OS RISCOS DO USO DE AGONISTAS DOS RECEPTORES DE GLP-1 EM PACIENTES SUBMETIDOS A CIRURGIA GERAL E SEDAÇÃO

THE RISKS OF USING GLP-1 RECEPTOR AGONISTS IN PATIENTS UNDERGOING GENERAL SURGERY AND SEDATION

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512051925


Nicolas Guilherme Patel Benetti¹
Daiane Malheiros Souza²


Resumo

O artigo analisa a segurança perioperatória do uso de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) em procedimentos com sedação e anestesia geral e propõe boas práticas clínicas baseadas em revisão integrativa de estudos primários. Define como objetivo estimar a frequência de conteúdo gástrico residual (CGR) e de eventos respiratórios e, a partir disso, delinear um algoritmo assistencial aplicável à beira do leito. Emprega busca estruturada em bases biomédicas, triagem em duas etapas, extração padronizada e síntese narrativa alinhada ao PRISMA, com ênfase em ultrassonografia gástrica à beira do leito (USG) e endoscopia digestiva alta (EDA) como marcadores substitutos. Identifica maior probabilidade de resíduo gástrico em usuários da classe, especialmente em exposição recente e na presença de sintomas gastrointestinais, enquanto em cirurgias com via aérea protegida as taxas de pneumonia aspirativa permanecem estáveis; em EDA sob sedação, observa risco mais alto de aspiração. Com base nesses achados, recomenda triagem estruturada nas 24–48 horas que antecedem o procedimento, consideração do intervalo desde a última dose, uso seletivo de USG para reclassificação em tempo real e medidas de mitigação proporcionais ao cenário, preservando segurança respiratória e benefícios metabólicos. Conclui que a decisão exige personalização por contexto e clínica atual e apresenta um algoritmo prático que orienta manutenção, ajuste ou reagendamento, além de indicar prioridades de pesquisa pragmática por cenário.

Palavras-chave: Agonistas do receptor de GLP-1. Cuidados perioperatórios. Sedação e anestesia geral. Ultrassonografia gástrica. Aspiração pulmonar.

1 INTRODUÇÃO

 Os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) tornaram-se medicamentos centrais no manejo do diabetes mellitus tipo 2 e da obesidade, por integrarem benefícios metabólicos relevantes como: melhora do controle glicêmico, perda ponderal e potencial cardioproteção, em um arcabouço terapêutico que conversa com a fisiopatologia incretínica. Em paralelo, a ampliação do uso dessas moléculas aproximou a discussão farmacológica da prática perioperatória, exigindo que anestesiologistas e equipes cirúrgicas compreendam suas repercussões sistêmicas, sobretudo gastrointestinais. Essa ponte entre efetividade metabólica e segurança anestésica constitui o pano de fundo do presente estudo. (LIU, 2024)

Do ponto de vista fisiológico, os GLP-1 RAs reduzem o esvaziamento gástrico e modulam sinais de saciedade, contribuindo para menor pico glicêmico pós-prandial e controle metabólico sustentado. Porém, no contexto perioperatório esse mesmo efeito pode resultar em maior volume residual gástrico apesar do jejum convencional, criando um gradiente de risco para regurgitação e aspiração durante sedação e anestesia geral. Tal tensão clínica, sustenta a necessidade de sínteses que orientem decisões individualizadas, sensíveis ao perfil do paciente e ao procedimento. (LIU, 2024; NASCIMENTO et al., 2024)

A atual literatura tem explorado desfechos de segurança em usuários de GLP-1 RAs submetidos a procedimentos diagnósticos e terapêuticos, sugerindo associação entre sintomas gastrointestinais ativos, conteúdo gástrico residual (CGR) e eventos respiratórios relacionados à via aérea. Embora a diversidade metodológica limite conclusões definitivas, emergem sinais convergentes que justificam triagem clínica estruturada (sintomas GI), preparação dietética adaptada e, quando disponível, avaliação ultrassonográfica gástrica à beira-leito como medidas de mitigação. (NASCIMENTO et al., 2024; ELKIN et al., 2024)

Em paralelo, documentos orientadores de âmbito internacional e nacional têm buscado condutas padronizadas. Guias multisocietários norte-americanos destacam avaliação centrada no risco e evitam recomendações de suspensão universal, priorizando estratificação por sintomas e tipo de procedimento; por sua vez, no Brasil, diretrizes enfatizam prudência ampliada em razão da meia-vida de alguns agentes e de relatos clínicos de complicações, propondo intervalos mais extensos de suspensão em cenários selecionados. Essa divergência reforça a necessidade de harmonização entre recomendações e de incorporação explícita do balanço risco-benefício. (JOSHI et al., 2024; KINDEL et al., 2024)

Diante desse quadro, delineia-se o problema de pesquisa: como conduzir, no período perioperatório, pacientes em uso de GLP-1 RAs de modo a minimizar o risco de aspiração/regurgitação sem comprometer o controle metabólico e a segurança global do cuidado. Trata-se de um problema delimitado, com aplicabilidade social direta (cirurgia eletiva, procedimentos sob sedação), que emerge da vivência clínica e da variabilidade de condutas observada entre serviços e sociedades, demandando síntese crítica da evidência primária e dos posicionamentos institucionais. (JOSHI et al., 2024)

