O USO DE CÉLULA-TRONCO NA ENDODONTIA REGENERATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301320


Tássia Barroso de Carvalho
Jhennyfer Karoline Lopes Filgueiras
Orientadora: Profa. Esp. Joyce Gorayeb Gimenez


RESUMO

Com o avanço nos estudos acerca do potencial das células tronco, surge um novo conceito na odontologia: endodontia regenerativa (ER). Essa nova modalidade parte da premissa que células tronco extraídas e cultivadas em laboratório possam renovar o tecido pulpar, sendo uma alternativa ao tratamento endodôntico. Até o momento, os estudos são recentes e ainda apresentam dificuldades, mas os primeiros resultados se mostram promissores. O objetivo principal deste estudo é elucidar o conceito de Endodontia Regenerativa, utilizando como método o uso de células tronco. Para a realização da presente revisão, foram analisados artigos gratuitos, em português e inglês, publicados de 2000 – 2025, na PubMed, BVS e Google Scholar, usando as palavras-chave “células tronco” AND “Endodontia Regenerativa”. Por fim, essa nova modalidade de endodontia chamada regenerativa apresenta resultados interessantes, apesar de poucos estudos terem sido feitos até o momento. Ainda assim, sugere-se que mais estudos sejam realizados. Por fim, a presente revisão de literatura pôde evidenciar do que se trata este novo ramo da odontologia chamado “endodontia regenerativa” e explicitar os preceitos da técnica, visando sua aplicabilidade no futuro.

Palavras-chave: “células tronco” AND “Endodontia Regenerativa”.

ABSTRACT

Considering the advances in the studies concerning the potential of the stem cells, it is rising a new concept on the odontology: Regenerative Endodontics (RE). This new type comes with the premise which stem cells extracted and sown in labs can renovate the pulp tissue, being an alternative to the endodontic treatment. Until this moment, the studies are recent and still show troubles, but the first results are positives. The main objective on this research is to clarify the concept of Regenerative Endodontics, using as a method the use of stem cells. To conduct this review, it was analyzed free articles in Portuguese and English, published between 2000 – 2025, on PubMed, BVS and Google Scholar, using the key words “stem cells” and “Regenerative Endodontics”. Finally, this new type of endodontics called regenerative shows some interesting results, considering few studies were make until now. Still, it suggests that more studies can be made. By the end, this literature review could highlight what is this new branch of dentistry called “regenerative endodontics” and explain the principles of the technique, aiming your applicability in the future.

Keywords: “stem cells” AND “Regenerative Endodontics”.

1. Introdução

Segundo a Associação Americana de Endodontia, “A endodontia é a especialidade da Odontologia que trata da prevenção, diagnóstico e tratamento das enfermidades da polpa e de suas repercussões sobre os tecidos da região periapical.” Essa especialidade é fulcral para a saúde bucal do paciente, visto que o complexo pulpar é ricamente inervado e vascularizado e, se debilitado de qualquer forma, provoca uma resposta inflamatória que tem como principal sintoma a dor, prejudicando a qualidade de vida. Por isso ao longo dos anos foram desenvolvidas novas técnicas, tecnologias e instrumentais para garantir o sucesso dos procedimentos relacionados à endodontia. 

A partir dos novos conhecimentos, um novo ramo da endodontia surgiu: a endodontia regenerativa (ER). Esse conceito surge como uma alternativa ao tratamento endodôntico tradicional, em que há a necessidade de remover o tecido pulpar por meio de processos físicos e químicos, substituindo o tecido retirado por um material artificial biocompatível.  

“A endodontia regenerativa visa restaurar a vitalidade da polpa dentária por meio da aplicação de células-tronco, fatores de crescimento e biomateriais que mimetizam o ambiente pulpar original” (Murray et. Al. 2007)

A premissa da ER é que apenas o foco infeccioso seja retirado e, por meio de células-tronco devidamente tratadas, o tecido pulpar possa se regenerar e voltar à homeostase. Os estudos sobre a eficiência e viabilidade desse tipo de técnica são novos, sendo datados a partir de 2018 e, por conta de sua inovação, não se pode assegurar sua eficiência à longo prazo, mas os primeiros resultados se mostraram promissores. 

