O PAPEL DO ENFERMEIRO NA PREVENÇÃO DE INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS (IST’S) EM IDOSOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510312032


Amanda Almeida Mendes1
Iracy Rithelly Pimentel de Carvalho2
João Gabriel Amin Sampaio3
Larissa de Castro Magalhães Teixeira4
Roberta Alves da Silva5
Elber de Souza Billy6
Jailson de Assis Ribeiro7
Samea Rafaelly de Sousa de Oliveira8
Esp. Bárbara Amorim Villela9
Orientadora: Profª. Esp. Sabrina do Socorro Marques de Araújo de Almeida10


RESUMO

O envelhecimento populacional no Brasil tem ampliado o número de idosos com vida sexual ativa, evidenciando a necessidade de abordagens específicas para a prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) nesse público. Esta pesquisa teve como objetivo analisar o papel do enfermeiro na prevenção das IST’s em idosos na Atenção Primária à Saúde (APS), identificando os principais comportamentos de risco e as estratégias utilizadas como ferramentas de enfrentamento. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases SciELO, BVS, BDENF e PubMed, com publicações entre 2021 e 2025, utilizando os descritores: Idosos, Saúde sexual, Infecções Sexualmente Transmissíveis, Papel do Enfermeiro, Prevenção da Saúde Sexual e Atenção Primária à Saúde. Foram selecionados nove estudos (A1 a A9) que atenderam aos critérios de inclusão. A análise evidenciou três categorias principais: (1) o papel do enfermeiro na prevenção das IST’s em idosos, (2) os comportamentos de risco que contribuem para a ocorrência dessas infecções e (3) as estratégias adotadas na APS. Os resultados apontam que a vulnerabilidade dos idosos às IST’s está associada à invisibilidade da sexualidade na velhice, à falta de informação e à carência de profissionais capacitados para abordar o tema. Constatou-se que o enfermeiro desempenha função essencial na educação em saúde, no aconselhamento, na testagem rápida e na promoção do diálogo aberto sobre sexualidade, contribuindo para a autonomia e o bem-estar dessa população. Conclui-se que é necessário fortalecer a formação profissional e ampliar as políticas públicas voltadas à saúde sexual do idoso, garantindo um cuidado integral, humanizado e livre de estigmas na Atenção Primária à Saúde.

Palavras-chave: Idosos. Enfermagem. Infecções Sexualmente Transmissíveis. Atenção Primária à Saúde. Prevenção.

ABSTRACT

Population aging in Brazil has increased the number of older adults with active sexual lives, highlighting the need for specific approaches to prevent Sexually Transmitted Infections (STIs) in this group. This study aimed to analyze the role of nurses in preventing STIs among older adults in Primary Health Care (PHC), identifying the main risk behaviors and strategies used as coping tools. It is an integrative literature review conducted in the SciELO, BVS, BDENF, and PubMed databases, covering publications from 2021 to 2025, using the descriptors: Older adults, Sexual health, Sexually Transmitted Infections, Nursing role, Sexual health prevention, and Primary Health Care. Nine studies (A1 to A9) that met the inclusion criteria were selected. The analysis revealed three main categories: (1) the nurse’s role in preventing STIs among older adults, (2) risk behaviors contributing to the occurrence of these infections, and (3) strategies adopted in PHC. The results showed that the vulnerability of older adults to STIs is linked to the invisibility of sexuality in old age, lack of information, and insufficient professional training to address the topic. It was found that nurses play an essential role in health education, counseling, rapid testing, and promoting open dialogue about sexuality, thereby contributing to autonomy and well-being in this population. It is concluded that strengthening professional training and expanding public policies focused on the sexual health of older adults are necessary to ensure comprehensive, humanized, and stigma-free care within Primary Health Care.

Keywords: Older Adults. Nursing. Sexually Transmitted Infections. Primary Health Care. Prevention.

1. INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que atualmente tem gerado um aumento significativo no número de idosos com vida sexual ativa. O censo do ano de 2022 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o número de pessoas com 65 anos ou mais, cresceu 57,4% em 12 anos, o que é um aumento significativo (IBGE, 2022).

Em um estudo sobre a prevalência das infecções sexualmente transmissíveis em idosos no Brasil, Albuquerque et al. (2022) demonstra que de 2017 a 2021 ocorreram 275.353 notificações de IST’s na população idosa de 60 a 89 anos, de ambos os sexos. E dentre as IST’s de maior ocorrência, se destacam a Sífilis, a Clamídia, a Gonorreia, a Herpes e as Verrugas Genitais (Albuquerque et al. 2022).

Apesar disso, a saúde sexual nessa fase da vida ainda é um tema pouco abordado, tanto pela sociedade quanto pelos profissionais da enfermagem. Essa lacuna de informação e cuidado contribui para a vulnerabilidade dos idosos às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), que podem ter um impacto negativo na saúde física, mental e social dessa população.

Segundo Mrejen, Nunes e Giacomin (2023) o processo de envelhecimento populacional no Brasil é consequência de uma transição demográfica muito significativa. Transição esta que é configurada por três etapas: na primeira etapa as taxas de mortalidade diminuem em indivíduos mais novos, na segunda etapa a fecundidade declina e o crescimento populacional diminui. Na terceira etapa a mortalidade e a fecundidade se estabilizam em níveis baixos. Ou seja, o envelhecimento populacional é decorrente de uma série de fatores demográficos.

