REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511251243
Klislainy Rosa Pereira Soares; Kivya Lopes Sarges; Luciana Diniz Corrêa; Mayla Vanessa Silva Fontel; Mizaely Amorim da Cunha; Patrícia Gabriela Dias Lobato; Vitor Guilherme França Oliveira;
Orientador: José Carlito do Nascimento Ferreira Júnior
RESUMO
O artigo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico de mulheres vivendo com HIV e sua vulnerabilidade ao câncer de colo do útero no Brasil. Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica integrativa realizada nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e outras revistas científicas de respaldo, incluindo artigos publicados entre 2000 e 2025. Os resultados evidenciaram que a imunossupressão causada pelo vírus HIV aumenta significativamente a suscetibilidade à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), principal agente etiológico do câncer do colo do útero, o estudo destacou a importância do rastreamento preventivo por meio do exame citopatológico (Papanicolau) e do teste molecular para HPV, bem como a necessidade de políticas públicas e à vacinação contra o HPV. Conclui-se que compreender o perfil epidemiológico das mulheres vivendo com HIV é essencial para aprimorar as políticas públicas, reduzir a morbimortalidade e promover uma atenção integral e humanizada à saúde da mulher.
Palavras-chave: HIV. Câncer do colo do útero. Vulnerabilidade. Epidemiologia. Mulheres.
INTRODUÇÃO
O câncer é o principal problema de saúde pública no mundo, figurando como uma das principais causas de morte e, como consequência, uma das principais barreiras para o aumento da expectativa de vida. Na maioria dos países, corresponde à primeira ou à segunda causa de morte prematura, antes dos 70 anos (SANTOS; et al, 2023, p.2).
O cenário da epidemia da AIDS vem se modificando no Brasil e no mundo e o perfil epidemiológico das pessoas vivendo com HIV/AIDS vem sofrendo sucessivas alterações desde a década de 80. Embora os homens representem em números absolutos, o maior número de notificações do total de casos de AIDS, a velocidade de crescimento da epidemia é maior entre as mulheres. O Brasil tem uma resposta à epidemia de DST/AIDS reconhecida internacionalmente, baseada nos princípios do SUS à universalidade, à equidade e à integralidade na assistência. Um dos capítulos desta resposta é a prevenção da transmissão vertical do HIV (SOUZA, 2011, p.8).
O câncer de colo do útero é considerado atualmente um problema de saúde pública, assim como a infecção pelo vírus HIV. Mulheres soropositivas têm o seu sistema imunológico comprometido, já que este vírus ataca os linfócitos T, importantes células de defesa. Com a imunidade deficiente, o papiloma vírus humano, principal responsável pelo desenvolvimento de lesões pré-neoplásicas e câncer de colo do útero, tem mais condições de infectar o epitélio genital feminino (SOUZA, L, 2024, p .7).
No Brasil, ocorreram 6.627 óbitos, e a taxa de mortalidade bruta por câncer do colo do útero foi de 6,12 mortes a cada 100 mil mulheres. Essa doença é mais comum entre mulheres vivendo com HIV, com prevalência de 28,4%, apresentando um risco seis vezes maior de desenvolvimento (MARINHO; et al, 2025, p. 3).
Nesse contexto, é essencial entender, mesmo que de forma geral, a conexão entre HIV, HPV e câncer de colo de útero. O estudo desse artigo pode mostrar estratégias de prevenção, cuidado integral e fortalecimento das ações de saúde direcionadas às mulheres, principalmente às que estão em maior vulnerabilidade. A problemática da pesquisa envolve a curiosidade a respeito da temática e a grande questão em incógnita que os pesquisadores querem responder é a seguinte questão: quais fatores epidemiológicos contribuem para a maior vulnerabilidade das mulheres vivendo com HIV ao desenvolvimento do câncer do colo de útero no Brasil?
A justificativa pauta sobre o câncer de colo de útero é um relevante problema de saúde no Brasil relacionado principalmente a infecção a doença devido a imunossupressão e a baixa adesão ao rastreamento preventivo e compreender o perfil epidemiológico desse grupo é essencial para subsidiar estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento clínico.
Do ponto de vista acadêmico, o assunto é importante porque ajuda a expandir o conhecimento científico sobre a relação entre o HIV e o câncer de colo do útero mesmo que de maneira inicial e tangente. Estudos que investigam a epidemiologia dessa fatia da população oferecem informações cruciais para entender a dinâmica da doença.
