REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509161505
José Mário Barbosa Júnior1
Andréia Paula Ferreira de Lira Barbosa2
Orientador (a): Dra. Diala Alves de Sousa3
RESUMO
A intubação orotraqueal foi um procedimento amplamente utilizado em unidades de terapia intensiva e em contextos de emergência, sendo fundamental para a manutenção das vias aéreas e da ventilação adequada em pacientes críticos. Os cuidados de enfermagem foram essenciais para garantir a estabilidade clínica do paciente entubado, prevenir complicações como pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), lesões traqueais e úlceras por pressão. O objetivo deste estudo foi analisar, com base em literatura atualizada, os principais cuidados de enfermagem dispensados a pacientes submetidos à intubação orotraqueal. Tratou-se de uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa, realizada por meio da análise de 30 artigos publicados entre 2018 e 2024. Os resultados demonstraram que a assistência sistematizada, baseada em protocolos e com foco na humanização, impactou diretamente na recuperação do paciente e na redução de morbidades. Concluiu-se que a formação continuada da equipe de enfermagem e a implementação de boas práticas foram indispensáveis para a segurança e qualidade do cuidado ao paciente entubado.
Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem. Intubação Orotraqueal. Ventilação Mecânica. Unidade de Terapia Intensiva. Segurança do Paciente.
ABSTRACT
Orotracheal intubation is a widely used procedure in intensive care units and emergency settings, being essential for maintaining the airway and adequate ventilation in critically ill patients. Nursing care was essential to ensure the clinical stability of intubated patients and prevent complications such as ventilator-associated pneumonia (VAP), tracheal injuries, and pressure ulcers. The objective of this study was to analyze, based on updated literature, the main nursing care practices provided to patients undergoing orotracheal intubation. This was a qualitative literature review, conducted through the analysis of 30 articles published between 2018 and 2024. The results demonstrated that systematic care, based on protocols and focused on humanization, directly impacted patient recovery and reduced morbidity. It was concluded that ongoing training of the nursing team and the implementation of best practices were essential for the safety and quality of care for intubated patients.
Keywords: Nursing Care. Orotracheal Intubation. Mechanical Ventilation. Intensive Care Unit. Patient Safety.
INTRODUÇÃO
A intubação orotraqueal é uma intervenção crítica amplamente realizada em pacientes que apresentam falência respiratória, depressão do sistema nervoso central, parada cardiorrespiratória, trauma ou necessidade de controle de vias aéreas. Este procedimento consiste na introdução de um tubo pela cavidade oral até a traqueia, permitindo a ventilação artificial por meio de ventiladores mecânicos (RIBEIRO et al., 2020).
Em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva (UTIs), os pacientes entubados requerem cuidados específicos e contínuos por parte da equipe de enfermagem. Esses cuidados envolvem desde a avaliação da integridade das vias aéreas até ações preventivas contra complicações como a PAV, a obstrução do tubo, o deslocamento do dispositivo, a pressão excessiva do cuff, e as lesões orais ou traqueais (COSTA; SANTOS, 2021).
A atuação do profissional de enfermagem em unidades de terapia intensiva (UTIs) é essencial para a manutenção da vida de pacientes em estado crítico, especialmente aqueles submetidos à ventilação mecânica invasiva por meio de entubação orotraqueal. Este procedimento, embora fundamental para garantir a oxigenação adequada e a permeabilidade das vias aéreas, está associado a riscos e complicações que exigem conhecimento técnico-científico e vigilância contínua por parte da equipe de enfermagem (GASPARINO, 2018).
O paciente entubado representa um grande desafio na prática assistencial por se encontrar em situação de extrema vulnerabilidade. A entubação orotraqueal é indicada em casos de insuficiência respiratória aguda, parada cardiorrespiratória, cirurgias de grande porte, traumatismos cranioencefálicos, intoxicações exógenas e outras condições clínicas graves. A depender da gravidade, a ventilação mecânica pode ser prolongada, aumentando o risco de complicações como lesões traqueais, pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), obstruções do tubo, úlceras de pressão e infecções (PEREIRA; PINTO, 2020).