A Atenção Primária à Saúde (APS), segundo o Ministério da Saúde (Brasil, 2025) é o nível de atenção e saúde mais próximo da população e se caracteriza por um conjunto de ações de saúde, tanto na esfera individual quanto na esfera coletiva, trata da prevenção e da proteção à saúde, da prevenção de agravos, fornecendo diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos e manutenção da saúde.

De acordo com Brasil (2025) a APS é a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) sendo regida pelos princípios da universalidade, acessibilidade, continuidade do cuidado, integralidade da atenção, responsabilização, humanização e equidade e, trazendo para a realidade desta pesquisa desempenha um papel fundamental na promoção da saúde do idoso, incluindo a saúde sexual.

Em soma às questões do envelhecimento populacional e das premissas da Atenção Primária à Saúde, surge o enfermeiro, como profissional integrante e primordial da equipe de saúde da família, possui um papel crucial nesse contexto, atuando na disseminação de informações, prevenção, detecção precoce e tratamento das IST’s, além de oferecer apoio e orientação aos idosos sobre saúde sexual (Barbosa et al., 2023)

O enfermeiro, ainda segundo Barbosa et al. (2023) como profissional que tem o cuidado como sua essência central, possui um papel fundamental na prevenção das IST’s em idosos, incluindo a saúde sexual. O enfermeiro, por meio de ações de educação em saúde, aconselhamento e acompanhamento, pode contribuir para a prevenção e o controle das IST’s nessa população.

Sob esta perspectiva que a pesquisa se consolidou, como ferramenta de sugerir uma análise sobre o papel do enfermeiro na prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis em idosos na Atenção Primária à Saúde, com uma reflexão sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), com o intuito de contextualizar essas reflexões e não deixar que as mesmas sejam pouco debatidas no âmbito da saúde, como também estimular o desenvolvimento da prevenção relacionada à saúde do idoso com vida sexual ativa.

2. JUSTIFICATIVA

A escolha do tema se deu a partir de uma vivência com uma docente da disciplina “Saúde do Idoso”, ministrada para a turma de Graduação em Enfermagem a qual aflorou na equipe uma afinidade com temas relacionados à saúde do idoso, onde a docente forneceu apoio para debater essa área de pesquisa, pois seria um bom tema ao passo que era ainda pouco debatido. Além disso, a equipe também experienciou maior vivência com o tema através do estágio supervisionado.

Ao observar a importância da temática, serão destacados os principais entraves encontrados residentes nas lacunas entre a crescente necessidade de atenção à saúde sexual do idoso na Atenção Primária à Saúde e à falta de conhecimento e preparo dos profissionais enfermeiros para lidar com essa demanda.

Este trabalho apresenta-se relevante, pois considera o aumento da população idosa no Brasil e a necessidade de promover a saúde sexual nessa fase da vida. A literatura aponta para a invisibilidade da saúde sexual do idoso, tanto na sociedade quanto nos serviços de saúde, o que contribui para a vulnerabilidade desse grupo às IST’s.

Muitos idosos não consideram o risco de IST’s, e os serviços de saúde frequentemente negligenciam essa questão, focando apenas em doenças crônicas. O enfermeiro como educador em saúde, pode desmistificar tabus e promover ações preventivas, como o uso de preservativos e a testagem regular (Brasil, 2021).

Esta pesquisa torna-se relevante por abordar um tema ainda pouco explorado na literatura, que é a saúde sexual do idoso na APS. Ao analisar o papel do enfermeiro na prevenção das IST’s nessa população, o estudo busca contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a temática e identificação de desafios e oportunidades ao propor estratégias de intervenção.

A sociedade e os serviços de saúde tendem a ignorar a sexualidade na terceira idade, o que dificulta a identificação de necessidades específicas e inviabiliza o oferecimento de cuidados adequados a esse público. Nesse contexto, muitos enfermeiros não se sentem seguros ou preparados para abordar temas relacionados à sexualidade com idosos, seja por falta de formação específica, preconceito ou dificuldade em lidar com a temática.

Algumas implicações desta temática giram em torno do aumento da incidência de IST’s em idosos pela falta de prevenção e diagnóstico precoce, a consequente piora da qualidade de vida com as dores, desconfortos, infertilidade e outras complicações que podem surgir, os impactos sociais e psicológicos pelo preconceito e pela falta de informação que podem gerar sentimento de culpa e de vergonha afetando sua saúde mental (Leandro-França e Murta, 2014).

As questões norteadoras que orientarão esta pesquisa buscam compreender diferentes dimensões do fenômeno estudado. A primeira delas refere-se ao papel do enfermeiro na prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) em idosos na Atenção Básica. Essa questão busca analisar de que maneira o profissional de enfermagem atua nesse cenário, considerando a relevância da educação em saúde, da orientação individual e coletiva, bem como das práticas de cuidado direcionadas à promoção da saúde sexual dessa população.

Outra questão importante é identificar quais são os principais comportamentos de risco dos idosos em relação à exposição às IST’s. Esse direcionamento possibilitará compreender aspectos comportamentais, culturais e sociais que podem interferir na adesão a medidas preventivas, destacando vulnerabilidades específicas que precisam ser consideradas na elaboração de estratégias de cuidado e prevenção.

Por fim, a pesquisa também procura investigar quais estratégias têm sido utilizadas pelo enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) para potencializar a saúde sexual dos idosos, promovendo qualidade de vida. Nesse sentido, pretende-se analisar ações educativas, preventivas e assistenciais que possam fortalecer a autonomia e o bem-estar dessa população, valorizando uma abordagem integral e humanizada.