A importância prática reside no fato de que os resultados podem guiar profissionais de saúde e administradores na implementação de medidas mais simples e eficazes, como aumentar a conscientização sobre exames regulares, melhorar a adesão ao rastreamento e garantir a atenção ao tratamento antirretroviral. Portanto, embora seja um estudo básico, ele oferece dados valiosos encontrados.
Por último, as possíveis contribuições envolvem ampliar a compreensão sobre o assunto, direcionar estratégias de prevenção simples e eficazes, além de auxiliar na criação de informações que podem ser empregadas por profissionais de saúde, estudantes e pesquisadores. Embora de forma superficial e de fácil implementação, o trabalho contribui diretamente para a atenção à saúde da mulher.
O objetivo geral do trabalho é analisar o perfil epidemiológico de mulheres vivendo HIV e a sua vulnerabilidade ao câncer de colo de útero no Brasil e os específicos são descrever características sócio demográficas e clínicas dessas mulheres, avaliar a relação entre imunossupressão (nível de CD4 e carga viral) e risco aumentando para lesões cervicais e ressaltar a importância do rastreamento preventivo (exame citopatológico Papanicolau) nesse grupo populacional.
METODOLOGIA
Este estudo utiliza uma metodologia de revisão bibliográfica integrativa que inclui a análise de banco de dados para examinar trabalhos científicos que abordam o perfil epidemiológico de mulheres vivendo com HIV e sua suscetibilidade ao câncer de colo de útero. A revisão bibliográfica possibilita a coleta, organização e análise de resultados de pesquisas já publicadas, oferecendo uma perspectiva ampla sobre o assunto.
A pesquisa foi realizada em bases de dados científicas de relevância nacional e internacional, como SciELO, LILACS, PubMed, biblioteca virtual em saúde além de revistas científicas com respaldo da área acadêmica. Essas bases foram selecionadas por sua capacidade de contribuir com artigos atualizados e de grande impacto nas áreas de saúde, epidemiologia e enfermagem, além de contemplarem estudos publicados.
A pesquisa possui foco em artigos em português, porém trabalhos em língua estrangeira foram consultados para ter melhor gama de informações acerca da temática geral como o inglês e espanhol. As palavras-chave mais relevantes são: “HIV”, “mulheres”, ” câncer do colo do útero “, “epidemiologia”, “vulnerabilidade” e “fatores de risco”.
Os critérios de inclusão são publicações nos idiomas português, inglês ou espanhol; artigos completos acessíveis gratuitamente; estudos publicados entre 2000 e 2025, garantindo a atualização e a relevância e essa diferença de 20 anos é essencial pois existe muitas pesquisas antigas com extrema importância histórica; pesquisas que investigam a relação entre HIV, vulnerabilidade feminina e câncer de colo de útero; artigos originais, revisões integrativas ou sistemáticas, estudos epidemiológicos e pesquisas qualitativas que sejam relevantes para o tema e os critérios de exclusão foi realizado em trabalhos que não se encaixaram nos de inclusão.
Os resultados foram sintetizados e discutidos em tópicos a frente em relação aos objetivos da pesquisa, destacando as principais informações acerca do perfil epidemiológico de mulheres vivendo com HIV e sua vulnerabilidade ao câncer do colo do útero. Todos os procedimentos seguiram os padrões de pesquisa assim como todos os dados e as fontes consultadas estão devidamente citadas e referenciadas de acordo com as normas acadêmicas estabelecidas.
REFERENCIAL TEÓRICO
A aids é o agravamento da infecção pelo HIV, e teve seus primeiros relatos no início da década de 1980, passando a atingir mulheres e meninas significativamente a partir dos anos 1990, esse avanço pode ser observado na epidemiologia nacional, pela diminuição da razão da infecção entre os sexos, e no atual contexto epidemiológico mundial, no qual mulheres e meninas representam o maior número de pessoas vivendo com HIV no mundo (MUNIZ; TOTARO; PEREIRA, 2023, p.3).
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) causa imunossupressão, favorecendo o surgimento de doenças oportunistas, caracterizando a síndrome da imunodeficiência adquirida (aids). A epidemia de HIV/AIDS iniciou na década de 80 no Brasil, afetando principalmente usuários de drogas injetáveis, trabalhadores do sexo, homossexuais e hemofílicos, considerados como grupos de risco na época. Hoje, no Brasil, a epidemia cresce em mulheres em idade fértil (MIF) (SANTOS; et al, 2025, p.1).
