O USO DA EDUCAÇÃO MUSICAL COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA PARA DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512122101


Ruth da Silva Santos1
Rannyel Silva Santos2
Paulo Henrique de Sousa Dantas3


RESUMO

O estudo discute o uso da educação musical como estratégia pedagógica para favorecer o desenvolvimento socioemocional de estudantes da educação básica. Partiu-se do problema sobre como experiências musicais planejadas em sala de aula podem apoiar habilidades como autocontrole, empatia, cooperação e expressão de sentimentos. O objetivo foi analisar contribuições da educação musical para essas competências, relacionando fundamentos teóricos e relatos de práticas escolares. Adotou-se abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, com consulta a livros, artigos e documentos oficiais publicados entre 2019 e 2024 em bases nacionais. O material foi organizado por eixos: música e emoções, música e convivência escolar, formação docente e organização do trabalho pedagógico. A análise indica que atividades como canto coletivo, percussão corporal, jogos rítmicos, composição e escuta guiada favorecem a construção de vínculos, a participação de alunos mais tímidos e a elaboração de conflitos do cotidiano escolar. Os resultados também apontam que a atuação do professor de música, articulado à equipe pedagógica, amplia espaços de diálogo, fortalece a autoestima das crianças e estimula atitudes de respeito às diferenças. Observa-se ainda que projetos musicais contínuos, alinhados à Base Nacional Comum Curricular, contribuem para integrar dimensões cognitivas, sociais e emocionais do processo educativo, oferecendo caminhos para uma prática mais sensível às realidades dos estudantes. O conjunto desses achados sugere que investir em propostas musicais planejadas, com materiais acessíveis, escuta das experiências dos alunos e diálogo com as famílias, pode fortalecer políticas de educação integral e colaborar para a prevenção de violências e desigualdades no contexto escolar brasileiro na atualidade.

Palavras-chave:educação musical, habilidades socioemocionais, educação básica, ensino fundamental, práticas pedagógicas.

INTRODUÇÃO

A discussão sobre competências socioemocionais ganhou espaço nas políticas educacionais brasileiras, sobretudo após a Base Nacional Comum Curricular incluir, entre seus princípios, a formação integral dos estudantes. Em meio a esse movimento, diferentes áreas do conhecimento passaram a ser revisitadas como possibilidades de trabalho com emoções, valores, atitudes e formas de convivência. A educação musical, muitas vezes restrita a eventos festivos ou atividades pontuais, surge nesse contexto como campo fértil para experiências de expressão, escuta e cooperação que atravessam o cotidiano da escola básica.

O presente artigo analisa o uso da educação musical como estratégia pedagógica para o desenvolvimento socioemocional na educação básica. Parte-se da pergunta norteadora: de que maneira práticas musicais planejadas podem contribuir para habilidades como autocontrole, empatia, colaboração, respeito às diferenças e manejo de conflitos entre crianças e adolescentes? Ao retomar contribuições de estudos nacionais sobre música na escola, desenvolvimento infantil e cultura escolar, o texto busca articular fundamentos teóricos com vivências concretas de sala de aula relatadas em pesquisas recentes.

O interesse por essa temática se relaciona a desafios enfrentados diariamente por professores, como episódios de indisciplina, dificuldades de diálogo entre pares, insegurança emocional e manifestações de violência simbólica. Em muitas escolas, a música está presente no cotidiano dos estudantes por meio de celulares, redes sociais e práticas culturais do território, mas ainda pouco aproveitada como recurso estruturado de aprendizagem. Investigar o potencial pedagógico dessa linguagem permite aproximar a instituição escolar dos repertórios juvenis e, ao mesmo tempo, construir espaços mais acolhedores para expressão de sentimentos e negociações coletivas.

O objetivo geral do estudo é compreender como a educação musical pode favorecer o desenvolvimento socioemocional de estudantes da educação básica. Como objetivos específicos, busca-se: a) discutir contribuições de referenciais teóricos que relacionam música, emoção e aprendizagem; b) mapear estratégias musicais descritas em pesquisas brasileiras realizadas em escolas públicas e privadas; c) identificar efeitos dessas experiências sobre vínculos interpessoais, autoestima e participação dos estudantes.

