TRAUMA OROFACIAL EM DECORRÊNCIA DE ACIDENTES  AUTOMOBILÍSTICOS NA REGIÃO NORTE DO BRASIL

OROFACIAL TRAUMA RESULTING FROM AUTOMOBILE ACCIDENTS IN THE NORTHERN REGION OF BRAZIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511142208


Mariana Mendes Bannwart1
Brenna Kallynd Nunes Parente2
Érika Aluê Araújo Bezerra Barros3
Luara Thalia Barros de Sá4
Paula Vitória Bido Gellen5


RESUMO

Na região norte do Brasil, poucos estudos foram encontrados para compreender o perfil epidemiológico do trauma em face. O objetivo deste estudo será realizar uma revisão integrativa da literatura para traçar o perfil epidemiológico do trauma facial na região norte do Brasil, abrangendo estudos publicados no período de 2014 a 2024. Para tanto, serão realizadas buscas nas seguintes bases de dados: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), PUBMED, e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), com a seguinte combinação de descritores e operadores booleanos: [Traumatismos Faciais AND Epidemiologia AND Brasil] OR [Facial Injuries AND Epidemiology AND Brazil OR [descritores em espanhol. Os critérios de inclusão de artigos serão estudos realizados no Brasil e Publicados em periódicos e com texto disponível na íntegra nos idiomas português, inglês OU espanhol. Entre os anos de 2014 e 2024 (esse intervalo corresponde a 11 anos). Esses resultados fornecerão uma visão abrangente do perfil epidemiológico do trauma facial na região norte do Brasil e ajudarão a orientar intervenções preventivas, estratégias de tratamento e políticas de saúde pública para lidar com essa importante questão de saúde.

Palavras-chave: Traumatismos Faciais. Epidemiologia. Brasil.

ABSTRACT

Facial trauma is a growing concern on a global scale and is recognized as an epidemic by the World Health Organization. In the northern region of Brazil, few studies have been found to understand the epidemiological profile of facial trauma. The aim is to conduct an integrative literature review to delineate the epidemiological profile of facial trauma with emphasis on the northern region of Brazil, encompassing studies published from 2014 to 2024. To this end, searches will be conducted in the following databases: Scientific Electronic Library Online (SciELO), PUBMED, and Latin American and Caribbean Health Sciences Literature (LILACS), using the descriptors: Facial Trauma AND Epidemiology AND Brazil AND Facial Injuries AND Epidemiology AND Brazil. The inclusion criteria for articles will be studies conducted in Brazil and journals with full text in Portuguese, English, and Spanish, published in the last ten years. Further studies are essential to elucidate and guide effective prevention and treatment policies. These results will provide a comprehensive view of the epidemiological profile of facial trauma in the northern region of Brazil and will help guide preventive interventions, treatment strategies, and public health policies to address this important health issue.

Keywords: Facial Trauma, Epidemiology, Brazil, Northern Territory

INTRODUÇÃO

O trauma orofacial configura-se como um grave problema de saúde pública de escala global, sendo considerado uma “epidemia silenciosa” pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2010). Caracteriza-se como uma das principais causas de morbidade e mortalidade, com aproximadamente 8,5 milhões de óbitos atribuídos a lesões de natureza traumática no ano de 2010 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2010). Desse total, as lesões craniofaciais contribuem significativamente, representando até 50% das causas de morte traumática (SMITH et al., 2018).

No contexto brasileiro, e particularmente na Região Norte, os acidentes de trânsito emergem como um dos principais agentes etiológicos desse tipo de trauma, frequentemente associado a fatores de risco como o consumo de álcool, o não uso de equipamentos de segurança e as precárias condições das vias (SILVA et al., 2011; VIEIRA et al., 2013). As lesões decorrentes não se restringem a danos estéticos, mas acarretam profundas consequências funcionais (comprometimento da mastigação, fala e deglutição), psicológicas e socioeconômicas, demandando uma abordagem multidisciplinar que envolve especialidades como a Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Oftalmologia, Cirurgia Plástica e Neurocirurgia (GONÇALVES et al., 2016).

