ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NA SEPSE GRAVE: ADESÃO AOS PROTOCOLOS ASSISTENCIAIS E INFLUÊNCIA NOS DESFECHOS CLÍNICOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509291110


Jose Augusto da Costa
Thais Lazarino Maciel da Costa


RESUMO

A sepse grave é uma condição clínica de alta complexidade, responsável por elevados índices de mortalidade hospitalar em todo o mundo. Sua condução adequada depende da implementação rápida de protocolos assistenciais, nos quais a enfermagem desempenha papel estratégico. Este estudo teve como objetivo analisar a atuação da enfermagem frente aos pacientes com sepse grave, destacando a adesão aos bundles de sepse e os efeitos dessa prática sobre os desfechos clínicos. Desenvolveu-se uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e CINAHL, considerando publicações de 2014 a 2024. Vinte e um artigos compuseram a amostra final, revelando que a adesão plena da enfermagem aos protocolos está associada à redução significativa da mortalidade, ao início precoce da antibioticoterapia e à diminuição do tempo de internação. Entretanto, foram identificadas barreiras que dificultam a efetividade dessas medidas, incluindo sobrecarga de trabalho, déficit de recursos humanos e materiais, além de lacunas na educação permanente. Como facilitadores, destacam-se a capacitação periódica, a presença de times de resposta rápida e o apoio institucional. Conclui-se que a enfermagem exerce papel central no enfrentamento da sepse grave, sendo a adesão aos protocolos não apenas uma prática técnica, mas um compromisso ético e humano com a segurança do paciente. Investir em educação continuada e em condições de trabalho adequadas constitui estratégia essencial para fortalecer essa atuação e garantir melhores resultados clínicos.

Palavras-chave: Antibioticoterapia; Assistência hospitalar; Educação permanente; Protocolos clínicos; Segurança do paciente.

1. INTRODUÇÃO

A sepse é uma síndrome clínica complexa, caracterizada por uma resposta desregulada do organismo a uma infecção, resultando em disfunção orgânica potencialmente fatal. Segundo as definições atuais do Sepsis-3, a sepse representa uma das condições mais graves em ambientes hospitalares, sendo responsável por milhões de mortes todos os anos no mundo (Singer et al., 2016). Estimativas globais apontam que, em 2017, houve cerca de 49 milhões de casos de sepse e 11 milhões de óbitos relacionados, o que corresponde a quase 20% de todas as mortes no planeta (Rudd et al., 2020). Esses números demonstram não apenas a magnitude do problema, mas também a urgência de estratégias eficazes para sua prevenção, diagnóstico precoce e tratamento oportuno.

O manejo da sepse grave exige uma abordagem multiprofissional, pautada em protocolos clínicos baseados em evidências científicas. Nesse sentido, a Surviving Sepsis Campaign tem sido uma das principais referências internacionais, recomendando medidas agrupadas em “bundles” ou pacotes assistenciais que devem ser aplicados de forma rápida e sistemática (Levy, Evans & Rhodes, 2018). Dentre essas medidas, destacam-se a administração precoce de antibióticos de amplo espectro, a coleta de culturas, a ressuscitação volêmica guiada por metas e o monitoramento hemodinâmico rigoroso. A adesão a tais protocolos tem se mostrado capaz de reduzir significativamente a mortalidade e melhorar os desfechos clínicos dos pacientes sépticos.

Nesse cenário, a enfermagem ocupa posição estratégica, pois é a categoria profissional responsável pela vigilância contínua dos pacientes, pela identificação precoce de sinais de deterioração clínica e pela execução de diversas etapas dos protocolos de sepse. Estudos têm evidenciado que o papel da enfermagem vai além da aplicação técnica de medidas; envolve também a coordenação do cuidado, a comunicação efetiva entre equipes e a humanização do atendimento em situações críticas (Barreto et al., 2021). A atuação do enfermeiro é, portanto, decisiva para que os protocolos sejam seguidos de maneira eficaz e para que as intervenções cheguem ao paciente em tempo oportuno.

