REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511071002
Arthur de Souza Siqueira Lima
Diogo Oliveira Santos Carvalho
Giovanna Prado Vieira
Isabella Silva de Jesus Sousa
Pedro Lucas Souza Santos
Ryan Nascimento Holtz
Orientador: Prof. Me. João Filipe Lacerda da Cruz.
RESUMO
A telemedicina utiliza tecnologias digitais para ampliar o acesso à saúde e otimizar o cuidado. Este estudo teve como objetivo compreender a percepção médica sobre sua aplicação e os fatores que influenciam sua efetividade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória, realizada com oito médicos(as) que atuaram com telemedicina nos últimos 12 meses. As entrevistas foram analisadas por meio da Análise Temática de Conteúdo. Os resultados demonstraram que a telemedicina é eficaz na ampliação do acesso, na continuidade do cuidado e na adesão ao tratamento, especialmente entre pacientes de regiões remotas. Entre os benefícios, destacam-se a redução de custos, a segurança ocupacional e a otimização de recursos. As principais barreiras envolveram limitações no exame físico, dificuldades na criação de vínculo e falhas de conexão, além da ausência de formação formal na área. Conclui-se que a telemedicina é uma ferramenta promissora e complementar ao atendimento presencial, capaz de tornar o cuidado mais acessível e eficiente, desde que acompanhada de capacitação profissional e infraestrutura adequada.
Palavras-chave: Telemedicina; Continuidade da Assistência ao Paciente; Adesão ao Tratamento; Medicina Virtual.
ABSTRACT
Telemedicine uses digital technologies to expand access to healthcare and optimize patient care. This study aimed to understand physicians’ perceptions of its application and the factors that influence its effectiveness. This qualitative, descriptive, and exploratory research was conducted with eight physicians who had practiced telemedicine in the past 12 months. Interviews were analyzed through Thematic Content Analysis. Telemedicine proved effective in expanding access, ensuring continuity of care, and improving treatment adherence, especially among patients in remote areas. The main benefits identified were cost reduction, occupational safety, and resource optimization. The main barriers included limitations in physical examination, difficulty establishing rapport, connection failures, and the lack of formal training in the field. Telemedicine is a promising and complementary tool to in-person care, capable of making healthcare more accessible and efficient, provided it is accompanied by professional training and adequate infrastructure.
Keywords: Telemedicine; Continuity of Patient Care; Treatment Adherence; Virtual Medicine
INTRODUÇÃO
A telemedicina é uma ferramenta que visa facilitar o acesso dos pacientes no sistema de saúde, utilizando tecnologias para promover a saúde e ampliar a cobertura dos serviços médicos1.No entanto, apesar de seus avanços, ainda enfrenta desafios significativos em sua implementação adequada no cenário atual.
Entre os principais desafios estão a necessidade do profissional e do paciente possuírem dispositivos eletrônicos com acesso à internet. Além disso, a resistência de alguns profissionais em adotar essas novas ferramentas e as limitações orçamentárias dificultam o financiamento de infraestrutura e treinamentos adequados2,3. A privacidade e a segurança dos dados dos pacientes também representam desafios críticos, demandando políticas públicas robustas para garantir transparência e conformidade com a legislação vigente2.
Apesar dos desafios, a telemedicina demonstra um impacto positivo substancial, ampliando o acesso a cuidados de qualidade para populações carentes4 e melhorando desfechos clínicos. Intervenções de telessaúde comprovadamente otimizam o controle glicêmico em diabéticos e reduzem a mortalidade por insuficiência cardíaca e as exacerbações de asma5. Na prática, tecnologias como o monitoramento remoto contínuo de glicose permitem o compartilhamento de dados em tempo real, promovendo um acompanhamento ágil. O envolvimento médico é crucial para avaliar essas ferramentas e orientar pacientes, buscando maior adesão ao tratamento, o que se reflete na alta satisfação relatada pelos próprios pacientes com essa modalidade5.