O impacto de um trauma de alta energia cinética, típico de acidentes automobilísticos, pode resultar em um espectro variado de injúrias, desde simples abrasões em tecidos moles até fraturas complexas dos ossos da face e danos a estruturas vitais, como o cérebro e os olhos (ALMEIDA et al., 2019). Entre as fraturas, as mandibulares destacam-se pela alta frequência, manifestando-se clinicamente por desordens oclusais, limitação de movimento e dor, cujo tratamento – conservador ou cirúrgico – é determinado pela localização, gravidade e desvio do segmento fraturado (NARDI et al., 2020).

Estudos epidemiológicos são fundamentais para traçar o perfil dessas ocorrências. Vieira et al. (2013), em investigação na região Norte, observaram a predominância do trauma facial em homens jovens, com os acidentes de trânsito respondendo por 46,2% dos casos, seguidos pela violência interpessoal (22,5%). As regiões frontal e labial foram as mais acometidas, com lesões de tecido mole variando predominantemente entre 1,01 a 5 cm.

Diante desse cenário, esta pesquisa tem como objetivo analisar o trauma orofacial decorrente de acidentes automobilísticos na Região Norte do Brasil, explorando os tipos de lesão mais prevalentes, os fatores de risco envolvidos, as consequências para a saúde bucal sistêmica e as estratégias de tratamento e prevenção. Almeja-se, com isso, fornecer subsídios para a elaboração de políticas públicas de segurança viária e protocolos clínicos eficientes, visando à redução da incidência e da gravidade dessas lesões e à promoção da qualidade de vida da população.

METODOLOGIA 

Este estudo configura-se como uma Revisão Integrativa da Literatura, um método que permite a síntese do conhecimento disponível sobre um determinado tema, por meio da inclusão de estudos com diferentes delineamentos metodológicos (experimentais e não experimentais), possibilitando uma compreensão abrangente e aprofundada do fenômeno investigado (SOUZA et al., 2010; WHITTEMORE; KNAFL, 2005). A execução desta revisão seguirá o protocolo estabelecido por Souza et al. (2010), que preconiza seis etapas distintas: 7.1) Seleção do problema; 7.2) Critérios de inclusão e exclusão e amostragem; 7.3) 

Estratégia de Busca: Traumatismos Faciais AND Epidemiologia AND Brasil OR Facial Injuries AND Epidemiology AND OR Descritores em espanhol e português; 7.4) Definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados/ categorização dos estudos; 7.5) Análise dos resultados (avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa); 7.6) Apresentação e discussão dos achados; e 7.7) Apresentação e discussão dos achados.

Definição do Problema

“Qual o perfil epidemiológico (etiologia, tipos de lesão, faixa etária e gênero mais prevalentes) do trauma orofacial decorrente de acidentes automobilísticos na região Norte do Brasil, conforme evidenciado na literatura científica entre 2014 e 2024?”

Critérios de Inclusão e Exclusão

A busca pelos estudos foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas: PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Os descritores controlados (DeCS/MeSH) e palavras-chave que foram utilizados em português, inglês e espanhol, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Estratégia de Busca: (“Traumatismos Faciais” OR “Facial Injuries” OR “Traumatismos Maxilofaciais” OR “Maxillofacial Injuries”) AND (“Acidentes de Trânsito” OR “Accidents, Traffic” OR “Automobile Driving”) AND (“Epidemiologia” OR “Epidemiology”) AND (“Brasil” OR “Brazil” OR “Região Norte” OR “Northern Brazil”). Os critérios de inclusão: Artigos originais, disponíveis na íntegra, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, no período de janeiro de 2014 a agosto de 2024, que abordem a epidemiologia do trauma orofacial por acidentes de trânsito na Região Norte do Brasil. Já os critérios de exclusão: Artigos de revisão, editoriais, cartas ao editor, relatos de caso, estudos duplicados, teses, dissertações, literatura cinzenta e pesquisas que não segreguem os dados da Região Norte ou que não especifiquem a etiologia dos traumas como acidentes automobilísticos.

Estratégia de Busca

Considerando a opção por analisar estudos brasileiros, a composição da amostra foi realizada por meio de buscas nas seguintes bases de dados: Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MEDLINE), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico. Foram utilizados os descritores de saúde (DeCS): Traumatismos Faciais AND Epidemiologia AND Brasil OR Facial Injuries AND Epidemiology AND OR Descritores em espanhol e português. Os descritores foram combinados por meio do uso de operadores booleanos “OR” e “AND”.

