O USO DE FENOBARBITAL PARA EPILEPSIA EM CÃES

THE USE OF PHENOBARBITAL FOR EPILEPSY IN DOGS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511301608


Chelly Gabriele Assunção Baggio1
Liliane Carvalho Rocha Sant’Ana2
Talita Bianca Fontes Mendonça3
Orientadora: Prof. M. V. Raquel Silva e Sousa4


Resumo

Este projeto tem como objetivo analisar a eficácia terapêutica e a segurança do fenobarbital no tratamento da epilepsia em cães, destacando sua capacidade de controlar crises convulsivas recorrentes, especialmente na epilepsia idiopática, a forma mais comum da doença. O estudo aborda a importância do diagnóstico correto, o monitoramento dos níveis séricos do medicamento e os cuidados necessários para evitar efeitos adversos, como alterações hepáticas e comportamentais. Além disso, enfatiza a necessidade da orientação ao tutor para manejo adequado durante as crises, promovendo a qualidade de vida do animal. A pesquisa justifica-se pela relevância do fenobarbital como primeira escolha terapêutica devido à sua eficácia comprovada, baixo custo e ampla utilização na clínica veterinária, ressaltando a importância do acompanhamento clínico e laboratorial contínuo para garantir a segurança e o bem-estar dos cães epilépticos. Espera-se que este trabalho contribua para o aprofundamento do conhecimento sobre o uso do fenobarbital, visando um tratamento integrado e individualizado na medicina veterinária.

Palavras-chave: Anticonvulsivante; monitoramento clínico; qualidade de vida.

1 INTRODUÇÃO

A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais frequentes em cães e caracteriza- se por crises convulsivas recorrentes, causadas por uma atividade elétrica anormal no cérebro. Essas manifestações podem ser motoras, autonômicas ou comportamentais, com ou sem perda de consciência, e segundo Akin (2020) variam em frequência e intensidade ao longo do tempo. Diante desse cenário, o fenobarbital destaca-se como o principal medicamento antiepiléptico utilizado na clínica veterinária, por sua eficácia no controle das crises e pela ampla experiência acumulada em seu uso terapêutico. O sucesso no tratamento, no entanto, depende do diagnóstico correto da causa das convulsões, que pode ser estrutural, como em casos de trauma ou neoplasia, ou reativa, quando relacionada a fatores transitórios como intoxicações (CHARALAMBOUS; BRODBELT; VOLK, 2014; FERRONI et al., 2020).

O fenobarbital tem se mostrado particularmente eficaz nos casos de epilepsia idiopática, que corresponde à maioria dos diagnósticos e cuja etiologia ainda não é completamente esclarecida. De acordo com Mariani (2019) e Muñana (2021) a epilepsia do tipo idiopática acomete especialmente cães de raças predispostas, sendo considerada um diagnóstico de exclusão, feito por meio de exames clínicos, neurológicos e laboratoriais, além da análise criteriosa do histórico das crises. Estima- se que a prevalência da epilepsia em cães varie entre 0,5% e 5,7%, e, segundo Faleiro et al (2023), o fenobarbital é a droga mais prescrita devido à sua boa resposta terapêutica e sua ampla utilização se deve também ao custo acessível.

As convulsões epilépticas resultam de descargas neuronais anormais e sincronizadas, que provocam sinais clínicos variados e transitórios, como tremores, espasmos musculares e alterações comportamentais. Carneiro, Hashizume e Elias (2018) explicam que esses sinais decorrem da hiperexcitabilidade neuronal e são centrais para a caracterização das crises. Santifort et al (2022) observaram que, apesar de muitas crises cessarem espontaneamente, sua repetição frequente pode causar danos cumulativos ao cérebro. Akin (2020) destaca que a evolução da frequência e intensidade das crises demanda um acompanhamento regular e individualizado, o que reforça a necessidade de terapias eficazes como a proporcionada pelo fenobarbital.

No entanto, embora o fenobarbital seja amplamente eficaz, seu uso exige monitoramento contínuo para garantir a segurança do paciente. Potschka et al (2015) alertam para a importância do controle das concentrações séricas da medicação, uma vez que níveis elevados podem ser tóxicos. Risio et al (2015) enfatizam a necessidade de avaliações periódicas da função hepática, visto que o metabolismo do fármaco ocorre majoritariamente no fígado. Ainda assim, estudos como os de Ottka et al., (2021) e Stabile et al., (2019) demonstram que cerca de 70 a 80% dos cães tratados com fenobarbital apresentam significativa melhora no controle das crises, sendo, em alguns casos, necessária a associação com outros anticonvulsivantes para otimizar os resultados.

