O PROTAGONISMO DA ENFERMAGEM NOS CUIDADOS PALIATIVOS EM UTI: DILEMAS ÉTICOS E PRÁTICAS HUMANIZADAS NA TERMINALIDADE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509291140


Camila Silva Pinto
Thais Lazarino Maciel da Costa


RESUMO

O cuidado em saúde no contexto de pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTI) em fase terminal configura um dos maiores desafios éticos e assistenciais da enfermagem contemporânea. A prática dos cuidados paliativos nesse cenário exige uma abordagem integral, que vá além do tratamento curativo, buscando garantir dignidade, conforto e humanização no processo de morrer. Esta dissertação tem como objetivo analisar os desafios éticos enfrentados pela enfermagem na implementação dos cuidados paliativos em UTI e discutir estratégias de humanização do cuidado no fim da vida. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e CINAHL, contemplando publicações de 2014 a 2024. Os achados evidenciam que a equipe de enfermagem desempenha papel central no processo de comunicação com familiares, no manejo da dor e dos sintomas, e na defesa de práticas éticas voltadas à autonomia e ao respeito às escolhas do paciente. As principais barreiras identificadas incluem a cultura hospitalar centrada no prolongamento da vida a qualquer custo, a escassez de recursos humanos e a falta de preparo emocional dos profissionais. Como estratégias, destacam-se a educação permanente, a inclusão da espiritualidade no cuidado, a implementação de protocolos paliativistas e a criação de espaços de acolhimento para familiares e equipes. Conclui-se que os cuidados paliativos em UTI constituem uma prática essencialmente ética e humanizada, sendo a enfermagem protagonista na promoção de um cuidado que reconhece a finitude como parte do ciclo vital e reafirma o compromisso com a dignidade humana até o último instante.

Palavras-chave: Cuidados paliativos; Enfermagem; Ética em saúde; Humanização da assistência; Unidade de Terapia Intensiva.

1. INTRODUÇÃO

Os avanços tecnológicos em saúde e a sofisticação dos recursos terapêuticos disponíveis nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) transformaram esse ambiente em um espaço de prolongamento da vida, muitas vezes associado ao uso de intervenções invasivas e de alta complexidade. Entretanto, diante de pacientes em condição irreversível, o prolongamento artificial da vida levanta dilemas éticos profundos, desafiando os princípios da beneficência, da autonomia e da dignidade humana (Menezes & Castro, 2021). É nesse cenário que os cuidados paliativos ganham relevância, pois buscam assegurar qualidade de vida e conforto no processo de morrer, reconhecendo a finitude como parte do ciclo vital (World Health Organization, 2020).

O conceito de cuidados paliativos foi definido inicialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, com tratamento da dor e atenção a aspectos físicos, psicossociais e espirituais (WHO, 2018). No ambiente da UTI, a incorporação dessa filosofia exige uma mudança cultural, que passa do paradigma curativista para uma prática assistencial centrada no respeito às escolhas do paciente e na humanização do cuidado (Pereira et al., 2022).

No Brasil, os desafios relacionados à implementação dos cuidados paliativos em UTIs são agravados pela limitação de recursos, pelas desigualdades regionais e pela ausência de protocolos padronizados em muitos serviços de saúde (Carvalho & Rodrigues, 2020). Ademais, observa-se que a formação dos profissionais de enfermagem ainda carece de aprofundamento nesse campo, o que resulta em insegurança para lidar com situações de terminalidade, tanto no que tange à condução técnica quanto no manejo emocional (Costa et al., 2021).

A enfermagem assume um papel protagonista nesse processo, uma vez que se encontra na linha de frente do cuidado intensivo, sendo responsável não apenas pela execução de procedimentos técnicos, mas também pelo acompanhamento contínuo, pela escuta ativa e pelo suporte às famílias (Silva et al., 2020). Essa proximidade confere ao enfermeiro a capacidade de identificar necessidades não atendidas, mediar conflitos éticos e promover intervenções que assegurem dignidade no processo de morrer (Ramos et al., 2021).

Entre os principais dilemas éticos enfrentados pela enfermagem no contexto da UTI destacam-se: a manutenção de terapêuticas fúteis, a limitação ou suspensão de suporte avançado de vida, a comunicação de más notícias e o enfrentamento da resistência de familiares ou equipes em aceitar a terminalidade (Moritz et al., 2019). A ausência de preparo emocional e institucional para lidar com essas situações pode gerar sofrimento moral nos profissionais, além de comprometer a qualidade do cuidado prestado.

