NHEENGAYBAS: O CONTATO DOS POVOS NATIVOS DA REGIÃO DO MARAJÓ COM OS EUROPEUS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602222034


Átila Sousa Da Silva Cruz1


RESUMO – O artigo visa compreender o primeiro contato dos nativos do Marajó com os europeus. Como os recém chegados europeus buscaram essa aproximação com os habitantes e como afetaram os nativos durante a colonização. A fim de cooptar informações foram consultados documentos históricos e cartas, como do Fr. André Thevet (1558), Pe. Antonio Vieira (1746), Bernardo Pereira de Berredo (1849),  Antonio Henrique Leal (1868), José Luis Hernández-Pinzón y Ganzinotto (1920)  e Nimuendaju (1944). A metodologia é composta de pesquisas bibliográficas. Os dados coletados fazem menção a chegada dos povos europeus na região e como os nativos tiveram que se adaptar a nova realidade dos exploradores “invasores”, tanto social quanto religiosa, suscitando na integração dos nativos ao domínio da coroa portuguesa. 

PALAVRAS-CHAVE: Correlação dos nativos do Marajó. Europeus. Adaptação. 

ABSTRACT – The article aims to understand the first contact between the natives of the Marajo and the europeans. How European newcomers sought this rapprochement with the inhabitants and how they affected the natives during colonization. In order to co-opt information, historical documents and letters were consulted, such as by Fr. André Thevet (1558), Fr. Antonio Vieira (1746), Bernardo Pereira de Berredo (1849), Antonio Henrique Leal (1868), José Luis HernándezPinzón y Ganzinotto (1920) and Nimuendaju (1944). The methodology consists of bibliographic research. The data collected mention the arrival of European peoples in the region and how the natives had to adapt to the new reality of the “invader” explorers, both socially and religiously, leading to the integration of the natives into the domain of the Portuguese crown.  

KEYWORDS: Correlation of the natives of the Marajó. Europeans. Adaptation. 

1. INTRODUÇÃO 

O objetivo do artigo é identificar através de textos históricos datados entre os séculos XV a XVII sobre o contato dos povos nativos da região do Marajó com os europeus que chegaram ao Brasil, buscando compreender a relação e causas sociais, econômicas e comportamentais entre povos de culturas diferentes e de que forma as comunidades nativas foram afetadas.  

2. DESENVOLVIMENTO 

Espanha e Portugal já navegavam assim como outras nações europeias, porém, por desejos similares de alcançar rotas alternativas e menos nocivas que por terra, iniciaram a expansão marítima, Portugal já dominava a arte da navegação e com a finalidade econômica de chegar à Índia, iniciou as rotas pela costa do Continente Africano levando as especiarias para a Europa. Com a morte do Rei da Espanha em 1474, iniciou a guerra de sucessão de Castela que durou até 1479, quando foi assinado o Tratado de Alcaçovas (fig.1), sendo ratificado em 1480 através do Tratado de Toledo, tendo o Tratado uma peculiaridade pioneira que era a garantia e posse de Portugal sobre terras ainda desconhecidas e inexploradas no percurso de sua rota até a Índia. 

Figura 1 –Tratado de Alcaçovas

Fonte: Átila Cruz 

Em 1492, Cristóvão Colombo que estava navegando sob a ordem da coroa espanhola, trouxe a notícia de haver encontrado terras antes desconhecidas o que ascendeu o interesse de Portugal que logo contestou, usando o Tratado de Alcaçovas-Toledo, sendo assinado o novo Tratado conhecido como Tratado de Tordesilhas (fig.2), o qual mudava os itinerários das navegações vindouras, e consequentemente o sentimento de posse dos reinos e navegantes europeus, pois, sugeria que o que houvesse no “Novo Mundo” era seu. 

Figura 2 – Tratado de Tordesilhas

Fonte: Átila Cruz 

Conforme Ganzinotto (1920), Vincente Yáñez Pinzón era capitão da caravela Niña durante a primeira viagem de Cristovão Colombo para o oeste, em 1492, quando foi avistada uma ilha a qual era denominada pelos nativos de “Guanahaní”, com o retorno da esquadra com expedicionários experimentados à Espanha. Em 1499, Vincente Pinzón sai do porto de Palos e vai à Santiago, no início de janeiro de 1500, traça uma rota mais a sudoeste da qual navegou com Cristóvão Colombo, em 20 de janeiro de 1500, chegam a costa do Brasil. 