Nos primeiros anos da década de 90, ao chegarem a um serviço de saúde, especificamente a uma maternidade, as mulheres eram avaliadas por um profissional de saúde e “classificadas”, rotuladas com observações de suspeita sobre a sua sorologia (na presença de tatuagens ou se sabidamente usuárias de drogas) e seu prontuário recebia, quando com diagnóstico, um carimbo vermelho: HIV+. Com a necessidade de respeitar o “sigilo médico” o carimbo foi trocado por observações no corpo do prontuário, com igual teor estigmatizante e discriminatório (SOUZA 2011, p.15).
No Brasil, apesar dos avanços nas políticas de saúde, como a ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral e campanhas de conscientização, ainda há desafios significativos. A vulnerabilidade das mulheres pode ser exacerbada por fatores como desigualdade de gênero, violência doméstica e falta de educação sexual adequada (ARAÚJO; et al, 2024, p.2).
Diagnóstico e tratamento precoces têm sido cruciais para a redução da mortalidade por aids. Entretanto, para que o diagnóstico seja realizado, que o tratamento seja iniciado de forma oportuna e que haja adesão, são necessários, além destes recursos biomédicos, suportes psicossociais que contribuam para a aceitação do diagnóstico e elaboração de formas de convívio com a infecção que permitam o desfrute da vida e a continuidade dos projetos que lhe dão sentido (VILLELA; BARBOSA, 2017, p. 3).
O câncer é um problema de saúde pública mundial. Na última década, houve um aumento de 20% na incidência e espera-se que, para 2030, ocorram mais de 25 milhões de casos novos. Estimativas do número de casos novos de câncer são uma ferramenta poderosa para fundamentar políticas públicas e alocação racional de recursos para o combate ao câncer. A vigilância do câncer é um elemento crucial para planejamento, monitoramento e avaliação das ações de controle do câncer (SANTOS; et al, 2025, p.1).
O câncer de colo do útero é considerado atualmente um problema de saúde pública, assim como a infecção pelo vírus HIV. Mulheres soropositivas têm o seu sistema imunológico comprometido, já que este vírus ataca os linfócitos T, importantes células de defesa. Com a imunidade deficiente, o papilomavírus humano, principal responsável pelo desenvolvimento de lesões pré-neoplásicas e câncer de colo do útero, tem mais condições de infectar o epitélio genital feminino (SOUZA, 2024, p. 8).
O câncer do colo do útero, também chamado de câncer cervical, é causado pela infecção persistente por alguns tipos do papilomavírus humano (HPV), chamados de tipos oncogênicos (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA, 2021b).
Apenas em 2020, mais de 500 mil mulheres foram diagnosticadas com câncer de colo de útero e quase 342 mil morreram em todo o mundo. No Brasil essa neoplasia levou à morte de 6.627 mulheres, com um número de novos casos superior a 16.710 de acordo com o último censo documentado (JESUS; et al, 2025, p.5).
O câncer de colo do útero (CCU) é considerado problema de saúde pública no Brasil, por exercer papel importante na morbimortalidade das mulheres. Os principais fatores de risco para o desenvolvimento do CCU estão relacionados às condições socioeconômicas, ambientais e aos hábitos de vida, que incluem: início precoce da atividade sexual, pluralidade de parceiros sexuais, tabagismo, hábitos inadequados de higiene, uso prolongado de contraceptivos orais e a não-realização de exame preventivo de citologia oncótica. A infecção pelo papiloma vírus humano (HPV) leva a alterações que podem, com o passar do tempo, evoluir para o CCU (FAVARO, 2017, p.8). O câncer de colo de útero é uma doença maligna que atinge mulheres em todo o mundo, sendo o quarto tipo de câncer mais frequente nas mulheres mundialmente. Cerca de 99,7% dos casos são causados por Papiloma Virus Humanos, sendo ele o principal fator de risco, junto aos mais comuns, que são o HPV 16 e 18. Nem sempre a infecção do vírus progride para a neoplasia maligna, podendo regredir. Quando diagnosticado precocemente, tem regressão em quase sua totalidade de casos. Sendo incidente em regiões com o nível socioeconômico menor, estando relacionada com a falta de conhecimento da população e não tendo acesso a informações, educação, e ao serviço de saúde (STELA; SERENA; RÒDIO, 2024, p.01).