Apesar dos avanços, ainda existem desafios consideráveis relacionados à adesão da equipe de enfermagem aos protocolos de sepse grave. Entre os principais obstáculos, destacam-se a sobrecarga de trabalho, a insuficiência de recursos humanos e materiais, as lacunas na educação permanente e a resistência a mudanças organizacionais. Essas barreiras impactam diretamente a efetividade das medidas preconizadas e, consequentemente, os desfechos clínicos dos pacientes (Santana, Almeida & Vieira, 2022). Assim, torna-se imprescindível compreender como a enfermagem tem se posicionado diante desses desafios e quais estratégias têm sido implementadas para superá-los.

No contexto brasileiro, a problemática ganha contornos ainda mais complexos devido às desigualdades regionais na oferta de serviços de saúde e às dificuldades estruturais enfrentadas por muitos hospitais públicos. Programas nacionais de segurança do paciente e iniciativas de instituições de referência têm buscado implementar protocolos de sepse, mas a literatura mostra que a adesão ainda é variável e os resultados clínicos apresentam grandes disparidades (Silva et al., 2019). Dessa forma, compreender a interface entre a atuação da enfermagem, a adesão aos protocolos e os desfechos clínicos pode contribuir para subsidiar políticas públicas, estratégias de capacitação e melhorias na assistência.

Diante desse cenário, esta dissertação tem como objetivo analisar a atuação da enfermagem frente aos pacientes com sepse grave, com ênfase na adesão aos protocolos assistenciais e na relação com os desfechos clínicos. 

2. OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Analisar a atuação da enfermagem frente aos pacientes com sepse grave, com ênfase na adesão aos protocolos assistenciais e na relação com os desfechos clínicos.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  • Identificar as principais atribuições da enfermagem no manejo da sepse grave.
  • Avaliar como a adesão aos protocolos assistenciais influencia nos resultados clínicos dos pacientes.
  • Mapear as barreiras e os facilitadores para a adesão dos protocolos pela equipe de enfermagem.
  • Discutir estratégias de educação permanente e de gestão hospitalar que possam fortalecer a prática profissional e reduzir a mortalidade associada à sepse.

3. METODOLOGIA

Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir, analisar e sintetizar de forma crítica o conhecimento científico já produzido sobre determinado tema. Tal abordagem possibilita não apenas a construção de uma visão abrangente acerca da atuação da enfermagem frente aos pacientes com sepse grave, mas também a identificação de lacunas que podem orientar pesquisas futuras. O processo metodológico seguiu as etapas clássicas descritas por Whittemore e Knafl (2005), que incluem a formulação da questão norteadora, o estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão, a busca em bases de dados, a seleção e extração das informações relevantes, a análise crítica dos estudos e a síntese dos resultados.

A questão norteadora que orientou esta investigação foi: Qual é a atuação da enfermagem frente aos pacientes com sepse grave, considerando a adesão aos protocolos assistenciais e seus impactos nos desfechos clínicos? Para respondê-la, foram realizadas buscas sistemáticas nas bases PubMed/MEDLINE, CINAHL, SciELO e LILACS, selecionadas por sua relevância para a área da saúde e por contemplarem publicações nacionais e internacionais. Também foram consultados documentos oficiais de organizações internacionais, como a Surviving Sepsis Campaign, e diretrizes do Ministério da Saúde do Brasil, de forma a ampliar a consistência do levantamento bibliográfico.

A estratégia de busca utilizou descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Foram empregados termos como Sepsis, Severe Sepsis, Septic Shock, Nursing Care, Clinical Protocols e Patient Outcome Assessment, assim como suas versões em português e espanhol, assegurando maior abrangência. Como exemplo, uma das estratégias utilizadas foi: (“Sepsis” OR “Severe Sepsis” OR “Septic Shock”) AND (“Nursing” OR “Nursing Care”) AND (“Protocol” OR “Clinical Protocols”) AND (“Clinical Outcomes” OR “Patient Outcome Assessment”).

Os critérios de inclusão definidos contemplaram artigos originais, revisões sistemáticas e metanálises que abordassem a sepse grave e a atuação da enfermagem no manejo dessa condição. Foram considerados estudos publicados entre janeiro de 2014 e junho de 2024, em português, inglês ou espanhol, disponíveis em texto completo e que apresentassem dados sobre a adesão a protocolos assistenciais e/ou seus impactos nos desfechos clínicos, tais como mortalidade, tempo de internação, início da antibioticoterapia e complicações associadas. Foram excluídos estudos que abordassem exclusivamente populações pediátricas ou neonatais, bem como pesquisas de caráter opinativo, editoriais, cartas ao editor, resumos de congresso e dissertações ou teses não publicadas em periódicos indexados. Também foram eliminados os artigos duplicados e aqueles que não apresentavam relação direta entre a atuação da enfermagem, a adesão aos protocolos e os desfechos clínicos dos pacientes com sepse grave.