Em sua primeira parada, ao desembarcar, tomou posse da terra em nome da Coroa Espanhola, fincou uma cruz na praia e permaneceu por dois dias no local, porém, não manteve contato com nenhum nativo, a priori, apesar de terem observado enormes pegadas e posteriormente o intento não amistoso dos nativos que ali habitavam, dando assim, prosseguimento pela costa do continente em direção ao norte, antes de um conflito. 

una vez en la playa, posesión solemne de-tigos aquellas tierras por la Corona de Castilla, y mandando después levantar en la arena una gran cruz de madera; durante dos días no apareció ser humano por aquellos contornos aunque observáronse pisadas de personas agigantadas que al fin fueron descubiertas a larga distancia de la costa; eran indios de elevada estatura que esperaban con sus flechas y arcos preparados esperando el momento de acometer a los españoles sin venir a comunicación por más que se les intentase atraer con dádivas y señales amistosas, por lo que Pinzón, juzgando prudente no inquietarlos, siguió con su armada la dirección de la costa al Norte. (Ganzinotto, 1920, p.16) 

Vincente Pinzón ao desembarcar em um segundo ponto encontrou resistência dos nativos que assim como os primeiros, viviam na parte costeira do Brasil, sendo evidente o conflito dada a probabilidade natural de defesa por parte dos habitantes desta região que nunca haviam mantido contato com culturas que não fossem similares as suas, retirando-se do local e com perdas, Vincente Pinzón continuou a navegação, chegando ao que era denominado de “el Marañón” pelos nativos, o que indica que haviam habitantes amistosos. 

Seguindo a viajem, a esquadra de Pinzón chega até um local que era conhecido como “isla de Marayo” o qual descreve sua extensão e posição entre rios, também mantém contato com nativos que descreve como mansos e que habitavam as proximidades da boca do rio. 

Reconocida la isla de Marayo que divide al río endos grandes brazos y entablada amistad con los indígenas gente mansa que vivía en las proximidades de las bocas del gigante, salió la escuadra apresuradamente de aquellos parajes ante el inminente peligro que corrían las naves por el ímpetu de las olas, que estrechadas por los innumerables canalizos y bajos allí existentes, suelen de repente elevarse cinco varas sobre el nivel normal y con ruido espantoso destruyen cuanto se les opone al paso. Este temible y curioso fenómeno lo describe, entre otros, el testigo Hernández Colmenero que iba en el navío de Vicente Yáñez, en la declaración que prestó en el pleito de D. Diego Colón cuando dice: <que estando surtos los navíos en el rio, alzaba de golpe de la mar e el ruido que traía les alzó cuatro brazas el navío.> (Ganzinotto, 1920, p.18) 

Frei André Thevet, em suas viagens relatou através de sua carta sobre a França Antártica em 1558 as maravilhas e dificuldades de navegação por este rio conhecido como Rio D’Aurelane (do Espanhol, Ourellana) que posteriormente foi denominado por Rio Amazonas, se estendendo do Pará (Marajó) pelos rios adentro, cujas entradas dispunham da parte Espanhola. Em contato com os nativos percebeu que estes já tinham encontrado outros europeus e mantinham distância por considerarem inimigos, sendo os nativos desumanos e bárbaros, na visão de um europeu, por praticarem antropofagia e, as Amazonas, mulheres guerreiras e ferozes que habitavam a região, criando uma visão generalizada e pejorativa dos nativos. 

Figura 3 -Trecho da Carta de Frei Thevet,1558, entrada no Rio Amazonas. 

Fonte: gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France 

Mas, dentre tantos fatos ocorridos desde 1500 em terras brasileiras, a qual o intuito dos invasores era garantir suas posses das terras e explorar as regiões descobertas com a finalidade de manter suas riquezas elevadas, garantindo o monopólio da comercialização no velho continente, o objetivo era dominar as novas terras mesmo que por extermínio dos povos nativos. 

Com este pensar, não é de se admirar que muitos povos habitantes do Brasil pré-cabraliano foram extintos e outros quase chegaram a sumir, afinal, no velho mundo quem possuía maiores riquezas, tinha maiores poderes.  

