PARA ALÉM DO PATRIMÔNIO: A BUSCA HUMANA POR SENTIDO E CONEXÃO*

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511081610


Ângela Machado Piovesan1; Alef Cogo Ronchi; Cristian Roider Rodrigues; Edson Lauri Ribas Vieira; Eduardo Dias Rodrigues; Fabiane Adreia Rohden; Fernando Brettos Goulart; Henrique Mallmann dos Santos; Jauri Rosso Colin; Moisés Scherer; Paulo Henrique Fagundes; Silvana Rodrigues Bertoncelli Peixoto


RESUMO

Em um cenário social marcado pela valorização exacerbada do capital e pela idealização do consumo como via de autorrealização, a satisfação pessoal tem sido frequentemente associada à capacidade de acumular bens. No entanto, tal percepção revela-se limitada diante das múltiplas dimensões que constituem o bem-estar humano. A lógica mercadológica imposta pelas sociedades contemporâneas reduz o sujeito a um agente econômico, obscurecendo aspectos essenciais da experiência existencial, como o pertencimento, a afetividade e a construção de vínculos significativos. Diversos estudos sociológicos e filosóficos apontam que a busca por sentido e conexão ultrapassa a esfera material, evidenciando que a realização pessoal está atrelada à qualidade das relações, ao sentimento de utilidade e à inserção em contextos comunitários. Nesse sentido, os relatos de indivíduos que abdicaram de estilos de vida consumistas para adotarem práticas mais simples, focadas em valores imateriais, revelam uma ressignificação dos parâmetros tradicionais de sucesso. A satisfação, longe de se restringir à propriedade de bens, passa a ser compreendida como resultado de uma vida dotada de propósito, coerência interna e integração com o outro. Assim, a crítica ao modelo hegemônico de felicidade baseada no consumo se intensifica, abrindo espaço para novas perspectivas que valorizam a subjetividade, o tempo vivido e a autenticidade das experiências humanas. A reflexão sobre esse deslocamento de valores convida à construção de uma nova ética da satisfação, na qual o ser prevalece sobre o ter e o patrimônio cede lugar ao sentido.

Palavras-chave: Sentido. Conexão. Consumo.

ABSTRACT

In a social context dominated by the excessive valorization of capital and the idealization of consumption as a path to self-fulfillment, personal satisfaction has often been linked to the ability to accumulate material goods. However, such an understanding proves limited when considering the multiple dimensions of human well-being. The market logic imposed by contemporary societies reduces individuals to economic agents, overshadowing essential aspects of existential experience, such as belonging, affection, and the building of meaningful bonds. Various sociological and philosophical studies indicate that the search for meaning and connection goes beyond the material sphere, showing that personal fulfillment is tied to the quality of relationships, the sense of usefulness, and integration into community contexts. In this sense, the testimonies of people who have abandoned consumerist lifestyles in favor of simpler practices centered on immaterial values reveal a redefinition of traditional success parameters. Satisfaction, far from being confined to property, becomes understood as the result of a life filled with purpose, inner coherence, and connection with others. Thus, the critique of the hegemonic model of happiness based on consumption grows stronger, making room for new perspectives that value subjectivity, lived time, and the authenticity of human experiences. Reflecting on this value shift calls for the construction of a new ethics of satisfaction, in which being prevails over having, and property gives way to meaning.

Keywords: Meaning. Connection. Consumption.

1 INTRODUÇÃO

A lógica dominante das sociedades contemporâneas tende a confundir satisfação pessoal com sucesso financeiro, reforçando a ideia de que a posse de bens materiais é o principal indicativo de realização. Essa concepção, sustentada por estruturas midiáticas e mercadológicas, ignora as dimensões subjetivas do existir e reduz o ser humano à condição de consumidor. Nesse contexto, a felicidade passa a ser constantemente adiada, movida pela promessa de aquisição futura.

Desse modo, a subjetividade individual torna-se refém de uma lógica produtivista, em que o acúmulo de patrimônio assume papel central na constituição do valor pessoal. A identidade, assim, é moldada não pela complexidade interna dos afetos ou das escolhas, mas pela visibilidade dos bens adquiridos. Esse processo resulta em alienação, frustração e sentimentos crônicos de vazio, conforme apontam diversas pesquisas sobre o mal-estar psíquico nas sociedades de consumo.

