REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511161223
Heloísa Portela Silva1; Julio Cesar Gallafrio Freixeda dos Santos1; Maria Eduarda Campos do Prado1; Nathalia Pereira da Silva1; Victoria Salomão Sousa1; Orientador: Silvana Flora de Melo2; Coorientador: Amanda Cardoso Moreira3; Coordenadora geral da área da saúde da Universidade Anhembi Morumbi: Jamila Fabiana Costa4
RESUMO
O presente estudo buscou discutir os desafios e limitações enfrentados pelo enfermeiro na execução de suas funções no contexto do Atendimento Pré-Hospitalar (APH) rodoviário em áreas urbanas, com ênfase nos aspectos técnicos, legais e emocionais da assistência. O problema de pesquisa se insere em um cenário alarmante de acidentes de trânsito no Brasil, que representam um grave problema de saúde pública, com centenas de milhares de internações e milhões de atendimentos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) na última década, gerando um forte impacto assistencial e social. Diante da crescente demanda, o APH se tornou um componente indispensável para aumentar as chances de sobrevida e reduzir sequelas em vítimas, e o enfermeiro surge como uma figura central nesse processo, responsável pela liderança da equipe, organização do atendimento e prestação dos primeiros cuidados. Para investigar essa atuação, foi realizada uma revisão integrativa de literatura, com busca em bases de dados como SciELO, CINAHL e Acervo+, analisando produções publicadas entre 2015 e 2025. A partir de 107 artigos encontrados, foram selecionados 20 para análise final. Os resultados revelaram que o papel do enfermeiro no APH é fundamental, destacando-se sua liderança na equipe e a tomada de decisão rápida. Contudo, foram identificadas importantes conclusões sobre os desafios enfrentados, como as lacunas na formação acadêmica para a área de urgência e emergência, os complexos aspectos técnicos do atendimento, como o desencarceramento de vítimas, e as condições externas que afetam o socorro, como a infraestrutura precária e a violência urbana. A discussão aponta que, embora o enfermeiro seja uma peça-chave para a qualidade da assistência, é necessário maior apoio institucional e investimento em treinamentos específicos para superar as barreiras e fortalecer o serviço.
Palavras-Chaves: Enfermeiro, atendimento pré-hospitalar, acidentes de trânsito, urgência e emergência.
1. INTRODUÇÃO
De acordo com dados da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), o ano de 2023 registrou mais de 260 mil internações hospitalares decorrentes de acidentes de trânsito. Em uma perspectiva de longo prazo, a última década contabilizou mais de 2,2 milhões de atendimentos relacionados a estes eventos no Sistema Único de Saúde (SUS), conforme registros do Ministério da Saúde. Diante desse cenário, a área de urgência e emergência consolida-se como um componente de extrema relevância para a saúde pública nacional. Acrescente-se a isso o fato de que se observa uma demanda crescente desses serviços, impulsionada pelo aumento progressivo não apenas da morbimortalidade no trânsito, mas também pela escalada da violência urbana (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA DO TRÁFEGO, 2024).
No Brasil, em 2024 foram registrados 73.114 acidentes em rodovias brasileiras, que resultaram em 84.398 feridos e 6.153 óbitos. Muitos problemas podem explicar esses números alarmantes, como falta de infraestrutura, falta de educação no trânsito e fiscalização inadequada (CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE, 2024).
Com o crescente número de acidentes em rodovias e estradas brasileiras, o Atendimento Pré-Hospitalar (APH) se tornou um componente indispensável para atender às vítimas desses acidentes cujo objetivo é a maior chance de sobrevida e/ou ausência de sequelas após o acidente, fornecendo assistência adequada imediata às vítimas que sofreram agravos à saúde independente de sua origem (SOUSA; et al, 2020).
O APH rodoviário é organizado em duas categorias principais: o Suporte Básico de Vida (SBV) e o Suporte Avançado de Vida (SAV). O SBV refere-se à manutenção das funções vitais sem a realização de procedimentos invasivos, sendo executado por profissionais capacitados em primeiros socorros, nesta categoria a viatura é tripulada por um técnico de enfermagem e um condutor socorrista que atuam sob orientação médica. Por sua vez, o SAV caracteriza-se pela aplicação de intervenções invasivas e de maior complexidade, exigindo, portanto, uma equipe composta exclusivamente por médicos, enfermeiros e condutores socorristas devidamente habilitados para atuar em situações de urgência e emergência. Nesse cenário, o papel da enfermagem está diretamente vinculado à prestação de cuidados imediatos a pacientes em estado crítico, com risco iminente de morte (MOURA; et al, 2020).
