PERCEPÇÕES SOBRE OS EFEITOS ADVERSOS AO USO DO DIU DE COBRE E FATORES ASSOCIADOS À SUA BAIXA ADESÃO

PERCEPTIONS ABOUT THE ADVERSE EFFECTS OF COPPER IUD USE AND FACTORS ASSOCIATED WITH LOW ADHERENCE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510221639


Támily Pereira Maia1
Larissa de Carvalho Silva2
Soraia Richelle Alvarenga Esquerdo3
Chimene Kuhn Nobre4


Resumo

Objetivo: Analisar a percepção de reações adversas em usuárias do dispositivo intrauterino de cobre e fatores relacionados à baixa adesão ao método. Métodos: Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica integrativa em artigos científicos utilizando-se dos descritores: Contracepção reversível de longo prazo; Dispositivo intrauterino; Efeitos adversos e Métodos anticoncepcionais, publicados entre os anos de 2011 e 2025 nos idiomas português, inglês e espanhol, nas bases de dados: Public Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (PubMed), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Elsevier e Scientific Eletronic Library Online (Scielo). Discussão: O dispositivo intrauterino de cobre (DIU-Cu) é, ainda, subutilizado por fatores que envolvem a má distribuição territorial do serviço, baixa capacitação dos profissionais de saúde e crenças errôneas quanto ao método. Contudo, ao englobar mulheres que optaram por esta contracepção, as literaturas revisadas observaram as percepções individuais de efeitos adversos ao DIU-Cu, e, em consonância, evidenciaram a menorragia e dismenorreia como principais sintomas relatados sendo motivo de descontinuação, em alguns casos. Outros sintomas como edema, spotting, acne, baixa libido, expulsão do dispositivo e mastalgia foram mencionados em menor número, contudo, o método permaneceu como alternativa ideal àquelas que não desejavam opções hormonais, com alto grau de satisfação e eficácia. Considerações finais: Evidencia-se que, embora o DIU-Cu seja um método contraceptivo eficaz, seguro e com baixas taxas de falhas, sua adesão é limitada devido à ausência de orientação apropriada, convicções equivocadas e fatores socioeconômicos. Além disso, os sintomas proeminentes incluem o aumento do fluxo menstrual e cólicas menstruais intensas. Logo, aprimorar a formação dos profissionais de saúde e investir na educação em saúde são ações fundamentais para expandir e desmistificar o método. Os estudos não levaram em consideração a associação entre as sintomatologias percebidas e a história clínica pregressa, de modo que, os benefícios ao uso desta contracepção são prevalentes.

Palavras-chave: Contracepção Reversível de Longo Prazo. Dispositivo Intrauterino. Efeitos Adversos. Métodos Anticoncepcionais.

1 INTRODUÇÃO

O planejamento familiar foi moldado ao longo do tempo como uma aplicação de métodos capazes de controlar o número de filhos surgindo em meio a contradições e crises de crescimento populacional. Atualmente, vêm como uma necessidade de, também, espaçar as gravidezes, reduzir os problemas de saúde e a mortalidade materno-infantil, além de evitar contaminação por doenças sexualmente transmissíveis (Freitas; Santos, 2011).

Nas mulheres, a gravidez pode ser evitada por meio da inibição da ovulação, da fertilização ou implantando métodos hormonais ou não hormonais de contracepção. Dentre estes, adesivos transdérmicos, dispositivos intrauterinos hormonais, anéis vaginais, implantes subcutâneos e hormônios de aplicação intramuscular fazem parte do quadro de alternativas contraceptivas hormonais. Além disso, pílulas anticoncepcionais orais e o uso do dispositivo intrauterino de cobre (DIU-Cu) são utilizadas como métodos contraceptivos reversíveis de ação prolongada (LARCs) que não dependem da participação ativa da mulher que os esteja utilizando (Pannain, et al., 2022).