A PAV é uma das principais complicações relacionadas à entubação, com impacto direto sobre a morbimortalidade, tempo de internação e custos hospitalares. Segundo o Ministério da Saúde Brasil, (2019), essa infecção pulmonar é a mais comum em pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva por mais de 48 horas. Sua prevenção requer ações sistematizadas da equipe de enfermagem, como higiene oral rigorosa, posicionamento correto do paciente, aspiração adequada das vias aéreas e controle da sedação.
Os cuidados de enfermagem ao paciente entubado demandam competências técnicas específicas, raciocínio clínico e capacidade de tomada de decisão em tempo real. As ações devem ser fundamentadas na sistematização da assistência de enfermagem (SAE), que permite identificar as necessidades humanas básicas afetadas, estabelecer diagnósticos de enfermagem, planejar intervenções e avaliar os resultados (COLET; REIS, 2021). A SAE fortalece a autonomia profissional, qualifica o cuidado e contribui para a segurança do paciente.
Entre os cuidados essenciais, destacam-se a monitorização dos parâmetros respiratórios e hemodinâmicos, o manejo da ventilação mecânica em parceria com a equipe multiprofissional, a aspiração das vias aéreas superiores, a observação de sinais de desconforto respiratório, a manutenção do balonete do tubo com pressão adequada, a troca periódica de fixadores e a realização de higiene bucal com antissépticos (MARTINS; SOUZA, 2021 apud GASPARINDO, 2018).
A higienização oral, por exemplo, é uma medida simples, porém eficaz, para prevenir a colonização da orofaringe por microrganismos patogênicos. Estudos mostram que sua implementação diária com clorexidina a 0,12% pode reduzir significativamente a incidência de PAV em pacientes sob ventilação mecânica (SANTOS et al., 2022). A aspiração traqueal, por sua vez, deve ser feita com técnica asséptica, com critérios de necessidade clínica, evitando sua execução de forma rotineira, o que pode causar trauma à mucosa e broncoaspiração.
Outro aspecto relevante é o cuidado com a sedação e a analgesia. Pacientes entubados costumam estar sob uso de sedativos para facilitar a adaptação ao suporte ventilatório. O enfermeiro deve avaliar diariamente a necessidade de sedação contínua, utilizando escalas como a Ramsay ou RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale), e coordenar com a equipe médica o uso racional desses fármacos (PEREIRA; PINTO, 2020).
Além da competência técnica, o cuidado humanizado é um pilar fundamental na assistência ao paciente entubado. Apesar da sedação e da possível ausência de consciência, é essencial respeitar a dignidade, a individualidade e os direitos humanos do paciente crítico. Estudos apontam que muitos pacientes que sobreviveram à internação em UTI relataram lembranças desconfortáveis relacionadas à entubação e ao ambiente hostil da terapia intensiva, o que reforça a necessidade de cuidado empático e acolhedor (SILVA; FERREIRA, 2020).
A comunicação com a família também é parte integrante do cuidado humanizado. Manter os familiares informados sobre o quadro clínico e permitir sua participação no cuidado contribui para a redução da ansiedade, melhora da satisfação com o serviço de saúde e fortalecimento do vínculo terapêutico (COLET; REIS, 2021). Nesse sentido, o enfermeiro assume um papel de liderança na mediação da relação entre a equipe multiprofissional, o paciente e sua família.
A capacitação contínua da equipe de enfermagem é outro fator crucial para a qualidade do cuidado ao paciente entubado. A atualização sobre novas tecnologias, protocolos clínicos, estratégias de prevenção de infecções e manejo ventilatório é indispensável em um ambiente tão dinâmico quanto a UTI. Investir em educação permanente fortalece a prática baseada em evidências, diminui erros assistenciais e promove melhores desfechos clínicos (BRASIL, 2019).
A escolha do tema deste trabalho se justifica pela relevância da assistência de enfermagem no manejo de pacientes entubados e pela necessidade de aprofundar os conhecimentos teóricos e práticos sobre esse cuidado especializado. Embora existam diversos protocolos e diretrizes, ainda se observam lacunas no conhecimento e na aplicação adequada de medidas preventivas por parte de profissionais de enfermagem. Além disso, a alta complexidade da UTI, a sobrecarga de trabalho, o déficit de pessoal e a falta de recursos materiais podem comprometer a qualidade da assistência.
