ODONTOLOGIA PREVENTIVA EM CRIANÇAS: UMA REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511142202


Larissa Pinto de Araújo
Jonatan Carneiro Vieira
Orientador: Juliana Rocha de Freitas


RESUMO

A saúde bucal infantil é essencial para o desenvolvimento integral da criança, influenciando aspectos físicos, sociais e psicológicos. A odontologia preventiva, por meio de medidas educativas e clínicas, busca reduzir a incidência de cáries e doenças periodontais, promovendo hábitos de higiene bucal desde a infância. A revisão da literatura evidencia que crianças em idade pré-escolar apresentam maior receptividade à educação em saúde, tornando a participação da família e da escola crucial para o sucesso das intervenções. Estudos apontam que o conhecimento de pais, educadores e cuidadores impacta diretamente a formação de hábitos preventivos, embora a aplicação prática nem sempre seja consistente. Desigualdades socioeconômicas e barreiras de acesso aos serviços de saúde limitam a efetividade das ações preventivas, reforçando a necessidade de políticas públicas inclusivas. Além disso, crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam desafios adicionais relacionados a barreiras comunicacionais, comportamentais e sensoriais, exigindo abordagens interdisciplinares e ferramentas adaptativas, como o PECS. A revisão evidencia que estratégias contínuas, integradas e contextualizadas, envolvendo família, escola e profissionais de saúde, são essenciais para a prevenção efetiva e a promoção da saúde bucal infantil. Apesar dos avanços, lacunas metodológicas e a ausência de protocolos padronizados ainda dificultam a implementação de políticas consistentes e equitativas.

Palavras-chave: Odontopediatria; Saúde bucal infantil; Odontologia preventiva; Educação em saúde; Família e escola; Transtorno do Espectro Autista.

1 INTRODUÇÃO

A saúde bucal infantil é considerada um dos pilares do bem-estar e do desenvolvimento integral da criança, influenciando aspectos físicos, sociais e psicológicos. Na infância, a prevenção de doenças bucais, como a cárie dentária e as doenças periodontais, é fundamental, uma vez que tais agravos podem comprometer a mastigação, a fala, o sono e até o desempenho escolar. A odontologia preventiva, portanto, constitui um campo essencial na odontopediatria, pois busca evitar o surgimento dessas enfermidades por meio de medidas educativas e assistenciais (MENDES et al., 2017; TOKAIRIN et al., 2020).

Os hábitos adquiridos nos primeiros anos de vida tendem a se perpetuar na idade adulta, o que reforça a importância da educação em saúde bucal desde a infância. Crianças em idade pré-escolar apresentam maior receptividade para aprender e incorporar novos comportamentos, tornando-se o grupo-alvo prioritário das ações educativas (SANTOS, 2020; GARBIN et al., 2012). Dessa forma, programas preventivos voltados a essa faixa etária têm demonstrado grande potencial em reduzir a incidência de cáries e promover melhores condições de saúde bucal ao longo da vida.

Nesse contexto, a família e a escola exercem papéis fundamentais como ambientes de aprendizado e socialização. A família é reconhecida como o primeiro espaço de formação de hábitos de saúde, representando um meio de adaptação às práticas preventivas, enquanto a escola se constitui como um importante cenário de disseminação de conhecimentos e valores relacionados à saúde (MASSONI et al., 2010; LIBERATTI et al., 2016). Assim, pais, educadores e responsáveis funcionam como modelos de comportamento, influenciando diretamente a adoção de práticas de higiene bucal pelas crianças (GARBIN et al., 2015).

A literatura evidencia que a educação em saúde bucal voltada para pais, professores e responsáveis é capaz de impactar significativamente a saúde bucal infantil. Quanto maior o nível de conhecimento dos cuidadores, menor é a prevalência de doenças como cáries e problemas periodontais nas crianças (MÁXIMO; AGUIAR; PINCHEMEL, 2021). Diante disso, torna-se essencial revisar estudos que abordem a odontologia preventiva em crianças, destacando a importância da participação da família e da escola como agentes multiplicadores de hábitos saudáveis.

