REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301623
Waldir Júlio Teis
INTRODUÇÃO
Continuando a temática sobre a relação de consumo e acesso à justiça, aos poucos, vemos que o tema é de uma grandeza imensurável e infindável. Nesse segundo encontro é possível perceber o quanto esse assunto é elástico e influencia o cotidiano da humanidade. Quando vemos que não há limites coletivos é preciso repensar o comportamento individual e os efeitos desse comportamento na vida social, na vida pública, na individual e na relação com o Estado (BAUMAN, 2008). Portanto, continuando com o tema, passamos a discorrer sobre algumas situações concretas a respeito.
Palavras-chave: Relações de consumo; Direito do consumidor; Cultura de consumo; Comportamento do consumidor; Vulnerabilidade; Status social; Proteção estatal; Regulação do mercado.
ABSTRACT
Continuing the theme of consumer relations and access to justice, we gradually see that the topic is of immeasurable and endless magnitude. In this second meeting, it is possible to perceive how elastic this subject is and how it influences the daily lives of humanity. When we see that there are no collective limits, it is necessary to rethink individual behavior and the effects of this behavior on social life, public life, individual life, and the relationship with the State (BAUMAN, 2008). Therefore, continuing with the theme, we will now discuss some concrete situations regarding this.
Keywords: Consumer relations; Consumer law; Consumer behavior; Cultural consumption; Vulnerability; Social status; State intervention; Market regulation.
ORIGEM DO ENDIVIDAMENTO
Após a segunda grande guerra (II Guerra mundial), de forma geral, houve o início de uma busca comum para o suprimento das necessidades individuais e por melhor qualidade de vida(HOBSBAWM, 1995).
De certa forma, o mercado fornecedor descobriu que poderia acelerar o consumo oferecendo aos indivíduos, capacidade de compra – via oferta de crédito. Antes disso, o endividamento familiar era concentrado nos bens de família, ou seja, aqueles bens que supriam a necessidade familiar. Tais como: endividamento habitacional, endividamento por doenças, o endividamento para a formação de membros das famílias e assim por diante.
Porém, com a oferta de créditos de longo prazo iniciou-se uma nova era que começou a propulsionar o consumo, e com isso, a circulação de bens foi sendo acelerada, assim como a oferta e variedades desses bens. Por outro lado, com essa “propulsão produtiva” houve também um aumento na geração de emprego e distribuição de renda maiores.
Com o aumento da demanda, surgiram novos produtos e hábitos de consumo que se incorporaram à cultura cotidiana, muitas vezes estimulados por publicidade agressiva (KOTLER; KELLER, 2019).
A mudança cultural envolvendo itens como o jeans demonstra como hábitos são moldados por estratégias de mercado (LIPOVETSKY, 2009).
O aumento da demanda abriu uma imensa porta e fez com que as indústrias, assim como o segmento de mão de obra fosse se transformando numa máquina geradora de emprego e renda. Por consequência, para que os produtos ou bens fossem mais bem disponibilizados e distribuídos em todos os recantos, acelerou consequentemente o crescimento do comércio, somando-se à criação de empregos com a consequente distribuição de renda.
Porém, com o aumento da demanda houve também a abertura para a entrada no Brasil de outros bens que não eram comuns, como por exemplo o tecido jeans, que aos poucos foi inclusive sendo inserido na cultura do vestiário, iniciando-se aí uma guerra cultural que é mais difícil de se defender, porque não há inimigos declarados, mas sim, um impulsionamento de marketing ou Merchandising que vai entrando sutilmente no cotidiano do indivíduo e quando percebe, já foi cooptado dentro de uma nova forma de encarar o próprio cotidiano.
No caso do produto “jeans1” que surgiu inicialmente por uma marca denominada Lee2 é possível perceber que houve uma mudança de hábito do indivíduo na forma de se vestir. Essa matéria prima (jeans) surgiu por acaso como uma forma de aproveitamento do tecido derivado de lona velha, e o investidor viu uma oportunidade de negócio e passou a confeccionar calça para vaqueiro.