Dessa forma, a efetividade da telemedicina depende diretamente do engajamento e da percepção dos médicos, que são os principais responsáveis por sua implementação na prática clínica. São esses profissionais que prescrevem tratamentos, utilizam plataformas digitais para consultas e monitoramento, além de orientarem os pacientes sobre a adesão às condutas propostas. Assim, compreender suas percepções sobre a telemedicina é fundamental para avaliar os desafios e benefícios desse modelo assistencial, bem como para aprimorar sua aplicação no manejo de doenças6,7. Logo a adoção bem-sucedida da telemedicina exige não apenas infraestrutura tecnológica adequada, mas também a aceitação e confiança dos médicos. Barreiras como limitações no exame físico, dificuldades técnicas, falta de treinamento e preocupações com a qualidade do atendimento podem impactar a adesão dos profissionais a essa prática8.
Por outro lado, estudos indicam que a experiência positiva com a telemedicina pode aumentar a satisfação dos médicos e pacientes, melhorando a adesão ao tratamento e a continuidade do cuidado9. Dessa forma, este estudo busca investigar como os médicos percebem o uso da telemedicina e seus efeitos na continuidade do cuidado e na adesão terapêutica, considerando os benefícios, desafios e implicações dessa prática na assistência moderna.
MÉTODO
Este estudo é uma pesquisa de campo, classificada como qualitativa, descritiva e exploratória. O objetivo principal foi compreender as percepções de médicos(as) sobre a prática da telemedicina, com ênfase nos benefícios, desafios e impactos dessa modalidade na adesão ao tratamento e na continuidade do cuidado10.
A amostra foi composta por oito (8) médicos(as) que atuaram com telemedicina nos últimos 12 meses. Os participantes foram selecionados de forma intencional e por conveniência, considerando sua experiência prática em atendimentos remotos. Essa estratégia de amostragem permitiu contemplar sujeitos com vivência direta e recente na área, garantindo maior riqueza e pertinência dos dados coletados.
Os critérios de inclusão abrangeram médicos(as) com registro ativo no Conselho Regional de Medicina (CRM), que tenham realizado pelo menos uma teleconsulta no período de 12 meses anteriores à pesquisa. Todos os participantes demonstraram capacidade de compreensão e consentimento, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando a voluntariedade e o caráter ético da participação. Foram excluídos médicos(as) que atuam exclusivamente em serviços de emergência ou em unidades com múltiplas equipes multiprofissionais simultâneas, de modo a evitar vieses decorrentes de contextos organizacionais que poderiam interferir nas percepções sobre a prática da telemedicina.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas conduzidas individualmente, via videoconferência, utilizando plataformas digitais seguras e acessíveis. Essa modalidade foi escolhida por possibilitar o alcance de profissionais localizados em diferentes regiões geográficas, ampliando a diversidade das experiências analisadas. As entrevistas tiveram duração média de 15 a 20 minutos e foram conduzidas de acordo com a disponibilidade de cada participante. Todas as sessões foram gravadas em áudio, mediante autorização expressa, garantindo a confidencialidade e o sigilo das informações.
Antes do início da entrevista, os participantes foram informados quanto aos objetivos, relevância e procedimentos do estudo, reforçando o caráter voluntário da participação. O instrumento de coleta foi dividido em duas partes: a primeira voltada à obtenção de dados sociodemográficos e profissionais, como idade, sexo, ano de graduação e especialidade; e a segunda composta por questões abertas norteadoras, destinadas a explorar as percepções dos participantes sobre a efetividade da telemedicina, seus benefícios, desafios e implicações na adesão e continuidade ao tratamento.
A análise do material empírico produzido por meio das entrevistas teve como base o referencial teórico-metodológico da Análise Temática de Conteúdo11, a qual compreende três etapas principais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos com interpretação. Inicialmente, todas as entrevistas foram transcritas integralmente e submetidas à sistematização e categorização, permitindo o agrupamento das falas em categorias temáticas derivadas do conteúdo emergente. Dessa análise, resultaram duas categorias principais: “Telemedicina: Benefícios na Promoção da Adesão e da Continuidade do Cuidado” e “Barreiras e Desafios à Prática Clínica na Telemedicina”. Para preservar o anonimato, cada participante foi identificado pela letra “M” (médico), seguida de um número correspondente à ordem das entrevistas.
