ACTION OVERVIEW OF ARPÃO BASES FOR REDUCING NARCOTICS SEIZURE RATES IN OTHER REGIONS OF BRAZIL: THE IMPACT OF THE PERFORMANCE OF THE INDEPENDENT K-9 POLICING COMPANY OF THE AMAZONAS MILITARY POLICE ON PUBLIC SAFETY IN THE COUNTRY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602121228
Jônatas Torres da Silva1
RESUMO: A atuação da Companhia Independente de Policiamento com Cães – CIPCÃES, da Polícia Militar do Amazonas tem se mostrado um elemento estratégico no combate ao narcotráfico na região amazônica, especialmente através das Bases Fluviais Arpão. Este estudo analisa o impacto dessa unidade na redução do fluxo de entorpecentes para a região Sudeste do Brasil. A pesquisa parte do problema sobre a eficácia das operações da CIPCÃES na desarticulação das rotas primárias de tráfico e levanta a hipótese de que sua atuação integrada com as Bases Arpão potencializa as apreensões, reduzindo significativamente o volume de drogas que chega ao Sudeste. O trabalho, com natureza quali-quantitativa, combinou revisão bibliográfica e análise de dados sobre apreensões realizadas entre 2019 e 2024. Os resultados demonstraram que as operações das Bases Arpão foram responsáveis por uma média de 20,5% das apreensões de entorpecentes no Amazonas, com a CIPCÃES contribuindo entre 41% e 70% desse total, evidenciando a relevância dos cães detectores de substâncias nas estratégias de combate ao tráfico. O estudo conclui que a integração de esforços regionais e o uso de tecnologias especializadas são cruciais para desarticular rotas criminosas, sendo essencial o investimento contínuo em infraestrutura, capacitação e inteligência policial.
Palavras-Chave: Cães policiais; Narcotráfico; Amazônia; Bases Arpão.
ABSTRACT: The operations of the Companhia Independente de Policiamento com Cães – CIPCÃES, of the Amazonas Military Police, have proven to be a strategic element in combating drug trafficking in the Amazon region, especially through the Arpão River Bases. This study analyzes the impact of this unit on reducing the flow of narcotics to the Southeast region of Brazil. The research starts from the problem of the effectiveness of CIPCÃES operations in dismantling primary trafficking routes and raises the hypothesis that its integrated action with the Arpão Bases enhances seizures, significantly reducing the volume of drugs reaching the Southeast. The work, with a quali-quantitative nature, combined literature review and data analysis on seizures carried out between 2019 and 2024. The results showed that the operations of the Arpão Bases were responsible for an average of 20.5% of drug seizures in Amazonas, with CIPCÃES contributing between 41% and 70% of this total, highlighting the relevance of substance-detecting dogs in anti-trafficking strategies. The study concludes that the integration of regional efforts and the use of specialized technologies are crucial to dismantle criminal routes, with continuous investment in infrastructure, training, and police intelligence being essential.
Keywords: Police dogs; Drug trafficking; Amazon; Arpão Bases.
1. INTRODUÇÃO
A região Amazônica, com suas características geográficas singulares, desempenha um papel central no combate ao narcotráfico, não apenas por sua relevância ambiental e geopolítica, mas também como uma das principais rotas de escoamento de drogas produzidas nos países andinos, denotando uma das principais preocupações no âmbito da segurança pública no Brasil (Couto e Oliveira, 2017; Couto, 2020).
A vasta extensão territorial e malha hidrográfica, aliadas à densa cobertura florestal e à limitada presença estatal em áreas remotas, favorecem a atuação de organizações criminosas, tornando a região amazônica um ponto nevrálgico para o tráfico de entorpecentes. Nesse contexto, a Amazônia desempenha um papel duplo: serve tanto como ponto de entrada para drogas provenientes dos países andinos – Colômbia, Peru e Bolívia – quanto como rota de escoamento para os grandes centros consumidores do Sudeste do Brasil e para mercados internacionais (Couto e Oliveira, 2017; Jacarandá, 2024).