A relevância do tema é dupla. No plano teórico, avançar na compreensão das interações entre farmacologia dos incretínicos, fisiologia do esvaziamento gástrico e segurança anestésica contribui para refinar modelos de risco perioperatório. No plano prático, oferecer algoritmos e melhores práticas aplicáveis à beira do leito pode reduzir eventos respiratórios graves, otimizar o manejo do jejum/dieta líquida e apoiar decisões compartilhadas quanto à manutenção, ajuste ou suspensão da terapia, sobretudo em procedimentos de maior risco. (NASCIMENTO et al., 2024; KINDEL et al., 2024)

Diante desse quadro, esse artigo propõe contextualizar a segurança perioperatória dos GLP1 RAs com base em estudos primários recentes, integrando dados de ultrassonografia (USG), endoscopia digestiva alta (EDA) e desfechos clínicos para sustentar uma abordagem orientada por risco: triagem de sintomas gastrointestinais, consideração do tempo desde a última dose, uso seletivo de USG quando muda conduta e manutenção de protocolos rigorosos de jejum e via aérea. A lacuna principal, ensaios pragmáticos que comparem suspensão versus manutenção por especialidade orienta a pergunta de pesquisa e justifica a síntese crítica aqui proposta. (NERSESSIAN et al., 2024).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

Os GLP-1 RA consolidaram-se no manejo do diabetes tipo 2 e da obesidade. No perioperatório, a discussão atual equilibra o efeito fisiológico de retardo do esvaziamento gástrico com potencial aumento do CGR e os desfechos clínicos do pós-operatório. Em visão multicêntrica de manter GLP-1 RA no período perioperatório não piorou resultados e, ao contrário, associou-se a menor readmissão em 30 dias e a menos deiscência/hematoma, sem aumento de infecção ou sangramento — um sinal de segurança clínica quando o manejo é estruturado. (ASCHEN et al., 2025).

O mecanismo proximal está bem documentado por USG à beira-leito, um ultrassom point-of-care (POCUS). Em voluntários sem obesidade recém-expostos à semaglutida, a USG detectou sólidos gástricos mesmo após jejum e líquidos claros, reforçando o retardo do esvaziamento induzido por GLP-1 RA. Já em pacientes em jejum para procedimentos eletivos, o uso semanal de GLP-1 RA esteve ligado a CGR mais frequente e, em estudo prospectivo centrado em semaglutida, uso até 10 dias antes do procedimento apareceu como preditor independente de CGR Elevado. (SHERWIN et al., 2023; SEN et al., 2024; NERSESSIAN et al., 2024).

Ao observamos a EDA como ferramenta que observa diretamente o estômago, o quadro central que emerge é de maior chance de encontrar resíduo entre usuários de semaglutida. Em serviço terciário, essa diferença persistiu mesmo após ponderação por escore de propensão, e sintomas gastrointestinais prévios (p.ex., náusea, plenitude, dispepsia) também se associaram a CGR. (SILVEIRA et al., 2023).

Quanto ao intervalo de suspensão do GLP-1 RA, no momento, as evidências observacionais sugerem um ajuste guiado por sintomas: paradas mais longas tendem a reduzir a chance de CGR até níveis similares aos de não-usuários, com intervalos maiores para quem tem queixas gastrointestinais e intervalos moderados para assintomáticos. Essa leitura prática auxilia na programação de agendas e preparo do exame. (SANTOS et al., 2024).

A tradução clínica do risco fisiológico em eventos respiratórios depende do contexto. Em artroplastias com raquianestesia frequente e protocolos padronizados de jejum/analgesia/deambulação, não foi encontrado diferença em escores de risco de aspiração entre usuários e não-usuários de GLP-1 RA, e não registrou aspiração clinicamente relevante. Em bases cirúrgicas mais amplas, análises observacionais recentes também não demonstraram aumento consistente de complicações respiratórias graves associadas ao uso perioperatório de GLP-1. (MAHMOUD et al., 2025; CHEN et al., 2025).

Do ponto de vista biológico e operacional, a evidência sustenta que GLP-1 RA recente, especialmente semaglutida, se associa a maior CGR detectável por USG e visível na EDA. Para transformar esse achado em prática, vale estratificar risco à beira-leito: considerar fase de escalonamento de dose, posologia semanal (meia-vida longa), presença de sintomas (náuseas, plenitude, refluxo) e histórico de gastroparesia. Pacientes com sintomas ativos e dose recente concentram maior probabilidade de estômago com restos alimentares, o que orienta decisões de preparo, de tempo desde a última dose e, quando disponível, o uso seletivo de USG antes da indução ou da sedação. (NERSESSIAN et al., 2024).