Além disso, observa-se um movimento de contraposição crescente a essa lógica, materializado nas escolhas de pessoas que decidem abandonar estilos de vida centrados no consumo para priorizar relações, saúde mental e propósito existencial. Esse deslocamento, embora ainda minoritário, indica que outras formas de viver são possíveis e desejáveis, rompendo com a narrativa da felicidade vinculada exclusivamente ao ter.

A busca por sentido, nesses termos, envolve a construção de vínculos duradouros, a inserção comunitária e a capacidade de experimentar a vida de maneira mais plena e autêntica. Tais aspectos, muitas vezes invisibilizados pelo discurso dominante, constituem a base de uma satisfação mais profunda e sustentável.

Assim, refletir sobre a centralidade da conexão e do propósito existencial na composição do bem-estar humano é um passo necessário para desconstruir paradigmas ancorados na posse material. A redefinição dos critérios de sucesso e felicidade passa a depender, cada vez mais, da valorização do tempo vivido, da presença afetiva e da autenticidade dos vínculos humanos.

2. DESENVOLVIMENTO

A construção da identidade nas sociedades pós-modernas tem sido profundamente afetada pela lógica do consumo, que converte o sujeito em objeto de mercado. Nessa dinâmica, as escolhas pessoais passam a ser orientadas não pelo autoconhecimento, mas pela adequação a padrões impostos de sucesso e felicidade. Isso gera um descompasso entre o que se deseja de fato e o que se consome para atender expectativas externas, conduzindo o indivíduo a um estado constante de insatisfação e ansiedade (BARROS, 2021).

Paralelamente, o enfraquecimento dos vínculos afetivos e o excesso de superficialidade nas interações humanas acentuam o vazio existencial. A valorização do desempenho e da imagem compromete a construção de relações autênticas, tornando a afetividade um recurso volátil e instrumentalizado. Nesse cenário, torna-se cada vez mais difícil experimentar a escuta mútua, o cuidado com o outro e a empatia verdadeira, elementos fundamentais para a construção de um bem-estar duradouro (GARCIA, 2019).

A aceleração da vida cotidiana também tem contribuído para a erosão da experiência subjetiva do tempo. A lógica da produtividade transforma o tempo em mercadoria, afastando o indivíduo da contemplação, da introspecção e das conexões significativas. A urgência em fazer mais em menos tempo compromete a qualidade das relações e empobrece a vivência do presente, obscurecendo as dimensões mais profundas da existência (GONÇALVES, 2019).

Além disso, a promessa de felicidade vinculada ao consumo contínuo revela-se uma construção frágil e insustentável. Ao consumir para preencher lacunas emocionais, o sujeito se vê preso em um ciclo de compensações que nunca satisfazem por completo. O resultado é um sentimento difuso de angústia e desconexão, típico de uma sociedade que estimula o desejo, mas não oferece sentido (IBARRA, 2022).

Diante desse panorama, ganha relevância a busca por pertencimento, por relações significativas e por práticas que resgatem o sentido do viver coletivo. Inserirse em redes de solidariedade, cultivar vínculos comunitários e desenvolver projetos com propósito são estratégias que contribuem para a reconfiguração da satisfação pessoal. A realização, portanto, passa a depender menos do que se possui e mais da forma como se está no mundo com os outros (LIMA, 2020).

2.1 Além da Riqueza Material: O Desejo Humano por Propósito e Vínculo

A sociedade contemporânea estabelece uma correlação direta entre bem-estar e consumo, promovendo um modelo de realização baseado na posse de bens e na exibição de status. Essa lógica transforma o indivíduo em uma vitrine simbólica, cujo valor é medido pela capacidade de ostentar conquistas materiais, mesmo que essas conquistas não correspondam a necessidades internas. O resultado é uma identidade moldada pela aparência e não pela substância, o que leva à perda de autenticidade e ao surgimento de uma cultura do vazio (MARTINS, 2017).

