REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511081649
Thaynara Simões Pereira1
Carlos Alexandre Martins Gonçalves2
Lucas Roberto de Carvalho3
RESUMO
A produção de forragens de qualidade é essencial para a sustentabilidade da pecuária brasileira, especialmente em sistemas que utilizam o capim Urochloa brizantha, espécie reconhecida por sua adaptabilidade e elevado potencial produtivo. A busca por alternativas que aliem eficiência agronômica e menor impacto ambiental tem estimulado o uso de inoculantes biológicos associados à adubação nitrogenada. O presente trabalho teve como objetivo avaliar o desenvolvimento do capim Urochloa brizantha submetido a diferentes inoculantes biológicos combinados com a aplicação de nitrogênio, analisando seus efeitos sobre a produção de matéria verde, matéria seca e altura de plantas. O experimento foi conduzido com cinco tratamentos e cinco repetições, sendo os tratamentos compostos por: testemunha, sementes tratadas com Azospirillum brasilense + nitrogênio, Bradyrhizobium japonicum + nitrogênio, Trichoderma asperellum + nitrogênio e apenas aplicação de nitrogênio. Os resultados demonstraram diferenças significativas entre os tratamentos, com destaque para aquele que recebeu Trichoderma asperellum associado ao fertilizante nitrogenado, o qual apresentou maior acúmulo de biomassa e crescimento vegetal. Conclui-se que o uso combinado de inoculantes biológicos e adubação nitrogenada representa uma estratégia eficiente e sustentável para potencializar o desempenho produtivo do capim Urochloa brizantha, contribuindo para o aprimoramento de sistemas de pastagens tropicais.
Palavras-chave: forrageira tropical; inoculante biológico; adubação nitrogenada; biomassa; sustentabilidade.
ABSTRACT
The production of high-quality forage is essential for the sustainability of Brazilian livestock systems, especially those based on Urochloa brizantha, a species recognized for its adaptability and high productive potential. The search for alternatives that combine agronomic efficiency and lower environmental impact has encouraged the use of biological inoculants associated with nitrogen fertilization. This study aimed to evaluate the development of Urochloa brizantha subjected to different biological inoculants combined with nitrogen application, analyzing their effects on green matter production, dry matter yield, and plant height. The experiment was conducted with five treatments and five replications, consisting of: control, seeds treated with Azospirillum brasilense + nitrogen, Bradyrhizobium japonicum + nitrogen, Trichoderma asperellum + nitrogen, and nitrogen application only. The results showed significant differences among treatments, with the combination of Trichoderma asperellum and nitrogen fertilizer standing out for promoting greater biomass accumulation and plant growth. It was concluded that the combined use of biological inoculants and nitrogen fertilization represents an efficient and sustainable strategy to enhance the productive performance of Urochloa brizantha, contributing to the improvement of tropical pasture systems.
Keywords: tropical forage; biological inoculant; nitrogen fertilization; biomass; sustainability.
1. INTRODUÇÃO
A produção de forragens de alta qualidade constitui um dos principais pilares da pecuária brasileira, sendo essencial para garantir o desempenho animal e a sustentabilidade dos sistemas de produção. Entre as espécies utilizadas, o capim Urochloa brizantha destaca-se por sua elevada adaptabilidade às condições tropicais, boa capacidade de rebrota e valor nutritivo expressivo, características que o tornam amplamente empregado em pastagens destinadas à produção de carne e leite.
Nos últimos anos, a busca por alternativas que aumentem a produtividade sem elevar significativamente os custos de produção e o impacto ambiental tem ganhado destaque. Nesse contexto, o uso de inoculantes biológicos, como Azospirillum brasilense, Bradyrhizobium japonicum e Trichoderma asperellum, tem se mostrado uma ferramenta promissora para promover o crescimento vegetal e melhorar a eficiência na utilização de nutrientes. Esses microrganismos atuam de forma simbiótica ou associativa com as raízes, favorecendo a absorção de nitrogênio e outros elementos essenciais ao desenvolvimento das plantas.
