O LETRAMENTO SOB O OLHAR ETNOLINGUÍSTICO EM UMA ESCOLA PÚBLICA MANAUENSE: TECNOLOGIAS, CULTURA E APRENDIZADO NO 5º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL

LITERACY FROM AN ETHNOLINGUISTIC PERSPECTIVE IN A PUBLIC SCHOOL IN MANAUS: TECHNOLOGIES, CULTURE, AND LEARNING IN THE 5TH GRADE OF ELEMENTARY EDUCATION

LA ALFABETIZACIÓN DESDE UNA PERSPECTIVA ETNOLINGÜÍSTICA EN UNA ESCUELA PÚBLICA DE MANAOS: TECNOLOGÍAS, CULTURA Y APRENDIZAJE EN EL QUINTO AÑO DE LA EDUCACIÓN PRIMARIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511111338


Raquel Souza da Silva1


Resumo

O artigo analisa os desafios enfrentados por professores do 5º ano do Ensino Fundamental na promoção do letramento social, cultural, histórico e tecnológico em uma escola pública de Manaus–AM, a partir de um estudo qualitativo-etnográfico. O trabalho deriva de uma pesquisa de campo desenvolvida no contexto amazônico, com foco no uso das tecnologias, na valorização da cultura local e na compreensão das práticas docentes no pós-pandemia. Foram aplicadas intervenções pedagógicas com ludicidade, materiais multimodais e atividades culturais, além de questionários para professores e análises de desempenho dos estudantes. Os resultados evidenciam que: (1) os estudantes apresentam níveis muito heterogêneos de leitura; (2) professores utilizam a cultura local como estratégia, mas enfrentam obstáculos de infraestrutura e formação tecnológica; (3) o letramento etnolinguístico contribui para ampliar o interesse dos alunos pela leitura e pela própria identidade cultural; (4) a Secretaria Municipal de Educação não oferece suporte suficiente em materiais que contemplem a realidade amazônica. Conclui-se que práticas pedagógicas ancoradas na cultura regional, associadas ao uso crítico das tecnologias, fortalecem o processo de letramento dos alunos, mas exigem políticas públicas mais consistentes.

Palavras-chave: Letramento; Etnolinguística; Cultura Amazônica; Tecnologias Digitais; Ensino Fundamental.

Abstract

This article analyzes the challenges faced by 5th-grade Elementary School teachers in promoting social, cultural, historical, and technological literacy in a public school in Manaus, Amazonas, based on a qualitative-ethnographic study. The work derives from a field investigation conducted in the Amazonian context, focusing on the use of technologies, the valorization of local culture, and the understanding of teaching practices in the post-pandemic period. Pedagogical interventions involving playfulness, multimodal materials, and cultural activities were carried out, along with teacher questionnaires and analyses of student performance. The results indicate that: (1) students present highly heterogeneous reading levels; (2) teachers use local culture as a pedagogical strategy but face infrastructure limitations and gaps in technological training; (3) ethnolinguistic literacy contributes to increasing students’ interest in reading and strengthens their cultural identity; and (4) the Municipal Department of Education does not provide sufficient support in terms of materials that reflect Amazonian realities. It is concluded that pedagogical practices grounded in regional culture, combined with the critical use of technologies, strengthen students’ literacy processes but require more consistent public policies.

Keywords: Literacy; Ethnolinguistics; Amazonian Culture; Digital Technologies; Elementary Education.

Resumen

El artículo analiza los desafíos enfrentados por los docentes del quinto grado de la Educación Primaria en la promoción del alfabetismo social, cultural, histórico y tecnológico en una escuela pública de Manaos, Amazonas, a partir de un estudio cualitativo-etnográfico. El trabajo deriva de una investigación de campo desarrollada en el contexto amazónico, con énfasis en el uso de tecnologías, la valorización de la cultura local y la comprensión de las prácticas docentes en el período pós-pandemia. Se realizaron intervenciones pedagógicas con actividades lúdicas, materiales multimodales y propuestas culturales, además de cuestionarios a los profesores y análisis del desempeño de los estudiantes. Los resultados muestran que: (1) los estudiantes presentan niveles de lectura muy heterogéneos; (2) los docentes utilizan la cultura local como estrategia pedagógica, pero enfrentan limitaciones de infraestructura y formación tecnológica; (3) el alfabetismo etnolingüístico contribuye a ampliar el interés de los alumnos por la lectura y por su propia identidad cultural; y (4) la Secretaría Municipal de Educación no ofrece apoyo suficiente en materiales que incluyan la realidad amazónica. Se concluye que las prácticas pedagógicas basadas en la cultura regional, asociadas al uso crítico de las tecnologías, fortalecen el proceso de alfabetización de los estudiantes, pero requieren políticas públicas más consistentes.