O câncer do colo do útero, apesar de prevenível, é um dos cânceres mais frequentes em mulheres no Brasil, com altas taxas de incidência e de mortalidade. A introdução da vacina contra o Papilomavírus humano (HPV) no calendário do Sistema Único de Saúde (SUS), em 2014, foi um passo importante para o controle da doença no país em conjunto com a continuidade do rastreamento (BRASIL, 2019).
Considerando que as mulheres soropositivas apresentam uma maior suscetibilidade a infecções, incluindo HPV, demanda-se uma abordagem atenta às suas necessidades específicas, justificando esta pesquisa. Além disso, a implementação de políticas públicas voltadas para a promoção da saúde dessas mulheres se revela fundamental, fornecendo orientações direcionadas ao rastreamento, prevenção e cuidado adequado, promovendo, assim, uma abordagem abrangente e efetiva para a saúde dessa população vulnerável (SOUZA, 2024, p.13).
No Brasil, mulheres estigmatizadas por cor da pele, religião, cultura, orientação sexual ou profissão podem ter sua vulnerabilidade aumentada, afastando-se da consulta ginecológica de rastreamento do câncer do colo do útero e de mama. Isso compromete a saúde e agrava a vulnerabilidade, expondo-as a doenças preveníveis ou até a morte evitável (MARINHO; et al, 2025, p.2).
Apesar dos avanços no conhecimento científico e tecnológico, problemas antigos de saúde pública ainda persistem, como o câncer de colo uterino, um dos poucos tipos de câncer passíveis de prevenção e cura quando diagnosticado precocemente (LIMA; et al, 2011, p.02).
RESULTADOS
Para analisar melhor as informações contidas dentro dos trabalhos se deu necessário a elaboração de um quadro para coleta e síntese dos dados obtidos para a pesquisa resultando em uma organização sistemática. No quadro abaixo, os artigos foram distribuídos e organizados com um roteiro com as seguintes informações: autor/ano, título, periódico, objetivo, metodologia, resultados e conclusão.
Figura 1 – tabela artigos

DISCUSSÃO
A partir da análise integrativa dos estudos selecionados nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e outras revistas científicas foram identificados padrões epidemiológicos que caracterizam as mulheres vivendo com HIV e sua vulnerabilidade ao câncer do colo do útero no Brasil. Os resultados obtidos permitiram compreender melhor a complexa relação entre vulnerabilidade social, imunológica e comportamental das mulheres vivendo com HIV e o desenvolvimento do câncer de colo do útero.
Para melhor síntese dos resultados as discussões vão ser mostradas divididas em duas seções: a primeira é avaliar a relação entre imunossupressão (nível de CD4 e carga viral) e risco aumentando para lesões cervicais e segunda seção ressaltar a importância do rastreamento preventivo (exame citopatológico Papanicolau) nesse grupo populacional
1.1 A relação entre imunossupressão (nível de CD4 e carga viral) e risco aumentando para lesões cervicais
Mulheres infectadas pelo vírus da Imunodeficiência Humana tem o sistema imunológico comprometido o que as torna mais suscetíveis a uma coinfecção com o Papilomavírus Humano, sendo mais propensas a desenvolver infecções persistentes pelo HPV e progredindo mais rapidamente para lesões pré-cancerosas, resultando em um risco seis vezes maior de ter um câncer de colo de útero. Com relação a esse risco de desenvolvimento mais rápido do câncer de colo do útero, a nova recomendação da OMS inclui especificidades para mulheres que vivem com HIV. Dessa forma, é fundamental que profissionais de saúde e pacientes conheçam a nova recomendação e se adequem às mudanças do rastreamento do câncer de colo do útero (SANTOS, Lorena 2025, p .8).
Ainda que em nosso estudo a maior prevalência da infecção pelo HPV esteve presente no grupo controle, das 17 mulheres positivas somente uma apresentou uma lesão cervical. Em contrapartida, das 11 mulheres HIV infectadas, 7 (63,6%) apresentaram alterações. De modo semelhante a este achado, o estudo de Wang et al (2019)19 revelou, através de exames citológicos, que 77,5% das mulheres HIV positivas infectadas pelo HPV apresentavam lesões cervicais detectáveis em comparação a apenas 4,9% das mulheres HIV negativas infectadas pelo HPV. (CORADESCHI, 2022, p.26).
