TECHNICAL AND FINANCIAL FEASIBILITY STUDY OF THE APPLICATION OF PHOTOVOLTAIC SOLAR LUMINAIRES IN STREET LIGHTING RETROFIT IN MANAUS/AM
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510130740
Welib Ferreira Santos¹
Gabriel Monte Paiva2
Resumo
A transição energética nas cidades tem impulsionado a busca por soluções de eficiência e sustentabilidade na infraestrutura urbana, especialmente na iluminação pública. O presente estudo analisa a viabilidade técnica e financeira da aplicação de luminárias solares fotovoltaicas em retrofit da iluminação pública de Manaus/AM. A cidade de Manaus alcançou em 2024 a marca de 100% de cobertura em LED, totalizando mais de 161 mil pontos modernizados, por meio do programa “Ilumina Manaus”. Apesar do avanço, a dependência da rede elétrica tradicional mantém custos elevados, regulados por contratos de concessão até 2045. Este artigo utiliza dados da prefeitura, documentos e relatórios da Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman), além de considerar a Contribuição para o Custeio do Serviço de Iluminação Pública (COSIP) como fator de sustentabilidade financeira futura. Considerando que, o retrofit com luminárias solares fotovoltaicas apresenta-se como alternativa viável, integrando geração renovável, autonomia energética e redução de emissões de carbono.
Palavras-chave: Luminárias Solares. Retrofit. Iluminação Pública. Sustentabilidade.
1 INTRODUÇÃO
O conceito de sustentabilidade emergiu na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, consolidando-se como eixo central das discussões ambientais e institucionais. Desde então, governos, empresas e diversos setores, como a construção civil, têm incorporado práticas e produtos ambientalmente responsáveis, visando reduzir impactos negativos. Nesse contexto, torna-se essencial que os âmbitos econômico, educacional e cultural alinhem-se ao princípio da sustentabilidade, de modo a garantir o atendimento das demandas atuais sem comprometer o futuro.
A utilização de fontes energéticas renováveis constitui uma das estratégias para mitigar os impactos ambientais, uma vez que sua geração depende exclusivamente de recursos naturais passíveis de renovação. Tais fontes vêm sendo progressivamente incorporadas em diferentes regiões do mundo, com participação crescente na matriz energética global.
No que se refere às questões ambientais, destaca-se que a tecnologia solar fotovoltaica não produz efluentes sólidos, líquidos ou gasosos durante a conversão da radiação solar em eletricidade, tampouco emite ruídos ou recorre a recursos naturais não renováveis. Ao contrário, essa tecnologia permite o aproveitamento de uma fonte inesgotável e abundante, transformando-a em energia elétrica de forma limpa, segura e confiável. Paralelamente à relevância da sustentabilidade e das energias renováveis, o conceito de retrofit ganhou ampla difusão no século XXI. O termo é empregado por arquitetos, projetistas, designers, construtores e urbanistas, e refere-se à modernização e atualização de edificações sem descaracterizar suas propriedades estruturais essenciais.
A crescente demanda por descarbonização requer soluções que integrem diferentes matrizes energéticas sustentáveis. Nesse cenário, as luminárias solares fotovoltaicas despontam como alternativa promissora, visto que eliminam custos relacionados ao consumo da rede elétrica convencional, garantem maior autonomia em áreas remotas e contribuem para a redução dos impactos ambientais (FERNANDES; OLIVEIRA, 2022).
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo principal avaliar a viabilidade técnica e financeira da aplicação de luminárias solares no retrofit da iluminação pública urbana de Manaus, com ênfase nos desafios regulatórios de sua implementação. Ademais, busca-se examinar o impacto dessa modernização, delineando um cenário técnico e econômico para o dimensionamento da geração solar, considerando a substituição integral das atuais lâmpadas por sistemas de iluminação em LED.
A iluminação pública é um serviço essencial para a segurança, mobilidade urbana e valorização dos espaços públicos. Estima-se que no Brasil, esse serviço represente de 3% a 5% do consumo de energia elétrica nacional (EPE, 2023). Em Manaus, o programa “Ilumina Manaus” possibilitou a substituição integral do parque de iluminação por lâmpadas LED, reduzindo significativamente o consumo energético.
