REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511061958
Ana Júlia Boaes dos Santos Silva
Alessandro Oliveira Sousa Soares
Claudia da Silva Faustino
Leilane Alves de Morais
Sunamita de Oliveira Rocha
Patrícia Pereira Saraiva
Pedro Alencar
RESUMO
A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no organismo, geralmente associada a fatores genéticos, socioeconômicos, nutricionais ou ambientais. A obesidade representa um problema de saúde pública no Brasil, assim como em todo o mundo, sendo esta uma preocupação relevante, diante dos riscos de saúde e limitações da qualidade de vida. Desse modo, teve-se como principal objetivo analisar a atuação do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil em escolas públicas, com enfoque em ações educativas e estratégias do Programa Saúde na Escola (PSE). Para isso, foi realizada uma pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo revisão integrativa da literatura, compreendendo estudos de 2020 a 2024. Os estudos selecionados destacam o papel essencial do enfermeiro em ações educativas, preventivas e de promoção da saúde, tanto no contexto individual quanto comunitário, possibilitando identificar pontos em comum, avanços alcançados e desafios existentes. A partir da análise dos estudos, ficou evidente que os profissionais de enfermagem exercem um papel central na promoção de hábitos alimentares saudáveis, incentivo à prática de atividades físicas e implementação de estratégias educativas direcionadas às crianças e seus cuidadores. A atuação do enfermeiro nas escolas públicas, em articulação com o Programa Saúde na Escola (PSE), contribui significativamente para a prevenção e controle da obesidade infantil, reforçando sua importância como agente de transformação no ambiente escolar.
Palavras-chave: Obesidade infantil. Enfermagem. Programa Saúde na Escola (PSE).
ABSTRACT
Obesity is characterized by excessive fat accumulation in the body, generally associated with genetic, socioeconomic, nutritional, or environmental factors. Obesity represents a public health problem in Brazil, as it does worldwide, and is a significant concern given the health risks and limitations on quality of life. Therefore, the main objective of this study was to analyze the role of nurses in preventing childhood obesity in public schools, focusing on educational initiatives and strategies of the School Health Program (PSE). To this end, a qualitative study was conducted, an integrative literature review, encompassing studies from 2020 to 2024. The selected studies highlight the essential role of nurses in educational, preventive, and health promotion initiatives, both in the individual and community contexts, enabling the identification of commonalities, progress achieved, and existing challenges. Based on the analysis of the studies, it became clear that nursing professionals play a central role in promoting healthy eating habits, encouraging physical activity, and implementing educational strategies targeted at children and their caregivers. The work of nurses in public schools, in conjunction with the School Health Program (PSE), contributes significantly to the prevention and control of childhood obesity, reinforcing their importance as agents of change in the school environment.
Keywords: Childhood obesity. Nursing. School Health Program (PSE).
1 INTRODUÇÃO
A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no organismo, geralmente associada a fatores genéticos, socioeconômicos, nutricionais ou ambientais. A obesidade representa um problema de saúde pública no Brasil, assim como em todo o mundo, sendo esta uma preocupação relevante, diante dos riscos de saúde e limitações da qualidade de vida (Almeida; Cavalcanti; Ostorino, 2023). No ano de 2019, o Ministério da Saúde realizou uma coleta de indicadores evidenciando que uma em cada 10 crianças brasileiras de até 5 anos possui um peso acima do ideal, sendo 7% com sobrepeso e 3% com obesidade. Já no ano de 2021, o Ministério da Saúde divulgou que aproximadamente 6,4 milhões de crianças têm excesso de peso no Brasil, de modo que 3,1% já são classificadas como obesidade (Abeso, 2021).
O sobrepeso e obesidade causam sérios riscos à saúde, estando diretamente relacionado com diagnósticos precoces de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), assim como: complicações respiratórias, hiperlipidemia, hipertensão arterial sistêmica (HAS), fadiga excessiva, esteatose hepática, anomalias menstruais, bem como alterações ortopédicas (Vasconcelos et al., 2024). Cabe ressaltar que o sobrepeso em crianças, além das comorbidades, pode gerar intimidações por conta do peso corporal, levantando assim um estereótipo negativo com baixa autoestima, bullying e, consequentemente, redução na frequência escolar.
