THE ROLE OF THE NUTRITIONIST IN PRIMARY CARE AFTER MULTIPROFESSIONAL RESIDENCY IN A MUNICIPALITY IN THE INTERIOR OF RONDÔNIA: AN EXPERIENCE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512252028
Ivandra Beatriz Nunes Rodrigues1
Carla Taveira Nunes2
Teresinha Cícera Teodora Viana3
RESUMO
A Residência Multiprofissional em Saúde da Família constitui-se como um programa de pós-graduação lato sensu destinado à formação em serviço de profissionais da saúde, orientado pelos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde. Nesse contexto, a atuação do nutricionista assume relevância significativa, considerando o papel da alimentação e da nutrição na promoção da saúde, na prevenção de agravos e na qualificação do cuidado ofertado à população. O presente trabalho teve como objetivo descrever um relato de experiência acerca da atuação do nutricionista na Residência Multiprofissional em Saúde da Família no município de Pimenta Bueno, interior do estado de Rondônia. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, de caráter descritivo, desenvolvido na modalidade de relato de experiência, fundamentado nas vivências profissionais ocorridas entre março de 2024 e outubro de 2025 em diferentes Unidades Básicas de Saúde do município. As atividades desenvolvidas abrangeram atendimentos nutricionais individuais, visitas domiciliares, acompanhamento de gestantes, ações de educação alimentar e nutricional, oficinas de saúde e participação em práticas multiprofissionais, as quais apresentaram boa aceitação por parte da população atendida. Observou-se aumento expressivo no número de atendimentos nutricionais após a implantação do programa de residência, ampliando o acesso da comunidade aos serviços de nutrição na Atenção Primária à Saúde. A experiência também evidenciou desafios relacionados à implementação recente do programa, como fragilidades estruturais, elevada carga de trabalho, limitações no apoio pedagógico, dificuldades na articulação intersetorial e compreensão ainda incipiente sobre o papel do residente. As vivências ao longo do programa possibilitaram o desenvolvimento de uma visão crítica e ampliada do cuidado em saúde, evidenciando a residência multiprofissional como estratégia fundamental para a qualificação da formação profissional e para o fortalecimento da Atenção Primária no âmbito do SUS.
PALAVRAS-CHAVES: Nutricionista. Residência Multiprofissional. Saúde da Família
ABSTRACT
The Multiprofessional Residency in Family Health is a lato sensu postgraduate program aimed at providing in-service training for health professionals, guided by the principles and guidelines of the Unified Health System (SUS). In this context, the role of the nutritionist assumes significant relevance, considering the role of food and nutrition in health promotion, disease prevention, and improving the quality of care offered to the population. This study aimed to describe an experience report on the role of the nutritionist in the Multiprofessional Residency in Family Health in the municipality of Pimenta Bueno, in the interior of the state of Rondônia. This is a qualitative, descriptive study, developed in the form of an experience report, based on professional experiences that occurred between March 2024 and October 2025 in different Basic Health Units in the municipality. The activities carried out included individual nutritional consultations, home visits, prenatal care, food and nutrition education activities, health workshops, and participation in multidisciplinary practices, which were well received by the population served. A significant increase in the number of nutritional consultations was observed after the implementation of the residency program, expanding the community’s access to nutrition services in Primary Health Care. The experience also highlighted challenges related to the recent implementation of the program, such as structural weaknesses, high workload, limitations in pedagogical support, difficulties in intersectoral articulation, and a still incipient understanding of the resident’s role. The experiences throughout the program enabled the development of a critical and broadened view of health care, highlighting the multidisciplinary residency as a fundamental strategy for improving professional training and strengthening Primary Care within the SUS (Brazilian Unified Health System).