3. OBJETIVOS 

3.1 Objetivo Geral

Com o intuito de responder às questões norteadoras da pesquisa, o objetivo geral é realizar uma revisão integrativa de literatura (RIL) sobre o papel do enfermeiro na prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) em idosos na Atenção Primária à Saúde. 

3.2 Objetivos Específicos

  • Analisar o papel do enfermeiro na prevenção das IST’S em idosos na Atenção Básica;
  • Identificar os principais comportamentos de risco dos idosos em relação à exposição a essas infecções;
  • Examinar as estratégias adotadas pelo enfermeiro como ferramentas de enfrentamento das infecções na Atenção primária à Saúde.

4. REFERENCIAL TEÓRICO

4.1 A pessoa idosa frente às IST’s

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa idosa é definida como um indivíduo que atingiu os 60 anos de idade ou mais, em países em desenvolvimento, e 65 anos ou mais, em nações desenvolvidas, o que marca uma fase da vida caracterizada por mudanças físicas, psicológicas e sociais (World Health Organization, 2022, p. 12). Essa definição considera não apenas a idade cronológica, mas também os aspectos biológicos e socioculturais associados ao envelhecimento.

O envelhecimento populacional no Brasil é um fenômeno consolidado, com a população idosa (60 anos ou mais) representando uma estimativa de 15,1% do total de habitantes em 2023, o que configura um aumento de 30% em relação a 2012 (IBGE, 2022). Segundo o Censo Demográfico de 2022 o grupo com 65 anos ou mais cresceu 57,4% entre 2010 e 2022, passando de 7,4% para 10,9% da população total. Projeções do IBGE indicam que, até 2070 os idosos corresponderão a 37,8% da população, evidenciando uma inversão da pirâmide etária (IBGE, 2022).

Ainda com informações do Censo de 2022 (IBGE, 2022), a composição da população idosa apresenta disparidades regionais e socioeconômicas. Enquanto as regiões Sudeste (16,6%) e Sul (16,2%) concentram as maiores proporções de idosos, a região Norte (9,9%) mantém a menor representatividade. Além disso, 55% dos idosos são mulheres, isso reflete maior sobrevida feminina, e 57% vivem com renda de até dois salários mínimos, sendo que 18% não possuem fonte de renda própria.

A dependência do Sistema Único de Saúde (SUS) é marcante, com 80% dos idosos sendo utilizadores dos serviços públicos de saúde, o que pressiona a infraestrutura em um contexto de aumento de doenças crônicas, como cardiovasculares, por exemplo, (IBGE, 2022).

As taxas de envelhecimento também expõem desafios estruturais. O índice de envelhecimento (razão entre idosos e jovens) saltou de 30,7 em 2010 para 55,2 em 2022, indicando 55,2 idosos para cada 100 crianças (Brasil, 2024). 

Paralelamente a isso, a razão de dependência dos idosos (pessoas com 65+ em relação à população economicamente ativa) subiu de 11,2 para 14,7 entre 2012 e 2021, enquanto a de jovens caiu de 34,4 para 29,9 (Brasil, 2024).

Esse cenário demanda políticas públicas adaptadas, como ampliação de serviços de geriatria (apenas 0,5% dos médicos são especializados na área) e reformas previdenciárias, já que 82% dos idosos dependem de benefícios sociais, e 20,6% dos domicílios têm renda familiar majoritariamente originária de aposentadorias (Brasil, 2024).

A sexualidade na velhice ainda é permeada por preconceitos, tabus e invisibilidade social, fatores que contribuem para a vulnerabilidade dos idosos frente às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s). A literatura aponta que, embora o envelhecimento traga mudanças fisiológicas e psicossociais, a sexualidade permanece como dimensão importante da qualidade de vida, demandando atenção da saúde pública e, em especial, da Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse sentido, Barbosa e Costa (2024) destacam que a vulnerabilidade da pessoa idosa às IST’s decorre tanto de aspectos biológicos, como a diminuição da imunidade, quanto de fatores sociais e culturais, como a falta de diálogo sobre sexualidade e a baixa adesão ao uso de preservativos.

A compreensão dessa problemática exige a análise das vulnerabilidades específicas que permeiam a vida sexual dos idosos. Nascimento et al. (2023) ressalta que muitos idosos apresentam conhecimento limitado sobre formas de prevenção, além de práticas sexuais desprotegidas, influenciadas por concepções equivocadas de que, após a menopausa ou andropausa, o risco de contrair IST’s é reduzido. Esse cenário revela lacunas significativas no processo de educação em saúde, apontando para a necessidade de intervenções direcionadas por profissionais de enfermagem, a fim de promover a conscientização e fortalecer a autonomia dessa população.

Além disso, estudos indicam que a abordagem da sexualidade do idoso no contexto da APS é muitas vezes negligenciada. Pesquisa qualitativa realizada por Barbosa et al. (2023) evidenciou que tanto profissionais de saúde quanto os próprios idosos reconhecem a importância de discutir o tema, mas encontram barreiras, como constrangimento, falta de preparo dos profissionais e ausência de espaços adequados para o diálogo. Tais resultados revelam a urgência em capacitar a equipe multiprofissional, com destaque para o enfermeiro, que desempenha papel estratégico na promoção da saúde sexual e na prevenção das IST’s.

Dessa forma, observa-se que a vulnerabilidade do idoso às IST’s não se limita a aspectos individuais, mas é atravessada por determinantes sociais, culturais e pela atuação (ou omissão) dos serviços de saúde. Nesse cenário, o enfermeiro assume responsabilidade central, tanto no planejamento de ações educativas quanto no acolhimento humanizado, promovendo uma assistência que considere a integralidade do cuidado e a valorização da sexualidade como parte do envelhecimento saudável.