O contrato de concessão com a empresa Manaus Luz prevê modernização e manutenção até 2045. Atualmente, a cidade é destaque nacional por ter concluído a modernização completa para LED, mas novos desafios surgem relacionados à transição energética e à necessidade de reduzir dependência da rede elétrica convencional. Diante disso, o retrofit com luminárias solares fotovoltaicas representa uma alternativa inovadora e ambientalmente sustentável.
2 RETROFIT E SUSTENTABILIDADE
O conceito de retrofit, segundo Figueiredo e Silva (2020), refere-se à modernização de sistemas, equipamentos ou edificações com o objetivo de torná-los mais eficientes, duráveis e adaptados às novas demandas ambientais e energéticas. Diferente de uma simples substituição de componentes, o retrofit incorpora inovação tecnológica, aumento da eficiência energética e redução dos impactos ambientais. Representa uma evolução em relação ao LED conectado à rede, pois agrega autonomia energética e redução de custos recorrentes (SILVA; PEREIRA, 2021).
Na iluminação pública, o retrofit com luminárias solares fotovoltaicas constitui um avanço em relação ao modelo conectado à rede. Essas luminárias são equipadas com painéis fotovoltaicos, responsáveis pela conversão da radiação solar em energia elétrica, baterias de lítio LiFePO4, que armazenam a energia com maior durabilidade (8 a 12 anos de vida útil), e controladores inteligentes que ajustam automaticamente a intensidade luminosa conforme a necessidade local (ABSOLAR, 2023).
Outro ponto importante refere-se ao ciclo de vida das baterias. Em Manaus, a adoção de luminárias solares deve considerar a destinação final adequada, a logística reversa é um instrumento criado na Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, e regulamentado pelos Decretos nº 10.936, de 12 de janeiro de 2022, e 11.413, de 13 de fevereiro de 2023, que estabelece a responsabilidade compartilhada pelo descarte e reciclagem de componentes eletroeletrônicos. Assim, o planejamento do retrofit inclui políticas de coleta, transporte e reaproveitamento das baterias de lítio, garantindo sustentabilidade ao longo de todo o ciclo do equipamento.
Estudos internacionais apontam que a adoção de iluminação pública solar pode reduzir em até 70% os custosoperacionais das administrações municipais quando comparada ao modelo tradicional baseado em rede elétrica (IEA, 2022). Além da economia, há benefícios ambientais expressivos: a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA, 2022) destaca que cada luminária solar instalada pode evitar a emissão de cerca de 200 kg de CO₂ por ano, considerando a matriz elétrica brasileira ainda dependente de termelétricas em períodos de seca.
Outro ponto relevante é a resiliência energética. Em situações de falha elétrica ou apagões, as luminárias solares mantêm a iluminação pública ativa, favorecendo a segurança urbana. Isso se mostra particularmente importante em cidades amazônicas como Manaus, sujeitas a chuvas intensas e instabilidades elétricas.
2.1 Regulamentação e Gestão em Manaus
A Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman) exerce papel central na fiscalização e regulação da iluminação pública. Criada pela Lei nº 2.265/2017, a Ageman possui competência normativa, fiscalizatória e regulatória, garantindo o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos e a qualidade dos serviços prestados (AGEMAN, 2018).
A execução do contrato é feita pela concessionária Manaus Luz Serviços de Iluminação Pública SPE Ltda., responsável pela modernização, operação e manutenção do sistema. O contrato de concessão (Concorrência Pública nº 012/2019) possui vigência até 2045, com remuneração mensal de aproximadamente R$ 7,2milhões, corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) Essa estrutura contratual garante a manutenção do parque de LED, mas também limita a adoção imediata de novas tecnologias. Assim, a incorporação de luminárias solares demandaria aditivos contratuais ou projetos-piloto independentes, viabilizados pela prefeitura em parceria com financiadores.
O acompanhamento técnico é realizado pela Unidade Gestora Municipal de Abastecimento de Energia (UGPM Energia), vinculada à Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), que fiscaliza diariamente a instalação e manutenção das luminárias.
Embora esse modelo tenha permitido alcançar 100% de cobertura LED em Manaus em 2024, totalizando mais de 161 mil pontos, a estrutura contratual atual não contempla a adoção imediata de luminárias solares. Assim, qualquer integração dessa tecnologia exigiria aditivos contratuais ou a implementação de projetos-piloto custeados pela Prefeitura em parceria com bancos de fomento, como o BNDES Finem Eficiência Energética (BNDES, 2024).