Metodologicamente, trata-se de revisão bibliográfica com abordagem qualitativa, baseada em artigos, dissertações, teses e documentos normativos publicados entre 2019 e 2024 em bases como SciELO, Google Acadêmico e periódicos especializados em educação, artes e psicologia. Os trabalhos selecionados foram examinados a partir de eixos temáticos que contemplam organização das atividades musicais, formação docente, envolvimento dos alunos e impactos relatados na convivência escolar.

Os resultados organizados ao longo do artigo são apresentados em seções que discutem inicialmente bases conceituais sobre música e emoções, em seguida experiências relatadas em pesquisas de campo e, por último, desafios para implementação dessas propostas nas redes de ensino. Ao final, retomam-se os objetivos iniciais e se destacam caminhos possíveis para que gestores e docentes incorporem projetos musicais ao planejamento escolar de modo contínuo e contextualizado.

As discussões reunidas indicam que propostas de canto coletivo, rodas de percussão, uso de instrumentos alternativos, escuta comentada de canções e criação de composições autorais contribuem para o fortalecimento da cooperação, para a elaboração de emoções difíceis e para o reconhecimento de identidades individuais e coletivas. O papel do professor aparece como mediador sensível, capaz de conduzir negociações de regras, incentivar a participação de estudantes mais tímidos e lidar com conflitos que emergem durante as práticas musicais.

Em termos gerais, o estudo aponta que a integração entre educação musical e desenvolvimento socioemocional amplia possibilidades de uma escola comprometida com a formação integral, em que aprender conteúdos se articula ao cuidado com a saúde emocional, com a escuta do outro e com o respeito às diferenças. A pesquisa sugere que políticas de formação docente, investimento em projetos musicais contínuos e diálogo com as comunidades escolares podem consolidar a música como eixo estruturante de experiências educativas mais humanas, criativas e democráticas.

METODOLOGIA

A pesquisa foi delineada como estudo qualitativo, de natureza bibliográfica, com foco em produções que discutem a educação musical na escola básica articulada ao desenvolvimento socioemocional. O percurso metodológico buscou combinar rigor na seleção das fontes e cuidado na leitura analítica dos textos, de modo a aproximar referenciais teóricos, políticas educacionais e relatos de práticas pedagógicas. Optou-se por trabalhar com materiais publicados nos últimos cinco anos, o que permite acompanhar debates atuais sobre competências socioemocionais e o lugar da música nos currículos da educação básica.

O levantamento do material ocorreu em bases eletrônicas amplamente utilizadas na área educacional, como SciELO e Google Acadêmico, complementado por consultas a periódicos nacionais especializados em educação, artes e psicologia. Foram empregados descritores em português combinados com operadores booleanos, tais como “educação musical”, “habilidades socioemocionais”, “educação básica”, “ensino fundamental”, “práticas pedagógicas com música” e “desenvolvimento emocional de estudantes”. Também foram examinados documentos oficiais, como diretrizes curriculares e textos sobre a Base Nacional Comum Curricular, por tratarem diretamente da organização do trabalho pedagógico e da presença da música no currículo.

Como critérios de inclusão, consideraram-se textos de autoria de pesquisadoras e pesquisadores vinculados a instituições brasileiras, publicados entre 2019 e 2024, com acesso ao texto completo e que abordassem experiências ou reflexões sobre educação musical na educação básica em diálogo com dimensões socioemocionais, convivência escolar, clima de sala de aula ou saúde mental de crianças e adolescentes. Foram excluídos trabalhos sem recorte explícito para a educação básica, materiais voltados exclusivamente ao ensino superior ou à formação musical profissional e textos de caráter estritamente técnico-musical, sem discussão pedagógica ou educacional.