Ademais, Machado (2001) atribui a cidade de Manaus a alcunha de centro de operações das organizações de tráfico de drogas na bacia amazônica. Por ser a maior metrópole da região, a cidade tornou-se um nó estratégico de transbordo no circuito internacional do tráfico de cocaína. O desenvolvimento urbano proporcionou um sistema intermodal complexo de transporte aquaviário, rodoviário e aéreo, nacional e internacional, que favoreceu o tráfico internacional de drogas. (Pfrimer e Motta, 2021).
Dentre as rotas pelas quais a droga é escoada dos países produtores para o território brasileiro, destacam-se como mais importantes as rotas amazônicas (Couto, 2020) e a chamada “rota caipira” (Abreu, 2017). Embora a rota caipira se destaque pela facilidade com que a cocaína atravessa o Peru e a Bolívia pela extensa malha ferroviária desses países até chegar ao Paraguai e entrar no Brasil pela tríplice fronteira, alcançando assim os grandes mercados consumidores do Sudeste, a rota amazônica, segundo Couto (2020), é uma importante rota primária de abastecimento dos mercados Sul e Sudeste. A partir daí, essa rota também abastece os mercados europeus, utilizando-se da infraestrutura portuária internacional dessas regiões.
Diante dessa realidade, o Programa Nacional de Segurança nas Fronteiras e Divisas, parte da estratégia governamental de combate aos crimes transfronteiriços, com objetivo de fortalecer a atuação integrada das instituições de segurança pública na Amazônia (SSP-AM, 2024).
Um marco dessa estratégia foi a criação e implementação da Base Fluvial Arpão, inaugurada em 4 de agosto de 2020, no município de Coari, a 363 km de Manaus. Essa base, situada no rio Solimões, tem como objetivo principal proporcionar suporte a operações policiais integradas, com foco no combate ao narcotráfico. Com um investimento inicial de R$ 17,5 milhões, o projeto é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (SSP-AM, 2024).
A expansão desse projeto foi concretizada em 3 de janeiro de 2024, com a entrega da Base Fluvial Arpão 2, instalada entre os rios Negro e Branco. Essa nova unidade conta com tecnologia de monitoramento avançada e abrange municípios estratégicos como Barcelos, Novo Airão e Santa Isabel do Rio Negro.
Além disso, o governo anunciou a criação de outras duas unidades fluviais: a Base Fluvial Tiradentes, que operará na calha do Alto Solimões, e a Base Fluvial Paulo Pinto Nery, que será deslocada para Itacoatiara, cobrindo amplas áreas como Urucurituba, Maués, Autazes e Parintins. Todas as bases atuam em diversas frentes de combate, incluindo o narcotráfico, a biopirataria e a extração ilegal de recursos naturais, como madeira e ouro (SSP-AM, 2024).
As Bases Fluviais reúnem efetivos integrados da Polícia Militar do Amazonas, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, Departamento de Polícia Técnico-Científica e, no caso da Base Arpão 2, contam com apoio das forças policiais de Roraima.
Nestas ações integradas, proporcionadas pelas Bases Arpão, a atuação da Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCÃES-PMAM) tem sido determinante na desarticulação das redes criminosas, por meio do uso de cães detectores de substâncias ilícitas, atuando diuturnamente nas operações. Vale destacar que os cães são mecanismos de detecção de drogas altamente precisos, confiáveis e de baixo custo, quando comparados a outras técnicas de detecção (Jantorno et al., 2024).
A complexidade das redes de narcotráfico que operam nestas rotas fluviais amazônicas extensas, coloca um desafio adicional para as forças de segurança pública na interceptação de drogas na região. Diante disso, a atuação da CIPCÃES em pontos estratégicos da Amazônia surge como uma possível solução para reduzir o escoamento de drogas para o Sudeste do Brasil, onde o consumo é elevado e a violência associada ao tráfico é crescente.
Sob este prisma, a pergunta científica que se faz é: a atuação da CIPCÃES no Estado do Amazonas, com cães detectores de substância, impacta diretamente a chegada de entorpecentes à região Sudeste do Brasil?
Para responder tal questão, a hipótese norteadora consiste no fato de que a atuação integrada da Companhia Independente de Policiamento com Cães da Polícia Militar do Amazonas, em conjunto com as Bases Fluviais Arpão, contribui significativamente para a redução do fluxo de entorpecentes destinados à região Sudeste do Brasil, ao desarticular rotas primárias e estratégicas do narcotráfico por meio da apreensão de entorpecentes.
