EFEITOS ADVERSOS DO USO INDISCRIMINADO DE POLIMETILMETACRILATO (PMMA) NA SAÚDE FÍSICA: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA E A LACUNA NA AVALIAÇÃO MENTAL

ADVERSE EFFECTS OF INDISCRIMINATE USE OF POLYMETHYLMETHACRYLATE (PMMA) ON PHYSICAL HEALTH: A SYSTEMATIC REVIEW AND THE GAP IN MENTAL ASSESSMENT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512122109


Ellen Vittoria Figueiredo Barbosa1; Iasmin Cosmo Ferreira1; Taionara Lima Freire Andrade1; Maria Eduarda Lima de Carvalho1; Maria Cecilia Lima Aquino Ferreira1; Stephany Riccelle Fernandes Silva1; Pâmela Raieli Pinheiro Moreira1; Matheus Paixão Silva1; André Muritiba Araújo2; Tâmara Trindade de Carvalho Santos3


Resumo:

Objetivo: compreender os impactos do uso irregular e crescente do Polimetilmetacrilato (PMMA) na saúde física e mental de pacientes que buscam resultados estéticos a partir da utilização desse material para preenchimento e modulação corpórea. Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura utilizando as bases de dados PubMed e Biblioteca virtual em saúde (BVS), com descritores em português. Foram incluídos estudos publicados entre 2015 e 2024 que abordassem o uso inadequado do PMMA e suas consequências negativas. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 12 estudos foram selecionados para análise. Resultados: O uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em aplicações estéticas, está associado a amplas complicações clínicas, especialmente quando utilizado de forma inadequada. As reações granulomatosas constituem a complicação  física  mais  comum,  frequentemente  associadas  a  inflamação persistente, edema, necrose e, em casos mais graves, a manifestações sistêmicas como hipercalcemia e comprometimento renal. Essas reações adversas podem surgir anos após a aplicação, demonstrando um caráter tardio e imprevisível. Complicações graves, como infecções extensas, exigem intervenções complexas, incluindo remoção cirúrgica, antibioticoterapia, drenagem de seromas e uso de enxertos. O tratamento inicial costuma envolver o uso de corticoides, sendo necessária abordagem cirúrgica e suporte clínico em quadros mais severos. A revisão indicou uma carência de estudos sobre os impactos psicológicos das complicações relacionadas ao uso do PMMA, o que aponta para a necessidade de abordagens mais interdisciplinares e humanizadas.

Palavras chaves: Polimetilmetacrilato, fins estéticos, saúde física, saúde mental, efeitos adversos.

Abstract

Objective: To understand the impacts of the irregular and increasing use of Polymethylmethacrylate (PMMA) on the physical and mental health of patients seeking aesthetic results from the use of this material for body filling and modulation. Methods: A systematic review of the literature was carried out using the PubMed and Virtual Health Library (VHL) databases, with descriptors in Portuguese. Studies published between 2015 and 2025 that addressed the inappropriate use of PMMA and its negative consequences were included. After applying the inclusion and exclusion criteria, 12 studies were selected for analysis. Results: The use of polymethyl methacrylate (PMMA) in aesthetic applications is associated with extensive clinical complications, especially when used inappropriately. Granulomatous reactions are the most common physical complication, often associated with persistent inflammation, edema, necrosis and, in more severe cases, systemic manifestations such as hypercalcemia and renal impairment. These adverse reactions may appear years after application, demonstrating a delayed and unpredictable nature. Serious complications, such as extensive infections, require complex interventions, including surgical removal, antibiotic therapy, drainage of seromas and use of grafts. Initial treatment usually involves the use of corticosteroids, with surgical approach and clinical support being necessary in more severe cases. The review indicated a lack of studies on the psychological impacts of complications related to the use of PMMA, which points to the need for more interdisciplinary and humanized approaches.

Keywords: Polymethylmethacrylate, aesthetic purposes, physical health, mental health, adverse effects.