Após a busca inicial, os resultados foram organizados em planilha, registrando título, autoria, periódico, ano, objetivo do estudo, abordagem metodológica, público-alvo e principais contribuições para o tema. Em seguida, procedeu-se à leitura exploratória dos resumos, o que permitiu verificar a pertinência dos textos em relação aos objetivos da pesquisa. Os materiais selecionados avançaram para uma leitura interpretativa, na qual se procurou identificar recorrências, tensões e contribuições sobre o uso da música para trabalhar emoções, relações e formas de participação em sala de aula. A partir dessa etapa, construíram-se eixos de análise como “música e expressão de emoções”, “música e convivência escolar” e “formação docente em educação musical”.

Por se tratar de estudo bibliográfico baseado em fontes de domínio público, não houve necessidade de submissão a comitê de ética em pesquisa com seres humanos. Ainda assim, foram respeitados cuidados éticos, como a citação correta das autorias consultadas e o não uso de imagens, fotografias ou registros audiovisuais que envolvessem estudantes ou profissionais. Quando materiais visuais presentes nos artigos foram mencionados, isso ocorreu apenas de forma descritiva, sem reprodução direta. O conjunto desses procedimentos metodológicos buscou garantir transparência, rastreabilidade das etapas de seleção e coerência entre o material analisado e a proposta do artigo, que discute a educação musical como aliada na construção de competências socioemocionais na escola básica.

REFERENCIAL TEÓRICO
Educação musical e desenvolvimento socioemocional

A discussão sobre competências socioemocionais na educação básica tem ressaltado que emoções, valores e formas de convivência não são conteúdos periféricos, mas atravessam toda a experiência escolar. A educação musical ganha relevo nesse debate por articular linguagem artística, corpo, escuta e interação em grupo, o que favorece situações nas quais crianças e adolescentes podem experimentar diferentes papéis, expressar sentimentos e construir vínculos. Em estudo que aborda explicitamente a relação entre música e habilidades socioemocionais, Alencar mostra que práticas musicais coletivas, planejadas com intencionalidade pedagógica, impulsionam a autoconfiança, o respeito mútuo e a cooperação em sala de aula, ao mesmo tempo em que contribuem para a construção das aprendizagens escolares em sentido amplo (Alencar, 2025). A autora destaca ainda que atividades como rodas de canto, jogos rítmicos e composição de pequenas canções oferecem aos estudantes oportunidade de nomear emoções, negociar regras e tomar decisões em grupo, o que dialoga diretamente com os objetivos de uma formação mais humana. Quando esse trabalho é incorporado ao cotidiano escolar, e não apenas a datas comemorativas, tende a se consolidar como parte da cultura da escola.

Pesquisas de abordagem quantitativa também têm mostrado que intervenções musicais estruturadas podem produzir ganhos mensuráveis no desenvolvimento infantil. Bortz analisa resultados de um estudo quase experimental com crianças participantes do Programa Guri e evidencia que a participação continuada em aulas de música está associada a melhor desempenho em tarefas cognitivas, maior autocontrole e redução de comportamentos agressivos, sugerindo que a experiência musical organizada como processo formativo repercute tanto no campo emocional quanto no rendimento acadêmico (Bortz, 2025). O estudo compara grupos com diferentes tempos de exposição à educação musical e observa que, quanto mais longa a participação, mais estável se torna a relação dos alunos com a escola e com os colegas. A autora chama atenção também para relatos de famílias que percebem mudanças no convívio doméstico, como maior disposição das crianças para ouvir, esperar sua vez de falar e lidar com frustrações de maneira menos explosiva.