Segundo Nascimento et al (2022), o responsável pelo animal desempenha um papel essencial no diagnóstico da epilepsia, registrando a duração de cada episódio, seus possíveis desencadeadores e suas características. É fundamental que o médico veterinário oriente sobre como agir em situações como essa: protegendo o cão para evitar ferimentos, afastando-o de objetos cortantes, garantindo que sua boca e cabeça permaneçam livres, além de proporcionar um ambiente tranquilo. Não se deve administrar nada por via oral, pois o episódio tende a cessar naturalmente.

Diante do exposto, percebe-se que o uso do fenobarbital representa um avanço importante na medicina veterinária, oferecendo controle eficaz para a epilepsia em cães. Contudo, seu sucesso terapêutico depende não apenas do conhecimento técnico do médico- veterinário, mas também da parceria ativa do tutor e do acompanhamento contínuo. Com base nas evidências estudadas, conclui-se que o fenobarbital permanece como uma ferramenta indispensável no manejo da epilepsia canina, exigindo, porém, uma abordagem integrada, ética e individualizada para garantir a segurança e o bem-estar do animal.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Epilepsia Canina: Conceitos Fundamentais e Classificação Clínica

A epilepsia é reconhecida como uma das afecções neurológicas crônicas mais prevalentes na clínica de pequenos animais, caracterizada pela ocorrência recorrente de crises decorrentes de descargas elétricas anormais e sincronizadas no córtex cerebral. Segundo a International Veterinary Epilepsy Task Force (IVETF), a epilepsia canina é classificada em idiopática, estrutural e reativa, sendo a forma idiopática a mais comum, especialmente em raças geneticamente predispostas (Berendt et al., 2015; Hülsmeyer et al., 2015). Essa tipologia é essencial para definir o manejo terapêutico e orientar o prognóstico, uma vez que cada categoria apresenta etiologia, evolução clínica e resposta farmacológica distintas.

A epilepsia idiopática, foco deste estudo, é considerada um diagnóstico de exclusão, estabelecido após avaliação clínica, neurológica e laboratorial detalhada, além de exames complementares quando disponíveis (Volk et al., 2015). A prevalência estimada dessa condição varia entre 0,5% e 5,7% da população canina, podendo atingir valores maiores em raças predispostas (Ferroni et al., 2020). Nessa forma de epilepsia, não há identificação de lesões estruturais ou distúrbios metabólicos, reforçando a hipótese de origem genética ou funcional do distúrbio.

O conhecimento aprofundado sobre o mecanismo das crises é fundamental para compreender o papel dos anticonvulsivantes. As convulsões resultam de um estado de hiperexcitabilidade neuronal, associado ao desequilíbrio entre neurotransmissores inibitórios especialmente o GABA e neurotransmissores excitatórios, como o glutamato (Carneiro; Hashizume; Elias, 2018). Essa disfunção leva a manifestações clínicas transitórias que variam de alterações motoras a distúrbios comportamentais, podendo se intensificar com o tempo sem tratamento adequado.

2.2 Fenobarbital como Terapia de Primeira Linha

O fenobarbital é historicamente o medicamento de escolha para o controle da epilepsia idiopática em cães devido à sua eficácia comprovada, ampla disponibilidade e custo acessível. Estudos clássicos e contemporâneos demonstram taxas de sucesso entre 70% e 80% dos casos, quando adequadamente ajustado e monitorado (Ferroni et al., 2020; Bhatti et al., 2015). Tal eficácia decorre de seus efeitos sobre receptores GABA-A, aumentando a inibição neuronal e reduzindo a probabilidade de disparos epilépticos.

A IVETF estabelece o fenobarbital como a principal recomendação inicial em cães com crises frequentes, crises generalizadas ou histórico compatível com epilepsia idiopática (Bhatti et al., 2015; Potschka et al., 2015). Sua farmacocinética, porém, envolve metabolismo hepático intenso e indução enzimática, o que exige ajustes periódicos de dose baseados em resposta clínica e concentração sérica.