Palabras clave: Alfabetización; Etnolingüística; Cultura Amazónica; Tecnologías Digitales; Educación Primaria.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta parte dos resultados de uma tese de Doutorado em Ciências da Educação desenvolvida na Universidad de la Integración de las Américas (UNIDA), cujo foco central foi compreender como o letramento se manifesta sob a perspectiva etnolinguística em uma escola pública localizada no contexto amazônico, na cidade de Manaus–AM. Ao transformar um segmento da pesquisa original em formato de artigo, busca-se ampliar a circulação científica das análises produzidas e contribuir com o debate contemporâneo sobre práticas de letramento em comunidades culturalmente diversas.

Os anos subsequentes à pandemia de COVID-19 escancararam desigualdades históricas na educação brasileira, sobretudo na rede pública, evidenciando profundas perdas nos processos de alfabetização e letramento. No caso da Amazônia, tais desafios foram intensificados pela heterogeneidade territorial, pela precariedade de infraestrutura escolar, pela limitação de acesso às tecnologias digitais e pela crescente fragmentação das práticas pedagógicas. Nesse cenário, compreender o letramento como prática social, cultural, histórica e tecnológica torna-se fundamental para orientar intervenções educativas coerentes com a realidade dos estudantes.

A tese que dá origem a este artigo buscou responder à seguinte questão orientadora: quais desafios os professores do 5º ano do Ensino Fundamental enfrentam para desenvolver práticas de letramento social, cultural, histórico e tecnológico em uma escola pública manauense? A investigação articulou observação participante, intervenções pedagógicas e aplicação de questionários, adotando uma abordagem qualitativa de inspiração etnográfica. As atividades foram sistematicamente construídas em diálogo com elementos da cultura amazônica e com recursos tecnológicos acessíveis aos docentes e discentes.

A pertinência da pesquisa reside no fato de que, apesar da amplitude geográfica, cultural e linguística da Amazônia, ainda são escassos os estudos que analisam o letramento a partir de um olhar etnolinguístico, especialmente quando associado ao uso de tecnologias digitais e às demandas formativas dos professores da Educação Básica. Além disso, os materiais didáticos disponíveis geralmente não contemplam a diversidade cultural local, reduzindo a potência formativa de práticas contextualizadas e limitando a construção da identidade dos estudantes.

Assim, este artigo objetiva sistematizar e discutir parte das evidências produzidas pela tese, problematizando como a articulação entre cultura local, práticas pedagógicas e recursos tecnológicos pode favorecer o desenvolvimento do letramento no Ensino Fundamental I. Ao apresentar essa análise, busca-se tanto contribuir para o campo científico quanto oferecer subsídios que possam orientar políticas públicas, formação docente e práticas educativas sensíveis às especificidades amazônicas.

2. Referencial Teórico 

2.1 Letramento como prática sociocultural

A discussão contemporânea sobre letramento supera a concepção tradicional de alfabetização enquanto domínio técnico do sistema alfabético, assumindo-o como uma prática eminentemente social, cultural, histórica e situada (SOARES, 2015; 2017). Nessa perspectiva, o letramento abrange usos e significados da leitura e da escrita nos diversos contextos de interação humana, articulando dimensões cognitivas, discursivas e socioculturais que moldam a participação dos sujeitos na vida social.

Magda Soares (2017) argumenta que o letramento relaciona-se diretamente ao exercício da cidadania, na medida em que promove formas de participação nos espaços públicos e amplia o repertório interpretativo dos indivíduos. Tal compreensão assume ainda maior relevância quando situada em contextos marcados por desigualdades estruturais como a região amazônica nos quais o acesso aos bens culturais e educacionais é profundamente assimétrico.

Ao compreender o letramento como prática social, entende-se que sua efetivação não ocorre de maneira neutra: ela é permeada por relações de poder, valores culturais e sistemas de significação que atravessam a experiência cotidiana dos estudantes. Assim, qualquer proposta de intervenção pedagógica deve considerar, necessariamente, os contextos culturais nos quais os sujeitos estão inseridos.