As células-tronco (CT) têm um potencial de diferenciação que faz com que a célula amadureça, tomando a forma de qualquer outra do corpo humano, o que a faz ter um imenso potencial na medicina e na odontologia em relação à regeneração de tecidos. As CT podem ser embrionárias, ou seja, encontradas no feto em formação, e esse tipo de célula possui um poderoso fator de diferenciação, porém ainda há um grande embate ético sobre seu uso nas ciências. Mas também há células-tronco adultas, localizadas na medula óssea, glândulas salivares, ápices dentários e glândulas dentárias. As células adultas têm um potencial menor, mas ainda podem se diferenciar e regenerar tecidos. Nas palavras de Grontos, em 2004, “Células-tronco derivadas da polpa dentária (DPSCs) apresentam uma notável capacidade de diferenciação em odontoblastos e regeneração da dentina.” Na ER são usadas células tronco vindas da cavidade oral pela compatibilidade do meio e viabilidade de colheita do material, tornando o processo mais fácil. 

No entanto, a endodontia regenerativa ainda possui diversos desafios a serem ultrapassados, incluindo principalmente o cultivo das células fora de seu meio natural, ou seja, fora da cavidade oral. Para que as CT possam ser inseridas com sucesso na polpa dentária, precisa de um “andaime”, uma estrutura compatível com o meio e com as células, em que possam se apoiar e sobreviver até sua aplicação. Uma das barreiras da ER é a dificuldade de manuseio e armazenamento das células e seus andaimes, bem como os custos do procedimento em sua integralidade. Huang (2009), diz que a combinação das células-tronco com scaffolds – andaimes – tem sido uma estratégia promissora para a reconstrução de polpa e dentina.

O objetivo da presente revisão de literatura é analisar os estudos realizados sobre a aplicabilidade de células-tronco na endodontia regenerativa, comparar tipos de materiais utilizados e relatar os resultados obtidos até o presente momento, incluindo as dificuldades encontradas no processo e avanços tecnológicos relacionados. Também se dá como objetivo conceituar os tipos de células tronco e suas classificações, mostrando sua importância no processo e apontar casos em que o uso da técnica regenerativa foi bem-sucedido, em alternativa ao procedimento endodôntico tradicional.

O objetivo da presente revisão de literatura é conceituar as células-tronco, bem como suas classificações e aplicabilidades; 

2. Objetivos

2.1 Objetivo Geral

Realizar uma revisão de literatura narrativa acerca de identificar o conceito de Endodontia Regenerativa, utilizando como método o uso de Célula Tronco.

2.2 Objetivos Específicos

a) Explicar o que é Endodontia Regenerativa.

b) Conceituar os tipos de células tronco existentes e a sua importância para o sucesso da técnica;

c) Apresentar casos clínicos em que a técnica regenerativa foi um sucesso em alternativa ao tratamento endodôntico tradicional;

d) Discutir os desafios e limitações atuais para a aplicação clínica das terapias regenerativas baseadas em células-tronco.

3. Metodologia

Esta pesquisa foi realizada através de artigos científicos fundamentados nas bases de dados via PubMed (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico. Para a busca dos artigos fez-se uso das palavras-chaves “Endodontia Regenerativa” AND “Células Tronco”. Foram utilizados critérios de inclusão: recorte temporal entre os períodos de 2000 a 2025, revisão de literatura e relatos de casos em português, inglês e espanhol. Foram desconsiderados artigos duplicados, trabalhos de conclusão de curso, monografias e estudos defasados pela comprovação científica.  Inicialmente foram encontrados 300 artigos, porém com a aplicação dos critérios de inclusão/exclusão, apenas 17 artigos foram selecionados, sendo 11 revisões de literatura e 6 relatos de caso. Porém foram observadas lacunas no método científico, então foram selecionados mais artigos, sendo selecionados a partir dos critérios de busca mais a leitura do resumo e sua relevância à pesquisa, findando em 33 artigos. 