A passagem de CGR aumentado para aspiração clinicamente relevante não é automática e depende do cenário: tipo de procedimento, técnica anestésica (via aérea protegida versus sedação), urgência, posicionamento e protocolos de jejum. Em programas com raquianestesia e preparo padronizado, a literatura de coorte descreve baixa taxa de eventos respiratórios, sugerindo que estratégias de via aérea e jejum rigoroso conseguem amortecer o risco trazido pela fisiologia. Em EDA, onde o CGR é mais visível, a adoção de preparo adequado e triagem de sintomas também reduz a probabilidade de desfechos clínicos. (MAHMOUD et al., 2025).

Na prática clínica, a decisão tende a ser personalizada: combinar triagem de sintomas, tempo desde a última dose, USG quando muda a conduta e protocolos firmes de jejum/via aérea. Esse raciocínio deve ser equilibrado com os benefícios metabólicos dos GLP-1 RA já demonstrados em cirurgia (maior tempo em alvo, menor exposição à insulina) e com o sinal de segurança observado em grandes coortes. O resultado é uma abordagem orientada por risco, evitando suspender indiscriminadamente uma terapia útil, enquanto aguardamos ensaios pragmáticos que comparem suspensão versus manutenção por especialidade. (ASCHEN et al., 2025). 

3 METODOLOGIA 

A presente pesquisa foi concebida como uma revisão integrativa da literatura, delineada para responder, de forma prática e reprodutível, às dúvidas do manejo perioperatório de pacientes em uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1 RA). Para garantir aplicabilidade clínica e comparabilidade entre estudos, o escopo foi restrito a evidências primárias, com texto completo disponível nos idiomas português ou inglês, publicados entre janeiro de 2017 e abril de 2025. O relato segue as recomendações do PRISMA 2020, e o processo de seleção encontra-se documentado no diagrama correspondente (Figura 1, Anexo).

A pergunta norteadora partiu da prática assistencial: em pacientes que utilizam GLP-1 RA e serão submetidos a procedimentos com sedação ou anestesia, quais condutas perioperatórias se associam a melhores desfechos respiratórios e metabólicos? Essa formulação foi estruturada pela estratégia PICO: a população de interesse compreendeu adultos em uso de GLP-1 RA submetidos à EDA e a cirurgias gerais; a intervenção englobou condutas perioperatórias; o comparador considerou estratégias alternativas ou não exposição; e os desfechos priorizaram CGR avaliado por USG/EDA, aspiração/pneumonia e resultados metabólicos, além de tempo de internação e readmissão, quando informados.

As buscas foram realizadas nas bases PubMed/MEDLINE e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) contemplando LILACS e SciELO por combinarem a produção internacional com a latino-americana em saúde. Além disso, procedeu-se a busca manual nas listas de referências dos estudos incluídos e recorreu-se ao Google Scholar apenas para localizar versões em texto completo ou literatura cinzenta com dados elegíveis, sem alterar os critérios de inclusão centrados em estudos primários.

As estratégias de busca combinaram Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH) a termos livres clinicamente relevantes, articulados por operadores booleanos (AND/OR) e parênteses. Foram utilizados, em linhas gerais, termos relativos aos fármacos (semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida, tirzepatida), ao contexto perioperatório/anestésico (perioperative, anesthesia, sedation, endoscopy) e aos desfechos de interesse (gastric emptying, residual gastric content, aspiration, pneumonia, ultrasound).

Todos os registros recuperados foram exportados e deduplicados por combinação de título, DOI, primeiro autor e ano. Na etapa de identificação, foram localizados 82 registros nas bases de dados; em seguida, 36 registros foram removidos por duplicidade e/ou indisponibilidade de texto completo, originando o conjunto deduplicado para triagem com 46 registros. Na triagem por títulos e resumos, os 46 registros foram avaliados quanto à pertinência ao escopo e aos critérios preliminares; 24 foram excluídos por não atenderem à questão norteadora/escopo definido, e 22 avançaram para a elegibilidade por texto completo. Na fase de elegibilidade, 22 artigos foram lidos na íntegra e avaliados à luz dos critérios metodológicos (tipo de estudo primário, população-alvo, desfechos de interesse, janela temporal e disponibilidade de dados); seis foram excluídos nessa etapa. A etapa de inclusão resultou em 14 estudos, que compuseram a síntese qualitativa. O fluxograma PRISMA 2020 (Figura 1) acompanha a estratégia de busca e reproduz graficamente essas contagens, preservando o rastro documental do processo.

A extração de dados foi feita em uma planilha única, previamente testada, para manter tudo organizado e comparável. Registramos metadados (autor, ano, país), desenho do estudo, cenário/procedimento (EDA isolada, EDA com colonoscopia, cirurgia cardíaca ou nãocardíaca; sedação vs via aérea protegida), características da amostra, fármaco/dose/frequência, tempo desde a última dose, sintomas gastrointestinais na última semana e o método de aferição do conteúdo residual estomacal (USG/EDA), além de desfechos respiratórios e metabólicos.