CONSUMO X HÁBITO
Por sua vez, o consumo se torna um hábito, gerando de certa forma uma necessidade psicológica e não física/material dada a insistência do próprio Merchandising, invadindo todas as dimensões da vida, se tornando praticamente como se fosse um hábito alimentar.
O consumo passa a se tornar hábito e necessidade psicológica, fruto do processo de sedução mercadológica (ROCHA; PEREIRA, 2012). A compra de bens sem função objetiva reforça a lógica da sociedade de consumo (BAUMAN, 2008; BAUDRILLARD, 2011).
Por outro lado, a forma e a capacidade de consumo tornam-se referência de ascensão social, gerando um prazer artificial, como por exemplo: a compra de um veículo sem necessidade de uso, ou ainda, um casal sem filhos compra uma unidade habitacional com dimensões imensas, porém sem utilidade, ou seja, não altera a qualidade de vida dos seus ocupantes. Apenas satisfaz um bem-estar psicológico pelo fato de “ter”, que aos poucos pode se transformar em decepção.
Esses padrões trazem problemas de submissão ao sistema consumista, o que culmina muitas vezes em danos que podem ser irreversíveis, em face do superendividamento que surge.
CRÉDITO X ENDIVIDAMENTO
Por falar em superendividamento, o mercado financeiro criou uma linha de crédito, onde praticamente mantém cativos parte dos seus clientes, principalmente e com mais facilidade, integrantes do setor público, com a oferta de crédito consignado. Com isso criou uma dependência desse “consumidor” de empréstimos que gera boa parte da fatia dos lucros dessas instituições face à vinculação do salário do devedor na quitação da dívida junto ao credor, que em alguns casos há comprometimento de até 40% (quarenta por cento) do salário, para que o sistema se mantenha.
O superendividamento cresce com a facilidade de crédito, especialmente o consignado (MARQUES, 2020; BRASIL, 2021).
A vulnerabilidade do consumidor é explorada pelo mercado financeiro (BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2020).
Em tudo isso, o problema não é o indivíduo em si, mas é o momento em que o indivíduo aproveita a facilidade e a oportunidade para se endividar sem necessidade, sendo essa uma realidade social que culmina num mundo factual.
RELAÇÕES DE CONSUMO.
Nas relações de consumo há uma invasão cultural que gera a submissão do consumidor, diante de uma publicidade voltada, não para mostrar o produto, mas a indução ao convencimento. Exemplo pode-se mencionar o mercado de automóveis no passado, dos compactos Renault Gordini e Renault Dolfing3. Até os anos 70 não havia uma explosão de consumo porque também não havia ofertas de financiamento de longo prazo. Para se ter ideia, um televisor era vendido em 4 ou 5 parcelas.
A publicidade invade o espaço cultural e subjetivo, aperfeiçoando técnicas de persuasão capazes de direcionar escolhas sem que o consumidor perceba (KELLNER, 2001).
O parcelamento de longo prazo modificou hábitos de compra e provocou aumento no endividamento (NUNES, 2022).
Por sua vez, o problema criado com o sistema de parcelamento de longo prazo, o consumidor e ao mesmo tempo mutuário não faz “contas” dos juros que estão incluídos no parcelamento. Analisa tão somente se o valor das parcelas “cabe” no bolso, não importando o montante ao final pago. Como por exemplo é a compra de um veículo em 60 (sessenta) parcelas num determinado valor, cujo montante ultrapassa às vezes, o dobro do seu valor, criando com isso uma submissão porque o problema não é a compra do veículo, mas a sua manutenção, o que cria uma submissão em face de que, na medida em que o veículo sofre a depreciação, o custo de manutenção aumenta, e com isso o consumidor/mutuário, ao final da quitação sofreu uma diminuição significativa do seu patrimônio, ou no mínimo, mal conseguiu mantê-lo aos patamares do início do seu endividamento.