Nesse sentido, o objetivo do artigo é revisar a literatura científica sobre a odontologia preventiva em crianças, destacando a relevância da educação em saúde bucal como estratégia de promoção da saúde. Busca-se identificar os principais métodos de prevenção utilizados na odontopediatria, analisar a influência da participação de pais e educadores na formação de hábitos de higiene bucal, verificar o impacto da educação em saúde bucal na redução de cáries e doenças periodontais em crianças e discutir o papel da odontologia preventiva no contexto da saúde pública infantil.

2   MATERIAL E MÉTODOS

2.1 TIPO DE ESTUDO

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo foi analisar as principais estratégias e evidências relacionadas à odontologia preventiva em crianças. A revisão integrativa é um método que possibilita reunir, avaliar criticamente e sintetizar resultados de pesquisas previamente publicadas, proporcionando uma visão ampla e consistente da temática, além de oferecer suporte para práticas clínicas e educativas baseadas em evidências (CRESWELL, 2014).

2.2 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO 

A busca de dados foi realizada nas bases Google Acadêmico e Scielo, contemplando publicações disponíveis entre os anos de 2017 e 2025, a fim de garantir a atualidade e relevância das informações. Para a pesquisa, foram utilizados os seguintes descritores em português e inglês: “odontologia preventiva”, “crianças”, “saúde bucal infantil”, “educação em saúde bucal” e “odontopediatria”.

Na etapa inicial, foram identificados 48 artigos que abordavam diretamente a temática proposta. Após a aplicação dos critérios de inclusão – publicações no período delimitado, disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, e que apresentassem relação direta com práticas, métodos ou resultados da odontologia preventiva em crianças – foram selecionados 12 artigos para análise detalhada.

Os critérios de exclusão compreenderam trabalhos que tratavam exclusivamente de saúde bucal em adultos, revisões sem acesso completo, pesquisas duplicadas em mais de uma base de dados e estudos que não abordavam a relação entre prevenção odontológica e população infantil.

A amostra final contemplou estudos de diferentes delineamentos, incluindo ensaios clínicos, estudos observacionais, revisões sistemáticas e revisões narrativas, possibilitando uma visão crítica e multifacetada sobre a odontologia preventiva em crianças. A análise dos artigos selecionados foi conduzida por meio de leitura crítica e sistematização dos resultados, com enfoque em três eixos principais: Aspectos preventivos clínicos: uso de flúor, selantes, visitas periódicas ao dentista e intervenções educativas;

Aspectos comportamentais e educativos: influência da família, educadores e programas escolares na formação de hábitos de higiene; Aspectos de saúde pública: impacto da odontologia preventiva na redução de cáries e doenças periodontais, bem como sua contribuição para a qualidade de vida infantil.

3   RESULTADOS E DISCUSSÕES

A revisão evidenciou que a educação em saúde bucal voltada a pais e educadores é um dos principais fatores de impacto na prevenção de cáries e doenças periodontais em crianças. Os estudos analisados apontam que o conhecimento adquirido por esses grupos influencia diretamente a formação e manutenção de hábitos de higiene bucal nas fases iniciais da vida. Essa constatação reforça a literatura que defende a infância como período privilegiado para a incorporação de práticas preventivas, as quais tendem a se estender por toda a vida adulta (MENDES et al., 2017; TOKAIRIN et al., 2020).

Em relação às metodologias utilizadas, os trabalhos incluídos demonstraram ampla diversidade, desde pesquisas transversais e estudos de caso até questionários aplicados a pais, cuidadores e professores. Essa heterogeneidade metodológica fortalece a revisão por apresentar diferentes perspectivas, mas também limita comparações mais consistentes entre os resultados. Apesar disso, em todos os delineamentos destacou-se a importância do papel da família e da escola como mediadores do processo educativo em saúde bucal (MASSONI et al., 2010; LIBERATTI  2016).

Os resultados convergem no sentido de que a mera transmissão de informações não é suficiente para promover mudanças efetivas de comportamento.

Muitos pais e educadores demonstraram possuir conhecimento sobre práticas preventivas, mas não as aplicavam de forma adequada ou constante. Esse descompasso entre teoria e prática sugere que a educação em saúde deve ser contínua, contextualizada e acompanhada por estratégias de monitoramento e reforço positivo, para que os conhecimentos adquiridos sejam efetivamente traduzidos em atitudes e comportamentos saudáveis (SOUZA et al., 2017; GARBIN et al., 2012).