Além disso, o uso de cães detectores de substância potencializa a eficiência das operações policiais, resultando em prejuízos financeiros expressivos às organizações criminosas e em uma menor oferta de entorpecentes nos grandes centros consumidores.
Para compreender este contexto, a pesquisa tem por objetivo geral identificar se a atuação da CIPCÃES no Estado do Amazonas impacta diretamente no fluxo de entorpecentes para o Sudeste. Quanto aos objetivos específicos, pretende-se: 1. Mapear as principais rotas do tráfico que conectam a Amazônia ao Sudeste; 2. Descrever os índices de apreensão de drogas no Amazonas e Espírito Santo; 3. Identificar os principais desafios enfrentados pela CIPCÃES no combate ao narcotráfico.
Diante do exposto, o tema se mostra relevante no cenário atual, uma vez que, o combate ao narcotráfico é uma prioridade global devido aos seus impactos diretos na segurança pública, na economia e na saúde das populações. No Brasil, o tráfico de drogas está diretamente associado ao aumento da violência urbana, ao fortalecimento de facções criminosas e à escalada de crimes como homicídios, roubos e tráfico de armas, principalmente na região sudeste do país por ser o principal mercado consumidor.
A CIPCÃES tem demonstrado um papel relevante na apreensão de drogas em rotas estratégicas da Amazônia. Portanto, compreender o impacto dessa atuação é essencial para identificar boas práticas que possam ser replicadas em outras regiões e para justificar o investimento em tecnologias e treinamentos especializados. Além disso, a análise pode subsidiar a formulação de políticas públicas mais eficazes no combate ao tráfico de drogas em nível nacional.
O artigo proposto será de autoria de dois oficiais da Polícia Militar do Espírito Santo, integrantes do Batalhão de Ações com Cães de tal instituição, que atuam diretamente no combate ao tráfico de drogas, com uso de cães. Através da vivência no Curso de Detecção de Substâncias, promovido pela CIPCÃES-PMAM, observou-se como o trabalho desenvolvido nesta Unidade pode trazer benefícios diretos à sociedade capixaba, por meio da redução do quantitativo de entorpecentes que chegam ao Espírito Santo, além de reduzirem a força das organizações criminosas.
2. MARCO TEÓRICO
2.1 AS ROTAS DO TRÁFICO DE DROGAS ENTRE A AMAZÔNIA E O SUDESTE BRASILEIRO
As rotas do tráfico de drogas no Brasil refletem a complexidade da logística criminosa que conecta as regiões de produção e distribuição. Na Amazônia, a geografia única, composta por rios extensos, densa vegetação e áreas de difícil acesso, facilita a movimentação de drogas provenientes de países produtores como Colômbia, Peru e Bolívia. Esses entorpecentes seguem para os grandes centros consumidores no Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, utilizando tanto as vias fluviais quanto as rodovias (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023; Jacarandá, 2024).
A rota do rio Solimões é frequentemente mencionada como o principal corredor de escoamento, principalmente de cocaína, devido à proximidade com a tríplice fronteira BrasilColômbia-Peru, passando pela região central do Amazonas, Tabatinga, Manaus até entrar na região Sudeste. Este trajeto mostra a aliança entre duas facções criminosas: o Comando Vermelho do Rio de Janeiro e Comando Vermelho do Amazonas (Couto, 2020).
Outras rotas muito utilizadas para chegada do entorpecente ao Sudeste, têm origem no Paraguai, em regiões de fronteira com Paraná e o Mato Grosso do Sul; e no Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia, passando por São Paulo até chegar no Rio de Janeiro e Espírito Santo (Abreu, 2017).
No entanto, estudos recentes destacam a importância das rotas terrestres, como a BR364, que conecta Rondônia ao Sudeste, e a BR-319, que liga o Amazonas ao Acre e Mato Grosso. Essas rotas oferecem maior agilidade e múltiplas opções de desvio, sendo essenciais para o escoamento terrestre de entorpecentes (Jacarandá, 2024; SSP-AM, 2024).
Uma das rotas pouco conhecidas, porém, importante neste processo de escoamento, trata-se do corredor Manaus – Palmas – Vitória, que liga a região Norte ao Sudeste, conectando áreas de produção e transporte aos portos utilizados para exportação (UNODC, 2023).