TV A CABO X TV ABERTA
A TV a cabo está trucidando a TV aberta, em face de que percentual do público que antes acessava os canais livres (abertos), hoje acessa com muito mais frequência as plataformas digitais de sinais, como por exemplo: a Netflix, a Claro, a HTV e outras, porque oferecem uma programação onde a escolha fica por conta do cliente, oferecendo um “cardápio” de opções e de programas de consumo.
Fato típico que diz respeito aos programas predeterminados pelas emissoras e que o público a eles era dependente, eram as novelas brasileiras que faziam sucesso, tanto no país quanto no exterior. Eram novelas com dezenas de meses de duração, o que vinculava o telespectador dada a submissão ao enredo apresentado. Atualmente, porém, esse “segmento cultural” vem perdendo espaço para as séries de 6 a 8 capítulos, perdendo com isso o prestígio que tinha, diante de uma concorrência esmagadora de opções que são ofertadas ao público consumidor.
Por sua vez, os noticiários estão perdendo espaço para as mídias digitais, face a rapidez com que as informações e as notícias circulam. O que alguns anos no passado era levado ao conhecimento do público após dias do fato ocorrido, atualmente, praticamente não há um interstício longo entre o fato e a circulação da informação.
A expansão das mídias digitais alterou o comportamento social e o consumo de entretenimento (CASTELLS, 2019).
Séries e plataformas substituem novelas tradicionais (McLUHAN, 2007).
O que perdura por enquanto com maior potencial de consumo são as novelas de cunho religioso, criando certa submissão do público consumidor, dado o interesse gospel dos fiéis que ao tema se sentem atraídos.
A ERA COLLOR DE MELLO
Apesar do país ter vivido momentos de muita turbulência política na década de 90, pode-se afirmar que a ascensão do Senhor Fernando Collor de Mello à Presidência do país, abriu “portas” jamais imaginadas pelos brasileiros, pois, no período em que governou o Brasil de 15 de março de 1990 a 2 de outubro de 1992, quando apresentou sua renúncia culminando posteriormente com o impeachment, ainda que tenha sido a princípio, “muito prepotente”, impulsionou a política comercial externa de tal forma que não foi mais possível recuar.
Menciono “muito prepotente” porque o país estava se desvinculando de um regime de governo que era liderado pelo militarismo, e durante o governo militar de 1964 até 1985, o país viveu praticamente enclausurado em relação ao comércio exterior. Com isso o mercado de automóveis só tinha à sua disposição 4 (quatro) marcas de veículos: Chevrolet (GM), Volkswagen, Ford e Fiat.
Com a abertura do comércio exterior, acelerou a preferência dos brasileiros por carros importados. Ainda que de forma tímida, algumas marcas foram sendo aceitas, como foi o caso da Mazda, Suzuki (Japão); Alfa Romeo (Itália); Mercedes Benz (Alemanha) e outras de menor e maior expressão.
A abertura econômica do governo Collor modificou o mercado brasileiro, permitindo a entrada de veículos importados (G1, 2025; AUTOMOTOR ONLINE, 2025).
O consumo tornou-se símbolo de distinção social (BOURDIEU, 2007).
Vejamos:
A abertura do mercado trouxe grande diversidade de carros ao Brasil
O Brasil experimentou uma revolução em 1990, quando o então presidente Collor declarou seu desprezo por nossos carros, ou melhor, nossas carroças. Com os portos fechados para importações desde 1976, impedindo que qualquer tecnologia estrangeira entrasse no país, as montadoras viam-se obrigadas a trazer maquinários escondidos em bagagens para evoluir minimamente o mercado nacional. Anos antes de sofrer impeachment, Collor percebeu a situação da indústria nacional e abriu os portos.