Resumen:

Objetivo: comprender los impactos del uso irregular y creciente de Polimetilmetacrilato (PMMA) en la salud física y mental de pacientes que buscan resultados estéticos del uso de este material para relleno y modulación corporal. Métodos: Se realizó una revisión sistemática de la literatura utilizando las bases de datos PubMed y Biblioteca Virtual en Salud (BVS), con descriptores en portugués. Se incluyeron estudios publicados entre 2015 y 2025 que abordaron el uso inadecuado de PMMA y sus consecuencias negativas. Luego de aplicar los criterios de inclusión y exclusión, se seleccionaron 12 estudios para su análisis. Resultados: El uso de polimetilmetacrilato (PMMA) en aplicaciones estéticas se asocia con complicaciones clínicas generalizadas, especialmente cuando se utiliza de forma inapropiada. Las reacciones granulomatosas constituyen la complicación física más común, a menudo asociada con inflamación persistente, edema, necrosis y, en casos más graves, manifestaciones sistémicas como hipercalcemia e insuficiencia renal. Estas reacciones adversas pueden aparecer años después de la aplicación, demostrando un carácter tardío e impredecible. Las complicaciones graves, como infecciones extensas, requieren intervenciones complejas, que incluyen extirpación quirúrgica, terapia con antibióticos, drenaje de seromas y uso de injertos. El tratamiento inicial suele implicar el uso de corticosteroides, siendo necesario un abordaje quirúrgico y apoyo clínico en los casos más graves. La revisión indicó una falta de estudios sobre los impactos psicológicos de las complicaciones relacionadas con el uso de PMMA, lo que apunta a la necesidad de enfoques más interdisciplinarios y humanizados.

Palabras clave: Polimetilmetacrilato, fines estéticos, salud física, salud mental, efectos adversos.

1 INTRODUÇÃO

O polimetilmetacrilato (PMMA) é um polímero sintético, rígido e transparente, sintetizado pela primeira vez em 1902 e, posteriormente, patenteado sob o nome comercial Plexiglas em 1928 (SALLES et al. 2008). Com o tempo, esse material passou a ser amplamente explorado pela medicina, especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial, quando desempenhou papel crucial na reconstrução óssea de soldados que sofreram traumas cranianos durante combates (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2025).

Na medicina contemporânea, o PMMA é amplamente utilizado como polímero sintético termoplástico rígido e transparente na forma de microesferas de 40µm, cuja aplicação é feita através de cânulas com pacientes sob efeitos anestésicos. O manuseio dessas microesferas é feito com seringas, principalmente em meios de suspensão como o colágeno, onde se dissolvem e formam uma substância que assemelha-se a um gel, que age com funções de preenchimento e suporte em diversas aplicações terapêuticas e estéticas (CAPPELLA et al., 2019). Na odontologia, é utilizado em tratamentos reparadores como em correções volumétricas faciais e corporais em regiões afetadas por traumas advindos de doenças ou acidentes, e na composição de enxertos ósseos para o tratamento de exposições gengivais, com resultados satisfatórios (BRASIL, [s.d.]; YU et al., 2024). Além disso, na ortopedia, destaca-se seu uso como cimento ósseo em procedimentos reconstrutivos, em que o material é aplicado por meio de parafusos fenestrados, o que aumenta a eficácia e segurança da técnica, especialmente em pacientes com osteoporose. (WANG et al., 2019).

Entretanto, apesar dos benefícios clínicos reconhecidos, o uso do PMMA para fins estéticos tem sido objeto de crescente controvérsia. A aplicação subcutânea desse material como preenchedor permanente tem se popularizado entre médicos e profissionais não habilitados, devido à sua fácil aquisição, e a seu custo reduzido pois enquanto uma aplicação com ácido hialurônico custa R$2.000,00 reais a de PMMA custa R$900,00 reais. Além disso, é comum encontrar consultórios odontológicos, clínicas de estética e salões de beleza oferecendo o procedimento (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, 2016).

O PMMA é uma substância permanente, uma vez que quando introduzido na derme, suas cadeias se unem ao tecido muscular de forma irreversível, por esse motivo, apenas médicos e cirurgiões dentistas têm a habilitação legal para manipulá-la em seus consultórios para procedimentos corretivos. Seu uso é autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), por meio da Portaria Conjunta SAS/SVS nº 1, de 20 de janeiro de 2009, para tratamento reparador em situações de correção volumétrica e facial e correção de lipodistrofia provocada pelo uso de medicamentos antirretrovirais em pacientes com HIV. Assim que o PMMA é introduzido no organismo, ele recupera sua forma original, cristalizando-se e plastificando-se sobre o tecido (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, 2018; CAPPELLA et al., 2019).