A adubação nitrogenada, por sua vez, continua sendo uma das práticas mais importantes no manejo de gramíneas forrageiras, pois o nitrogênio é um nutriente determinante para o crescimento e acúmulo de biomassa. Entretanto, seu uso inadequado pode resultar em perdas econômicas e ambientais, o que torna indispensável o estudo de estratégias que conciliem produtividade e sustentabilidade.
Dessa forma, pesquisas que avaliem a interação entre inoculantes biológicos e adubação nitrogenada são fundamentais para o desenvolvimento de tecnologias que aumentem a eficiência do uso de fertilizantes e a qualidade das pastagens.
Assim, este trabalho teve como objetivo avaliar o desenvolvimento do capim Urochloa brizantha submetido a diferentes inoculantes biológicos associados à aplicação de nitrogênio, analisando seus efeitos sobre a produção de matéria verde, matéria seca e altura de plantas.
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. Importância das Gramíneas Forrageiras
As gramíneas tropicais do gênero Urochloa possuem grande relevância no Brasil, sendo amplamente utilizadas na formação de pastagens e em sistemas de integração lavoura pecuária. A espécie Urochloa ruziziensis, em especial, destaca-se por apresentar boa adaptação ao clima tropical, elevada produção de biomassa e contribuição para a ciclagem de nutrientes, sendo também utilizada como planta de cobertura em sistemas de plantio direto (SILVA et al., 2020).
2.2. Uso de Fertilizantes Nitrogenados em Pastagens
O nitrogênio é considerado o nutriente mais limitante para o crescimento de gramíneas forrageiras. A aplicação de adubos nitrogenados, como o N-TOP®, pode promover aumento na produção de massa verde e seca, além de melhorar o teor de proteína bruta da forragem (SANTOS et al., 2015). No entanto, o custo elevado e os impactos ambientais do uso excessivo de fertilizantes químicos têm estimulado pesquisas voltadas para alternativas mais sustentáveis.
2.3. Inoculação com Azospirillum brasilense
A inoculação de sementes com bactérias promotoras de crescimento, como Azospirillum brasilense, tem sido amplamente estudada em gramíneas. Esses microrganismos atuam na fixação biológica de nitrogênio e na produção de fitormônios, favorecendo o desenvolvimento radicular e o acúmulo de biomassa (HUNGRIA, 2010). Estudos recentes em Urochloa ruziziensis indicam que o uso de A. brasilense pode aumentar a altura das plantas, a produção de matéria seca e a eficiência de absorção de nutrientes (VIEIRA et al., 2021).
2.4. Inoculação com Bradyrhizobium japonicum
Embora tradicionalmente utilizado em leguminosas, o Bradyrhizobium japonicum tem mostrado potencial em sistemas consorciados e no estímulo ao crescimento de gramíneas. Pesquisas relatam que, quando associado à adubação nitrogenada, pode promover incrementos na biomassa aérea e radicular, contribuindo para maior aproveitamento dos nutrientes disponíveis (SOUSA et al., 2021).
2.5. Uso de Trichoderma asperellum
O fungo Trichoderma asperellum é conhecido por seu efeito promotor de crescimento em diferentes culturas. Ele atua na indução de resistência, na maior absorção de nutrientes e no estímulo ao desenvolvimento radicular. Em leguminosas como a soja, estudos apontam que o uso de T. asperellum resultou em maior produtividade e biomassa (FERREIRA et al., 2021), o que justifica sua utilização também em gramíneas forrageiras como a Urochloa ruziziensis.
3. MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido na cidade de Palmeiras de Goiás – GO, Avenida José Ferreira Pinto, durante o período de 15 de agosto de 2025 a 24 de outubro de 2025. A região apresenta clima tropical, com temperaturas médias entre 28 °C e 32 °C. O solo utilizado para o enchimento dos recipientes foi de textura argilosa, coletado localmente, peneirado e homogeneizado antes do uso.
Delineamento Experimental
O experimento foi conduzido em Delineamento Inteiramente Casualizado (DIC), com cinco tratamentos e número igual de repetições por tratamento. Os tratamentos foram aplicados em vasos plásticos (baldes) com capacidade de 10 litros, preenchidos com solo previamente peneirado. O volume de solo por vaso foi calculado considerando a densidade média do solo (1,2 kg/L), resultando em aproximadamente 12 kg por unidade.