Apesar disso, disse que, como nossos carros eram carroças, os brasileiros da época deveriam aderir aos carros soviéticos, cujo país só seria dividido um ano depois. Estes seriam os primeiros a chegar ao Brasil. Ironicamente, todos eles tinham mais de uma década de mercado, assim como os carros brasileiros. Mas, também, uma inegável fama de inquebrável, pelo menos no que diz respeito ao Lada Niva, adorado pelos fãs de off-road até hoje.
Mercedes 300 E, primeiro carro que desembarcou no Aeroporto do Galeão após a liberação das importações. Além dos carros da União Soviética, vieram muitos outros. A atitude do governo deixou margem para diversas montadoras explorarem um país gigantesco com mercado ávido por novidades. Se fosse possível voltar no tempo, você poderia ir ao Aeroporto de Campinas no fim da tarde e ficar vendo carros saindo dos aviões como se fossem bagagens. Era tudo novo! Todos queriam um pouco de Europa, Estados Unidos, Suécia.
Veja, a seguir, dez exemplos de carros e fabricantes que chegaram por aqui ou voltaram ao país naquela época, e que logo geraram diversas reações por parte das montadoras nacionais.
Saab (Suécia) Saab 9000
A montadora, que atualmente está nas mãos da controladora chinesa NEVS, chegou no Brasil em 1990 importada pela própria General Motors. Os luxuosos e bem acabados sedãs e conversíveis suecos não vingaram no país, devido à parca rede autorizada. Alguns (muito poucos) podem ser encontrados à venda por cerca de R$ 15 mil. Entre os principais modelos estava o 9000 CD, um sedan com design de forte personalidade, como todo bom Saab da década de 1990.
Alfa Romeo (Itália)
Alfa Romeo 164
Outra marca que chegou ao Brasil pelas mãos de uma marca já presente no Brasil foi a Alfa Romeo. A marca italiana, que já havia produzido por aqui o sedan 2300 até 1986, retornou em 1990 pelas mãos da Fiat, sua proprietária. Todos os holofotes se voltaram para o 164, sedã topo-de-linha da marca. Suas linhas esportivas e retas, assim como suas lanternas estreitas, deram ao sedã linhas marcantes e que até hoje dão ares de alto luxo.
Chevrolet (EUA)
Chevrolet Lumina APV
A Chevrolet estava no Brasil há décadas, é verdade. Mas enquanto a primeira van nacional, a Grancar Futura (feita por uma rede de concessionárias da Ford) chegava ao mercado, fortemente inspirada no então exemplo mundial Renault Espace, a GM trazia ao Brasil esta minivan futurista. A Chevrolet Lumina APV tinha suspensão pneumática, longo para-brisas panorâmico e interior aconchegante. Uma Grand Picasso dos anos 1990. Também pode ser encontrada por aí como Pontiac Trans Sport, seu clone.
Mercedes-Benz (Alemanha)
Mercedes 190 E
O Mercedes 190 E representava o luxo padrão. Não era tão bonito quanto o Alfa 164, mas era chamativo. Era robusto. Era um Mercedes. Produzido na Alemanha, era luxuoso e tecnológico – para a época. Hoje ficaria aquém de qualquer carro da marca. Mesmo assim, em um país onde a maioria dos carros sequer tinha ar-condicionado, era um bom começo. Outras marcas alemãs como BMW e Audi também aproveitaram a deixa para ingressar no mercado brasileiro, onde modelos como o Série 3 e o A4 (Audi 80 àquela época) vendem bem até hoje.
Mazda (Japão)
Mazda MX-3
A Mazda chegou por aqui com uma linha respeitável. O sedan Protège era de design discutível, mas o esportivo MX-3, o pequeno conversível Miata e o sedan de luxo 626 ajudaram a construir uma boa imagem para a Mazda, que saiu do país em 1998 devido ao aumento da taxação para os importados, junto com muitas outras marcas.