A resistência dos nativos não suportou por muito tempo as investidas de seus dominadores, pois além das guerras internas com outras nações nativas, tinham que lidar com os novos invasores que possuíam equipamentos tecnologicamente mais avançados, fazendo com que algumas nações nativas com o tempo se acostumassem com as novas diretrizes e imposições, contudo outras não. Algumas dessas nações corajosas se uniram e mantiveram resistência aos exploradores por um tempo maior, sendo este o caso dos Nheengaybas, assim conhecidos, por falarem uma língua diferente do tronco linguístico tupi e que habitaram a região do Marajó. 

No Estado do Maranhaõ, que então comprohendia Ceará, Maranhaõ, Pará, Piauhi, foi onde se reuniraõ os fragmentos de todas as tribus disperus,-e foi este o Logar das suas ultimas trinhceíras. Encontramos no Ceará os Tobajaras, em Maranhaõ os Tupinambás, os Potiguares nos Tocantins, e os Tupis em todo o Brasil. E tudo isto se destruiu e se anniquilou. Só duas nações resistiraõ por muito tempo, os Tobajaras, de que já tratamos e os Nheengaybas, assim chamados por fallarem mal a sua língua, que era a geral. (Berredos, 1849, introdução, p.XV) 

Dentre os europeus que navegaram por estes rios, os portugueses através de suas explorações documentadas querem em cartas ao Rei ou documentos oficiais, possibilitaram maiores informações deste contato conturbado com os nativos que habitaram o Marajó. Entre tantas cartas e exortações escritas por Padre Antônio Vieira destaca-se a preocupação deste religioso quanto ao tratamento dado aos nativos e que relata os “resgates”, termo este utilizado pelos portugueses para se referir a forma de escravizar os nativos reduzindo-os com tais atos suas populações. 

O fato da preocupação do religioso (fig.4) se dá não somente pelas perdas de mão de obra escrava ou evangelização, mas, por pensar que os nheengaybas poderiam aliar-se aos holandeses pois, mantinham comunicação e comércio, assim,  ser uma ameaça potencial a coroa portuguesa já que unidos e sem nenhuma ajuda externa (europeus), estavam conseguindo manter os portugueses fora de seus territórios. 

Figura 4 – trecho da carta do Pe Antonio Vieira, tomo III, 1746. 

Fonte: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4522

É também destacados por Antônio Leal em 1868 na “obras póstumas de A. Gonçalves Dias” que os nheengaybas eram ousados, astutos, cautelosos e em grande número de pessoas, a ilha onde habitavam era como uma fortaleza invencível, pois seus rios e bosques eram como labirintos, bem como eram invisíveis, pois, sua floresta fornecia a camuflagem necessária e quando os portugueses se aproximavam eram recebidos por flechas, este suporte dado pela natureza, favoreceu a um período maior de resistência destes povos que ali habitavam. 

Os Nheengaybas habitvaõ a ilha de Marajó e resistião tambem pela naturesa do terreno, onde se haviaõ entrincheirado. Eis o que diz um testemunha ocular. 

 “….. As nações Nheengaybas eraõ inconquistáveis, pela ousadia, pela cautela, pela astucia e pela constancia da gente e mais que tudo pelo sitio inexpunavel com que as defendeo e fortificou a mesma naturesa. 

 ” E’ a ilha toda com posta de um confuso e inextrincavel laberinto de rios e bosques espessos aquelles com infinitas entradas e sahidas: estes sem entrada nem sahida alguma: onde naõ é possível cercar, nem achar, nem seguir, nem ainda ver o inimigo estando elle no mesmo tempo debaixo da trincheira das arvores, apontando e empregando as suas frexas.  

” E porque este modo de guerra volante e invisível naõ tivesse o estorvo natural da casa mulheres e filhos a primeira coisa que fiseraõ os Nheegaybas, tanto que se resolveraõ á guerra com os Portugueses, foi desfazer e como desatar as povoações em que viviaõ dividindo as casas pelas terras dentro á grandes distancias, para que em qualquer perigo podesse um avisar as outras, e nunca ser acommetidos juntos. 

” Desta sorte ficaraõ habitando toda a ilha sem habitarem nenhuma parte della, servindo-lhes porém em todas os bosques de muro, os rios de fosso; as casas de atalaya, e cada Nheengayba de sêntinella e as suas trombetas de rebate.” (Leal, 1868, Volume III, p.215 e 216). 