Para padronizar a leitura, adotamos “uso recente” de GLP-1 RA como menor ou igual a 10 dias antes do procedimento, explorando 11–14 e >14 dias quando os dados permitiam.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Resultados:

Quadro 1: Síntese da amostra final de estudos selecionados.

ARTIGO E AUTORESOBJETIVOMÉTODOSRESULTADOSCONCLUSÃO
The impact of glucagonlike peptide-1 receptor agonist on the gastric residue in upper endoscopy — Abu-Freha N.; et al. (2024)Investigar a assoc. entre uso de GLP-1 RA e presença de CGR na EDA.Multicêntrico retrospectivo; todos as EDA de 7 serviços; CGR definido por laudo de “preparo inadequado”; comp. usuários vs não usuários,N=120.879 EGD; usuários GLP-1 RA n=1.671. CGR: 5,6% vs 2,0%. Em DM: 6,2% vs 3,0%; em não-DM: 4,2% vs 2,0%. GLP-1 RA e DM foram fatores de riscos independentes.Uso de GLP-1 RA associa-se a maior CGR em EDA; considerar jejum mais prolongado ou suspensão conforme meia-vida e risco.
Pulmonary aspiration of gastric contents in two patients taking semaglutide for weight loss — Avraham S.A.; et al. (2024)Relatar dois casos de regurgitação e aspiração em usuários de semaglutida para e discutir implicações anestésicasRelatos de casos (2); descrição de jejum, última dose, via aérea e evolução clínica.Caso 1: 70a, IMC 35, semaglutida semanal; última dose 6 dias; regurgitação com alimento não digerido durante laringoscopia; Caso 2: 25a semaglutina, 4 dias, regurgitação após retirada de mascara laríngeaSemaglutida recente pode cursar com estômago cheio apesar de jejum padrão; considerar ISR+IOT e USG gástr. pré-op conforme risco.
Postoperative aspiration pneumonia among adults using GLP-1 receptor agonists — Chen Y.-H.; et al. (2025)Avaliar assoc. entre uso pré-op de GLP-1 RA e pneumonia aspirativa em 30 dias.Coorte retrospectiva; adultos submetidos a 14 cirurgias (01/04/2020–30/09/2022); exposição: prescrição de GLP-1 RA nos 30 dias prévios.N=366.476; expostos 5.931 (1,6%). Sem aumento de pneumonia aspirativa 30d: OR 0,78 (IC95% 0,57–1,06; p=0,12).Não houve assoc. sig. entre GLP-1 RA pré-op e pneumonia aspirativa; sugere reavaliar suspensão rotineira.
GLP-1 RAs Increase Solid Gastric Residue on Upper Endoscopy, Especially in Complicated Diabetes: A Case-Control Study — Garza K.; et al. (2024)Comparar a frequência de CGR em EDA entre usuários de GLP-1 RA e controles; identificar preditores.Retrospectivo caso-controle com pareamento por escore; GLP-1 RA não suspensos; revisão de laudos/imagens; análise de subgruposResíduo 14% vs 4%. Maior risco: DM2, dependência de insulina, DM2 com complicações. Fatores protetores: jejum prolongado, líquidos clarosUso de GLP-1 RA associa-se a maior resíduo; medidas de prepare podem mitigar; sem aumento de complicações e aspiração no estudo
Perioperative GLP1-RA management and risk of aspiration in patients with diabetes undergoing fast-track hip and knee arthroplasty — Issa L.M.; et al. (2025)Investigar prospectivamente a incidência de aspiração perioperatória em DM2 usuários de GLP-1 RA em artroplastia fast-trackCoorte prospectiva multicêntrica (8 hospitais); DM2 com GLP-1 RA; manutenção de GLP-1 RA de longa ação até o dia; pausa dos de curta ação; coleta via prontuárioN=426; 92% mantiveram GLP-1 RA até o dia; 0 casos de aspiração (0%; IC95% 0–1%); 0 casos de LOS de dias atribuível a retardo gástricoContinuidade de GLP-1 RA em fast-track não elevou risco de aspiração nem prolongou LOS; sugere reconsiderar suspensões prolongadas
Association of GLP-1 RA treatment with gastric residue in an EGD — Kobori T.; et al. (2023)Avaliar associação entre GLP-1 RA e resíduo gástrico em EGD em pessoas com DMCaso-controle pareado (PSM) 1:1 por idade/sexo/insulina/HbA1c; 1.128 EGD; análise com teste de McNemar.**205 pares** analisados: resíduo **5,4%** GLP-1 RA vs **0,49%** controles (p=0,004).GLP-1 RA associou-se a maior resíduo gástrico em EGD; reforça estratificação/mitigação.
Safe continuation of GLP-1 receptor agonists at endoscopy: a case series of 57 adults undergoing endoscopic sleeve gastroplasty — MASELLI D.B.; et al.Descrever a segurança de manter GLP-1 RA em pacientes adultos submetidos a gastroplastia endoscópica (ESG)Série de casos retrospectiva em centro único; 57 adultos em uso de GLP-1 RA submetidos a ESG sem suspensão prévia do fármaco. Coleta de dados de prontuários sobre jejum.Nenhum caso de aspiração pulmonar ou pneumonia aspirativa foi doc. Não houve intubação não planejada por regurgitação. Eventos adversos foram os esperados para ESGNa experiência desta série de 57 pacientes submetidos a ESG, a continuidade de GLP-1 RA não se associou a aspiração ou complicações de CGR; apoia individualização com mitigação
Food Retention at Endoscopy Among Adults Using Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists — Nasser J.; et al (2024)Investigar a associação entre o uso de GLP-1 RA e retenção de alimentos na EDA isolada e EDA combinada com colonoscopia e a qualidade do preparo intestinal em colonoscopiasEstudo retrospectivo transversal de centro único (Cedars-Sinai), adultos submetidos a endoscopia entre 01/jan e 28/jun/2023. Usuários de GLP-1 RA ativos no dia do exame com uso de GLP-1 RA nos 90 dias sem uso ativo nos 7 dias anteriores. Desfechos: retenção de alimento, preparo intestinal inadequado, aspiração.Amostra: 70 usuários de GLP-1 RA vs 139 controles; 33% EDA, 33% colonoscopia, 34% combinação. Fármacos no grupo GLP-1 RA: semaglutida 46%, dulaglutida 30%, tirzepatida 20%, liraglutida 4%. EDA isolada: 17,4% de retenção vs 0% nos controles; OR 21,5. EGD+colonoscopia: 0% de retenção em ambos os grupos.O uso de GLP-1 RA associou-se a maior retenção de alimento na EDA isolada e a pior preparo intestinal em colonoscopias, enquanto não houve retenção quando EDA foi combinada à colonoscopia (provável efeito protetor do preparo com dieta líquida 24 h e laxativo).