4.2 Reflexões sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s)

As Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) são condições clínicas adquiridas por meio do contato sexual desprotegido, envolvendo patógenos como vírus, bactérias, fungos e parasitas. Entre as mais comuns destacam-se a sífilis, HIV/AIDS, hepatites virais, gonorreia, clamídia e herpes genital, que podem evoluir para condições graves, como infertilidade, câncer e aumento da susceptibilidade a outras infecções (Valeri, 2023).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima mais de um milhão de novos casos diários em esfera global, com impacto significativo na saúde pública, especialmente em populações vulneráveis, como idosos, devido à falta de políticas específicas e estigmas sociais (Flavigna e Moreira-Neto, 2019).

No Brasil, o envelhecimento populacional associado à manutenção da vida sexual ativa entre idosos amplia a exposição a IST’s. Estudos publicados na SciELO apontam que 32,09% dos casos registrados em Araguaína, Palmas e Gurupi nos anos de 2018 a 2022 ocorreram em indivíduos acima de 60 anos, com destaque para sífilis (2,6%), hepatite B (0,5%) e HIV (0,3%), segundo dados do estudo de Andrade et al. (2017).

A sexualidade na terceira idade é um tema que, apesar de ainda ser cercado de tabus, vem ganhando visibilidade nos últimos anos. Com o aumento da expectativa de vida e a melhoria da qualidade de vida, muitos idosos mantêm uma vida sexual ativa, o que os expõe ao risco de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s). No entanto, a falta de discussão sobre o tema e a escassez de políticas públicas direcionadas a essa população contribuem para a subnotificação e o diagnóstico tardio dessas infecções.

As Infecções Sexualmente Transmissíveis em idosos apresentam sinais e sintomas que, muitas vezes, podem ser confundidos com condições próprias do envelhecimento ou com outras doenças crônicas, o que dificulta o diagnóstico precoce. A sífilis, apontada como a IST mais prevalente nessa faixa etária, pode manifestar-se por meio de úlceras genitais, lesões cutâneas e complicações sistêmicas, sobretudo quando não tratada de forma adequada (Valeri, 2023). No caso do HIV, além da ocorrência de sintomas iniciais inespecíficos, como fadiga, febre e perda de peso, a imunossenescência agrava a evolução clínica, aumentando a vulnerabilidade às coinfecções e retardando a identificação (Valeri, 2023).

As mulheres idosas, por sua vez, apresentam predisposição ainda maior devido a fatores anatômicos, como a redução da lubrificação vaginal e o afinamento da mucosa, que favorecem microlesões durante o ato sexual, bem como fatores sociais, como a dificuldade em negociar práticas de sexo seguro (Andrade et al., 2017). Essa realidade favorece a manifestação de sintomas como dor, ardência, corrimento vaginal ou prurido, que muitas vezes não são valorizados e podem ser atribuídos erroneamente ao climatério ou a processos infecciosos urinários.

Outras infecções, como a hepatite B e o herpes genital, também aparecem com frequência entre idosos, com manifestações clínicas como icterícia, lesões ulceradas e dolorosas na região genital e recorrência de surtos. A ausência de testagem rotineira contribui para que tais sinais sejam subestimados, postergando a investigação adequada (Flavigna; Moreira-Neto, 2019).

Assim, a percepção da necessidade de investigação geralmente ocorre apenas diante de sintomas mais evidentes ou persistentes, como úlceras genitais, secreções anormais, dor durante a relação sexual, febre recorrente ou manifestações sistêmicas. No entanto, devido ao estigma, ao constrangimento em abordar o tema com profissionais de saúde e à falta de campanhas direcionadas, muitos idosos não associam tais sinais às IST’s, o que reforça a importância da atuação do enfermeiro na educação em saúde e na realização de testagens regulares como forma de prevenção e diagnóstico precoce.

A abordagem das IST’s na terceira idade deve ser feita de forma sensível e respeitosa, rompendo com os estigmas e preconceitos que ainda cercam o tema. O enfermeiro deve estar capacitado para oferecer um cuidado integral, que inclua a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado das IST’s, sempre pautado pelos princípios da humanização e da equidade.

4.3 Papel do Enfermeiro na Atenção Primária à Saúde

O enfermeiro desempenha um papel central na Atenção Primária à Saúde (APS), atuando como um agente facilitador no cuidado integral e contínuo aos usuários do sistema de saúde. Sua atuação vai muito além da assistência clínica, englobando a promoção da saúde, a prevenção de doenças, a educação em saúde e a gestão do cuidado. Na APS, o enfermeiro assume um protagonismo que se reflete na capacidade de liderar equipes multiprofissionais, planejar e implementar ações de saúde baseadas em evidências e estabelecer vínculos com a comunidade (Brasil, 2017).

A importância do papel do enfermeiro é ainda mais relevante quando se trata de populações vulneráveis, como os idosos, que demandam cuidados específicos e uma abordagem holística. A atuação do enfermeiro na APS é pautada pela humanização do cuidado, pela escuta qualificada e ativa e pela capacidade de identificar necessidades de saúde que vão além das demandas biológicas, incluindo aspectos psicossociais e culturais (Brum, Tocantins e Silva, 2005). Nesse sentido, estudos recentes apontam que os idosos expressam concepções preconcebidas sobre sexualidade, tabus e barreiras de comunicação, destacando a necessidade de que o profissional de enfermagem crie espaços de diálogo que permitam a expressão de receios e necessidades, o que só é possível por meio de escuta ativa (Barbosa et al., 2022).