A obesidade na infância, atualmente, está relacionada diretamente com o aumento dos índices de mortalidade e morbidade devido ao excesso de peso, gerando assim doenças crônicas, intolerância à glicose, doenças cardiovasculares e dislipidemia. Tendo isso em vista, o Ministério da Saúde desenvolveu o Programa Saúde na Escola (PSE), com o objetivo de facilitar as ações da equipe multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (APS), uma vez que os adolescentes costumam frequentar pouco os serviços de saúde (Vieira et al., 2018). Os serviços prestados pelo PSE incluem a avaliação antropométrica, em busca de identificar estudantes com sobrepeso ou obesidade, assim como a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prática de atividades físicas.
O âmbito de atuação da enfermagem, busca a prevenção, tratamento, reabilitação e promoção da saúde, todavia, destaca-se que a Estratégia de Saúde da Família (ESF), tem como principal objetivo a luta contra a desnutrição, e, com isso, suas ações passaram a ser focadas em restringir doenças metabólicas como o excesso de peso na infância (Da Silva Dantas; Silva; Bertussi, 2024). Nesse contexto, a enfermagem apresenta-se como uma importante agente na promoção de práticas alimentares saudáveis e disseminação de conhecimentos e informações sobre a doença. Sendo assim, os profissionais de enfermagem desempenham um papel fundamental na prevenção da obesidade infantil, uma vez que são os responsáveis por informar e estimular comportamentos saudáveis.
Nesse contexto, justifica-se a importância de discutir o papel do enfermeiro, especialmente aquele inserido nas equipes da Atenção Primária à Saúde (APS) e no Programa Saúde na Escola (PSE), como agente estratégico na prevenção da obesidade infantil. O enfermeiro, por meio de sua formação e prática voltada à promoção da saúde, possui competências para atuar diretamente junto às escolas, desenvolvendo ações educativas, identificando precocemente fatores de risco e articulando cuidados com outros profissionais da equipe multiprofissional.
A relevância do tema também se dá pela necessidade de fortalecer as práticas de educação em saúde dentro do ambiente escolar, onde a criança tem maior possibilidade de adquirir hábitos saudáveis. O enfermeiro pode atuar promovendo atividades lúdicas, palestras, oficinas com os pais e campanhas nutricionais, fomentando a consciência crítica sobre alimentação, atividade física e autocuidado. Tais ações contribuem para a construção de um ambiente escolar saudável e acolhedor, comprometido com o desenvolvimento integral do aluno.
Diante desse cenário, a presente pesquisa teve como problema/questão: qual é o papel do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil no contexto das escolas públicas brasileiras? Desse modo, teve-se como principal objetivo analisar a atuação do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil em escolas públicas, com enfoque em ações educativas e estratégias do Programa Saúde na Escola (PSE).
Além disso, foram definos como objetivos específicos: (I) Identificar as estratégias utilizadas pelos profissionais de enfermagem na promoção de hábitos alimentares saudáveis e incentivo à prática de atividades físicas em crianças; (II) Investigar como a equipe de enfermagem realiza o acompanhamento antropométrico e a detecção precoce de casos de sobrepeso e obesidade infantil nas escolas públicas; (III) Compreender o impacto das ações do Programa Saúde na Escola (PSE) no combate à obesidade infantil, destacando a importância da integração entre saúde e educação.
2 REFERÊNCIAL TEÓRICO
2.1 OBESIDADE INFANTIL
A obesidade pode ser conceituada como uma doença ocasionada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, sendo esta uma consequência do balanço energético positivo. Nos últimos anos, observou-se um aumento significativo desta problemática em todo o mundo, tornando-a um problema de saúde. Nesse contexto, o Brasil vem registrando cada vez mais casos de excesso de peso, realidade que pode ser evidenciada em diversos países no mundo. A obesidade é um problema que afeta todas as idades e torna-se preocupante pela sua grandeza e rápida evolução. A prevalência da doença multiplicou-se por quatro, em cerca de 20 anos, para meninos (4,1% para 16,6%) e por, aproximadamente, cinco entre as meninas (2,4% para 11,8%) entre crianças de 5 a 9 anos (Brasil, 2013).