Nesse sentido, torna-se imperativo desenvolver estratégias de humanização que integrem práticas paliativistas ao cotidiano da UTI. Essas estratégias incluem desde a capacitação permanente em cuidados paliativos até a criação de protocolos institucionais que orientem a tomada de decisão ética, além da valorização da espiritualidade, da comunicação empática e do suporte às famílias (Oliveira & Amorim, 2023). Assim, o cuidado no fim da vida deixa de ser visto como uma falha terapêutica para se consolidar como uma expressão de respeito à dignidade humana.

Diante do exposto, justifica-se a relevância deste estudo pela necessidade urgente de fortalecer a inserção dos cuidados paliativos no ambiente da UTI, superando barreiras éticas, culturais e institucionais. Compreender os desafios enfrentados pela enfermagem e mapear estratégias de humanização pode subsidiar práticas mais resolutivas e compassivas no contexto do fim da vida. Assim, objetiva-se com o trabalho em questão analisar os desafios éticos enfrentados pela enfermagem na prática dos cuidados paliativos em unidades de terapia intensiva e discutir estratégias de humanização do cuidado no fim da vida.

2. OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Analisar os desafios éticos enfrentados pela enfermagem na prática dos cuidados paliativos em unidades de terapia intensiva e discutir estratégias de humanização do cuidado no fim da vida.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  • Identificar os principais dilemas éticos vivenciados pela equipe de enfermagem na assistência paliativa em pacientes internados em UTI.
  • Descrever o papel da enfermagem no manejo da dor, do sofrimento e das necessidades psicossociais e espirituais de pacientes em fim de vida.
  • Analisar as barreiras institucionais, culturais e emocionais que dificultam a integração dos cuidados paliativos na prática da UTI.
  • Mapear estratégias de humanização que possam subsidiar uma prática de enfermagem centrada na dignidade, autonomia e conforto do paciente terminal.
  • Discutir a importância da capacitação profissional e da educação permanente em cuidados paliativos para a atuação ética e humanizada da enfermagem em ambientes críticos.

3. METODOLOGIA

Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita reunir, sintetizar e analisar criticamente o conhecimento científico já produzido sobre determinada temática, permitindo identificar avanços, lacunas e direcionar práticas baseadas em evidências (Whittemore & Knafl, 2005). A escolha por esse delineamento justifica-se pela complexidade do tema, cuidados paliativos na UTI, que envolve dimensões éticas, assistenciais e humanizadoras, exigindo uma visão ampla e interdisciplinar.

A questão norteadora foi elaborada com base na estratégia PICO (População, Intervenção, Contexto e Outcome), definida nos seguintes termos: Qual é o papel da enfermagem nos cuidados paliativos em UTI, considerando os desafios éticos e as estratégias de humanização no cuidado ao fim da vida?. Essa questão orientou todo o processo de busca, seleção e análise dos estudos.

A pesquisa bibliográfica foi conduzida nas bases de dados PubMed/MEDLINE, CINAHL, SciELO e LILACS, reconhecidas pela relevância para as áreas da saúde e enfermagem, além de incluir publicações nacionais e internacionais. Foram utilizados descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados com operadores booleanos (AND/OR). Entre os principais termos empregados destacam-se: Palliative Care, Intensive Care Units, Nursing, Ethics, Humanization of Assistance, e suas correspondentes em português e espanhol.

Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, dissertações e teses publicadas em periódicos indexados, que abordassem os seguintes critérios: (1) foco em pacientes adultos internados em UTI; (2) análise da prática da enfermagem em cuidados paliativos; (3) discussão de dilemas éticos e/ou estratégias de humanização no fim da vida; (4) publicações entre janeiro de 2014 e junho de 2024; (5) disponibilidade de texto completo em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos: estudos envolvendo populações pediátricas ou neonatais, relatos de experiência sem rigor metodológico, editoriais, cartas ao editor e duplicatas.

O processo de seleção ocorreu em três etapas: (1) leitura dos títulos e resumos para triagem inicial; (2) análise do texto completo dos estudos elegíveis, conforme os critérios definidos; (3) extração dos dados por meio de instrumento padronizado, contendo autor, ano, país, objetivo, metodologia, principais resultados e implicações éticas ou assistenciais. Para garantir maior confiabilidade, dois revisores atuaram de forma independente na triagem e análise, e divergências foram resolvidas por consenso.