Outro conjunto de investigações parte da interface entre educação musical, desempenho escolar e percepção de competência das crianças. Said discute como programas de musicalização sistemática em escolas públicas influenciam a forma como os alunos se veem como aprendizes, mostrando que a participação em corais, bandas e oficinas de criação sonora aumenta a confiança para enfrentar desafios em disciplinas como língua portuguesa e matemática, o que repercute em maior engajamento nas atividades, menor evasão e fortalecimento da autoestima estudantil (Said, 2020). A autora enfatiza relatos de estudantes que se reconhecem como parte importante do grupo musical e passam a transferir esse sentimento para outras situações de aprendizagem. As falas analisadas indicam que muitos alunos deixam de se perceber apenas como “indisciplinados” ou “fracos em determinadas matérias” e passam a enxergar em si mesmos capacidades ligadas à criatividade, à persistência e à cooperação.

Gonçalves analisa a influência da música na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo e mostra que atividades rítmicas, melódicas e de improvisação estimulam memória, atenção e flexibilidade mental, competências que dialogam diretamente com o trabalho em leitura, escrita e resolução de problemas. Ao descrever experiências com jogos musicais e percussão corporal, o estudo aponta que crianças expostas de forma sistemática a esse tipo de prática demonstram maior disposição para colaborar com os colegas, ouvir diferentes opiniões e lidar com frustrações inerentes ao processo de aprender em grupo (Gonçalves, 2025). A autora comenta que o caráter lúdico da música ajuda a diminuir o medo de errar, pois o erro pode ser incorporado como parte da criação coletiva, o que favorece um clima de encorajamento. Em sala de aula, esse ambiente se traduz em maior abertura para perguntas, tentativas e experimentações, condição essencial para que o estudante se arrisque intelectualmente.

Do ponto de vista específico da infância, Alonso investiga a influência da educação musical no desenvolvimento cognitivo infantil e mostra que a exploração de sons, cantigas e instrumentos simples em contextos lúdicos contribui para a organização do pensamento, para a expressão de emoções e para a ampliação do repertório cultural das crianças (Alonso, 2024). O trabalho destaca a importância do brincar sonoro em espaços como salas de aula, pátios e projetos comunitários, onde as crianças podem transitar entre papéis de ouvintes, compositores e intérpretes. A autora enfatiza que essa alternância de papéis fortalece a capacidade de se colocar no lugar do outro, de coordenar ações em grupo e de lidar com regras compartilhadas. Quando a escola legitima esse tipo de experiência, reconhece a criança como sujeito criador e não apenas como receptora de conteúdos prontos.

De modo geral, as pesquisas reunidas neste eixo reforçam a ideia de que experiências musicais planejadas ajudam a integrar dimensões emocionais, cognitivas e relacionais da vida escolar. Ao colocar os estudantes em situação de criação, escuta e partilha de sons, a educação musical amplia oportunidades para que crianças e adolescentes aprendam a se conhecer, a cuidar de si e a conviver com o outro em contextos marcados por conflitos e desigualdades. As contribuições analisadas por Alencar indicam que projetos que combinam repertório próximo da realidade dos alunos, atividades coletivas e reflexão sobre sentimentos vividos durante as aulas favorecem a construção de um ambiente de confiança, no qual erros, diferenças e dificuldades podem ser trabalhados de forma dialogada e cooperativa (Alencar, 2025).

Educação musical, aprendizagem e permanência na educação básica

A literatura recente também enfatiza a contribuição da educação musical para a permanência e o êxito de estudantes na escola. Pereira analisa experiências de projetos musicais desenvolvidos em redes públicas e argumenta que a participação em corais, fanfarras e grupos instrumentais cria laços de pertencimento entre os estudantes, favorece o compromisso com a frequência e contribui para que a escola seja percebida como espaço mais acolhedor (Pereira, 2024). Em seus estudos, a autora mostra que muitos alunos passam a chegar mais cedo às aulas em dias de ensaio e relatam que não faltam à escola para não perder oportunidades de apresentação. Esses dados sugerem que a educação musical pode agir como porta de entrada para outras aprendizagens, ajudando a reduzir trajetórias marcadas por ausências constantes.

