OS EFEITOS BIOPSICOSSOCIAIS DO USO DE ÁLCOOL MISTURADO COM BEBIDAS ENERGÉTICAS  

THE BIOPSYCHOSOCIAL EFFECTS OF THE USE OF ALCOHOL MIXED WITH ENERGY DRINKS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602221922


Michelle Martins de Arruda Neves; Marina Pequeno Camargo da Silva; Marina Cereijido Marquine; Marcela de Oliveira Hasslocher; Maria Cecília Martins de Moraes; Marcela Oliveira Ribeiro; Isabela Felix de Sousa Chaer; Carolina Pires Teixeira Viula


RESUMO 

Objetivo: Analisar estudos atuais sobre os efeitos, em âmbito biológico, psicológico e social, do consumo de álcool misturado com bebidas energéticas (AMBE). Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, com artigos dos últimos 10 anos selecionados nas bases de dados Pubmed, Scielo e BVS, incluindo ensaios clínicos, relato de caso, estudos transversais e de coorte. Foram excluídas revisões de literatura e artigos que não contemplavam o tema. Os artigos selecionados(+ Rayyan) foram sistematizados em um fluxograma e divididos em dois eixos (biológico, psicossocial) de acordo com seus resultados. Resultado: Os estudos sobre efeitos causados pelo consumo de AMBE ainda são incipientes e/ou escassos. Entretanto, há um consenso sobre a prevalência de consequências negativas em comparação com as positivas em uma ótica biopsicossocial a partir de pesquisas que avaliam os mecanismos de ação antagônicos das duas substâncias e explicitam os riscos cardiovasculares, neurológicos e a influência da mistura em funções psicomotoras e em tendências comportamentais. Considerações finais: Conclui-se que o uso de AMBE possui efeitos, majoritariamente, negativos no contexto biopsicossocial. Todavia, os estudos sobre a pauta ainda são incipientes, sendo, portanto, necessários novos trabalhos para a melhor validação sobre a questão. 

Palavras-Chave: álcool, bebidas energéticas, efeitos, biopsicossocial. 

ABSTRACT 

Objective: Gather current studies of the biological, psychological, and social effects of the consumption of alcohol mixed with energy drinks (AMED). Methods: This is an integrative literature review, including articles from the last 10 years selected from the PubMed, Scielo, and BVS databases, encompassing clinical trials, case reports, cross-sectional, and cohort studies. Literature reviews and articles not addressing the topic were excluded. Selected articles were systematized in a flowchart and divided into two axes (biological, psychosocial) according to their results. Results: Studies about the effects of AMED consumption are still limited and/or scarce. However, there is a consensus on the prevalence of negative consequences compared to positive ones from a biopsychosocial perspective, based on research assessing the antagonistic mechanisms of the two substances and elucidating cardiovascular and neurological risks, as well as the impact of the mixture on psychomotor functions and behavioral tendencies. Final considerations: It is concluded that the use of AMED has predominantly negative effects in the biopsychosocial context. However, studies on this topic are still in their early stages, and new research is needed for a more thorough validation of the issue. 

Keywords: alcohol, energy drinks, effects, biopsychosocial. 

RESUMEN 

Objetivo: Revisar estudios recientes sobre los efectos biológicos, psicológicos y sociales del consumo de alcohol mezclado con bebidas energéticas (AMBE). Métodos: Esta revisión integradora de literatura incluyó artículos de los últimos 10 años seleccionados de Pubmed, Scielo y BVS, abarcando ensayos clínicos, informes de casos y estudios transversales y de cohortes. Se excluyeron revisiones de literatura y artículos no relacionados. Los artículos seleccionados se organizaron en un diagrama de flujo y se dividieron en dos ejes (biológico, psicosocial) según sus hallazgos. Resultados: Los estudios sobre los efectos del consumo de AMBE son limitados. Aunque se observa consenso sobre la prevalencia de consecuencias negativas en comparación con las positivas desde una perspectiva biopsicosocial, basándose en investigaciones que evalúan los mecanismos antagónicos de las sustancias y que detallan los riesgos cardiovasculares y neurológicos, así como la influencia en funciones psicomotoras y comportamientos. Conclusiones: Se establece que el uso de AMBE tiene mayormente efectos negativos en el contexto biopsicosocial. No obstante, dada la incipiente etapa de los estudios, se requieren nuevas investigaciones para validar completamente esta cuestión. 