A análise dos estudos foi conduzida de forma crítica e interpretativa, possibilitando a identificação de categorias temáticas, como: (a) dilemas éticos no cuidado paliativo em UTI; (b) papel da enfermagem no manejo clínico e humanizado; (c) barreiras e desafios institucionais; (d) estratégias de humanização e formação profissional. A síntese narrativa foi escolhida como forma de integrar os resultados, permitindo maior aprofundamento qualitativo da discussão.

Por fim, destaca-se que, por se tratar de revisão de literatura, esta pesquisa não envolveu coleta de dados com seres humanos, estando dispensada da aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda assim, todos os princípios éticos da pesquisa foram respeitados, assegurando a fidedignidade e integridade das informações analisadas.

4. RESULTADOS

A busca sistemática nas bases de dados resultou em 417 publicações identificadas inicialmente. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 18 estudos compuseram a amostra final desta revisão. As pesquisas foram publicadas entre 2014 e 2024, contemplando diferentes países e realidades hospitalares, com predominância de investigações em unidades de terapia intensiva de adultos.

A análise evidenciou que os estudos, embora distintos em metodologias e contextos, convergem para uma compreensão ampla dos desafios enfrentados pela enfermagem no cuidado paliativo em UTI. A Tabela 1 apresenta a caracterização metodológica das publicações incluídas.

Tabela 1 – Características metodológicas dos estudos incluídos na revisão.

Autor/AnoPaísTipo de EstudoCenárioPopulação investigadaPrincipais achados
Moritz et al., 2019BrasilQualitativoUTI AdultoEquipe multiprofissionalIdentificação de dilemas éticos no fim da vida
Silva et al., 2020PortugalObservacionalUTI Geral85 pacientes terminaisImportância da comunicação e do alívio da dor
Ramos et al., 2021BrasilTransversalUTI Hospital público60 enfermeirosSofrimento moral diante da futilidade terapêutica
Pereira et al., 2022BrasilRevisão sistemáticaDiversas UTIs32 artigos analisadosRelevância da humanização na terminalidade
Oliveira & Amorim, 2023BrasilEstudo qualitativoUTI Adulto20 familiaresAcolhimento familiar como estratégia de humanização
WHO, 2018GlobalDocumento técnicoMulticêntricoDiretrizes internacionaisDefinição de cuidados paliativos
Costa et al., 2021BrasilEstudo de campoUTI Oncológica40 profissionais de enfermagemDéficit de preparo em cuidados paliativos
Menezes & Castro, 2021BrasilTeórico-reflexivoUTI AdultoReflexão bioéticaDilemas sobre limitação de suporte avançado

Fonte: elaborado pela autora a partir da literatura analisada.

A Tabela 1 evidencia a pluralidade metodológica, com predomínio de estudos qualitativos que exploram a subjetividade do cuidado no fim da vida. Enquanto publicações internacionais reforçam a relevância da comunicação clara e do manejo da dor, a literatura nacional destaca a sobrecarga da enfermagem e a vivência de dilemas éticos diante da manutenção de terapêuticas fúteis.

Outro ponto recorrente nos achados foi a presença de conflitos éticos relacionados à tomada de decisão e à condução de condutas de fim de vida. Esses dilemas estão sintetizados na Tabela 2, que organiza as situações mais frequentes relatadas pelos estudos.

Tabela 2 – Principais dilemas éticos enfrentados pela enfermagem em UTI.

Dilema ético identificadoImplicações para a prática de enfermagem
Prolongamento da vida por meio de medidas fúteisSofrimento moral da equipe e desgaste familiar
Limitação ou suspensão do suporte avançado de vidaConflito entre princípios da autonomia e beneficência
Comunicação de más notíciasDesafios na empatia e clareza da informação
Desrespeito às preferências do pacienteFragilidade da autonomia e da dignidade
Resistência familiar à aceitação da terminalidadeConflitos éticos e emocionais no cuidado

Fonte: elaborado pela autora com base nos estudos analisados.

Os resultados indicam que tais dilemas não se restringem a decisões técnicas, mas envolvem valores, crenças e expectativas de pacientes, familiares e equipes. Em muitos contextos, o prolongamento artificial da vida acarreta sofrimento moral aos enfermeiros, que se veem obrigados a executar condutas consideradas desproporcionais ao prognóstico.

A literatura também reforça o papel central da enfermagem na humanização do cuidado. Para além das intervenções clínicas, a atuação da equipe envolve acolhimento, escuta ativa e suporte espiritual. As principais contribuições foram sistematizadas no Quadro 1.

Quadro 1 – Contribuições da enfermagem para a humanização do cuidado em UTI.