A prevalência de lesões intraepiteliais do colo de útero em mulheres infectadas pelo HIV foi maior do que em mulheres sem a infecção pelo HIV, apesar destas apresentarem uma maior taxa de infecção pelo HPV, demonstrando que a presença da infecção pelo HIV foi o fator de risco mais importante associado ao desenvolvimento destas lesões (CORADESCHI, 2022, p.27).
Esse trabalho teve como objetivo principal relatar as abordagens de triagem do câncer do colo do útero em mulheres soropositivas para o HIV evidenciando a importância de recomendações especiais no rastreio para essa população específica. Através dessa revisão foi possível constatar que mulheres que se coinfectam com os vírus HIV e HPV possuem riscos significativamente aumentados de desenvolverem lesões pré-cancerosas com evolução rápida para o câncer cervical útero (SANTOS, Lorena, 2025, p 34).
Podemos concluir que as mulheres positivas para o HIV tiveram significativamente maior prevalência de NIC e infecção cervical pelo HPV. Também apresentaram prevalência maior de infecção por HPV de alto risco e infecções múltiplas. O 16 foi o tipo viral predominante, sendo também o mais encontrado nas mulheres que tiveram NIC. As mulheres com mais idade e as com união estável/viúvas tiveram menos chance de apresentar NIC e infecção cervical pelo HPV, e as mulheres que tiveram múltiplos parceiros sexuais tiveram maior chance de adquirir infecção cervical pelo HPV (JUNIOR; et al, 2015, p. 7).
Os achados deste estudo indicaram que mulheres vivendo com HIV/aids apresentam alta prevalência de infecção pelo HPV de alto risco, sobretudo por genótipos não incluídos na vacina atualmente disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde. Essa suscetibilidade foi associada à carga viral detectável do HIV, demonstrando a importância do uso de TARV na manutenção da carga viral suprimida do HIV para diminuir a prevalência do HPV de alto risco. Os resultados reforçam que a validação integral das amostras obtidas por autocoleta vaginal para o teste PCR-HPV demonstra a eficácia e a viabilidade dessa estratégia como método de rastreamento primário, contribuindo tanto para o diagnóstico precoce de lesões pré-neoplásicas do colo uterino como na identificação dos genótipos de HPV de alto risco (ROCHA; et al, 2025, p. 9).
1.2 a importância do rastreamento preventivo
Há uma forte ligação com a escolaridade baixa e a prevalência do câncer de colo uterino, mostrando a relevância em melhorar as estratégias de planejamento e/ou incremento de ações específicas para promoção de saúde e prevenção, com campanhas de alertas e orientações, além de atividades frequentes de educação em saúde considerando grupos/situações de risco, para diminuir incidência no país e, assim, contribuir para melhorar a qualidade de vida (PIMENTA; DUTRA; PINHEIRO, 2021, p.10).
A autocoleta vaginal, analisada por RT-PCR, demonstrou elevada validade, destacando-se como estratégia eficaz para o rastreamento do HPV no âmbito da saúde pública. Os achados reforçam a necessidade de ações integradas, incluindo-se o início precoce e a adesão sustentada à TARV, a ampliação do rastreamento com teste primário para HPV e a utilização da vacina nonavalente nos programas públicos de imunização, com o objetivo de reduzir a carga da coinfecção HPV/HIV e suas complicações (ROCHA; et al, 2025, p. 10).
Quanto ao rastreio citopatológico, é necessária uma maior conscientização das mulheres em geral e, em particular, das imunodeprimidas, a fim de diminuirmos os números de casos de câncer do colo do útero. Tanto o governo pode atuar com uma divulgação mais forte e contínua pelas mídias e com a ampliação do programa de vacinação, como também profissionais da saúde e da educação devem se engajar para expor o risco da infecção por HPV à população em geral (CARDOSO, 2017, p.26).
No Brasil, as primeiras etapas para a implementação do rastreio por teste de DNA-HPV, no SUS, já foram iniciadas. Até a data de finalização desse trabalho, foi publicada a Parte I do Relatório de Recomendação que apresentou a proposta de atualização das Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. Nessa apresentação foram anunciadas as ações a serem implementadas no novo método de rastreamento, tendo como objetivo a orientação dos profissionais de saúde e dos gestores que estão envolvidos no processo de rastreamento organizado (SANTOS, Lorena, 2025, p 34).