Estudos também evidenciam que cerca de 20–30% dos pacientes podem apresentar resposta parcial ou refratária à monoterapia, necessitando associação com outros anticonvulsivantes como o brometo de potássio ou levetiracetam (Carvalho et al., 2025). Essa variação reforça a necessidade de uma abordagem terapêutica individualizada e centrada no paciente.

Figura 1 – Quadro 1 – Dose, posologia, forma farmacêutica e monitoramento da terapia antiepiléptica com fenobarbital em cães ou gatos. Adaptado de: Fenobarbital para cães e gatos com crises epilépticas – Boletim Informativo, Universidade Federal de Goiás, 2022.
Disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/130/o/Boletim_Fenobarbital.pdf

Manutenção: 3mg/kg naqueles cães e gatos com baixa frequência de crises, ou seja, sem histórico de crises agrupadas (cluster) ou sustentadas (status epilepticus); 5mg/kg nos pacientes com alta frequência ou com histórico de cluster, status epilepticus5. Casos específicos de mais difícil controle podem se beneficiar com administração a cada 8 horas6. Meia vida de 48 a 72 horas em monoterapia ou em uso associado.

Dose de carregamento (loading dose): É utilizada em casos de emergência (cluster ou status epilepticus) com objetivos de melhor controle das crises e alcançar a estabilização sérica do fenobarbital mais precocemente.

2.3 Mecanismo de Ação e Farmacocinética do Fenobarbital

O fenobarbital age principalmente como potenciador do GABA, prolongando a abertura dos canais de cloro e promovendo hiperpolarização neuronal. Além disso, em concentrações elevadas, exerce efeito bloqueador parcial nos canais de sódio, contribuindo para estabilidade elétrica neuronal (Laureano, 2009).

Sua absorção oral é eficiente, alcançando concentrações terapêuticas estáveis em aproximadamente duas semanas. O metabolismo hepático via sistema microssomal é responsável pela eliminação e pela autoindução enzimática, que reduz progressivamente a meia-vida do fármaco ao longo do tratamento (Cury, 2005). Essa característica justifica o monitoramento periódico, uma vez que o paciente pode exigir aumento de dose para manter níveis terapêuticos adequados.

O intervalo terapêutico recomendado internacionalmente situa-se entre 15 e 40 µg/mL, sendo valores acima desse limite associados a maior risco de toxicidade hepática (Potschka et al., 2015). Assim, a dosagem sérica é parte indispensável do acompanhamento clínico.

2.4 Segurança, Efeitos Adversos e Limitações Terapêuticas

Apesar de sua eficácia consolidada, o fenobarbital possui limitações relevantes que exigem monitoramento contínuo. Os efeitos adversos iniciais, como sedação, polifagia, poliúria, polidipsia e ataxia, são frequentes e costumam ser autolimitados (Laureano, 2009). Esses sinais refletem tanto a ação farmacológica do fármaco quanto a adaptação do sistema nervoso central ao tratamento.

A complicação mais importante, no entanto, é a hepatotoxicidade crônica, amplamente documentada em estudos clínicos e experimentais. Cury (2005) observou aumento consistente das enzimas hepáticas em cães sob uso prolongado, reforçando a necessidade de exames regulares. A hepatotoxicidade é consequência da indução enzimática excessiva, que aumenta o estresse metabólico sobre os hepatócitos.

A IVETF recomenda monitoramento semestral da função hepática e da concentração sérica do fármaco, especialmente em pacientes idosos, animais com comorbidades ou cães que necessitem de doses elevadas (Volk et al., 2015).

Outro aspecto relevante é a variabilidade individual na resposta terapêutica. Fatores como interações medicamentosas, alteração na taxa metabólica, variação genética e adesão inadequada ao tratamento podem comprometer o controle das crises.

2.5 Manejo Clínico Integrado e Papel do Tutor

O tratamento da epilepsia canina não se resume à prescrição do anticonvulsivante. A literatura é unânime ao afirmar que o sucesso do manejo depende da integração entre médico- veterinário, tutor e paciente (Nascimento et al., 2022). A educação do tutor é essencial para:

  • registrar a duração e padrão das crises;
  • administrar corretamente o medicamento;
  • manter horários regulares;reconhecer sinais de toxicidade;
  • prover ambiente seguro durante as crises.

A descontinuação abrupta do fenobarbital pode resultar em convulsões graves e status epilepticus, sendo considerada uma emergência neurológica. Portanto, a orientação e o acompanhamento contínuo são cruciais.