O enfermeiro tem um papel fundamental no atendimento pré-hospitalar rodoviário, principalmente nas áreas urbanas. Sendo responsável pelos primeiros cuidados às vítimas, além de também organizar e orientar a equipe no local, o que ajuda a tornar o atendimento mais rápido, seguro e eficiente. Essa atuação multiprofissional bem estruturada contribui diretamente para a redução de mortes e sequelas. É importante destacar o papel de liderança do enfermeiro no atendimento e na garantia da segurança do paciente durante a assistência (JUNIOR H. S.; et al, 2021; CASTRO, G L T de, et al. 2018).
Nesse contexto, a presença do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar rodoviário não se limita apenas à execução de procedimentos técnicos, estudos apontam que a articulação entre condutores socorristas, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos possibilita uma resposta mais efetiva diante das situações de urgência, ampliando a resolutividade do atendimento e a confiança da população nos serviços prestados (JUNIOR H. S.; et al, 2021).
Além disso, trabalhos como o da Revista de Saúde Dom Alberto (2023) destaca que, embora ainda existam lacunas na formação acadêmica voltada para o atendimento pré-hospitalar, na prática, o enfermeiro se mostra indispensável para assegurar qualidade no cuidado. Por isso, compreender melhor como esse profissional atua é essencial para pensar em políticas públicas, treinamentos e protocolos que fortaleçam cada vez mais o atendimento às vítimas de acidentes rodoviários (SOUZA, A. Q.; et al, 2024).
Nos acidentes automobilísticos, mesmo após a avaliação inicial da vítima e da gravidade do seu estado clínico, o aprisionamento do indivíduo dentro do veículo representa um desafio significativo para o APH. Essa condição pode comprometer a agilidade no transporte e dificultar o acesso ao tratamento definitivo, exigindo atenção e habilidade especial da equipe de resgate. Além disso, o desencarceramento deve ser conduzido com cautela e técnica adequada, pois há risco de lesões na coluna vertebral e a possibilidade de agravar traumas já existentes durante o processo de remoção da vítima (JUNIOR H. S.; et al, 2021).
O desencarceramento, também conhecido como extricação veicular, é definido como o conjunto de procedimentos para tratar, acondicionar, remover ou liberar vítimas presas em ferragens de veículos após acidentes. Esse processo inclui as seguintes etapas: avaliação e segurança da cena; estabilização; gerenciamento de vidro; acesso inicial; acesso total; imobilização do paciente; e extração final (JUNIOR H. S.; et al, 2021).
Assim sendo, as habilidades requeridas para prestar este serviço é raciocínio clínico para tomada de decisão e habilidade de executar as intervenções necessárias com prontidão e assertividade. Nesse sentido, se mostra necessário um profissional cujo perfil seja de busca constante por aprimorar suas habilidades através do conhecimento técnico e científico, sempre usufruindo das novas tecnologias no que diz respeito ao atendimento às vítimas de trauma (MIRANDA; et al, 2021).
2. OBJETIVO
Analisar os desafios e limitações enfrentados pelo enfermeiro durante a atuação no Atendimento Pré-Hospitalar (APH) rodoviário urbano, com ênfase nas dimensões técnica, legal e operacional da assistência. Busca-se, ainda, examinar a preparação necessária para uma atuação eficaz neste cenário crítico, considerando que o tempo de resposta e a qualidade do atendimento são fatores determinantes para o prognóstico da vítima, influenciando diretamente desfechos como óbito, recuperação integral ou o desenvolvimento de sequelas permanentes.
3. MATERIAIS E MÉTODOS:
O presente estudo foi elaborado por meio de uma revisão integrativa de literatura, direcionado à temática do papel do enfermeiro no Atendimento Pré-Hospitalar (APH) rodoviário em áreas urbanas. Este método de pesquisa busca resumir os resultados obtidos em estudos sobre um determinado tema de maneira sistemática, ordenada e abrangente (CANUTO; OLIVEIRA, 2020).
A coleta de dados foi realizada no período de setembro a outubro de 2025. A pesquisa abrangeu as seguintes bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL) e Acervo+, além de publicações do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Foram utilizados os descritores “Enfermagem”, “Assistência Pré-Hospitalar”, “Acidentes de Trânsito” e “Serviços Médicos de Emergência” , além de uma lista de palavras-chave consultadas no site dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS).