Quanto ao aconselhamento e à testagem rápida, Brasil (2021) aponta no Protocolo que a estratégia de saúde da família, através do enfermeiro, deve incluir a oferta de testes rápidos para IST’s em idosos, cabendo ao profissional realizar aconselhamento pré e pós-testes, garantindo uma abordagem livre de julgamentos. Esse cuidado pode ser ampliado pela avaliação global do idoso, que contempla aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais, possibilitando a detecção precoce de vulnerabilidades e a elaboração de planos de cuidado individualizados. Evidências mostram que fatores associados à sexualidade do idoso (como conhecimento, atitudes, práticas e tabus) interferem diretamente na forma como esse profissional avalia o idoso e intervém, enfatizando que a avaliação global deve incluir a vivência sexual e afetiva como parte do cuidado integral (Coelho et al., 2021; Silva et al., 2023).

Para otimizar a assistência, o enfermeiro deve implementar estratégias como a sistematização da consulta de gerontologia, incorporando protocolos que abordem aspectos multidimensionais do envelhecimento (Dias; Silva Gama; Tavares, 2017). Nesse contexto, a presença da parceria sexual nas consultas, quando possível e desejada pelo idoso, constitui estratégia relevante, pois favorece a adesão às práticas preventivas, o fortalecimento do vínculo terapêutico e a construção de um cuidado compartilhado, que leva em consideração a dinâmica relacional e afetiva do paciente. Embora ainda existam constrangimentos e barreiras, estudos evidenciam que considerar os vínculos afetivos e a participação da parceria contribui para a adesão ao cuidado e para uma abordagem mais humanizada (Barbosa et al., 2022; Coelho et al., 2021).

Ações educativas direcionadas a idosos e cuidadores, como orientações sobre prevenção de IST’s e manejo de doenças crônicas, são fundamentais para a promoção da saúde sexual e funcional. Ademais, a participação em políticas públicas e a gestão de serviços permitem ao enfermeiro fortalecer a segurança do paciente idoso, mitigando riscos como falhas na tomada de decisão clínica e administração inadequada de medicamentos. Essas iniciativas demandam investimento em educação permanente e suporte institucional para consolidar a APS como eixo prioritário no envelhecimento saudável (Dias; Silva Gama; Tavares, 2017).

Outro ponto julgado como importante no papel do enfermeiro na prevenção de IST’s em idosos na APS é o tipo de abordagem que deve ser executada por ele. O enfermeiro na APS deve adotar uma postura acolhedora, com uma abordagem humanizada e focada na identificação de vulnerabilidades, identificando também fatores de risco como a falta de uso de preservativos, múltiplos parceiros e comorbidades que aumentem a suscetibilidade a IST’s nesses idosos.

5. METODOLOGIA

O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura (RIL), método que tem como finalidade reunir, sintetizar e analisar criticamente o conhecimento científico já produzido sobre determinado tema, possibilitando uma visão ampla e fundamentada acerca do objeto investigado. Segundo Dantas (2022), a revisão integrativa configura-se como um método de pesquisa que busca sintetizar resultados de estudos distintos, apresentando-os de forma organizada e acessível. Essa abordagem permite a inclusão de pesquisas com diferentes delineamentos metodológicos, tanto quantitativos quanto qualitativos, e é amplamente utilizada na Enfermagem, por apoiar a Prática Baseada em Evidências e garantir rigor e confiabilidade nas conclusões obtidas.

No âmbito das pesquisas qualitativas, ressalta-se que tais métodos se dedicam à interpretação dos significados atribuídos às experiências humanas, priorizando a análise de contextos, interações e comportamentos sociais. Rodrigues, Oliveira e Santos (2021) destacam que a pesquisa qualitativa é de natureza interpretativa, pois valoriza a compreensão de conceitos a partir da prática social, oferecendo descrições contextualizadas e narrativas que aprofundam o entendimento dos fenômenos investigados. Essa perspectiva se mostra especialmente relevante para estudos em saúde, uma vez que privilegia a subjetividade e as experiências dos participantes.

A revisão integrativa segue um processo metodológico estruturado em seis etapas, conforme descrito por Dantas et al. (2022): (1) identificação do tema e formulação da questão norteadora; (2) busca e amostragem da literatura em bases de dados; (3) extração e categorização dos dados; (4) análise crítica dos estudos incluídos; (5) interpretação dos resultados; e (6) apresentação da síntese obtida. Esse percurso assegura sistematização e transparência à pesquisa, favorecendo a consistência dos achados e sua aplicabilidade prática. Essas etapas estão dispostas mais explicitamente no Quadro 1 a seguir:

Quadro 1: Etapas que compõem a RIL.

Fonte: Adaptado de Dantas et al. (2022)

As fontes de informação utilizadas na presente revisão compreenderão as bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Base de Dados de Enfermagem (BDENF). Serão incluídos artigos publicados nos últimos cinco anos, que abordem temáticas relacionadas à saúde sexual do idoso, ao protagonismo do enfermeiro na promoção da saúde dessa população e às infecções sexualmente transmissíveis (IST).

A coleta de dados foi realizada no período de agosto a outubro de 2025, tomando-se como descritores os seguintes termos: “Idosos”, “Saúde sexual”, “Infecções Sexualmente Transmissíveis”, “Papel do Enfermeiro”, “Prevenção da Saúde Sexual” e “Atenção Primária à Saúde”. Esses descritores serão combinados por meio do operador booleano AND, resultando em cruzamentos duplos e triplos, como: “Papel do Enfermeiro AND Prevenção da Saúde Sexual AND Idosos”; “Atenção Primária à Saúde AND Idosos”; “Infecções Sexualmente Transmissíveis AND Idosos”; e “Saúde Sexual AND Idosos”. 