Entre os oito participantes, cinco eram do sexo masculino e três do sexo feminino, com idade média de 33,6 anos, mínima de 27 e máxima de 42 anos, e mediana de 34 anos. O ano de graduação variou entre 2010 e 2024, e cinco médicos possuíam especialização ou pós-graduação concluída.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro Universitário de Excelência – UNEX, localizado em Feira de Santana, Bahia, sob o Parecer de número 7.841.780, CAAE 91212125.0.0000.5032. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), em conformidade com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise do material, composto por oito entrevistas com médicos que utilizam a telemedicina, foi realizada seguindo a Análise Temática de Conteúdo. As transcrições passaram pela etapa de leitura flutuante e, em seguida, as unidades de registro (trechos significativos das falas) foram codificadas e agrupadas em duas categorias temáticas principais, definidas com base nos objetivos da pesquisa e no roteiro de entrevistas semiestruturadas.
Telemedicina: Benefícios na Promoção da Adesão e da Continuidade do Cuidado
Os entrevistados apontaram consistentemente a capacidade da telemedicina de superar distâncias físicas como seu principal trunfo na promoção da continuidade do cuidado. A ferramenta viabiliza o acesso a pacientes localizados em áreas remotas, outras cidades, estados ou mesmo países, além daqueles com dificuldades de locomoção devido a condições crônicas ou pós-operatórias. Essa eliminação da barreira geográfica amplia o alcance do médico e sustenta o seguimento regular, tornando o acompanhamento à distância uma prática “essencial” e, por vezes, preferível para garantir que o cuidado não seja interrompido.
Além de reduzir custos e deslocamentos, a telemedicina foi descrita como instrumento de inclusão em saúde, ao permitir o atendimento de pacientes em localidades remotas, zonas rurais ou até em outros estados e países. Essa capilaridade do cuidado, segundo os profissionais, reflete não apenas eficiência técnica, mas também responsabilidade social, pois democratiza o acesso ao atendimento médico especializado.
“Fantástico, do ponto de vista médico. Eu atuo com dor crônica, então ele me dá a possibilidade de não necessariamente tirar o meu paciente de casa, que tem limitações funcionais, que não se mexe muito bem, ou que tem uma dor muito forte. Eu consigo dar assistência para ele de forma remota” – M3.
“A maioria dos meus pacientes são de fora, por causa da telemedicina […] essa paciente, a gente fez uma cirurgia nela […] Ela tem muita dificuldade de fisicamente vir ao consultório […] a maioria das consultas dela a gente faz por teleconsulta, justamente para dar continuidade do cuidado. Então, aos pacientes que já passaram por assistência, para a gente é essencial” – M5.
Esses relatos evidenciam que a teleconsulta não apenas mantém o vínculo, mas também amplia o alcance assistencial, permitindo o acompanhamento longitudinal de pacientes que antes ficavam desassistidos. Tais percepções dialogam com estudos que destacam a telemedicina como uma ferramenta estratégica para fortalecer a integralidade do cuidado e evitar descontinuidades terapêuticas, especialmente em doenças crônicas e condições de longa duração5.
Os médicos, em sua maioria, relataram também uma clara melhora na adesão dos pacientes ao tratamento. Este aumento foi diretamente atribuído à conveniência logística: a eliminação da necessidade de deslocamento facilita o comparecimento, especialmente às consultas de retorno. A possibilidade de realizar consultas mais frequentes e manter um contato mais próximo permite ao médico um acompanhamento mais assertivo, o que se traduz em maior engajamento.
“De maneira alguma, na verdade aumentou, porque isso faz com que eu esteja mais perto deles, de forma mais regular. Se o paciente não é assíduo comigo, eu sou assíduo com ele. Se ele não vem até mim, eu vou até ele” – M3.
“Com certeza, melhorou muito. Principalmente aquelas consultas de retorno […] ia caindo muito na consulta de retorno, porque eles falavam que a questão de deslocamento era muito ruim […] com a telemedicina […] eles tinham uma melhor adesão […] a parte de adesão para tratamento contínuo, para acompanhamento, a evolução também foi perfeita” – M4.