A busca inicial resultou em 107 artigos. Para a seleção, foram definidos como critérios de inclusão: artigos periódicos publicados na íntegra de forma gratuita, nos idiomas inglês ou português, no período de 2015 a 2025, e com temática relacionada à atuação do enfermeiro em APH rodoviário. Foram excluídos os artigos repetidos ou que não abordavam a participação direta do enfermeiro no APH. Após a aplicação desses critérios, foram selecionados 20 artigos para a análise final, sendo que alguns estudos fora do recorte temporal foram mantidos a fim de obter maiores informações sobre o tema.
4. RESULTADOS
A revisão integrativa de literatura identificou um total inicial de 107 artigos. As buscas foram realizadas em bases de dados como Scientific Electronic Library Online (SciELO), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Acervo+ e em documentos do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Após a aplicação dos critérios de inclusão, que definiram a seleção de artigos publicados na íntegra, em português ou inglês, entre 2015 e 2025, e com temática sobre a atuação do enfermeiro no APH rodoviário. Após os critérios de inclusão serem aplicados, a amostra final foi composta por 20 artigos.
A análise aprofundada dos estudos selecionados permitiu identificar quatro eixos temáticos centrais que sintetizam as evidências sobre a atuação do enfermeiro no Atendimento Pré-Hospitalar (APH). Inicialmente, ressalta-se seu papel de liderança na equipe, com ênfase na tomada de decisão rápida e na garantia da segurança do paciente no cenário extra-hospitalar. Contudo, evidencia-se uma contradição crucial: a prática demonstra a indispensabilidade desse profissional, mas os estudos apontam para lacunas na formação acadêmica, que é frequentemente insuficiente em treinamentos específicos para urgência e emergência.
Em um segundo momento, a análise destaca os aspectos técnicos inerentes ao APH, sobretudo o rodoviário, que demanda procedimentos complexos como o desencarceramento, um raciocínio clínico ágil e uma efetiva articulação multiprofissional. Por fim, identificou-se que condições externas exercem impacto direto na qualidade do atendimento, sendo a infraestrutura precária, a violência urbana e o assédio por parte da população leiga durante os socorros apontados como barreiras operacionais significativas.
Foram encontrados um total de 107 artigos, após remoção dos duplicados (n = 29) resultaram 78 artigos que compuseram o corpus de análise. A Figura 1 apresenta as etapas de cada processo em consonância ao modelo PRISMA (2009) resultando em 20 artigos.
Figura 1 – Diagrama do processo de inclusão e exclusão dos estudos – São Paulo, SP, Brasil, 2025.

Fonte: Autoria própria
Quadro 1 – Síntese dos estudos selecionados para análise– São Paulo, SP, Brasil, 2025.






Fonte: Autoria própria
5. DISCUSSÃO
Anualmente 5,8 milhões de pessoas morrem em todo o mundo, o que corresponde a 10% de todas as causas de morte, sem as devidas intervenções, prevê-se que está proporção aumentará até 2030, tais dados configura o trauma, portanto, um problema de saúde pública com alta incidência (WILL, R. C., et al, 2020).
Trauma é uma palavra de origem grega que significa ferida, o termo é usado para definir lesões de caráter acidental ou proposital. O trauma é, portanto, causado por um fator externo, um evento indesejável, sua causa e consequências são variadas, podendo afetar o indivíduo de diferentes formas, física e/ou psíquica e pode ser temporário ou não. Ele pode evoluir para óbito por conta de sua gravidade (PINHEIRO, F. M. R., et al, 2024).
O trauma é dividido em três tipos: trauma fechado, trauma penetrante ou lesões térmicas. Esses três tipos de trauma podem atingir diferentes partes do corpo, o que resulta em outra divisão do acometimento desse trauma, o que corresponde a trauma craneoencefálico, trauma ocular, trauma vertebro medular, trauma torácico e trauma abdominal, pélvico e trauma musculoesquelético (PINHEIRO, F. M. R., et al, 2024; PARREIRA, J. G., et al. 2017).