Nesse sentido, os anticoncepcionais orais tornaram-se de uso recorrente por grande parte das mulheres, por conta de sua praticidade, segurança, acessibilidade e por não intervir na vida sexual (Viana-dos-Santos, 2022). No entanto, é comum a recorrência de mulheres, que, por perceberem a presença de sintomas advindos do uso de métodos de contracepção como a pílula oral, interromperam seu uso associando a baixa libido, cefaleia e edema ao uso das alternativas hormonais. Esse ocorrido se revela de modo semelhante através do DIU-Cu, pois, embora atue impedindo a fertilização do óvulo no útero por meio da indução de resposta inflamatória, sintomatologias também são relatadas na população geral feminina. Deve-se a isso, os efeitos colaterais e possíveis alterações fisiológicas que os próprios métodos hormonais e não hormonais desencadeiam sobre o organismo humano, de modo que se tornam perceptíveis e correlacionáveis por mulheres usuárias (Pannain, et al., 2022).

Contudo, embora as usuárias correlacionem sintomatologias à inserção do DIU-Cu, o grau de satisfação é elevado representando poucas desistências ao método. Entretanto, a opção por tal método ainda é subestimado, de forma que esta contracepção é subutilizada em alguns países, como o Brasil. Deve-se a isso barreiras que dificultam a sensibilização e a adoção desta contracepção como alternativa de escolha que envolvem desde a crença de o DIU-Cu ser abortivo ou de que possa interferir na relação sexual.  (Borges, et al., 2020).

Diante desse contexto, é fundamental o aperfeiçoamento das estratégias para desmistificação do método contraceptivo apresentado, com qualificação devida dos profissionais de saúde envolvidos na inserção do dispositivo nas mulheres. Isso pode gerar um entendimento melhor de como o método pode ou não afetar a fisiologia humana feminina com possíveis efeitos colaterais associados. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo analisar as percepções de efeitos adversos ao uso do DIU-Cu e os motivos envolvidos na baixa adesão frente a outras opções. Espera-se que o presente estudo colabore no entendimento do método contraceptivo, nos seus efeitos sobre o organismo humano e desconstrua paradigmas errôneos.

2 METODOLOGIA

Este estudo baseia-se em uma revisão bibliográfica integrativa utilizando-se das seguintes fontes online para busca de artigos científicos, tais como: Public Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (PubMed), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Scientific Eletronic Library Online (Scielo).

Neste artigo foram utilizados os descritores: Contracepção reversível de longo prazo, dispositivo intrauterino, efeitos adversos e métodos anticoncepcionais com utilização de combinações dos termos por meio do operador booleano “AND” para melhor filtro de resultados. O intervalo dos artigos pesquisados incluiu os anos de 2011 a 2025, sendo favorecidos os de língua portuguesa, inglesa, além do espanhol. Porém, não foram ignorados artigos científicos de relevância e que se enquadrem no assunto discutido, embora possam estar fora dos idiomas indicados. 

Ademais, foram descartadas pesquisas que se mostraram insuficientes quanto às informações necessárias, que não abarcaram o dispositivo intrauterino de cobre ou que não contribuíram de forma eficiente para a construção do presente artigo. Como critérios de inclusão, levou-se em consideração artigos que apresentavam o conhecimento das mulheres com relação ao método discutido, vantagens ao uso do dispositivo intrauterino de cobre, além de artigos que continham informações com relação à experiência obtida com possíveis percepções, sintomatologias e opiniões individualizadas. 

Em seguida, houve uma seleção crítica dos resumos dos materiais bibliográficos utilizados em primeiro momento, baseando-se na delimitação do tema e da discussão proposta. Com isso, apenas algumas produções científicas foram utilizadas para compor este trabalho.

3 CARACTERÍSTICAS GERAIS DO DIU DE COBRE

Embora menos utilizados frente a outros métodos, o dispositivo intrauterino de cobre (DIU de cobre ou DIU-Cu) vem sendo alvo de investigações por diferentes profissionais da saúde e pesquisadores, com intuito de entender o seu funcionamento e o impacto da liberação de íons nos fluidos uterinos, podendo ou não refletir em sintomas sobre o organismo feminino. Seu material é formado por uma armação em aspecto de T com polietileno de baixa densidade e sulfato de bário adicionado. O dispositivo contém anéis de cobre sólidos nos seus braços horizontais e ao redor da haste vertical, possuindo fios de polietileno amarrados em um pequeno orifício da haste do T para facilitar sua localização e remoção do canal cervical. Sua inserção ocorre utilizando-se da pinça Kelly, onde o DIU atingirá o fundo uterino e o dispositivo será liberado da pinça, que é então retirado lentamente. Conforme a pinça é removida, a mão deve rotacionar em 15° para que o DIU de cobre não seja exteriorizado (Nahas, et.al., 2023).

