento tradicional de TMAP.
Em conjunto, os estudos demonstram a eficácia das intervenções fisioterapêuticas baseadas no treinamento muscular do assoalho pélvico, isoladas ou combinadas a métodos de eletroestimulação e biofeedback, com destaque para protocolos que aliam frequências entre 10 e 65 Hz, sessões semanais regulares e abordagens ativas de reeducação muscular.
4. DISCUSSÃO
Diferentes estudos têm reforçado a relevância da fisioterapia na reabilitação de pacientes com incontinência urinária após prostatectomia radical, destacando a importância de técnicas que estimulem a função neuromuscular e o fortalecimento do assoalho pélvico. Nesse contexto, Strojek et al. (2021) evidenciam a eficácia do treinamento dos músculos do assoalho
pélvico (TMAP) como intervenção fisioterapêutica central, demonstrando não apenas melhora funcional, mas também benefícios bioquímicos e psicossociais. Em consonância, Kakihara et al. (2007) também destacam o valor do TMAP, mostrando que sua aplicação isolada já é suficiente para promover resultados clínicos significativos. Embora Kakihara et al. (2007) tenha testado a associação com eletroestimulação, os resultados não indicaram vantagem adicional, reforçando a ideia de que o treinamento funcional bem orientado pode ser eficaz por si só. Ambos os estudos convergem na valorização de técnicas conservadoras, acessíveis e seguras, que colocam o paciente como protagonista da própria reabilitação. Corroborando essa perspectiva, Goode et al. (2011) demonstraram que a terapia comportamental baseada em exercícios do assoalho pélvico e controle da bexiga é eficaz na redução da incontinência urinária persistente após prostatectomia radical, mesmo sem o uso de tecnologias complementares como biofeedback e estimulação elétrica. Em alinhamento, Li Wu et al. (2019) confirmam, por meio de uma metanálise robusta, que os exercícios guiados por fisioterapeuta são eficazes na recuperação da continência urinária, tanto em curto quanto em longo prazo. Ambos os estudos reforçam a importância da supervisão profissional e da adesão ao tratamento como fatores determinantes para o sucesso terapêutico. Conclui-se que, mesmo diante de diferentes contextos clínicos, a reabilitação funcional por meio de técnicas comportamentais e supervisionadas representa uma estratégia segura, acessível e eficaz para o controle da incontinência urinária pós-prostatectomia.
Para Zaidan et al. (2014), o uso do biofeedback eletromiográfico para mensurar e orientar a contração dos músculos do assoalho pélvico resultou em melhora significativa da força muscular e da qualidade de vida dos pacientes, reforçando a importância da consciência corporal no processo de reeducação funcional. De forma semelhante, Matsunaga et al. (2022) propuseram o uso do biofeedback por meio de ultrassonografia transperineal (TPUS), permitindo aos pacientes visualizarem em tempo real o fechamento uretral durante as contrações musculares. Essa abordagem também gerou ganhos expressivos na força muscular, redução da perda urinária e melhora da qualidade de vida, mesmo em casos de incontinência prolongada. Ambos os estudos convergem na valorização do biofeedback como recurso essencial para promover a percepção e o controle adequado da musculatura pélvica, sendo uma estratégia promissora para acelerar a recuperação da continência urinária em homens prostatectomizados.
No estudo conduzido por Zhu et al. (2023), a combinação entre estimulação elétrica de baixa frequência do assoalho pélvico e o treinamento de elevação anal mostrou-se eficaz para acelerar significativamente a recuperação da continência urinária em pacientes submetidos à prostatectomia radical. Os autores observaram melhora clínica já na segunda semana de tratamento, com pico de eficácia na sexta semana, embora os efeitos entre os grupos se iguala após dez semanas. Essa abordagem reforça a importância de intervenções fisioterapêuticas precoces e combinadas para otimizar os resultados na fase inicial da reabilitação.
De maneira semelhante, Shi et al. (2025) comparou diferentes modalidades de treinamento dos músculos do assoalho pélvico, incluindo o uso de estimulação magnética. Seu estudo revelou que o grupo que recebeu treinamento padrão associado à estimulação magnética apresentou resultados superiores na recuperação da incontinência urinária após seis meses de tratamento. A técnica foi valorizada por sua capacidade de potencializar a resposta muscular e acelerar a reabilitação, sugerindo que a estimulação magnética pode ser uma alternativa promissora para pacientes com recuperação mais lenta ou comprometida. Do mesmo modo, Santos et al. (2016) investigou os efeitos da eletroestimulação funcional endoanal aplicada isoladamente em homens com incontinência urinária pós-prostatectomia radical. Mesmo com uma amostra reduzida, os resultados foram expressivos: houve redução significativa no volume de perda urinária, aumento da força muscular do assoalho pélvico e melhora em aspectos da qualidade de vida, especialmente nas atividades diárias e relações pessoais. Os autores destacam que a eletroestimulação, mesmo sem associação com outras técnicas, pode ser eficaz e acessível, reforçando seu valor clínico na fisioterapia uroginecológica. Verifica-se nesta revisão que o estudo foi direcionado a homens submetidos à prostatectomia radical que apresentaram incontinência urinária de esforço no pós-operatório, tendo como foco principal a aplicação do TMAP de forma isolada. A prática clínica foi conduzida com o objetivo de promover o fortalecimento e a reeducação da musculatura perineal para restabelecer o controle urinário dos pacientes. As intervenções consistiram em exercícios de contração voluntária dos músculos do assoalho pélvico, aliados à conscientização corporal e orientações posturais com e sem a utilização de recursos complementares como biofeedback ou eletroestimulação. O direcionamento desta prática buscou avaliar a eficácia do TMAP isolado, considerando evidências científicas que demonstram resultados semelhantes quando comparado ao tratamento associado. Durante o desenvolvimento do estudo, foram identificadas algumas dificuldades que limitaram o alcance dos resultados como a escassez de pesquisas sobre o tema e a baixa adesão de pacientes dificultam o aprofundamento da análise. Também se observou a falta de parâmetros padronizados para orientar a prática e a avaliação dos resultados, o que reforça a importância de novas pesquisas que estabeleçam diretrizes mais consistentes para o treinamento da musculatura do assoalho pélvico em homens após a prostatectomia.