A busca desenfreada para atingir padrões estéticos estabelecidos pela sociedade, em conjunto com a expansão do mercado de estética e o custo relativamente baixo do polimetilmetacrilato, impulsionou a procura e o uso desse material como preenchedor cutâneo em procedimentos estéticos, principalmente objetivando o aumento de tecidos moles. (MARTINS et al., 2024). As regiões mais frequentemente submetidas à aplicação de PMMA em procedimentos estéticos são os membros inferiores, a região glútea, os músculos deltoides e diversas áreas da face, com destaque para os sulcos nasolabiais e os lábios. (CORREIA et al., 2024)

Há alguns anos têm surgido discussões e informações sobre as complicações advindas do uso irregular de polimetilmetacrilato em fins estéticos. As complicações associadas à sua aplicação estética incluem reações inflamatórias, formação de granulomas, processos alérgicos, necroses, rejeição e quando inserida em grande volume no organismo, a substância pode disseminar-se para outras regiões, ocasionando, em casos graves, risco à vida do paciente. Segundo dados do Censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (2017), mais de 4 mil cirurgias corretivas foram realizadas em 2016 devido a complicações decorrentes do uso de PMMA, embora o número real de intercorrências seja muito superior, sendo registradas nesse mesmo ano, mais de 17 mil complicações associadas ao produto. (MARTINS et al., 2017; SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, 2018 WANG et al., 2019).

Dentre os principais casos relatados pelo Conselho Federal de Medicina, que demonstra preocupação com esse tipo de material para fins não funcionais, puderam ser vistas complicações relacionadas ao comprometimento vascular, endurecimento do tecido local, formação de nódulos nas áreas de aplicação, necrose extensa da região glútea após a injeção de PMMA por profissional não qualificado, casos de hipercalcemia que levaram a falência renal e a necessidade de intervenções cirúrgicas para reparação de danos (ANVISA,2025). Esse cenário alarmante levou a ANVISA e o Ministério da Saúde a se posicionarem contra o uso indiscriminado do PMMA, recomendando sua proibição em procedimentos estéticos não regulamentados (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2025).

No Brasil, observa-se uma deficiência na regulamentação e na fiscalização dos centros de medicina estética por parte dos órgãos competentes. Apesar dos esforços empreendidos por entidades médicas para orientar a prática segura, a disseminação de informações enganosas e apelativas, potencializada pela ampla visibilidade nas mídias sociais, contribui significativamente para a desinformação da população. Como consequência, pacientes acabam se submetendo a procedimentos estéticos sem a garantia de segurança e respaldo técnico necessários (KURIMORI et al., 2019).

Ainda que existam estudos sobre o comportamento do PMMA no organismo humano, não há consenso científico suficiente para garantir sua total segurança em procedimentos estéticos. A ausência de evidências robustas quanto à beneficência e à não maleficência de seu uso contínuo, especialmente em contextos não terapêuticos, torna sua aplicação estética antiética e potencialmente danosa à saúde pública. Diversos especialistas têm alertado sobre a mercantilização da estética médica em detrimento da segurança dos pacientes.(CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2025)

Dessa maneira, o objetivo desta revisão é compreender os impactos do uso irregular e crescente do Polimetilmetacrilato (PMMA) na saúde física e mental de pacientes que buscam resultados estéticos a partir da utilização desse material para preenchimento e modulação corpórea

2 METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma revisão sistemática da literatura, cuja pesquisa que fundamentou a escrita foi realizada em fevereiro e em março de 2025, utilizando descritores em Ciências da Saúde (DeCS), isoladamente ou combinados com o operador booleano “AND”. Os termos de busca empregados foram “Polimetil Metacrilato”, “efeitos adversos”, “complicações” e “saúde mental”, além de seus respectivos sinônimos em inglês. Embora o descritor “saúde mental” tenha sido incluído na estratégia de busca, sua combinação com os demais termos apresentou resultados limitados, sendo essa temática menos representada nas evidências encontradas. As bases de dados selecionadas para a busca dos artigos foram PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS).

Foram estabelecidos critérios de inclusão e exclusão para a seleção dos estudos. Como critérios de inclusão, consideraram-se artigos científicos publicados entre 2015 e 2025, escritos em inglês ou português, que abordassem o uso inadequado do PMMA e suas consequências negativas. Já os critérios de exclusão englobam artigos que não estivessem dentro do período de publicação estabelecido, que não tratassem do uso do PMMA, que não apresentassem relevância para a pesquisa por não contribuírem diretamente para análise proposta, que não estivessem disponíveis na íntegra e aqueles duplicados entre as bases de dados.