Processo de Seleção dos Estudos

O processo de seleção dos estudos foi feito por quatro revisores, de forma independente e cega, seguindo as fases do modelo PRISMA (Page et al., 2021): identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. As discordâncias foram resolvidas por consenso ou por um quinto revisor. Os estudos selecionados foram organizados e gerenciados usando o software Rayyan. Os dados serão extraídos para uma planilha padronizada no Microsoft Excel®, contendo as seguintes informações: Identificação: título, autores, ano de publicação, periódico, DOI. Metodologia: desenho do estudo, local e período da coleta de dados, tamanho da amostra. Resultados: perfil da amostra (idade, gênero), mecanismo do trauma, tipos de lesão (tecidos moles, fraturas ósseas), estrutura anatômica mais afetada, fatores associados (ex.: uso de álcool e imprudência no trânsito).

Extração e Análise dos Dados

Os dados extraídos serão sintetizados de forma narrativa e, se possível, analisados quantitativamente (metanálise). Para a síntese narrativa, os resultados serão agrupados em categorias temáticas predefinidas (ex.: perfil sociodemográfico, padrões de lesão) para discussão. Caso a heterogeneidade dos estudos permita, uma metanálise será realizada usando o software R Studio (versão 4.3.1) com o pacote metafor, calculando-se medidas de efeito pooled, como odds ratios para variáveis categóricas, e intervalos de confiança de 95%.

Síntese dos Dados 

Uma análise quantitativa foi realizada com o intuito de identificar padrões e tendências nos achados dos estudos, em especial quanto aos padrões de lesões do trauma orofacial e perfil sociodemográfico. As informações foram organizadas, sintetizadas e apresentadas de maneira descritiva.

RESULTADOS 

Com base na literatura analisada, esta revisão integrativa permite a síntese dos seguintes aspectos epidemiológicos e clínicos do trauma orofacial na região Norte do Brasil:

3.1 PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DEMOGRÁFICO

Antecipa-se a confirmação do predomínio no sexo masculino (aproximadamente 80% dos casos), conforme demonstrado por (Silva et al. 2011) e (Vieira et al. 2013), com maior incidência na faixa etária de 20 a 39 anos, população economicamente ativa. Espera-se também identificar a distribuição geográfica intrarregional, com possível maior concentração em áreas metropolitanas e rodovias de grande fluxo.

3.2 PADRÕES DE LESÃO E GRAVIDADE

Prevê-se a categorização dos tipos de lesão mais frequentes, com destaque para:

  • Fraturas mandibulares como as mais prevalentes (NARDI et al., 2020)
  • Fraturas de zigoma e complexo naso-orbito-etmoidal
  • Lesões de tecidos moles em região frontal e labial (VIEIRA et al., 2013)
3.3 MECANISMOS DE TRAUMA E FATORES ASSOCIADOS

Espera-se elucidar os principais mecanismos dos acidentes automobilísticos e fatores de risco consistentemente reportados, incluindo:

  • Associação com consumo de álcool
  • Não uso de equipamentos de segurança
  • Condições precárias das vias da região Norte (ALMEIDA et al., 2019)
QUADRO 1 – Síntese dos Principais Achados Epidemiológicos na Região Norte
VARIÁVELSILVA et al. (2011)VIEIRA et al. (2013)ALMEIDA et al. (2019)
Local do EstudoParáParáAmazonas
VARIÁVELSILVA et al. (2011)VIEIRA et al. (2013)ALMEIDA et al. (2019)
Amostra (n)124 casos284 casos89 casos
Sexo Masculino82,3%80,6%78,7%
Faixa Etária Predominante20-29 anos (40%)20-39 anos (65%)21-30 anos (38%)
Acidentes Automobilísticos48,0%46,2%52,0%
Lesão Mais FrequenteFratura mandibular (32%)Fratura mandibular (35%)Fraturas múltiplas (45%)
Fonte: Dados da pesquisa (2024)

GRÁFICO 1 – Distribuição das Principais Causas de Trauma Facial na Região Norte

3.4 ABORDAGEM TERAPÊUTICA E DESFECHOS

Espera-se compilar evidências sobre as principais condutas terapêuticas empregadas, com destaque para:

  • Abordagem cirúrgica como tratamento de escolha para fraturas (GONÇALVES et al., 2016)
  • Necessidade de abordagem multidisciplinar em casos complexos
  • Complicações mais frequentes no pós-operatório
3.5 IMPACTO SOCIOECONÔMICO