Jeep (EUA)
Jeep Grand Cherokee
Dentre os modelos que a Jeep trouxe para cá, o Grand Cherokee foi o mais marcante. Seu design inesquecível e de bom gosto e o interior luxuoso plantaram a semente do conceito de SUV no Brasil. Mesmo com o consumo de 4km/l na cidade, foi o sonho de consumo da classe alta brasileira na década de 1990.
Suzukit (Japão)/Geo (EUA)
Suzuki Swift
O Suzuki Swift era um hatch pequeno de duas portas e de comportamento nervoso. Seu design era chamativo, embora discutível. Era como qualquer carro nipônico dos anos 1990: diferente, e com linhas simples, mas sempre com algo a mais. Era o caso de suas lanternas horizontais na traseira. Moscas brancas como o Swift conversível e o Swift Sedan também chegaram ao Brasil na época, assim como o clássico Vitara.
GEO Metro LSi
Junto dos Suzuki vieram algumas unidades do Geo, uma subsidiária da GM criada naquela década para vender carros low-cost nos EUA. A história da marca no Brasil é um tanto borrada, já que seus carros chegaram por aqui de forma independente. O Geo Metro era um Swift com dianteira própria. Os low-cost da GM também tiveram outras versões vendidas por aqui, como o Swift Sedan (sob o logotipo da Geo) e o Tracker, um Vitara com o símbolo da Chevrolet. A geração seguinte do Vitara chegou a ser fabricada na Argentina, mas após a Suzuki sair do Brasil (em 2001) passou a ser vendida por aqui como Chevrolet Tracker até 2009.
PSA (França)
Citroën XM
A união entre Peugeot e Citroën surgiu no final da década de 1970, e chegou ao Brasil por caminhos distintos. A Citroën chegou pelo Sérgio Habib (que hoje traz JAC e Aston Martin), com carros tão modernos que eram considerados estranhos. O XM, até hoje raríssimo, tinha design futurista e volante que lembrava os da F1. Outras raridades como o hatch AX também chegaram a vir para cá em lotes reduzidos. O hatch médio com jeito de esportivo ZX fez muito sucesso pelo seu desempenho e design. Ao longo dos anos, vieram o Xantia – com suspensão pneumática ajustável –, Xsara e Xsara Picasso, este último “Made in Brazil”.
Peugeot 205
Já a Peugeot chegou por aqui com o 205, um hatch conhecido pelo sucesso em diversos ralis internacionais, graças a suspensão independente nas quatro rodas. Sua versão civil, no entanto, era bem europeia. Linhas retas e simples, com traseira fria e interior funcional, além de vários equipamentos de série e desempenho impressionante. O primeiro 106 também tinha essa fórmula, mas era o hatch de entrada da Peugeot. Com maçaneta à la Mille duas portas, vendeu pouquíssimo, ao contrário de seu sucessor de 1999. O sedan 405 e a picape 504, com design dos anos 1960, também figuravam na linha Peugeot.
Lada (União Soviética e, posteriormente, Rússia)
Foi a primeira montadora “estrangeira” a desembarcar para o Brasil. E havia sido a escolhida pelo governo para representar o início das importações. Cá entre nós, péssima escolha… Dentre tantos modelos da Cadillac, Buick e Maserati no Salão de São Paulo, a Lada era uma montadora soviética com carros da década de 1970 e 1980, mas estrutura baseada em projetos da Fiat ainda mais antigos. O segredo deles era, no entanto, uma durabilidade sem igual, requisito obrigatório em países comunistas. O problema no Brasil apareceu anos depois: o pós-venda.