Outro ponto crítico identificado refere-se às desigualdades socioeconômicas. Estudos apontaram que crianças atendidas em serviços privados ou com convênios tiveram maior acesso a informações sobre prevenção, enquanto aquelas dependentes da rede pública apresentaram níveis mais baixos de orientação. Essa disparidade reforça a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de saúde bucal, especialmente em escolas e comunidades de maior vulnerabilidade social, de modo a garantir equidade na promoção da saúde (OLIVEIRA et al., 2015).

De forma geral, a revisão aponta que a participação ativa de pais, educadores e profissionais de saúde é essencial para a redução da incidência de doenças bucais em crianças. Entretanto, ainda são necessárias estratégias intersectoriais mais integradas, envolvendo família, escola e serviços de saúde, a fim de potencializar os resultados e superar barreiras como a falta de continuidade das ações educativas e as limitações socioeconômicas. Assim, a odontologia preventiva em crianças deve ser entendida não apenas como responsabilidade do dentista, mas como um processo compartilhado e sustentável ao longo do tempo (MAXIMO; AGUIAR; PINCHEMEL, 2021).

O artigo evidencia a relevância da odontologia preventiva no atendimento a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), destacando as barreiras comunicacionais, sensoriais e comportamentais que dificultam tanto o manejo clínico quanto a adesão ao cuidado odontológico. Essa perspectiva demonstra que a atuação do cirurgião-dentista vai além da prática técnica, exigindo conhecimento interdisciplinar e sensibilidade para adaptar condutas às necessidades individuais. Contudo, nota-se que, embora o estudo apresente a importância desse olhar ampliado, ele ainda carece de aprofundamento quanto às estratégias de implementação efetiva na rede pública, o que representa um desafio para a integralidade da assistência (MIQUILIN et al., 2022).

A metodologia utilizada na revisão de literatura seguiu critérios bem delimitados de inclusão e exclusão, contemplando artigos publicados entre 2013 e 2023, disponíveis em português e inglês, com acesso gratuito. Essa escolha garante certa atualidade e relevância às evidências apresentadas. No entanto, a limitação do recorte temporal, somada à exclusão de revisões e dissertações, pode ter restringido a amplitude da análise, especialmente em uma área que ainda apresenta carência de estudos consolidados. Assim, embora o processo metodológico tenha sido sistemático, há o risco de perda de dados relevantes que poderiam enriquecer a discussão (NASCIMENTO, et al., 2021).

Os resultados encontrados mostram uma lacuna significativa no conhecimento dos pais sobre higiene bucal, o que compromete diretamente a saúde oral das crianças com TEA. Esse ponto é de extrema relevância, pois reforça que a prevenção não depende apenas da prática clínica, mas também da educação em saúde direcionada aos familiares e cuidadores. O estudo traz dados que evidenciam negligência na escovação, visitas ao dentista apenas diante de dor, e a ausência de orientações adequadas por parte dos serviços de saúde. Apesar disso, a discussão não avança em possíveis políticas públicas ou estratégias educativas práticas para minimizar esse problema, o que fragiliza a aplicabilidade dos achados (ALHAMMAD et al., 2019).

Outro ponto central abordado é a maior ocorrência de traumatismos dentários em crianças autistas, frequentemente relacionados a comportamentos de autolesão ou à menor participação em atividades coletivas. A identificação desse fator de risco é fundamental para a prevenção, mas a revisão se limita a descrever a ocorrência, sem sugerir protocolos preventivos ou estratégias específicas de acolhimento clínico que pudessem ser adotadas pelos odontopediatras. Essa ausência de aprofundamento reduz a força prática da revisão, uma vez que não oferece recomendações concretas para os profissionais de saúde bucal (NASCIMENTO et al., 2021).

Além disso, o artigo evidencia o potencial de ferramentas inovadoras, como o PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras), no auxílio ao processo comunicativo entre dentistas e crianças com TEA. Essa inclusão é um ponto positivo, pois amplia a visão sobre práticas que favorecem a adesão ao tratamento e fortalecem a interação profissional-paciente. Entretanto, a revisão não apresenta uma análise crítica sobre a viabilidade dessa ferramenta no contexto brasileiro, considerando limitações estruturais e falta de capacitação de profissionais da rede pública para utilizá-la de forma adequada (MEHARWADE et al., 2021).