Essa rota específica inicia-se em Manaus, com a chegada da cocaína à cidade por meio do rio Solimões e de rotas terrestres que conectam a tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. A partir de Manaus, os entorpecentes são transportados por vias fluviais e rodoviárias, utilizando a malha viária local para alcançar Palmas, no estado do Tocantins.
Palmas desempenha um papel de articulação nesse corredor, funcionando como um ponto intermediário para o armazenamento e redistribuição da droga. Sua localização estratégica facilita o acesso às rodovias que conectam o Norte ao Sudeste, permitindo o transporte de grandes carregamentos em veículos de carga. A BR-153, conhecida como Rodovia Belém-Brasília, é amplamente utilizada nesse trecho, garantindo velocidade e discrição no trânsito de entorpecentes.
Ao alcançar Vitória, no Espírito Santo, a droga encontra um importante ponto de saída para o mercado internacional. Os portos da capital capixaba são utilizados pelas organizações criminosas para exportar os entorpecentes principalmente para a Europa e África. A proximidade de Vitória com outros grandes centros consumidores do Sudeste, como São Paulo e Rio de Janeiro, também favorece a distribuição interna da cocaína, consolidando essa rota como um dos principais corredores do narcotráfico no Brasil (Carone e Pinheiro, 2023).
Ao longo dessa rota, as organizações criminosas empregam diferentes métodos para ocultar e transportar as drogas. Entre os mais comuns estão o uso de veículos de carga disfarçados como transporte regular de mercadorias, o uso de embarcações em rios menos fiscalizados, e o fracionamento da carga para dificultar apreensões em grande escala. Além disso, o uso de tecnologia, como rastreadores GPS, ajuda os criminosos a monitorar o trajeto e reagir rapidamente em caso de operações policiais (Jacarandá, 2024; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).
Essas rotas, como observado na Figura 1, refletem nos índices de apreensão registrados no Amazonas e no Espírito Santo. Enquanto no Amazonas as operações focam nas áreas fluviais e na interceptação inicial das cargas, no Espírito Santo as ações se concentram na fiscalização portuária e rodoviária. Apesar dos esforços conjuntos, a sofisticação das redes criminosas e a vastidão do território representam desafios significativos para as forças de segurança (SSP-AM, 2024; UNODC, 2023).
FIGURA 1
Rotas utilizadas pelo narcotráfico na Bacia Amazônica

Fonte: UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME – UNODC, 2023.
2.2 ÍNDICES DE APREENSÃO NO AMAZONAS E ESPÍRITO SANTO
A análise dos índices de apreensão revela dinâmicas distintas entre as regiões de origem e destino das drogas. No Amazonas, a implementação de políticas integradas, como as Bases Fluviais Arpão, tem sido um fator determinante para o aumento das apreensões nos últimos anos. Por exemplo, apenas a Base Arpão foi responsável pela apreensão de mais de quatorze toneladas de entorpecentes em 2024, o que demonstra a eficácia das ações de interceptação no ponto inicial das rotas (SSP-AM, 2024).
No Espírito Santo, as apreensões estão relacionadas principalmente ao papel do Estado como um ponto logístico estratégico, com acesso a portos que facilitam a exportação de drogas para mercados internacionais.
Apesar de sua menor extensão territorial em comparação ao Amazonas, o Espírito Santo se destaca pela elevada quantidade de entorpecentes interceptados em áreas urbanas e nos corredores logísticos que conectam o estado ao restante do Sudeste. No ano de 2024 houve um aumento de mais de 200% em relação ao ano anterior com apreensão de 7,5 toneladas de drogas (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).
Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) a exportação por rotas marítimas é um dos braços econômicos mais fortes do país, movimentando, anualmente, cerca de 200 bilhões de dólares. O narcotráfico se vale desta logística para manter operações clandestinas, principalmente da cocaína, em direção a outros continentes (Carone e Pinheiro, 2023).