Relationship between residual gastric content and peri-operative semaglutide use assessed by gastric ultrasound: a prospective observational study — NERSSESSIAN, R. S. F.; et al. (2024)Avaliar se o uso pré-op de semaglutida (até 10 dias antes) está associado a CGR elevado em pcte eletivos para POCUS do estômagoEstudo prospectivo observacional; adultos eletivos agrupados conforme exposição a semaglutida nos últimos 10 dias. POCUS gástr. pré-op para avaliar CGRProporção de CGR elevado no grupo semaglutida ~40% vs ~3% no grupo sem semaglutida. O uso de semaglutida nos 10 dias prévios permaneceu assoc. independente com CGR após ajuste multivariadoO uso recente de semaglutida associou-se de forma indep. a maior prob. de CGR elevado na avaliação de USG, recomenda estratificação e mitigação anestésica
Effect of various perioperative semaglutide interruption intervals on residual gastric content assessed by esophagogastroduodenoscopy — Santos L.B.; et al. (2024)Avaliar a assoc. entre diferentes int. de suspensão do semaglutida no período periop. e a presença de CG na EGD e potenciais preditoresEstudo retrospectivo de centro único com adultos submetidos a EGD eletiva em uso de semaglutida. Os pacientes foram categorizados por tempo desde a última doseIntervalos curtos de suspensão (especialmente ≤7 dias) associaram-se a maior prob. de CGR vs intervalos mais longos. A suspensão ≥7 dias mostrou redução da chance de CGREm usuários de semaglutida, int. de suspensão mais longos (p.ex., ≥7 dias) associam-se a menor CGR em EGD, sugerindo benefício na mitigação
Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use and Residual Gastric Content Before Anesthesia — Sen S.; et al. (2024)Avaliar a assoc. entre o uso de GLP-1 RA e a prevalência de CGR aumentado em pacientes em jejum submetidos a anestesia cirúrgica eletivaEstudo transversal com inclusão prospectiva em hospital terciário universitário (06 jun–12 jul 2023). Amostra n=124 (62 usuários de GLP-1 RA vs 62 controles), todos em jejumCGR aumentado: 56% (35/62) em usuários vs 19% (12/62) em controles. OR ajustada 2,48; efeito médio do tratamento +30,5; não houve associação significativa entre duração da interrupção e CGRO uso de GLP-1 RA associou-se a maior prevalência de CGR ao USG pré-op, apesar do jejum conforme diretriz. Suspender por 7 dias não mostrou queda significante de CGR
Influence of semaglutide use on the presence of residual gastric solids on gastric ultrasound: a prospective observational study in volunteers without obesity — SHERWIN, M.; et al. (2023)Avaliar, em voluntários sem obesidade após jejum de 8 horas, se o uso de semaglutida está associado à presença de sólidosEstudo prospectivo observacional com 20 voluntários (10 em semaglutida vs 10 controles). Ultrassom gástr. em decúbito dorsal e lateral após jejum de 8hApós jejum de 8 h: posição decúbito dorsal 70% com semaglutida vs 10% nos controles; DLE — 90% vs 20%. Após 2 h e 350 mL de água, a presença de sólidos permaneceu mais frequente no grupo semaglutidaVoluntários iniciados em semaglutida apresentaram maior presença de sólidos gástricos ao POCUS após jejum padrão, sugerindo retardo do esvaziamento e risco potencial de estômago cheio.
Relationship between perioperative semaglutide use and residual gastric content: a retrospective analysis of patients undergoing elective upper endoscopy — Silveira S. Q.; et al. (2023)Determinar se o uso periop. de semaglutida (uso recente antes do proc.) está associado a maior CGR em pacientes submetidos a EDA eletivaEstudo retrospectivo de centro terciário, incluindo adultos consecutivos submetidos a EDA eletiva. Exposição: uso recente de semaglutidaO uso recente de semaglutida associou-se a maior prob. de CGR em comp. aos não usuários, mesmo após ajuste para confundidores. Sintomas GI prévios ao exame foram preditores independentes de CGREm pacientes submetidos a EDA eletiva, o uso de semaglutida esteve associado a CGR elevado, reforçando a necessidade de estratificação de risco
Increased risk of aspiration pneumonia associated with endoscopic procedures in patients taking glucagon-like peptide-1 receptor agonists — Yeo Y.H.; et al. (2024)Investigar, em grande base de dados de saúde dos EUA, se o uso de GLP-1 RA está associado a maior risco de pneumonia aspirativa (PMA)Estudo observacional de coorte em banco de dados multicêntrico dos EUA. Adultos sob EDA foram classificados por exposição ativa a análogos.O uso de GLP-1 RA associou-se a aumento do risco relativo de PMA em 30 dias após EDA vs não usuários; a incidência absoluta do evento foi baixa, não semelhante em cenários não endoscópicosEm grande coorte de vida real, pacientes em uso de GLP-1 RA apresentaram maior risco relativo de PMA após EDA, reforçando a ideia de preparo líquido por 24 horas