O excesso de peso durante a infância aumenta significativamente as chances de a criança desenvolver obesidade na vida adulta, o que representa um importante fator de risco para diversas doenças, como hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, resistência à insulina, dislipidemias e esteatose hepática não alcoólica. Além dos agravos físicos, fatores sociais e psicológicos também podem impactar negativamente a qualidade de vida do indivíduo ao longo de sua trajetória, tendo em vista que
(…) A obesidade infantil vem aumentando de forma significativa ao longo dos anos, tornando-se uma espécie de epidemia em vários países. Tal fato é motivo de preocupação, tendo em vista haver um consenso por parte de pesquisadores e profissionais da área de saúde de que a obesidade é um importante determinante para o surgimento de várias complicações e agravos à saúde ainda na infância e também na vida adulta. Ela não afeta apenas as características físicas externas, mas influencia fatores fisiológicos, estando associada também ao desenvolvimento de diversos problemas de saúde, como diabetes do tipo II, doenças coronarianas, aumento da incidência de certas formas de câncer, complicações respiratórias e problemas osteomioarticulares (Mello; Luft; Meyer, 2004; Soares; Petroski, 2003; Kopelman, 2000).
Além disso, a obesidade representa um problema de grande preocupação, visto que a associação da obesidade com alterações metabólicas, tais como dislipidemia, hipertensão e intolerância a glicose, são considerados fatores de risco para a ocorrência da diabetes tipo 2, assim como doenças cardiovasculares. Cabe ressaltar, ainda, que a obesidade e o sobrepeso eram condições mais evidentes em adultos, todavia, atualmente são observados com frequência na faixa etária mais jovem.
Entre as causas do sobrepeso e da obesidade, destacam-se fatores biológicos, históricos, ecológicos, econômicos, sociais, culturais e políticos. Essa condição é majoritariamente determinada pelo consumo excessivo de calorias aliado a um estilo de vida sedentário (Vieira et al., 2018). É importante frisar, que as crianças e adolescentes são submetidas à condições socioeconômicas e culturais de suas famílias, as quais influenciam diretamente na prática de atividade física, quantidade e qualidade de alimentos disponíveis, acesso livre a tecnologias, tais como celulares, vídeo games, computadores e tablets, fatores esses que favorecem um maior tempo investido em atividades que exigem um menor gasto energético.
No que se refere às complicações psicológicas, tal condição pode gerar sofrimento significativo na infância, manifestando-se por meio de sintomas depressivos, dificuldades no desempenho escolar, prejuízos na interação social e redução na qualidade de vida. Atualmente, é considerado um problema de saúde pública, sobretudo diante do aumento expressivo de casos entre crianças e adolescentes, aliado a fatores socioeconômicos, o que tem despertado a atenção de profissionais e pesquisadores da área da saúde.
Tais condições contribuem para o desenvolvimento de baixa autoestima, insegurança e diversos transtornos emocionais. Em muitos casos, a imagem corporal associada ao sobrepeso é interpretada negativamente, levando o indivíduo a sentimentos de incapacidade, descontrole, preguiça ou negligência. Isso intensifica o sofrimento psíquico, enquanto fatores como a predisposição genética acabam sendo desconsiderados frente ao ideal social de um corpo “perfeito”.
2.2 O PAPEL DA ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO DA OBESIDADE INFANTIL
A enfermagem possui um papel fundamental na educação em saúde, principalmente, frente à aplicação de cuidados, ações direcionadas para a prevenção e adaptação aos efeitos da doença, além da manutenção da saúde. O caderno de Atenção Básica nº 38 intitulado: “Estratégias para o Cuidado da Pessoa com Doença Crônica: Obesidade”, publicado pelo Ministério da Saúde, aborda a obesidade infantil, a qual destaca a importância da APS na prevenção e no manejo da obesidade (Ministério da Saúde, 2014).