Rodrigues discute a educação musical e a transversalidade no ensino fundamental, mostrando que a música pode ser integrada a projetos interdisciplinares envolvendo língua portuguesa, história, geografia e outras áreas do conhecimento (Rodrigues, 2025). Em suas análises, o autor destaca que o trabalho com canções, produção de jingles, trilhas sonoras e projetos de pesquisa musical oportuniza o estudo de temas sociais e culturais, contribuindo para o desenvolvimento de competências de leitura crítica, argumentação e convivência democrática. A transversalidade defendida pelo autor não se resume à participação ocasional de músicas em datas comemorativas, mas supõe planejamento conjunto entre professores de diferentes áreas, o que amplia a circulação de saberes e aproxima os conteúdos escolares de questões presentes na vida dos estudantes.

Em outra direção, Santos analisa a educação musical escolar em contextos marcados por processos de militarização e aumento de práticas autoritárias dentro e fora da escola (Santos, 2022). O autor argumenta que a música pode ser apropriada de modo a reforçar discursos disciplinadores, mas também pode se tornar espaço de resistência, criatividade e construção de narrativas contra hegemônicas. Ao examinar experiências em escolas sob influência de lógicas militarizadas, o estudo mostra que professores de música que se posicionam como mediadores críticos conseguem abrir brechas para o diálogo, para o reconhecimento da diversidade cultural e para a expressão de conflitos de maneira menos violenta. Nesses contextos, a escolha de repertórios, a forma de conduzir ensaios e a postura diante de indisciplina ganham grande relevância política.

A relação entre educação musical e interdisciplinaridade aparece também nos estudos de Santos e Parente, que revisam pesquisas envolvendo música e literatura na educação básica (Santos; Parente, 2025). Os autores mostram que a articulação entre leitura de textos literários e escuta de canções amplia possibilidades de interpretação, incentiva que os estudantes relacionem histórias com experiências pessoais e favorece debates sobre temas sensíveis, como racismo, desigualdade social e relações de gênero. A revisão destaca experiências em que os alunos produzem novas letras para melodias conhecidas, reescrevem narrativas a partir de personagens silenciados e criam performances multimodais, combinando voz, corpo e imagem. Essas práticas colaboram para que a escola dialogue com a cultura juvenil e com formas contemporâneas de circulação de música nas redes digitais.

No campo das políticas curriculares, Trindade examina a presença da música na educação básica a partir da Base Nacional Comum Curricular e mostra que o documento reconhece a área como componente do campo das linguagens, propondo competências relacionadas à criação, apreciação e reflexão sobre práticas musicais (Trindade, 2023). O estudo evidencia, porém, que ainda existem obstáculos para que as intenções do texto normativo se materializem no cotidiano das escolas, especialmente em redes com carência de professores com formação específica, infraestrutura inadequada e pouca oferta de formação continuada. A autora sugere que a efetivação do direito à educação musical passa por investimento em concursos públicos, políticas de valorização docente e apoio à produção de materiais didáticos que respeitem a diversidade cultural brasileira. Nesse contexto, projetos de formação que dialoguem com a realidade de cada território aparecem como condição central para a consolidação da música na escola básica.

Quando se observa o conjunto de trabalhos voltados à permanência na escola e à organização curricular, torna-se visível que a educação musical só se consolida como direito quando há compromisso institucional com sua presença em todas as etapas da educação básica. Estudos como o de Pereira mostram que projetos musicais isolados, ainda que importantes, não substituem a necessidade de professores concursados, espaços adequados e tempo no horário escolar para o desenvolvimento de ações continuadas (Pereira, 2024). A discussão sobre transversalidade, interdisciplinaridade e políticas públicas evidencia que a música pode contribuir para o fortalecimento de vínculos com a escola, mas depende de decisões de gestão e de planejamento coletivo para ganhar estabilidade e alcance mais amplo entre crianças e jovens.

