CLINICAL AND EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF HOSPITALIZATIONS AND DEATHS FROM APPENDECTOMY IN THE STATE OF MARANHÃO, 2015 TO 2024
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510122312
Emille Ananda Lucena Pereira1
Otto Mauro dos Santos Rosa2
RESUMO
A apendicite é uma inflamação aguda do apêndice vermiforme que demanda intervenção cirúrgica urgente, sendo a apendicectomia uma das operações mais realizadas no país. Este estudo teve como objetivo descrever o perfil clínico e epidemiológico das internações e óbitos por apendicectomia no estado do Maranhão entre os anos de 2013 e 2024. Trata-se de uma pesquisa documental, quantitativa, de natureza descritiva e retrospectiva, com delineamento censitário, utilizando dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/DATASUS). Foram analisadas variáveis como sexo, faixa etária, tempo de internação, tipo de procedimento e evolução clínica dos pacientes. No período estudado, foram registradas 22.916 internações e 171 óbitos, com predominância de casos entre homens jovens de 20 a 29 anos. A maior taxa de mortalidade foi observada em 2015 (1,03%), com tendência de redução até 2019, seguida de oscilações nos anos posteriores. Mais da metade dos óbitos ocorreram em indivíduos com 60 anos ou mais, revelando associação entre idade avançada e pior desfecho clínico. A média de permanência hospitalar foi de 3,92 dias, sendo maior entre os idosos, o que impactou também os custos hospitalares. A técnica cirúrgica laparoscópica mostrou-se vantajosa, mas ainda é subutilizada no estado, em razão de limitações estruturais. Os achados indicam a necessidade de investimentos na ampliação do acesso a tecnologias cirúrgicas minimamente invasivas e na implementação de protocolos assistenciais voltados à população idosa, visando à redução da letalidade e à melhoria da qualidade do cuidado cirúrgico no âmbito do SUS.
Palavras-chave: Apendicite. Apendicectomia. Mortalidade hospitalar. Perfil epidemiológico.
INTRODUÇÃO
A apendicite é uma inflamação do apêndice vermiforme, geralmente desencadeada pela obstrução de seu lúmen por fecalitos, hiperplasia linfoide ou parasitas. Esse bloqueio provoca retenção de muco, isquemia e proliferação bacteriana, resultando em um processo inflamatório progressivo (Neto et al., 2024).
Essa condição pode ser classificada em três formas clínicas: crônica, recorrente e aguda. A variante crônica manifesta-se como dor persistente no quadrante inferior direito, geralmente associada à obstrução parcial do apêndice. A forma recorrente, por sua vez, é caracterizada por episódios repetidos de inflamação intercalados por períodos assintomáticos. Já a apendicite aguda é a mais comum e clinicamente relevante, sobretudo entre indivíduos de 10 a 20 anos, e subdivide-se em simples, gangrenosa ou perfurada, conforme a gravidade do processo inflamatório (Frota; Marino; Costa, 2023; Tokarski et al., 2023).
Sua apresentação clínica típica inclui dor abdominal inicialmente difusa, que tende a se localizar no quadrante inferior direito com a progressão da inflamação, além de sintomas como náuseas, vômitos e febre. No entanto, o quadro pode variar conforme o estágio da doença e o perfil do paciente, o que reforça a importância de um diagnóstico precoce para a prevenção de complicações graves (Barradas Junior et al., 2024).
Diante dessa urgência, o tratamento padrão é a apendicectomia, realizada por via aberta (laparotômica) ou por videolaparoscopia. Idealmente, a intervenção deve ocorrer nas primeiras 24 a 48 horas após o início dos sintomas, uma vez que atrasos elevam significativamente o risco de perfuração e outras complicações (Aragão et al., 2025).
Embora seja amplamente considerada uma cirurgia segura, complicações graves podem surgir, sobretudo quando há atraso no diagnóstico ou presença de fatores de risco, como sexo feminino, apendicite necrosada com ou sem perfuração, uso de drenos abdominais e classificação ASA II (Palu et al., 2022). A mortalidade geral associada à apendicectomia gira em torno de 0,1%, mas pode variar conforme a técnica cirúrgica utilizada e as condições hospitalares. Em países de renda média, como o Brasil, esse índice pode alcançar até 0,47%, refletindo desigualdades estruturais que impactam os desfechos clínicos (Rosero et al., 2023; Schildberg et al., 2025).