Sendo assim, ressalta-se que o Ministério da Saúde recomenda o monitoramento contínuo da necessidade de desenvolver triagens regulares para que seja possível identificar sinais dessa problemática, para assim implementar as intervenções adequadas. Além disso, o órgão sugere que a abordagem ideal deve ser realizada com foco no paciente, assim como orientada para a família, em busca de refletir a necessidade de uma intervenção holística que considere todos os contextos em que estão inseridos (Alves, 2020). Nesse sentido, é essencial que a abordagem em questão inclua a promoção de uma alimentação saudável, promoção de mudanças comportamentais, assim como incentivo à prática regular de atividades físicas.
Em consonância com as diretrizes do Ministério da Saúde, o tratamento considerado padrão-ouro para a obesidade infantil, conforme preconizado pelo Manual de Obesidade Infantil da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), baseia-se em uma abordagem multidisciplinar e individualizada. As intervenções devem ser ajustadas à rotina e às necessidades específicas da criança e de sua família, visando à incorporação sustentável dessas práticas no cotidiano (Vieira et al., 2024).
De acordo com Weffort (2019), o suporte psicológico exerce um papel fundamental no tratamento da obesidade infantil, sendo recomendado o uso de terapias comportamentais aliadas ao envolvimento familiar. A educação nutricional também representa um componente essencial desse processo, priorizando uma alimentação equilibrada e a redução do consumo de alimentos ultraprocessados.
O acompanhamento clínico inclui a avaliação contínua das mudanças relacionadas ao peso corporal, aos hábitos alimentares e aos níveis de atividade física da criança, permitindo ajustes adequados no plano terapêutico. Em situações mais complexas, nas quais as estratégias comportamentais se mostram insuficientes, pode-se cogitar o uso de intervenções farmacológicas ou até mesmo cirúrgicas. Contudo, tais medidas devem ser criteriosamente avaliadas por especialistas (Weffort, 2019).
Nesse contexto, o enfermeiro, enquanto integrante da equipe da Atenção Primária à Saúde (APS), desempenha funções essenciais no manejo da obesidade infantil. No campo da prevenção, destaca-se sua atuação na educação em saúde e na promoção de estilos de vida saudáveis. Cabe a esse profissional organizar e coordenar ações educativas em salas de espera, grupos operacionais e demais atividades realizadas nos territórios de abrangência. Já no processo de tratamento, o enfermeiro acompanha não apenas a condição física da criança, mas também os aspectos psicossociais envolvidos, promovendo a articulação com a equipe multiprofissional (Da Silva Dantas; Silva; Bertussi, 2024).
3 METODOLOGIA
O estudo em questão consiste em uma revisão bibliográfica de natureza descritiva, adotando o formato de revisão integrativa. O procedimento metodológico a ser conduzido compreendeu etapas específicas, tais como identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos. O propósito principal é realizar uma compilação sistemática de dados que possibilite compreender as estratégias de prevenção da obesidade infantil desenvolvidas por profissionais de enfermagem no contexto escolar. O intuito primordial é evidenciar a importância da atuação do enfermeiro na promoção da saúde, no incentivo a hábitos alimentares saudáveis e na prevenção de doenças crônicas desde a infância.
A formulação da questão de pesquisa norteadora deste estudo envolveu a seguinte indagação: “Qual é o papel do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil em escolas públicas, e quais estratégias têm sido descritas na literatura para promover hábitos saudáveis entre as crianças em idade escolar?” Os critérios de exclusão adotados abrangeram textos incompletos, publicados em outros idiomas, e estudos que não abordassem diretamente a temática em questão. Por outro lado, os critérios de inclusão compreenderam artigos completos, gratuitos, redigidos em português e publicados nos últimos cinco anos, cujo conteúdo fosse relevante para a análise do tema.
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados SciELO, PubMed e Google Acadêmico, utilizando os descritores “obesidade infantil”, “prevenção”, “enfermagem” e “escolas públicas”. A pesquisa inicial resultou em um número expressivo de artigos, dos quais apenas aqueles que atenderam rigorosamente aos critérios de seleção foram incluídos na revisão. Entre os autores identificados, destacam-se profissionais e pesquisadores da área de Enfermagem e Saúde Coletiva, cujos trabalhos abordam práticas educativas, acompanhamento nutricional e intervenções interdisciplinares no ambiente escolar.