Os resultados corroboram achados da literatura internacional que associam o uso da telemedicina à maior continuidade do cuidado, prevenção de descompensações clínicas e redução de hospitalizações evitáveis12. O acompanhamento remoto, mediado por ferramentas digitais, foi percebido como meio eficaz de monitoramento ativo e de engajamento do paciente no autocuidado.
Outro fator ressaltado pelos entrevistados foi a importância da infraestrutura tecnológica e do respaldo jurídico como determinantes do sucesso na prática telemédica. A utilização de sistemas integrados com prontuário eletrônico, gravação das consultas e assinatura digital foi descrita como fundamental para garantir a segurança e a rastreabilidade dos atendimentos. A integração de ferramentas de inteligência artificial (IA) surge como um suporte adicional, auxiliando na gestão de informações clínicas, armazenamento de dados e prescrição eletrônica.
“Hoje a gente usa um aplicativo que já tem a telemedicina dentro dele. Então fica gravado, o vídeo, o paciente assina o termo antes de fazer […] O que eu vejo muitas vezes é muita gente ligar pelo WhatsApp […] Então isso é uma das coisas que facilita muito no atendimento, e respalda também, né?” – M2.
“A questão dos prontuários eletrônicos, a IA ajuda bastante também, principalmente na questão de armazenamento das informações […] E também a questão da facilidade de enviar prescrição” – M4.
Por fim, a análise revelou um aspecto frequentemente negligenciado na literatura: a segurança e o conforto do médico durante o exercício profissional. A possibilidade de atender remotamente foi considerada um fator de proteção, especialmente para médicas que relataram situações de assédio e vulnerabilidade em ambientes presenciais. Além da segurança pessoal, os participantes relataram que o formato remoto contribui para a otimização de recursos e a redução da sobrecarga nos serviços de emergência.
“O superior, eu falo: para o médico é mais confortável. Ainda mais você sendo mulher, num país que é extremamente machista […] A gente acaba sofrendo assédio […] Meu último plantão […] fui assediada […] Então, acaba que na telemedicina você pode atender esses lugares […] De forma mais confortável” – M8.
“Inclusive para o sistema público de saúde. Porque, em vez de você ocupar o espaço numa urgência e emergência com um problema ambulatorial, você não vai obstruir o espaço […] acaba drenando melhor esses pacientes” – M6.
Essas falas demonstram que a telemedicina não apenas amplia o acesso e a adesão, mas também promove segurança ocupacional e racionalização de fluxos assistenciais, configurando-se como uma ferramenta estratégica tanto clínica quanto organizacional.
Barreiras e Desafios à Prática Clínica na Telemedicina
Apesar das vantagens amplamente reconhecidas, os médicos apontaram limitações significativas que ainda restringem o potencial pleno da telemedicina. A impossibilidade de realizar o exame físico completo foi unanimemente citada como a principal barreira técnica, gerando insegurança diagnóstica e limitação no raciocínio clínico. A ausência de dados semiológicos objetivos — como ausculta, palpação e testes neurológicos — dificulta o estabelecimento de diagnósticos diferenciais e o manejo de quadros complexos.
Os entrevistados reforçam que, embora as teleconsultas sejam adequadas para revisões e acompanhamentos de condições crônicas, o exame físico é insubstituível em situações que demandam avaliação detalhada, o que exige do médico discernimento ético e técnico para definir quando a modalidade remota é apropriada.
“Mas existe uma barreira. Por exemplo, as etapas do exame físico de palpação […] A de exame neurovascular, inclusive, eu peço para que o acompanhante repita alguns movimentos meus para a gente testar no paciente. Mas a palpação não tem como fazer. Então, existe, sim, uma limitação” – M5.
“a gente não tem acesso a dados físicos […] algumas queixas exigem que você tenha acesso a dados objetivos pra você ter uma precisão diagnóstica maior” – M1.