Utilizando os descritores mencionados, foram identificados 59 artigos nas bases de dados SCIELO (3), BVS (6), PUBMED (7) e LILACS (43). Após a remoção dos artigos indisponíveis na íntegra, restaram 34 artigos. Em seguida, procedeu-se à remoção de duplicatas, totalizando 26 artigos restantes. Esses artigos passaram por uma triagem de títulos e resumos, sendo selecionados 19 artigos. Na etapa seguinte, foi realizada a análise dos textos completos, da qual resultaram 12 artigos. Esses 12 artigos foram incluídos na revisão sistemática. O processo de seleção de artigos está ilustrado no fluxograma (Figura 1).

Figura 1. Fluxograma da Seleção de Artigos

Fonte: elaborado pelos autores, 2025

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O Quadro 1 apresenta um resumo das principais características dos 12 estudos selecionados, incluindo ano de publicação, autores, título, tipo de estudo e principais achados. Esses estudos foram publicados entre 2016 e 2024, em diferentes países, como Alemanha, Brasil, Estados Unidos e México. A maioria utilizou o método de relato de caso (6), seguido por estudos de coorte (2), revisões sistemáticas (2) e estudos observacionais (2), oferecendo uma visão abrangente sobre a administração de PMMA e os malefícios associados ao seu uso indiscriminado. Dentre os estudos incluídos, quatro apresentaram delineamento longitudinal – dois de coorte e dois observacionais – , permitindo uma análise mais aprofundada da evolução dessa relação ao longo do tempo.

Quadro 1. Características dos estudos incluídos na revisão.

Fonte: elaborado pelos autores, 2025.

O PMMA (polimetilmetacrilato) é um polímero sintético abundantemente utilizado na área da medicina. Podendo ser usado em diversos contextos, sendo os principais: procedimentos estéticos faciais, preenchimentos corporais, reconstrução ortopédica e cranioplastias. Podendo haver complicações conforme a área e técnica de aplicação.

No contexto do envelhecimento fácil, esse material é frequentemente utilizado em procedimentos estéticos faciais permanentes, a fim de corrigir rugas e sulcos. Sua utilização é motivada por apresentar baixo custo e pela ampla disponibilidade. Contudo, essa acessibilidade facilita o manejo e administração por profissionais não médicos, o que pode contribuir para o aparecimento de complicações futuras. (SOUZA  et  al.,  2016).  Quando  utilizado  como  preenchimento  corporal ,principalmente em coxas e glúteos, a natureza de técnicas invasivas e arriscadas, além da aplicação de grande quantidade injetada de material, elevam exponencialmente o risco de desenvolvimento de problemas de saúde (KURIMORI et al.,2019).

Em contrapartida em áreas de neurocirurgia e ortopedia, o PMMA aplicado como cimento ósseo para estabilização de fraturas e o auxílio de implantes, se mostrou uma substância segura para cranioplastias, com complicações semelhantes a outros tipos de materiais (LEÃO et al., 2018).

As complicações clínicas associadas ao uso do PMMA foram amplamente descritas nos estudos revisados, sendo as reações granulomatosas uma das manifestações mais recorrentes. Além dos granulomas, também foram observados casos de inflamação persistente, edema, necrose e, em situações mais graves, alterações sistêmicas como hipercalcemia e comprometimento renal, geralmente relacionadas a respostas inflamatórias exacerbadas. (MANFRO et al., 2020). Essas complicações podem surgir anos após a aplicação, o que reforça o caráter imprevisível e tardio de muitos efeitos adversos. Em alguns casos, a migração do material para regiões distantes foi descrita, evidenciando riscos mesmo fora do local de aplicação inicial. A literatura também aponta que técnicas inadequadas e o uso de grandes volumes, especialmente por profissionais não médicos, aumentam significativamente a chance de eventos adversos. Ainda que os dados sobre a frequência dessas complicações variem, a subnotificação é uma preocupação constante, especialmente no que se refere às manifestações tardias. (MACHADO et al., 2023)

O tempo mediano para o surgimento de complicações após a aplicação inicial de PMMA na face foi de 71 meses, com amplitude interquartil de 23 a 132 meses, e uma variação de 1 a 330 meses entre os tempos mínimo e máximo. As regiões malar e mandibular foram as mais frequentemente comprometidas por complicações, seguidas pela região zigomática. Na população estudada, foram identificadas complicações em diversas áreas faciais, sendo o granuloma a mais comum, seguido por edema e inflamação. Considerando o tipo de complicação, o granuloma foi observado de maneira ampla em pacientes. Similarmente, não houve diferença no tempo de ocorrência de complicações entre homens e mulheres. Contudo, pacientes com menos de 50 anos apresentaram complicações mais precocemente do que aqueles com mais de 50 anos (GOLDMAN et al., 2024).