Foram considerados para inclusão nesta revisão estudos originais e recentes, publicados entre os anos de 2020 e 2024, que abordassem diretamente a atuação do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil. Excluíram-se artigos duplicados, com data de publicação anterior ao período estabelecido ou que não apresentassem relação direta com a temática. Cada artigo selecionado contribuiu de maneira significativa para a compreensão das ações de promoção da saúde e prevenção da obesidade infantil conduzidas pela enfermagem no contexto escolar.
4 RESULTADOS
A obesidade infantil configura-se como um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, resultante da combinação de fatores genéticos, ambientais, sociais e comportamentais. No contexto escolar, esse problema ganha destaque, visto que a escola representa um espaço privilegiado para a promoção da saúde, formação de hábitos alimentares saudáveis e incentivo à prática de atividades físicas. Nesse cenário, o enfermeiro exerce um papel fundamental na prevenção da obesidade infantil, atuando não apenas na identificação precoce dos fatores de risco, mas também na implementação de ações educativas e no acompanhamento contínuo das crianças e de suas famílias.
A atuação do enfermeiro nas escolas públicas é essencial para o desenvolvimento de estratégias interdisciplinares que visam à conscientização e à adoção de práticas de vida mais saudáveis. Por meio de campanhas, palestras e monitoramento nutricional, esse profissional contribui significativamente para a construção de uma cultura de prevenção e cuidado desde a infância, reduzindo os índices de sobrepeso e as complicações associadas a essa condição.
Dessa forma, compreender o papel do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil torna-se indispensável para o fortalecimento das políticas públicas de saúde e educação. Para tanto, foi realizada uma análise sistemática de estudos científicos que abordam essa temática, buscando identificar as principais estratégias, desafios e resultados obtidos na prática assistencial e educativa.
A seguir, apresenta-se o fluxograma (Quadro 1), que ilustra as etapas de identificação, triagem, seleção e inclusão dos estudos utilizados nesta pesquisa, evidenciando o processo metodológico adotado para a construção da análise sobre o papel do enfermeiro na prevenção da obesidade infantil em escolas públicas.
Quadro 1. Fluxograma do processo seletivo dos artigos para inclusão efetiva no estudo.

Fonte: Autores, 2025.
A partir da análise de diferentes estudos que abordam a obesidade infantil e a atuação da enfermagem na sua prevenção e controle, foi possível reunir 10 (dez) pesquisas desenvolvidas entre os anos de 2020 e 2024, contemplando distintos delineamentos metodológicos, como revisões bibliográficas, revisões integrativas e estudos qualitativos (Quadro 2). Os estudos selecionados destacam o papel essencial do enfermeiro em ações educativas, preventivas e de promoção da saúde, tanto no contexto individual quanto no comunitário, possibilitando identificar pontos em comum, avanços alcançados e desafios existentes.
Quadro – Categorização de estudos sobre a obesidade infantil e o papel da enfermagem na prevenção e promoção da saúde entre os anos de 2020 a 2024









Fonte: Elaborada pelos autores, 2025.
5 DISCUSSÕES
No contexto contemporâneo, as transformações sociais, estruturais, econômicas, culturais e políticas contribuíram para a ampliação da expectativa de vida, mas também modificaram significativamente os padrões alimentares e nutricionais da população, tornando o excesso de peso (sobrepeso e obesidade) um importante desafio de saúde pública (Silva, 2024).
Conforme apontam Sousa et al. (2023), a obesidade, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, pode manifestar-se desde os cinco anos de idade, sendo mais frequente entre crianças que vivem em áreas urbanas. Por se tratar de uma condição que favorece o surgimento de diversas doenças crônicas, a obesidade infantil é especialmente preocupante, pois tende a persistir na vida adulta e comprometer o crescimento e o desenvolvimento saudáveis.