A técnica laparoscópica tem se destacado como a abordagem preferencial no tratamento da apendicite aguda, por ser minimamente invasiva e proporcionar benefícios como menor incidência de infecções na ferida operatória, alívio mais rápido da dor e retorno precoce às atividades habituais. Apesar dessas vantagens, a cirurgia aberta ainda é amplamente utilizada, especialmente em contextos com restrições de infraestrutura, capacitação técnica e disponibilidade de equipamentos (Marques et al., 2023).
No Sistema Único de Saúde (SUS), essas limitações estruturais contribuem para a predominância da via aberta. No entanto, aponta-se que a laparoscopia, além de clinicamente mais segura, pode ser também mais econômica, com redução média de 7,6% nos custos hospitalares e queda de até 57,1% na mortalidade em comparação à técnica convencional (Marcello; Passos, 2021).
Considerando a apendicectomia como uma das cirurgias de urgência mais realizadas no Brasil, torna-se relevante investigar como esses aspectos se manifestam no estado do Maranhão ao longo dos anos. A análise dos padrões de internação e mortalidade pode evidenciar desigualdades regionais, além de subsidiar estratégias para a melhoria da assistência e prevenção de complicações.
Dessa forma, este estudo teve como objetivo geral descrever o perfil clínico e epidemiológico das internações e óbitos por apendicectomia no Maranhão entre 2015 e 2024. Especificamente, buscou-se caracterizar os casos segundo variáveis sociodemográficas e clínicas, identificar fatores associados aos óbitos hospitalares e analisar as tendências temporais conforme tipo de procedimento, tempo de internação e faixa etária dos pacientes.
MATERIAIS E MÉTODOS
Tratou-se de uma pesquisa do tipo epidemiológica, documental, quantitativa, de natureza descritiva e retrospectiva. O estudo teve delineamento censitário, abrangendo todos os casos de internações e óbitos por apendicectomia registrados no estado do Maranhão, no período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. Os dados foram obtidos por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), através do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS).
Foram incluídas todas as internações hospitalares com procedimento de apendicectomia realizadas em pacientes residentes no Maranhão, independentemente da faixa etária, registradas no período definido. Foram excluídas as internações ocorridas no estado, mas referentes a pacientes com residência fora do Maranhão.
A coleta dos dados foi realizada por meio da consulta às bases públicas do DATASUS, utilizando o TabNet como ferramenta de extração das informações disponíveis no SIH/SUS. As variáveis analisadas compreenderam: ano de internação, sexo, faixa etária, tempo de permanência hospitalar, tipo de procedimento cirúrgico (laparotomia ou videolaparoscopia), evolução da internação (alta ou óbito) e regime de atendimento (urgência ou eletivo). Os dados foram tabulados e organizados em planilhas eletrônicas utilizando o programa Microsoft Excel 2020. A análise foi realizada por meio de estatística descritiva, com apresentação de números absolutos, frequências relativas e percentuais, além da construção de tabelas e gráficos para facilitar a visualização dos resultados. Também foi analisada a tendência temporal das internações e dos óbitos relacionados à apendicectomia ao longo dos 12 anos investigados.
RESULTADOS
No período de 2015 a 2024, foram registradas 22.916 internações e 171 óbitos de pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão. O Gráfico 1 apresenta essa distribuição por ano de ocorrência.
Gráfico 01- Distribuição das internações, número de óbitos e taxa de óbitos em pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, de 2015 a 2024.

No início da série, em 2015, foi registrada a maior taxa de mortalidade do período (1,03%), com 19 óbitos em um total de 1.853 internações. A partir desse ponto, observa-se uma tendência geral de queda, alcançando o valor mais baixo em 2019 (0,43%), ano em que ocorreram apenas 10 óbitos entre 2.308 internações. Contudo, a taxa volta a subir em 2020 (0,72%) e mantém-se relativamente estável nos anos seguintes, com valores variando entre 0,63% e 0,91%. Destaca-se o ano de 2022, que apresentou a maior quantidade absoluta de óbitos (22), resultando em uma taxa de 0,91%, apesar do número de internações ter sido elevado (2.416). Ao final da série, em 2024, a taxa de mortalidade foi de 0,78%, com 19 óbitos em 2.428 internações, sugerindo uma estabilização dos índices após as flutuações observadas no período pandêmico, conforme mostra o gráfico 1.
A tabela 1 mostra a distribuição dos casos por ano de ocorrência, segundo sexo e a faixa etária.