Para assegurar transparência na seleção dos estudos, será utilizado o Fluxograma de Prisma que organiza o processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão das publicações, além de registrar os motivos de exclusão. Conforme ilustra o Fluxograma 1  a seguir:

Fluxograma 1 – Adaptação do Fluxograma de Prisma

Fonte: Adaptado de Nunes e Ramos (2023).

Foram definidos como critérios de inclusão artigos originais, revisões sistemáticas e integrativas, além de outras publicações científicas que contemplem o tema da saúde sexual do idoso, o papel da enfermagem na promoção da saúde e a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS). Serão selecionados estudos que descrevam ou analisem intervenções de enfermagem voltadas para a promoção da saúde sexual de pessoas idosas, incluindo ações de prevenção, educação em saúde, aconselhamento, acompanhamento e tratamento de IST. Além disso, serão priorizados os trabalhos que abordem, de forma conjunta, os três eixos centrais: idosos, enfermeiros e APS.

Serão excluídos os estudos que não apresentarem relação direta com a temática proposta, aqueles que não tratem do papel da enfermagem na saúde sexual de idosos ou que abordem IST em contextos distintos desse público-alvo. Também serão eliminados artigos duplicados ou indisponíveis em texto completo, bem como publicações que já tiverem sido contempladas na amostra final.

Considerando o foco da pesquisa no papel do enfermeiro na prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) em idosos na Atenção Primária à Saúde (APS), e a constatação de que a vulnerabilidade dos idosos está associada à falta de informação e à carência de estratégias de enfrentamento eficazes, a inclusão da Cartilha Educativa como produto se justifica pela necessidade de fortalecer a educação em saúde.

O presente estudo, embora centrado na Revisão Integrativa da Literatura (RIL), reconhece a necessidade de traduzir o conhecimento científico em ferramentas práticas, conforme evidenciado pela importância do papel do enfermeiro na educação em saúde e na promoção do diálogo aberto sobre sexualidade.

Dessa forma, os achados e as estratégias examinadas na RIL, que incluem a análise de práticas educativas que abordam conceitos, prevenção, diagnóstico e tratamento das IST’s em idosos, servirão de base para a elaboração de um produto desta pesquisa.

O produto é uma Cartilha Educativa destinada aos idosos, com o objetivo de disseminar informações essenciais sobre as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), incluindo seus conceitos, formas de prevenção e a relevância da testagem rápida e do aconselhamento na Atenção Primária à Saúde.

Enfatiza-se que a Cartilha Educativa constitui o produto desta pesquisa e será elaborada em uma fase subsequente. A elaboração deste material visa contribuir futuramente para o enfrentamento das IST’s e promover a autonomia sexual e o bem-estar da população idosa, conforme a necessidade de estratégias adaptadas e humanizadas identificadas nos resultados.

6. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS ACHADOS

Os dados analisados foram obtidos através de pesquisa em 9 artigos voltados ao tema deste estudo, compreendidos entre os anos de 2021 a 2024, conforme demonstrado nos quadros abaixo:

Quadro 2: Artigos incluídos de acordo com título, autoria principal, fonte de publicação, método, idioma e ano de publicação.

TítuloAutor PrincipalPeriódicoMétodoIdiomaAno
A1Prevalência de infecções sexualmente transmissíveis em idosos do Brasil.ALBUQUERQUE, J. S.Research, Society and DevelopmentEstudo transversal,observacional e quantitativoPortuguês2022
A2Atuação da enfermagem na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis em idosos: revisão de literatura.BARBOSA, F. M.Revista FTRevisão narrativa de literaturaPortuguês2023
A3Vulnerabilidade da pessoa idosa frente às Infecções Sexualmente Transmissíveis.BARBOSA, A. T. de S.Revista Eletrônica Acervo SaúdeRevisão integrativa de literaturaPortuguês2024
A4Sexualidade da pessoa idosa: vivências de profissionais de saúde e idosos.BARBOSA, C. S. P.Cogitare EnfermagemEstudo de abordagem qualitativaPortuguês2022
A5Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral à Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis.Brasil (Ministério da Saúde)Ministério da SaúdeProtocolo clínicoPortuguês2022
A6Fatores associados à sexualidade do idoso na Atenção Primária à Saúde.COELHO, W. V. C.Revista de Enfermagem UFPE OnlineRevisão integrativa de literaturaPortuguês2021
A7Envelhecimento populacional e saúde de idosos: o Brasil está preparado?MREJEN, M. Estudo InstitucionalRevisão integrativa de literaturaPortuguês2023
A8Vulnerabilidade em saúde às Infecções Sexualmente Transmissíveis pela pessoa idosa.NASCIMENTO, V. B. doRevista de Enfermagem da UFRJPesquisa qualitativa, descritiva e exploratóriaPortuguês2023
A9Práticas de educação sexual com idosos: uma revisão integrativa.SILVA, C. N.Revista Saúde ColetivaRevisão integrativa de literaturaPortuguês2023

Fonte: Elaborado pelos autores (2025).

Quadro 3: Síntese dos principais achados dos estudos selecionados.