Palabras clave: alcohol, bebidas energéticas, efectos, biopsicosocial. 

Introdução 

O álcool é uma substância produzida a partir da destilação e fermentação de componentes vegetais e que se relaciona de forma multifacetada com as sociedades, dependendo do contexto político, cultural e histórico de diferentes regiões pelo globo. No cenário ocidental, principalmente, ele é comumente utilizado em processos de socialização e celebrações.

Entretanto, diversos estudos já demonstraram que sua utilização pode ser prejudicial em contextos biopsicossociais. Tendo em vista que é uma droga depressora do sistema nervoso central (SNC) por meio da modulação de receptores GABAérgicos e inibição do glutamato, seu uso indevido é responsável por 5,3% (3 milhões) das mortes mundiais. Além disso, ele é frequentemente consumido em forma de misturas, utilizando-se de outras substâncias, como frutas, xaropes ou energético, para atenuar seu intenso sabor (OMS, 2020). 

Diante desse cenário, as bebidas energéticas começaram a ser comercializadas a partir de 1960, tendo sua explosão na popularidade na década de 1990, quando as grandes marcas conhecidas entraram no mercado. Desse modo, o uso tem a finalidade de melhorar a atividade física e mental, visto que é uma droga estimuladora do SNC pela atuação da cafeína como antagonista competitivo dos receptores de adenosina. Todavia, a literatura ressalta, também, alguns efeitos nocivos associados à utilização dessa bebida tais como: aumento do risco de ansiedade, síndrome do pânico e problemas cardiovasculares (CORRÊA BLR, et al. 2023). 

Frente a tais considerações, destaca-se um aumento progressivo da consumação etílica com bebidas energéticas, principalmente em universidades e momentos de lazer noturno, muitas vezes estando associada a um padrão pesado de ingestão de bebidas alcoólicas. Sob tal lógica, destaca-se que estudos sobre os efeitos dessa prática ainda são incipientes, porém há indícios de que essa mistura possa ser ainda mais prejudicial em um contexto holístico, já que possuem mecanismos de ação antagônicos. Essa combinação pode acarretar uma percepção reduzida de embriaguez, induzindo a falsa percepção de que o indivíduo ainda é apto para atividades como dirigir ou praticar esportes, quando na verdade sua capacidade psicomotora está comprometida (PEACOCK et al., 2015). Com isso, tendo em vista a perspectiva psicossocial da pauta, a literatura tem relacionado o uso de AMBE com o aumento do índice de comportamentos de risco, como violência, acidentes de trânsito, assédios sexuais, faltas em aulas de escolas e universidades. Desse modo, é importante ressaltar que os efeitos do uso de AMBE não se restringem apenas às modificações físicas e mentais, como também impactam esfera social, apresentando grande relevância no contexto de saúde pública (OH et al., 2019; DOGGETT et al., 2019). A análise desses achados permite uma análise ampliada das mudanças no perfil cultural brasileiro, noção fundamental para conduzir a formulação de políticas de prevenção e promoção de saúde previstas pela constituição do país. Assim, o presente artigo teve como objetivo analisar, mediante uma revisão integrativa de literatura, estudos sobre os efeitos biopsicossociais do álcool misturado com energético (AMBE). 

Método

O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, um método que tem como finalidade sintetizar resultados obtidos em pesquisas individuais sobre um tema ou questão de maneira sistemática, ordenada e abrangente. Dito isso, esta revisão busca facilitar a coleta, análise dos impactos e relevância de publicações sobre os efeitos da mistura de álcool com energético em um contexto biológico, psicológico e social. Diante dessa finalidade, para a pesquisa nas bases de dados, foram utilizados os seguintes descritores booleanos: álcool (alcohol), bebidas energéticas (energy drinks), efeitos (effects), biopsicossociais (biopsychosocial). 