Essas falas ilustram a complexidade da prática médica digital e confirmam o que diversos estudos já apontam: a telemedicina deve ser entendida como complementar e não substitutiva ao atendimento presencial13. Embora seja eficiente para triagens, acompanhamentos e reavaliações, a ausência de contato direto limita a acurácia clínica em determinadas situações.
Para além da barreira física, os médicos relataram dificuldades em estabelecer um vínculo de confiança profundo no ambiente virtual. A “distância” imposta pela tela foi percebida como um obstáculo para criar a conexão necessária à adesão e para acessar questões psicossociais sensíveis do paciente. Em contraposição aos benefícios de adesão pela logística, outros médicos observaram uma diminuição na aderência justamente pela perda dessa conexão, considerando a experiência presencial superior para gerar confiança.
“A barreira é mais essa de estabelecer a conexão. O paciente se sente muito distante […] A conexão do virtual não é a mesma da conexão do presencial […] a câmera ainda é uma barreira muito grande entre o paciente e o médico” – M7.
“Então a experiência presencial gera mais confiança. A experiência presencial: o paciente conhece o ambiente da clínica, os funcionários… Então, na minha visão, a aderência na telemedicina é menor” – M2.
Essa dificuldade relacional é amplamente discutida na literatura sobre teleatendimento, que destaca que a empatia e a escuta ativa precisam ser adaptadas ao formato digital, exigindo novas competências comunicacionais do médico14. Além disso, a adesão à telemedicina apresenta percepções divergentes entre os profissionais de saúde: enquanto a maioria relatou aumento na adesão dos pacientes, motivado pela conveniência e pela facilidade de acesso oferecidas pela modalidade remota, alguns apontaram desafios significativos relacionados à manutenção do vínculo terapêutico. Para esses profissionais, a ausência do contato presencial compromete o engajamento do paciente e, consequentemente, contribui para uma menor adesão ao acompanhamento remoto.
Sob essa perspectiva, foram identificadas barreiras estruturais significativas, principalmente relacionadas ao paciente. A instabilidade da conexão de internet do usuário foi um problema recorrente, causando interrupções que dificultam a comunicação e o vínculo. Além disso, a falta de compreensão dos pacientes sobre a formalidade e as limitações da consulta remota (realizando-a em locais inadequados, como dirigindo, ou esperando soluções para casos que exigem avaliação presencial) representam desafios na gestão da consulta.
“A internet não era muito boa dos pacientes […] senti um pouco de dificuldade sobre isso, porque caía muito a ligação. O paciente também achava que poderia ligar de qualquer lugar. Tinha paciente que ligava dirigindo. Tinha que pedir pra parar o carro” – M1.
“Inferior é quando tem a questão da conectividade, certo? Tem alguns locais que caem muito na internet […] Só que o paciente, às vezes, ele não tá com essa preparação toda. Acaba caindo muito e isso acaba, meio que, dificultando um pouco o vínculo” – M4.
Ainda, cabe ressaltar que um dos achados mais marcantes foi a ausência de formação estruturada em telemedicina na graduação e na residência médica. Todos os entrevistados apontaram a inexistência de disciplinas ou treinamentos formais voltados ao uso ético, técnico e comunicacional dessa modalidade.
“Na verdade, vai pela experiência, né? Porque treinamento a gente não tem, né? Pelo menos na minha época de faculdade também não tinha muito ainda. Então, assim, nunca tive treinamento pra atender por telemedicina” – M2.
“A resposta é realmente em nada, porque eu não tive treinamento prévio. Tá” – M5.
Diante dessa lacuna, a aquisição de competências ocorreu predominantemente “na prática”, exigindo adaptação e auto-estudo. Os médicos relataram a necessidade de “se virar”, buscar cursos externos e aprender com a experiência, superando a resistência inicial e reconhecendo a adaptação como necessária para a relevância profissional.
“Como eu fui uma coisa ali já na prática, eu não tive esse tempo de ter uma preparação para a telemedicina. Então a telemedicina eu fui aprendendo na prática” – M7.
“Assim que eu me formei […] percebi que a liberdade […] física, era muito grande […] E aí eu iniciei, fiz alguns cursos de telemedicina, certo? […] teve a necessidade de realizar alguns cursos para ter o aperfeiçoamento” – M4.