O sedã Laika, além de sua versão perua, homenageava a cadela que foi lançada no espaço sideral na década de 1960 pela União Soviética, quando o ex-país testava a nocividade do universo para os seres terrestres. O hatch Samara, raro até hoje (neste caso, pela qualidade duvidosa), era uma opção compacta. Já o Niva era um jipe off-road que fez sucesso em várias competições internacionais e é produzido até hoje (sairá de linha em 2016). Com o passar dos anos, a Lada passou a vender apenas o Niva por aqui, já que muitos amantes das trilhas o consideravam a melhor escolha para enfrentá-las. A Lada permaneceu no país até 2002. De tempos em tempos ressurge o rumor de sua volta ao Brasil (algo como a volta do Gol GTI).
Ferrari (Itália)
Essa não poderia ficar de fora. A F40 veio ao Salão de São Paulo a caráter de formar uma boa imagem para a marca no Brasil. Deu tão certo que o modelo se tornou uma referência quando se fala da marca. Tanta potência combinada a uma cabine tão espartana quanto um carro soviético, foi a estrela do Salão de 1990. A carroceria marcante pelo design e pelo aerofólio gigante e o motor traseiro só reforçaram a imagem premium da Ferrari por aqui. Hoje, a Ferrari já vendeu milhares de carros no Brasil, após 22 anos presente em solo brasileiro4.
Com isso é possível concluir que a era “Collor” mudou o conceito dos consumidores de veículos nacionais, passando a ser consumidores de veículos importados. Isso era simplesmente chik, e levava o consumidor a uma sensação de status social. Fato semelhante ocorreu com as canetas Mont Blanc,5 embora seja possível estimar que há mais veículos importados do que usuários de canetas da marca citada, e é possível concluir que o padrão de consumo vira referência de ascensão social.
Síndrome de Burnout
Síndrome de Burnout6 ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho.
Essa síndrome decorre na verdade da “febre consumista”, levando o indivíduo a uma auto subordinação, com a proposição de trabalhar mais e mais, para alcançar o poder de compra daquilo que praticamente não usará, provocando um deslocamento social do indivíduo, vivendo ao mesmo tempo um isolamento enorme, o que leva a própria sociedade consumista a uma lesão séria por viver uma supressão da vida.
A síndrome decorre do excesso de trabalho aliado à cultura consumista (CODO, 2006; PIRES; SANTOS, 2020). A busca incessante por consumo gera esgotamento emocional (FREUDENBERGER, 1980).
INTERAÇÃO SOCIAL E EXCESSO DE CONSUMO
A falta de interação entre as pessoas induz a um consumo exacerbado colocando em exposição a própria vida privada, em face de um consumo imaterial, perdendo-se com isso os limites da privacidade via telefone celular, com aplicativos como tik-tok, Instagram, WhatsApp, muitas vezes com a exposição até da pessoa amada. A perda da privacidade, fato ocorrido com o dispositivo Alexia que serviu de testemunha de um determinado homicídio é um exemplo disso.
BINÔMIO: PRIVACIDADE E CONSUMO
Com a entrada do uso do telefone celular, acredita-se que atualmente o número de aparelhos supera o número de habitantes do país, o que leva a uma estatística7 onde 96% dos brasileiros são possuidores de redes sociais. Ocorre que o ritmo da vida é o “pano de fundo” que acaba extirpando o senso crítico, sem a devida percepção crítica e reflexiva que ocorre no entorno do indivíduo, não havendo o poder de escolha.
O uso massivo de celulares e redes sociais intensifica a vulnerabilidade do consumidor (IBGE, 2025). A crítica comportamental é substituída pelo impulso de pertencimento (BAUMAN, 2008).
A vulnerabilidade está na inferioridade do senso crítico, pois o consumidor consumista compra tudo somente pelo preço, não importando se o que compra tem utilidade ou não, ou seja, não faz a avaliação da necessidade, exercita apenas um mecanismo do subconsciente cuja escolha decorre do anúncio.
Vale ressaltar que a criticidade comportamental leva o consumidor (indivíduo) a uma servidão sem limites, ou seja, não há uma satisfação ao menos permanente por um determinado tempo razoável. Por sua vez, desenvolve-se com isso uma cultura de autonomia, porém sem responsabilidade.