Educação musical, tecnologias digitais e desafios do cotidiano escolar

Uma parte importante da produção recente sobre educação musical na escola básica focaliza as transformações vividas durante a pandemia de Covid-19 e a expansão do uso de tecnologias digitais. Barros discute experiências de docentes que precisaram adaptar práticas musicais para o ensino remoto, utilizando plataformas virtuais, gravação de vídeos e aplicativos de criação sonora (Barros, 2022). O estudo mostra que esses profissionais enfrentaram dificuldades técnicas e emocionais, mas também descobriram novas formas de interação, como produção de vídeos colaborativos, podcasts e oficinas virtuais de composição, o que reconfigurou a relação dos estudantes com a música e com a própria escola. Relatos de professoras e professores indicam que muitos alunos, ao verem seus vídeos de música circulando em canais da escola ou redes sociais, passaram a se perceber como produtores de cultura e não apenas como consumidores.

Beineke também analisa aprendizagens musicais criativas em tempos de pandemia, enfatizando atividades que incentivam a invenção de sons com objetos do cotidiano, a criação de trilhas para histórias e a realização de performances gravadas em casa (Beineke, 2021). O texto evidencia que, mesmo em condições adversas, a música continuou operando como espaço de encontro e construção de sentidos compartilhados, apoiando os estudantes no enfrentamento de medos, lutos e incertezas relacionados ao contexto pandêmico, ao mesmo tempo em que estimulou a autonomia na organização dos estudos. A autora comenta que muitos alunos passaram a envolver familiares nas atividades, o que gerou momentos de convivência marcados por escuta mútua e cooperação. Dessa forma, o lar se transformou ocasionalmente em espaço ampliado de aprendizagem musical.

Em linha semelhante, Santa Cruz apresenta relato de experiência sobre educação musical durante a pandemia de 2020, descrevendo a reinvenção de práticas de ensino em uma rede pública (Santa Cruz, 2021). O autor narra como atividades que antes se desenvolviam em salas de aula e pátios escolares passaram a ocorrer por meio de grupos de mensagens, vídeo chamadas e envio de áudios, o que exigiu replanejamento das propostas e negociação constante com famílias e estudantes. O relato mostra que, quando há escuta atenta das condições concretas dos alunos, projetos musicais podem se adaptar a diferentes formatos e continuar presentes como referência afetiva em períodos de forte instabilidade social. A experiência descrita reforça a necessidade de políticas de acesso a equipamentos e conexão para que a educação musical não se torne ainda mais excludente em momentos de crise.

Oliveira Neto realiza revisão de literatura sobre o ensino de música na escola básica durante a pandemia e discute como diferentes pesquisas registraram mudanças nas formas de ensinar, aprender e avaliar nesse período (Oliveira Neto, 2022). Entre os desafios apontados, destacam-se desigualdades de acesso à internet, limitações de espaço nas casas e dificuldades para realizar atividades coletivas à distância. Mesmo assim, o estudo evidencia que muitos professores criaram estratégias para manter algum grau de trabalho colaborativo, como composição de arranjos em camadas, uso de aplicativos de edição de áudio e desenvolvimento de projetos interdisciplinares que uniam música, artes visuais e narrativas digitais. A revisão chama atenção para o risco de reduzir a educação musical a atividades meramente técnicas, defendendo a importância de preservar o caráter expressivo, cooperativo e crítico mesmo em ambientes virtuais.

Já Silva investiga a educação musical durante a pandemia a partir de pesquisa realizada em curso de licenciatura e relata que docentes em formação precisaram repensar concepções de aula, avaliação e planejamento (Silva, 2021). A autora mostra que o contato com recursos digitais, embora inicialmente marcado por insegurança, levou à criação de propostas mais flexíveis, com valorização das experiências musicais dos estudantes fora da escola, como produções em redes sociais, grupos religiosos e manifestações culturais do bairro. O estudo sugere que essa abertura para repertórios diversos contribui para que futuros professores de música desenvolvam uma postura pedagógica mais sensível às realidades dos alunos e às tensões presentes no cotidiano escolar. Ao reconhecer a multiplicidade de espaços onde a música acontece, a formação docente se aproxima da ideia de educação musical comprometida com a escuta, o diálogo e o cuidado com a dimensão emocional dos sujeitos.

