APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS DO OZÔNIO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

THERAPEUTIC APPLICATIONS OF OZONE: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511301303


Julia Thomann Dias1
Thaís Duarte Bifano2


Resumo

Este trabalho apresenta uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, exploratório e analítico acerca da utilização terapêutica do ozônio. O objetivo central foi reunir, sistematizar e avaliar criticamente o conhecimento científico disponível sobre suas aplicações clínicas, mecanismos de ação, eficácia, limitações, riscos e controvérsias. O uso do ozônio na área da saúde ganhou destaque após a Segunda Guerra Mundial, impulsionado pelo trabalho do físico e dentista alemão Joachim Hänsler, responsável pela criação do ozonizador. Em 1950, o cirurgião-dentista Eduard A. Fisch, foi pioneiro na aplicação clínica do ozônio na prática ao tratar o Dr. Erwin Payr, evidenciando o potencial terapêutico na prática. Desde então, a ozonioterapia vem sendo estudada por seus diversos mecanismos de ação, incluindo propriedades anti-inflamatórias, imunomoduladoras, antimicrobianas, e desintoxicantes, que podem contribuir para o manejo de diferentes condições patológicas. A pesquisa foi conduzida por meio da consulta a bases de dados acadêmicas reconhecidas, como SciELO, PubMed, LILACS, BIREME e Google Acadêmico, contemplando publicações em português, inglês e espanhol, no período de 2005 a 2025. Foram incluídos artigos disponíveis na íntegra e com fundamentação científica que abordassem diretamente a ozonioterapia no contexto da saúde humana. Após a seleção dos materiais, a análise foi realizada com base na leitura e categorização por subtemas, visando compreender o panorama atual sobre o tema. Espera-se que os achados desta revisão proporcionem uma visão ampla e fundamentada sobre a ozonioterapia, apontando suas possíveis contribuições clínicas, limitações e a necessidade de mais estudos controlados que validem sua eficácia e segurança. Além disso, o trabalho busca esclarecer as divergências existentes na literatura e contribuir para o aprofundamento acadêmico sobre a prática, apoiando profissionais e pesquisadores na avaliação crítica de sua aplicabilidade terapêutica.

Palavras-chave: Ozônio, ozonioterapia, terapia complementar, terapia com ozônio.

1 INTRODUÇÃO

Em 1840, uma descarga elétrica que passava pela água, gerava um odor característico e incomum, o qual o químico alemão Christian Friedrich Schönbein deu o nome de “ozônio”. Após essa descoberta, o gás passou a ser utilizado na purificação da água e na desinfecção de salas cirúrgicas. (ROMARY et al., 2023). O uso do ozônio em maior escala teve início com o cirurgião austro-alemão Erwin Payr, que foi tratado com o uso do ozônio pelo também cirurgião dentista Eduard A. Fisch (GONÇALVES, 2023).

Embora a medicina disponha de uma ampla variedade de agentes anti-infecciosos, sua eficácia pode ser limitada diante da crescente resistência de certos patógenos a antibióticos e quimioterápicos. Diversas infecções, como pé diabético (úlceras com necrose), traumas, queimaduras e infecções virais crônicas frequentemente envolvem microrganismos resistentes como Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa. Esses casos representam um grande desafio terapêutico, pois reduzem a eficácia de tratamentos convencionais e dificultam a recuperação do paciente (SECHI & LEONARDI, 2010).

Atualmente, reconhece-se que a inalação prolongada de ozônio pode ser prejudicial aos pulmões e ao organismo como um todo. No entanto, quando administrado em quantidades adequadas e cuidadosamente calibradas de acordo com a capacidade antioxidante do sangue, o ozônio pode ativar diversos mecanismos bioquímicos benéficos, incluindo a reativação do sistema antioxidante endógeno. A terapia com ozônio atua principalmente sobre as células sanguíneas e o endotélio, promovendo a liberação de mensageiros que desencadeiam efeitos terapêuticos em diferentes tecidos e sistemas do corpo (ELVIS & EKTA, 2011).