No que se refere às implicações práticas, a revisão conclui que a odontopediatria preventiva é essencial para minimizar problemas bucais em crianças com TEA, mas reconhece a falta de estudos aprofundados sobre o tema. Tal reconhecimento é importante, mas também revela uma fragilidade da revisão: a ausência de recomendações claras para futuras pesquisas ou de estratégias práticas que possam orientar o cirurgião-dentista na sua atuação cotidiana. Ou seja, embora a revisão sintetize bem os achados, ela não avança para a construção de um guia aplicável à realidade clínica (PAULA et al., 2022).

Por fim, a análise do artigo mostra que a odontologia preventiva em crianças com TEA deve ser vista como uma prática interdisciplinar, envolvendo não apenas dentistas, mas também fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e familiares. Esse caráter multidisciplinar é bem ressaltado, mas o texto carece de exemplos de experiências exitosas no Brasil que poderiam servir de modelo. Dessa forma, a discussão evidencia a relevância do tema, mas permanece em um nível descritivo, com pouco direcionamento para políticas de saúde ou protocolos clínicos aplicáveis na realidade da saúde pública brasileira (LEMOS, 2022).

O artigo de POLIMENO e CARVALHO (2021) apresenta a adequação do meio bucal como um conjunto de medidas fundamentais para o controle da cárie em Odontopediatria. A introdução delimita bem o problema, destacando que a doença cárie tem origem multifatorial, envolvendo microbiota específica, dieta e fatores comportamentais. Nesse sentido, os autores reforçam a importância da profilaxia profissional e da conscientização do paciente, ressaltando que apenas o tratamento clínico não é suficiente sem a participação ativa da criança e da família (VIEIRA et al., 2008; GOMES; SILVA, 2010). Essa perspectiva é coerente com a literatura atual, que aponta para a necessidade de abordagens integradas na prevenção, mas poderia ter sido enriquecida com dados epidemiológicos recentes que evidenciem a prevalência da cárie em crianças brasileiras.

A metodologia utilizada no estudo se fundamentou em uma revisão de literatura, com busca em bases de dados relevantes, como PubMed, Scielo, Lilacs e Bireme. Os critérios de inclusão foram amplos, o que garante abrangência, mas também pode comprometer a especificidade, já que não há delimitação de período nem detalhamento do número de artigos selecionados. Embora essa estratégia seja válida, faltou rigor metodológico na descrição do processo de análise dos artigos, o que limita a reprodutibilidade da pesquisa e a robustez das conclusões apresentadas (POLIMENO; CARVALHO, 2021).

Na seção de resultados/revisão, os autores apresentaram de forma sistemática os principais procedimentos que compõem a adequação do meio bucal: interrupção da cadeia de infecção, higiene bucal, uso de fluoretos, agentes antimicrobianos, escavação e selamento em massa, entre outros. Um ponto forte é a clara diferenciação entre adequação do meio bucal e tratamento restaurador atraumático (TRA), o que contribui para a compreensão clínica das condutas (FRENCKEN et al., 2001). Contudo, percebe-se que grande parte da revisão se apoia em referências clássicas, e nem sempre em estudos mais recentes, o que limita a atualização do trabalho diante de avanços recentes em Odontopediatria preventiva.

A discussão sobre o impacto da pandemia de COVID-19 é um diferencial relevante do artigo, uma vez que aborda a necessidade de reduzir atendimentos presenciais e fortalecer orientações preventivas e educativas aos pais por meios remotos (LUZZI et al., 2021). Essa perspectiva demonstra sensibilidade ao contexto contemporâneo e amplia a aplicabilidade do tema. Entretanto, o estudo não explora dados empíricos que demonstrem como tais medidas foram implementadas ou avaliadas, ficando restrito ao campo teórico.

Nas considerações finais, os autores reforçam que a adequação do meio bucal é uma estratégia eficaz por apresentar baixa complexidade e favorecer tanto a saúde bucal quanto a relação da criança com o cirurgião-dentista (POSSOBON et al., 2004). Ainda que bem fundamentada, a conclusão carece de uma visão crítica sobre possíveis limitações das medidas preventivas em populações mais vulneráveis, como crianças em comunidades de baixo acesso a serviços odontológicos, aspecto essencial em termos de saúde coletiva.