2.6 Avanços Recentes e Estado da Arte no Tratamento da Epilepsia Canina

Os consensos internacionais publicados em 2015 representam marcos fundamentais no manejo clínico da epilepsia em cães, estabelecendo protocolos mais padronizados e baseados em evidências (Berendt et al., 2015; Bhatti et al., 2015). Avanços subsequentes incluem:

  • maior uso de terapias combinadas em pacientes refratários;
  • inclusão de neuroprotetores e suplementos com ação moduladora, como PEA
  • desenvolvimento de biomarcadores para avaliação de resposta terapêutica;
  • refinamento das recomendações de monitoramento clínico e laboratorial.

A importância de abordagens multidisciplinares, que integram farmacoterapia, manejo ambiental, registro contínuo das crises e apoio ao tutor.

METODOLOGIA

A metodologia adotada neste estudo foi estruturada para garantir rigor científico e adequada sustentação aos objetivos propostos, envolvendo a definição do tipo de pesquisa, os métodos de coleta e análise dos dados e os procedimentos que orientaram toda a investigação. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza descritiva, desenvolvida por meio de uma revisão integrativa da literatura. A abordagem qualitativa mostra-se adequada por permitir a compreensão aprofundada de fenômenos clínicos complexos como a epilepsia idiopática em cães, possibilitando interpretar evidências científicas a partir de contextos, significados e relações entre autores e resultados. A pesquisa descritiva, por sua vez, possibilita organizar e analisar informações disponíveis na literatura, contribuindo para a construção de um panorama atualizado sobre a eficácia, segurança e limitações do fenobarbital na prática veterinária.

A coleta dos dados ocorreu exclusivamente por meio de fontes secundárias, obtidas entre março e junho de 2025, nas bases SciELO, PubMed, ScienceDirect, Google Scholar, PubVet e Portal de Periódicos CAPES. Utilizaram-se descritores em português e inglês, combinados com operadores booleanos, a fim de ampliar a precisão da busca, incluindo termos como “fenobarbital”, “epilepsia canina”, “canine epilepsy”, “idiopathic epilepsy”, “therapeutic drug monitoring” e “efeitos adversos do fenobarbital”. Foram incluídos artigos publicados entre 2014 e 2025, disponíveis na íntegra e relacionados diretamente ao tema da epilepsia idiopática em cães e ao uso do fenobarbital, abrangendo estudos sobre eficácia clínica, farmacocinética, efeitos adversos, monitoramento laboratorial e manejo terapêutico. Foram excluídos artigos anteriores a 2014, estudos com outras espécies, textos duplicados, materiais superficiais sem fundamentação científica consistente e documentos que não apresentavam dados clínicos ou laboratoriais relevantes.

A seleção das fontes seguiu três etapas: leitura dos títulos, leitura dos resumos e leitura integral das obras selecionadas, garantindo que cada estudo atendesse aos critérios estabelecidos. Após a seleção, os artigos foram analisados qualitativamente, com foco na comparação de metodologias, identificação de convergências e divergências quanto às recomendações terapêuticas, avaliação dos níveis séricos de fenobarbital, incidência de efeitos adversos, estratégias de manejo clínico e lacunas identificadas pela literatura. A interpretação seguiu os princípios da revisão integrativa propostos por Whittemore e Knafl, permitindo reunir e sintetizar dados de estudos diversos para compreender a aplicação prática do fenobarbital no tratamento da epilepsia idiopática. Para assegurar o rigor científico, utilizou-se literatura revisada por pares, priorizaram-se estudos recentes e consensos internacionais, empregou-se dupla conferência na seleção das fontes para evitar vieses e organizou-se o conteúdo de forma lógica e coerente com os objetivos do estudo.

Assim, esta metodologia garantiu a construção de um levantamento científico consistente, permitindo compreender de maneira ampla a atuação, os benefícios e as limitações do fenobarbital na clínica veterinária contemporânea.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

O tratamento da epilepsia idiopática em cães com o uso do fenobarbital é amplamente documentado na literatura veterinária devido à sua eficácia, à disponibilidade e ao custo acessível. Entretanto, os estudos analisados também demonstram que seu uso exige acompanhamento contínuo, monitoramento clínico e ajustes individualizados, pois o medicamento apresenta variações importantes de resposta entre os pacientes.