Conforme mostrado neste trabalho, os testes moleculares possuem maior sensibilidade no diagnóstico de CCU garantindo um diagnóstico precoce, principalmente nos casos de pacientes soropositivas para HIV que necessitam de uma estratégia de diagnóstico especial que permita uma detecção rápida e um tratamento eficaz (SANTOS, Lorena, 2025, p 35).
Com os resultados deste estudo, consideramos que a estimulação adequada da resposta imune local, por estratégias como a utilização de vacinas terapêuticas, ou de tratamentos que estimulem a imunidade local no início da infecção, poderá contribuir para o controle da progressão neoplásica. Estudos em paralelo, investigando o papel das células T regulatórias (CD4/CD25), estão em desenvolvimento em nosso laboratório, para elucidar aspectos tais como a participação benéfica ou não dos linfócitos T CD4 na infecção pelo HPV (ALVES; et al, 2010, p.4).
O estudo revelou alta prevalência de HPV de alto risco em mulheres cisgênero vivendo com HIV/aids, com predominância do genótipo 58 e associação com carga viral detectável do HIV. A autocoleta vaginal, analisada por RT-PCR, demonstrou elevada validade, destacando-se como estratégia eficaz para o rastreamento do HPV no âmbito da saúde pública. Os achados reforçam a necessidade de ações integradas, incluindo-se o início precoce e a adesão sustentada à TARV, a ampliação do rastreamento com teste primário para HPV e a utilização da vacina nonavalente nos programas públicos de imunização, com o objetivo de reduzir a carga da coinfecção HPV/HIV e suas complicações (ROCHA; et al, 2025, p. 10).
Ainda, a falta de conhecimento das mulheres acerca da necessidade da realização periódica do exame preventivo Papanicolau contribui para a falta de diagnóstico ou diagnóstico tardio da doença. O desconhecimento a respeito da epidemiologia desse câncer afeta consideravelmente as estratégias para a prevenção e erradicação da doença em âmbito nacional[…] (STELA; SERENA; RODIO, 2024, p. 19).
Para que tal quadro se concretize, também é fundamental a instrução em massa de profissionais capacitados. Isto inclui desde profissionais bem treinados na confecção das lâminas até à formação de citotécnicos e médicos patologistas, todos com papéis cruciais na saúde pública. É trágico que um câncer que se pode prevenir e com um diagnóstico relativamente barato ainda seja o que mais mata mulheres em uma das regiões do Brasil (CARDOSO, 2017, p.26).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo realizado possibilitou uma compreensão abrangente e fundamentada da relação entre o HIV e o câncer de colo do útero, enfatizando a vulnerabilidade epidemiológica das mulheres soropositivas no cenário brasileiro mesmo que de maneira tangente foi possível conhecer e identificar melhor a situação como um todo e perceber as dificuldades encontradas em pesquisas na temática.
Verificou-se que a imunossupressão causada pelo vírus HIV facilita a permanência do papilomavírus humano (HPV), responsável principal pelo câncer de colo do útero. Além disso, aspectos como nível educacional baixo na qual existe a falta de conversas e informações importantes, condições socioeconômicas desfavoráveis como locais de alto índice de pobreza, início da vida sexual precoce que se tornou algo comum infelizmente no nosso país, múltiplos parceiros da vida sexual e baixa adesão ao rastreamento preventivo para agravar a situação de vulnerabilidade dessas mulheres.
A pesquisa destaca a relevância de desenvolver estratégias educativas que visam aumentar a conscientização, empoderar as mulheres e fortalecer a atenção básica à saúde como palestras, rodas de conversas e até mesmo páginas virtuais com avisos e propagandas voltadas a conscientizar o público alvo. A adoção de práticas humanizadas e integradas, que combinam a prevenção do HIV, o rastreamento do câncer de colo do útero e a educação em saúde, é fundamental para diminuir a morbimortalidade e garantir uma assistência mais justa e eficaz para a sociedade como um todo.
Conclui-se, portanto, que compreender o perfil epidemiológico das mulheres vivendo com HIV é passo fundamental para o aprimoramento das políticas públicas e das práticas assistenciais para esse grupo que vive muitas vezes marginalizado e sofre exclusão do seu próprio grupo.
Espera-se que os resultados aqui apresentados mesmo que de maneira um pouco mais superficial possam ajudar novas pesquisas, fomentar discussões acadêmicas e inspirar ações práticas que contribuam para a melhoria da qualidade de vida e da saúde integral das mulheres em situação de vulnerabilidade.