5. CONCLUSÃO
Foram identificadas diferentes abordagens nos protocolos de treinamento dos músculos do assoalho pélvico voltados ao tratamento da incontinência urinária após a prostatectomia. Essas variações envolvem o tempo de contração e relaxamento muscular, o número de repetições por sessão, as posições utilizadas durante o treinamento, a duração total do protocolo e o tipo de recurso eletroterapêutico empregado.
Apesar das diferenças metodológicas, os estudos analisados apontam resultados positivos e consistentes quanto à eficácia da fisioterapia na recuperação da continência urinária após a cirurgia. Intervenções como o treinamento dos músculos do assoalho pélvico, a eletroestimulação e o biofeedback demonstraram efetividade como condutas tanto na função muscular quanto na qualidade de vida.
REFERÊNCIAS
ABRAMS, P.H. et al. A padronização da terminologia da função do trato urinário inferior: relatório do Subcomitê de Padronização da Sociedade Internacional de Continência. Urologia, v. 61, p. 37-49, 2003.
MARIANA, F.V.G.B. et al. Impacto da incontinência urinária na qualidade de vida de indivíduos submetidos à prostatectomia radical. Rev. Latino-Am Enfermagem, v. 27, p. 331, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1518-8345.2735.3171. Acesso em: 15 maio 2025.
FELICÍSSIMO, M.F. et al. Fatores limitadores à reabilitação da musculatura do assoalho pélvico em pacientes com incontinência urinária de esforço. Acta Fisiatr, v. 24, p. 233, 2017.
FIGUEIREDO, E.M. et al. Perfil sociodemográfico e clínico dos usuários de Serviço de Fisioterapia Pélvica de uma rede pública. Revista Brasileira de Fisioterapia, 2008.
GOODE, P. et al. A randomized clinical trial of behavioral therapy for urinary incontinence in older women. Journal of the American Geriatrics Society, v. 59, n. 2, p. 224-231, 2011.
HODGES, P.W. et al. Reconsideração do treinamento dos músculos do assoalho pélvico para prevenir e tratar a incontinência após prostatectomia radical. Oncologia Urológica: Seminários e Pesquisas Originais v. 38, n. 5, p. 354-371, maio de 2020.
HU, M. et al. Efeito da eletroestimulação e exercícios dos músculos do assoalho pélvico em pacientes com incontinência urinária pós-prostatectomia radical. Journal of Novel Physiotherapy and Rehabilitation, v. 6, n. 1, p. 45-52, 2022.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (Brasil). Estimativa 2023: Incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022. 160 p. ISBN 978-65-88517-09-3.
KAKIHARA, S. et al. Efeito do treinamento funcional do assoalho pélvico associado ou não à eletroestimulação na incontinência urinária após prostatectomia radical. Revista Brasileira de Fisioterapia, São Carlos, v. 11, n. 6, p. 481-486, 2007.
KUBAGAWA, L.M. et al. A eficácia do tratamento fisioterapêutico da incontinência urinária masculina após prostatectomia. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 52, n. 2, p. 179–183, 2006.
MATA, L.R.F. et al. Autoeficácia e morbidade psicológica no pós-operatório de prostatectomia radical. Revista Latino-Americana, Ribeirão Preto, v. 23, n. 5, p. 806-813, 2015.
MATSUNAGA, A. et al. Eficácia do treinamento dos músculos do assoalho pélvico guiado por ultrassom na melhora da incontinência urinária prolongada após prostatectomia radical assistida por robô. Drug Discoveries & Therapeutics, v. 16, n. 1, p. 37-42, 2022.
SANTOS, A. et al. Eletroestimulação na incontinência urinária pós-prostatectomia radical. Fisioterapia Brasil, v. 17, n. 1, p. 150-152, 2016.
SHI, R. et al. Estudo da eficácia de diferentes métodos de treinamento dos músculos do assoalho pélvico para melhora da incontinência urinária em pacientes com câncer de próstata após prostatectomia radical. O Envelhecimento Masculino, v. 28, n. 1, p. 25, 2025.
STROJEK, K. et al. Ensaio clínico randomizado controlado que examina o efeito do treinamento dos músculos do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária de esforço em homens após prostatectomia radical laparoscópica: estudo piloto. Journal of Clinical Medicine, v. 10, n. 13, p. 1-10, 2021.
ZAIDAN, P. et al. Eletroestimulação, resposta dos músculos do assoalho pélvico e incontinência urinária em pacientes idosos pós-prostatectomia. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, v. 27, n. 1, p. 93-100, 2014.
ZHU, J.Y. et al. O efeito da estimulação elétrica de baixa frequência combinada com treinamento de elevação anal na incontinência urinária após prostatectomia radical em uma coorte chinesa. American Journal of Men’s Health, v. 17, p. 1-7, 2023.
1Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE.
2Doutorado em Reabilitação e Desempenho Funcional, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara.