O fetiche da mercadoria atua como força estruturante da subjetividade moderna, distanciando o sujeito de si mesmo e de suas reais aspirações. A valorização desmedida do ter sobre o ser cria um campo de expectativas irrealistas, onde a frustração é constante e a comparação social, inevitável. Nessa dinâmica, a felicidade torna-se uma promessa permanentemente adiada, mediada por algoritmos de desejo que ignoram a complexidade da experiência humana (RAMOS, 2018).

A desconexão provocada por esse modelo hegemônico revela uma fragilidade crescente na constituição da subjetividade. À medida que os vínculos são substituídos por transações e os afetos por performances, o sujeito se vê cada vez mais isolado, mesmo em ambientes superconectados. A ilusão de autonomia, alimentada pelo consumo personalizado, mascara a dependência estrutural de um sistema que retira do indivíduo a possibilidade de reconhecer-se em sua plenitude (TAVARES, 2020).

A centralidade da imagem e da performance nos modos de vida contemporâneos compromete a construção de uma narrativa existencial coerente. A lógica da visibilidade, aliada à cultura da monetização de tudo, afasta o sujeito de seu eixo ético e emocional. A busca por aceitação se transforma em compulsão por aprovação, e o bem-estar é reduzido à reação do outro. Esse processo intensifica os estados de ansiedade, alienação e baixa autoestima (TELES, 2023).

Alternativas críticas vêm sendo formuladas por movimentos que defendem a simplificação da vida e a ressignificação do sucesso. O minimalismo, por exemplo, propõe uma ruptura com o paradigma do acúmulo e convida à valorização da experiência interior, do tempo livre e dos vínculos autênticos. Trata-se de um esforço consciente para recuperar o sentido do viver em meio ao excesso de estímulos, informações e promessas de felicidade fabricada (TORRES, 2021).

O esvaziamento dos vínculos afetivos é uma das marcas mais visíveis da contemporaneidade, revelando uma sociedade que prioriza o desempenho em detrimento da presença. A lógica da produtividade invadiu até mesmo as relações interpessoais, transformando o tempo em capital simbólico e os afetos em investimentos de retorno incerto. A intimidade, antes construída pela convivência e pela escuta, cede espaço à velocidade e à superficialidade (MARTINS, 2017).

Esse enfraquecimento das conexões humanas contribui para o avanço de um tipo de solidão que não se deve à ausência física de pessoas, mas à indisponibilidade emocional. As relações, cada vez mais mediadas por tecnologias e discursos performativos, perdem a profundidade necessária para sustentar sentimentos duradouros. Em tal contexto, a busca por sentido é frequentemente frustrada por interações que não acolhem a vulnerabilidade e a escuta sincera (RAMOS, 2018).

A cultura da hiperconectividade, embora propague o ideal de presença constante, não garante vínculos verdadeiros. Ao contrário, reforça a lógica da distração e da dispersão, impedindo que o sujeito mergulhe em si e reconheça o outro como presença significativa. A coexistência é substituída pela simultaneidade, e o tempo relacional perde sua densidade simbólica. Com isso, o bem-estar passa a depender não do compartilhamento afetivo, mas do engajamento superficial (TAVARES, 2020).

Nesse cenário, a ideia de propósito é frequentemente diluída entre tarefas automatizadas, metas vazias e expectativas externas. O sujeito fragmenta-se em múltiplas funções e papéis, desconectando-se de sua coerência interna. Essa cisão produz sofrimento psíquico e um estado de confusão existencial, pois falta uma narrativa consistente capaz de amparar as escolhas e dar sentido à trajetória individual e coletiva (TELES, 2023).

Recuperar a profundidade dos vínculos e da escuta mútua exige um reposicionamento ético diante do tempo e do outro. Práticas como o cultivo da atenção plena, o cuidado interpessoal e a convivência comunitária emergem como formas de resistência à lógica instrumental. Elas devolvem humanidade às relações e restauram o valor da presença real como fundação de uma vida com significado (TORRES, 2021).