REFERÊNCIAS
Araújo , R. C. C. de, Lima , D. C. N. L., Meireles , E. de A., Félix , L. da S., Alves, S. R. P., & Ferreira, M. das G. N. (2024). PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE MULHERES EM IDADE REPRODUTIVA VIVENDO COM HIV/AIDS. Revista De Ciências Da Saúde Nova Esperança, 22(3), 329–335. Disponível em: >https://revista.facene.com.br/index.php/revistane/article/view/1065< acessado em 10 out 2025.
ALVES, Daniella Borges; TOZETTI, Inês Aparecida; GATTO, Flávia Almeida; CASSANDRI, Fernanda; FERREIRA, Alda Maria Teixeira; FERNANDES, Carlos Eurico dos Santos; FALCÃO, Gustavo Ribeiro; SCAPULATEMPO, Ilzia Doraci Lins; PADOVANI, Cacilda Tezelli Junqueira; ABDO, Maria Auxiliadora Gomes Sandim. Linfócitos CD4, CD8 e células NK no estroma da cérvice uterina de mulheres infectadas pelo papilomavírus humano. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 43, n. 4, p. 425-429, jul./ago. 2010.
BRASIL, ministério da saúde, Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Parâmetros técnicos para o rastreamento do câncer do colo do útero. Rio de Janeiro: Inca, 2019.
CARDOSO, Amanda Soares. Infecção por HPV em mulheres HIV-positivas. Repositório institucional INCA, 2017. Disponível em: >https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/10527/4/Infec%C3%A7%C3%A3o%20por %20HPV%20em%20mulheres%20HIV-positivas.pdf< acessado em 18 out 2025.
CORADESCHI, Pamela Raquel. Hpv e lesões intraepiteliais do colo uterino em mulheres hiv positivas e negativas na cidade de Florianópolis, 2022. Repositório institucional da UFSC. Disponível em: > https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/237654< acessado em 16 out 2025.
FAVARO, Caroline Ribeiro Pereira. Perfil epidemiológico de mulheres com câncer de colo do útero atendidas em um hospital do interior paulista / Epidemiological profile of women with cervical cancer treated at a hospital in the interior of São Paulo State, Biblioteca virtual em saúde, 2017. Disponível em > https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1552837< Acessado em 20 set 2025.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021b. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/ livros/deteccao-precoce-do-cancer.
Jesus, Q. C. de, Honorato, P. F., Ritter, B. F. de M., Santos, M. H., Assunção, C. P. da, Silva, A. C. R. da, & Araújo, M. F. V. (2025). Análise epidemiológica de mulheres com câncer de colo de útero. CONTRIBUCIONES A LAS CIENCIAS SOCIALES, 18(2), e15401. Disponível em: > https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/15401< acessado em 10 out 2025.
JUNIOR, Benito Pio; LOPES, Ana Paula; NASCIMENTO, Lorena Fiorni; NOVAES, Luísa Magalhães; MELO, Victor Hugo. Prevalência de infecção cervical por papilomavírus humano e neoplasia intraepitelial cervical em mulheres HIV-positivas e negativas. Scielo, 2015. Disponível em: >https://www.scielo.br/j/rbgo/a/5Z5HmrFymXnJcMbHmmwF9gC/?format=html&lang=pt< acessado em 18 out 2025.
LIMA, Martha Eleonora de Andrade; OLIVEIRA, Ana Simara Medeiros de; CABRAL, Cidcley Nascimento; COSTA, Jéssika dos Santos; HÓSTIO, Luanna Mayara Mendes; BARBOSA, Guilherme Augusto de Andrade Lima. Perfil epidemiológico das pacientes com câncer de colo uterino atendidas no serviço de cancerologia da fundação assistencial da paraíba em campina grande. Disponível em: > https://rsc.revistas.ufcg.edu.br/index.php/rsc/article/view/353 < acessado em 09 out 2025.
Marinho KT, Alencar CM, Melo PE, Ferreira LV, Santos DL, Paiva CC. Mulheres em vulnerabilidade e o rastreio do câncer do colo do útero e de mama. Enferm Foco. 2025;16:e 2025043. Disponível em :>https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio 1611128<Acessado em 29 set 2025.