As produções que tratam das relações entre educação musical, tecnologias digitais e pandemia apontam para uma mudança duradoura no modo como a escola lida com o som, a imagem e a circulação de produções estudantis. Barros observa que o uso de gravações, editores de áudio e plataformas de vídeo não deve ser encarado apenas como solução emergencial, mas como oportunidade para que os estudantes experimentem diferentes linguagens e formas de autoria (Barros, 2022). A incorporação crítica desses recursos permite que a música se conecte às vivências midiáticas dos jovens, ao mesmo tempo em que abre espaço para discussão de temas como direitos autorais, privacidade e participação em redes sociais, questões centrais da vida contemporânea.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A revisão bibliográfica resultou na seleção de quinze textos produzidos entre 2020 e 2025, organizados em três núcleos principais: a) educação musical e competências socioemocionais; b) educação musical, aprendizagem e permanência na escola; c) educação musical, tecnologias digitais e experiências da pandemia. Essa organização permitiu visualizar como diferentes pesquisas brasileiras vêm relacionando práticas musicais com autocontrole, empatia, cooperação, autoestima e vínculo com a escola em contextos variados de educação básica.

No primeiro núcleo, estudos de Said convergem ao indicar que atividades de canto coletivo, jogos rítmicos, improvisação e uso de instrumentos simples favorecem a expressão de emoções, o diálogo e a construção de regras compartilhadas em sala de aula (Said, 2020). Em diferentes contextos, são descritos relatos de professores e estudantes que apontam diminuição de conflitos, maior disposição para colaborar com colegas e fortalecimento da autoconfiança, sobretudo entre crianças que costumam se calar em atividades tradicionais. Na discussão desses achados, a música aparece como linguagem que acolhe erros, experimentações e invenções, criando um clima de encorajamento para que todos participem, mesmo quem se sente “desafinado” ou inseguro.

Os dados do segundo núcleo mostram que a educação musical também se relaciona com permanência e êxito escolar. Pesquisas indicam que a participação em corais, bandas e projetos interdisciplinares com música aumenta o sentimento de pertencimento à escola e a vontade de permanecer nela, o que repercute na frequência e no envolvimento em outras disciplinas. Em muitos casos, estudantes relatam que chegam mais cedo em dias de ensaio, não faltam em momentos de apresentação e passam a assumir responsabilidades na organização de eventos. Esses relatos reforçam a leitura de que a escola deixa de ser vista apenas como obrigação e passa a ser percebida como espaço de criação e reconhecimento, em sintonia com discussões que defendem a música como elemento estruturado do percurso formativo na educação básica (Pereira, 2024).

A discussão sobre permanência escolar também ganha contornos políticos em estudos que examinam contextos atravessados por formas de controle mais rígidas e por disputas de projetos pedagógicos. Análises voltadas a esses ambientes mostram que a educação musical aparece como espaço de tensão: pode ser utilizada para reforçar obediência acrítica ou para abrir brechas de reflexão e diálogo sobre temas sensíveis, como racismo, desigualdade social e violências do dia a dia. Os resultados sugerem que a postura do professor, a escolha de repertórios e a maneira de organizar ensaios influenciam o modo como os estudantes vivenciam a disciplina: como imposição, ou como convite real à participação e à escuta de múltiplas vozes (Santos, 2022).

O terceiro núcleo reúne estudos que abordam o período da pandemia de Covid-19 e o uso de tecnologias digitais. Diversas pesquisas descrevem experiências de ensino remoto em que professoras e professores tiveram de adaptar atividades para plataformas on-line, grupos de mensagens e produção de vídeos. Apesar das dificuldades de acesso e das limitações de espaço doméstico, os relatos indicam que muitos estudantes passaram a gravar performances com familiares, criar trilhas para histórias, produzir podcasts e compartilhar composições nas redes da escola. Esses dados sugerem que a música funcionou como ponto de apoio emocional em um momento de medo e isolamento, criando canais de diálogo entre casa e escola e ajudando a manter algum tipo de presença coletiva mesmo à distância (Barros, 2022).