Marques (2020) destaca que os principais fatores associados à obesidade envolvem hábitos alimentares inadequados, sedentarismo, privação de sono, questões emocionais como ansiedade e depressão, além de fatores genéticos e hormonais. Embora múltiplas causas possam estar relacionadas, o consumo excessivo de calorias provenientes de alimentos ultraprocessados é um dos elementos centrais, levando a um desequilíbrio entre a energia ingerida e a energia gasta nas atividades diárias.
O desmame precoce e a introdução inadequada de alimentos representam fatores críticos que podem afetar o crescimento e a qualidade de vida dos bebês, favorecendo o desenvolvimento da obesidade em qualquer fase da infância. Quando a alimentação complementar é oferecida de forma incorreta logo após o desmame, a obesidade pode se instalar já no primeiro ano de vida.
Baggio et al. (2021) observaram, em sua pesquisa, que o consumo de frutas, legumes e verduras era praticamente inexistente entre as crianças participantes. Esse dado se alinha a estudos nacionais que revelam um baixo consumo desses alimentos em todas as faixas etárias no Brasil. Entre crianças e adolescentes, a média de ingestão situa-se entre 30% e 40%, reduzindo-se conforme a idade avança. Esse padrão alimentar está diretamente relacionado ao aumento do risco de obesidade, uma vez que alimentos in natura são fundamentais para o controle de peso e ajudam a reduzir o consumo de produtos com alta densidade calórica.
Além disso, os autores constataram que, mesmo quando se tratam de alimentos considerados saudáveis, o consumo excessivo pode gerar um excedente calórico diário de 70 a 160 kcal, contribuindo para o ganho de peso. Nesse sentido, a redução da ingestão calórica aliada à adoção de hábitos alimentares equilibrados e à prática regular de atividade física constitui uma estratégia promissora para o controle do peso corporal em crianças.
Diante desse cenário, Alves et al. (2024) ressaltam que o enfermeiro, na função de educador e promotor da saúde, deve desenvolver estratégias educativas voltadas à prevenção e ao controle da obesidade infantil. Essas ações incluem orientar pais e cuidadores sobre alimentação saudável, estimular a atividade física e fortalecer vínculos familiares, reduzindo a morbimortalidade infantil por uma causa passível de prevenção.
De acordo com Albuquerque et al. (2024), as medidas mais eficazes para conter e prevenir a obesidade infantil envolvem a criação de ambientes alimentares saudáveis, o incentivo à prática de atividade física, ações de promoção da saúde nas escolas, campanhas de comunicação em saúde e intervenções na atenção primária. Para alcançar resultados mais expressivos, recomenda-se que essas iniciativas sejam aplicadas de forma articulada, evitando ações isoladas e potencializando o impacto positivo na qualidade de vida das crianças.
Nesse contexto, o papel do enfermeiro consiste em implementar estratégias que favoreçam a adesão a práticas saudáveis por indivíduos e comunidades. Exemplos dessas ações incluem a promoção da rotulagem nutricional, programas de alimentação institucional, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a oferta de preparações saudáveis em cantinas escolares e ambientes de trabalho, bem como a promoção de atividades físicas em espaços comunitários.
Além da promoção de hábitos saudáveis, destaca-se também o acompanhamento antropométrico realizado pela equipe de enfermagem nas escolas públicas, que consiste na avaliação periódica de peso, estatura e índice de massa corporal das crianças. Essa prática permite a detecção precoce de casos de sobrepeso e obesidade, possibilitando intervenções oportunas para evitar a progressão do quadro. Tais ações de vigilância nutricional são fundamentais para orientar estratégias personalizadas de cuidado e reforçar a integração entre serviços de saúde e o ambiente escolar (Dantas et al., 2024; Sousa, 2023).
Segundo Lira et al. (2025), a enfermagem exerce um papel crucial na promoção da saúde infantil, sobretudo na prevenção de doenças e no estímulo à formação de hábitos alimentares saudáveis. Por atuarem diretamente com crianças e famílias, os enfermeiros têm condições de realizar uma abordagem integral, considerando aspectos físicos, sociais e emocionais do desenvolvimento.