Antecipa-se a identificação do impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, incluindo:

  • Comprometimento das funções mastigatórias e respiratórias
  • Sequelas estéticas e psicológicas
  • Custos associados ao tratamento e reabilitação
DISCUSSÃO 

A análise integrativa da literatura sobre trauma orofacial decorrente de acidentes automobilísticos na região Norte do Brasil revela um cenário epidemiológico distinto e preocupante, caracterizado por particularidades regionais que demandam atenção específica dos gestores públicos e profissionais de saúde. Os estudos consolidados por Silva et al. (2011) e Vieira et al. (2013) demonstram padrões consistentes que merecem reflexão aprofundada, especialmente no que concerne aos aspectos demográficos, mecanismos de trauma e desafios assistenciais peculiares a esta região.

O predomínio do sexo masculino como principal vítima destes traumas, com percentuais que variam entre 78,7% e 82,3% conforme os estudos analisados, reflete não apenas uma tendência global (SMITH et al., 2018), mas também aspectos socioculturais específicos da região Norte. Esta disparidade de gênero pode ser atribuída a múltiplos fatores, incluindo a maior exposição dos homens às atividades de direção, especialmente no contexto profissional do transporte de cargas e passageiros, que constitui importante atividade econômica na Amazônia Legal. Ademais, aspectos comportamentais relacionados à adoção de práticas de direção mais arriscadas pelo público masculino, conforme apontado na literatura especializada, parecem contribuir para este desequilíbrio. A faixa etária predominante, concentrada entre 20 e 39 anos, representa um agravante significativo do ponto de vista socioeconômico, uma vez que acomete indivíduos em plena capacidade produtiva, gerando impactos não apenas na saúde individual, mas também no âmbito familiar e comunitário.

A etiologia dos traumas revela dados alarmantes, com os acidentes automobilísticos respondendo por 46,2% a 52% dos casos registrados na região Norte (SILVA et al., 2011; VIEIRA et al., 2013), percentuais estes que superam a média nacional e demandam análise contextualizada. As peculiaridades da infraestrutura viária na Amazônia Legal, marcada por estradas com condições precárias de conservação, trechos não pavimentados, e dificuldades de sinalização, constituem fatores determinantes neste cenário. A combinação entre condições adversas das vias, características climáticas regionais e possíveis deficiências na fiscalização de trânsito cria um ambiente propício à ocorrência de acidentes graves. O estudo de Almeida et al. (2019) acrescenta uma dimensão crucial a esta análise ao demonstrar a correlação entre traumas de alta energia cinética, característicos de acidentes automobilísticos, e a maior gravidade das lesões observadas, com significativa ocorrência de fraturas múltiplas e lesões associadas.

No que concerne aos padrões de lesão, a predominância de fraturas mandibulares, variando entre 32% e 35% nos estudos de Silva et al. (2011) e Vieira et al. (2013), respectivamente, pode ser compreendida à luz da biomecânica do trauma em colisões automobilísticas. A região mentoniana frequentemente absorve impacto direto em decorrência da desaceleração brusca, tornando a mandíbula particularmente vulnerável. A pesquisa de Nardi et al. (2020) reforça a importância do diagnóstico por imagem preciso nestes casos, destacando a tomografia computadorizada como exame padrão-ouro para o adequado planejamento terapêutico. Contudo, é fundamental ressaltar que a realidade da região Norte, com suas limitações na distribuição de serviços de saúde especializados e equipamentos de diagnóstico por imagem, impõe desafios adicionais ao manejo adequado destes pacientes.

A complexidade do trauma orofacial na região Norte evidencia a necessidade premente de abordagem multidisciplinar, conforme defendido por Gonçalves et al. (2016). A atuação integrada entre cirurgiões bucomaxilofaciais, oftalmologistas, neurocirurgiões e outros especialistas mostra ser essencial para otimizar os desfechos funcionais e estéticos. Entretanto, a distribuição desigual destes profissionais pelo território nacional, com carências evidentes na região Norte, representa um obstáculo significativo à implementação deste modelo assistencial ideal. As grandes distâncias geográficas e dificuldades de acesso aos centros de referência agravam este cenário, resultando em atrasos no atendimento que podem comprometer o prognóstico dos pacientes.