KEYWORDS: Nutritionist. Multidisciplinary Residency. Family Health
INTRODUÇÃO
A formação do Sistema Único de Saúde (SUS), sua criação está vinculada a valores de igualdade, democracia e emancipação, sendo incorporado à Constituição Federal e a diversos dispositivos legais. O Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, apoiado por entidades como o Cebes e a Abrasco, teve papel decisivo na formulação das políticas públicas de saúde, promovendo eventos na década de 1980 que influenciaram diretamente a 8ª Conferência Nacional de Saúde. Nesse período, iniciativas de municipalização e articulação entre municípios, estados e órgãos federais contribuíram para a ampliação da cobertura e para melhorias significativas em indicadores de saúde. Tais avanços fortaleceram as diretrizes defendidas na Reforma Sanitária e na Constituinte de 1988, alinhadas ao êxito internacional de sistemas públicos europeus e ao princípio da participação social, posteriormente consolidados pelas Leis nº 8.080 e nº 8.142/1990 (Paim, 2018; Santos, 2018).
O SUS conta com uma ampla rede de instituições de ensino e pesquisa como universidades, institutos e escolas de saúde pública que mantém interação constante com secretarias estaduais e municipais, com o Ministério da Saúde e com diferentes agências e fundações. Essa articulação fortalece a sustentabilidade institucional ao possibilitar a formação de profissionais que incorporam conhecimentos, competências e valores alinhados aos princípios do sistema. Muitos desses trabalhadores tornam-se defensores ativos do SUS, mesmo em períodos adversos. A formação de sanitaristas e demais profissionais de saúde nessas instituições garante a continuidade da produção e difusão de saberes, além de consolidar o domínio técnico necessário para a manutenção do sistema (Paim, 2018).
A Atenção Primária à Saúde (APS) no SUS, prevista na diretriz de hierarquização, é reconhecida como a principal porta de entrada e coordenadora da rede de cuidados. A descentralização do sistema conferiu autonomia aos municípios, resultando em significativa diversidade na organização dos serviços. A criação do Programa Saúde da Família, posteriormente Estratégia Saúde da Família (ESF), representou uma forte indução federal para ampliar e estruturar equipes compostas por médicos, profissionais de enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde, responsáveis por ações clínicas, preventivas e promocionais junto a populações definidas territorialmente. Embora sua expansão inicial tenha ocorrido sobretudo em municípios menores, e grandes cidades tenham aderido mais tardiamente, a ESF consolidou-se como o principal modelo de APS no país, ainda que sem alcançar cobertura universal (Tesser, Norman e Vidal, 2018)
A Residência Multiprofissional em Área Profissional da Saúde foi criada no Brasil em 1970. Foi somente em 2002 que que foram criados programas de residências multiprofissionais em saúde da família (RMSF) com apoio do governo federal e sua institucionalização ocorreu a partir da promulgação da Lei nº 11.129, de 30 de junho de 2005, que classifica como uma ação voltada para educação em serviço, orientadas pelos princípios e diretrizes do SUS, a partir das necessidades e realidades locais e regionais, abrangendo as diversas profissões da área da saúde: Biomedicina, Ciências Biológicas, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Serviço Social, Terapia Ocupacional, Saúde Coletiva e Física Médica. (Flor et al, 2022; Brasil, 2018).
Considerando que a alimentação está diretamente envolvida na prevenção de doenças, no risco de enfermidades e até na mortalidade, a inclusão integral, sistemática e de alta qualidade de intervenções de nutrição e alimentação na atenção primária à saúde, em conformidade com as garantias do SUS, possui grande importância para a saúde individual, familiar e comunitária (Costa, 2021).
De acordo com Oliveira e Teixeira(2023), ao longo dos anos, transformações no comportamento e no padrão alimentar da população brasileira contribuíram para a transição nutricional do país, marcada pela redução de doenças transmissíveis e aumento das DCNT relacionadas ao estilo de vida. Nesse cenário, o nutricionista na Atenção Primária à Saúde desempenha papel essencial ao promover educação alimentar, elaborar ações de prevenção das DCNT e enfrentar carências nutricionais, como a deficiência de ferro. As UBS são centrais para esse trabalho, embora a presença desse profissional ainda seja insuficiente em várias regiões. A criação do NASF, em 2008, ampliou sua inserção ao permitir que gestores e equipes de saúde definissem de forma conjunta sua atuação (Oliveira e Teixeira, 2023).