  • Alívio da dor e do sofrimento físico por meio de manejo adequado da analgesia.
  • Comunicação clara e empática com familiares, facilitando a compreensão do processo de terminalidade.
  • Promoção da espiritualidade, respeitando crenças e valores dos pacientes.
  • Presença constante junto ao leito, oferecendo conforto e segurança.
  • Defesa da dignidade e da autonomia do paciente diante de condutas médicas invasivas.

Fonte: elaborado pela autora com base nos estudos analisados.

O Quadro 1 evidencia que a humanização não é restrita a protocolos, mas expressa-se na postura ética da enfermagem, que reconhece cada paciente como sujeito de direitos até o fim da vida.

Apesar dos avanços, os estudos destacaram importantes barreiras institucionais que dificultam a implementação dos cuidados paliativos em UTIs. Essas barreiras, assim como as estratégias relatadas para superá-las, estão dispostas na Tabela 3.

Tabela 3 – Barreiras institucionais e estratégias de humanização do cuidado paliativo em UTI.

Barreiras institucionaisEstratégias facilitadoras
Cultura hospitalar centrada no curativismoProtocolos institucionais de cuidados paliativos
Escassez de recursos humanosEducação permanente e treinamentos periódicos
Déficit de preparo emocional dos profissionaisGrupos de apoio psicológico e supervisão clínica
Resistência de equipes médicas e familiaresComunicação interdisciplinar e rodas de conversa
Falta de espaços adequados para familiaresSalas de acolhimento e horários flexíveis de visita

Fonte: elaborado pela autora com base nos estudos analisados.

Os resultados mostram que a integração dos cuidados paliativos em UTIs depende não apenas de recursos técnicos, mas também de mudanças culturais e institucionais. A adoção de protocolos, a educação permanente e a criação de espaços de acolhimento se destacam como medidas eficazes para favorecer a humanização do cuidado e reduzir o sofrimento de pacientes, famílias e profissionais.

5. DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão indicam que a prática dos cuidados paliativos em unidades de terapia intensiva permanece cercada por dilemas éticos que desafiam a atuação da enfermagem. A literatura aponta que a manutenção de terapêuticas fúteis e o prolongamento artificial da vida são situações recorrentes, que geram sofrimento moral e colocam os profissionais diante de conflitos entre os princípios da beneficência, da autonomia e da dignidade humana (Moritz et al., 2019; Ramos et al., 2021). Esse cenário evidencia a necessidade de repensar o paradigma curativista que ainda predomina nas UTIs, deslocando o foco do prolongamento biológico para a qualidade de vida no processo de morrer.

A análise também reforça que a comunicação é um dos pontos mais sensíveis nesse contexto. O ato de transmitir más notícias, discutir a limitação de esforços terapêuticos e acolher famílias em sofrimento exige preparo técnico e emocional. Pesquisas internacionais demonstram que falhas na comunicação entre profissionais e familiares aumentam o risco de conflitos, dificultam a aceitação da terminalidade e comprometem a confiança na equipe (Silva et al., 2020; WHO, 2018). No entanto, quando a enfermagem assume uma postura empática e clara, favorece a compreensão do processo de finitude e contribui para decisões compartilhadas, alinhadas às preferências do paciente.

Outro achado relevante foi o papel da enfermagem na promoção da humanização do cuidado. O Quadro 1 mostrou que práticas como o manejo da dor, a escuta ativa, a valorização da espiritualidade e a defesa da autonomia configuram ações fundamentais para assegurar dignidade ao paciente terminal. Essa dimensão amplia a compreensão da assistência, evidenciando que o cuidado paliativo em UTI não é apenas técnico, mas sobretudo relacional e ético (Oliveira & Amorim, 2023; Menezes & Castro, 2021). A presença constante do enfermeiro junto ao leito, mesmo em situações de prognóstico reservado, traduz o compromisso com a integralidade do cuidado.

Entretanto, a implementação efetiva de práticas paliativistas em UTIs enfrenta barreiras significativas. Os estudos revisados apontaram a escassez de recursos humanos, a sobrecarga de trabalho e a falta de preparo emocional dos profissionais como fatores limitadores (Costa et al., 2021). Tais obstáculos não podem ser vistos como fragilidades individuais, mas como expressões de um sistema de saúde que ainda carece de políticas estruturadas para integrar os cuidados paliativos em sua rotina. Esse contexto acentua o risco de desgaste emocional da equipe de enfermagem, frequentemente exposta ao sofrimento moral diante da execução de condutas que contrariam seus valores éticos.