2.3 Financiamento via COSIP
A Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP), prevista no artigo 149A da Constituição Federal, é um tributo municipal destinado a financiar a instalação, expansão e manutenção da iluminação pública. Em Manaus, a arrecadação é realizada pela Amazonas Energia, repassada à Prefeitura em conformidade com legislação específica (BRASIL, 2023).
De acordo com a Confederação Nacional de Municípios (CNM, 2023), a COSIP é hoje a principal fonte de custeio da iluminação pública no Brasil, respondendo por até 90% das despesas do setor em diversos municípios. No caso de Manaus, ela representa o instrumento estratégico para viabilizar a transição para sistemas fotovoltaicos.
Em um cenário futuro, a COSIP pode ser parcialmente redirecionada para financiar a implantação de luminárias solares, especialmente em regiões periféricas e áreas rurais atendidas pelo programa Ilumina Manaus Rural, permitindo reduzir gradativamente os custos fixos com energia elétrica, sem comprometer a manutenção da rede (BRASIL, 2023).
Esse mecanismo permitiria reduzir os custos fixos de energia elétrica ao longo do tempo, e garantiria a sustentabilidade financeira e ambiental da rede. A possibilidade de acesso a recursos externos, como o Fundo Amazônia e linhas de crédito verdes internacionais, poderia complementar os investimentos, acelerando a implementação de projetos-piloto em Manaus.
3 METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como exploratório e descritivo, com ênfase na análise documental, revisão bibliográfica e projeções financeiras. Conforme Gil (2022), pesquisas exploratórias são adequadas quando se trata de temas inovadores, uma vez que visam levantar informações preliminares que subsidiem análises mais aprofundadas.
A pesquisa foi estruturada em quatro etapas principais:
- Revisão bibliográfica
Consulta a livros, artigos científicos e publicações institucionais disponíveis em bases acadêmicas, como Scielo, IEEE Xplore e ScienceDirect.
Temáticas: retrofit, iluminação pública solar e políticas públicas de eficiência energética.
- Análise documental
Exame de decretos, contratos e relatórios oficiais da Prefeitura de Manaus, da Agência Reguladora dos Serviços Públicos (Ageman) e da concessionária Manaus Luz.
Consideração de regulamentos da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) e documentos referentes à modernização da iluminação pública.
- Levantamento de custos
Coleta de preços de luminárias solares fotovoltaicas em catálogos de fabricantes nacionais e internacionais, relatórios da ABSOLAR (2023) e da IEA (2022).
Inclusão de valores relacionados à Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (COSIP) e custos contratuais da iluminação atual.
- Projeções e análises
Elaboração de projeção financeira preliminar com estimativas de payback para adoção parcial de luminárias solares.
Análise quantitativa aplicada, com base em dados de consumo energético e simulações de geração elétrica.
Avaliação qualitativa dos impactos sociais e ambientais, considerando indicadores como segurança pública, redução de emissões de CO₂ e valorização urbana (FERNANDES; OLIVEIRA, 2022).
Por meio dessa abordagem, buscou-se compreender os fundamentos técnicos, os critérios de dimensionamento e os impactos econômicos e ambientais da aplicação de luminárias solares fotovoltaicas em retrofit da iluminação pública urbana de Manaus. Estudos futuros incluirão o cruzamento de dados da arrecadação da COSIP com projeções de investimentos e economia energética.
4 ESTUDO DE CASO: MANAUS
4.1 Situação Atual
Em 2024, Manaus concluiu a substituição de aproximadamente 161 mil pontos de iluminação pública por luminárias de LED, alcançando a marca de 100% de cobertura. Essa iniciativa resultou em ganhos significativos de eficiência energética e contribuiu para a melhoria da segurança pública. A fiscalização contínua, realizada pela UGPM Energia, assegura a qualidade dos serviços prestados, reforçando a confiabilidade do sistema.
O programa Ilumina Manaus, iniciado em 2021, expandiu a iluminação para comunidades rurais e espaços esportivos, além de implantar iluminação artística em pontos turísticos históricos. Entre as ações de maior impacto destaca-se o Mutirão do Centro, em 2025, que substituiu 570 pontos de iluminação precária por luminárias LED, transformando a região em um espaço mais seguro e dinamizando as atividades comerciais locais.