De forma geral, a revisão contribui para reforçar a importância da odontologia preventiva na infância, destacando a integração entre medidas clínicas, educativas e comportamentais. Contudo, a ausência de dados quantitativos e a limitação metodológica do processo de seleção dos artigos reduzem o impacto científico do estudo. Ainda assim, o trabalho se mostra relevante como síntese prática de condutas aplicáveis em Odontopediatria, sendo útil para a formação acadêmica e para a prática clínica (POLIMENO; CARVALHO, 2021).

A saúde bucal na primeira infância constitui um elemento fundamental para o desenvolvimento integral da criança, impactando não apenas a mastigação e a fala, mas também a autoestima e a qualidade de vida (SOUZA; SILVA, 2021). A odontopediatria tem como função principal prevenir e tratar doenças bucais, sendo indispensável o acompanhamento desde os primeiros anos de vida (CUNHA; LIMA, 2020). Nesse contexto, o presente estudo visa analisar criticamente a literatura existente sobre cuidados iniciais com a saúde bucal e identificar lacunas práticas, sociais e políticas relacionadas ao tema.

O estudo consiste em uma revisão de literatura baseada em artigos científicos publicados entre 2015 e 2023, obtidos nas bases de dados Scielo, PubMed e Lilacs, utilizando descritores como “odontopediatria”, “prevenção bucal infantil” e “promoção da saúde oral” (PEREIRA; ALMEIDA, 2022). Foram selecionados trabalhos que abordassem o acompanhamento odontopediátrico precoce, prevenção de cáries e educação dos cuidadores, priorizando estudos com evidência clínica e relevância social. A análise foi conduzida de forma crítica, considerando não apenas os resultados apresentados, mas também limitações metodológicas e aplicabilidade prática.

Os estudos revisados indicam que a prevenção precoce, incluindo orientações durante o pré-natal e o acompanhamento desde o nascimento, reduz significativamente a incidência de cáries e outras complicações bucais (FERREIRA; SOUZA, 2020). No entanto, há evidências de que a adesão às práticas preventivas é limitada por fatores socioeconômicos, como baixa escolaridade dos pais e restrição de acesso a serviços de saúde (MARTINS; COSTA, 2021). Isso evidencia que a mera recomendação clínica não é suficiente, sendo necessário integrar políticas públicas e estratégias educativas contextualizadas.

Além disso, ressaltam a importância da educação dos cuidadores, mostrando que programas contínuos de orientação e acompanhamento clínico são mais eficazes do que campanhas pontuais (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2019). A crítica aqui é que muitos estudos enfatizam apenas resultados quantitativos, como redução da cárie, sem avaliar de forma profunda a influência de fatores culturais e comportamentais na adesão às práticas preventivas.

Outro ponto relevante é a falta de protocolos padronizados na atenção odontopediátrica, o que dificulta a implementação de políticas públicas consistentes (ALVES; PINTO, 2022). A ausência de normatização evidencia uma lacuna entre evidência científica e prática clínica, tornando necessária a criação de modelos integrados que considerem desigualdades sociais, acesso universal e equidade no cuidado bucal infantil.

A revisão evidencia que a odontopediatria desempenha papel central na promoção da saúde bucal infantil, mas sua efetividade depende de uma atuação integrada entre profissionais de saúde, família, escola e políticas públicas (SOUZA; SILVA, 2021). As lacunas identificadas, tanto na adesão das famílias quanto na padronização das práticas clínicas, indicam a necessidade de estratégias interdisciplinares e inclusivas, que garantam prevenção efetiva, promoção de hábitos saudáveis e redução de desigualdades sociais.

O artigo publicado na Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro aborda um tema relevante e atual: a importância da odontopediatria no desenvolvimento bucal infantil e os obstáculos relacionados ao acesso aos cuidados odontológicos. O estudo cumpre o objetivo de revisar a literatura e apresentar as particularidades do atendimento odontológico infantil, destacando a relevância da prevenção precoce e da educação dos cuidadores. Nesse sentido, evidencia-se a contribuição social e clínica do tema, reforçando a necessidade de políticas públicas inclusivas (SILVA et al., 2015; COELHO et al., 2021).