4. Referencial Teórico

4.1 Célula Tronco

4.1.1. Referencial histórico

As células tronco (CT) são células com alto potencial de diferenciação, ou seja, capacidade de se transformar em qualquer outra célula do corpo. Dessa forma, essas células têm grande utilidade na medicina e odontologia. (Watt; Hogan. 2000)

A primeira vez que as CT foram citadas na literatura foi em 1868 por um biólogo alemão chamado Ernst Haeckel, para descrever um óvulo fertilizado, mas também para descrever a célula matriz que origina todas as outras. Depois de sua descoberta, diversos outros estudos em diversos campos da ciência evidenciaram, de fato, a existência de uma célula primitiva que daria origem a todos os outros tipos celulares necessários em um organismo multicelular. (Haeckel, 1968, APUD. Maehle,2011)

Depois de um salto no tempo, em primeiro de junho de 1909, Alexander Maximow, pesquisador russo, falou à Sociedade de Hematologia de Berlim sobre sua teoria de que todas as células sanguíneas provêm de uma única ancestral comum, introduzindo o conceito de células-tronco hematopoiéticas multipotentes, ou seja, capazes de se diferenciar em qualquer tipo de célula. (Maximow, 1909, APUD Fliedner,1998)

Em 1957, o médico e cientista Thomas E. Donnal tenta o primeiro transplante de medula óssea do mundo, na cidade de Seattle, Estados Unidos. Anos depois, ele ganha o Prêmio Nobel por seu feito, em 1990. “Foi tentada a infusão intravenosa de medula óssea em pacientes submetidos à radiação e quimioterapia, com o objetivo de restaurar a função hematopoiética.” (Thomas et al., 1957).

Porém, é apenas em 1968 que o primeiro transplante de medula óssea é bem-sucedido, realizado em uma criança com uma deficiência imunológica que já havia ceifado a vida de outros membros de sua família. O paciente, que recebeu o transplante de sua irmã, teve uma vida saudável após o procedimento. 

Com esse marco histórico, os estudos acerca do poder das CT foram amplamente aprofundados, com o objetivo de viabilizar ainda mais tratamentos médicos e prolongar a vida de pacientes. Em 1981, Martins Evans, da Universidade de Cambrigde, e Gail Martin, da Universidade da Califórnia, realizaram estudos semelhantes em roedores e obtiveram células tronco pluripotentes a partir de embriões de camundongos. Estas são as primeiras células tronco embrionárias a serem isoladas.

No ano de 1986, Lassar et. Al. têm sucesso ao converter fibroblastos – células conjuntivas – em mioblastos – células musculares –, utilizando um único gene. A descoberta de que é possível transmutar uma célula adulta em outra célula adulta é um grande avanço na medicina regenerativa.

Em 1991, Arnold Caplan introduz o termo “células tronco mesenquimais”, que seriam células tronco sem ter origem hematopoiética. Em seis de novembro de 1998, uma equipe universitária liderada por James Thomson e Jeffrey Jones isola a primeira linhagem de células tronco embrionárias humanas. Tal feito é capaz de comprovar o enorme potencial de diferenciação destas e comprovar seu possível uso em terapias celulares.

Após esse marco no estudo das CT, milhares de pesquisas voltadas ao seu uso na medicina foram desenvolvidas e permanecem em expansão até os dias atuais, impulsionadas pelo avanço de tecnologias capazes de coletar e armazenar essas células, tanto para fins de estudo quanto para aplicações terapêuticas e transplantes. É notável que, desde a primeira descrição oficial das células-tronco, seu estudo tenha se difundido amplamente. Apesar de se tratar de uma descoberta relativamente recente, já existem inúmeros trabalhos e testes que comprovam seu grande potencial. Isso se deve, sobretudo, à capacidade singular das células-tronco de regenerar tecidos, podendo diferenciar-se em células de áreas lesionadas. Nesse contexto, surge a perspectiva de regenerar tecidos inteiros e até mesmo viabilizar o cultivo de órgãos saudáveis para transplantes.

Atualmente, as CT são tão integradas à medicina que transplantes de medula óssea são realidade em milhares de hospitais em todo o mundo e são responsáveis pela saúde de milhões de pessoas. Na odontologia, entretanto, o estudo sobre o uso de células tronco ainda é relativamente novo, e testes envolvendo as células ainda estão sendo aplicados e seus resultados ainda seguem em análise, apesar de ser uma promessa promissora.

4.1.2. Tipos de células tronco

Apesar de todas as CT terem um alto potencial de diferenciação, não se pode considerá-las um grupo único e homogêneo. Essas células podem ser diferenciadas e, portanto, classificadas de acordo com algumas especificidades: sua origem e seu potencial de diferenciação. 

4.1.2.1 Classificação 

Segundo Vogel (2000), a classificação das células-tronco quanto à sua origem abrange dois grupos principais: as embrionárias, obtidas a partir da massa celular interna do embrião, e as adultas, isoladas de tecidos já diferenciados do organismo. Contudo, de acordo com o potencial de diferenciação, tem-se as seguintes classificações.