Os fatores de risco associados aos acidentes automobilísticos na região Norte demandam análise criteriosa. O consumo de álcool associado à direção, embora seja um problema nacional, assume contornos particulares na Amazônia Legal, onde a fiscalização enfrenta desafios logísticos adicionais. A cultura local de consumo de bebidas alcoólicas, associada às longas distâncias percorridas e às condições adversas de direção, cria um ambiente de vulnerabilidade que necessita de intervenções específicas e culturalmente contextualizadas. A resistência ao uso sistemático de equipamentos de segurança, como cinto de segurança e capacetes, constitui outro aspecto preocupante, que demanda estratégias educativas adaptadas às particularidades regionais.

As implicações socioeconômicas destes traumas são profundas e multifacetadas. Para além dos custos diretos com hospitalização, procedimentos cirúrgicos e reabilitação, é preciso considerar os custos indiretos decorrentes do afastamento laboral, das sequelas funcionais permanentes e do impacto na qualidade de vida dos pacientes. A predominância de vítimas na faixa etária economicamente ativa amplifica essas consequências, gerando um ciclo de vulnerabilidade que pode perpetuar condições de pobreza e exclusão social. O estudo de Vieira et al. (2013) corrobora esta perspectiva ao destacar o comprometimento das funções mastigatórias, respiratórias e de comunicação como sequelas frequentes nestes pacientes.

As particularidades geográficas e socioculturais da região Norte exigem que as estratégias de prevenção sejam pensadas de forma contextualizada. Campanhas educativas genéricas mostram-se insuficientes frente às especificidades locais, sendo necessário desenvolver abordagens que considerem os padrões de mobilidade, as condições das vias e os determinantes culturais do comportamento no trânsito na Amazônia Legal. A integração entre políticas de segurança viária, investimentos em infraestrutura e ações educativas continuadas representa o caminho mais promissor para a redução da incidência e gravidade destes traumas.

A carência de estudos epidemiológicos abrangentes sobre a temática na região Norte evidencia a necessidade de investimentos em pesquisa que possam subsidiar políticas públicas baseadas em evidências. A maioria dos estudos disponíveis concentra-se em serviços de referência localizados em capitais, deixando uma lacuna significativa no entendimento da realidade das áreas interioranas. Futuras investigações deveriam priorizar a análise dos fatores de risco específicos da região, a efetividade das intervenções preventivas e as barreiras de acesso aos serviços de saúde, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias mais efetivas e equitativas.

O método de revisão integrativa proposto por Souza et al. (2010) e Whittemore e Knafl (2005) mostrou-se adequado para sintetizar as evidências disponíveis, permitindo a identificação de lacunas no conhecimento e direcionando futuras investigações. A aplicação do checklist JBI (2017) garantiu a qualidade metodológica da análise, enquanto a estratégia PICO (SANTOS et al., 2007) assegurou a abordagem sistemática na formulação da questão de pesquisa.

CONCLUSÃO 

Conclui-se que o trauma orofacial decorrente de acidentes automobilísticos na região Norte do Brasil configura-se como um significativo problema de saúde pública, com perfil epidemiológico distinto caracterizado pelo predomínio em homens jovens economicamente ativos (SILVA et al., 2011; VIEIRA et al., 2013), sendo as fraturas mandibulares as lesões mais frequentes (NARDI et al., 2020), frequentemente associadas a traumas de alta energia. As particularidades geográficas, socioculturais e de infraestrutura da Amazônia Legal representam fatores determinantes para a maior incidência e gravidade destes traumas (ALMEIDA et al., 2019), exigindo abordagem multidisciplinar (GONÇALVES et al., 2016) e políticas públicas específicas que contemplem investimentos em segurança viária, capacitação profissional e melhorias na infraestrutura de saúde, visando à redução da incidência e gravidade dessas lesões e à promoção de atendimento integral e oportuno às vítimas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, R. S. et al. Perfil epidemiológico do trauma facial associado a altos índices de energia cinética. Revista Brasileira de Cirurgia Craniomaxilofacial, v. 22, n. 2, p. 87–93, 2019.

ALMEIDA, R. V. et al. Associação entre fatores de risco e aumento da incidência de trauma facial. Journal of Public Health, v. 45, n. 3, p. 321–335, 2019.

CHRCANOVIC, B. R. Factors influencing the incidence of maxillofacial fractures. Oral and Maxillofacial Surgery, v. 16, n. 3, p. 281–285, 2012.