Os tratamentos utilizados foram os seguintes:
T1 – Testemunha (sem inoculante e sem adubo);
T2 – Sementes tratadas com Azospirillum brasilenses associados à aplicação de N-TOP®;
T3 – Sementes tratadas com Bradyrhizobium japonicum associados à aplicação de N-TOP®;
T4 – Sementes tratadas com Trichoderma asperellum associados à aplicação de N-TOP®;
T5 – Aplicação de N-TOP® sem inoculantes.
A altura das plantas foi medida com régua milimetrada, tomando-se a distância do colo até a extremidade da folha mais alta, conforme metodologia adaptada de Silva et al. (2020). As avaliações foram realizadas em intervalos semanais, até o momento da colheita.
A largura foliar foi mensurada com régua ou paquímetro, considerando a folha mais expandida de cada vaso, sempre no ponto de maior largura.
Na colheita para a coleta de dados aos 70 dias após a emergência, a parte aérea das plantas foi cortada rente ao solo e pesada imediatamente para determinação da massa verde (MV). Posteriormente, o material foi acondicionado em sacos de papel e levado à estufa de circulação forçada de ar a 65°C, até atingir peso constante. Após a secagem, foi determinada a massa seca (MS) com auxílio de balança de precisão.
O objetivo da coleta foi comparar o desenvolvimento vegetativo e a produção de biomassa do capim Urochloa ruziziensis submetido a diferentes inoculantes associados à adubação nitrogenada química. Dessa forma, busca-se avaliar a eficiência dessa interação sobre o crescimento da planta, destacando os efeitos positivos da utilização conjunta de bioinsumos e nitrogênio na produtividade da forrageira.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Produção de Matéria Verde (MV)
A análise mostrou diferenças significativas na produção de matéria verde entre tratamentos (ANOVA: F = 738,38; p < 0,001). As médias (média ± DP) demonstraram que os tratamentos com aplicação de N (T4 — Trichoderma asperellum + N e T5 — N sem inoculante) produziram, em média, 7.790 g e 7.889 g de MV, respectivamente, sendo estatisticamente superiores aos demais tratamentos (teste de Tukey, p ≤ 0,05). Os tratamentos T1 (testemunha), T2 (Azospirillum brasilense + N) e T3 (Bradyrhizobium japonicum + N) formaram um grupo com menores produtividades, não diferindo estatisticamente entre si.
Esses resultados indicam que a disponibilidade de nitrogênio foi o principal fator limitante para a produção de biomassa na Urochloa testada, e que a associação com Trichoderma potencializou a produção quase na mesma magnitude do N mineral aplicado isoladamente. Estudos anteriores apontam que agentes bioestimulantes, como Trichoderma, promovem maior desenvolvimento radicular e maior absorção de nutrientes, o que pode justificar o aumento expressivo de biomassa observado (Hungria et al., 2010; Bashan & de-Bashan, 2010; Moreira et al., 2019).
Tabela 1. Matéria Verde por tratamento (média ± DP). Letras indicam agrupamentos pelo teste de Tukey a 5%.

4.2 Produção de Matéria Seca (MS)
Também foram observadas diferenças significativas para matéria seca (ANOVA: F = 543,02; p < 0,001). As médias evidenciaram comportamento análogo ao da MV: T4 (2.109 g) e T5 (1.869 g) foram os tratamentos com maiores valores de MS, estatisticamente superiores a T1, T2 e T3. A diferença entre T4 e T5 foi detectada no teste de comparação múltipla para MS, indicando que Trichoderma associado ao N teve resposta superior (ou diferente) à aplicação de N isolado para a fração seca (letras de Tukey nos arquivos).
A maior MS em T4 sugere não apenas maior acúmulo de biomassa, mas também um potencial melhor aproveitamento do N para síntese de compostos estruturais, o que está de acordo com relatos de que inoculações eficazes podem aumentar a eficiência de uso de N e o teor proteico em herbáceas (Ferreira et al., 2020; Souza et al., 2022).
