OS EFEITOS DO USO DE TELAS EM CRIANÇAS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA SOBRE AS IMPLICAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO, EMOCIONAL E NEUROLÓGICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512122044


Raíssa Pinheiro de Oliveira1; Jair Gomes Bezerra1; Marcus Vinícius Chaves Félix1; Hiarley Eufrásio Mota1; Amanda Alfredo dos Santos1; Pietra Valença de Barros Sampaio1; Hyngrid Barros Silva1; Maria Eduarda Neves Cardoso1; André Muritiba Araújo2; Tâmara Trindade de Carvalho Santos3


Resumo

Objetivo: Analisar e sintetizar as evidências científicas acerca dos impactos da exposição a telas no desenvolvimento cognitivo, emocional e neurológico de crianças de 0 a 12 anos, identificando fatores de risco e estratégias de mitigação. Metodologia: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura realizada nas bases de dados PubMed, LILACS, SciELO e BVS. A busca abrangeu o período de 2018 a 2025, utilizando descritores relacionados a “uso de telas”, “desenvolvimento infantil”, “cognição” e “saúde mental”. De um total de 508 registros iniciais, foram selecionados 10 artigos que atenderam aos critérios de inclusão e rigor metodológico para a análise qualitativa. Resultados: As evidências indicam uma relação dose-resposta negativa, onde o uso excessivo e precoce de dispositivos eletrônicos associa-se a alterações neurofuncionais, atrasos na linguagem, déficits de atenção e desregulação emocional. Fatores como sedentarismo, prejuízo na qualidade do sono e redução da interação familiar foram identificados como mecanismos agravantes. Em contrapartida, o uso moderado, intencional e com mediação parental ativa, focado em conteúdos educativos, demonstrou potencial para favorecer habilidades cognitivas específicas, como o raciocínio lógico. Conclusão: O impacto das telas no desenvolvimento infantil é multidimensional e dependente do contexto. Enquanto a exposição indiscriminada oferece riscos significativos ao neurodesenvolvimento, a mediação parental e a qualidade do conteúdo atuam como fatores moderadores essenciais. Reforça-se a necessidade de adesão às diretrizes de tempo de exposição e a priorização de interações presenciais para um desenvolvimento saudável.

Palavras-chave: Tempo de tela. Desenvolvimento infantil. Neuroplasticidade. Cognição. Saúde da criança.

Abstract

Objective: To analyze and synthesize scientific evidence regarding the impact of screen exposure on the cognitive, emotional, and neurological development of children aged 0 to 12 years, identifying risk factors and mitigation strategies. Methodology: A systematic literature review was conducted using PubMed, LILACS, SciELO, and VHL databases. The search covered the period from 2018 to 2025, using descriptors related to “screen time,” “child development,” “cognition,” and “mental health.” Out of 508 initial records, 10 articles meeting the inclusion criteria and methodological rigor were selected for qualitative analysis. Results: Evidence indicates a negative dose-response relationship, where excessive and early use of electronic devices is associated with neurofunctional alterations, language delays, attention deficits, and emotional dysregulation. Factors such as sedentary behavior, impaired sleep quality, and reduced family interaction were identified as aggravating mechanisms. Conversely, moderate, intentional use with active parental mediation, focused on educational content, showed potential to favor specific cognitive skills, such as logical reasoning. Conclusion: The impact of screens on child development is multidimensional and context-dependent. While indiscriminate exposure poses significant risks to neurodevelopment, parental mediation and content quality act as essential moderating factors. The findings reinforce the need for adherence to exposure time guidelines and the prioritization of face-to-face interactions for healthy development.

Keywords: Screen time. Child development. Neuroplasticity. Cognition. Child health.