Os tratamentos mais utilizados nos casos de complicações relacionadas ao uso dessa substância foram a aplicação de corticoides, seguida pela remoção cirúrgica das lesões. Em situações mais complexas, como na ocorrência de hipercalcemia com comprometimento da função renal, induzida por granulomas, o manejo inclui hidratação intravenosa e uso de prednisona. (MANFRO et al., 2020)

Em casos relacionados a aplicação de significativos volumes de polimetilmetacrilato (PMMA) observaram-se complicações graves, incluindo infecções extensas. Nessas situações é necessário remoção de tecidos por via cirúrgica, uso de terapia por pressão negativa e enxertos de pele. A remoção cirúrgica parcial dos granulomas é indicada como parte do tratamento (SOUZA et al., 2016).

Além disso, em relatos de complicações infecciosas, resultando na proliferação de bactérias, o tratamento é feito a partir da prescrição de antibioticoterapia intensiva, enquanto que em quadros nos quais observam-se o desenvolvimento de seroma nos tecidos, a drenagem para controle local do acúmulo de líquido é uma alternativa terapêutica. (CIENFUEGOS et al.,2018)

De forma geral, as abordagens de tratamentos adotados variam conforme a gravidade do quadro, sendo os corticoides a principal abordagem inicial. Em casos mais graves, caracterizados por infecção, reação inflamatória persistente ou complicações  sistêmicas,  a  remoção  cirúrgica  das  lesões  torna-se  uma  via necessária, frequentemente associada a medidas de suporte clínico e antimicrobianas (SOUZA et al., 2016).

Embora existam diversos estudos que abordam os efeitos fisiológicos e as complicações clínicas decorrentes do uso indiscriminado do (PMMA), observa-se uma escassez significativa de investigações que explorem de forma aprofundada as repercussões psicológicas e o impacto na saúde mental dos pacientes acometidos por essas complicações. A literatura atual tende a se concentrar em aspectos biomédicos e técnicos, negligenciando os efeitos emocionais e psicossociais, como ansiedade, depressão, baixa autoestima e estigmatização social, que frequentemente acompanham os resultados estéticos indesejados ou deformidades causadas pelo uso inadequado do PMMA. Essa lacuna evidencia a necessidade de estudos interdisciplinares que integrem saúde física e mental, a fim de oferecer uma compreensão mais completa do sofrimento desses pacientes e subsidiar estratégias terapêuticas mais eficazes e humanizadas.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa revisão sistemática evidenciou que o PMMA (polimetilmetacrilato) apresenta, em aplicações estéticas, complicações físicas significativas, dentre as quais se destacam a formação de nódulos, granulomas, infecções e reações inflamatórias tardias, as quais podem se manifestar desde os primeiros meses até anos após a injeção.

Entretanto, quando empregado em procedimentos reconstrutivos, especialmente em cranioplastias e cirurgias ortopédicas, o PMMA revela benefícios importantes: alta biocompatibilidade, estabilidade mecânica, facilidade de moldagem intraoperatória e custo relativamente baixo, contribuindo para a restauração funcional e estética do paciente.

Os objetivos desta revisão foram parcialmente alcançados: foi possível mapear detalhadamente os impactos físicos positivos e negativos do uso do PMMA. Contudo, constatou-se escassez de estudos que explorem os impactos mentais decorrentes de complicações físicas, o que impediu a formulação de conclusões sobre este aspecto.

Em termos práticos, recomenda-se cautela na utilização do PMMA para fins estéticos,  sobretudo  em  contextos  não  hospitalares  ou  sem  supervisão especializada, de modo a minimizar riscos iminentes. Por outro lado, reforça-se a relevância clínica do material em cranioplastias e cirurgias ortopédicas, onde seus atributos têm pontos positivos. Para avanços futuros, realização de estudos longitudinais e multidisciplinares que investiguem tanto as consequências físicas quanto psicológicas do uso do PMMA; Comparação sistemática entre diferentes contextos de aplicação; Fortalecimento da regulamentação e da capacitação dos profissionais envolvidos.

Assim, esta revisão contribui para a compreensão abrangente dos impactos do PMMA e aponta caminhos para pesquisas e práticas mais seguras e eficazes.

REFERÊNCIAS

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1Discentes do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina 

2Coorientador e Discente do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina e-mail: andre.muritiba@hotmail.com

3Orientador, Doutora em Biotecnologia e Docente do Curso Superior de Medicina – Faculdade Ages Campus Jacobina e-mail: tamara.carvalho@ages.edu.br