Nota-se que os nheengaybas possuíam estratégia frente ao confronto com os portugueses e, como viram outras tribos serem escravizadas, assim como parte da sua nação, usaram o terreno e a dispersão da tribo para conter o avanço português, por não possuírem armas de fogo ou armas de metal, tiveram que se reorganizar de forma inteligível para resistir com maior eficiência, incluindo a destruição de lavouras e resgate de nativos escravizados, demonstrando que apesar de serem várias tribos que habitavam esta região (fig.5), estes tinham um inimigo em comum.  

Figura 5 – Trecho do mapa etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes. 

Fonte: http://www.etnolinguistica.org/biblio:nimuendaju-1981-mapa 

O cronista e literato português, Bernardo Berredos (1849), reuniu as informações do descobrimento até o ano de 1718 que fossem pertinentes as novas terras, na obra “annaes historicos do estado do maranhão”, sendo que o material aponta com maior riqueza de detalhes, apesar de voltada a um olhar europeu e em específico ao público português, nas crônicas é relatado que apesar da resistência em ato de aproximação que seria garantida pelos padres da Companhia de Jesus, os nheengaybas introduziram o irmão de seu líder, a fim de aprender a língua portuguesa e confirmar se o que prometiam era verdade, porém, o Pe. Antônio Vieira alerta quanto as notícias de revoltas dos nativos no maranhão não fossem de conhecimento comum para não torná-lo hostis quanto aos portugueses no Pará. 

Finalmente os Aruaquiz, que he huma das mais nomeadas nações, de que há noticia nestas Conquistas, já admittirão Igreja, que deixou edificada entre elles o Padre Manoel de Sousa antes de morrer; e o mayor Principal daquella nação mandou cá hum seu irmão, que  actualmente reside na aldeia Mortigara, só com o intento de aprender a lingua, e de nota se he verdadeiro o trato que lá publicarão os Padres davão os prtuguezes aos Indios depois das novas Leys de Sua Magestade; e entre os Nheingaíbas está hum filho do mayor Principal dos Tocujuz, nação igualmente dilatada, o qual em nome de seu pay jurou vassallagem a Sua Majestade com os mesmos Nheingaíbas, e debaixo das mesmas condições, e he hoje o medianeiro. (Berredos, 1849, p.459). 

Mas, como bem relatado pelo Pe. Antônio Vieira ao Rei de Portugal, tudo não passara de uma encenação, cujas promessas tão vazias de união e compartilhamento material e espiritual, tinha o fundo tão obscuro de enganar os nativos com submissão e escravidão, daí, todo o cuidado nas informações que eram passadas às tribos, principalmente, das revoltas em outras localidades. 

Assim se promettido nas leys de Sua Magestade; assim se conhece claramente tambem a total, e irremediavel ruina, que se seguirá, não só a christandade. E fé da ditas nações. Ainda mal confirmadas nella, mas ao mesmo Estado, e a todos seus interesses, se com a noticia deste caso se acabarem de desconfiar, e lhes guarda, nem há de guardar, o que por tantas vezes, e tantos modos se lhes tem jurado, e promettido; sendo certo, que os Indios gentios, que estão nos Certões, não hão de querer sahir delles; (Berredos, 1849, p.460). 

Outro ponto histórico que merece atenção é o trabalho religioso que o Padre João de Sottomayor fez entre os Nheengaybas antes de seu falecimento e chegada do Pe. Antonio Vieira, o que possibilitou a celebração de uma missa por este segundo, já nas terras nheengaybas, assim como, a percepção de desconfiança destes para com os portugueses que muitas outras ocasiões não cumpriram suas promessas, porém no final os laços foram reatados através da missa que possuía este objetivo. 