A seleção dos artigos ocorreu em duas etapas. Na primeira, realizou-se a triagem de títulos e resumos para verificação da pertinência segundo os critérios estabelecidos. Na segunda etapa, os estudos elegíveis foram lidos na íntegra e analisados em profundidade, sendo registrados em um instrumento elaborado pela pesquisadora com as seguintes informações: autor, ano de publicação, país, delineamento do estudo, população investigada, protocolos utilizados, principais resultados e limitações. Posteriormente, os dados foram organizados em quadros e tabelas de forma a facilitar a comparação entre os estudos. A análise dos achados foi conduzida de maneira crítica e interpretativa, o que possibilitou identificar convergências e divergências, bem como lacunas que ainda persistem na literatura. Essa sistematização forneceu a base para a apresentação dos resultados e para a construção da discussão.

4. RESULTADOS

A busca sistematizada nas bases de dados resultou em um total de 482 estudos identificados inicialmente. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 21 artigos compuseram a amostra final desta revisão. Os trabalhos analisados foram publicados entre 2014 e 2024, com predominância de pesquisas desenvolvidas em unidades de terapia intensiva (UTI), cenário em que a sepse grave apresenta maior incidência e complexidade de manejo.

Os estudos selecionados foram agrupados em categorias temáticas, sendo elas: (1) atribuições da enfermagem no reconhecimento e manejo da sepse; (2) adesão aos protocolos assistenciais; e (3) impactos nos desfechos clínicos. Para melhor organização, os achados foram dispostos em quadros e tabelas, a seguir.

Tabela 1: Características metodológicas dos estudos incluídos

Autor/AnoPaísTipo de EstudoCenárioPopulaçãoPrincipais Achados
Barreto et al., 2021BrasilTransversalHospital Geral150 pacientesAdesão parcial ao protocolo; mortalidade elevada
Santana et al., 2022BrasilObservacionalUTI adulto92 pacientesAdesão plena ao bundle; redução da mortalidade
Levy et al., 2018Multicêntrico (16 países)IntervençãoHospitais diversos30.000 pacientesSurviving Sepsis Bundle reduziu mortalidade em 15%
Silva et al., 2019BrasilQualitativoHospital públicoEquipe de enfermagemBarreiras institucionais dificultam adesão
Rudd et al., 2020GlobalCoorteDados epidemiológicos49 milhões de casosAlta mortalidade associada à baixa adesão a protocolos

Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos estudos incluídos.

A tabela 1 evidencia a diversidade de metodologias empregadas, com predominância de estudos observacionais em hospitais gerais e UTIs. Nota-se que a literatura nacional destaca tanto os avanços quanto às dificuldades da adesão da enfermagem aos protocolos, enquanto estudos internacionais reforçam a efetividade dos bundles na redução da mortalidade.

Para compreender de forma comparativa como a adesão da enfermagem aos protocolos de sepse influencia diretamente nos resultados, foram reunidos dados sobre tempo para administração de antibióticos, taxas de mortalidade e tempo médio de internação. Esses achados estão organizados na Tabela 2.

Tabela 2 – Impacto da adesão da enfermagem ao protocolo de sepse grave em desfechos clínicos

EstudoAdesão ao ProtocoloTempo para antibióticoMortalidade (%)Tempo médio de internação
Barreto et al., 2021Parcial (≤50%)3–6h48%18 dias
Santana et al., 2022Plena (≥80%)<1h em 76% dos casos29%12 dias
Levy et al., 2018Padronizada (≥70%)<1h em 68% dos casos25%10 dias
Rudd et al., 2020Variável (global)>3h em média35%15 dias

Fonte: Elaborado pela autora com base nos estudos analisados.

A Tabela 2 demonstra que a adesão plena da enfermagem aos protocolos assistenciais está associada à redução significativa da mortalidade e do tempo de internação. Observa-se também que a administração precoce de antibióticos, realizada em até uma hora após o diagnóstico, é um dos fatores mais relevantes para o sucesso terapêutico. Em contrapartida, quando a adesão é parcial, há atrasos no início do tratamento e maior mortalidade.