1 INTRODUÇÃO

A revolução digital das últimas décadas reconfigurou substancialmente os padrões de interação humana e converteu dispositivos eletrônicos, tais como smartphones, tablets e computadores, em componentes onipresentes no cotidiano contemporâneo (VALDIVIA; GÁRATE, 2014). No contexto pediátrico, essa inserção tecnológica coincide com a primeira infância, um período de vulnerabilidade biológica crítica caracterizado por intensa neuroplasticidade e pela consolidação de circuitos neurais essenciais para a linguagem, a atenção e as funções executivas (STRAKER; POLLOCK, 2005; CARTANYÁ-HUESO et al., 2016).

Paralelamente ao avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação, observaram-se mudanças estruturais na dinâmica familiar que foram impulsionadas pela inserção da mulher no mercado de trabalho e pela expansão do teletrabalho. Tais transformações frequentemente reduzem o tempo disponível para a supervisão parental direta e para o convívio presencial. Nesse cenário, a exposição a telas frequentemente assumiu um papel de substituição à supervisão parental direta e à mediação afetiva, sendo utilizadas como ferramentas de regulação emocional externa em detrimento do diálogo e da interação lúdica (MUPPALA et al., 2023).

Embora diretrizes globais, como as preconizadas pela Organização Mundial da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria, estabeleçam restrições rigorosas ao tempo de tela, a prática social revela um cenário divergente. A literatura científica apresenta um corpo de evidências heterogêneo sobre o tema. Enquanto estudos robustos associam o uso excessivo e não supervisionado a desfechos adversos, como atrasos de linguagem e déficits de atenção, pesquisas emergentes sugerem que o uso moderado focado em conteúdos educativos pode favorecer domínios cognitivos específicos (CHEN et al., 2023).

Diante da variabilidade metodológica dos estudos existentes e das lacunas que dificultam consensos definitivos, a presente revisão sistemática tem como objetivo integrar e sintetizar os principais achados científicos sobre o impacto do uso de telas no desenvolvimento cognitivo, emocional e neurológico infantil. Busca-se examinar como variáveis moderadoras, incluindo o tempo de exposição, a qualidade do conteúdo e a mediação parental, influenciam esses desfechos e oferecer subsídios para práticas baseadas em evidências.

2 METODOLOGIA 

O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática da literatura acerca da relação entre o tempo de tela e o desenvolvimento neuropsicomotor em crianças. 

A realização das buscas ocorreu entre os dias 13 e 27 de agosto de 2025. Utilizaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e palavras-chave, isolados ou combinados, com os operadores booleanos (“Uso de telas” OR “Tempo de tela” OR “Dependência tecnológica”) AND (“Criança” OR “Desenvolvimento infantil”) AND (“Cognição” OR “Comportamento” OR “Sono” OR “Saúde mental”), nas bases de dados PubMed, LILACS, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). 

Foram incluídas publicações científicas e trabalhos acadêmicos dos últimos 5 anos, abrangendo artigos originais, revisões e literatura relevante ao tema. Foram encontrados 508 artigos no total, dos quais foram selecionados 10 artigos científicos. 

Os critérios de exclusão adotados foram: Estudos com adolescentes (>12 anos) ou adultos; Pesquisas sem relação com o uso de telas ou sem desfechos cognitivos/comportamentais; Artigos anteriores a 2018; Relatos de caso, editoriais, cartas e duplicata; Estudos com vieses externos (ex.: alterações causadas por pandemia de COVID-19). Os critérios de inclusão adotados foram: Artigos publicados entre 2018 e 2025; Estudos com população infantil (0–12 anos); Pesquisas que avaliem tempo de exposição a telas e seus efeitos cognitivos, emocionais, comportamentais ou neurológicos; Artigos em português, inglês ou espanhol; Tipos de estudo: observacionais, transversais, longitudinais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas. 

Os artigos selecionados constituem a base para análise e discussão desta revisão sistemática, permitindo compreender os principais achados e desafios relacionados ao impacto do tempo de tela no desenvolvimento neuropsicomotor infantil.

Figura 1. Fluxograma da Seleção de Artigos

Fonte: Elaborado pelos autores, 2025.