Tabela 2. Produção de Matéria Seca (média ± DP) e grupo pelo teste de Tukey (5%):

4.3 Altura de Plantas (AL)
A altura média das plantas foi significativamente afetada pelos tratamentos (ANOVA: F = 31,54; p < 0,001). O tratamento T2 (Azospirillum + N) apresentou a maior altura média (38,0 cm), sendo estatisticamente superior à testemunha e outros tratamentos em várias comparações (letras do Tukey). A testemunha (T1) foi a de menor altura média. É importante notar que, embora Azospirillum tenha promovido maior elongação das plantas (provavelmente por produção de fitohormônios como auxinas), isso não se traduziu necessariamente em maior produção de biomassa (MV/MS), já que T4 e T5 produziram mais massa total. Esse desacoplamento entre altura e produção de biomassa é descrito na literatura: aumentos em altura nem sempre representam incrementos proporcionais na massa seca, pois fatores como densidade da massa foliar, ramificação e massa das raízes influenciam o balanço final de biomassa (Mendes et al., 2018; Cordeiro et al., 2021).
Tabela 3. Altura média (média ± DP) e grupo pelo teste de Tukey (5%):

Os resultados obtidos permitem inferir que os tratamentos com inoculantes associados à adubação nitrogenada (T3 e T4) proporcionaram o melhor desempenho agronômico do capim Urochloa brizantha, evidenciado principalmente pelo aumento significativo da altura média das plantas e pela maior produção de matéria verde e seca. Essa resposta reforça a sinergia entre a fixação biológica de nitrogênio (FBN) e a adubação mineral complementar, conforme relatado por Hungria et al. (2016) e Moreira e Siqueira (2017), que destacam o papel dos inoculantes na promoção do crescimento vegetal e na eficiência de uso do nitrogênio.
Do ponto de vista prático, o Tratamento 4 mostrou-se o mais eficiente, indicando maior potencial para aplicação em condições de campo, sobretudo em sistemas de produção voltados à formação de pastagens mais vigorosas e sustentáveis. A adoção dessa combinação pode contribuir para redução parcial do uso de fertilizantes nitrogenados, com impacto positivo na rentabilidade do produtor e na sustentabilidade ambiental do sistema forrageiro, conforme observado também por Silva et al. (2020) e Santos et al. (2022) em estudos com gramíneas tropicais submetidas à inoculação e adubação nitrogenada.
Assim, indicam que o uso combinado de inoculantes biológicos e adubação nitrogenada representa uma estratégia agronomicamente viável e ambientalmente responsável, capaz de otimizar o crescimento do capim e melhorar a produtividade das pastagens.
5. CONCLUSÃO
Diante das análises realizadas, verificou-se que a utilização de inoculantes biológicos associada à adubação nitrogenada influenciou positivamente o desenvolvimento do capim Urochloa brizantha. Observou-se que os tratamentos que receberam essa combinação apresentaram maior produção de matéria verde e matéria seca, além de plantas com maior altura média.
Entre os tratamentos avaliados, o que recebeu a associação de Trichoderma asperellum com o fertilizante nitrogenado apresentou o melhor desempenho geral, indicando maior eficiência na absorção de nutrientes e melhor resposta fisiológica das plantas. Esse resultado evidencia que o uso integrado de microrganismos benéficos e adubação mineral pode potencializar o crescimento vegetal e favorecer a formação de pastagens mais produtivas.
A pesquisa reforça a importância de práticas sustentáveis na produção forrageira, mostrando que o manejo biológico aliado à adubação adequada é uma alternativa viável para aumentar a produtividade e reduzir impactos ambientais. Recomenda-se a continuidade de estudos em campo, com diferentes condições de solo e clima, para validar e aprimorar os resultados obtidos neste experimento.
Referências
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HARMAN, G. E.; HOWELL, C. R.; VITERBO, A.; CHET, I.; LORITO, M. Trichoderma species—opportunistic, avirulent plant symbionts. Nature Reviews Microbiology, v. 10, n. 11, p. 749–759, 2012.
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SOUSA, M. A.; ALMEIDA, G. R.; TORRES, R. C. Efeitos da adubação nitrogenada sobre a produção de biomassa em forrageiras tropicais. Revista Ciência Animal Brasileira, v. 23, e02922, 2022.
1,2,3Graduando em Engenharia Agronômica, Centro Universitário UNIBRAS Montes Belos