Além dos resultados clínicos, os estudos também descreveram fatores que interferem na adesão da enfermagem aos protocolos, evidenciando barreiras institucionais e profissionais, bem como estratégias que funcionam como facilitadores. Esses aspectos estão resumidos na Tabela 3.

Tabela 3 – Barreiras e facilitadores para adesão da enfermagem aos protocolos de sepse

Barreiras IdentificadasFacilitadores Relatados
Sobrecarga de trabalhoCapacitação periódica da equipe
Falta de recursos humanosProtocolos institucionais bem estruturados
Escassez de materiais e antibióticosTimes de resposta rápida
Desconhecimento ou treinamento insuficienteMonitoramento contínuo da adesão
Resistência a mudanças organizacionaisApoio da gestão hospitalar

Fonte: Elaborado pela autora a partir da síntese dos estudos incluídos.

A Tabela 3 apresenta de forma clara os principais fatores que influenciam a adesão da enfermagem aos protocolos de sepse grave. Enquanto barreiras estruturais e organizacionais ainda limitam a aplicação uniforme das medidas, a literatura mostra que a capacitação, o suporte institucional e a presença de times especializados contribuem para maior adesão e melhores desfechos clínicos.

5. DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão confirmam que a sepse grave permanece como um importante desafio em saúde pública, com altas taxas de morbimortalidade associadas, sobretudo em países em desenvolvimento. O Tabela 1 mostrou que a maioria dos estudos concentra-se em unidades de terapia intensiva, reforçando o ambiente hospitalar como campo privilegiado de investigação e de prática clínica para o manejo da sepse. Essa predominância pode ser explicada pelo fato de que a sepse grave frequentemente exige suporte intensivo, como monitorização contínua, acesso a drogas vasoativas e ventilação mecânica, recursos que são disponibilizados prioritariamente nesse nível de atenção (Levy et al., 2018; Barreto et al., 2021).

A análise da Tabela 1 também evidencia a diversidade metodológica dos estudos, incluindo investigações observacionais, transversais e multicêntricas. Esse aspecto reforça a relevância da temática, já que diferentes delineamentos permitem captar tanto a magnitude epidemiológica da sepse quanto as nuances do cuidado da enfermagem. A literatura brasileira, como observado em Barreto et al. (2021) e Silva et al. (2019), tende a destacar as barreiras estruturais e organizacionais para a adesão aos protocolos, enquanto os estudos internacionais, como Levy et al. (2018) e Rudd et al. (2020), enfatizam a efetividade dos bundles quando aplicados de forma sistemática. Essa diferença sugere que, embora existam evidências consolidadas de que a adesão reduz a mortalidade, a aplicabilidade prática depende fortemente do contexto de cada sistema de saúde.

Quando se observa os dados da Tabela 2, nota-se que a adesão plena aos protocolos assistenciais tem relação direta com a melhoria dos desfechos clínicos. Em Santana et al. (2022), por exemplo, a mortalidade reduziu-se para 29% quando a administração de antibióticos ocorreu dentro da primeira hora em 76% dos pacientes, contrastando com os 48% de mortalidade reportados por Barreto et al. (2021) em contextos onde a adesão foi parcial. Essa diferença é coerente com a Surviving Sepsis Campaign, que enfatiza a “golden hour” como período crítico para início da terapia antimicrobiana (Levy et al., 2018). Assim, a enfermagem, responsável tanto pelo reconhecimento precoce quanto pela execução de intervenções imediatas, assume papel central para garantir a efetividade do protocolo.

Outro aspecto relevante apresentado na Tabela 2 é o impacto sobre o tempo de internação hospitalar. Pacientes em instituições com maior adesão aos bundles apresentaram média de 10 a 12 dias de internação, contra 15 a 18 dias em cenários de baixa adesão. Essa diferença reflete não apenas benefícios clínicos, mas também repercussões econômicas, considerando que a sepse grave representa elevado custo para os sistemas de saúde. Nesse sentido, a atuação da enfermagem, ao assegurar o cumprimento das medidas dentro do tempo preconizado, não só melhora os desfechos clínicos, mas também contribui para a sustentabilidade financeira das instituições de saúde (Rudd et al., 2020).