A cicatrização de feridas envolve uma complexa sequência de eventos moleculares e bioquímicos que resultam na recomposição tecidual. A falha ou interrupção em qualquer uma dessas etapas pode causar infecções ou retardo do fechamento de lesões e desenvolvimento de feridas crônicas. Nesse contexto, a ozonioterapia surge como uma alternativa terapêutica promissora, atuando na modulação da resposta inflamatória e na prevenção de infecções, contribuindo para a aceleração do processo cicatricial. (COSTA et al., 2022).

Muitos questionamentos surgem acerca da eficácia do ozônio, seus mecanismos de ação e segurança. Apesar dos benefícios relatados, ainda há uma considerável falta de consenso científico. A ausência de diretrizes regulamentares unificadas e a escassez de estudos clínicos de alta qualidade dificultam a ampla aceitação dessa terapia na prática médica. Isso gera dúvidas sobre os reais impactos do ozônio na saúde e evidencia a necessidade de mais pesquisas que comprovem sua aplicabilidade e estabeleçam padrões para seu uso eficaz e seguro.

Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de compreender de forma mais ampla o uso terapêutico do ozônio, especialmente porque sua popularização tem avançado em ritmo superior ao desenvolvimento de evidências científicas robustas que confirmem sua eficácia e segurança. Embora diversos estudos relatem potenciais benefícios, ainda há limitações metodológicas, divergências de resultados e lacunas importantes no entendimento de seus mecanismos de ação. Além disso, as controvérsias presentes na literatura reforçam a importância de analisar o grau de consenso científico atualmente disponível. Soma-se a isso o fato de que a regulamentação sobre a ozonioterapia na área da saúde permanece heterogênea e, por vezes, insuficiente, o que exige investigação criteriosa.

Nesse contexto, este trabalho busca compreender a aplicabilidade do ozônio em práticas terapêuticas, identificar seus possíveis benefícios e limitações, avaliar o consenso apresentado na literatura acadêmica, examinar a regulamentação vigente e, por fim, reunir e discutir os principais estudos clínicos e experimentais já desenvolvidos sobre o tema. Assim, a pesquisa justifica-se pela relevância científica e social de oferecer uma análise crítica e fundamentada, capaz de contribuir para o debate sobre o uso do ozônio na prática clínica moderna.

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 INTRODUÇÃO AO OZÔNIO

O ozônio (O₃) é formado por três átomos de oxigênio e foi identificado em 1840 pelo químico alemão Christian Friedrich Schönbein, durante experimentos envolvendo eletrólise da água. É um gás de coloração azulada, com odor marcante e forte, caracterizado por sua elevada reatividade devido à instabilidade de sua estrutura molecular (BOCCI, 2011).

Os primeiros registros do uso terapêutico do ozônio surgiram na Primeira Guerra Mundial, quando foi empregado no tratamento de casos de gangrena gasosa e lesões pós- traumáticas em soldados. Posteriormente, o físico Joachim Hänsler (1908–1981) impulsionou o avanço da área ao desenvolver um gerador de ozônio destinado especificamente ao uso médico. Desde então, o emprego do ozônio na medicina evoluiu gradualmente, motivado tanto pela escassez de antibióticos quanto por suas propriedades desinfetantes (OLIVEIRA & FRANCISCO, s.d)

Na natureza, o ozônio se concentra predominantemente na estratosfera, formando a conhecida camada de ozônio, responsável por proteger a superfície terrestre da radiação ultravioleta proveniente do sol. Artificialmente, ele pode ser produzido pela passagem de oxigênio puro por descargas elétricas de alta tensão, processo essencial para viabilizar sua utilização terapêutica (VIEBAHN-HANSLER, 2007).

Reconhecido como um dos agentes oxidantes mais potentes, o ozônio destaca-se pela forte atividade bactericida e germicida, além de apresentar baixo custo operacional e facilidade na utilização de equipamentos destinados à sua geração (FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS – UNICAMP, 2022; QUÍMICA NOVA, 2021).