Principais Resultados/Evidências
A1As ISTs em idosos são uma problemática de saúde pública cercada de desafios que necessitam ser trabalhados por meio, por exemplo, da execução de campanhas de prevenção específicas, considerando as necessidades e particularidades deste grupo social.
A2O aumento de IST’s em idosos no Brasil está relacionado à invisibilidade da atividade sexual na terceira idade. O papel do enfermeiro é crucial para orientar e promover a prevenção de IST’s nessa população.
A3A percepção dos idosos frente à sexualidade, os fatores associados às (IST) em idosos e as IST’s mais prevalentes na população idosa.
A4O estudo evidenciou que idosos vivenciam a sexualidade de forma limitada por aspectos culturais, religiosos e biológicos, enquanto profissionais de saúde enfrentam tabus e falta de preparo, ressaltando a necessidade de educação em saúde para ambos.
A5Este Protocolo trouxe avanços importantes no diagnóstico e acompanhamento da sífilis, definiu estratégias claras para gestantes e crianças expostas, reforçou a prevenção combinada das IST e atualizou as recomendações considerando a resistência bacteriana e a necessidade de vigilância contínua.
A6Informa-se que emergiram, dos dados, as seguintes categorias que interferem na incidência de IST’s em idosos: aspectos fisiológicos; culturais; comportamentais e alternativas em busca do prazer.
A7O Brasil está passando por um envelhecimento populacional acelerado que, apesar de uma tendência de melhoria na saúde auto reportada dos idosos, agrava suas condições de saúde com a idade, aumenta significativamente a demanda por cuidados, predominantemente familiares e com impacto desproporcional sobre as mulheres no mercado de trabalho, e revela um sistema de saúde despreparado em termos de recursos humanos e físicos especializados.
A8Foram entrevistados ao total 100 idosos. Predominaram mulheres, com baixa escolaridade, casados, pretos e pardos, protestantes, renda mensal de 1 a 2 salários mínimos. Os mais velhos, negros e pardos, protestantes e de menor renda desconhecem mais as infecções sexualmente transmissíveis. Os homens relataram usar mais preservativo e ter mais relações sexuais.
A9As práticas educativas apresentadas abordam a saúde sexual do idoso de forma sucinta e didática, focando em conceitos, prevenção, diagnóstico e tratamento das IST’s.

A análise dos estudos selecionados (A1 a A9) evidencia que as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) em idosos configuram uma questão emergente de saúde pública, associada a fatores biológicos, sociais e culturais, que demandam atenção específica dos profissionais da enfermagem no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). As três categorias identificadas (1. O papel do enfermeiro na prevenção, 2. Os comportamentos de risco e 3. As estratégias de enfrentamento) refletem uma realidade multifacetada que requer práticas assistenciais e educativas interligadas.

Categoria 1: O papel do enfermeiro na prevenção de IST’s em idosos.

Os artigos A2 (Barbosa, 2023) e A3 (Barbosa e Costa, 2024) convergem ao destacar o protagonismo do enfermeiro como agente de transformação no cuidado à saúde sexual da pessoa idosa. Ambos ressaltam que o enfermeiro, por meio da educação em saúde, do aconselhamento e da testagem rápida, contribui para romper o silêncio que permeia a sexualidade na terceira idade. Esse papel educativo é reforçado por A5 (Brasil, 2022), que, ao atualizar o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST’s, reconhece o enfermeiro como peça-chave na implementação de estratégias de prevenção combinada.

No entanto, A4 (Barbosa et al., 2022) e A6 (Coelho et al., 2021) apontam que o despreparo profissional e os tabus persistentes dificultam o diálogo entre enfermeiros e idosos, gerando lacunas na abordagem da sexualidade. Assim, a atuação do enfermeiro na APS precisa ir além da técnica: requer empatia, escuta ativa e humanização do cuidado, conforme reforçado também por A7 (Mrejen et al., 2023), que evidencia o despreparo do sistema de saúde diante das novas demandas do envelhecimento populacional.

Dessa forma, o papel do enfermeiro na prevenção das IST’s extrapola a dimensão biomédica e abrange a mediação cultural e educativa, com ações voltadas à desconstrução de estigmas e à promoção da autonomia sexual e afetiva dos idosos.

Categoria 2: Principais comportamentos de risco associados às IST’s em idosos

Os estudos A1 (Albuquerque et al., 2022) e A8 (Nascimento et al., 2023) demonstram que o aumento das IST’s nessa faixa etária está intimamente relacionado a comportamentos de risco, como a não utilização de preservativos, múltiplos parceiros e a ausência de diálogo sobre práticas seguras. Tais comportamentos derivam de percepções equivocadas de invulnerabilidade, especialmente entre idosos casados ou viúvos, e da crença de que a contracepção deixa de ser necessária após a menopausa ou andropausa.

O artigo A3 (Barbosa e Costa, 2024) reforça que fatores culturais e religiosos intensificam essa vulnerabilidade, ao passo que A4 (Barbosa et al., 2022) destaca o constrangimento e a resistência em discutir sexualidade com profissionais de saúde. A vulnerabilidade feminina é ainda maior, conforme apontado por A1 (Albuquerque et al., 2022) e A8 (Nascimento et al., 2023), que identificam menor nível de conhecimento entre idosas com baixa escolaridade e renda, além da dificuldade em negociar o uso do preservativo com parceiros.

Esses achados evidenciam que os comportamentos de risco não são apenas escolhas individuais, mas resultam de fatores estruturais e culturais, como a invisibilidade social da sexualidade na velhice e o preconceito institucional que ainda permeia os serviços de saúde. A ausência de campanhas educativas voltadas a essa faixa etária, somada à falta de capacitação dos profissionais, perpetua a negligência sobre o tema e contribui para a manutenção das vulnerabilidades observadas.