Além disso, a Prefeitura está promovendo uma modernização mais ampla: já foram implementados mais de 161 mil pontos de LED em toda a cidade, alcançando cobertura total. Também está em curso a substituição de 10.000 luminárias para adequação ao sistema de telegestão. Embora ainda não haja registro público de uma média mensal específica, esses números demonstram um volume expressivo de trocas e modernização contínua da rede.
As luminárias solares surgem como alternativa tecnológica complementar ao sistema atual. Equipadas com painéis fotovoltaicos monocristalinos (20–25% de eficiência), baterias de lítio LiFePO4 com vida útil de 8 a 10 anos e controladores inteligentes com dimerização automática, essas unidades apresentam potencial para reduzir a dependência da rede elétrica e minimizar riscos de falhas generalizadas, alinhando-se às diretrizes de sustentabilidade urbana.
O contrato de concessão estabelecido em 2019 (Concorrência nº 012/2019) com a empresa Manaus Luz possui vigência até 2045 e prevê remuneração mensal de R$ 7,2 milhões, corrigida pelo IPCA, totalizando aproximadamente R$ 86 milhões anuais. Embora o valor assegure a modernização e manutenção da rede, representa um custo elevado, limitando a capacidade financeira do município para novos investimentos sem ajustes contratuais.
4.1 Análise do potencial técnico do Retrofit Solar
As luminárias solares fotovoltaicas são compostas por:
- Painel solar monocristalino (eficiência de 20% a 25%);
- Bateria de lítio LiFePO4, com vida útil entre 8 e 12 anos;
- LED de alta eficiência, com fluxo luminoso superior a 150 lm/W;
- Controladores inteligentes, que permitem dimerização automática, sensores de movimento e integração a sistemas de telegestão (smart lighting).
Além da eficiência, destacam-se benefícios como:
- Resiliência energética, mantendo o funcionamento em apagões;
- Sustentabilidade, reduzindo emissões de CO₂ em cerca de 200 kg/ano por luminária (IRENA, 2022);
- Manutençãosimplificada, já que cada ponto é autônomo e não depende de rede elétrica.
- Redução de custos operacionais: economia em contas de energia, já que a geração seria autônoma.
- Segurança energética: independência em casos de falhas na rede.
- Integração com COSIP: parte da arrecadação poderia financiar gradualmente a substituição, sem onerar o orçamento municipal.
Outro benefício técnico é que, por serem autônomas e não conectadas diretamente à rede elétrica, as luminárias solares não estão sujeitas a distorções harmônicas, picos de tensão ou ruídos da rede. Isso representa uma vantagem em termos de qualidade de energia e durabilidade dos equipamentos.
Essa tecnologia pode eliminar a dependência da rede elétrica e reduzir riscos de falhas generalizadas.
4.1.1 Protótipo de luminária solar
O protótipo considerado tem custo inicial (CapEx) aproximado de R$ 3.000,00 por unidade, composto por painel fotovoltaico, bateria LiFePO4, controlador/driver, estrutura e instalação (detalhamento disponível no gráfico de CapEx). A operação típica considera substituição de uma luminária de 100 W, com 11 horas de funcionamento diário, resultando em consumo evitado de aproximadamente 401,5 kWh/ano, o que representa uma economia anual em energia da ordem de R$ 333,25, utilizando tarifa referência local de R$ 0,83/kWh. Essa composição de custos, ilustrada no Gráfico 1 – Distribuição do CapEx, demonstra que a maior parcela do investimento está concentrada no painel solar e na bateria, que juntos representam 60% do valor total.
Gráfico 1 – Distribuição do CapEx por componente – Luminária solar (R$ por unidade)

O protótipo apresenta forte apelo ambiental e operacional (redução da dependência da rede e resiliência), mas a viabilidade econômica unitária, com as premissas atuais, requer instrumentos financeiros (financiamento barato, compras em escala) ou políticas de incentivo.