3 RESULTADOS 

A amostra final desta revisão sistemática constituiu-se de 10 artigos científicos publicados no quinquênio de 2021 a 2025, o que reflete a atualidade e a relevância crescente do tema frente às novas tecnologias de mídia. A diversidade geográfica dos estudos, abrangendo contextos socioculturais distintos da América Latina (Argentina e Brasil), América do Norte (Estados Unidos) e Ásia (Singapura), permite uma análise transcultural valiosa dos fenômenos associados à exposição digital, sugerindo que os efeitos observados transcendem fronteiras culturais específicas.

Quanto ao delineamento metodológico, observou-se uma heterogeneidade necessária para a compreensão holística do fenômeno: cinco estudos (50%) consistiram em revisões (sistemáticas ou de literatura) que consolidam o conhecimento prévio e oferecem panoramas amplos; três estudos apresentaram desenho longitudinal (coorte prospectiva), os quais são fundamentais para o estabelecimento de causalidade temporal e para a observação de efeitos a longo prazo; e dois estudos foram transversais, oferecendo um diagnóstico situacional preciso dos padrões atuais de uso de telas (Quadro 1).

Quadro 1 – Síntese das características metodológicas e principais desfechos dos estudos incluídos na revisão. 

Autor(es) / AnoDelineamentoFoco PrincipalPrincipais Desfechos Observados
Bakht et al. (2025)Revisão SistemáticaDesenvolvimento MotorAssociação negativa consistente entre tempo excessivo de tela e atrasos nas habilidades motoras fundamentais (coordenação fina/grossa e destreza) em crianças de 0 a 7 anos.
Souza et al. (2025)Revisão NarrativaNeurodesenvolvimentoAponta a dualidade do uso: riscos elevados de alterações no sistema de recompensa (semelhante a vícios) e atenção versus benefícios cognitivos pontuais sob mediação parental adequada.
Takahashi et al. (2023)Coorte LongitudinalAtrasos no DesenvolvimentoIdentificação de relação dose-resposta clara: a exposição aos 12 meses prediz atrasos significativos e persistentes na comunicação e resolução de problemas aos 2 e 4 anos.
Vasconcelos et al. (2024)TransversalQualidade de VidaImpacto negativo multidimensional afetando o bem-estar físico, emocional e social, com correlações diretas para ansiedade, isolamento e dificuldades de socialização.
Huang et al. (2024)Coorte LongitudinalRedes CerebraisEvidência de exposição precoce associada à maturação acelerada e integração atípica de redes de processamento emocional. A leitura compartilhada atua como fator protetor neural.
Muppalla et al. (2023)Revisão AtualizadaCognição e ComportamentoEfeitos deletérios severos no sono, capacidade de atenção e regulação emocional. Enfatiza a necessidade de cumprimento das diretrizes de tempo de uso por faixa etária.
Puccinelli et al. (2023)Estudo DocumentalPercepção ParentalMapeamento das preocupações parentais sobre déficits de atenção, risco de obesidade e o isolamento familiar progressivo decorrente da onipresença das telas.
Carneiro et al. (2023)Quantitativo LongitudinalSaúde OcularAlta prevalência de sintomatologia física: astenopia, cefaleia tensional e ressecamento ocular diretamente associados à exposição prolongada e contínua.
Gondim et al. (2022)Revisão de LiteraturaDesenvolvimento SocialUso superior a 1h/dia em pré-escolares associado estatisticamente a sintomas de TDAH, agressividade e prejuízos marcantes nas habilidades socioemocionais.
Nobre et al. (2021)TransversalDeterminantes de UsoAlta prevalência de uso inadequado (>2h/dia) em crianças de 24-42 meses, correlacionada paradoxalmente a maior nível socioeconômico e acesso a dispositivos.
Fonte: Elaborado pelos autores (2025).