O desenho do estudo foi integrado aplicando-se a estratégia PICO, uma mnemônica que auxilia a identificar os tópicos-chave – P: população/pacientes (pessoas usuárias de álcool misturado com energético); I: intervenção; (consumo de álcool misturado com energético); C: comparação/controle; (não consumo de álcool nem energético, consumo apenas de álcool ou consumo apenas de energético); O: desfecho/outcome (efeitos da mistura em um contexto biopsicossocial) -. A estratégia em questão viabilizou a formulação da questão norteadora: “ Quais são os efeitos da ingestão de álcool misturado com energético em um contexto biológico, psicológico e social? ” 

A pesquisa foi realizada através de Descritores em Saúde (DeCS)/ Medical Subject Headings (MeSH) anteriormente citados – álcool (álcool), bebidas energéticas (energy drinks), efeitos (effects), biopsicossociais (biopsychosocial) – combinados com os operadores booleanos “AND” e “OR”. Foram utilizadas as bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed Central® e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS). 

Para inclusão dos trabalhos, os seguintes critérios foram utilizados: 1. artigos publicados entre os anos de 2015 até 2025, 2. artigos escritos em língua portuguesa, 3. artigos escritos em inglês, 4. artigos publicados em revistas, 5. artigos que se enquadram na temática desta pesquisa. Já os critérios para exclusão contemplam: 1. artigos de revisão, 2. artigos publicados fora da temporalidade estabelecido, 3. teses de doutorado, 4. dissertação de mestrado, 5. artigos escritos em outras línguas sem ser a portuguesa e inglesa, 6. artigos não originais, 7. artigos que fogem ao tema proposto pela questão norteadora previamente abordada. Após a análise dos artigos e identificação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 15 trabalhos. A seleção ocorreu conforme esquematizado no fluxograma da Figura 1.

FIGURA 1 – Fluxograma da revisão integrativa. 

Fonte: Neves, MMA, et al., 2025

RESULTADOS 

Tabela 1 – Síntese dos principais achados sobre determinado tema, Belém – PA, 2020.