Ao comparar os autores, observam-se convergências significativas Cury (2005), Laureano (2009) e Ferroni et al. (2020) afirmam que o fenobarbital controla as crises em grande parte dos cães, geralmente entre 70% e 80% dos casos. Esses dados reforçam seu papel como fármaco de primeira linha no manejo da epilepsia idiopática. Contudo, também há divergências, especialmente relacionadas à frequência de monitoramento, à faixa terapêutica ideal e ao risco de hepatotoxicidade, o que demonstra a necessidade de protocolos clínicos bem definidos.

Cury (2005) relata que, apesar do controle eficaz das crises, foram observadas alterações laboratoriais importantes durante o uso prolongado, como elevação de enzimas hepáticas e variações hematológicas. Esses achados se alinham aos de Ferroni et al. (2020), que destacam que a hepatotoxicidade é uma das principais limitações terapêuticas, sobretudo quando o fenobarbital é utilizado em doses altas ou por períodos extensos.

Laureano (2009) concorda que o fenobarbital é altamente eficaz, mas chama atenção para efeitos colaterais iniciais como sonolência, ataxia e polifagia, que tendem a reduzir com a adaptação do organismo. Esses efeitos são descritos como comuns e transitórios, mas requerem acompanhamento para distinguir manifestações esperadas de sinais de toxicidade.

A literatura também aponta que aproximadamente 20% a 30% dos cães apresentam resposta parcial ou refratária à monoterapia. Carvalho et al. (2025) descrevem um caso clínico no qual o fenobarbital isolado não foi suficiente para controlar as crises e foi necessário introduzir brometo de potássio e palmitoiletanolamida (PEA). Após a combinação medicamentosa, houve melhora significativa. Esse achado demonstra que, em casos refratários, a associação terapêutica é uma estratégia consolidada na prática veterinária.

No conjunto, os autores convergem ao afirmar que não existe uma dose universal o tratamento deve ser ajustado conforme o metabolismo individual, resposta clínica e níveis séricos. A divergência entre eles está principalmente nos protocolos de monitoramento, reforçando a importância da individualização.

3.1 Efeitos terapêuticos observados

O principal efeito terapêutico do fenobarbital é a redução da excitabilidade neuronal, promovida pela potencialização da ação do GABA. Ferroni et al. (2020) destacam que, além de diminuir a frequência das crises, o medicamento também reduz sua intensidade, proporcionando maior estabilidade clínica ao animal.

Contudo, como relatado por Laureano (2009), entre 20% e 30% dos cães apresentam resposta parcial ou refratária, exigindo a associação de outros anticonvulsivantes ou suplementos neuroprotetores. Isso evidencia que, apesar de eficaz, o fenobarbital possui limites clínicos e deve ser parte de uma estratégia terapêutica personalizada.

Os benefícios comportamentais também foram relatados animais que antes apresentavam convulsões frequentes e desorientação passaram a ter melhor qualidade de vida com o uso contínuo do fenobarbital (Cury, 2005), desde que o tratamento fosse adequadamente monitorado.

3.2 Efeitos adversos e limitações terapêuticas

Os estudos convergem ao indicar que o fenobarbital apresenta efeitos adversos importantes que justificam o monitoramento constante.

a) Efeitos adversos iniciais comuns e esperados

Laureano (2009) e Cury (2005) descrevem:

  • Sedação;
  • Polifagia;
  • Poliúria e polidipsia;
  • Ataxia.

      Esses sinais são frequentes nas primeiras semanas e costumam diminuir com o tempo.

      b) Hepatotoxicidade crônica (principal limitação terapêutica)

      Cury (2005) observou aumento das enzimas hepáticas em uso prolongado.

      Ferroni et al. (2020) reforçam que a hepatotoxicidade é a complicação mais comum e que ocorre devido à autoindução enzimática, que sobrecarrega o fígado ao longo do tempo.

      c) Necessidade de medir níveis séricos

      Como o fenobarbital possui margem terapêutica estreita, é indispensável:

      • medir níveis séricos após 14 dias do início;
      • repetir a cada 3 a 6 meses;
      • manter entre 15 e 40 µg/mL, evitando valores elevados (>35–40 µg/mL);

      Alterações nos níveis podem indicar necessidade de ajuste de dose ou risco de toxicidade.

      d) Frequência de manifestações adversas

      Os efeitos leves (sedação, polifagia, PU/PD) são considerados comuns.