Esse cenário de aprendizado reativo, altamente dependente da iniciativa individual e do auto-estudo, evidencia a necessidade urgente de treinamentos médicos formais e estruturados. Tais capacitações são essenciais para habilitar os profissionais de forma padronizada, garantindo uma prática mais segura e eficaz na telemedicina. Assim, essas limitações reafirmam que a efetividade da telemedicina depende de infraestrutura tecnológica estável e de educação digital dos usuários, fatores fundamentais para reduzir falhas de comunicação e preservar a qualidade do cuidado8.
Assim, este estudo teve como objetivo central avaliar a percepção dos médicos sobre a influência da telemedicina na continuidade do cuidado e na adesão ao tratamento, explorando também as barreiras e facilitadores percebidos por esses profissionais. Os achados revelam uma visão complexa: a telemedicina é aclamada por sua capacidade de democratizar o acesso e sustentar o acompanhamento, especialmente em contextos de distância ou cronicidade, mas simultaneamente criticada por suas limitações relacionadas à semiologia e à construção de um vínculo terapêutico. Essa dualidade sugere que a telemedicina se consolida como uma ferramenta complementar, cuja eficácia depende fortemente do contexto clínico, da relação médico-paciente preexistente, da infraestrutura disponível e da capacitação do profissional2.
A capacidade da telemedicina de transpor barreiras geográficas e facilitar o acesso a cuidados de saúde foi um dos pontos mais consensuais entre os entrevistados, confirmando a hipótese inicial do estudo e alinhando-se robustamente à literatura que a posiciona como estratégia chave para ampliar o acesso à saúde, especialmente em países de grande extensão territorial e com desigualdades regionais como o Brasil9.
Os relatos sobre o acompanhamento de pacientes em diferentes localidades, incluindo outros países, e a possibilidade de assistir aqueles com mobilidade reduzida ilustram vividamente o potencial democratizante da ferramenta. Essa ampliação do acesso está intrinsecamente ligada à promoção da continuidade do cuidado. Ao reduzir o ônus do deslocamento e oferecer maior flexibilidade, a telemedicina facilita a manutenção do seguimento terapêutico, aspecto crucial no manejo de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Médicos destacaram a viabilidade de realizar ajustes terapêuticos e monitoramentos contínuos de forma mais ágil, o que pode impactar positivamente os desfechos clínicos e reduzir hospitalizações evitáveis, confirmando a percepção da ferramenta como “fantástica para a continuidade”15.
No que diz respeito à adesão ao tratamento, as percepções foram mais heterogêneas. Parte dos médicos observou uma melhora expressiva, atribuindo-a à conveniência e à possibilidade de maior frequência de contato virtual, o que facilitaria o comparecimento a retornos e o seguimento das orientações. Contudo, outros profissionais relataram uma diminuição na adesão, vinculando essa dificuldade à menor profundidade da conexão estabelecida remotamente. A literatura enfatiza a importância da relação médico-paciente para a adesão terapêutica, e a percepção de que essa relação pode ser fragilizada pela ausência da presença física pode justificar essa visão mais cautelosa16.
A impossibilidade de realizar o exame físico completo foi, inequivocamente, a barreira mais enfatizada pelos participantes, confirmando achados de estudos anteriores17. Essa limitação não se restringe à perda de dados semiológicos cruciais para o diagnóstico e avaliação de gravidade em diversas situações clínicas, mas se estende à dimensão relacional do cuidado. A valorização do “toque” e da proximidade física foi recorrente, sendo percebida como essencial para a construção da confiança e para a própria integralidade do ato médico por alguns profissionais. Essa barreira sensorial e relacional é um desafio à telemedicina, que exige o desenvolvimento de novas habilidades comunicacionais e semiológicas adaptadas ao ambiente virtual, bem como o reconhecimento criterioso de suas limitações, indicando a necessidade de encaminhamento para avaliação presencial quando necessário, um ponto sensível na gestão da expectativa do paciente.