Depois da missa, assim revestido nos ornamentos sacerdotaes, fez o Padre huma pratica a todos, em que lhes declarou pelos interpretes a dignidade do lugar em que estavaõ, e a obrigaçaõ que tinhaõ de responder com limpo coraçaõ, e sem engano a tudo o que lhes fosse perguntado, e de o guardar inviolavelmente depois de promettido. E logo fez perguntar a cada hum dos Principaes, se queriaõ receber a Fé do verdadeiro Deos, e ser vassalos delRey de Portugal, assim como o saõ os Portuguezes, e os outros Indios da naçoens christãas e avassalladas, cujos Princepaes estavaõ presentes? Declarando-lhes juntamente que a obrigação de vassallos, era haverem de obedecer em tudo às ordens de S.Magestade, e ser sugeitos às suas leys, e ter paz perpetua e inviolavel com todos os vassallos do mesmo Senhor, sendo amigos de todos os seos amigos, e inimigos de todos seos inimigos; para que nesta fórma gozassem livre e seguramente de todos os bens, commodidades, e privilegios, que pela ultima ley do anno de mil seiscentos cincoenta e cinco eraõ concedidos por S.Magestade aos Indios deste Estado. A tudo responderaõ todos confórmemente que sim; 

E só hum Principal chamado Piyé, o mais entendido de todos, disse que não queria prometter aquillo. E como ficassem os circunstantes suspensos na differença naõ esperada desta resposta e as praticas que o Padre lhes fazi, que as fizesse aos Portuguezes, e naõ a elles, porque elles sempre foraõ fieys a ElRey, e sempre o reconheceraõ por seo Senhordesde o principio desta Conquista, e sempre foraõ amigos e servidores dos Portuguezes; e que se esta amizade e obediencia se quebrou e interrompeo, fora por parte dos Portuguezes, e naõ pela sua. Assim que, os Portuguezes eraõ os que agora haviaõ de fazer ou refazer as suas promessas, pois as tinhaõ quebrado tantas vezes: e naõ elle e os seos, que sempre as guardaraõ.  

Foy festejada a razaõ do barbaro, e agradecido o termo com que qualificava sua fidelidade. E logo o Principal que tinha o primeiro lugar, se chegou ao Altar onde estava o Padre, e lançando o arco e frechas a seos pês, posto de joelhos, e com as mãos levantadas e metidas entre as mãos do padre jurou desta maneira. 

Eu fulano, Principal de tal naçaõ, em meo nome, e de todos meos subditos e descendentes, prometto a Deos e a ElRey de Portugal a Fé de Nosso Senhor Jesus Christo, e de ser [ como já sou de hoje em diante] vassallo de S.Magestade, e de ter perpetua paz com os portuguezes, sendo amigo de todos seos amigos, e inimigo de todos seos inimigos; e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre. (Pe. Antonio Vieira, Tomo II, 1735, p.35-37). 

3 CONCLUSÃO 

A expansão marítima européia foi definitiva para que novos territórios fossem alcançados, porém o que diferenciou tais buscas foi às intenções dos navegadores em específico, os portugueses, pois com o tratado de Toledo firmaram o desejo de posse de territórios ainda inexplorados e desconhecidos, vislumbrando domínio. 

Com a chegada do espanhol Vincente Pinzón em terras mais ao sudoeste em referência com sua 1ª viagem com Cristovão Colombo, o primeiro contato com alguns povos nativos foi de enfrentamento, já com outros um pouco mais a noroeste foi complacente, ascendendo os desejos exploratórios e hostis dos europeus em referência ao tratado assinado entre Espanha e Portugal. Enquanto Portugal não se estabelecia de fato nas “novas terras”, outras nações iniciaram os contatos com os nativos, em especial os países da Espanha, França e Holanda, esta última entrou em confronto com a coroa portuguesa com finalidade de manter o comércio com os nativos, desta forma, percebemos que os primeiros habitantes do atual Brasil e em especial voltados à região do Marajó mantinham o interesse deste escambo comercial. 

Com a ameaça dos avanços estrangeiros e o conhecimento de produtos que poderiam surtir lucro a Portugal, é decidido pela coroa portuguesa fincar seu domínio sobre as “novas terras”, utilizando de seu tratado coma Espanha e o evangelismo como ferramenta para o devido avanço, o que podemos apreciar através das cartas dos religiosos que inicialmente até mantiveram certo controle sobre os nativos, porém, quando os portugueses decidiram vir no intuito de expandir sua agricultura e negócios, necessitaram de mão de obra, o que fizeram utilizando os nativos como escravos, decorrendo conflito de interesses. 

Cada nação nativa possuía suas culturas, costumes e hábitos que eram peculiares e diferentes de seus algozes, com o passar do tempo e a estadia portuguesa se demonstrando cada vez mais permanente a maioria das nações nativas passaram a aceitá-la, mas a nação Tobajara e as nações Nheengaybas (Marauaná, Sacaca, Joanes, Guajará, Mapuá, Anajás, Ingahibas) se destacaram mantendo a resistência por um maior período quanto a presença dos portugueses, já que não aceitavam serem mantidas na condição de escravidão, por conhecerem a liberdade. 