MUNIZ, Laís Gonçalves; TOTARO Priscila I.S de; PEREIRA, Douglas Gabriel. Aspectos Epidemiológicos de Mulheres Vivendo com HIV. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) – ISSN: 1809-1628. vol. 39- jan. /mar. 2023. Disponível em: > https://www.researchgate.net/publication/370761747_Aspectos_Epidemiologicos_de_Mulheres _Vivendo_com_HIV_Analysis_of_Epidemiological_Aspects_of_Women_Living_With_HIV< acessado em 10 out 2025
OLIVEIRA; Cintia Regina. Traçando novos olhares sob antigos desafios: perfil socioassistencial das pessoas vivendo com hiv e a adesão a Tarv em Goiana-Pe. Biblioteca virtual em saúde. Disponível em: > https://busqueda.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1140537< acessado em 16 out 2025.
PIMENTA, Gabriela Marques; DUTRA, Giulia Valcanaia; PINHEIRO, Angélica Lins. Perfil epidemiológico das mulheres com diagnóstico de câncer de colo uterino em região de alta incidência do norte do país no período de 2014 – 2018. Revista Interdisciplinar em Saúde, Cajazeiras, 8 (único): 391-401, 2021, ISSN: 2358-7490.
ROCHA, Waltesia Perini; REUTER Tania; GASPAR, Pâmela Cristina; LEITÃO, Francisco Naildo Cardoso; BARILLE, Giovanna; BOLDRINI, Neide Aparecida Tosato; SILVEIRA, Mariângela Freitas da; MIRANDA, Angelica Espinosa. Prevalência e fatores associados à infecção pelo papilomavirus humano de alto risco em mulheres vivendo com HIV/aids em um centro de referência: estudo transversal, Vitória, 2021-2022. Scielo 2025. Disponível em: > https://www.scielo.br/j/ress/a/yXmCGNPcyvRHX3SPfYfcGXc/?lang=en < acessado em 18 out 2025.
SANTOS, Lorena Ribeiro da Silva. Detecção de hpv em mulheres soropositivas para hiv. Rio de Janeiro, 2025. Disponivel em: >https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/17293/1/TCC%20DETEC%C3%87%C3% 83O%20DE%20HPV%20EM%20MULHERES%20SOROPOSITIVAS%20PARA%20HIV.pdf< acessado em 18 out 2025.
Santos, Y. R. A. dos ., Santos, M. A. F. ., Souza, C. E. J., Timoteo, B. K. M., Silveira , F. P. ., Lobo, M. de M. ., Castro, G. da M. de ., & Gama, G. G. (2025). Epidemiologia do HIV/AIDS em mulheres em idade fértil no Brasil: tendências e desafios ao longo de uma década (2012- 2022). Revista De Medicina, 104(4), e-231931. Disponível em : > https://pesquisa.bvsalud.org/enfermeria/resource/pt/biblio-1619742< acessado em 10 out 2025.
Santos M de O, Lima FC da S de, Martins LFL, Oliveira JFP, Almeida LM de, Cancela M de C. Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil, 2023-2025. Rev. Bras. Cancerol. [Internet]. 6º de fevereiro de 2023 [citado 20º de setembro de 2025];69(1):e-213700. Disponível em:>https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/3700<
SOUZA, Luane Silva de. O Câncer de colo uterino em mulheres soropositivas. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Habilitação em Citopatologia). Rio de Janeiro: INCA, 2024. Disponível em: > https://ninho.inca.gov.br/jspui/handle/123456789/15620< acessado em 19 set 2025.
SOUZA, Sandra Regina de. Transmissão vertical do HIV no Estado de São Paulo, Brasil: a perspectiva das mulheres / Vertical transmission of HIV in São Paulo, Brazil the perspective of women. Biblioteca virtual em saúde, 2011. Disponível em: > https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-643302< acessado em 20 Set 2025.
STELA, Flávia Eduarda Thomazini; SERENO, Arianne Peruzo Pires Gonçalves; RODRIGUES, Graziela Vendrame. PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DO CÂNCER DE COLO DE ÚTERO NO BRASIL DE 2013 A 2021. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, [S. l.], v. 28, n. 2, p. 393–416, 2024. DOI: 10.25110/arqsaude.v28i2.2024-10975. Disponível em: https://revistas.unipar.br/index.php/saude/article/view/10975. Acesso em: 9 out. 2025.
VILLELA, Wilza Vieira; BARBOSA, Regina Maria. Trajetórias de mulheres vivendo com HIV/aids no Brasil. Avanços e permanências da resposta à epidemia. Ciência & Saúde Coletiva, vol. 22, núm. 1, 2017, pp. 87-96 Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva Rio de Janeiro, Brasil.