Tabela 01 – Distribuição do perfil (sexo e faixa etária) dos pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, de 2015 a 2024.

No que se refere ao perfil por sexo, observou-se predominância de internações no sexo masculino, totalizando 14.354 casos, o que corresponde a 62,6% do total de hospitalizações no período. Já o sexo feminino representou 37,4% das internações, com um total de 8.562 casos. A faixa etária de 20 a 29 anos apresentou o maior número de internações, com 8.398 registros (36,6%), seguida pelas faixas de 30 a 39 anos (27,9%) e 40 a 49 anos (16,7%). Juntas, essas três faixas etárias compreendem mais de 80% das internações por apendicite no período analisado, evidenciando que a doença acomete predominantemente adultos jovens em idade economicamente ativa. As internações tornam-se progressivamente menos frequentes nas faixas etárias mais avançadas, sendo os menores percentuais observados entre indivíduos com 80 anos ou mais (1,2%), conforme mostra a tabela 2.
A tabela 2 mostra a média de permanência hospitalar por sexo e faixa etária, assim como o valor total gasto no período de estudo, a média de gasto por paciente e por internação.
Tabela 02 – Distribuição do perfil dos pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, de 2015 a 2024

Quanto à média de permanência hospitalar, os valores oscilaram entre os anos e entre os diferentes grupos, mas apresentaram uma média geral de 3,92 dias para o conjunto dos pacientes. Quando analisado por sexo, os homens apresentaram uma média ligeiramente superior (3,96 dias) em comparação às mulheres (3,88 dias). No entanto, a variação mais expressiva foi observada segundo a faixa etária: os pacientes mais idosos permaneceram por mais tempo internados. A média de permanência foi de 3,54 dias na faixa de 20 a 29 anos, enquanto entre os indivíduos com 80 anos ou mais, essa média foi de 6,25 dias. Por fim, observou-se um aumento progressivo no custo médio das internações ao longo do período analisado, passando de R$ 593,40 em 2015 para R$ 735,15 em 2024, com um valor médio estimado de R$ 664,75 por internação no intervalo de dez anos. O valor total anual das internações também apresentou crescimento, ultrapassando R$ 1,7 milhão nos anos mais recentes, conforme mostra a tabela 2.
Os Gráficos 2 e 3 mostram a distribuição dos óbitos de pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024.
Gráfico 02- Distribuição dos óbitos por sexo em pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, de 2015 a 2024.

Foram registrados 86 óbitos entre homens (50,3%) e 85 óbitos entre mulheres (49,7%), totalizando 171 óbitos no intervalo de dez anos, conforme mostra o gráfico 2.
Gráfico 03- Distribuição dos óbitos por faixa etária em pacientes adultos submetidos à apendicectomia no estado do Maranhão, de 2015 a 2024.

Em relação à faixa etária, observa-se que a mortalidade aumenta significativamente com o avanço da idade. As maiores proporções de óbitos ocorreram nas faixas “80 anos ou mais” (19,4%), “70 a 79 anos” (16,2%) e “60 a 69 anos” (15,6%), totalizando 51,2% dos óbitos em indivíduos com 60 anos ou mais. Pacientes entre 20 e 29 anos representaram apenas 6,7% dos óbitos, enquanto a faixa de 30 a 39 anos somou 10,5%, conforme mostra o gráfico 3
DISCUSSÃO
A apendicectomia é um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns no Brasil, frequentemente indicada para o tratamento da apendicite aguda. No Maranhão, essa cirurgia também é rotina em hospitais públicos. A técnica laparoscópica é considerada padrão-ouro em casos não complicados, por apresentar menos complicações e menor tempo de internação. Assim, a apendicectomia mantém papel central na prática cirúrgica regional e nacional (Brasil, 2025; Pinheiro et al., 2025; Sampaio et al., 2024).
A variação observada nas taxas de mortalidade hospitalar após apendicectomia no Maranhão, com picos notáveis nos anos de 2021 e 2023, reflete um padrão previamente identificado por Lira et al. (2022), cujo estudo evidenciou maior mortalidade por esse procedimento no estado em comparação à média nacional, atribuindo esse cenário à fragilidade da estrutura hospitalar local. Esses achados são corroborados por Trunfio et al. (2022), que destacaram o impacto da idade avançada e das formas complicadas da condição de base no aumento do tempo de internação e da letalidade, especialmente durante a pandemia, quando a sobrecarga hospitalar e os atrasos diagnósticos agravaram o quadro clínico dos pacientes.