Com o passar dos anos, o interesse científico e clínico no uso do ozônio em saúde aumentou expressivamente. Apesar disso, a limitação de protocolos uniformizados e a falta de evidências robustas ainda alimentam discussões. Atualmente, a ozonioterapia é estudada como recurso complementar em diversas condições, como infecções, dores crônicas, cicatrização de feridas, entre outras aplicações clínicas (GONÇALVES, 2023).

2.2 FUNDAMENTOS DA OZONIOTERAPIA

A terapia com oxigênio-ozônio é uma abordagem complementar menos conhecida do que a homeopatia e a acupuntura, pois surgiu há apenas três décadas (BOCCI, 2011).

Segundo o estudo “TRATAMENTO COM A OZONIOTERAPIA NA CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS COMO PRÁTICA ALTERNATIVA E INTEGRATIVA, NA ATENÇÃO PRIMÁRIA Á SAÚDE”, publicado pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp em 2022, o ozônio promove a ativação do metabolismo celular, estimulando a produção de enzimas antioxidantes que reduzem o estresse oxidativo. Esse processo aumenta a oferta de oxigênio ao tecido tratado, conferindo ao método propriedades bactericidas e fungicidas.

Diversos mecanismos biológicos também podem intensificar a resposta imunológica, como a modulação de citocinas. A terapia com ozônio favorece a liberação de citocinas pró- inflamatórias (como IL-1, IL-6, TNF-α) e anti-inflamatórias (como IL-10). Além disso, estimula a formação de antioxidantes que combatem radicais livres, melhora a oxigenação dos tecidos e ativa células do sistema imune que participam diretamente do reconhecimento e eliminação de agentes patogênicos (SOARES, BENTO & NASCIMENTO, 2024).

Existem ainda diversas modalidades de aplicação da ozonioterapia, escolhidas conforme o objetivo terapêutico. Entre as mais utilizadas estão a auto-hemoterapia (no qual o sangue do paciente é ozonizado e reinfundido), a insuflação retal, as injeções locais (infiltrações) e a aplicação tópica em feridas e lesões cutâneas (VIEBAHN-HANSLEN, 2007). Cada uma dessas vias possui indicações especificas e requer protocolos padronizados para garantir a segurança e eficácia do tratamento.

Apesar de suas múltiplas possibilidades, a ozonioterapia ainda enfrenta resistência dentro da comunidade cientifica, sobretudo pela escassez de ensaios clínicos randomizados com grande número de participantes. No entanto, as evidências existentes apontam para um potencial terapêutico relevantes, sobretudo quando a técnica é aplicada como complemento a outros tratamentos, e não como substituta (BOCCI, 2011).

2.3 APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS DO OZÔNIO

A ozonioterapia abrange um vasto conjunto de aplicações nas áreas de medicina, odontologia e estética, devido às propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, imunomoduladoras e regenerativas atribuídas ao ozônio. Esse leque de possibilidades tem despertado crescente interesse entre pesquisadores, embora ainda persistam desafios referentes à padronização dos protocolos terapêuticos (BOCCI, 2011).

Pesquisas indicam que o ozônio exerce dois principais mecanismos de ação: analgésico e anti-inflamatório. Tais efeitos se relacionam à variedade de formas pelas quais o ozônio pode atuar no organismo, atingindo diferentes alvos, entre eles: a redução da produção de mediadores inflamatórios, a oxidação (ou inativação) de substâncias associadas à dor, a melhora a microcirculação sanguínea local e o aumento do aporte de oxigênio aos tecidos, fatores essenciais para a reparação estrutural; além da eliminação de toxinas e da contribuição geral para a resolução das alterações fisiológicas que originam a dor (NAIK et al., 2016).

O estudo realizado por Schmidt et al., (2025) relata que um dos problemas mais frequentes de pacientes diabéticos é o desenvolvimento de úlceras neuropáticas nos membros inferiores, que são caracterizadas pela presença de infecção, ulceração e destruição de tecidos profundos. Um método alternativo que tem sido amplamente utilizado no tratamento das mesmas, é a ozonioterapia, que demonstrou significativa redução no tamanho da lesão, menor tempo de cicatrização e diminuição da área e perímetro da ferida; ainda, sua aplicação está associada à redução do tempo de hospitalização em pacientes com úlceras do pé diabético.