Não se sabe ao certo como é o sistema de atuação do dispositivo intrauterino de cobre contra concepção. As hipóteses envolvem a inativação dos espermatozoides pela dissolução do cobre na mucosa uterina ou, que devido a resposta inflamatória que o DIU de cobre gera na camada endometrial, aquele ambiente se torna inóspito para a implantação do óvulo no local (Quezada-Alvan, et. al., 2022). Em artigos recentes, o cobre mostrou alterar a expressão gênica endometrial, induzir inflamações crônicas com fibrose estromal e infiltração de células imunes englobando, dessa forma, alterações citológicas. Tais alterações afetam diretamente em diagnósticos de patologias endometriais gerando falsos negativos ou falsos positivos (Aksoy, et. al., 2025).

4 EPIDEMIOLOGIA E O USO DO DIU-CU NA ATUALIDADE

Nos últimos anos, o Brasil demonstrou uma queda elevada na sua taxa de fecundidade, assim como em outros países da América Latina. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a taxa de fecundidade, que era de 6,3 filhos em 1960, passou para 1,7 filho por mulher em 2015. Contudo, grande parte das gestações que ocorrem no país ainda são não planejadas associando-se a isso fatores como renda, idade e escolaridade, haja visto que os indicadores de demanda por planejamento familiar satisfeita (DPFS) evidencia as mulheres mais jovens, pobres e de zona rural como vítimas de gravidezes não planejadas e da falta de acesso a métodos contraceptivos. Enquanto, por outro lado, as gravidezes planejadas envolvem mulheres com maior escolaridade, brancas e em relações amorosas estáveis. No entanto, em estudo realizado com 17.809 brasileiras, 82,4% delas relataram utilizar algum método contraceptivo, tais como procedimentos cirúrgicos, preservativos, implantes intradérmicos, contraceptivos orais – método mais utilizado por brasileiras – e dispositivo intrauterino, sendo este último o menos requerido. (Trindade, et. al., 2021).

Com relação às escolhas de métodos contraceptivos por regiões do Brasil, estudos de 2021 mostram que, mulheres de 18 a 49 anos da região Sudeste seguem o padrão de preferência por métodos de anticoncepção oral. A região Sul, segue uma ordem de anticoncepcional oral, seguido de preservativos e dupla proteção. As regiões Norte e Nordeste, possuem as esterilizações como os meios mais requeridos para se evitar filhos, com uma ressalva à região Norte em que os preservativos são mais utilizados que os contraceptivos orais. Entretanto, diversos elementos influem nas escolhas, perpassando por fatores socioeconômicos, escolaridade, estado civil, uso de planos de saúde, conhecimento e acesso à métodos, e razões culturais. Nesse sentido, outros países como o México, por exemplo, apresentam um padrão diferente do Brasil, sendo os métodos cirúrgicos e dispositivos intrauterinos os mais utilizados pela população feminina. Outro exemplo, são os Emirados Árabes, em que a camisinha, coito interrompido e o DIU estão no topo do ranking, reforçando as particularidades de cada nação (Trindade, et. al., 2021).