De modo semelhante, Marzilliano et al. (2022) encontraram correlação significativa entre mortalidade e idade, demonstrando que indivíduos idosos, frequentemente portadores de comorbidades e com resposta imune mais lenta, apresentam risco substancialmente maior de desfechos fatais. Tal achado também foi evidenciado no presente estudo, no qual mais da metade dos óbitos ocorreram em pacientes com 60 anos ou mais. Complementando essa análise, Louw et al. (2023) aplicaram o modelo dos “três atrasos” para explicar a mortalidade por causas evitáveis em regiões periféricas como o Maranhão, destacando barreiras logísticas, sociais e estruturais como fatores críticos no retardo do cuidado cirúrgico adequado.
Consequentemente, os quatro estudos mencionados reforçam que as flutuações nas taxas de mortalidade hospitalar após apendicectomia não são eventos isolados, mas sim reflexos de determinantes múltiplos, que incluem o perfil demográfico dos pacientes, a capacidade de resposta do sistema de saúde em contextos adversos, como a pandemia, e os desafios estruturais ainda presentes em regiões mais vulneráveis.
No que tange ao perfil das internações por apendicectomia, os achados do presente estudo, que revelam maior frequência de casos entre indivíduos do sexo masculino e na faixa etária de 20 a 29 anos, estão em consonância com diversas publicações nacionais e internacionais. Lira et al. (2022), ao analisarem o perfil das internações por apendicectomia no Maranhão entre 2011 e 2020, observaram prevalência significativa entre homens jovens, sugerindo a influência de fatores imunológicos e hormonais, como os níveis de testosterona, que podem modular a resposta inflamatória e predispor à evolução mais agressiva da doença de base.
De forma semelhante, Saldanha et al. (2023), em estudo realizado em Vitória-ES, identificaram padrão etário e distribuição por sexo compatíveis, associando a maior incidência de apendicectomias em adultos jovens à hiperplasia linfoide do apêndice, mais comum nessa faixa etária. Por outro lado, Cruz et al. (2021) destacaram que, embora a predominância masculina seja frequente, fatores regionais, culturais e de acesso aos serviços de saúde também interferem nos dados, uma vez que mulheres tendem a buscar atendimento com maior precocidade, reduzindo os riscos de complicações e internações prolongadas.
Complementarmente, Song et al. (2021), ao analisarem as implicações imunológicas da apendicectomia em pacientes jovens, ressaltam que a intensidade da resposta inflamatória pode ser maior entre adultos jovens, o que justificaria o pico de internações observado entre 20 e 29 anos.
Assim, a literatura converge ao apontar que fatores biológicos e comportamentais contribuem para o padrão epidemiológico identificado, embora aspectos contextuais, como acesso aos serviços, educação em saúde e tempo decorrido até a procura por atendimento, também exerçam papel relevante na dinâmica entre sexo e faixa etária.
Em relação à média de permanência hospitalar observada no presente estudo (3,92 dias), esta apresenta comportamento semelhante ao descrito por Trunfio et al. (2022), que identificaram aumento progressivo no tempo de internação com o avanço da idade, especialmente em pacientes submetidos à apendicectomia por quadros complicados, comorbidades ou necessidade de cuidados pós-operatórios prolongados. O dado de maior permanência entre idosos (6,25 dias para pacientes com 80 anos ou mais) também corrobora os achados de Marzilliano et al. (2022), que apontam a senilidade como fator de risco para complicações e prolongamento da hospitalização, em razão de quadros clínicos atípicos, menor resposta imunológica e coexistência de doenças crônicas.
A discreta diferença entre os sexos, com permanência maior entre os homens, também encontra respaldo no estudo de Saldanha et al. (2023), que sugerem que pacientes do sexo masculino tendem a procurar atendimento tardiamente, o que contribui para quadros clínicos mais graves e internações mais longas. Adicionalmente, o aumento progressivo do custo médio das internações por apendicectomia no período de 2015 a 2024 está em consonância com os achados de Maciel et al. (2020) e Filho et al. (2024), que associaram tal elevação à introdução e expansão da técnica laparoscópica.