2.4 UTILIZAÇÃO DO OZÔNIO NA MEDICINA HUMANA

Na medicina humana, o ozônio é empregado como tratamento adjuvante em diversas condições clínicas. De acordo com Viebahn-Hansler (2007), “No tratamento da artrite reumatoide, a aplicação sistêmica de ozônio provou ser particularmente eficaz, mas apenas na faixa de baixa dosagem: uma combinação com terapia padrão produz resultados clínicos e bioquímicos consideravelmente melhores do que a terapia padrão sozinha, e os mecanismos de proteção hepática reduzem simultaneamente a toxicidade hepática de terapêuticas básicas”.

Atualmente, o Conselho Federal de Medicina ainda não reconhece oficialmente a ozonioterapia. Contudo, sua prática tem sido progressivamente incorporada por profissionais da área da saúde, ganhando maior visibilidade e credibilidade como método complementar (GONÇALVES, 2023).

No manejo da dor lombar, a aplicação percutânea de ozônio tem demonstrado eficácia na diminuição da dor e na melhora da funcionalidade. Por apresentar caráter invasivo, essa abordagem é vista como uma alternativa mais conservadora quando comparada a procedimentos cirúrgicos (BOCCI, 2011).

2.5 UTILIZAÇÃO DO OZÔNIO NA ODONTOLOGIA

As bactérias são a causa de muitos problemas na odontologia, portanto, é importante um agente potente para elimina-las de forma eficaz. A utilização do ozônio na Odontologia tem sido proposta devido às suas propriedades antimicrobianas, desinfetantes, biocompatíveis e cicatrizantes.

O estudo conduzido por Nagayoshi et al., 2004, evidenciou que células de Streptococcus mutans (um dos principais microrganismos envolvidos no desenvolvimento da cárie dentária) foram rapidamente inativadas após o contato com água ozonizada. Os autores também relatam que, após o tratamento, houve quase total eliminação de outros microrganismos presentes.

A forma aquosa do ozônio, mostrou-se um agente antisséptico promissor, apresentando menor citotoxicidade quando comparada ao ozônio gasoso e a compostos antimicrobianos amplamente utilizados, como digluconato de clorexidina, hipoclorito de sódio ou peróxido de hidrogênio. Dessa maneira, o ozônio em solução demonstrou boa biocompatibilidade celular, favorecendo seu uso seguro na cavidade oral (NAIK et al., 2016).

Segundo Azarpazhooh & Limeback (2008), o ozônio possui a capacidade de diminuir a quantidade de bactérias em lesões de cárie ativas, o que poderia retardar ou interromper temporariamente sua progressão. Esse efeito pode contribuir para a prevenção e até mesmo para o adiamento de intervenções restauradoras. O óleo ozonizado normalmente é utilizado para o tratamento de Gengivite Ulcerativa Necrosante Aguda, pois suas propriedades cicatrizantes e bactericidas o tornam útil como irrigante subgengival.

O uso do ozônio também tem sido relatado como uma opção complementar no manejo da estomatite aftosa, especialmente em situações nas quais outros tratamentos não apresentam resultados satisfatórios ou quando terapias sistêmicas são contraindicadas. Em casos envolvendo alterações da articulação temporomandibular (ATM), pesquisas indicam que pacientes submetidos à injeção intra-articular de gás ozônio apresentaram melhora significativa ou até completa remissão dos sintomas (NAIK et al., 2016).

2.6 UTILIZAÇÃO DO OZÔNIO NA ESTÉTICA E DERMATOLOGIA

Quando utilizada na estética, a ozonioterapia pode tratar rugas, hipercromias, flacidez, acne, gordura, celulites e estrias, disfunções que afetam a autoestima de muitas pessoas. O estudo realizado por Soares, Bento & Nascimento (2024), demonstra o uso e efeito do ozônio em procedimentos estéticos e os principais resultados obtidos.