Quanto ao dispositivo intrauterino de cobre, ele se enquadra no método de contraceptivos reversíveis de longa duração (LARC), que, embora utilizado e reconhecido como eficaz ao redor do mundo, ainda é subutilizado em países da América do Norte, África, Oceania, e, em especial, do Brasil. Deve-se a isso, o conhecimento limitado que a população feminina brasileira possui, por conta da deficiência de conscientização sobre o uso, eficácia, implantação, e possíveis efeitos colaterais, por exemplo, mesmo sendo disponibilizado gratuitamente através do Sistema Único de Saúde do país. Essa falha no serviço remete ao próprio desconhecimento por parte dos profissionais sobre a utilização do método, baixa capacitação para que haja uma inserção adequada nas pacientes, além de uma oferta descontínua ao longo do território brasileiro que acarreta a desvalorização e estigmatização ao uso do DIU por parte do público feminino (Borges, et. al., 2020). Além disso, uma parte das mulheres entrevistadas em 2021, relataram não adotar um método contraceptivo (MC) por não saberem onde buscar, com quem se inteirar de informações ou por não saberem como utilizar o MC disponível quando possuem a oportunidade de adquirir. Tudo isto reforça as lacunas que englobam o planejamento reprodutivo no país (Trindade, et. al., 2021).

Em um contexto geral, as mulheres que apresentam conhecimento e interesse em utilizar o DIU de cobre, são, em sua maioria, jovens entre 20 e 29 anos, com boa escolaridade, em união consensual ou casadas. Em contraposição às mulheres com baixa escolaridade, que estão mais propensas a acreditar em mitos e até mesmo, desconhecer, por completo, este tipo de método contraceptivo (Morais, et. al., 2021). Tal cenário abordado, ratifica a necessidade de ampliação da cobertura e disponibilização do dispositivo intrauterino de cobre, pois ele se apresenta com taxas baixíssimas de falhas sendo menos de 1 por 100 mulheres grávidas no primeiro ano de uso (Dias, 2024). Outros estudos demonstraram que a taxa de falhas ocorrendo gravidezes foi de 0,8% e 0,64% no primeiro ano de uso, reforçando a confiabilidade de outras usuárias frente às baixas taxas (Silva, et. al., 2020).

5 VANTAGENS E PERCEPÇÕES ADVERSAS AO USO DO DIU-CU

Muitos estudos abordam os efeitos fisiológicos e comportamentais que o uso de contraceptivos, em geral, pode ocasionar, como algias distintas refletidas sobre o corpo da mulher e mudanças na vida sexual, respectivamente. Essas percepções não são diferentes quando referidas aos dispositivos intrauterinos de cobre. Em 2013, a revista Human Reproduction publicou um artigo relatando os sintomas percebidos pelas mulheres em casos raros de perfurações uterinas pelo uso do DIU de cobre e levonorgestrel. Geralmente, a perfuração está associada à técnica de inserção inadequada que são perceptíveis pelas usuárias através de dores leves ou sangramentos anormais, sendo que, também podem ocorrer de modo assintomático sendo identificados durante consultas de rotina (Kaislasuo, et. al., 2013). Outra complicação severa associada ao uso do DIU de cobre, embora menor quando comparada aos métodos contraceptivos orais, é o risco do desenvolvimento de neoplasia intraepitelial cervical grau 3 quando confrontadas com os riscos de desenvolvimento em não usuárias (Loopik, et. al., 2020). No entanto, embora os citados até então, sejam efeitos extremos, sintomatologias mais cotidianas são descritas em diversos estudos buscando a percepção de sinais por parte das usuárias após a implantação do dispositivo. 

Em 2022, foi publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, um artigo que tem por base a percepção dos efeitos adversos dos métodos contraceptivos por mulheres no Brasil. Dentre as 536 mulheres que participaram do estudo, apenas 19 faziam uso do dispositivo intrauterino de cobre, de modo que os sintomas referidos pelas mulheres abrangeram a acne, edema, spotting, mastalgia e baixa libido, sem intercorrências quanto às cefaleias. Em comparativo com métodos anticoncepcionais orais abordados no mesmo estudo, o DIU não hormonal representou taxas de sintomas muito menores, pois o uso de pílulas orais apontou maiores desconfortos perceptíveis no público-alvo, além de ser o método mais utilizado pelas entrevistadas com relatos relevantes de dores de cabeça associado (Pannain, et. al., 2022).