2.2 Perspectiva etnolinguística: língua, cultura e identidade amazônica

A abordagem etnolinguística, conforme Barreto (2010), concebe a linguagem como fenômeno indissociável dos contextos socioculturais que a produzem. Tal perspectiva analisa não apenas os fatos linguísticos, mas também as condições extralinguísticas que moldam os usos da língua, suas variações, seus sentidos e suas funções sociais.

No caso da Amazônia, essa abordagem assume papel estratégico, dada a pluralidade de identidades, narrativas e práticas culturais que caracterizam a região. A cultura amazônica, permeada por oralidade, mitos, lendas, rituais e modos de vida tradicionais, constitui um referencial potente para a construção do letramento escolar, contribuindo para o reconhecimento da identidade dos estudantes e para a valorização de saberes locais (CARVALHO, 2015).

Assim, o letramento sob o olhar etnolinguístico pressupõe integrar à prática pedagógica elementos culturais próprios dos estudantes, histórias de vida, imaginários locais, repertórios simbólicos, modos de fala, memórias ancestrais reconhecendo-os como recursos legítimos de produção de sentidos. Tal integração favorece processos de aprendizagem mais significativos, pois conecta a escola ao território e ao cotidiano dos sujeitos.

2.3 Tecnologias digitais e a reconfiguração das práticas educativas

A presença crescente das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) nas diversas esferas da vida social tem provocado transformações profundas na educação contemporânea. Autores como Lévy (2010; 2011), Kenski (2007; 2010) e Moran (2000; 2018) observam que tais tecnologias não apenas ampliam o acesso à informação, mas reconfiguram modelos pedagógicos, modos de interação, lógicas de produção do conhecimento e formas de participação dos estudantes.

Lévy (2010) destaca que as tecnologias digitais instauram novos regimes de comunicação e cooperação, modificando relações de tempo, espaço e mediação simbólica. Para Kenski (2010), a tecnologia não se limita ao aparato técnico, mas transforma comportamentos, culturas e modos de apreender a realidade. Moran (2018), por sua vez, enfatiza que uma educação contemporânea exige metodologias flexíveis, híbridas e ativas, capazes de articular dimensões humanas e tecnológicas.

Apesar desse potencial, o uso das tecnologias na escola não se realiza de maneira homogênea. Em contextos como a Amazônia urbana e rural, limitações estruturais, conectividade restrita, ausência de equipamentos, precariedade das salas de informática dificultam a integração pedagógica das TICs. Além disso, a falta de formação docente para uso crítico e criativo desses recursos constitui barreira recorrente (PEREIRA, 2007; MOTTA, 2021).

Assim, a tecnologia deve ser compreendida como meio e não como fim, sendo seu impacto condicionado pela mediação pedagógica, pela intencionalidade didática e pela articulação com o contexto cultural e social dos estudantes.

2.4 Formação docente, práticas pedagógicas e desafios contemporâneos

A literatura destaca que a transformação das práticas educativas depende, em grande medida, da formação docente e das condições de trabalho oferecidas pelas redes de ensino. Magalini e Rosales (2007) sublinham que os professores precisam adotar postura investigativa, crítica e reflexiva, em permanente processo de aprendizagem e reconstrução de suas práticas.

No entanto, a realidade das escolas públicas brasileiras evidencia desafios persistentes: ausência de materiais didáticos contextualizados, infraestrutura limitada, currículos fragmentados e programas de formação continuada pouco articulados às demandas reais dos docentes. No caso de Manaus-AM, tais dificuldades se ampliam quando se trata do ensino de conteúdos relacionados à cultura amazônica, muitas vezes marginalizada nos livros didáticos e nos planejamentos curriculares.

Além disso, autores como Charlot (2013) e Teixeira (2021) destacam que a relação dos sujeitos com o saber é marcada por dimensões afetivas, simbólicas e sociais, exigindo do professor estratégias que unam motivação, reconhecimento da diversidade cultural e criação de ambientes de aprendizagem significativos. Nesse sentido, práticas pedagógicas baseadas na cultura local aliadas ao uso consciente das tecnologias constituem caminhos promissores para fortalecer o engajamento dos estudantes.