Portanto, estudar os cuidados de enfermagem ao paciente entubado é essencial para promover a segurança do paciente, prevenir complicações e contribuir para sua recuperação. O enfermeiro, enquanto profissional responsável por grande parte da assistência direta, deve estar capacitado técnica e eticamente para enfrentar os desafios do cuidado intensivo, aliando conhecimento científico, sensibilidade e compromisso com a vida.
Este artigo teve como objetivo geral analisar os principais cuidados de enfermagem ao paciente entubado no ambiente hospitalar. Como objetivos específicos, pretende-se: (1) identificar as principais complicações associadas à entubação orotraqueal; (2) descrever as intervenções de enfermagem voltadas à prevenção e manejo dessas complicações; e (3) discutir a importância da sistematização da assistência e do cuidado humanizado na assistência ao paciente entubado.
A metodologia adotada foi uma revisão bibliográfica, de natureza qualitativa, com levantamento em bases de dados científicas como Scielo, LILACS e BVS, além de livros e manuais técnicos atualizados. A análise será fundamentada na prática baseada em evidências, com o intuito de fornecer subsídios teóricos para a melhoria da assistência de enfermagem ao paciente entubado.
Com isso, esperou-se contribuir para o aprimoramento da formação profissional e para a qualificação da assistência em terapia intensiva, fortalecendo o papel do enfermeiro como agente transformador da realidade hospitalar. A prática de enfermagem pautada em conhecimento científico, planejamento e humanização pôde fazer a diferença na trajetória do paciente crítico, proporcionando não apenas sobrevida, mas também qualidade no processo de cuidado.
Além da complexidade técnica, destacou-se a necessidade de uma abordagem humanizada, especialmente em situações onde o paciente encontra-se sedado ou incapacitado de se comunicar, exigindo da enfermagem sensibilidade e estratégias alternativas de cuidado.
Este artigo buscou discutir os principais aspectos do cuidado de enfermagem ao paciente entubado, destacando a importância da assistência sistematizada, da vigilância contínua e da humanização da prática profissional.
METODOLOGIA
A presente pesquisa foi uma revisão bibliográfica narrativa, de abordagem qualitativa, realizada com o objetivo de reunir e analisar criticamente estudos relevantes sobre os cuidados de enfermagem ao paciente entubado.
A coleta de dados foi realizada entre janeiro e abril de 2025 nas bases SciELO, LILACS, PubMed e BVS. Foram utilizados os seguintes descritores: “cuidados de enfermagem”, “intubação orotraqueal”, “paciente entubado”, “ventilação mecânica” e “unidade de terapia intensiva”. Os critérios de inclusão foram: publicações entre 2018 e 2024, em português ou inglês, disponíveis na íntegra, e que abordassem especificamente os cuidados de enfermagem em pacientes entubados. Excluíram-se trabalhos duplicados e que não abordavam diretamente a temática proposta.
Foram selecionados 30 artigos científicos, os quais foram organizados, lidos na íntegra e analisados com base nos eixos temáticos: cuidados diretos ao tubo orotraqueal, prevenção de complicações, monitoramento e humanização do cuidado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
- Monitoramento do Tubo Orotraqueal e Pressão do Cuff.
A verificação da fixação do tubo, da posição correta e da pressão do cuff são tarefas diárias da equipe de enfermagem. O cuff deve manter uma pressão entre 20 e 30 cmHO para garantir a vedação sem causar isquemia traqueal. Pressões inadequadas podem provocar complicações como fístulas, estenoses ou broncoaspiração (ALMEIDA et al., 2021).
- Higiene Oral e Prevenção da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV).
A PAV é uma das complicações mais comuns e graves em pacientes entubados. O protocolo de prevenção inclui: elevação da cabeceira entre 30º e 45º, aspiração orotraqueal com técnica asséptica, higiene oral com clorexidina 0,12% duas vezes ao dia e avaliação do acúmulo de secreções (FERREIRA et al., 2020).
- Cuidados com a Pele e Prevenção de Lesões por Pressão.
Pacientes entubados ficam muitas vezes sedados, em repouso prolongado e com mobilidade reduzida, aumentando o risco de úlceras por pressão. A enfermagem deve realizar reposicionamentos a cada 2 horas, uso de colchões especiais, hidratação da pele e avaliação diária com escalas como a Braden (MARTINS et al., 2019).
- Sedação, Comunicação e Humanização do Cuidado.