Já o politrauma é uma condição que compreende as lesões múltiplas sofridas por um indivíduo, tendo diferentes níveis de acometimento para a vítima, sendo os acidentes de trânsito sua maior ocorrência, como já citado acima. Os motociclistas por exemplo frequentemente sofrem fraturas nos membros inferiores, muitas vezes de natureza exposta, mas esses casos raramente se manifestam como lesões isoladas: fazem parte de quadros de politrauma, nos quais ocorrem simultaneamente danos em outras regiões como crânio, tórax, abdome ou vasos, aumentando significativamente a complexidade do atendimento, o risco de complicações e a mortalidade (PINHEIRO, F. M. R., et al, 2024).
O profissional do APH precisa estar ciente que estas situações não poderão mais ser tratados como uma exceção. Tem sido cada vez mais solicitado a atuar não apenas em situações “eventuais”, mas diante da realidade cotidiana dos desastres, especialmente aqueles ocorridos em rodovias, onde os sinistros de trânsito frequentemente resultam em múltiplas vítimas e demandam respostas rápidas e coordenadas das equipes de emergência. (CARVALHO, M. F. de. et al, 2025; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA DO TRÁFEGO, 2024; CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE, 2024).
O reflexo destas questões atinge diretamente o sistema de saúde e a sociedade. Segundo dados do Ministério da Saúde, nos últimos dez anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou mais de 2,2 milhões de atendimentos destinados ao cuidado de vítimas envolvidas em sinistros de trânsito de alta gravidade. Com este cenário alarmante de acidentes, sobrecarrega o SUS com aumento de gastos, maior taxa de permanência hospitalar e um elevado índice de anos potenciais de vida perdidos (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA DO TRÁFEGO, 2024; CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE, 2024).
O enfermeiro desempenha um papel essencial na qualidade da assistência prestada em situações de urgência, emergência e trauma, atuando de forma decisiva na organização e execução das condutas que determinam a sobrevida e recuperação das vítimas. Entretanto, observa-se que ainda há uma lacuna significativa relacionada à formação e ao treinamento específico desses profissionais, especialmente no que se refere à aplicação de protocolos padronizados e atualizados que orientam o atendimento em cenários críticos (LIMA, D. S., et al. 2019;COSTA, M. E.S. da. et al. 2020).
Entre esses protocolos, destaca-se o XABCDE do trauma, desta forma, a sequência de avaliação da vítima segue o protocolo que estabelece prioridades conforme a gravidade das condições identificadas. Inicialmente, o X refere-se ao controle imediato de hemorragias exsanguinadas, ou seja, sangramentos de grande volume capazes de levar rapidamente à hipovolemia e colapso circulatório, podendo resultar em choque e óbito se não tratados prontamente. Em seguida, o A corresponde à verificação das vias aéreas, garantindo sua permeabilidade e a proteção da coluna cervical por meio do uso do colar cervical. O B envolve a análise da ventilação e da respiração, incluindo a inspeção e ausculta do tórax para identificar possíveis alterações respiratórias, como pneumotórax ou hemotórax. O C abrange a avaliação da circulação, com atenção ao controle de hemorragias internas e externas menos graves, bem como à observação de sinais perfusionais, como pulso, coloração da pele e temperatura. O D refere-se à avaliação neurológica, utilizando parâmetros como a Escala de Coma de Glasgow. Por fim, o E corresponde à exposição completa da vítima, permitindo a busca de outras lesões, como fraturas. (FREITAS, G. B. L. de. 2020).
Em situações de múltiplas vítimas, o protocolo START (Simple Triage And Rapid Treatment) é fundamental em situações de múltiplas vítimas, permitindo ao enfermeiro realizar uma triagem rápida e eficaz, utilizado em grandes acidentes rodoviários ou desastres, permitindo identificar e priorizar rapidamente quem necessita de atendimento imediato. Baseia-se em critérios simples, como por exemplo capacidade de deambular, ventilação, perfusão e nível de consciência. Classificando as vítimas por cores conforme a gravidade: vermelho (lesão grave com risco de morte nas próximas 2 horas), amarelo (lesão grave sem risco de morte nas próximas 24 horas), verde (lesões leves ou sem lesão) e preto (lesão muito grave com resultado de óbito). Sua aplicação otimiza recursos e direciona esforços para salvar o maior número possível de vidas, sendo amplamente difundido nos serviços de APH. Contudo, apresenta limitações, como dependência de treinamento adequado da equipe. Ainda assim, constitui um instrumento essencial para a organização e eficiência do socorro em cenários de múltiplos feridos, como os desastres em rodovias citados no estudo (LIMA, D. S., et al. 2019).