O estudo foi desenvolvido por meio de artigos, sendo sete destes, revisões bibliográficas, duas revisões integrativas; um relato de caso; um, uma avaliação com dez pacientes; um, uma pesquisa exploratória e descritiva, que envolveu a participação de 21 mulheres com cerca de 60 anos de idade.

Os principais resultados observados sugerem que a ozonioterapia pode ser uma opção eficaz e segura para melhorar a aparência da pele e tratar problemas estéticos. Através de suas diversas modalidades terapêuticas, tem agregado muito a diversos procedimentos, principalmente por sua ação adjuvante ou principal agente de alterações fisiológicas críticas para potencializar os resultados clínicos.

A ozonioterapia no tratamento das disfunções estéticas traz benefícios como: menor tempo de recuperação, excelente custo benefício, poucos efeitos colaterais e rápida aplicação. O uso da mesma também promove a diminuiçãodo estresse oxidativo, na eliminação de toxinas e melhora a circulação sanguínea.

2.7 BENEFÍCIOS, RISCOS E EFEITOS COLATERAIS DA OZONIOTERAPIA

A aplicação terapêutica do ozônio é um tópico em investigação para uma variedade de condições clínicas, incluindo doenças oculares, infecções bacterianas, virais e fúngicas, patologias isquêmicas, distúrbios associados ao envelhecimento, além de doenças ortopédicas, dermatológicas, pulmonares, renais, neurodegenerativas e hematológicas. O gás pode interagir com componentes sanguíneos e afetar de forma positiva o metabolismo do oxigênio, a produção de energia celular, a modulação do sistema imunológico, o fortalecimento das defesas antioxidantes e a melhoria da microcirculação (AZARPAZHOOH & LIMEBACK, 2008).

Diversas enfermidades podem ser tratadas por meio de diferentes concentrações de ozônio, o que indica que determinadas doses podem ser prejudiciais, enquanto outras oferecem benefícios. Por ser altamente oxidante – considerado o terceiro elemento mais oxidativo – seu uso requer cautela e precisão na administração (GONÇALVES, 2023).

Embora apresente vantagens clínicas, como a melhora circulatória, alívio da dor e controle de infecções, é uma técnica relativamente nova dentro da medicina convencional. Em um cenário marcado pela crise dos opioides, terapias não farmacológicas para o manejo da dor tornam-se cada vez mais necessárias. Assim, a ozonioterapia destaca-se com uma abordagem promissora, justificando a realização contínua de estudos que avaliem sua eficácia em diferentes condições clínicas (ROWEN & ROBINS, 2020). Esse contexto reforça a importância de ensaios clínicos sólidos que estabeleçam suas reais indicações e contraindicações.

2.8 CONTRAINDICAÇÕES DA OZONIOTERAPIA

Existem condições específicas em que a ozonioterapia é contraindicada, como em pacientes com deficiência grave da enzima G6PD (glicose-6-fosfato desidrogenase), gravidez, hipertiroidismo não controlado, estados hemorrágicos e doenças autoimunes graves em fase aguda (BOCCI, 2011).

A Cooperação Europeia de Sociedades de Ozônio Médico alerta que a administração intravenosa direta de gás ozônio/oxigênio não deve ser praticada, pois oferece risco de embolia gasosa. As formas mais seguras de aplicação e amplamente utilizadas incluem: água ozonizada, óleo ozonizado e gás de ozônio (NAIK et al., 2016).

Quanto às contraindicações, recomenda-se evitar o uso do ozônio em áreas que contenham próteses, pinos, placas, fios de sustentação ou materiais injetáveis, como toxina botulínica e preenchedores, devido à necessidade de verificar a compatibilidade dos materiais. Além disso, a técnica é contraindicada em indivíduos com deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase (favismo), hipertireoidismo e hipertensão arterial (GAMBOA & SANTOS, 2023).

Portanto, embora a ozonioterapia ofereça perspectivas promissoras como tratamento complementar, seu uso deve ser criterioso, baseado em avaliação individualizada e conhecimento técnico apropriado.