2.3 DESAFIOS ENFRENTADOS PELA COMPANHIA INDEPENDENTE DE POLICIAMENTO COM CÃES (CIPCÃES)
A Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCÃES) desempenha um papel crucial no combate ao narcotráfico, destacando-se pelo uso de cães de detecção em operações de grande escala. Contudo, a atuação da CIPCÃES enfrenta desafios significativos, que incluem:
- Infraestrutura logística limitada: A região amazônica apresenta dificuldades operacionais devido à escassez de infraestrutura adequada, como estradas pavimentadas e bases operacionais fixas. Isso impacta diretamente a mobilidade das equipes e a continuidade das operações em áreas remotas (SSP-AM, 2024).
- Capacitação e recursos: O treinamento dos cães e a atualização técnica dos policiais requerem investimentos constantes. Apesar dos resultados positivos, a necessidade de maior suporte financeiro para a aquisição de equipamentos e ampliação das equipes persiste como um entrave para operações mais amplas (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).
- Adaptação às mudanças nas rotas do tráfico: As organizações criminosas frequentemente alteram suas rotas e métodos para evitar as áreas de maior fiscalização. Isso exige uma constante atualização de estratégias e o uso de ferramentas de inteligência, como análise de dados e monitoramento integrado (UNODC, 2023).
3. MATERIAL E MÉTODO
O presente estudo possui natureza quali-quantitativa, pois pretende levantar dados sobre a apreensão de drogas no Estado do Amazonas, através das rotas primárias do narcotráfico, analisá-los, buscando compreender sua relação com o fluxo de entorpecentes que chegam à região Sudeste do Brasil. Essa abordagem quali-quantitativa permite uma compreensão mais abrangente do objeto de estudo, combinando aspectos objetivos e subjetivos (Gil, 2002).
A finalidade desta pesquisa é exploratória, por meio da análise da literatura existente, buscando “proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses” (Gil, 2002, p. 41), bem como explicativa, ao analisar a atuação da Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCÃES) no Estado do Amazonas e sua influência na redução do fluxo de entorpecentes para a região Sudeste do Brasil.
Adotou-se o método de abordagem hipotético-dedutivo, tendo por característica, segundo Lakatos e Marconi (2003) partir de um problema, formular uma hipótese que possa ser capaz de se amoldar aos fatos, solucioná-lo ou explicá-lo e, então, proceder de forma dedutiva, através da experimentação e observação, para testar a hipótese.
A escolha por essa metodologia justifica-se pela relevância e abrangência do tema, que envolve múltiplos aspectos, como segurança pública, logística do narcotráfico, impacto das políticas públicas e utilização de tecnologias especializadas, incluindo o uso de cães detectores de substâncias.
Quanto ao método de procedimento, a pesquisa consiste na realização de uma revisão bibliográfica que é “desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos” (Gil, 2002, p. 44). Assim, foram consultadas fontes relevantes, como artigos acadêmicos, relatórios governamentais, documentos oficiais, estudos publicados por organizações de segurança pública e literatura especializada na área de combate ao narcotráfico.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Neste capítulo será feita uma análise preliminar dos dados de apreensões de entorpecentes por regiões do Brasil e, por conseguinte, um paralelo das apreensões no Estado do Amazonas e no Espírito Santo, entre 2019 e 2024, destacando a eficácia e os desafios enfrentados pelas forças de segurança pública no combate ao narcotráfico.
Contudo, durante a coleta, foi constatado uma lacuna na falta de dados enviados por alguns Estados à Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma das metas do Governo Federal e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSB) é integrar, de forma sistemática, os dados das polícias estaduais, ainda sem sucesso. Essa ausência impacta diretamente a completude das análises e a formulação de políticas públicas integradas, dificultando uma visão abrangente do fluxo de entorpecentes no território brasileiro.
Como forma de sanar esta questão, os dados, extraídos do FBSP, apresentam dados nacionais sobre as apreensões de drogas no Brasil, compilados a partir das informações da Polícia Federal (que podem conter dados de apreensões de outras instituições federais de segurança pública) permitindo, assim, realizar a primeira análise pretendida, por regiões do Brasil, conforme observado no Gráfico 1.
Gráfico 1
Apreensão de entorpecentes no Brasil de 2013 a 2023 pela Polícia Federal

Legenda: A) Apreensão de cocaína (em kg); B) Apreensão de maconha (em kg). Fonte:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023.