Células tronco totipotentes: Consideradas por alguns estudiosos como as células com maior potencial, essas CT se encontram no momento inicial da formação do indivíduo: o zigoto. Esse tipo de célula tem capacidade de diferenciação tamanha a ponto de ser capaz de formar tanto o embrião quanto a placenta, ou seja, tanto a célula quanto o meio extracelular. O que significa que as células totipotentes podem formar qualquer tecido do corpo humano, seja na fase adulta ou no desenvolvimento fetal. 

Nas palavras de Robey, essas células só podem ser encontradas na fase inicial do desenvolvimento embrionário, durante as primeiras mitoses do zigoto. Estima-se que essa célula está no estágio posterior ao zigoto, chamado mórula, e apresenta de 16 até 64 células. 

Células tronco pluripotentes (CTP): Esse tipo de célula pode se diferenciar em qualquer outra célula do corpo, independentemente de ser endoderma, mesoderma ou ectoderma. As CTP são encontradas em embriões, haja vista que esse tipo de célula é fulcral para o desenvolvimento dos diferentes tipos de tecido do feto, exceto o tecido da placenta. De acordo com Gage, em 2000, esse tipo de célula está presente, ainda que em pouca quantidade, em indivíduos adultos, especialmente na medula óssea. As células pluripotentes têm grande aplicabilidade na medicina, apesar de questões éticas e legais impedirem o uso, exceto quando as CTP são advindas da medula óssea.

Para tornar viável, ética e legalmente, o uso desse tipo de célula, novos estudos apontam para uma CTP artificial, sendo gerada a partir de uma célula tronco adulta e modificada em laboratório. Os estudos acerca da possibilidade de produção dessa célula e seu uso na medicina ainda são recentes, porém promissores. (Gomes, et. Al. 2017)

Células tronco multipotentes: Diferente das CTP, as células multipotentes são encontradas no indivíduo adulto e não têm a capacidade de diferenciação tão elevada, podendo se transmutar em apenas determinados tipos de células. Segundo Gage, em 2000, essas células são encontradas em diversos órgãos e só conseguem se diferenciar em células pertencentes ao seu órgão de origem. Ou seja, caso um órgão sofra determinada lesão, haverá uma célula multipotente programada para se transformar em uma célula daquele mesmo órgão. Porém, muitas pesquisas têm tentado derrubar essa classificação, pois as células neurais, que deveriam ser consideradas multipotentes, têm potencial semelhante ao de uma CTP, aos olhos de Clarke et. Al, em seu artigo publicado em 2000.

5. Endodontia Regenerativa 

De acordo com Martins et al, seu artigo artigo publicado em 2023 a endodontia regenerativa representa um campo inovador da odontologia que busca restabelecer a vitalidade pulpar por meio de técnicas biológicas capazes de promover a formação de tecidos semelhantes aos originais. Essa abordagem surge como alternativa aos tratamentos convencionais, principalmente em dentes imaturos com necrose pulpar, em que o prognóstico é frequentemente desfavorável.

O presente estudo de revisão integrativa examinou distintas metodologias e os resultados obtidos em pesquisas relacionadas ao tema. Verificou-se, conforme Silva, Oliveiras e Santos (2020), que os protocolos de desinfecção intracanal exercem papel determinante para êxito clínico dos tratamentos, sendo enfatizado o emprego de pastas antibióticas e soluções irrigadoras com menor citotoxicidade. Além disso, os autores ressaltam que a indução do sangramento periapical constitui uma etapa imprescindível para o desenvolvimento de um arcabouço celular capaz de favorecer o processo de regeneração tecidual.

De acordo com Almeida et al. (2019), outro ponto de destaque na literatura refere-se à análise comparativa entre diferentes materiais seladores e biomateriais, como MTA e o Biodentine, que têm demonstrado resultados promissores quanto à indução da formação de tecidos mineralizados. Para Martins et al. (2023) observam que ainda há divergências relacionadas à padronização dos protocolos clínicos e laboratoriais, o que reforça a necessidade de realização de um maior número de ensaios clínicos randomizados a fim de consolidar a evidência científica disponível sobre o tema.