O crescimento de movimentos que questionam a lógica do consumo desenfreado e do individualismo extremo evidencia uma necessidade latente de resgate de valores mais duradouros. A decisão de viver com menos, adotada por muitos em busca de saúde mental e integridade, demonstra que a felicidade pode ser fruto de escolhas que priorizam o sentido, e não o acúmulo. Trata-se de um caminho contra-hegemônico que desafia o status social estabelecido (BARROS, 2021).

Ao optar por estilos de vida mais simples, muitas pessoas relatam melhorias em aspectos como equilíbrio emocional, qualidade do sono, redução da ansiedade e fortalecimento das relações interpessoais. Essa vivência reafirma que o bem-estar está mais vinculado à coerência entre valores e ações do que a conquistas externas. O abandono da corrida por bens substitui a performance pela presença e a competição pela comunhão (GARCIA, 2019).

A reconexão com a interioridade, por sua vez, tem se mostrado um antídoto à alienação provocada pela lógica produtivista. Resgatar o silêncio, o tempo livre e os espaços de não fazer nada permite ao sujeito entrar em contato com suas motivações mais profundas. Nessa dimensão, o propósito não é uma meta externa, mas uma escuta interna que orienta escolhas com base no que verdadeiramente importa (GONÇALVES, 2019).

Além do benefício individual, essa mudança de perspectiva amplia também a percepção de coletividade. Quando o sentido da vida é construído em relação ao outro e ao mundo, as práticas ganham densidade social. Voluntariado, práticas colaborativas, redes de solidariedade e consumo consciente surgem como formas de realização que unem satisfação pessoal e transformação coletiva (IBARRA, 2022).

Dessa forma, é preciso compreender que o pertencimento e a integração comunitária não são apenas complementos ao bem-estar, mas dimensões constitutivas da própria subjetividade. A vivência do vínculo, do cuidado e da responsabilidade compartilhada revela uma forma mais complexa e ética de se estar no mundo. Nesse horizonte, o sentido da existência não reside naquilo que se acumula, mas naquilo que se constrói em comunhão (LIMA, 2020).

A busca por sentido e por uma existência mais coerente tem levado muitos sujeitos a se afastarem do ideal de sucesso centrado na acumulação de bens. Nesse processo, emerge uma crítica não apenas ao consumismo, mas ao esvaziamento simbólico promovido por essa lógica. A desconstrução dessa narrativa dominante permite resgatar dimensões mais autênticas da vida humana, nas quais a satisfação não decorre de conquistas materiais, mas da consistência entre valores e práticas cotidianas (BARROS, 2021).

O deslocamento do foco do consumo para os afetos revela a urgência de retomar a interioridade como núcleo estruturante do bem-estar. Trata-se de reconhecer que a autenticidade não se define pelo desempenho social, mas pela capacidade de habitar a própria experiência com consciência e verdade. A vida subjetiva, muitas vezes silenciada pelo barulho das exigências externas, passa a ocupar um lugar central na redefinição do viver (GARCIA, 2019).

A vivência do tempo, antes capturada pela urgência e pela produtividade, adquire nova textura quando o indivíduo se permite vivê-lo de maneira plena e não fragmentada. O resgate da presença, da pausa e da atenção qualitativa permite não apenas restaurar a saúde emocional, mas também fortalecer os vínculos sociais. Em vez de acelerar, torna-se necessário escutar — a si, ao outro, ao tempo da vida (GONÇALVES, 2019).

A crítica à promessa de felicidade baseada no consumo contínuo encontra respaldo nos altos índices de frustração registrados em contextos altamente desenvolvidos economicamente. A abundância material, por si só, não garante contentamento. Ao contrário, quando dissociada de sentido, tende a acentuar a sensação de vazio e alienação. A experiência afetiva, por sua vez, ao oferecer profundidade e pertencimento, preenche lacunas que o consumo jamais alcança (IBARRA, 2022).

É nessa chave que a experiência comunitária e o pertencimento se revelam elementos fundamentais para a constituição de uma vida satisfatória. Conectar-se aos outros de forma ética e empática, participar de redes solidárias e sentir-se parte de algo maior não apenas geram bem-estar, mas também restauram o vínculo entre indivíduo e coletividade. A busca por sentido, portanto, transita entre o interior e o coletivo, entre o silêncio subjetivo e a escuta social (LIMA, 2020).