Categoria 3: Estratégias adotadas pelos enfermeiros como ferramenta de enfrentamento das IST’s na APS

Os artigos A2 (Barbosa, 2023), A6 (Coelho et al., 2021) e A9 (Silva et al., 2023) enfatizam que as estratégias mais eficazes de enfrentamento das IST’s entre idosos são aquelas baseadas na educação em saúde, nas consultas humanizadas e na inclusão da sexualidade como tema nas ações de promoção e prevenção. Tais práticas devem ser adaptadas às especificidades cognitivas e culturais dos idosos, utilizando linguagem acessível e ambientes acolhedores que favoreçam o diálogo.

Segundo A5 (Brasil, 2022), a ampliação da testagem rápida na APS e o fortalecimento do aconselhamento pré e pós-teste são medidas essenciais que, quando conduzidas por enfermeiros, aumentam a adesão dos idosos às práticas preventivas. Já A9 (Silva et al., 2023) sugere que oficinas e grupos educativos, quando conduzidos de forma lúdica e participativa, permitem que o idoso compartilhe experiências e reduza o estigma, tornando-se protagonista do próprio cuidado.

Em consonância, A7 (Mrejen et al., 2023) ressalta que a qualificação permanente dos profissionais e o investimento em políticas públicas voltadas à sexualidade do idoso são fundamentais para consolidar estratégias sustentáveis na APS. Assim, o enfermeiro deve atuar como articulador entre as dimensões clínica, social e educativa, assegurando um cuidado integral que reconheça o envelhecimento ativo e a sexualidade como direitos humanos.

7. CONCLUSÃO

A revisão integrativa evidencia que as Infecções Sexualmente Transmissíveis em idosos representam uma problemática complexa e multifatorial, que exige do enfermeiro uma atuação técnica, ética e humanizada. Os estudos analisados apontam que o aumento da incidência de IST’s nessa faixa etária decorre de lacunas no conhecimento, de barreiras culturais e da invisibilidade da sexualidade na velhice.

O papel do enfermeiro, nesse contexto, é essencial para promover a educação em saúde, incentivar o uso de preservativos, realizar testagens rápidas e, principalmente, estabelecer vínculos de confiança que possibilitem o diálogo aberto sobre sexualidade. A prática de enfermagem deve, portanto, pautar-se na integralidade do cuidado e na valorização da autonomia do idoso, superando visões moralistas e estigmatizantes.

Observa-se ainda que os comportamentos de risco e as vulnerabilidades associadas às IST’s são reflexos de um sistema de saúde que ainda não reconhece plenamente a sexualidade como dimensão da saúde integral. Dessa forma, torna-se indispensável investir em capacitação profissional, em políticas públicas específicas e em estratégias interdisciplinares que envolvam não apenas o enfermeiro, mas toda a equipe da APS.

Em síntese, a prevenção das IST’s em idosos depende de uma abordagem ampliada, sustentada na educação permanente, na humanização do cuidado e no respeito às particularidades dessa fase da vida. O enfermeiro, como agente de transformação social, possui papel determinante para garantir que a saúde sexual do idoso seja vista, respeitada e promovida como parte fundamental do envelhecimento saudável e digno.

Em resposta direta à carência de recursos e à necessidade de estratégias adaptadas identificadas nos resultados, o produto desta pesquisa é uma Cartilha Educativa destinada aos idosos. A elaboração deste material em uma fase subsequente objetiva disseminar informações essenciais sobre as IST’s, incluindo seus conceitos, formas de prevenção e a relevância da testagem rápida e do aconselhamento na Atenção Primária à Saúde (APS).

Esta Cartilha constitui uma ferramenta prática que materializa a recomendação dos estudos por práticas educativas que sejam sucintas e didáticas, utilizando linguagem acessível para desmistificar tabus e facilitar o diálogo aberto sobre sexualidade. Ao focar na prevenção e na importância da testagem rápida e do aconselhamento, o material apoia diretamente o enfermeiro na APS, fortalecendo as ações de prevenção combinada e a detecção precoce de vulnerabilidades.

Conclui-se que a elaboração e futura implementação da Cartilha Educativa contribuirá significativamente para o enfrentamento das IST’s e para a promoção da autonomia sexual e do bem-estar da população idosa. Este material didático reforça o imperativo de garantir um cuidado integral, humanizado e livre de estigmas, ao mesmo tempo em que destaca a necessidade contínua de fortalecer a formação profissional e ampliar as políticas públicas voltadas à saúde sexual na Atenção Primária à Saúde.

REFERÊNCIAS

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1Graduanda em Enfermagem – Esamaz. E-mail: amandamacedomendes@hotmail.com
2Graduanda em Enfermagem – Esamaz. E-mail: cicirithelly@icloud.com
3Graduando em Enfermagem – Esamaz. E-mail: aminjoao@gmail.com
4Enfermeira – Esamaz. E-mail: Larissa.c.magalhaes@hotmail.com
5Enfermeira, universidade federal do Maranhão. E-mail: robertaalves336@gmail.com
6Currículo:https://lattes.cnpq.br/0531289062944544. E-mail: elberbilly17@gmail.com
7Enfermeiro em unidade de terapia intensiva. E-mail: jailsonourem@hotmail.com
8Currículo: http://lattes.cnpq.br/4617017442061416. E-mail: enfsamearafaelly@gmail.com
9Curso: Enfermeira. Esp. UTI Adulto e Neonatal. Esp. Enfermagem do Trabalho. Pós. Grad. Planejamento e Gestão em Saúde. E-mail: barbaraavillela@gmail.com
10Mestre em saúde. Enfermeira. E-mail: sabrinaaraujo.gmc@hotmail.com