Pode-se afirmar que há uma omissão voluntária do livre arbítrio nas escolhas, porque o indivíduo cultua sempre a necessidade de preencher um vazio que ele (indivíduo) não sabe qual é. Tudo o que lhe é apresentado para se manter “moderno” ou para pertencer a um determinado grupo, torna-se para ele (indivíduo) uma necessidade.
VULNERABILIDADE E VISÃO CRÍTICA
O consumismo exagerado e essa necessidade interminável de “fazer parte ou pertencer” a um determinado grupo, reduz em muito a visão crítica do indivíduo. Quando isso ocorre é o momento necessário para se adequar a uma cultura média da sociedade, ou seja: será que todos estão no mesmo estágio de insatisfação? Será que há uma contribuição social na consciência do indivíduo ou será que a sociedade está alienada a tudo isso?
O consumismo exagerado reduz a visão crítica e a autonomia (BLACKWELL; MINIARD; ENGEL, 2008).
Esse fenômeno evidencia a alienação social (GOFFMAN, 1985).
Quando analisamos situações assim no Brasil, é possível concluir que o país vive uma crise muito mais social do que racial, pois o consumo de tudo isso é o consumo de bens imateriais oferecidos pelos “sistemas de comunicação”, haja vista que o anunciante busca sempre alcançar o maior público possível. O conceito de classe está superado e esse fenômeno não é tão recente porque as pessoas estão focadas no objetivo comum.
O CONSUMISMO PELA FÉ
O consumo normalmente depende da necessidade do indivíduo. Porém nos últimos anos, durante a pandemia e período pós pandemia surgiu uma forma consumista diferente daquela usual em que o indivíduo busca a satisfação do seu “ego” como sendo um conforto, sempre momentâneo, gerando um consumo sem limites.
Com o noticiário que estarrecia a população em geral, de que a morte estaria próxima, houve num determinado credo religioso, uma invenção consumista em que o líder religioso prometia a proteção contra o Coronavírus 19, vendendo um quilo de feijão a “preço de ouro”.
A corrida para a aquisição desse “produto milagroso8” da preservação da saúde, foi um fato que surgiu pelo convencimento da pregação do Evangelho de Cristo, em que os fiéis acreditavam piamente no milagre da preservação da vida. Por sua vez, é possível concluir que independentemente da utilidade do bem adquirido, o indivíduo consome diante de uma necessidade do conforto psicológico, afastando o medo de contrair a doença, assim como de preservar a própria vida.
A fé (crença) de que o produto “feijão” era o único antídoto que preservaria a saúde, foi simplesmente o uso de técnica de venda, onde a espiritualidade foi fartamente usada para a obtenção do bem material que foi o dinheiro. É interessante perceber que esse consumo induziu os fiéis a desembolsarem valores significativos, simplesmente porque acreditavam na espiritualidade religiosa, ou seja: a crença em Deus para essas pessoas é muito mais forte do que a ciência.
Durante a pandemia, práticas religiosas exploraram a vulnerabilidade emocional das pessoas (MARIANO, 2014). A fé manipulada torna-se ferramenta de consumo psicológico (PIERUCCI, 1998).
O ESPORTE E O CONSUMO
Outro fator preponderante para a indução do consumo é a prática esportiva exercitada pelos ídolos dos torcedores. Independentemente de o clube ser campeão ou não, há uma influência das celebridades esportivas que induzem o torcedor a adquirir produtos do seu time preferido, inclusive com uniforme que tenha no seu costado a mesma numeração do ídolo.