De modo geral, a literatura aponta que a endodontia regenerativa tem potencial para modificar o paradigma da terapia endodôntica tradicional, embora ainda existam desafios a serem superados, especialmente relacionados à previsibilidade dos resultados e ao tempo de acompanhamento clínico.

5.1 ER: Diferentes abordagens

A endodontia regenerativa tem como finalidade principal restabelecer os tecidos pulpares e periapicais comprometidos por meio de substituição biológica, fundamentada no uso de células-tronco mesenquimais e em estratégias de engenharia tecidual. Pesquisas apontam que essas células apresentam elevada capacidade de autorrenovação e diferenciação, características que as tornam promissoras para aplicações terapêuticas, conforme discutido por Bydlowski et al.,  (2009) e por Rosales et al., (2015).

Na literatura, destacam-se duas abordagens centrais dentro dessa área. A primeira refere-se aos procedimentos endodônticos regenerativos (REP), que visam promover o fechamento apical pela indução de sangramento e formação de um coágulo intracanal. A segunda abordagem corresponde à regeneração pulpar guiada, cujo propósito é a obtenção de um tecido pulpar funcional, com vascularização e inervação, a partir de cultura celular. Essa distinção é discutida por Nosrat et al. (2015) e por Yan et al. (2023).

Os REP apresentam protocolos clínicos mais consolidados e demonstram resultados positivos em dentes imaturos necróticos com rizogênese incompleta. Estudos citados por De Jesus Soares et al. (2012) relatam aumento do comprimento radicular, espessamento das paredes dentinárias e fechamento apical, embora o tecido neoformado não corresponda integralmente ao complexo dentina-polpa original, como observado por Altaii, Richards e Rossi-Fedele (2017).

Em contraste, a regeneração pulpar guiada permanece em estágio predominantemente experimental. Trabalhos desenvolvidos por Gronthos (2000) e Miura (2003) indicam avanços significativos em ambiente laboratorial, especialmente no uso de biomateriais, scaffolds e células-tronco provenientes da polpa dental e de dentes decíduos. Apesar disso, a quantidade de ensaios clínicos ainda é reduzida, embora resultados preliminares apontados por Nakashima et al. (2017) revelam grande potencial para sua futura aplicação clínica.

Mesmo diante dos avanços recentes, persistem desafios relacionados à padronização dos protocolos, à biocompatibilidade dos materiais utilizados e à previsibilidade dos resultados obtidos. Assim, embora os REP já se configuram como uma alternativa clinicamente viável, a regeneração guiada ainda demanda progressos no campo da bioengenharia e maior quantidade de ensaios clínicos randomizados para que possa ser consolidada como uma opção terapêutica aplicável na prática odontológica.

6. ER: estudos clínicos

Com a descoberta do uso das células tronco na odontologia, iniciou-se uma empreitada para que os procedimentos fossem viáveis e com altas taxas de sucesso. O primeiro teste foi realizado em 2001, por Iwaya e sua equipe e publicado na Dental Traumatology. O caso descreveu um pré-molar necrótico com ápice aberto em um paciente de 13 anos. O tratamento tinha a intenção de utilizar as células tronco multipotentes que se encontram no ápice dentário, fazendo com que essas células se diferenciem em uma polpa saudável e o fechamento do ápice ocorra de forma natural. O tratamento consistiu na limpeza do canal, aplicação de medicação a base de hidróxido de cálcio, estímulo ao sangramento advindo do ápice e selamento do canal radicular com coágulo sanguíneo rico em células tronco advindas do ápice. O paciente foi acompanhado por 30 meses e as radiografias apresentaram resultado positivo. Ao longo do tempo, o ápice do elemento realmente terminou seu fechamento e as paredes do canal ficaram consideravelmente mais espessas. Considera-se, por fim, que as células tronco adultas que estavam presentes no ápice dentário se diferenciaram em tecido pulpar saudável ao longo do acompanhamento, fazendo inclusive com que o processo de fechamento do ápice pudesse ser concluído. 

Esse tratamento foi considerado revolucionário, pois abriu uma nova era de possibilidades ao tratamento endodôntico tradicional. Iwaya e sua equipe descobriram um modo de tratar um dente com raiz incompleta, desde que o ambiente do interior do conduto seja mantido livre de infecções. Os estudos que vieram a partir desse marco deram origem ao que hoje se tem como Endodontia Regenerativa. 