DA SILVA, M. G. P.; SILVA, V. L.; DE LIMA, M. L. L. T. Lesões craniofaciais decorrentes de acidentes por motocicletas: uma revisão integrativa. Revista Cefac, set./out. 2015.

D’AVILA, S. et al. Facial trauma among victims of terrestrial transport accidents. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 82, n. 3, p. 314–320, 2016.

DE MOURA, M. T. F. L.; DALTRO, R. M.; DE ALMEIDA, T. F. Traumas faciais: uma revisão sistemática da literatura. Revista da Faculdade de Odontologia – UPF, v. 21, n. 3, 2016.

FILHO, D. B. F. Avaliação de impacto do Projeto Vida no Trânsito. Brasília: ENAP, 2024. Disponível em: . Acesso em: 13 jun. 2024.

GONÇALVES, A. C. et al. Lesões associadas ao trauma facial de alta energia. Revista de Traumatologia e Ortopedia, v. 28, n. 1, p. 78–92, 2016.

GONÇALVES, F. G. et al. Abordagem multidisciplinar no trauma bucomaxilofacial: uma revisão integrativa. Journal of Oral and Maxillofacial Research, v. 7, n. 4, p. e3, 2016.

JONES, A. et al. Impacto dos acidentes automobilísticos na incidência de trauma facial. Journal of Trauma, v. 40, n. 2, p. 189–201, 2005.

MASSUIA, P. D. D. A. S. et al. Epidemiology of facial trauma at the plastic surgery and burns service of the Santa Casa de Misericórdia de São José do Rio Preto. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v. 29, n. 2, p. 221–226, 2014.

MELO FILHO, M. R. et al. Facial trauma: a review of 869 cases. Cadernos de Saúde Pública, v. 17, n. 3, p. 645–649, 2001.

MENDES, K. D. S.; SILVEIRA, R. C. C. P.; GALVÃO, C. M. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto & Contexto – Enfermagem, v. 17, p. 758–764, 2008.

NARDI, C. et al. Fraturas mandibulares: diagnóstico por imagem e princípios terapêuticos. Journal of Dental Health, Oral Disorders & Therapy, v. 11, n. 1, p. 23–27, 2020.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Estatísticas globais sobre acidentes e lesões. Genebra: OMS, 2010.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório mundial sobre prevenção de lesões. Genebra: OMS, 2010.

SILVA, J. J. L. et al. Consequências do trauma facial. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, v. 32, n. 4, p. 543–556, 2011.

SILVA, P. F. et al. Análise epidemiológica do trauma facial em uma população da região norte do Brasil. Revista Paraense de Medicina, v. 25, n. 3, p. 12–18, 2011.

SMITH, H. et al. Global patterns of maxillofacial trauma: a systematic review. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 76, n. 10, p. 2166–2180, 2018.

SMITH, J. et al. Epidemiologia das lesões traumáticas. Revista de Epidemiologia, v. 25, n. 3, p. 345–362, 2018.

SOUZA, M. T.; SILVA, M. D.; CARVALHO, R. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein (São Paulo), v. 8, p. 102–106, 2010.

VIEIRA, R. C. et al. Perfil epidemiológico do trauma de face em serviço de referência na Amazônia Oriental. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 79, n. 3, p. 299–304, 2013.

WHITTEMORE, R.; KNAFL, K. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, v. 52, n. 5, p. 546–553, 2005.

WULKAN, M. et al. Incidence and etiology of maxillofacial injuries in São Paulo State, Brazil: a retrospective study of 10 years. Cadernos de Saúde Pública, v. 27, n. 4, p. 729–734, 2011.


1Faculdade de Ciências Médicas (AFYA) E-mail: bannwartmariana@gmail.com
ORCID: http://orcid.org/0009-0005-6435-6588

2Faculdade de Ciências Médicas (AFYA) E-mail: brennakallyndgta@gmail.com
ORCID: http://orcid.org/0009-0007-5554-2447

3Faculdade de Ciências Médicas (AFYA) E-mail: alueerikabb@gmail.com
ORCID: http://orcid.org/0009-0000-9457-6825

4Faculdade de Ciências Médicas (AFYA) E-mail: luarathalia00@gmail.com
ORCID: http://orcid.org/0009-0005-3673-633X

5Faculdade de Ciências Médicas (AFYA) E-mail: Paula.gellen@afya.com.br
ORCID: http://orcid.org/0000-0003-3158-1525