É interessante que para o torcedor, o ídolo é sempre uma pessoa venerada, sem defeitos e modelo de homem ou mulher a ser seguido. Ídolos esportivos influenciam comportamentos e estimulam o consumo de produtos relacionados (KOTLER; KELLER, 2019). Na maioria das vezes o fã não conhece a vida do ídolo fora dos gramados ou das quadras. Não importa a sua postura diante da sociedade ou do Estado. O que importa para o fã é a “pureza” e o sucesso que conquistou com a prática esportiva, levando boa parte do torcedor a adquirir uniformes, calçados, souvenirs da equipe do ídolo. Esse consumo surge apenas de uma necessidade psicológica de bem-estar e de demonstração da sua preferência e pertencimento a um determinado grupo (torcedores), independentemente da convivência ou não, alimentando dessa forma apenas o consumismo.
O PASSADO E O PRESENTE
Nos últimos 40 (quarenta) anos, os interesses na avaliação do indivíduo, é muito mais variável. As pessoas mudam de grupos com muita facilidade, dada à própria vulnerabilidade na ânsia de “pertencimento”, podendo o indivíduo se distanciar com facilidade ou se aproximar com mais determinação. Depende muito do momento em que se identifica com determinada preferência de consumo.
Por exemplo, um grupo de motoqueiros. Normalmente é formado por indivíduos que têm na sua concepção que é a melhor forma de marcar sua personalidade com mais visibilidade, dada à singularidade do próprio grupo, levando quase sempre a um grau de cumplicidade, onde, independente do conhecimento dos indivíduos do próprio grupo, é capaz de empreender todo sacrifício possível para dele ser parte, se tornando quase uma cultura tribal.
INFORMAÇÃO E PUBLICIDADE
A informação é sempre o quesito necessário para a escolha de determinado bem de consumo, porém, normalmente a informação decorre da própria publicidade do bem, ou seja: se a publicidade entrar no “radar perceptivo” do indivíduo, a informação pode ser recebida de maneira diferente entre um e outro. Depende muito do grau de interesse de cada um, face à capacidade de compreensão.
A publicidade molda percepções e influencia decisões (KELLNER, 2001; PEREZ, 2017). A recepção da informação varia conforme o repertório cultural.
Conclusão
Hoje se vive uma fragmentação social onde o excesso de consumo sequer proporciona a proteção da dignidade humana, face à falta de percepção dos efeitos causados pelo próprio excesso, o que interfere na própria cultura consumista produzida pelas atitudes do indivíduo.
A fragmentação social está ligada ao excesso de consumo, que fragiliza a dignidade humana (BAUMAN, 2008).
O limite de tudo isso estará no momento em que o indivíduo percebe que, o que efetivamente é necessário, é muito menos do que supôs que era, ou seja: quando souber distinguir as prioridades que efetivamente são necessárias para uma vida em que o livre arbítrio responsável, o faz crer que passou boa parte da vida tentando se adequar a uma ilusão em que descobre que foi escravo dos seus “caprichos” por muito tempo, despendendo energias que ao final o tornou submisso do jogo consumista.
Por sua vez, a satisfação pessoal e a vontade de “pertencer” a qualquer casta ou grupo social, a cada dia o homem se torna escravo de si mesmo, por não entender que a vida em si, não se resume a caprichos, mas ao que mais importa, é ter dignidade conquistada pelo caráter, e não por aquilo que usa, consome ou que o inclui em determinado grupo pensando que o pertencer o faz melhor.
1têxtil (indústria) tecido de algodão durável, de trama grossa, trançado de modo especial (brim, fustão, ganga ou zuarte), freq. tingido de índigo, us. orign. na confecção de roupas de trabalho (macacões e uniformes).
2https://pt.wikipedia.org/wiki/Lee_(marca)
3https://pt.wikipedia.org/wiki/Renault_Dauphine
5https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Branco
6https://www.google.com/search?q=significado+de+burnout+em+portugu%C3%AAs
7https://www.poder360.com.br/brasil/brasil-e-o-3o-pais-que-mais-usa-redes-sociais-no-mundo/
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