A reconstrução da ideia de sucesso demanda um rompimento com os modelos tradicionais que associam realização à visibilidade e ao acúmulo. Nesse sentido, as relações humanas e os afetos passam a ser reposicionados como fundamentos de uma vida boa. Tal mudança não se resume à esfera individual, mas alcança uma dimensão ética, que implica repensar o modo como se vive, consome e se relaciona com o mundo (MARTINS, 2017).

Ao assumir os vínculos como valores centrais, o sujeito reorienta sua trajetória em direção a relações mais horizontais, baseadas no reconhecimento mútuo e na construção de significados compartilhados. Essa mudança promove um descentramento do ego e fortalece a noção de responsabilidade intersubjetiva. Em um tempo marcado por rupturas e superficialidade, o compromisso com o outro resgata a densidade perdida das experiências (RAMOS, 2018).

Não se trata, portanto, de negar a importância do conforto material, mas de relativizar seu papel na hierarquia dos valores humanos. O bem-estar genuíno, como apontam diversas experiências, nasce mais da coerência entre pensamento, sentimento e ação do que da quantidade de bens acumulados. A vida com sentido exige presença, escuta, afeto e, sobretudo, disposição para construir relações que sustentem a existência em sua complexidade (TAVARES, 2020).

A crítica à lógica da acumulação ganha força quando confrontada com práticas que valorizam o tempo vivido e a simplicidade. Redefinir prioridades, cuidar da saúde mental, investir na intimidade e na convivência deixam de ser atos alternativos e tornam-se centrais. Essa transformação não apenas reconfigura o modo como se vive, mas também contribui para a construção de sociedades mais humanas e integradas (TELES, 2023).

A construção de uma ética baseada na presença exige não apenas ruptura com hábitos arraigados, mas também um reposicionamento do sujeito diante de si mesmo e do outro. O excesso de estímulos e a constante aceleração do cotidiano tornaram rara a disponibilidade emocional necessária para sustentar vínculos profundos. Nesse contexto, estar verdadeiramente presente — com atenção plena e sensibilidade — configura-se como resistência à lógica instrumental que reduz o tempo a capital e os relacionamentos a utilidades (GONÇALVES, 2019).

O engajamento com o outro, quando fundado na escuta e na reciprocidade, rompe com a superficialidade que domina os modos de vida contemporâneos. Sustentar afetos verdadeiros demanda não apenas tempo, mas também disposição ética para acolher a complexidade do outro. Essa atitude contraria o narcisismo relacional que se dissemina nas redes e reafirma a necessidade de vínculos baseados no cuidado mútuo, condição fundamental para a edificação de uma sociedade mais sensível e solidária (TAVARES, 2020).

Ao redefinir o centro da existência, deslocando-o da acumulação para o sentido, o sujeito recupera o protagonismo sobre sua narrativa de vida. Esse movimento interno repercute socialmente, pois sujeitos conscientes de seus propósitos tendem a se engajar com maior autenticidade em suas comunidades e relações. A coerência entre o viver e o sentir torna-se, assim, o alicerce para práticas de justiça, inclusão e empatia (IBARRA, 2022).

Em sociedades marcadas pela fragmentação e pela hiperindividualização, cultivar vínculos autênticos é uma forma de insurgência contra a indiferença. A reconexão com o outro não é um luxo afetivo, mas uma necessidade vital para sustentar a saúde emocional e fortalecer o tecido social. Ao privilegiar a experiência vivida sobre a aparência, o sujeito estabelece novos critérios para o bem-estar, fundados no pertencimento e na comunhão de sentidos (GARCIA, 2019).

A coragem para nadar contra a corrente da lógica neoliberal não se expressa apenas em discursos, mas em escolhas cotidianas que priorizam o ser sobre o ter. Práticas como o consumo consciente, a partilha do tempo e o engajamento em redes de solidariedade são expressões concretas de uma ética voltada à conexão e à presença. Essas atitudes, ao se multiplicarem, podem instaurar novas formas de convivência, orientadas por valores mais humanos e sustentáveis (TELES, 2023).