Discussão:

O conjunto de evidências indica, em diferentes contextos e métodos, que o uso de GLP1 RAs eleva a probabilidade de encontrar CGR no dia do procedimento endoscópico-anestésico. Esse sinal é captado tanto por USG à beira-leito, que identifica estômago não vazio em proporção maior entre usuários, quanto por EDA, que descreve incremento de resíduo (especialmente sólido) em exposições recentes; além disso, a presença de sintomas gastrointestinais nas 24–48 horas anteriores como: náuseas, plenitude, refluxo e vômitos, funciona como modulador clínico do achado. Atrelado a isso, tais evidências caracterizam o CGR como um marcador substituto robusto da ação farmacodinâmica desses fármacos, embora o seu significado clínico dependa do cenário em que se observa. (SEN et al., 2024; SANTOS et al., 2024).

A plausibilidade fisiológica desse fenômeno decorre de mecanismos bem descritos: aumento do tônus pilórico, redução da peristalse antral e maior acomodação gástrica, resultando em retardo do esvaziamento mais pronunciado para sólidos e, em menor grau, para líquidos. Ensaios experimentais em voluntários evidenciam, por USG, retenção de conteúdo após jejum padrão e depuração mais lenta de líquidos claros quando a exposição ao agonista é recente; em estudos prospectivos clínicos, a janela temporal desde a última dose, especialmente <14 dias, a fase de início-titulação e características individuais por exemplo, sexo masculino e menor idade, intensificam a probabilidade de estômago não vazio. Esses dados sustentam a compreensão de que o gradiente de tempo desde a última dose com sintomas atuais descreve melhor o risco do que pausas fixas descontextualizadas. (SHERWIN et al., 2023; NERSESSIAN et al., 2024).

De modo convergente, séries endoscópicas demonstram maior detecção de resíduo em usuários de GLP-1 RAs, com efeito mais nítido quando há sintomas no dia do exame e preparação menos rigorosa, enquanto cenários com preparo mais estruturado tendem a atenuar o achado. A leitura integrada de USG e EDA, portanto, confirma o caráter farmacológico do aumento de CGR e delimita seu comportamento por tipo de substrato onde sólidos são mais arriscados que líquidos quando presente e por condições clínicas momentâneas, oferecendo base fisiopatológica para os módulos de estratificação de risco empregados na tomada de decisão perioperatória. (ABU-FREHA et al., 2024; KOBORI et al., 2023).

Nos estudos baseados em USG, observa-se de forma consistente maior prevalência de estômago não vazio entre usuários de semaglutida, sobretudo quando há janela curta desde a última dose; por outro lado, cortes temporais isolados de suspensões padronizadas exibem baixo poder discriminativo sem a clínica do dia do procedimento sedativo-cirúrgico. Para evitar repetição de valores idênticos reportados em múltiplos trabalhos, mantém-se aqui apenas a direção e a robustez do efeito, uma vez que, a tendencia de CGR se repete, independente do estudo (diferenças absolutas de prevalência e estimativas ajustadas) já documentadas pelos estudos primários, que convergem na superioridade da triagem clínica com temporalidade em relação a pausas fixas. (SEN et al., 2024; NERSESSIAN et al., 2024).