Muitos pacientes entubados permanecem sedados, o que dificulta a comunicação. No entanto, sempre que possível, devem ser utilizadas estratégias alternativas, como pranchas, escrita ou leitura labial. A escuta ativa, o toque terapêutico e o olhar atento contribuem para a humanização do cuidado (VASCONCELOS; LIMA, 2022).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cuidado de enfermagem ao paciente entubado foi complexo e exigiu conhecimento técnico-científico, atenção constante, trabalho em equipe e uma postura ética e humanizada. O enfermeiro, como líder da equipe de enfermagem, precisou garantir que os protocolos fossem seguidos, promovendo a segurança, o conforto e a recuperação do paciente.
A capacitação contínua, a implantação de protocolos baseados em evidências e a valorização do cuidado humanizado foram fundamentais para reduzir complicações e oferecer uma assistência de excelência. O investimento em educação permanente e boas práticas de enfermagem foi uma necessidade inegociável para os contextos de terapia intensiva.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, J. F. (Org.). Cuidados de enfermagem com a pressão do cuff: revisão integrativa. Revista de Enfermagem Atual In Derme, Blumenau: SOBENFeE, v. 95, n. 4, 2021.
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COLET, C. F.; REIS, D. A. Sistematização da assistência de enfermagem em UTI: práticas e desafios. Revista Enfermagem Atual In Derme, Rio de Janeiro: SOBENFeE, v. 88, 2021.
COSTA, A. S.; SANTOS, M. J. A atuação do enfermeiro na manutenção da via aérea artificial. Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro, Divinópolis: UEMG, v. 11, 2021.
FERREIRA, L. P. (Org.). Estratégias preventivas de pneumonia nosocomial: um olhar da enfermagem. Saúde em Debate, Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), v. 44, n. 126, 2020.
GASPARINO, R. C. Ventilação mecânica invasiva: fundamentos e práticas assistenciais. São Paulo: Martinari, 2018.
MARTINS, C. R.; SOUSA, R. M. C. Cuidados de enfermagem ao paciente crítico. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília: Associação Brasileira de Enfermagem, v. 74, n. 3, 2021.
MARTINS, D. A. (Org.). Lesões por pressão em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Ciência, Cuidado e Saúde, Maringá: UEM, v. 18, n. 2, 2019.
PEREIRA, G. A.; PINTO, M. F. Assistência de enfermagem ao paciente crítico. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
RIBEIRO, C. M. (Org.). Ventilação mecânica e a prática da enfermagem: desafios e responsabilidades. Revista Enfermagem Contemporânea, Salvador: Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, v. 9, n. 2, 2020.
SANTOS, M. C. (Org.). Prevenção da pneumonia associada à ventilação mecânica: práticas da equipe de enfermagem. Revista de Enfermagem da UFSM, Santa Maria: UFSM, v. 12, n. 1, 2022.
SILVA, S. C.; FERREIRA, M. A. A humanização do cuidado em terapia intensiva: percepções da equipe de enfermagem. Revista Enfermagem UERJ, Rio de Janeiro: UERJ, v. 28, n. 1, 2020.
VASCONCELOS, R. T.; LIMA, C. M. Humanização da assistência ao paciente entubado: uma revisão. Revista Enfermagem Atual In Derme, Rio de Janeiro: SOBENFeE, v. 95, n. 35, 2022.
1Enfermeiro, Especialista em Urgência e Emergência, IBRA-MG; Especialista em Saúde Pública, Faculdade Joaquim Nabuco. Recife –PE, Especialista em Gestão Hospitalar-Faculdade Iguaçu-PR.
2Enfermeira, Especialista em Saúde Pública, Faculdade Joaquim Nabuco-Recife –PE; Especialista em Saúde da Mulher, Faculeste-MG; Especialista em Enfermagem do Trabalho, Faculeste-MG
3Enfermeira, Especialista em Terapia Intensiva, UVA-CE; Docência do Ensino Superior, FAK- CE; Saúde da Família, UVA-CE; Qualidade e Segurança no Cuidado ao Paciente, I. Sírio- Libanês-SP, Mestre em Terapia Intensiva-IBRATI-SP; Doutora em Terapia Intensiva-SOBRATI- SP; Docente da UNIFAMEC, CRATO-CE, Docente do Centro de Ensino em Saúde, SP.