2.9 LEGISLAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO DA OZONIOTERAPIA

A discussão sobre a segurança do ozônio (decorrente de seu caráter altamente oxidante) e sua efetividade clínica ainda representa um desafio para a consolidação da terapia. A grande variação das respostas entre os pacientes também interfere na padronização de estudos. Mesmo assim, pesquisas já publicadas apontam para efeitos biológicos essenciais do ozônio, que podem fundamentar investigações clínicas futuras, embora muitas vezes esses achados sejam subestimados por alguns autores (RE et al., 2008).

A Odontologia foi uma das primeiras áreas da saúde a solicitar a regulamentação da ozonioterapia. O marco inicial ocorreu quando o dentista alemão Eduard A. Fisch tratou o médico Erwin Payer com ozônio e passou a empregar a técnica rotineiramente em sua prática. Fisch relatou resultados favoráveis em aproximadamente 75% dos casos, destacando a simplicidade, a higiene e a segurança do método como vantagens importantes. No 59º Congresso da Sociedade Cirúrgica Alemã, o assunto já era discutido amplamente, evidenciando a Alemanha como pioneira no desenvolvimento da ozonioterapia (GONÇALVES, 2023).

Ao longo do tempo, diversos marcos históricos contribuíram para a consolidação da ozonioterapia:

1936 – Na França, um médico propôs a insuflação retal de ozônio/oxigênio para o tratamento de colite crônica e fístulas;

1975 – O médico Heinz Konrad inicia no Brasil a prática da ozonioterapia;

2006 – Foi fundada a ABOz (Associação Brasileira de Ozonioterapia), com o objetivo de legalizar a prática e capacitar profissionais para sua aplicação na Odontologia;

2010 – Aprovada a Declaração de Madrid sobre ozonioterapia, estabelecendo diretrizes internacionais sobre sua aplicabilidade e abordagens terapêuticas;

2015 – O Conselho Federal de Odontologia (CFO) regulamentou a prática da ozonioterapia por cirurgiões-dentistas por meio da Resolução CFO-166/2015, que define critérios para sua utilização.

2018 – O Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou a ozonioterapia entre as práticas integrativas e complementares oferecidas à população.

Esses eventos, relatados por Gonçalves (2023) em sua obra Viver de Ozonioterapia, demonstram a trajetória da ozonioterapia rumo à institucionalização e reconhecimento.

Atualmente, diversas entidades científicas e associações profissionais vêm intensificando seus esforços na elaboração de protocolos clínicos baseados em evidências, com o intuito de promover maior uniformidade na prática e fortalecer a legitimidade da ozonioterapia no cenário médico global.

3 METODOLOGIA

Este estudo trata-se em uma revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa, com caráter exploratório e analítico, cujo objetivo é reunir, interpretar e discutir o conhecimento científico disponível acerca do uso terapêutico do ozônio.

A pesquisa foi realizada exclusivamente com fontes secundárias, incluindo livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos acessíveis em bases de dados acadêmicas amplamente reconhecidas, tais como SciELO, PubMed, LILACS, BIREME e Google Acadêmico. A busca bibliográfica foi conduzida entre os meses de janeiro e junho de 2025.

Os critérios de inclusão adotados foram:

  • Publicações científicas disponíveis na íntegra;
  • Estudos publicados entre os anos de 2000 e 2025;
  • Textos redigidos em português, inglês ou espanhol;
  • Materiais que abordassem diretamente a utilização terapêutica do ozônio em diferentes áreas da saúde.

Foram excluídos da análise:

  • Textos duplicados em diferentes bases de dados;
  • Publicações com acesso restrito ou conteúdo incompleto;
  • Materiais sem respaldo científico, com opiniões não fundamentadas ou textos sem revi- são por pares.

A seleção dos estudos seguiu um processo sistemático, com leitura inicial dos títulos e resumos, seguida pela leitura completa dos textos selecionados, a fim de assegurar relevância temática.

A análise dos dados foi conduzida por meio de leitura crítica e categorização dos conteúdos com base em subtemas previamente definidos, tais como: mecanismos de ação do ozônio, áreas de aplicação clínica, eficácia terapêutica, controvérsias científicas e regulamentações vigentes.