Os Nheengaybas durante sua resistência demonstraram habilidades estratégicas de guerrilha, usando seu espaço habitacional como um forte contra as investidas portuguesas de “resgate”, assim como, utilizaram o método de dispersão dentro de suas terras, inibindo um impacto maior de perda de seus povos, dando tempo hábil de anunciar aos demais a presença da armada portuguesa, possibilitando a fuga da maioria. Além das estratégias de defesa, os Nheengaybas utilizavam de ofensivas que consistia de libertar os nativos escravizados e queimar as lavouras, mas, foram traídos pela “bondade” dos religiosos que tinham como missão primordial a evangelização com o escopo de garantir a produção através da agricultura e agropecuária para a coroa portuguesa, bem como, a apaziguar os nativos. 

Os religiosos se utilizaram do tempo e paciência para fortalecer o elo de confiança, incutindo naqueles povos nativos a mentalidade de submissão, levandoos a crer da sensação de serem vistos como pessoas iguais aos portugueses, assim, incorrendo na aceitação da nova condição a eles imposta. Entretanto, os nativos já possuíam conhecimento de muitas práticas dos europeus e, como observaram que sua resistência não perduraria por muito tempo, o melhor caminho foi a trégua e submissão, mas não sem perderem suas essências nativas, dado que muitos se converteram aos cristianismo por sobrevivência, tendo assim, sido dizimadas culturalmente muitas nações que habitaram a Ilha do Marajó, desaparecendo grande parte das suas culturas e mesclando muitos costumes e hábitos com os de seus conquistadores. 

Os europeus presumiam que conforme relatos de Cristovão Colombo, os nativos que habitavam as terras eram “pessoas inferiores”, porém, através do material documentado percebe-se as nuanças que tais povos tinham uma estrutura social, religiosa e econômica que foi desaparecendo através da integração dos povos nativos com os povos que ali passaram a residir, não por complacência, mas por imposição, afetando toda a estrutura social dos Nheengaybas. 

4 REFERÊNCIAS 

GANZINOTTO, José Luis Hernández-Pinzón y.Vicente Yáñez Pinzón: sus viajes y descubrimientos ,( Madrid: Imprenta del Ministerio de Marina , 1920 ). Disponível em: < https://dspace.unia.es/handle/10334/165 >. Acesso em: 02/03/21 

THEVET, André. As singularidades da França Antártica, também chamada de América, e de várias terras e ilhas descobertas em nosso tempo, 1558.   Disponível em: < https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k993561t >. Acesso em: 10/03/21 

VIEIRA, Pe. Antônio. Cartas do Padre Antonio Vieira da Companhia de Jesus (TOMO II, de 1608-1697), 1735. Disponível em: < https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4524 >.  Acesso em: 19/03/21 

VIEIRA, Pe. Antônio. Cartas do Padre Antonio Vieira da Companhia de Jesus (TOMO III, de 1608-1697), 1746. Disponível em: < https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4522 >. Acesso em: 19/03/21 

BERREDO, Bernardo Pereira de. Annaes historicos do Estado do Maranhão, em que se dá noticia do seu descobrimento, e tudo o mais que nelle tem succedido desde o anno em que foy descuberto até o de 1718 offerecidos ao Augustissimo Monarca D. João V, Nosso Senhor escritos por Bernardo Pereira de Berredo, 1849. Disponível em: < Portal da Câmara dos Deputados (camara.leg.br) >. Acesso em: 28/03/21 

LEAL, Antonio Henriques –Obras posthumas de A. Gonçalves Dias : precedidas de uma noticia da sua vida e obras (Volume 3), 1868.  Disponível em: < https://digital.bbm.usp.br/view/?45000018360#page/10/mode/2up >. Acesso em: 08/04/21 

NIMEMUENDAJU. Mapa Etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes. Belém: Museu paraense Emilio Goldi, Escala 1: 5.000.000, 1944.. Disponível em: < http://www.etnolinguistica.org/biblio:nimuendaju-1981-mapa >. Acesso em: 20/03/21. 


1 Especialização em Antropologia, Faculdade Futura, athila18@live.com