De forma geral, os sintomas adversos que podem ser referidos ao uso do DIU-Cu envolvem a dismenorreia, dor pélvica crônica, sangramentos anormais, entre outros. Todavia, o motivo mais relatado para retirada do dispositivo relaciona-se ao sangramento anormal. Nessas situações, o tratamento é realizado por meio de anti-inflamatórios não hormonais, de modo que, com o tempo, o sangramento tende a reduzir (Giordano, 2015). Em suma, os efeitos colaterais mais comumente mencionados são o aumento do fluxo menstrual e cólicas menstruais exacerbadas sendo que os casos de perfurações uterinas e outras intercorrências se fazem presentes em casos mais específicos e em menor porcentagem (Borges, et. al., 2020).

Tais sintomas mais comuns relacionados ao DIU-Cu estão de acordo com uma pesquisa, também publicada na Revista de Ginecologia e Obstetrícia em 2016, que relatou a avaliação de adesão de nuligestas e multíparas ao uso do dispositivo intrauterino de cobre. No estudo, o aumento do fluxo menstrual e a dismenorreia foram os principais fatores percebidos para que houvesse uma descontinuação do método (Scavuzzi, et. al., 2016). Ademais, cólicas e expulsões do dispositivo também foram fatores determinantes, de forma que as perfurações uterinas foram pontos de menor incidência, em conformidade com o que outros artigos, previamente, destacaram (Botelho, 2021).  Com relação aos casos de perfurações uterinas, um estudo dirigido na Europa analisou um maior risco deste incidente quando a inserção do DIU ocorria nas 36 semanas após o parto e em período de amamentação. Com isto, a fim de aprofundar a questão, outros estudos de coorte retrospectivo se sucederam nos Estados Unidos ratificando as baixas incidências de perfurações uterinas e expulsões associadas ao DIU-Cu, com breve ressalva de que, quando ocorrem, são predominantes dentro do primeiro ano pós-parto comparado às inserções fora desse período. Além disso, o índice foi maior entre aquelas que inseriram o dispositivo entre 4 dias e 6 semanas após o parto. Entretanto, as ocorrências foram escassas no geral, independente do momento puerperal. Expulsões dos dispositivos intrauterinos de cobre também foram achados incomuns, mas mais frequentes quando colocadas no pós-parto imediato (até 3 dias), e ainda menos frequentes em pacientes não puérperas (Fasset, et. al., 2023). Com isso, embora haja efeitos colaterais, o DIU de cobre mostra-se como seguro, eficaz e de longa duração (Scavuzzi, et. al., 2016).

Em outro estudo realizado na cidade de São Paulo, usuárias das Unidades Básicas de Saúde da região demonstraram alto grau de satisfação com o DIU-Cu comparado aos outros métodos disponíveis. Isso sugere o potencial do uso de dispositivo de cobre, a depender das escolhas e intenções reprodutivas por parte da mulher e seu parceiro, por conta da satisfação, eficácia e segurança gerados, de modo que, se houver uma política de educação contraceptiva sobre o DIU, este deveria ser o método mais indicado para planejamento reprodutivo através do sistema de saúde brasileiro, possibilitando abordagens que ultrapassem a utilização de pílulas, laqueadura, vasectomia e preservativos, todavia haja a necessidade deste último para proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (Borges, et. al., 2017).

Com relação ao conhecimento e possíveis motivos para a baixa adesão das mulheres ao dispositivo, questionários foram aplicados nas unidades de saúde de Aracaju/SE, São Paulo/SP e Cuiabá/MT no Brasil, com mulheres de 18 a 49 anos de idade. O questionário envolvia afirmativas como: “o DIU é abortivo”, “depois de retirado há dificuldade em engravidar”, “a inserção ocorre por cirurgia”, “o homem pode sentir o DIU durante a relação sexual”, “há aumento do risco de câncer de útero” e “o DIU provoca muitos efeitos colaterais”. Ao fim da metodologia aplicada, os resultados obtidos constataram um nível de conhecimento abaixo da mediana, de modo que o conhecimento que se tinha era baseado no uso atual ou prévio do método. Os resultados corroboraram com outras pesquisas realizadas, além de ratificar o público-alvo envolvido nesse padrão de conhecimento: mulheres jovens, de baixa escolaridade e não-brancas. Cabe-se ressaltar que, a afirmativa incorreta de maior prevalência nas respostas foi a que correlacionava o DIU com efeitos colaterais exacerbados. Estes dados concordam com pesquisas entre mulheres estadunidenses, além das pesquisas com mulheres brasileiras, quanto à mistificação do método que também envolvem crenças de risco de gravidez ectópica e medo da dor durante a inserção, por exemplo. Contudo, é imprescindível a quebra de barreiras e mitos que envolvem a adoção do método, tais como propensões a cânceres uterinos, contraindicações a adolescentes e mulheres nulíparas, e receios diversos ao procedimento de inserção do aparelho (Borges, et. al., 2020).