Nos estudos por EDA, o gradiente se reproduz de maneira tecnicamente consistente: usuários de GLP-1 RAs exibem maior probabilidade de detecção de resíduo, com predominância de material alimentar, e esse efeito se intensifica na presença de sintomas gastrointestinais no dia do exame e de janelas curtas desde a última dose. Em termos metodológicos, trata-se de achados que persistem após ajustes multivariados (idade, sexo, DM, IMC, DRGE) e, quando aplicável, após pareamento por escore de propensão, o que indica um fenômeno de classe e reduz a chance de confundimento por indicação. Além disso, análises de sensibilidade que exploram diferentes definições operacionais de “resíduo” mantêm a direção do efeito, sugerindo robustez à heterogeneidade do desfecho substituto. (ABU-FREHA et al., 2024; KOBORI et al., 2023).

Séries multicêntricas e coortes ampliadas acrescentam um ponto operacional relevante: contextos com preparo mais rigoroso, por exemplo: EDA combinada a colonoscopia no mesmo ato, com protocolos dietéticos e de limpeza mais estritos tendem a atenuar a frequência de CGR detectado, sugerindo que parte do sinal observado decorre da qualidade do preparo e da coordenação antes do procedimento. Em termos analíticos, esse padrão persiste após controle para variáveis de fluxo (tipo de ato endoscópico, duração do procedimento, profundidade de sedação como possível confundidor) e após exclusão de casos com indicação eminentemente terapêutica, limitando o viés de verificação. Assim, recomenda-se relatar de forma padronizada não só a presença ou ausência de resíduo, mas também o tipo de substrato (sólido ou líquido), a adesão ao preparo e a janela desde a última dose, a fim de reduzir heterogeneidade entre estudos e permitir uma comparabilidade externa e ampla. (NASSER et al., 2024; GARZA et al., 2024).

Em ambiente cirúrgico com via aérea protegida, a cadeia causal entre “conteúdo gástrico detectável” e “evento respiratório” parece sofrer interrupção efetiva por processos assistenciais padronizados (jejum orientado, indução planejada, profilaxia farmacológica quando indicada, intubação com cuff funcional e extubação em condições protetoras). Em coortes de grande escala, o uso de agonistas do receptor de GLP-1 não se associou a aumento de pneumonia aspirativa (PMA) em 30 dias, sinalizando que o marcador substituto de CGR não se traduz automaticamente em dano quando a proteção de via aérea e a coordenação anestésica estão bem estabelecidas. Em programas de artroplastia com recuperação acelerada, a manutenção do fármaco até o dia do procedimento, dentro de fluxos padronizados, acompanhou-se de ausência de aspiração e de alta precoce, reforçando que o risco respiratório é propriedade do encontro entre conteúdo, profundidade de sedação, estratégia de via aérea e qualidade dos processos, e não do fármaco de forma isolada. (CHEN et al., 2025; ISSA et al., 2025).

No polo oposto, a EDA sob sedação que opera com via aérea desprotegida e oscilações de consciência, contexto em que o mesmo CGR adquire relevância clínica maior. Estudos populacionais descrevem incremento de risco de aspiração, particularmente em procedimentos terapêuticos prolongados e na presença de resíduo detectável, enquanto relatos clínicos documentam eventos mesmo após jejum adequado em perfis mais vulneráveis ou quando a estratégia respiratória é menos protetora. Ainda assim, séries de endoscopia metabólica com preparo rigoroso e vigilância sistemática mostram que a continuidade do agonista pode ser compatível com segurança, sugerindo que a gestão do risco depende de preparação, monitorização e prontidão para ajustes: sedação parcimoniosa, sucção disponível, posicionamento em decúbito lateral esquerdo (DLE) no despertar e escalonamento de via aérea quando necessário. Em síntese, a tradução do marcador substituto em dano é fortemente mediada pelo cenário e pela qualidade dos processos, o que justifica estratégias diferenciadas para anestesia cirúrgica e para EDA sob sedação. (YEO et al., 2024; AVRAHAM et al., 2024; MASELLI et al., 2024).

A estratificação operacional deriva de variáveis simples, com alto valor preditivo na prática: sintomas gastrointestinais nas últimas 48 horas, intervalo desde a última dose (maior cautela em <14 dias), fase terapêutica, além de modificadores como IMC elevado, DRGE sintomática, suspeita de gastroparesia, sexo masculino e menor idade. Com base nisso, propõese um gradiente de risco em três faixas: baixo (assintomático e >14 dias), intermediário (assintomático e 8–14 dias) e alto (sintomático ou <8 dias), que organiza a agenda e orienta a conduta anestésico-procedimental. Esse modelo supera a regra de suspensão medicamentosa fixa por capturar a interação entre farmacodinâmica e estado clínico do dia, reduzindo cancelamentos desnecessários sem abrir mão da segurança. (SANTOS et al., 2024; SILVEIRA et al., 2023).