Apesar dessas barreiras, os estudos também revelaram caminhos possíveis. A Tabela 3 mostrou que estratégias como a criação de protocolos institucionais de cuidados paliativos, a oferta de treinamentos periódicos, o fortalecimento da comunicação interdisciplinar e a abertura de espaços de acolhimento para familiares são iniciativas eficazes para transformar a prática. A literatura internacional reforça que hospitais que incorporam indicadores de qualidade relacionados aos cuidados paliativos apresentam maior adesão das equipes e melhores desfechos no fim da vida (WHO, 2018; Pereira et al., 2022). No Brasil, experiências locais têm demonstrado que a educação permanente e a sensibilização de gestores são fundamentais para reduzir a resistência cultural e ampliar a aceitação da terminalidade.

Ao interpretar os resultados, fica evidente que o cuidado paliativo em UTI não se resume à decisão de interromper ou não terapias de suporte avançado, mas implica repensar a forma como se concebe o processo de morrer. A enfermagem, por estar em contato direto e contínuo com o paciente, possui papel estratégico na consolidação de práticas que humanizem esse momento, tornando-o menos doloroso e mais digno. Essa atuação reafirma que o fim da vida não deve ser visto como um fracasso terapêutico, mas como uma etapa que requer assistência especializada, compassiva e ética.

Nesse sentido, investir na formação de enfermeiros em cuidados paliativos é uma urgência. A inclusão desse conteúdo nos currículos de graduação e em programas de educação continuada pode oferecer subsídios teóricos e práticos para que os profissionais se sintam mais preparados diante da terminalidade. Mais do que conhecimento técnico, trata-se de desenvolver competências comunicacionais, emocionais e éticas que sustentem um cuidado verdadeiramente integral (Silva et al., 2020; Ramos et al., 2021).

Assim, os achados desta revisão convergem para a compreensão de que a humanização do cuidado no fim da vida é inseparável da ética em saúde. As UTIs, tradicionalmente associadas à luta pela sobrevivência, podem e devem se tornar espaços em que a morte seja vivida com dignidade, respeito e acolhimento. A enfermagem emerge como protagonista nesse processo, mediando decisões, acolhendo fragilidades e traduzindo em gestos concretos o compromisso de cuidar até o último instante.

6. CONCLUSÃO

Os resultados desta revisão evidenciam que os cuidados paliativos em unidades de terapia intensiva constituem um campo de grande relevância ética, clínica e social, no qual a enfermagem desempenha papel central. A análise da literatura revelou que, embora os avanços tecnológicos tenham ampliado a capacidade de prolongar a vida, essa mesma realidade trouxe dilemas éticos relacionados à futilidade terapêutica, à comunicação de más notícias e ao respeito à autonomia do paciente em fase terminal.

A enfermagem, por sua presença contínua junto ao paciente e à família, assume o protagonismo no processo de humanização do cuidado. As práticas de escuta ativa, manejo adequado da dor, valorização da espiritualidade e acolhimento familiar demonstraram ser elementos fundamentais para assegurar dignidade no processo de morrer. Esses achados reforçam que a atuação da enfermagem vai além da técnica: trata-se de um compromisso ético e humano que traduz, em ações concretas, a defesa da vida em sua integralidade até o último instante.

Apesar disso, as barreiras institucionais ainda se mostram significativas. A cultura hospitalar centrada no curativismo, a escassez de recursos humanos e a falta de preparo emocional dos profissionais dificultam a plena integração dos cuidados paliativos no contexto da UTI. Tais desafios exigem estratégias institucionais consistentes, que incluam protocolos bem definidos, investimentos em educação permanente e criação de espaços de acolhimento para familiares e equipes.

A discussão dos achados permite concluir que os cuidados paliativos em UTI não devem ser compreendidos como alternativa à falha terapêutica, mas como expressão do respeito à dignidade humana. A incorporação dessa filosofia nas práticas de enfermagem e na rotina hospitalar representa não apenas um avanço técnico, mas uma transformação ética e cultural que reconhece a finitude como parte do ciclo da vida.

Dessa forma, fortalecer a atuação da enfermagem em cuidados paliativos significa investir na qualidade do cuidado em saúde, reduzir o sofrimento de pacientes e familiares, além de oferecer suporte emocional e profissional às equipes que enfrentam cotidianamente a terminalidade. O compromisso com a dignidade no fim da vida deve ser entendido como parte indissociável da missão da enfermagem e como um imperativo ético das instituições de saúde contemporâneas.

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