Na leitura conjunta dos três núcleos, emergem alguns pontos centrais para a discussão deste artigo. Primeiro, a educação musical só se torna aliada do desenvolvimento sócio emocional quando é planejada com intencionalidade pedagógica e continuidade, em sintonia com estudos que destacam a importância de projetos duradouros e integrados ao cotidiano da turma. Segundo, a literatura aponta que ações articuladas às políticas curriculares e à realidade cultural do território tendem a fortalecer vínculos com a escola e a reduzir trajetórias marcadas por fracasso e evasão, ao tratar a música como direito educativo e não como atividade acessória. Terceiro, a experiência da pandemia mostrou que tecnologias digitais podem ampliar possibilidades de autoria e expressão, desde que sejam usadas de forma crítica e inclusiva, evitando tanto a exclusão de quem não tem acesso quanto o uso meramente tecnicista dos recursos disponíveis (Alencar, 2025). Esses resultados dialogam diretamente com o objetivo do estudo, que é compreender o uso da educação musical como estratégia pedagógica para o desenvolvimento socioemocional na educação básica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As discussões desenvolvidas ao longo do artigo mostram que a educação musical tem força para reorganizar a vida escolar quando é tratada como componente do currículo e não apenas como atividade ocasional. As experiências reunidas na revisão apontam que, ao cantar em grupo, explorar ritmos, criar letras e experimentar instrumentos simples, crianças e adolescentes encontram meios concretos de nomear emoções, negociar combinados e construir confiança em relação a si mesmos e aos colegas. Esse conjunto de vivências favorece vínculos mais saudáveis com a escola e amplia a sensação de pertencimento, sobretudo entre estudantes que costumam aparecer apenas nas estatísticas de fracasso e evasão.

Também se tornou visível que o trabalho com música ganha alcance maior quando dialoga com outros componentes curriculares, com a cultura do território e com a experiência digital de cada geração. Projetos que juntam música, literatura, história local e produção de mídias possibilitam interpretações mais críticas do cotidiano, estimulam a participação em decisões coletivas e fortalecem a voz de grupos historicamente silenciados. Nesse quadro, a sala de aula deixa de ser espaço centrado apenas na exposição de conteúdos e passa a acolher práticas colaborativas em que todos podem propor, ouvir e revisar ideias.

Ao mesmo tempo, a revisão evidencia que a consolidação da educação musical como direito está ligada a decisões de gestão e de política pública: formação inicial e continuada de professores, concursos específicos, condições de trabalho e infraestrutura adequada. Sem essas garantias, muitas experiências dependem quase exclusivamente da boa vontade de alguns profissionais e correm risco de desaparecer quando há trocas de equipe ou de governo. Esse quadro reforça a importância de que redes de ensino inscrevam a música em seus projetos de longo prazo, com metas claras e acompanhamento constante.

Na etapa final da análise, o estudo aponta caminhos para novas pesquisas e intervenções. Investigações com acompanhamento prolongado de turmas, uso de métodos mistos e escuta sistemática de estudantes, famílias e educadores podem aprofundar o entendimento sobre como projetos musicais influenciam trajetórias escolares, saúde emocional e participação comunitária. Também merece atenção a produção de materiais didáticos, sequências de atividades e registros audiovisuais construídos em parceria com as escolas, de modo que outros profissionais possam adaptar essas experiências a realidades diversas. Ao reconhecer a arte como dimensão central da experiência humana, a educação musical se apresenta como aliada potente na construção de escolas mais acolhedoras, criativas e comprometidas com a dignidade de todas as crianças e jovens.

REFERÊNCIAS

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1Mestranda em Ciências da Educação pela Enber Universidy

2Graduando em Música pela Faculdade Dynamus de Campinas –  FADYC.

3Orientador Professor doutorando em Educação pelo PPGED – Programa de Pós Graduação em Educação – UFPI