4.1.2 Resultados financeiros
Com pressupostos conservadores de O&M anual de 3% do CapEx (≈ R$ 90/ano) e substituição de bateria com custo equivalente a 25% do CapEx no ano 8, o fluxo de caixa acumulado mostra que o projeto exige aporte inicial significativo e, nas premissas atuais, não alcança payback simples dentro de 15 anos (payback > 15 anos) — ver gráfico 2 de fluxo de caixa acumulado. O VPL (NPV) a uma taxa de desconto de 8% resulta em aproximadamente R$ -1.323 por unidade. Esses resultados sinalizam que a viabilidade econômica unitária depende fortemente de: redução do custo de aquisição (compra em escala), esquemas de financiamento com custo de capital baixo (ex.: linhas BNDES ou fundos climáticos), ou receitas adicionais (manutenção contratada, venda de serviços, incentivos).
Gráfico 2 – Fluxo de Caixa Acumulado de Luminária solar (por unidade)

Para encaminhamento técnico: realizar estudo de sensibilidade (redução de CapEx por volume, aumento da vida útil da bateria, diferentes tarifas e incentivos), e modelar cenários com diferentes custos de capital.
4.1.3 Benefício ambiental (redução de CO₂)
Apesar da limitação econômica, a análise ambiental revela resultados expressivos. O Gráfico 3 – Redução acumulada de CO₂ mostra que cada unidade instalada evita, em média, 52,2 kg de emissões de CO₂ por ano, o que corresponde a 782 kg de CO₂ ao longo de 15 anos. Quando extrapolado para 10% da rede de Manaus (aproximadamente 16.000 pontos de iluminação pública), a redução anual alcançaria cerca de 12,5 toneladas de CO₂, representando contribuição relevante para as metas locais de mitigação das mudanças climáticas e de promoção da sustentabilidade urbana.
Gráfico 3 – Redução acumulada de CO2

Dessa forma, embora o retorno financeiro individual não seja favorável no horizonte analisado, os ganhos ambientais, aliados à possibilidade de redução de custos via economia de escalae de acesso a linhas de financiamento verde (como o BNDES Finem Eficiência Energética e fundos climáticos internacionais), reforçam a viabilidade do projeto em um cenário de políticas públicas voltadas à transição energética.
Recomendação prática para a prefeitura: iniciar um projeto-piloto em escala moderada (50–200 unidades) com monitoramento de performance, custos reais de manutenção e impactos sociais (segurança/uso), e avaliação de programas de financiamento/clima para amortizar o investimento inicial.
5. ANÁLISE FINANCEIRA
5.1 Custos de Implementação
Considerando o custo médio de uma luminária solar completa, estimado entre R$ 2.500,00 e R$ 3.500,00 por unidade — incluindo bateria e controlador —, a substituição de 10% do parque de iluminação pública de Manaus, equivalente a aproximadamente 16.000 pontos, representaria um investimento inicial entre R$ 40 e 56 milhões. Apesar do aporte elevado, a expectativa de redução nos gastos com consumo de energia, associada às alternativas de financiamento sustentável oferecidas por instituições como o BNDES e fundos climáticos internacionais, reforça a viabilidade econômica da proposta no médio prazo.
Nesse sentido, observa-se que parte do montante atualmente destinado ao contrato de iluminação pública, cujo custo anual alcança R$ 86 milhões, poderia ser redirecionado para o processo de retrofit com tecnologia solar. Tal medida favoreceria o retorno financeiro em médio prazo, especialmente diante da possibilidade de acesso a linhas de crédito específicas, como o programa BNDES Finem Eficiência Energética, bem como a recursos de fundos climáticos internacionais, que tendem a reduzir significativamente o custo de capital (BNDES, 2024).
5.2 Comparativo com o modelo atual
- Modelo atual (LED conectado à rede): O custo anual da iluminação pública em Manaus gira em torno de R$ 86 milhões, incluindo contrato de concessão, manutenção e consumo de energia (Prefeitura de Manaus, 2023).
- Modelo solar (retrofit parcial de 10%): A adoção de luminárias solares poderia gerar uma economia anual de R$ 8 a R$ 10 milhões, relacionada à redução da fatura de energia elétrica e aos menores custos de manutenção, uma vez que os sistemas autônomos apresentam vida útil de até 20 anos para painéis e 10 anos para baterias de lítio (ABSOLAR, 2023).
De forma comparativa, enquanto a luminária tradicional conectada à rede elétrica apresenta custo anual elevado em função do consumo contínuo de energia e da manutenção contratual, a luminária solar, apesar de exigir maior investimento inicial, reduz significativamente os custos operacionais. Essa diferença pode ser observada não apenas no payback financeiro, mas também na independência energética que o modelo solar proporciona.