3.1. Análise Integrativa e Crítica dos Achados

A síntese aprofundada das evidências permite categorizar os impactos do uso de telas em três eixos principais interconectados: neurodesenvolvimento e cognição, saúde física e motora, e competência socioemocional.

Neurodesenvolvimento e Plasticidade Cerebral: Os estudos longitudinais, considerados de maior nível de evidência nesta amostra, revelaram associações preocupantes e persistentes. Takahashi et al. (2023) demonstraram que a exposição precoce (já aos 12 meses de vida) possui um efeito cascata deletério, resultando em atrasos na comunicação e na resolução de problemas que persistem anos mais tarde. Essa relação de dose-resposta sugere que os danos não são meramente momentâneos, mas cumulativos, privando o cérebro imaturo de estímulos tridimensionais essenciais. Complementarmente, Huang et al. (2024) trouxeram evidências neurobiológicas robustas sugerindo que o tempo excessivo de tela pode alterar a própria topologia das redes cerebrais, promovendo uma integração funcional atípica entre o processamento emocional e o controle cognitivo. Tal “maturação acelerada” não indica um desenvolvimento superior, mas uma adaptação a um ambiente hiperestimulante, o que pode explicar clinicamente a maior desregulação emocional, irritabilidade e baixa tolerância à frustração observada nessas crianças.

Aspectos Motores e Saúde Física: A revisão sistemática de Bakht et al. (2025) e o estudo transversal de Vasconcelos et al. (2024) convergem ao apontar que o sedentarismo induzido pelas telas compromete significativamente a aquisição de marcos motores fundamentais, como o equilíbrio, a coordenação motora grossa e a destreza manual fina. A substituição do tempo de brincar ativo pelo tempo de tela passivo limita a exploração física do ambiente, crucial para o desenvolvimento proprioceptivo. Adicionalmente, Carneiro et al. (2023) destacam as repercussões físicas imediatas e tangíveis, como a fadiga visual digital (astenopia), cefaleias e ressecamento ocular, reforçando que o impacto do uso de telas não é apenas cognitivo ou comportamental, mas sistêmico, afetando a saúde física global da criança.

Fatores Moderadores:Um achado crucial e esperançoso, destacado por Souza et al. (2025) e Huang et al. (2024), é que o impacto das telas não é estritamente unidirecional ou fatalista. A leitura compartilhada e a interação parental ativa durante o uso de mídias funcionam como potentes fatores de proteção, capazes de mitigar ou até neutralizar os efeitos adversos da exposição digital. Isso sugere que o “tempo de tela” isoladamente é uma métrica insuficiente para avaliar risco; o contexto de uso (solitário versus acompanhado/co-visualização) e a qualidade pedagógica do conteúdo são determinantes para o desfecho no desenvolvimento.

3.2. Impacto Estratificado por Domínios do Desenvolvimento

A complexidade dos efeitos das telas exige uma análise segmentada, uma vez que diferentes domínios do desenvolvimento apresentam janelas de vulnerabilidade distintas. O Quadro 2 sistematiza as evidências encontradas, correlacionando áreas do desenvolvimento afetadas com os desfechos clínicos e funcionais reportados na literatura.

Quadro 2 – Síntese analítica das áreas do desenvolvimento afetadas e suas consequências clínicas.