Conforme outras pesquisas reafirmaram, o dispositivo intrauterino de cobre é eficaz e seguro. Doravante, ele também vem como uma opção confiável de método contraceptivo de emergência sendo uma alternativa às pílulas de levonorgestrel que evitam gravidezes indesejadas, principalmente em mulheres nulíparas e jovens, apresentando baixíssimas taxas de falha quando inseridas dentro da média de 5 dias pós relação sexual, segundo revisão sistemática realizada no Reino Unido (Cleland, et al., 2012). De forma consonante, pesquisas realizadas na China, mostraram que as taxas de gravidezes chegam a 3% nas mulheres que utilizaram o levonorgestrel, acetato de uli-pristal ou pílulas anticoncepcionais hormonais combinadas como forma de contracepção de emergência. Frente a essas falhas, a busca pelo DIU-Cu, em especial o T380A, aumentaram, de modo que a taxa de gravidezes relatadas foi de apenas 0,01% em 1 ano. Outra vantagem é que, diferente dos métodos orais citados acima, o DIU-Cu T380A não depende do Índice de Massa Corpórea ou do momento da relação sexual desprotegida atuando na prevenção da fertilização com maior efeito peri e pós-ovulação. Além disso, diferente dos métodos orais, a contracepção através do DIU-Cu pode perdurar até 12 anos após a colocação na cavidade uterina, a depender do tipo de dispositivo de cobre (Turok, et al., 2013).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este estudo demonstrou que mulheres que têm ou que já tiveram experiências com o método intrauterino discutido apresentaram, em sua maioria, percepções de alterações fisiológicas após a inserção do DIU-Cu. Em grande maioria, as sintomatologias envolvem a dismenorreia e menorragia compreendendo, em boa parte das revisões realizadas, mulheres de baixa escolaridade e muito jovens. No entanto, é um consenso entre os artigos a eficácia do método com baixíssimas taxas de falhas e gravidezes, de modo que sua baixa adesão pode ser justificada pelos ideais equivocados, condições socioeconômicas e culturais que rondam este método contraceptivo. Estas distorções advêm de uma fraca sensibilização por parte dos programas de saúde quanto às características gerais do dispositivo, sua forma de funcionamento no colo uterino, método de inserção, impactos na vida sexual, benefícios e possíveis contraindicações, que o tornam subutilizado. Esta análise de literatura forneceu um panorama acerca do dispositivo intrauterino de cobre, de modo que, auxilia na escolha feminina e favorece o DIU-Cu, visto os benefícios prevalentes. Reforça-se a necessidade de pesquisas futuras que possam aprofundar as tratativas e combatam limitações deste artigo, como a consideração de possíveis patologias e comorbidades prévias que justificariam os efeitos adversos associados a inserção do DIU-Cu, propiciando sua adesão.

REFERÊNCIAS

AKSOY H et al. The Effect of Intrauterine Device Use on the Quality of Sampling Material in Patients Undergoing Endometrial Biopsy. Diagnostics (Basel). 2025; 15(13):1725. 

BORGES ALV et al. Conhecimento sobre o dispositivo intrauterino e interesse em utilizá-lo entre mulheres usuárias de serviços de atenção primária. Revista Latino Americana de Enfermagem, 2020; 28: e3232.

BORGES ALV et al. Satisfação com o uso de métodos contraceptivos entre usuárias de unidades básicas de saúde da cidade de São Paulo. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, 2017; 17(4): 749–756.

BORGES ALV et al. Use of long-acting contraceptive methods and main concerns among women in Brazil. Revista Brasileira Saúde Materno Infantil, 2024; 24:e20230056.