Autores e Anos de Publicação Principais achados
Paulucio D, et al., 2018Estudo Randomizado. 
Achados: 
1. Não houveram diferenças significativas entre o desempenho do início, do pico e do pós-exercício para usuários de álcool isolado e álcool misturado com energético.
Zacher J, et al., 2018Relato de caso 
Achados: 
1. A cafeína, ao causar vasoespasmos, provavelmente foi a causa da dissecção da artéria coronária, que causou infarto
2. O co-abuso de álcool aumenta o risco desses vasoespasmos, uma vez que o álcool reduz a taxa de eliminação de cafeína e pode levar à êmese, causando picos de pressão torácica e desequilíbrio da hemodinâmica
Martinez M, et al., 2018Ensaio clínico 
Achados:
1. O consumo conjunto de etanol e cafeína reverte os danos apoptóticos causados pelo etanol nas células do cerebelo.
2. O etanol pode gerar neurodegeneração e também neuroinflamação mediada por respostas do sistema imunológico.
3. O consumo de cafeína está inversamente relacionado ao início de doenças como Parkinson e Alzheimer, cujo eixo da patogênese é a neuroinflamação crônica.
Dazzy L, et al., 2023Ensaio clínico 
Achados: 
1. A exposição ao álcool, bebidas energéticas ou AMBE durante a adolescência induz mudanças adaptativas diferenciais na função dos neurônios dopaminérgicos mesocorticais. 
2. Em particular, a exposição à AMBE diminui a sensibilidade desses neurônios a estímulos externos, possivelmente estabelecendo as bases para os comportamentos alterados observados em idade adulta, como o aumento da vulnerabilidade à dependência do álcool e prejuízos à transmissão de dopamina no córtex pré-frontal medial.
Benson S, et al., 2019Estudo Randomizado duplo-cego 
Achados: 
1. O consumo apenas de álcool aumenta a taxa de erros em vários processos de atenção e memória de trabalho
2. O antagonismo entre álcool e bebidas energéticas não mostrou um padrão consistente e provavelmente reflete uma interação complexa entre os níveis de cafeína e álcool, a fase da curva do álcool no sangue influencia diretamente no domínio da tarefa e a carga cognitiva.
Peacock A, et al., 2015Ensaio Clínico simples cego, randomizado 
Achados: 
1. Melhorias foram observadas no desempenho no Teste de Acompanhamento Compensatório (teste de função psicomotora) e no Teste de Substituição de Símbolo de Dígito (teste de processamento de informação) após o consumo de energéticos com álcool. 
2. O Teste de tempo de inspeção e o Breve teste de sinal de tarefa (testes de processamento de informações) não mostraram efeito diferencial de AMBE misturado com álcool versus álcool sozinho.
Dogget A, et al., 2019Estudo de coorte 
Achados: 
1. O consumo de bebidas energéticas foi significativamente maior entre os usuários do AMBE (44,5%) do que não usuários (10,9%). 2. O uso de bebidas energéticas é um fator significativo preditor do consumo de AMBE em jovens.
Brunborg GS, et al., 2022Estudo de coorte 
Achados: 
1. O consumo mais frequente de bebidas energéticas no início da adolescência estava associado a um maior consumo de álcool ao mesmo tempo e a um aumento no consumo de álcool ao longo do tempo 
2. O efeito do AMBE era mais forte para as meninas, mas o efeito no aumento do consumo dele ao longo do tempo era mais forte para os meninos.
9Oh SS, et al., 2019 Corte Transversal – utilização de entrevistas. 
Achados:
1. Estudantes que utilizam álcool misturado com energético sofrem com um maior número de consequências negativas (por exemplo, faltar às aulas, envolver-se em atividade sexual não planejada) relacionadas ao álcool do que aqueles que não usam. 
2. Pessoas que consomem álcool com pouca frequência e/ou em baixas quantidades podem experimentar mais consequências quando consomem essa bebida misturada com energético
10 Powers G e Berger L., 2020Estudo Transversal 
Achados: 
1. O uso de AMBE foi associado a mais tipos de consequências negativas (relações sexuais indesejadas, aumento de discussões verbais, têndencia a dirigir sob influência etílica, etc) do que o uso intensivo de álcool isolado.
2. O consumo excessivo de álcool e o uso exagerado de AMBE compartilham consequências negativas. Entretanto, o uso da mistura tem, em todos os casos, maior força de associação.
11 Quigley BM, et al., 2019Série de relato de casos. 
Achados: 
1. Agressões relacionadas a usuários de álcool misturado com energético são mais frequentes que agressões relacionadas ao uso isolado de bebidas alcóolicas 
2. O uso de AMBE aumenta o risco de agressão em bares quando comparado ao uso apenas de bebidas alcoólicas.
12 Marczinski C, et al., 2018Ensaio Clínico 
Achados: 
1. A administração de álcool diminuiu a disposição para dirigir. 
2. Foi observada uma maior tolerância ao álcool para as avaliações de disposição para dirigir quando este foi misturado com bebidas energéticas 
3. As deficiências no desempenho da tarefa no computador induzidas pelo álcool não demonstraram nenhuma tolerância aguda. 4. O uso de misturas de bebidas energéticas com álcool pode levar a uma falsa sensação de segurança na capacidade de dirigir após beber.
13 Johnson SJ, et al., 2021Estudo Transversal 
Achados: 
1. O uso de álcool e cafeína não aumenta o consumo total da substância etílica e pode estimular uma manifestação de personalidade propensa a alto risco, pois provoca uma maior sensação subjetiva de embriaguez.
14 Johnson SJ, et al., 2018Estudo Transversal 
Achados: 
1. Ao consumir AMBE, os estudantes relataram que passaram menos dias consumindo 5 ou mais bebidas alcoólicas, menos dias misturando bebidas e menos dias ficando embriagados, em comparação com quando consumiam álcool misturado com outras bebidas (AMOB) 
2. Não houve diferenças significativas no número de consequências negativas relacionadas ao álcool relatadas nas ocasiões de consumo de AMED em comparação com as ocasiões de consumo de AMOB 
3. O consumo de álcool e as consequências negativas relacionadas ao álcool foram significativamente menores tanto nas ocasiões de AMBE quanto nas ocasiões AmOB em comparação com as ocasiões de AA (apenas álcool)
15 Johnson SJ, et al., 2021Estudo transversal 
Achados: 
1. O consumo de álcool está claramente relacionado ao comportamento de risco e à experiência de consequências negativas ( relacionadas ao álcool. 
2. No entanto, a ingestão de bebida energética não está relacionada ao nível de comportamento de risco e tem apenas uma fraca relação com o número de consequências negativas relacionadas ao álcool vivenciadas.