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, de caráter descritivo, desenvolvido na modalidade de relato de experiência. O presente trabalho descreve as vivências profissionais de uma nutricionista residente no município de Pimenta Bueno, situado na região leste de Rondônia, com aproximadamente 31 mil habitantes. A rede municipal de saúde é constituída por seis Unidades Básicas de Saúde (UBS): Frei Silvestre, Pastor Jonas Machado, Pastor Ismaelino Salviano de Matos, Maura Ferreira, Madre Tereza de Calcutá e Canaã (zona rural). A profissional autora deste relato atuou nas UBS Pastor Jonas Machado e Pastor Ismaelino Salviano de Matos até fevereiro de 2025, na UBS Maura Ferreira de março 2025 até junho de 2025 e, a partir de julho de 2025, na UBS Frei Silvestre, onde permanece em exercício. A população atendida apresenta diversidade socioeconómica, com predominância de utilizadores de baixa renda, o que demanda abordagens nutricionais adaptadas às especificidades sociais e culturais locais. O estudo baseia-se nas experiências construídas no período de março de 2024 a outubro de 2025, visando contribuir para o aprofundamento da compreensão sobre a prática profissional no âmbito da Atenção Primária e para o fortalecimento da formação de futuros profissionais que venham a atuar em contexto similar.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O nutricionista desempenha um papel fundamental na Atenção Primária à Saúde (APS), contribuindo de maneira decisiva para a promoção da saúde, prevenção de doenças e fortalecimento do cuidado integral às pessoas, famílias e comunidades. Sua atuação vai além da prescrição dietética, abrangendo ações de educação alimentar e nutricional, vigilância nutricional, acompanhamento de grupos prioritários, como gestantes, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas, e participação ativa no planejamento de políticas e estratégias de saúde no território (Oliveira; Almeida,2024).
Nesse sentido, para que o nutricionista exerça sua função de maneira eficaz na atenção primária, é necessário basear-se no compromisso com os conhecimentos epidemiológicos, nas estratégias de promoção da saúde e nos instrumentos de desenvolvimento da saúde coletiva (Costa, 2021).
Inserido nas equipes multiprofissionais, o nutricionista amplia a capacidade resolutiva da APS ao identificar fatores alimentares associados ao surgimento e agravamento de agravos, como diabetes, hipertensão e obesidade. Sua intervenção qualificada favorece mudanças sustentáveis no comportamento alimentar, integrando práticas clínicas, educativas e comunitárias. Além disso, o profissional contribui para ações intersetoriais relacionadas à segurança alimentar e nutricional, reforçando a responsabilidade da APS na construção de ambientes alimentares mais saudáveis (Oliveira; Almeida,2024).
A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB, 2017) reconhece a importância de compor equipes multiprofissionais para garantir o cuidado integral e reforça que profissionais como o nutricionista são essenciais para ampliar o escopo de ações e atender às necessidades reais da população. Assim, a presença desse profissional nos serviços de APS fortalece a integralidade, a longitudinalidade do cuidado e a efetividade das estratégias de promoção da saúde.
A Residência Multiprofissional em Saúde, na modalidade de especialização Lato Sensu, é um programa de Pós-graduação que tem como instituição executora a Secretaria Municipal de Saúde de Pimenta Bueno (SEMSAU). A aprovação institucional para este programa é regida pela Lei Municipal Nº 3.353, de 06 de fevereiro de 2024.
O programa exige dedicação integral, cumprindo uma carga horária de 60 horas semanais, sendo a formação distribuída em 80% de atividades práticas e 20% de atividades teóricas. Para incentivar a dedicação exclusiva, o residente recebe uma bolsasubsídio do Ministério da Educação no valor de R$4.106,09.
A estrutura de governança do programa conta com uma coordenadora geral, uma coordenadora da Comissão de Residência Multiprofissional (COREMU), um tutor de eixo transversal, 7 tutores de eixos específicos e 14 preceptores. Atualmente, o programa integra 30 residentes, abrangendo 7 áreas profissionais distintas: Nutrição, Fisioterapia, Enfermagem, Assistente Social, Profissional em Educação Física, Psicologia e Odontologia. O principal cenário para o desenvolvimento das atividades práticas é a Unidade Básica de Saúde (UBS).