Verifica-se que a Região Sudeste lidera as apreensões de cocaína e seus derivados pela Polícia Federal, com destaque para o pico de aproximadamente 40.000 kg em 2019 e uma tendência de redução a partir deste período. A Região Centro-Oeste, por sua vez, apresenta crescimento gradual constante, vindo a liderar o ranking em 2023, ao ultrapassar o Sudeste. A Região Norte alcança seu protagonismo, principalmente, em 2022.
Essas mudanças no ranking de apreensões refletem uma possível migração das rotas do tráfico, buscando reduzir a vulnerabilidade em regiões que possuem maior fiscalização. O protagonismo do Sudeste ressalta sua relevância como mercado consumidor e ponto logístico para exportação das drogas para o continente europeu, africano e asiático.
Com relação às apreensões de maconha e seus derivados, informados pela Polícia Federal, o protagonismo se dá nas Regiões Centro-Oeste e Sul, com picos de mais de 300.000 kg em 2020 e mais de 200.000 kg em 2023, respectivamente. A predominância dessas regiões reflete a localização geográfica dessas regiões, próximas às rotas de entrada e produção de maconha (principalmente Paraguai e Bolívia).
Em segunda análise, será dado destaque as apreensões de drogas feitas pelos Órgãos de Segurança Pública do Estado do Amazonas e do Espírito Santo, com base nas informações prestadas pelas respectivas Secretarias de Segurança Pública. Diferentemente dos dados anteriormente analisados, com foco na atuação da Polícia Federal, neste momento será possível verificar a atuação, principalmente das polícias militar e civil, no combate ao narcotráfico.
Essa distinção é interessante para poder compreender a importância dos órgãos de segurança pública estaduais na atuação contra o crime organizado. Exemplificando, com base no Gráfico 1, verificou-se que a Polícia Federal, juntando todos os Estados da Região Norte, apreendeu cerca de 25 Toneladas de cocaína e maconha, enquanto que, conforme se verifica no Gráfico 2, somente no Estado do Amazonas, as polícias militar e civil apreenderam quase 30 toneladas destas drogas.
Gráfico 2
Apreensão de entorpecentes no Estado do Amazonas e no Espírito Santo

Fonte: SSP-AM (2024); SESP-ES (2024). Elaborado pelo autor.
Diferentemente do observado na região norte como um todo, onde constata-se oscilações da apreensão dos entorpecentes pela Polícia Federal a partir de 2019 (Gráfico 1), no Estado do Amazonas, há um crescimento vertiginoso nestas apreensões pelas Polícias Estaduais, demonstrando a relevância no contexto nacional das rotas amazônicas do narcotráfico.
Esse aumento significativo das apreensões a partir de 2019 evidencia o impacto positivo das Bases Fluviais Arpão (criada neste mesmo ano) com a atuação da Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCÃES). As operações com cães detectores de substâncias permitiram a interceptação de grandes volumes de drogas nas rotas primárias que conectam a Amazônia ao Sudeste, com destaque para o ano de 2020, que apresentou um aumento de 238% em relação ao ano anterior, totalizando 22 toneladas de drogas apreendidas (Gráfico 3).
Gráfico 3
Apreensão de entorpecentes no Estado do Amazonas (2019-2024)

Contudo, a queda de 20,6% nas apreensões em 2023 levanta preocupações sobre a adaptação das organizações criminosas às estratégias de fiscalização, como a redistribuição das rotas e o uso de tecnologias sofisticadas, devendo o Estado adotar rapidamente novas estratégias de atuação.
Em 2024 (dados até outubro), as apreensões no Estado atingiram quantidades recordes de 57,9 toneladas (+114% em relação ao ano anterior), das quais 14,5 toneladas (25%) foram interceptadas somente nas Bases Arpão, comprovando a efetividade desta estratégia. Como pode ser observado no Gráfico 4, desde sua implementação, as Bases Arpão foram responsáveis por uma média de 20,5% das apreensões de drogas de todo Estado do Amazonas.
Gráfico 4
Percentual de apreensão de entorpecentes pelas Bases Arpão em comparação ao total apreendido pelo Estado do Amazonas (2019-2024)

Fonte: SSP-AM (2024); Elaborado pelo autor.