2.5 Cultura amazônica como eixo estruturante do letramento escolar

A Amazônia apresenta um mosaico de práticas culturais que influenciam diretamente os modos de aprender, narrar e se relacionar com a linguagem. Incorporar essa dimensão no trabalho pedagógico significa legitimar saberes historicamente desconsiderados pelos materiais didáticos convencionais.

A literatura utilizada na tese aponta que o ensino contextualizado permite: Ampliar a identificação dos estudantes com os conteúdos escolares; fortalecer a autoestima e a consciência identitária; promover aprendizagens mais significativas; conectar oralidade e escrita de forma integrada e valorizar práticas linguísticas locais como formas legítimas de conhecimento.

Esse entendimento aproxima-se das contribuições de Soares (2017), quando defende que o letramento deve dialogar com práticas sociais reais, e de Barreto (2010), ao enfatizar a relação entre linguagem e cultura na construção dos sentidos.

3. Metodologia 

A pesquisa que fundamenta este artigo constitui um recorte metodológico de uma tese de Doutorado em Ciências da Educação, desenvolvida com o objetivo de compreender os desafios enfrentados por professores do 5º ano na promoção do letramento sob o olhar etnolinguístico em uma escola pública de Manaus–AM. Para alcançar tal objetivo, adotou-se uma abordagem qualitativa, com inspiração etnográfica e características de pesquisa participante, possibilitando observar de maneira aprofundada as práticas pedagógicas, os significados atribuídos pelos sujeitos e as interações estabelecidas no cotidiano escolar.

3.1 Abordagem metodológica

A abordagem qualitativa permitiu compreender o fenômeno investigado em sua complexidade, considerando dimensões culturais, subjetivas, históricas e contextuais que atravessam as práticas de letramento. Conforme Minayo (2002), esse tipo de pesquisa é adequado quando se busca apreender significados, percepções e processos, e não apenas quantificar dados.

A inspiração etnográfica possibilitou observar o ambiente escolar como espaço culturalmente constituído, identificando símbolos, práticas, rotinas e narrativas que orientam as ações dos professores e alunos. Essa escolha metodológica é coerente com o próprio foco da investigação, centrado na perspectiva etnolinguística, que exige olhar aprofundado sobre o contexto sociocultural amazônico e suas práticas significativas.

A pesquisa participante, por sua vez, permitiu à pesquisadora atuar simultaneamente como professora e investigadora, participando das ações pedagógicas e construindo experiências com os alunos, em lugar de permanecer como observadora externa. Tal posicionamento favoreceu uma compreensão mais sensível das dinâmicas de aprendizagem e dos desafios enfrentados no cotidiano escolar.

3.2 Participantes da pesquisa

A investigação envolveu dois grupos principais:

  1. Professores do Ensino Fundamental I, atuantes no 5º ano, responsáveis pelas áreas de linguagem e letramento na instituição — sujeitos-chave para compreender práticas, percepções e dificuldades relacionadas ao letramento cultural, social e tecnológico.
  2. Estudantes de uma turma de 5º ano, que participaram das intervenções pedagógicas por meio de atividades lúdicas, culturais e tecnológicas desenvolvidas ao longo da pesquisa.

A escolha da turma se justificou pelo fato de que, conforme a tese indica, o 5º ano representa momento estratégico na trajetória escolar, no qual os estudantes encontram maior contato com múltiplas formas de linguagem e ampliam significativamente suas práticas de leitura e escrita.

3.3 Procedimentos de coleta de dados

A coleta de dados ocorreu em três eixos complementares, permitindo o cruzamento de diferentes fontes e a triangulação das informações:

a) Observação participante

A pesquisadora acompanhou rotinas pedagógicas, interações entre professores e alunos, metodologias utilizadas e respostas dos estudantes às atividades propostas. Esses registros foram fundamentais para identificar comportamentos, dificuldades, estratégias didáticas e aspectos culturais presentes na sala de aula.

b) Intervenções pedagógicas

Foram desenvolvidas atividades estruturadas com base no letramento social, cultural, histórico e tecnológico, incluindo:sala temática inspirada na cultura amazônica; quebra-cabeças silábicos; vídeos, músicas e recursos multimodais; atividades lúdicas de oralidade e escrita; mosaicos culturais; práticas de leitura mediada e exercícios de separação silábica e formação de palavras.