3. CONCLUSÃO

Diante da complexidade das formas de sofrimento contemporâneo, torna-se evidente que a redução da satisfação pessoal ao acúmulo de bens materiais é insuficiente para explicar as múltiplas camadas das necessidades subjetivas do ser humano. A lógica do consumo, ao prometer realização por meio de aquisições contínuas, termina por alimentar um ciclo de carência e descontentamento que se retroalimenta, instaurando uma sensação crônica de insuficiência que afeta a saúde mental, as relações sociais e o sentido de pertencimento.

Em contrapartida, experiências vivenciadas por indivíduos que optaram por estilos de vida mais simples e centrados em valores não materiais demonstram que a plenitude está significativamente mais associada à presença genuína, à escuta empática e ao compartilhamento de vivências autênticas do que à ostentação de riquezas acumuladas. A construção de uma vida dotada de propósito e coerência emerge, portanto, como elemento estruturante do bem-estar existencial, reconfigurando o próprio conceito de sucesso, que passa a ser medido não mais pelo que se possui, mas pela forma como se vive e se relaciona com o mundo.

Tais observações, evidentemente, não pretendem desconsiderar a importância dos recursos materiais para a sobrevivência e a dignidade humana. Contudo, uma vez superadas as necessidades básicas, torna-se nítido que outras dimensões passam a ocupar um lugar central na constituição da felicidade: o pertencimento simbólico, os vínculos afetivos e o sentimento de utilidade existencial. Essas dimensões, muitas vezes invisibilizadas pela racionalidade econômica dominante, apontam para formas de realização mais duradouras e menos suscetíveis às flutuações do mercado.

A crítica ao modelo hegemônico de satisfação, nesse sentido, não se configura como uma negação do conforto material, mas como uma necessária relativização de seu papel enquanto único parâmetro de bem-estar. Ao reconhecer a existência de outras formas de riqueza — tais como a riqueza das relações, das experiências significativas e da interioridade — amplia-se de maneira decisiva o horizonte das possibilidades humanas. Esse deslocamento de perspectiva permite não apenas uma ressignificação do que se entende por “vida boa”, como também promove uma reconciliação entre o ser e o mundo, desafiando os imperativos do consumo ilimitado.

Desse modo, a revalorização dos vínculos humanos, da experiência subjetiva e do tempo vivido com sentido configura-se como alternativa não apenas viável, mas profundamente necessária à lógica da acumulação. A redefinição do bem viver requer, portanto, um deslocamento radical do foco do patrimônio para o propósito, da ostentação para a autenticidade, da posse para a presença. Trata-se, enfim, de uma transição ética e existencial rumo a um paradigma no qual a conexão, o afeto e o sentido existencial se afirmem como fundamentos legítimos de uma vida verdadeiramente satisfatória.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROS, Letícia. Sociedade, consumo e identidade: os dilemas da realização na pós-modernidade. Recife, 2021. 

GARCIA, Mateus. Afetos e autenticidade: repensando o sujeito para além do consumo. São Paulo, 2019.

GONÇALVES, Rodrigo. Tempo, afeto e subjetividade: novas perspectivas sobre o bem-estar. Salvador, 2019. 

IBARRA, Luciana. Felicidade líquida: o vazio existencial nas sociedades capitalistas. Curitiba, 2022. 

LIMA, Tadeu. Conexão e sentido: a busca por pertencimento no século XXI. São Luís, 2020. 

MARTINS, Beatriz. Capitalismo e solidão: a crise das relações na era do consumo. Campinas, 2017. 

RAMOS, Gustavo. O império do ter: crítica à mercantilização da vida cotidiana. Florianópolis, 2018. 

TAVARES, Ingrid. Bem-estar e desconexão: repensando a realização pessoal. Belo Horizonte, 2020. 

TELES, Mariana. Vínculos e propósito: alternativas ao modelo de felicidade de mercado. Goiânia, 2023. 

TORRES, Rafael. Minimalismo e subjetividade: caminhos para uma vida com mais sentido. Vitória, 2021. 


*Artigo científico apresentado ao Grupo Educacional IBRA como requisito para a aprovação na disciplina de TCC.

1Discente do curso de Ciências Sociais.