Por se tratar de uma revisão bibliográfica, sem a participação direta de seres humanos ou animais, este estudo está isento de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

A ozonioterapia representa uma abordagem terapêutica promissora, sustentada por propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, imunomoduladoras e regenerativas, que têm demonstrado eficácia em diferentes condições clínicas. Como terapia complementar, apresenta potencial para contribuir na melhora da qualidade de vida, especialmente em pacientes com doenças crônicas, infecções resistentes e processos degenerativos. Contudo, a aplicação clínica do ozônio ainda enfrenta limitações decorrentes da escassez de estudos controlados de grande porte e da ausência de consenso científico.

O avanço da ozonioterapia também está diretamente relacionado ao cenário regulatório. Países como Alemanha e Cuba reconhecem e regulamentam seu uso, enquanto em outros, como o Brasil, sua prática permanece restrita e depende de normativas específicas. Alemanha, Suíça e Rússia figuram entre as regiões pioneiras na utilização da técnica. No Brasil, o procedimento foi introduzido em 1975 pelo Dr. Heinz Konrad e, embora alguns profissionais tenham mantido sua utilização, a prática foi posteriormente restringida pelo Conselho Federal de Medicina (GONÇALVES, 2023).

Apesar de resultados clínicos e a experiência prática apontarem benefícios encorajadores, a ozonioterapia deve ser aplicada com responsabilidade, seguindo boas práticas e considerando suas contraindicações e possíveis riscos. O futuro da técnica depende da produção de evidências científicas sólidas, capazes de fortalecer sua credibilidade perante a comunidade médica e estabelecer protocolos padronizados.

Portanto, destaca-se a importância de um esforço conjunto entre pesquisadores, profissionais da saúde e órgãos reguladores para ampliar o conhecimento disponível, uniformizar diretrizes de uso e garantir que a ozonioterapia seja aplicada de forma ética, segura e sempre orientada ao melhor interesse do paciente.

5 CONCLUSÃO

Esta revisão integrativa evidencia que a ozonioterapia apresenta aplicabilidade terapêutica relevante, sustentada por propriedades biologicamente plausíveis e por resultados clínicos que indicam benefícios em diferentes condições de saúde. Embora os estudos apontem potencial eficácia, a ausência de pesquisas controladas robustas limita a consolidação de um consenso científico. O grau de consenso entre os autores permanece parcial, marcado por divergências metodológicas e por interpretações distintas dos achados disponíveis. Em adição, a regulamentação vigente é heterogênea entre países e ainda insuficiente para padronizar a prática de forma ampla e uniforme. Desta forma, concluímos que os objetivos propostos são atendidos ao demonstrar que a ozonioterapia desponta como recurso complementar promissor, mas sua adoção como terapia consolidada depende da ampliação de evidências sólidas, de diretrizes claras e de regulamentação mais consistente.

REFERÊNCIAS

AZARPAZHOOH, A., & LIMEBACK, H. (2008). The application of ozone in dentistry: A systematic review of literature. Journal of Dentistry, 36(2), 104–116.

BOCCI, Velio. (2011). Ozone: A New Medical Drug. Dordrecht: Springer, 2011. 315 p. ISBN 978-94-007-0899-8. DOI: https://doi.org/10.1007/978-94-007-0899-8.

COSTA, Ana Beatriz Soares da et al. Medical ozone: an evaluation of the knowledge and formation of dentists. Revista Gaúcha de Odontologia, Porto Alegre, v. 70, e2022009, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgo/a/Y6BLS8Gbppk3jv6ND9g5VGg/?lang=en.

ELVIS, A. M.; EKTA, J. S. Ozone therapy: A clinical review. Medical Gas Research, v. 1, n. 1, p. 1-7, 2011. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/med.20150.

GONÇALVES, Ryuza. Viver de ozonioterapia: protocolos, suplementações e dosagens corretas para transformar vidas. 1. ed. São Paulo: Edição do autor, 2023.

GAMBOA, Rafael Fernandes; SANTOS, José Ailton dos. O uso da ozonioterapia na estética. RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar, v. 4, n. 5, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.47820/recima21.v4i5.3277.