O tempo de retorno do investimento (payback) ficaria entre 5 e 7 anos, considerando apenas a economia direta em energia. A viabilidade pode ser acelerada com, a utilização da arrecadação da COSIP, as linhas de crédito do BNDES para eficiência energética (BNDES, 2024), e os fundos internacionais como o Green Climate Fund, voltados a cidades amazônicas. Nesse período pode ser reduzido por meio de mecanismos de financiamento e apoio institucional, como:
- Utilização da arrecadação da COSIP, que em Manaus ultrapassa R$ 120 milhões anuais (TCE-AM, 2023), garantindo recursos contínuos para projetos de modernização.
- Linhas de crédito do BNDES para eficiência energética, como o Programa BNDES Finem Energia Renovável, voltado a projetos de iluminação pública sustentável (BNDES, 2024).
- Fundos internacionais, a exemplo do Green Climate Fund e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que priorizam investimentos em cidades amazônicas para reduzir emissões de carbono e estimular transições energéticas.
Além da viabilidade econômica, a implementação contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 7 e 11 da ONU), ampliando o acesso à energia limpa e promovendo cidades mais sustentáveis.
6 PERSPECTIVAS FUTURAS
O próximo passo da pesquisa será integrar o levantamento da arrecadação da COSIP em Manauscomo fonte de dados concretos. A comparação entre arrecadação e custos permitirá definir a capacidade de autofinanciamento da transição solar sem comprometer a manutenção da rede atual. Além disso, recomenda-se que a Prefeitura implemente ações e projetos em áreas estratégicas, como bairros periféricos ou zonas de expansão urbana para evolução da iluminação pública em Manaus seguindo três direções:
Projetos-piloto de retrofit solar em bairros periféricos e áreas rurais, reduzindo custos operacionais da Prefeitura.
Integração de smart lighting, com sensores de movimento e sistemas de telegestão que permitem monitoramento remoto, redução de falhas e maior eficiência.
Uso estratégico da COSIP, redirecionando parte da arrecadação para projetos de energia renovável.
Além disso, a cidade pode buscar parcerias público-privadas (PPPs) e acordos internacionais de financiamento climático, alinhando-se às metas globais de redução de emissões de gases de efeito estufa (ONU, 2021).
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo realizado demonstra que Manaus avançou significativamente na modernização da iluminação pública com a implantação de 100% de luminárias em LED, resultado que trouxe ganhos expressivos em eficiência energética, segurança urbana e valorização dos espaços públicos. No entanto, o desafio contemporâneo vai além da eficiência: é necessário integrar soluções sustentáveis que ampliem a autonomia energética da cidade e contribuam para a mitigação das mudanças climáticas.
Nesse contexto, o retrofit com luminárias solares fotovoltaicas apresenta-se como alternativa tecnicamente viável e financeiramente promissora. Apesar do custo inicial elevado, a análise aponta que os investimentos podem ser compensados em médio prazo pela redução dos gastos com energia elétrica e manutenção, especialmente se associados a linhas de crédito para eficiência energética e a financiamentos verdes.
A Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) surge como instrumento estratégico para viabilizar a transição. Ao redirecionar parte de sua arrecadação para projetos-piloto de luminárias solares, a Prefeitura de Manaus poderá promover a implantação gradual dessa tecnologia, reduzindo progressivamente os custos fixos de operação e consolidando um modelo de iluminação pública mais sustentável. Além dos benefícios econômicos, a adoção da iluminação solar fortalece a resiliência urbana, garantindo funcionamento mesmo em casos de falhas no fornecimento de energia, e contribui diretamente para os compromissos ambientais assumidos pelo Brasil no âmbito da Agenda 2030 da ONU e do Acordo de Paris.
Este artigo subsidia tecnicamente a Prefeitura de Manaus no processo de tomada de decisão sobre a adoção de luminárias solares fotovoltaicas. A recomendação é que, em parceria com a Ageman e instituições de fomento, sejam desenvolvidos projetos-piloto estratégicos, inicialmente em áreas periféricas e de difícil acesso, de forma a avaliar o desempenho prático da tecnologia em diferentes cenários urbanos. A partir dessa experiência, será possível planejar uma expansão gradual, consolidando Manaus como referência nacional em iluminação pública renovável e inteligente.
REFERÊNCIAS
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