A mitigação é calibrada pelo cenário. Em EDA sob sedação, prioriza-se triagem ativa de sintomas e janela temporal, preparo dietético previsível, metas de sedação parcimoniosas que preservem reflexos protetores, sucção imediata disponível e posicionamento em DLE no despertar; diante de procedimentos terapêuticos longos ou de achado de resíduo relevante, recomenda-se escalonar a proteção respiratória e quando for eletivo preferir métodos com via aérea protegida, assintomáticos com intervalos mais longos tendem a manter o fármaco, desde que se garanta jejum adequado, profilaxia farmacológica conforme protocolo, indução planejada, intubação com cuff efetivo e extubação em condições protetoras, integrando o controle glicêmico perioperatório. (SANTOS et al., 2024; CHEN et al., 2025).

A USG pré-procedimento funciona como pedra angular de alta resolução quando a conduta depende do estado gástrico atual, especialmente em sintomáticos, em janelas <14 dias, em EDA terapêutica ou quando há incerteza de preparo. Adota-se técnica padronizada com janela antral em DLE, descrição qualitativa de sólidos e estimativa de volume líquido; ausência de conteúdo relevante autoriza prosseguir com o plano, enquanto presença de grande volume ou sólidos sustenta manejo como “estômago cheio” (ajuste de profundidade de sedação, escolha de via aérea mais protetora ou adiamento eletivo), com registro explícito da decisão em prontuário para retroalimentar o protocolo institucional. (SEN et al., 2024; NERSESSIAN et al., 2024).

A principal força do corpo de evidências reside na consistência externa entre métodos USG, EDA e cenários de cirurgia com via aérea protegida versus EDA sob sedação, com sinais convergentes de maior probabilidade de CGR em usuários de GLP-1 RAs e tradução clínica modulada pelo contexto anestésico; por outro lado, predominam desenhos observacionais, heterogeneidade de definições do desfecho substituto “conteúdo/resíduo”, volume, aspecto, escore, variação de protocolos de preparo e possibilidade de classificação errônea do tempo desde a exposição medicamentosa, além de confundimento por indicação e viés de seleção. Esses limites podem deslocar estimativas em direções opostas (diluir ou inflar efeitos) e justificam cautela ao extrapolar magnitudes absolutas entre serviços e populações, reforçando a utilidade de análises sensíveis ao cenário e de marcadores objetivos obtidos à beira do leito. (ABU-FREHA et al., 2024; GARZA et al., 2024).

Como agenda aplicada, priorizam-se ensaios pragmáticos estratificados por cenário, particularmente EDA sob sedação, registros multicêntricos com taxonomias padronizadas para CGR e para eventos aspirativos, e modelos preditivos sóbrios que integrem sintomas das últimas 48 horas, intervalo desde a última dose e USG, acompanhados de análise de impacto (tempo de sala, cancelamentos evitados, eventos respiratórios, controle glicêmico) e de custoefetividade da USG seletiva; recomenda-se ainda padronizar relatórios de EDA quanto à presença e à natureza do resíduo, e testar protocolos de mitigação (sedação parcimoniosa, sucção pronta, posicionamento lateral, ajustes de via aérea) em delineamentos por agrupamento. Até que novas evidências alterem o quadro, a implicação prática central é adotar uma estratégia de risco dinâmico centrada na clínica do dia e, quando necessário, reclassificada por USG ao invés de pausas fixas descontextualizadas. (SEN et al., 2024; NERSESSIAN et al., 2024)

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta revisão confirma que agonistas do receptor de GLP-1 aumentam a probabilidade de conteúdo gástrico no dia do procedimento, mas que “conteúdo no estômago” não é sinônimo automático de dano: o cenário comanda o risco. Em cirurgia com via aérea protegida, as taxas de evento respiratório permanecem estáveis; na endoscopia sob sedação, a via aérea desprotegida torna o mesmo achado mais relevante. Em lugar de pausas fixas, propõe-se uma leitura fisiológica e individual do risco, ancorada em sintomas nas 24–48 horas, fase terapêutica, intervalo desde a última dose e perfil digestivo do dia.

Na prática, a tomada de decisão é reprodutível: triagem documentada, estratificação em baixo/intermediário/alto risco e ultrassonografia gástrica apenas quando muda conduta. Ausência de conteúdo relevante autoriza prosseguir; grande volume ou sólidos pedem manejo de “estômago cheio” (ajuste de sedação, via aérea mais protetora ou reagendamento quando o benefício superar o custo metabólico). Em cirurgia com via aérea protegida, manter o agonista em assintomáticos com intervalos mais longos dentro de um percurso de segurança; na endoscopia, mitigar de forma estruturada. Resultado final: um algoritmo síntese de sintomas, tempo, USG que substitua regras cegas e oriente decisões consistentes, enquanto novas pesquisas pragmáticas refinam magnitudes e desfechos.

REFERÊNCIAS

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ANEXOS I

Figura 1: Fluxograma de triagem para a seleção final dos artigos

Fonte: Compilação do autor, 2025.

¹Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Mineiros (UNIFIMES) Campus Mineiros email: NIC.BENETTI@academico.unifimes.edu.br
²Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário Mineiros (UNIFIMES) Campus Mineiros. Médica Especialista em Anestesiologia (UFTM/CRER). e-mail: daiane.malheiros@unifimes.edu.br