De acordo com Nandini, em seu estudo de 2018, a Endodontia Regenerativa a partir de coágulos sanguíneos pode apresentar vários percalços. Há uma grande possibilidade de rejeição e de perda de células indiferenciadas durante o procedimento, resultando assim em sua falha. Porém, o mesmo estudo diz que as chances de sucesso aumentam se as células tronco forem ancoradas em um material biomimético de apoio, os andaimes. Esses materiais podem ser plasma rico em fibrina ou uma esponja de colágeno, ou até mesmo um material sintético que imite as características necessárias. Essa nova percepção seria aproveitada quando o elemento dentário não possuísse um ápice saudável ou rico em células tronco, inviabilizando a provocação ao sangramento e formação do coágulo. O objetivo do uso desses andaimes é que as células tenham um lugar para se fixar e sobreviver durante o armazenamento. Esses materiais também podem ser modelados, facilitando a colocação no interior dos condutos. Porém os estudos clínicos com essa nova abordagem ainda são muito recentes e sua eficácia não pôde ser corroborada pela prática, devido a falta de estudos randomizados, nas palavras de Nandini.

Já em 2024, um novo caso mostra o poder da Endodontia Regenerativa e como a utilização dos andaimes pode aumentar exponencialmente a taxa de sucesso, realizada por Liu et. Al. A paciente foi uma mulher de 31 anos, com elemento 35 em necrose pulpar com ápice aberto. Seu relato era de dor oclusal há pelo menos cinco anos. Nos exames realizados inicialmente, foi comprovada a uma extensa lesão periapical e lesão periodontal associada ao mesmo elemento. Seu tratamento consistiu inicialmente no acesso ao dente 35, limpeza do canal com uma solução de Hipoclorito de Sódio 1%, seguida por solução salina estéril. Após secagem do canal, este foi vedado com pasta de hidróxido de cálcio e, por fim, o elemento foi fechado com obturador provisório. Enquanto o elemento era mantido fechado, foi realizada a extração do elemento 28, que não apresentava quaisquer lesões e o elemento extraído foi limpo e processado para a cultura celular. Após desinfecção satisfatória do siso extraído, ele foi cortado longitudinalmente e com ajuda de micropinças, foi retirado tecido pulpar do elemento. 

O tecido pulpar extraído, por sua vez, também passou por processos físicos e químicos antes de ser adicionado ao andaime escolhido, chamado LPCGF. Na terceira sessão, enfim, o complexo formado pelas células e pelo andaime foi injetado no canal radicular, até 3mm abaixo da JCE e fechado com cimento de ionômero de vidro. Importante ressaltar que a lesão periodontal foi tratada paralelamente a Endodontia Regenerativa.

A paciente foi acompanhada durante doze e meses, durante os quais foi observado significativo espessamento nas paredes do canal, bem como leve alongamento da raiz e fechamento do ápice outrora aberto e melhora expressiva da lesão periapical.

O caso apresentado, apesar de promissor, foi um dos pioneiros na Endodontia Regenerativa realizada com o auxílio de andaimes. Todo o processo, de forma geral, acaba se tornando longo e difícil, por conta de todos os processos que são fulcrais para o sucesso da técnica. O fato de serem necessárias diversas etapas laboratoriais tornam essa técnica muito delicada e custosa, financeiramente, o que pode impedir que o procedimento possa ser realizado fora do ambiente acadêmico. Ainda assim, há a esperança de que dentes antes considerados “mortos” possam voltar à vitalidade, o que acompanha os novos preceitos da Odontologia como um todo, que é a preservação do elemento.

7. Considerações Finais

A partir dos expostos, considera-se que o uso de células tronco na Endodontia regenerativa é um novo paradigma na odontologia. Os resultados dos primeiros testes mostram resultados promissores em relação aos novos preceitos da área, que é preservar o elemento dentário sempre que possível. A técnica chamada REP é a que mostra mais viabilidade clínica, visto que precisa “apenas” de um estímulo ao sangramento do ápice dentário. Porém essa técnica apresenta algumas barreiras, como casos em que o ápice não é saudável para a formação do coágulo. Para suprir esses casos, a técnica guiada se mostra atraente, porém a complexidade de sua realização e os custos necessários fazem com que atualmente só seja aplicável a nível acadêmico. Sugere-se que mais estudos sejam feitos na área, com o fito de buscar a viabilidade do tratamento.

8. Referências

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