Discussão 

Introduzindo o panorama fisiológico, de acordo com Paulucio D, et al. (2018), o qual realizou um estudo comparativo entre usuários de álcool que não são usuários de energético e usuários de álcool com energético (simultaneamente) para analisar o funcionamento do córtex frontal antes e depois de exercício físico, não existem diferenças significativas no aspecto “condicionamento físico” entre os pacientes estudados. Isso, pois entre o início, o pico e o pós-exercício para cada tratamento, a resistência comparativa entre os usuários foi aproximada. 

Por outro lado, quanto à condição cardiovascular, no relato de caso com revisão da literatura de Zacher J, et al. (2018), percebeu-se que o uso da cafeína juntamente com o álcool possivelmente aumenta os riscos de dissecção da artéria coronária, e consequentemente, a ocorrência de infarto. Isso ocorre porque aquela causa vasoespasmos e vasoconstrição – pelo mecanismo de liberação do íon cálcio no músculo liso- e esse reduz a taxa de eliminação da cafeína pelo corpo, o que pode provocar êmese, causando picos de pressão torácica e desequilíbrio hemodinâmico. 

Ademais, frente ao contexto neurológico, o ensaio clínico conduzido por Martínez M, et al. (2018), realizado em ratos, mostrou que o etanol pode provocar respostas do sistema imunológico, como neurodegeneração e neuroinflamação, a qual está relacionada a doenças como Parkinson e Alzheimer, no cerebelo ao induzir apoptose celular. Também foi percebido que a cafeína (componente de bebidas energéticas), além de estar inversamente relacionada ao início dessas enfermidades, pode reverter os danos apoptóticos causados pelo álcool. 

Em contraposição, ainda em uma perspectiva neurológica, resultados do estudo de Dazzy L, et al (2023), também testados em ratos, atribuem uma relação do uso de AmBE na adolescência a mudanças adaptativas diferenciais na função dos neurônios dopaminérgicos mesocorticais, uma vez que ele diminui a sensibilidade desses neurônios a estímulos externos. Sendo assim, a mistura dessas substâncias se tornam bases para uma mudança comportamental observada na idade adulta. Dentre essas alterações está o aumento da vulnerabilidade à dependência do álcool, provocado pelos prejuízos à transmissão de dopamina do córtex pré-frontal medial, que está envolvido na modulação dos efeitos reforçadores do álcool e do comportamento impulsivo, além de desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da dependência. 

Em uma ótica psicossocial, vale ressaltar, primeiramente, os estudos de Benson S, et al. (2019) e Peacock A, et al. (2015), os quais discorrem sobre a influência do álcool misturado com energético nas funções psicomotoras e no processamento de informações. Em relação aos resultados, os estudos convergem no quesito (AmBE) , pois mostram-se, de modo geral, inconclusivos, visto que o antagonismo entre álcool e energético não mostrou um padrão consistente e provavelmente reflete uma interação complexa. Apesar disso, o primeiro estudo afirma que o consumo isolado de álcool aumenta a taxa de erros em vários processos de atenção (com testes de tempo de reação de 4 escolhas, de pares de números e de busca visual) e memória de trabalho (série de 7 testes) e o segundo traz, ainda, certos resultados que podem vir a indicar uma relação entre a quantidade ingerida de energético e uma diminuição da deterioração da função psicomotora (através do desempenho no Teste de Acompanhamento Compensatório) e do processamento global de informações por meio de avaliação no Teste de Substituição de Símbolo de Dígito) após o consumo etílico. 