Importante ressaltar que a efetividade desta operação se dá, em grande parte, através da utilização decisiva dos cães detectores de substância da CIPCÃES, evidenciando a importância contínua dessa forma de atuação como componente crucial nas estratégias de combate ao narcotráfico, como pode ser observado no Gráfico 5.
Gráfico 5
Percentual de apreensão de entorpecentes realizado pela CIPCÃES em comparação ao total apreendido pelas Bases Arpão (2019-2024)

Fonte: SSP-AM (2024); Elaborado pelo autor.
Ao longo dos anos de operação das Bases Arpão, a CIPCÃES tem mantido uma contribuição substancial para as operações, com percentuais que variam entre 41% e 70%. Isso demonstra a eficácia do uso de cães detectores de substâncias em áreas críticas para o tráfico de entorpecentes. Esses dados reforçam a necessidade de investimentos contínuos na capacitação e infraestrutura da CIPCÃES para garantir resultados cada vez mais expressivos.
No Espírito Santo, as apreensões de entorpecentes seguiram um padrão distinto, refletindo as características do Estado como ponto logístico estratégico no Sudeste, com grande relevância para o escoamento de drogas para o mercado internacional.
Como observado no Gráfico 2, entre 2019 e 2021, o Estado do Espírito Santo apresentou uma redução acumulada de 32% nas apreensões, com volumes estabilizados em torno de 2 toneladas anuais. A partir de 2022, houve um aumento expressivo de 73%, alcançando 3,468 toneladas de drogas, até alcançar o pico em 2024 (dados até outubro) onde registrou 7,513 toneladas (+213% em relação ao ano anterior), possivelmente associada ao fortalecimento de operações em corredores logísticos.
É possível constatar com base nos dados analisados que, enquanto o Estado do Amazonas tem como foco a interceptação inicial em rotas fluviais (Bases Arpão), o Espírito Santo se concentra em operações portuárias e rodoviárias, refletindo sua função como ponto de saída e redistribuição.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo foi capaz de demonstrar como a atuação da CIPCÃES da Polícia Militar do Estado do Amazonas, com o uso de cães detectores de substância nas Bases Arpão, estrategicamente posicionadas em pontos nevrálgicos das narco-rotas amazônicas, contribui significativamente na apreensão de entorpecentes, provenientes de países produtores, como a Colômbia e o Peru, potencializando a eficiência das operações policiais, resultando em prejuízos financeiros expressivos às organizações criminosas e em uma menor oferta de entorpecentes nos grandes centros, dentre eles, a Região Sudeste, principal consumidor dentro do território brasileiro.
O Espírito Santo, embora registre volumes absolutos menores de apreensões, desempenha um papel crucial no escoamento de drogas para o mercado internacional, com foco na fiscalização portuária e rodoviária.
Ambos os Estados enfrentam desafios distintos, mas complementares, no combate ao tráfico: enquanto o Amazonas atua como ponto de interceptação inicial nas rotas de entrada, o Espírito Santo se posiciona como barreira no escoamento de drogas para o exterior.
A integração entre estratégias regionais, como as Bases Arpão no Amazonas e operações logísticas no Espírito Santo, reforça a necessidade de articulação nacional para combater de forma efetiva o narcotráfico com integração entre diferentes forças de segurança pública.
Apesar da ausência de dados consolidados de apreensões realizadas por algumas polícias estaduais no Sudeste (como Rio de Janeiro e Minas Gerais) limitar uma análise mais robusta do impacto direto no destino final dos entorpecentes, foi possível confirmar a hipótese levantada e alcançar os objetivos propostos, reforçando a importância da desarticulação das rotas primárias do narcotráfico para a redução do fluxo de entorpecentes destinados ao Sudeste, principal região consumidora.
Desta forma, evidencia-se a importância da participação efetiva do Governo Federal na liderança estratégica e coordenação da atuação dos demais entes federados, considerando a dinâmica global do narcotráfico e impacto direto em todas as regiões.
Torna-se, portanto, fundamental neste contexto, a criação de sistemas que ampliem a troca de informações entre estados para desarticular rotas alternativas, além de ampliar o uso de tecnologias e inteligência, incluindo cães detectores de substâncias e análise de dados, para antecipar adaptações do narcotráfico.
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1Universidade Estadual do Amazonas