Domínio AfetadoPrincipais Achados e Repercussões ClínicasAutores Chave
Comunicação e LinguagemIdentificou-se uma correlação inversa significativa: a cada hora adicional de tela, observa-se uma redução proporcional na comunicação verbal da criança. A substituição da interação dialógica (troca de turnos na fala) pelo consumo passivo resulta em vocabulário reduzido e atrasos na expressão verbal.Muppalla et al. (2023); Melamud (2025)
Desenvolvimento CognitivoO uso superior a 3 horas/dia associa-se a menor prontidão escolar e déficits no raciocínio matemático. A exposição precoce interfere na capacidade de atenção sustentada, fundamental para o aprendizado acadêmico formal. Dados indicam uma diminuição de 7% na participação em sala de aula e 6% na proficiência matemática para cada hora extra de exposição.Gondim et al. (2022); Muppalla et al. (2023)
Socioemocional e ComportamentalA exposição excessiva (>60 min/dia em pré-escolares) correlaciona-se com maior reatividade emocional, irritabilidade e sintomas externalizantes (agressividade). Há vulnerabilidade aumentada para sintomas mimetizadores de TDAH e comportamentos antissociais devido à menor regulação inibitória.Gondim et al. (2022); Melamud (2025)
Motor e FísicoO sedentarismo digital compromete o refinamento da coordenação motora grossa e fina (destreza manual). A falta de experiências sensório-motoras no mundo real atrasa marcos de desenvolvimento físico e aumenta o risco de obesidade, criando um ciclo de inatividade.Bakht et al. (2025); Vasconcelos et al. (2024)
Saúde Geral e SensorialImpactos sistêmicos incluem distúrbios do sono (insônia, parassonia), fadiga visual digital (olhos secos, visão turva, tontura) e cefaleias. A qualidade de vida global é reduzida devido à menor disposição física e mental resultante do esforço visual contínuo e da má postura.Puccinelli et al. (2023); Carneiro et al. (2023)
Fonte: Elaborado pelos autores (2025).

A análise detalhada do domínio da Linguagem sugere que o mecanismo de prejuízo central é a “Hipótese do Deslocamento”: as telas não são necessariamente tóxicas por si só, mas ocupam o tempo que seria dedicado a interações ricas em linguagem com os cuidadores. Muppalla et al. (2023) e Melamud (2025) reforçam que a ausência de feedback social e de contato visual durante o uso de dispositivos impede a consolidação dos circuitos neurais da linguagem receptiva e expressiva, que dependem da contingência social para se desenvolverem. 

No domínio Cognitivo, os dados quantitativos são alarmantes: a diminuição de 7% na participação em sala de aula e de 6% na proficiência matemática para cada hora de aumento na exposição televisiva (MUPPALLA et al., 2023) ilustra o custo educacional a longo prazo do uso não regulado, sugerindo que o tempo de tela compete diretamente com atividades de construção de raciocínio lógico profundo.

3.3. Discrepância entre Diretrizes e Prática: Fatores Socioeconômicos e Parentais

A prevalência do uso de telas na primeira infância apresenta um descompasso significativo em relação às diretrizes de saúde pública. Entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Academia Americana de Pediatria (AAP) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) preconizam tolerância zero para telas antes dos 2 anos e limite máximo de 1 hora para crianças de 2 a 5 anos. Contudo, os dados epidemiológicos compilados por Nobre et al. (2021) e Carneiro et al. (2023) revelam uma realidade oposta: 63,3% das crianças entre 24 e 42 meses excedem o limite de 2 horas diárias.

Um achado contraintuitivo e socialmente relevante observado por Nobre et al. (2021) é a correlação positiva entrenível socioeconômico e tempo de tela. Contrariando o senso comum de que o excesso de tela seria um problema de falta de recursos, o estudo indica que famílias com maior poder aquisitivo tendem a possuir maior diversidade de dispositivos (tablets, smartphones pessoais, consoles), o que facilita o acesso irrestrito e a prática de multitasking midiático no ambiente doméstico. Paralelamente, fatores psicossociais parentais, como a exaustão materna/paterna e a falta de rede de apoio, consolidam o uso das telas como uma “ferramenta de enfrentamento” (coping strategy) para gerenciar o comportamento infantil, perpetuando um ciclo de dependência tecnológica familiar onde a tela atua como regulador externo do ambiente.

3.4. Mecanismos Fisiopatológicos e Fatores de Risco

Para além da descrição fenomenológica, é imperativo compreender os mecanismos biológicos e comportamentais que fundamentam os prejuízos observados. O Quadro 3 sintetiza os principais fatores de risco e os mecanismos fisiopatológicos identificados na revisão, oferecendo uma base explicativa robusta para os achados clínicos.