BOTELHO TV. Desfechos da inserção de dispositivo intrauterino de cobre por obstetrizes e enfermeiras obstétricas em um centro de parto normal peri-hospital. Dissertação (Mestrado Saúde Pública) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.

CLELAND K, et al. The efficacy of intrauterine devices for emergency contraception: a systematic review of 35 years of experience. Hum Reprod. 2012; 27(7):1994-2000. 

DIAS ACS et al. Experiência de discentes de medicina na desmistificação do uso do dispositivo intrauterino de cobre. REVISA, 2024; 13(4), 957–965.

FASSET MJ et al. Risks of Uterine Perforation and Expulsion Associated With Intrauterine Devices. Obstet Gynecol. 2023; 142(3):641-651. 

GIORDANO MV et al. Dispositivo Intrauterino de Cobre / Copper intrauterine device. Femina, 2015; 43(1): 15-20.

HOLANDA AAR et al. Controvérsias acerca do dispositivo intrauterino: uma revisão / Controversies about the intrauterine device: a review. Femina, 2013; 41(3)

KAISLASUO J et al. Uterine perforation caused by intrauterine devices: clinical course and treatment. Human reproduction (Oxford, England), 2013; 28(6), 1546–1551.

LOOPIK DL et al. Oral contraceptive and intrauterine device use and the risk of cervical intraepithelial neoplasia grade III or worse: a population-basedstudy. European Journal of Cancer, 2020; 124: 102-109.

MORAIS IGF et al. Perfil das mulheres submetidas à inserção do dispositivo intrauterino de cobre na Atenção Primária à Saúde de municípios da Paraíba. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 2021; 16(43): 2649.

NAHAS G et al. Inserção pós-parto imediata de dispositivo intrauterino de cobre em um hospital universitário brasileiro: taxas de expulsão e continuação. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2023; 45(1): 31-37.

OLIVEIRA LSH et al. Evidence of intrauterine device insertion by nurses in Primary Health Care: an integrative review. Revista Brasileira De Enfermagem, 2024; 77(1), e20230134.

PANNAIN GB et al. Inquérito epidemiológico sobre a percepção de efeitos adversos em mulheres usuárias de métodos contraceptivos no Brasil. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2022; 44(1): 25-31

QUEZADA-CASTILLO E et al. Efecto corrosivo de la mucosa uterina sobre el DIU de cobre. Matéria (Rio de Janeiro), 2022; 27(1): e13145.

SANTOS JCD, FREITAS PMD. Planejamento familiar na perspectiva do desenvolvimento. Ciência & Saúde Coletiva, 2011; 16(3): 1813–1820.

SCAVUZZI A et al. Continued Compliance and Degree of Satisfaction in Nulligravida and Parous Women with Intrauterine Contraceptive Devices. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2016; 38(3): 132–139.

SILVA KJMM et al. Dispositivo intrauterino: qual a eficácia e taxa de expulsão? Revisão integrativa / Intrauterine device: how effective and expulsion rate? Integrative review. Revista em Saúde Pública de Mato Grosso do Sul, 2020; 3(1): 78-90.

TRINDADE RE et al. Uso de contracepção e desigualdades do planejamento reprodutivo das mulheres brasileiras. Ciência & Saúde Coletiva [online], 2021; 26: 3493-3504.

TUROK DK et al. Copper T380 intrauterine device for emergency contraception: highly effective at any time in the menstrual cycle. Hum Reprod. 2013; 28(10):2672-2676. 

VIANA-DOS-SANTOS FA et al. Construção e Validação de Instrumento sobre o uso de Anticoncepcional Hormonal Oral. Revista Cuidarte, 2021; 12(3), e1970.


1Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Aparício de Carvalho Campus Porto Velho
e-mail: tamilymaia2015@outlook.com
2Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Aparício de Carvalho Campus Porto Velho
e-mail: larissa.carvalho.s@hotmail.com.
3Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Aparício de Carvalho Campus Porto Velho
e-mail: soraiaesquerdo@gmail.com
4Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Aparício de Carvalho Campus Porto Velho
e-mail: prof.chimene@fimca.com.br