      A hepatotoxicidade ocorre em menor frequência, mas é a complicação mais séria e exige acompanhamento.

      3.3 Estratégias de manejo e acompanhamento clínico

      Os autores concordam que o manejo da epilepsia não se limita à prescrição. Laureano (2009) enfatiza que muitos casos de falha terapêutica são causados por administração incorreta ou interrupção inadequada da medicação.

      Ferroni et al. (2020) recomendam:

      • dosagem sérica após 2 semanas;
      • reavaliação a cada 3–6 meses;
      • ajuste de dose baseado em clínica + exames.

      Carvalho et al. (2025) reforçam que terapias combinadas, como brometo de potássio ou PEA, são essenciais para casos refratários.

      3.4 Considerações clínicas comparativas

      Comparando os autores, observa-se:

      • Cury (2005) → destaca alterações laboratoriais e hepatotoxicidade;
      • Laureano (2009) → reforça efeitos iniciais e importância do tutor;
      • Ferroni et al. (2020) → evidencia eficácia de 70–80% e necessidade de monitoramento;
      • Carvalho et al. (2025) → demonstra eficácia da combinação medicamentosa em refratários;

      Essa comparação mostra um consenso:

      Fenobarbital é eficaz, mas só é seguro se for monitorado e ajustado conforme o paciente.

      3.5 Síntese dos resultados

      A literatura aponta que:

      • O fenobarbital controla 70–80% das crises (Ferroni et al., 2020)
      • A hepatotoxicidade é a principal limitação (Cury, 2005)
      • Cerca de 20–30% dos cães são refratários (Carvalho et al., 2025)
      • Sucesso depende da adesão do tutor e dos exames periódicos (Laureano, 2009)

      O fenobarbital, portanto, deve ser visto como parte de um plano terapêutico contínuo e individualizado.

      4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

      A epilepsia canina representa um dos principais desafios neurológicos na clínica veterinária, exigindo manejo contínuo, seguro e baseado em evidências. A presente revisão demonstrou que o fenobarbital permanece como o fármaco de primeira escolha devido à sua eficácia comprovada, acessibilidade e ampla utilização. A literatura analisada indica taxas de controle entre 70% e 80%, consolidando seu papel no tratamento de cães com epilepsia idiopática.

      No entanto, o fenobarbital possui margem terapêutica estreita e apresenta riscos, especialmente a hepatotoxicidade crônica, o que torna o tratamento necessariamente individualizado. A individualização ocorre porque cada paciente apresenta diferenças metabólicas, variações no metabolismo hepático, e adaptações enzimáticas ao uso prolongado do fármaco. Assim, ajustar a dose é fundamental quando:

      • as crises persistem mesmo com níveis séricos baixos;
      • há sinais clínicos de toxicidade com níveis elevados;
      • o paciente apresenta comorbidades hepáticas;
      • ocorre autoindução enzimática e queda da concentração sérica.

      O monitoramento inclui exames laboratoriais frequentes (ALT, AST, albumina, ácidos biliares) e dosagem sérica do medicamento após 14 dias e, depois, a cada 3–6 meses. Esses cuidados reduzem riscos e aumentam a eficácia terapêutica.

      Para os casos refratários, terapias combinadas como brometo de potássio, levetiracetam ou compostos neuroprotetores representam alternativas valiosas, ampliando o controle clínico e diminuindo a frequência das crises. Além disso, a participação ativa do tutor é essencial, pois a continuidade correta do tratamento determina grande parte do sucesso terapêutico.

      Conclui-se, portanto, que o tratamento da epilepsia canina com fenobarbital deve ser visto como um processo dinâmico e multidisciplinar, que integra acompanhamento clínico constante, avaliação laboratorial periódica, educação do tutor e, quando necessário, terapias complementares. Esse conjunto de ações garante maior segurança, qualidade de vida e longevidade aos cães acometidos pela epilepsia idiopática.

      6. REFERÊNCIAS

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      1Discentes do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM

      2Discentes do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM

      3Discentes do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM

      4Docente do Curso Superior de Medicina Veterinária do Centro Universitário do Norte – UNINORTE – Manaus/AM. Especializada em Clínica Médica de Pequenos Animais (Famesp) 032002899@profa.uninorte.com.br