Quadro 3 – Mecanismos fisiopatológicos, fatores de risco e suas implicações no desenvolvimento infantil.

Fator / MecanismoDescrição do ProcessoImplicação Clínica e no DesenvolvimentoArtigos de Suporte
Rigidez CognitivaInibição da flexibilidade mental e dificuldade em alternar o foco atencional entre tarefas devido à natureza linear e passiva de muitos conteúdos digitais.Prejuízo nas Funções Executivas, resultando em baixo desempenho escolar, dificuldade de adaptação a novas regras e menor capacidade de resolução de problemas complexos.Muppalla et al. (2023)
Via Dopaminérgica (Recompensa)Hiperativação do sistema de recompensa cerebral por estímulos rápidos e intermitentes, mimetizando mecanismos observados na dependência química de substâncias.Comportamento viciante, baixa tolerância ao tédio, irritabilidade na abstinência (efeito rebote) e redução da motivação intrínseca para atividades de “baixa recompensa” imediata (ex: leitura).Muppalla et al. (2023); Souza et al. (2025)
Supressão de MelatoninaA exposição à luz azul (High-Energy Visible light) emitida por telas inibe a secreção da melatonina, hormônio regulador do ciclo circadiano, especialmente em uso noturno.Latência do sono aumentada, despertares noturnos frequentes, sonolência diurna e consolidação de memória prejudicada, afetando a plasticidade sináptica.Muppalla et al. (2023); Huang et al. (2024); Gondim et al. (2022); Puccinelli et al. (2023)
Privação de MovimentoSubstituição sistemática do tempo de atividade física vigorosa e do brincar livre pelo comportamento sedentário e passivo.Aumento da prevalência de obesidade infantil, hipotonia muscular, atraso na aquisição de habilidades motoras fundamentais e menor liberação de endorfinas e BDNF.Muppalla et al. (2023); Nobre et al. (2021); Vasconcelos et al. (2024)
Isolamento InterpessoalRedução drástica das oportunidades de “treino” de habilidades sociais, leitura de expressões faciais e empatia devido ao foco na interface digital.Fragilidade nos relacionamentos interpessoais, dificuldade de resolução de conflitos, isolamento social dentro da própria família e aumento de comportamentos antissociais.Gondim et al. (2022); Melamud (2025)
Fator de Mitigação: LeituraA leitura compartilhada oferece estímulos linguísticos estruturados e fortalecimento do vínculo afetivo (apego seguro) através da atenção conjunta.Atua como “neuroprotetor”, contrabalanceando os efeitos da exposição às telas e promovendo resiliência cognitiva e emocional através da interação humana de qualidade.Huang et al. (2024); Souza et al. (2025)
Fonte: Elaborado pelos autores (2025).

A análise dos mecanismos revela que a exposição excessiva atua em múltiplas frentes biológicas. O impacto no sono é particularmente crítico: a supressão da melatonina combinada com a excitação cognitiva pré-sono cria um estado de “jet lag social” crônico. Muppalla et al. (2023) e Huang et al. (2024) observam que crianças privadas de sono apresentam maior labilidade emocional no dia seguinte, criando um ciclo vicioso onde pais cansados oferecem mais telas para acalmar crianças irritadas, perpetuando o problema. Do ponto de vista neuroquímico, a estimulação constante do sistema dopaminérgico por algoritmos de recompensa variável (presentes em jogos e vídeos curtos tipo “scroll infinito”) pode dessensibilizar os receptores de prazer, exigindo estímulos cada vez mais intensos para gerar satisfação, um fenômeno análogo à tolerância em dependências químicas que compromete a capacidade da criança de engajar-se em atividades lentas e profundas.