Os resultados deste estudo confirmam de forma convergente que a presença do enfermeiro no APH está diretamente relacionada à agilidade, qualidade e segurança da assistência prestada às vítimas. Corroborando com os achados, Junior H. S. et al. (2021) destacam que uma atuação multiprofissional bem estruturada, na qual o enfermeiro exerce um papel de liderança, contribui diretamente para a redução da mortalidade e de sequelas. O diferencial desta análise é a ênfase no papel de liderança do enfermeiro, que transcende a execução de tarefas técnicas e avança para o gerenciamento da equipe, orientação dos demais profissionais e coordenação de esforços em ambientes de alta pressão.
Essa capacidade de tomar decisões assertivas em tempo reduzido resulta em maior resolutividade do atendimento, alinhando-se aos princípios de organização e eficiência preconizados pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2002) desde a regulamentação do APH.
A contribuição mais impactante deste estudo é a identificação clara do paradoxo existente entre a importância do enfermeiro no APH e as barreiras que ele enfrenta. Conforme apontado por Souza et al. (2024), embora a prática demonstre o protagonismo deste profissional, persistem lacunas significativas em seu preparo formal, o que aponta para uma necessidade urgente de investimentos em capacitação. As competências técnicas, como o manejo de vias aéreas e a extricação veicular, exigem raciocínio clínico apurado e treinamento constante para garantir a segurança da vítima e da equipe, um desafio diretamente abordado por Miranda et al. (2021) e Junior H. S. et al. (2021). Além disso, a atuação do enfermeiro é impactada por fatores externos complexos, como a precariedade da infraestrutura e a violência urbana, que configuram dificuldades e riscos na prática clínica, conforme documentado por Sousa et al. (2020) e Moura et al. (2020). Tais elementos exigem do profissional não apenas preparo técnico, mas também alta capacidade emocional, habilidade de mediação de conflitos e de gestão de riscos.
Contudo, a aplicação eficiente desses protocolos depende diretamente da capacitação contínua e de treinamentos práticos regulares, que muitas vezes ainda são insuficientes nas instituições de saúde. A ausência de programas sistemáticos de educação permanente limita o desempenho profissional e pode comprometer a segurança do paciente. Assim, torna-se imprescindível o investimento em políticas públicas e institucionais que promovam a qualificação técnica da equipe, assegurando condições adequadas para o exercício pleno e seguro de sua função nos diferentes níveis de atendimento ao trauma (LIMA, R. M. de S., et al. 2024;MIORIN, J. D.,et al.; COSTA, M. E.S. da. et al. 2020).
6. CONCLUSÃO
O presente estudo permitiu compreender que a atuação do enfermeiro no APH rodoviário urbano é multidimensional e indispensável, transcendendo a execução de procedimentos técnicos. Este profissional atua como peça central na linha de frente, exercendo funções de liderança, gerenciamento de crise e tomada de decisão rápida em cenários de alta complexidade. Sua atuação assegura a integração entre o cuidado técnico especializado e o suporte humanizado, sendo fundamental para a eficiência do atendimento e a concretização dos princípios de integralidade do SUS, com impacto direto na redução da morbimortalidade.
Contudo, a análise evidenciou que a efetividade dessa atuação é confrontada por desafios significativos. Lacunas na formação acadêmica e na oferta de capacitação contínua específica para o APH representam obstáculos internos à qualificação plena. Paralelamente, fatores externos, como a precariedade da infraestrutura viária, a violência urbana e a insuficiência de recursos, impõem barreiras operacionais que exigem do enfermeiro resiliência, preparo emocional e capacidade de adaptação, além de competências técnicas.
Diante desse cenário, conclui-se que a otimização do APH rodoviário depende de ações convergentes. É imperativo investir na educação permanente, fortalecer a rede de atendimento móvel e garantir condições de trabalho adequadas. A valorização profissional e a consolidação de políticas públicas que reconheçam o papel estratégico do enfermeiro são passos essenciais para elevar os padrões de qualidade, segurança e resolutividade do cuidado, reafirmando, assim, o compromisso da enfermagem com a preservação da vida e da dignidade humana.
7. REFERÊNCIAS
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1 Discente do Curso de Enfermagem da Universidade Anhembi Morumbi
2 Docente da Universidade Anhembi Morumbi
3 Preceptor do Curso de Enfermagem
4 Coordenadora Geral da área da saúde da Universidade Anhembi Morumbi