Intimamente ligada à barreira do exame físico, a dificuldade em estabelecer um vínculo empático profundo e em captar a comunicação não-verbal foi outra limitação expressiva apontada pelos médicos. A percepção da “tela” ou da “câmera” como uma barreira reflete o desafio de replicar a riqueza da interação presencial no ambiente digital, o que pode dificultar o acesso a dimensões psicossociais e emocionais do paciente, fundamentais para um cuidado holístico. Essa dificuldade pode ser particularmente relevante no início da relação terapêutica, onde a confiança ainda está sendo construída. Adicionalmente, barreiras contextuais, como a instabilidade da conexão à internet e a falta de compreensão ou literacia digital por parte dos pacientes, persistem como desafios práticos que podem comprometer a qualidade e a equidade do acesso à telemedicina, especialmente em populações mais vulneráveis.
Apesar das barreiras, diversos facilitadores foram reconhecidos, indo além da conveniência logística. O uso de plataformas tecnológicas seguras, que assegurem privacidade, registro adequado e conformidade legal, foi considerado fundamental para a prática, mitigando a insegurança jurídica frequentemente citada como entrave. Um achado relevante foi a percepção da telemedicina como um ambiente de trabalho mais seguro para o profissional, especialmente face a riscos de assédio ou violência no contexto presencial. A otimização de recursos sistêmicos também foi valorizada. Destaca-se a menção recorrente à Inteligência Artificial (IA) como um facilitador emergente, vista como capaz de potencializar o acompanhamento, personalizar a interação e otimizar o tempo médico, sinalizando uma nova fase na evolução da telemedicina que merece investigação aprofundada.
A ausência de treinamento formal específico em telemedicina durante a formação médica foi um relato unânime, confirmando uma lacuna crítica na preparação dos profissionais, conforme apontado na literatura18. O aprendizado predominantemente empírico, “na prática”, revela um descompasso entre a formação acadêmica e as exigências da saúde digital. Essa falta de preparo formal pode gerar insegurança e resistência inicial à adoção da tecnologia, impactando a qualidade do atendimento. A percepção da necessidade de adaptação contínua sublinha a urgência de incorporar competências digitais de forma estruturada nos currículos médicos e na educação continuada, garantindo que os profissionais utilizem essa ferramenta de forma eficaz, ética e segura. A comparação direta entre as modalidades reforça a visão da telemedicina como ferramenta complementar: superior no acesso, equivalente na anamnese em contextos específicos, mas inferior no exame físico e na construção do vínculo inicial19.
Este estudo apresenta limitações relacionadas ao tamanho reduzido da amostra, o que restringe a possibilidade de generalizar os resultados para todos os profissionais. Apesar disso, evidencia-se que a telemedicina representa um avanço significativo na prática médica contemporânea. Por ser um campo ainda recente e pouco explorado, seu uso crescente desperta interesse por seus impactos sociais e assistenciais. Ao ampliar o acesso à saúde e reduzir desigualdades, especialmente em regiões remotas, a telemedicina reforça a necessidade de estudos como este, que contribuem para compreender e aprimorar essa modalidade, consolidando um modelo de atenção mais equitativo e eficiente.
CONCLUSÃO
O presente estudo demonstrou que a telemedicina constitui uma ferramenta essencial para ampliar o acesso à saúde e garantir a continuidade do cuidado, especialmente em contextos geográficos distantes ou em pacientes com doenças crônicas. Os médicos entrevistados reconheceram benefícios como a praticidade, o acompanhamento mais frequente e a otimização de recursos, embora tenham destacado limitações importantes, sobretudo a impossibilidade de realizar o exame físico e a dificuldade em estabelecer vínculo empático equivalente ao atendimento presencial.
Observou-se que a ausência de treinamento formal em telemedicina durante a formação médica representa um desafio, sendo necessário investir em capacitação e em infraestrutura tecnológica adequada para que a prática seja segura e eficaz.
Conclui-se que a telemedicina deve ser compreendida como complementar ao atendimento presencial, oferecendo avanços significativos no acesso e na continuidade do cuidado, desde que utilizada com critérios técnicos, éticos e humanos.
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