A organização didático-pedagógica da residência é efetuada por meio de encontros regulares com a coordenação, tutores e preceptores. Complementarmente, são elaborados cronogramas anuais que detalham o planejamento das intervenções. As atividades da nutricionista, tanto em atendimentos individuais quanto em práticas multiprofissionais, foram realizadas nos diferentes cenários de prática da Residência Multiprofissional, conforme detalhado no Quadro 1.
Quadro 1 – Ações realizadas pela nutricionista de forma individual ou multiprofissional dentro do programa de residência nas unidades.
| Ações Desenvolvidas | UBS PJ | UBS PISM | UBS MF | UBS FS |
| Atendimento nutricional individual | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Grupo Tabagismo | Não | Não | Não | Sim |
| Visitas domiciliares | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Atendimento de gestantes | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Grupo de cuidados com sobrepeso e obesidades | Sim | Não | Sim | Não |
| Grupo Saúde mental | Não | Não | Não | Sim |
| Ações de prevenção e promoção à saúde (comunidade, escolas, creches, institutos, empresa privada) | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Educação em saúde na sala de espera | Sim | Não | Sim | Sim |
| Oficinas de saúde | Sim | Sim | Sim | Sim |
De acordo com o quadro apresentado, verifica-se que as atuações desenvolvidas nas Unidades Básicas de Saúde contemplam ações individuais e coletivas voltadas à promoção, prevenção e recuperação da saúde, com destaque para o atendimento nutricional individual, visitas domiciliares, acompanhamento de gestantes, ações educativas e oficinas de saúde. Observa-se que a implementação de grupos específicos, como tabagismo, saúde mental e cuidados com sobrepeso e obesidade, ocorre de forma heterogénea entre as unidades. No que se refere ao grupo de tabagismo, embora a atividade esteja em funcionamento na unidade, não foi possível a participação direta nos encontros devido à ocorrência de ponto facultativo e a outras questões institucionais. Todavia, a atuação profissional foi assegurada por meio da realização de orientações individuais aos pacientes atendidos em consultas previamente agendadas, nas quais foram abordados os malefícios do tabagismo, estratégias para a cessação do hábito e o incentivo à adoção de comportamentos mais saudáveis, garantindo a continuidade do cuidado e o cumprimento dos princípios da atenção integral à saúde.
As intervenções foram bem-sucedidas nos espaços de prática e obtiveram aceitação positiva dos pacientes. Contudo, os grupos e as atividades de educação em saúde foram implementados apenas em momentos pontuais. O acompanhamento domiciliar foi realizado em colaboração com o Agente Comunitário de Saúde (ACS) e outros membros da equipe, incluindo preceptores e residentes. Os pacientes atendidos nessas visitas compreendiam, principalmente, indivíduos acamados ou domiciliados, idosos com quadros de hipertensão e diabetes, e pacientes em condição de fragilidade devido ao câncer, entre outros casos.
Nos Programas de Residência em Saúde, o preceptor é o profissional responsável por desenvolver e aprimorar habilidades clínicas nos residentes, compartilhando conhecimentos e experiências que qualifiquem o processo de ensino-aprendizagem na prática. De modo geral, suas funções estão diretamente relacionadas ao campo de formação do residente, contribuindo para uma construção profissional mais sólida e contextualizada (Oliveira; Almeida, 2024).
No âmbito específico da nutrição, o papel do preceptor é fundamental para a formação do residente nutricionista no SUS, pois garante acompanhamento contínuo, devolutivas qualificadas e possibilidades de reflexão crítica sobre o próprio desempenho. A ausência desse profissional compromete o desenvolvimento de competências necessárias à atuação no serviço, além de dificultar a auto avaliação e o fortalecimento da autonomia do residente. Ademais, a falta de incentivo institucional e de capacitação adequada para preceptores constitui um desafio que impacta a qualidade formativa e a consolidação dos programas de residência (Oliveira e Almeida, 2024).