Santana et al. (2024) complementam que as intervenções de enfermagem devem abordar os determinantes da obesidade de maneira ampla, promovendo a inclusão social, o suporte emocional e a criação de ambientes saudáveis. Por meio de estratégias educativas e apoio psicossocial por meio de políticas públicas, os enfermeiros podem contribuir de forma significativa para reduzir os impactos negativos dos fatores psicossociais e ambientais sobre a saúde infantil.
Dantas et al. (2024) enfatizam a importância da atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS) para a prevenção e o manejo da obesidade infantil, especialmente por meio de ações educativas, monitoramento do desenvolvimento infantil e incentivo a práticas alimentares adequadas. Sousa (2023) reforça que os profissionais de enfermagem devem trabalhar em parceria com familiares, profissionais de saúde e de educação, acompanhando a criança na mudança de estilo de vida e promovendo atividades físicas adaptadas às suas condições e necessidades.
Com o intuito de enfrentar o aumento da obesidade no Brasil, foram criadas iniciativas como o Programa Saúde na Escola (PSE), que demonstrou a eficácia de ações educativas integradas na promoção de hábitos saudáveis. Dessa forma, o PSE tem se mostrado uma ferramenta estratégica ao articular ações entre os setores da saúde e da educação, possibilitando atividades de triagem nutricional, oficinas educativas, campanhas de incentivo à alimentação saudável e acompanhamento sistemático dos escolares. Entretanto, apesar dessas iniciativas, os índices de obesidade infantil continuam crescendo, revelando a necessidade de estratégias mais integradas e sensíveis aos fatores psicoemocionais que precedem o desenvolvimento da doença.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise dos estudos, ficou evidente que os profissionais de enfermagem exercem um papel central na promoção de hábitos alimentares saudáveis, incentivo à prática de atividades físicas e implementação de estratégias educativas direcionadas às crianças e seus cuidadores. A atuação do enfermeiro nas escolas públicas, em articulação com o Programa Saúde na Escola (PSE), contribui significativamente para a prevenção e controle da obesidade infantil, reforçando sua importância como agente de transformação no ambiente escolar.
No que se refere aos objetivos específicos, verifica-se que todos foram alcançados ao longo da pesquisa. O primeiro objetivo, que buscava identificar as estratégias utilizadas pelos profissionais de enfermagem na promoção de hábitos saudáveis e no incentivo à prática de atividades físicas, foi amplamente contemplado por meio da análise das ações educativas e de promoção da saúde relatadas na literatura. O segundo objetivo, voltado a investigar o acompanhamento antropométrico e a detecção precoce de sobrepeso e obesidade nas escolas públicas, também foi atendido, evidenciando a importância das triagens periódicas realizadas pela equipe de enfermagem como ferramenta de vigilância e intervenção precoce.
O terceiro objetivo, que visava compreender o impacto das ações do Programa Saúde na Escola (PSE), foi igualmente atingido. Os estudos apontaram que o PSE tem um papel estratégico ao promover a integração entre os setores de saúde e educação, possibilitando ações conjuntas como oficinas, campanhas, triagens e acompanhamento sistemático dos escolares. Embora os resultados sejam positivos, também foi possível identificar a necessidade de maior articulação intersetorial e fortalecimento das práticas educativas para potencializar o alcance e a eficácia do programa.
Apesar dos avanços identificados, observa-se uma escassez de estudos nacionais com abordagem mais aprofundada e longitudinal sobre a atuação da enfermagem no enfrentamento da obesidade infantil em escolas públicas. Dessa forma, torna-se necessária a realização de novas pesquisas, especialmente estudos de intervenção e avaliações de impacto em longo prazo, que possam fornecer dados mais consistentes sobre a efetividade das ações implementadas. Além disso, investigações futuras podem contribuir para o aprimoramento das políticas públicas, assim como o desenvolvimento de estratégias inovadoras que promovam um ambiente escolar mais saudável e sustentável.
REFERÊNCIAS
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1 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
2 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
3 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
4 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
5 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
6 Acadêmico do curso de Enfermagem da Universidade Paulista.
7 Docente do curso de Enfermagem da Universidade Paulista. Email: Enfpedro.alencar@gmail.com.