NAGAYOSHI, M., FUKUIZUMI, T., KITAMURA, C., YANO, J., TERASHITA, M., & NISHIHARA, T. (2004). Efficacy of ozone on survival and permeability of oral microorganisms. Oral Microbiology and Immunology, 19(4), 240–246.

NAIK, Saraswathi V.; RAJESHWARI, K.; KOHLI, Shivani; ZOHABHASAN, Sayyad; BHATIA, Shekhar. Ozone – a biological therapy in dentistry: reality or myth???? The Open Dentistry Journal, v. 10, p. 196–206, 2016. DOI: https://doi.org/10.2174/1874210601610010196. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4911747/.

OLIVEIRA, Priscila Aparecida; FRANCISCO, Odair. Estudo sobre a ozonioterapia e as possibilidades de uso terapêutico no organismo humano: revisão de literatura. Ourinhos: Centro Universitário das Faculdades Integradas de Ourinhos – UNIFIO/FEMM, [s.d.]. Disponível em: https://cmvq.org/wp-content/uploads/2025/…

ROMARY, Daniel J.; LANDSBERGER, Sarah A.; BRADNER, K. Nicole; RAMIREZ, Mirian; LEON, Brian R. Liquid ozone therapies for the treatment of epithelial wounds: A systematic review and meta-analysis. International Wound Journal, [s.l.], v. 20, n. 4, p. 1235- 1252, jul. 2023. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/iwj.13941.

RE, L., MARTÍNEZ-SÁNCHEZ, G., BORDICCHIA, M., MALCANGI, G., CELLENO, L., & DI RENZO, L. (2018). Is ozone pre-conditioning effect linked to Nrf2/EpRE activation pathway in vivo? A preliminary result. European Review for Medical and Pharmacological Sciences, 22(24), 8810–8818.

ROWEN, R. J., & ROBINS, H. (2020). Ozone therapy for complex regional pain syndrome: Review and case report. Medical Gas Research, 10(2), 54–59.

RE, Lamberto; MAWSOUF, Mohamed N.; MENÉNDEZ, Silvia; LEÓN, Olga S.; SÁNCHEZ, Gregorio M.; HERNÁNDEZ, Frank. Terapia com ozônio: evidências clínicas e básicas de seu potencial terapêutico. Arquivos de Pesquisa Médica, v. 39, n. 1, p. 17–26, jan. 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.arcmed.2007.07.005.

SECHI, Leonardo A.; LEONARDI, Grazia. Antibacterial activity of ozone: Mechanisms and clinical implications. Journal of Veterinary Science, v. 11, n. 2, p. 1-6, 2010. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1155/2010/610418.

SOARES, Rosimar dos Reis; BENTO, Fernanda Fratea de Lucca; NASCIMENTO, Gyzelle Pereira Vilhena do. Ozonioterapia em procedimentos estéticos. Brazilian Journal of Biological Sciences, v. 11, n. 42, p. 565–577, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6502773/.

SCHMIDT, Geovana; AMPESSAN, Julia; SANTOS, Reginaldo Passoni dos; FREITAS, Paula de Souza Silva; BARROS, Natália Aparecida de; CARVALHO, Ariana Rodrigues da Silva; LORDANI, Tracisio Vitor Augusto. Efectividad de la ozonoterapia en el tratamiento de úlceras neuropáticas em miembros inferiores con diabetes mellitus. Journal of Wound Care – JWC Latam, v. 34, n. 9 (Supl.), p. 52-?, jul. 2025. Disponível em: https://www.magonlinelibrary.com/pb-assets/JOWC/Ozonoterapia%20MOL- 1760562893607.pdf

VIEBAHN-HANSLER, R. (2015). Ozone in Medicine: The Low-Dose Ozone Concept and its Basic Biochemical Mechanisms of Action. In: Proceedings of the 21st World Ozone Congress, Zaragoza.


1 Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. e-mail: juliathomann@hotmail.com
2 Docente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Univel. Doutora em Bioquímica (IQ/USP). e-mail: thais.bifano@univel.br.