O município de Pimenta Bueno, um dos 52 municípios de Rondônia, foi nomeado por Cândido Rondon em homenagem a Francisco Antônio Pimenta Bueno, uma influente figura pública nascida em Cuiabá (1836) que se destacou na carreira militar e civil durante o Império. Rondon batizou o rio, o povoado e a estação telegráfica em sua honra, reconhecendo sua competência, especialmente nas contribuições cartográficas, como a “Carta da Província de Mato Grosso”, fruto de seu profundo conhecimento e exploração do sertão mato-grossense (IBGE, 2023).
Pimenta Bueno passou a contar com a atuação de um nutricionista na Atenção Básica a partir de dezembro de 2023. Até então, a atuação desse profissional restringiase às áreas hospitalar e educacional. Com a inserção da Nutrição na Atenção Básica, ampliou-se o acesso da população a atendimentos voltados, entre outros aspectos, à renovação de laudos nutricionais necessários para a retirada de fórmulas alimentares e insulina. Ademais, o profissional passou a desenvolver atividades como visitas domiciliares e ações de educação em saúde, incluindo a implementação de grupos voltados ao tratamento da obesidade.
As consultas nutricionais individuais nas dependências da Unidade Básica de Saúde Madre Tereza tiveram início em janeiro de 2024, sendo posteriormente ampliadas para outras unidades do município após o início do Programa de Residência, em março do mesmo ano, com a inserção de dois residentes da área de Nutrição.
O número de atendimentos para a população obteve um exponencial crescimento com o início da residência no ano de 2024 e um crescimento ainda maior no ano de 2025 após a entrada de mais 2 residentes, assim o quadro de nutricionistas no município passou para 5 com a chegada dos residentes, conforme detalhado no quadro 2
O aumento no número de atendimentos nutricionais à população está diretamente relacionado à ampliação progressiva do quadro de profissionais no município. A nutricionista 1 atuou no período de 2023 a outubro de 2025, sendo responsável pelos atendimentos anteriores ao início da residência multiprofissional. Com a implantação do programa, em março de 2024, as nutricionistas 2 e 3 passaram a integrar a equipa, permanecendo em atividade até outubro de 2025, o que resultou em um aumento significativo da oferta de atendimentos. Em 2025, a entrada das nutricionistas 4 e 5, que atuaram de março a outubro de 2025, ampliou o quadro para cinco profissionais, potencializando ainda mais a capacidade assistencial nas Unidades Básicas de Saúde, conforme demonstrado no Quadro 2.
Quadro 2 – Número de atendimentos nutricionais realizados antes e após o início da residência multiprofissional no município de Pimenta Bueno
| Unidades Básicas de Saúde | Nutricionista 1 | Nutricionista 2 | Nutricionista 3 | Nutricionista 4 | Nutricionista 5 |
| UBS Madre Tereza de Calcutá | 457 | 0 | 0 | 424 | 0 |
| UBS Pastor Jonas Machado | 0 | 558 | 0 | 0 | 457 |
| UBS Frei Silvestre | 0 | 239 | 804 | 0 | 0 |
| UBS Maura Ferreira | 178 | 210 | 235 | 0 | 0 |
| UBS Pastor Ismaelino Salviano de Matos | 187 | 200 | 0 | 0 | 0 |
| TOTAL | 822 | 1.207 | 1.039 | 424 | 457 |
Considerando que o programa de residência teve início no ano de 2024, observaram-se alguns desafios inerentes ao seu processo de implementação. Entre eles, destacam-se dificuldades relacionadas à adaptação às mudanças propostas, bem como o limitado conhecimento, tanto por parte da população quanto de alguns profissionais, acerca da natureza e dos objetivos da residência, o que, em determinados momentos, resultou numa compreensão inadequada do papel do residente. Soma-se a isso a inexistência de experiências anteriores que servissem como referência, exigindo a construção gradual de fluxos e práticas ao longo do percurso.
De acordo com Silva et al. (2024) programas de residência em saúde, especialmente em fases iniciais de implementação, tendem a enfrentar desafios organizacionais e de gestão, como fragilidades na definição de fluxos, ausência de experiências prévias como referência e limitações no suporte institucional, o que pode impactar tanto o processo formativo quanto a integração dos residentes nos serviços de saúde. A inserção de residentes em serviços de saúde pode ser marcada por resistências às mudanças nos processos de trabalho, sobretudo quando há desconhecimento acerca da proposta da residência multiprofissional, o que dificulta a consolidação de práticas colaborativas e interprofissionais no cotidiano das equipes (Silva et al., 2024; Costa et al., 2021).