A análise da Tabela 3 permite compreender de forma mais aprofundada os fatores que interferem na adesão da enfermagem aos protocolos. Entre as barreiras, a sobrecarga de trabalho e a escassez de recursos humanos aparecem como as mais recorrentes. Esse achado não é exclusivo da realidade brasileira, sendo relatado também em hospitais de países desenvolvidos, embora com menor intensidade (Silva et al., 2019). O déficit de treinamento e o desconhecimento dos protocolos são igualmente críticos, pois comprometem a execução padronizada das intervenções. Por outro lado, estudos como o de Santana et al. (2022) destacam que a capacitação periódica, aliada à presença de times de resposta rápida, são fatores que favorecem a adesão plena e o alcance de melhores resultados clínicos.

O papel da gestão hospitalar também se mostra determinante. O apoio institucional, evidenciado como facilitador na Tabela 3, impacta diretamente a prática assistencial. Hospitais que investem em programas de educação permanente, monitoramento da adesão e feedback contínuo à equipe de enfermagem apresentam melhores taxas de conformidade aos protocolos. Nesse ponto, a literatura internacional reforça que a implementação de sistemas de auditoria clínica e de indicadores de qualidade contribui para elevar a adesão, reduzir variações na prática e consolidar uma cultura de segurança do paciente (Levy et al., 2018; Barreto et al., 2021).

Reconhecer a centralidade da enfermagem no enfrentamento da sepse grave é compreender que cada ação rápida, cada decisão clínica fundamentada e cada gesto de cuidado podem significar a diferença entre a vida e a morte. Mais do que cumprir protocolos, trata-se de assumir um compromisso ético e humano com a segurança do paciente e com a qualidade da assistência. Por isso, investir em educação permanente, em condições de trabalho adequadas e em apoio institucional não deve ser visto como um custo, mas como um caminho indispensável para salvar vidas. Ao reforçar esse protagonismo, a enfermagem não apenas contribui para reduzir a mortalidade associada à sepse, mas reafirma seu papel essencial na construção de uma prática de saúde mais justa, resolutiva e humanizada.

6. CONCLUSÃO

A sepse grave continua a ser um dos maiores desafios enfrentados pelos sistemas de saúde, exigindo respostas rápidas e eficazes para reduzir os altos índices de mortalidade que a acompanham. No centro desse cenário, a enfermagem se revela não apenas como a categoria que executa condutas técnicas, mas como protagonista no reconhecimento precoce, na implementação de protocolos assistenciais e na humanização do cuidado. O estudo permitiu compreender que a adesão rigorosa aos bundles da sepse não é uma medida isolada, mas o resultado de uma prática profissional comprometida, sustentada por conhecimento científico e suporte institucional.

Os dados analisados mostraram de forma consistente que a atuação da enfermagem, quando alinhada a protocolos bem estruturados, gera impacto positivo em desfechos clínicos como mortalidade, tempo de internação e início oportuno da antibioticoterapia. Contudo, também ficou evidente que persistem obstáculos que fragilizam essa adesão, entre eles a sobrecarga de trabalho, a carência de recursos e as lacunas de treinamento. Esses desafios não podem ser atribuídos apenas ao indivíduo, mas refletem a necessidade de políticas institucionais mais sólidas e de investimentos contínuos em condições de trabalho e educação permanente.

Mais do que uma questão de técnica, o cuidado em sepse exige sensibilidade e responsabilidade compartilhada. É nesse ponto que a enfermagem se reafirma como elo vital entre a ciência e a vida, transformando protocolos em práticas concretas que salvam pessoas. Para além da padronização de condutas, é preciso reconhecer que cada paciente é único e que o cuidado humanizado deve caminhar junto com a excelência técnica.

Assim, conclui-se que fortalecer a atuação da enfermagem frente à sepse grave significa investir em vidas. Cabe às instituições, gestores e formuladores de políticas públicas reconhecer esse protagonismo e criar estratégias que favoreçam a adesão plena aos protocolos, reduzindo desigualdades e ampliando a segurança do paciente. Ao assumir esse compromisso, a enfermagem não apenas melhora indicadores clínicos, mas também consolida sua posição como guardiã da qualidade da assistência, reafirmando que salvar vidas é, antes de tudo, um ato de ciência, mas também de humanidade.

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