No tocante à estrutura do artigo, o texto apresenta introdução, revisão de literatura e considerações finais, mas carece de seções mais detalhadas de metodologia e análise crítica dos resultados, o que compromete parcialmente a profundidade científica do estudo. Embora o artigo mencione que foi realizada uma revisão de literatura de 2003 a 2021, não há descrição clara de critérios de inclusão e exclusão dos artigos analisados, nem do processo de análise dos dados. Esse ponto é essencial para assegurar a reprodutibilidade e confiabilidade da pesquisa (PEREIRA, 2010).

A revisão de literatura demonstra consistência ao abordar aspectos clínicos da odontopediatria, como manejo infantil, prevenção de cáries, impacto do desenvolvimento bucal nas funções estomatognáticas e influência de hábitos familiares (CAMERON, 2012; FERREIRA, 2015; ZIMMERMANN et al., 2017). A discussão sobre a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) para a promoção da saúde bucal é pertinente, pois contextualiza o tema no cenário socioeconômico brasileiro (GUIDINI, 2012). Contudo, o artigo apresenta uma abordagem descritiva mais do que crítica, limitando-se a reiterar resultados de outros autores sem explorar de forma aprofundada as possíveis lacunas ou controvérsias na literatura.

Outro ponto relevante é a problematização do acesso à odontologia infantil, destacando desigualdades socioeconômicas e falta de conhecimento dos pais como fatores que dificultam a prevenção de doenças bucais (FONSECA, 2015; BALDANI, 2010). Essa discussão é pertinente, mas poderia ser enriquecida com dados quantitativos ou comparativos que mostrassem a magnitude do problema, fortalecendo o embasamento crítico e a relevância prática do estudo.

Em relação à contribuição científica, o artigo reforça a necessidade de intervenções precoces e da educação dos cuidadores, assim como políticas públicas que ampliem o acesso à odontopediatria. Entretanto, a falta de dados empíricos próprios ou análise sistemática rigorosa limita o impacto acadêmico do estudo, tornando-o mais uma revisão narrativa do que um artigo com validade científica sólida (GUERRA, 2020; NEVES, 2010).

Por fim, é possível afirmar que o artigo cumpre a função de sensibilizar sobre a importância da odontopediatria e da prevenção bucal infantil, sobretudo em contextos socioeconomicamente desfavorecidos. No entanto, para elevar o rigor científico, seria necessário detalhar a metodologia da revisão, incluir análise crítica comparativa dos resultados e discutir estratégias de intervenção baseadas em evidências. Isso permitiria que o estudo não apenas descrevesse a realidade, mas também sugerisse soluções concretas para os desafios identificados.

4 CONSIDERAÇÕES

A revisão da literatura evidenciou que a odontologia preventiva em crianças é um componente essencial para a promoção da saúde bucal e para o desenvolvimento integral infantil. A educação em saúde, quando iniciada precocemente, contribui de forma significativa para a redução de cáries, doenças periodontais e outros agravos bucais, ao mesmo tempo em que fortalece a autonomia da criança em relação aos cuidados pessoais. A prática preventiva mostrou-se mais eficaz quando integrada a ações educativas contínuas e contextualizadas, que envolvem tanto o ambiente familiar quanto o escolar.

Observou-se que a participação ativa dos pais, educadores e profissionais da saúde é determinante na formação e manutenção de hábitos saudáveis de higiene bucal. A literatura aponta que intervenções educativas direcionadas aos cuidadores ampliam o conhecimento sobre a importância da escovação, da alimentação equilibrada e das visitas regulares ao dentista, resultando em melhores índices de saúde bucal entre as crianças. No entanto, ainda há desafios relacionados à adesão dessas práticas, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e de acesso limitado a serviços odontológicos.

Por fim, destaca-se que a odontologia preventiva deve ser compreendida como uma prática de saúde pública, pautada na interdisciplinaridade e na equidade. A integração entre políticas públicas, programas escolares e ações comunitárias é fundamental para consolidar uma cultura de prevenção e educação em saúde bucal desde a infância. Dessa forma, a literatura revisada reforça que investir em prevenção não apenas reduz custos futuros com tratamentos restauradores, mas também promove qualidade de vida, inclusão social e bem-estar geral das crianças.

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