Em algumas situações, identificaram-se fragilidades no apoio pedagógico, além de elevada carga de atividades, o que pode ter contribuído para percepções de sobrecarga de trabalho. Também foram relatadas dificuldades na articulação com outros setores, bem como a realização de atividades que extrapolam o âmbito de atuação profissional, por vezes envolvendo potenciais riscos, sem a devida contrapartida institucional. Observouse ainda a necessidade de aprimorar as práticas de equidade no tratamento dos residentes, uma vez que nem sempre as decisões foram percebidas como isentas ou uniformes.
A articulação intersetorial ainda se apresenta como um desafio nos serviços de saúde, especialmente em contextos de formação em serviço, sendo frequentemente associada a limitações estruturais, dificuldades de comunicação entre setores e ausência de planejamento integrado, fatores que repercutem diretamente na experiência formativa dos residentes (Ferreira et al., 2020).
A elevada carga de trabalho, aliada a demandas emocionais e organizacionais, pode contribuir para o desenvolvimento de estresse ocupacional e síndrome de burnout entre residentes multiprofissionais, interferindo tanto na qualidade do processo formativo quanto na saúde mental desses profissionais em formação (Silva; Oliveira; Souza, 2018).
No que se refere ao incentivo à formação científica, constatou-se a ausência de apoio financeiro estruturado para a participação em eventos académicos, inclusive em situações em que residentes representaram o município com a apresentação de trabalhos científicos relevantes. Ressalta-se que, nesses casos, a contribuição parcial para viabilizar a participação ocorreu por iniciativa individual da coordenação do programa e da gestão municipal, não estando formalmente prevista como política institucional.
A valorização da residência multiprofissional envolve, entre outros aspectos, o incentivo à produção científica e à participação em eventos académicos. A ausência de políticas estruturadas de apoio financeiro pode limitar o desenvolvimento académico dos residentes e enfraquecer o reconhecimento institucional do seu papel nos serviços de saúde (Brasil, 2010).
CONCLUSÃO
O presente relato de experiência permitiu evidenciar a relevância da atuação do nutricionista na Atenção Primária à Saúde, especialmente no contexto da Residência Multiprofissional em Saúde da Família, como estratégia fundamental para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde. A inserção desse profissional nas Unidades Básicas de Saúde do município de Pimenta Bueno ampliou o acesso da população a ações de cuidado integral, promoção da saúde e prevenção de agravos, por meio de atendimentos individuais, visitas domiciliares, ações educativas e participação em atividades multiprofissionais. Apesar dos avanços observados, o estudo também revelou desafios inerentes ao processo de implementação de um programa de residência recente, como limitações estruturais, fragilidades no apoio pedagógico, elevada carga de trabalho e dificuldades na articulação intersetorial. Ainda assim, a experiência demonstrou que a residência multiprofissional constitui um espaço potente de formação em serviço, favorecendo o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e críticas, ao mesmo tempo em que contribui para a qualificação da atenção à saúde ofertada à população. Dessa forma, reforça-se a importância do investimento contínuo em políticas de valorização da residência multiprofissional e da consolidação do papel do nutricionista na Atenção Básica, como elemento essencial para a efetivação dos princípios da integralidade, equidade e resolutividade do cuidado no SUS.
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1Nutricionista Residente Multiprofissional em ESF do município de Pimenta Bueno/RO https://orcid.org/0000-0001-6951-6548
²Nutricionista Mestre em Ciências Ambientais UNIR-RO (2019), tutora do eixo especifico da Residência Multiprofissional em ESF do município de Pimenta Bueno/RO https://orcid.org/0009-0003-6268-5770
³Enfermeira Mestre em Ciências da Saúde (2017), tutora do eixo transversal da Residência Multiprofissional em ESF do município de Pimenta Bueno/RO https://orcid.org/0000-0003-2885-8394