3.5. Estratégias de Mitigação e Perspectivas Futuras

Diante do cenário exposto, a literatura aponta caminhos claros para a redução de danos. O conceito de “uso intencional” emerge como estratégia central. Quando as telas são utilizadas não como pacificadores, mas como ferramentas pedagógicas supervisionadas, os resultados se invertem. Huang et al. (2024) destacam que a leitura compartilhada entre pais e filhos atua como um poderoso amortecedor neurobiológico, fortalecendo as mesmas redes neurais de linguagem e regulação emocional que o uso excessivo de telas tende a enfraquecer.

Contudo, persistem desafios culturais significativos. Puccinelli et al. (2023) identificam crenças parentais equivocadas, como o medo de que a criança fique “tecnologicamente analfabeta” se não for exposta precocemente aos dispositivos. Essa percepção colide com as evidências de que as habilidades digitais operacionais são adquiridas intuitivamente e rapidamente em idades mais avançadas, não justificando a exposição precoce que compromete o neurodesenvolvimento básico.

Portanto, o futuro das diretrizes pediátricas deve evoluir de uma simples contagem de minutos (“tempo de tela”) para uma abordagem ecológica que considere o “quem, como e o quê” do consumo digital. A priorização de zonas livres de tecnologia (como refeições e quartos de dormir) e a promoção ativa do brincar ao ar livre são intervenções não farmacológicas essenciais e urgentes para resguardar o potencial de desenvolvimento da próxima geração.

4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão sistemática conduzida evidencia a magnitude e a complexidade do impacto das telas no desenvolvimento infantil, confirmando que a exposição digital não é uma variável inócua, mas um determinante ambiental crítico para a saúde neuropsicomotora contemporânea. A análise integrada dos estudos permite concluir que o uso excessivo, precoce e não supervisionado de dispositivos eletrônicos atua predominantemente como um fator disruptivo do desenvolvimento saudável, associando-se a uma tríade de prejuízos: alterações na arquitetura e funcionalidade cerebral, atrasos na competência comunicativa e desregulação do comportamento socioemocional.

Os mecanismos subjacentes identificados, notadamente a supressão de melatonina, a hiperativação do sistema de recompensa e o deslocamento de atividades essenciais (sono, movimento e interação social), demonstram que os danos transcendem o conteúdo digital em si, residindo na privação de experiências fundamentais da infância. A relação dose-resposta observada nos estudos longitudinais reforça a urgência de aderência às diretrizes de restrição temporal, especialmente na janela crítica da plasticidade cerebral nos primeiros anos de vida.

Contudo, a restrição absoluta da tecnologia revela-se uma abordagem insuficiente para a complexidade da sociedade atual. As evidências apontam para a intencionalidade e a mediação como os verdadeiros divisores de águas. Quando a tecnologia é utilizada de forma intencional e é reintegrada como ferramenta pedagógica sob mediação ativa e afetuosa, seus riscos são mitigados, emergindo oportunidades para o aprendizado cognitivo, em contraste com a sua função de mero regulador de comportamento ou substituto de cuidado.

Portanto, conclui-se que a proteção do desenvolvimento infantil na era digital exige uma mudança de paradigma: da simples proibição para a governança consciente. Recomenda-se imperativamente que pais, educadores e formuladores de políticas públicas priorizem a “higiene digital” familiar, a criação de zonas livres de telas e o incentivo inegociável ao brincar tridimensional. O futuro da saúde infantil depende, em última análise, de nossa capacidade coletiva de garantir que a tecnologia permaneça uma serva do potencial humano, e não uma substituta das relações humanas que constituem a base do desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

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1Discentes do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina

2Coorientador e Discente do Curso Superior de Medicina do Faculdade Ages Campus Jacobina e-mail: andre.muritiba@hotmail.com

3Orientador, Doutura em Biotecnologia e Docente do Curso Superior de Medicina – Faculdade Ages de Medicina Campus Jacobina e-mail: tamara.carvalho@ages.edu.br