Além disso, os estudos de Doggett A, et al. (2019) e de Brunborg GS, et al. (2022), focados em estimar a influência de bebidas energéticas no posterior aumento do consumo de AmBE e álcool também focam nesse aspecto biopsicossocial. Ou seja, indicou-se, assim, uma tendência significativa de misturar substâncias depressoras e estimulantes por jovens que ingeriam apenas energéticos anteriormente, em relação àqueles que não os ingeriam; e um maior consumo posterior de álcool entre adolescentes que ingeriam bebidas energéticas foi observado, aumentando os riscos relacionados a essa prática. 

Nas pesquisas de Oh S, et al. (2019), de Powers S e Berger L (2020), constataram-se maiores números e mais tipos de consequências negativas associadas ao uso de AmBE, em comparação a não usuários. A título de exemplo dessas tendências negativas, têm-se a ocorrência de faltas na escola ou no trabalho, a atividade sexual não planejada ou desprotegida, a direção sob influência de álcool e o envolvimento em discussões verbais; tendo o AmBE um fator de associação mais forte em todos os casos se comparado ao uso pesado de apenas álcool. Em adendo, o estudo de Soyeon destaca que pessoas as quais consomem álcool em poucas quantidades e/ou em baixa frequência tornam-se mais propensas a vivenciar os efeitos adversos citados quando utilizam essa bebida misturada com energéticos.  

Outrossim, dentre os tópicos que reafirmam as perspectivas negativas do uso de AmBE, estão o maior risco de agressões em bares quando comparado com o uso de apenas bebidas alcoólicas, como estabelecido pelo artigo de Quigley BM, et al. (2019); e o maior risco de acidentes automobilísticos associados a uma falsa sensação de segurança após beber AmBE, diferentemente dos efeitos do uso do álcool isolado, tal como afirmado pelos resultados de Marczinski C, et al. (2018). 

Em contradição aos argumentos expostos, o estudo de Johnson SJ, et al. (2021) recrutou e entrevistou 1041 participantes fora de locais populares de entretenimento noturno para coletar dados sobre a quantidade de consumo de álcool ingerido e se foi de forma isolada ou misturada com energéticos naquela noite. Dessa maneira, concluiu-se que o uso de álcool com cafeína não apresenta relações com a consumação total de álcool, entretanto, em conformidade com os outros estudos já tratados, a utilização de AMBE pode resultar em uma manifestação de uma personalidade propensa a correr riscos elevados, pois a mistura provoca uma maior sensação subjetiva de embriaguez. Em contraste com esses resultados, o mesmo autor havia encontrado padrões diferentes em suas outras duas pesquisas. Johnson SJ, et al (2018), Johnson SJ, et al (2021), o álcool sozinho está claramente relacionado a comportamentos de risco e a experiências de consequências negativas, por outro lado, as bebidas energéticas não demonstraram relação com esse tipo de atitudes, além da fraca interação com as consequências acarretadas pelo álcool.  

Considerações Finais 

Deste modo, considera-se que o consumo de álcool misturado com bebidas energéticas (AMBE) pode acarretar prejuízos em contextos biopsicossociais. Desse modo, na esfera biológica, essa prática aumenta os riscos de problemas cardiovasculares, entretanto, quando comparada com a consumação apenas de álcool, não houve diferença nos impactos relacionados ao condicionamento físico, além disso, percebeu-se que a mistura pode amenizar danos neurológicos etílicos. Ademais, no contexto psicossocial, notou-se indícios de que o AMBE pode amenizar malefícios do álcool isolado na memória, atenção e função psicomotora, em contrapartida, está relacionado ao aumento de comportamentos de risco. Apesar desses resultados, os estudos sobre a pauta ainda são incipientes, sendo, portanto, necessários novos trabalhos para a melhor validação da questão. 

Referências 

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2. BRUNBORG GS, et al. Energy drinks and alcohol use among adolescents: A longitudinal study. Journal drug and alcohol dependence, 2022; 241: 109666. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36283247/. Acesso em: 20 ago. 2025 

3. CORRÊA BLR, et al. Consumo de bebidas energéticas entre jovens e suas repercussões à saúde: uma revisão integrativa de literatura. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Enfermagem). Faculdade Pernambucana de Saúde, Recife, 2023. Disponível em:  http://tcc.fps.edu.br:80/jspui/handle/fpsrepo/1606. Acesso em: 22 ago. 2025 

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