Embora mais eficiente em termos clínicos, a laparoscopia apresenta custo inicial mais elevado, demandando infraestrutura tecnológica e profissionais capacitados. Esses dados reforçam que os padrões observados no Maranhão refletem tendências amplamente descritas na literatura, destacando a necessidade de atenção especial às especificidades clínicas da população idosa e ao impacto econômico da modernização tecnológica no âmbito do SUS, sobretudo em estados marcados por desigualdades estruturais.
Quanto à distribuição da mortalidade, o presente estudo identificou maior proporção de óbitos entre homens e idosos, achado que está alinhado com a literatura nacional e internacional. Lira et al. (2022), ao analisarem as internações por apendicectomia no Maranhão entre 2011 e 2020, também relataram mortalidade hospitalar mais elevada entre indivíduos de idade avançada, embora não tenham identificado diferença estatisticamente significativa entre os sexos. Resultado semelhante foi verificado neste estudo, o que sugere que, ainda que o número absoluto de internações e óbitos seja maior entre os homens, o risco de morte após apendicectomia parece estar mais relacionado à condição clínica individual do paciente do que ao sexo biológico.
Nesse contexto, Marziliano et al. (2022) evidenciam que a senilidade constitui um importante fator de risco para desfechos adversos hospitalares, uma vez que o envelhecimento está frequentemente associado à presença de múltiplas comorbidades, fragilidade imunológica e manifestações clínicas atípicas, como declínio funcional e alteração do estado mental. Esses quadros clínicos menos específicos dificultam o reconhecimento precoce de doenças agudas, resultando, muitas vezes, em atraso no diagnóstico e intervenções menos eficazes.
Além disso, Trunfio et al. (2022) demonstraram que pacientes idosos apresentam maior tempo de internação, maior taxa de complicações pós-operatórias e maior mortalidade, mesmo quando submetidos a tratamento cirúrgico oportuno. Esse agravamento do quadro clínico, segundo os autores, pode ser atribuído tanto ao envelhecimento fisiológico quanto à presença de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e cardiopatias, que comprometem a resposta ao tratamento. Em contrapartida, Saldanha et al. (2023), em estudo realizado no Espírito Santo, observaram uma leve predominância da mortalidade entre mulheres, embora tenham atribuído essa diferença às especificidades da amostra e ao número absoluto de casos, sem configurar um padrão generalizável. Ainda assim, os autores reafirmam que a idade avançada é o principal fator preditor de óbito após apendicectomia.
Dessa forma, os achados do presente estudo dialogam com a literatura existente ao evidenciar que a mortalidade associada à apendicectomia está fortemente relacionada à idade avançada, sobretudo em função da complexidade clínica dos casos geriátricos. Embora o número absoluto de óbitos tenha sido maior entre os homens, tal distribuição reflete a maior prevalência de internações nesse grupo, e não necessariamente uma diferença no risco relativo de morte.
Assim, torna-se fundamental o acompanhamento rigoroso e a priorização do diagnóstico precoce em idosos, como estratégias para redução da letalidade pós-operatória, principalmente em contextos como o do Maranhão, onde ainda persistem desafios estruturais no acesso e na qualidade do cuidado hospitalar.
CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que, entre 2015 e 2024, a apendicectomia no Maranhão apresentou maior frequência de internações em adultos jovens do sexo masculino, enquanto a mortalidade concentrou-se em pacientes com 60 anos ou mais. A média de permanência hospitalar foi maior entre idosos, refletindo maior complexidade clínica, o que também se associou ao aumento dos custos hospitalares.
Apesar de certa estabilização das taxas de óbito nos últimos anos, os dados apontam para fragilidades persistentes na estrutura hospitalar, como o acesso limitado à laparoscopia, especialmente em regiões com menor infraestrutura. A elevada mortalidade em idosos reforça a necessidade de diagnóstico precoce e cuidado intensivo neste grupo.
Diante disso, é fundamental investir na qualificação da assistência cirúrgica, ampliação do uso de técnicas minimamente invasivas e adoção de protocolos específicos para pacientes vulneráveis, com vistas à redução da letalidade e à melhoria dos desfechos cirúrgicos no estado.
Como limitação, destaca-se o uso exclusivo de dados secundários do DATASUS, sujeitos a subnotificações e inconsistências de registro, o que pode restringir a precisão das análises apresentadas.
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1Discente do Curso de Residência de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, e-mail: emilleananda@hotmail.com
2Professor Mestre do Curso de Residência de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão. Mestre em Ciências da Saúde (IAMSPE/SP). e-mail: ottomsrosa@yahoo.com.br