As intervenções foram registradas em diário de campo e documentadas por meio de fotografias (Figuras 2 a 8 da tese), servindo de corpus analítico para compreender como os alunos mobilizavam saberes culturais e linguísticos durante as práticas.

c) Questionário com professores

Aplicou-se um questionário semiestruturado aos docentes participantes, com o propósito de identificar: percepções sobre o letramento dos alunos; uso e dificuldades relacionadas às tecnologias digitais; compreensão sobre cultura local na prática pedagógica; limitações de infraestrutura e suporte pedagógico; estratégias utilizadas para intervenção no pós-pandemia.

Esse material permitiu confrontar as observações empíricas com o discurso docente, enriquecendo a análise interpretativa.

3.4 Técnicas de análise

Os dados foram analisados por meio de análise descritivo-interpretativa, com categorias previamente orientadas pelos objetivos da pesquisa, mas abertas para emergências do campo, características da análise qualitativa. A triangulação entre diferentes fontes (diário de campo, registros fotográficos, respostas dos professores e observação participante) possibilitou maior consistência analítica e confiabilidade dos resultados.

3.5 Aspectos éticos

A pesquisa respeitou princípios éticos aplicáveis às investigações com seres humanos, assegurando sigilo das identidades, consentimento dos participantes e respeito às práticas educativas da escola. O estudo integrou-se ao cotidiano escolar sem causar prejuízos às atividades regulares, buscando contribuir para o desenvolvimento pedagógico local.

4. Resultados 

A análise dos dados obtidos por meio das observações, intervenções pedagógicas e questionários aplicados aos docentes revelou um conjunto de resultados que evidenciam tanto o potencial quanto os desafios enfrentados na promoção do letramento social, cultural, histórico e tecnológico no 5º ano do Ensino Fundamental. Esses resultados foram organizados em quatro eixos analíticos, que emergiram do cruzamento das evidências produzidas no campo empírico.

4.1 Heterogeneidade dos níveis de letramento e implicações pedagógicas

Os dados evidenciaram forte heterogeneidade no desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita. Parte dos estudantes demonstrou dificuldades na decodificação, leitura fluente e compreensão de textos, além de problemas recorrentes de segmentação, ortografia e organização discursiva.

Essa heterogeneidade, sintetizada nos gráficos da tese, expressa o impacto das desigualdades socioculturais acumuladas e intensificadas durante o período pandêmico. Como observa Soares (2017), o letramento não se distribui de forma uniforme entre os grupos sociais; ele é produto das oportunidades de acesso a práticas letradas e das condições concretas de participação dos sujeitos. No contexto amazônico, tais condições são ainda mais desafiadoras, dadas as limitações de recursos, a diversidade sociocultural e a ausência de políticas públicas consistentes.

A pesquisa mostrou que alunos com maior exposição à leitura no ambiente familiar apresentavam avanços mais evidentes, reforçando a compreensão de que o letramento é multideterminado e depende de estímulos para além da escola. Essa constatação confirma o argumento de Charlot (2013) de que a relação com o saber é atravessada por dimensões afetivas, sociais e simbólicas.

4.2 Percepções docentes e desafios estruturais

Os questionários revelaram que os professores enfrentam obstáculos que interferem diretamente na qualidade do trabalho pedagógico: falta de materiais contextualizados, escassez de recursos tecnológicos, formação limitada para uso das TICs, fragmentação curricular e sobrecarga de tarefas.

Essas dificuldades se alinham a estudos que apontam a precarização das condições de trabalho docente como um dos principais entraves à inovação pedagógica (Kenski, 2010; Moran, 2018). No caso específico da Amazônia, soma-se a ausência de materiais didáticos que valorizem a cultura local, o que obriga professores a produzirem seus próprios recursos, muitas vezes sem suporte técnico ou institucional.

Os professores destacaram, ainda, que o retorno às aulas presenciais após a pandemia exigiu adaptações urgentes, dado o aumento significativo das lacunas de aprendizagem entre os alunos. A literatura pós-pandemia (Motta, 2021) indica que tal cenário não é isolado, mas representa movimento nacional de reconfiguração das práticas escolares.

4.3 Efeitos das intervenções pedagógicas baseadas na cultura amazônica

As intervenções pedagógicas desenvolvidas incluindo sala temática, jogos silábicos, vídeos, músicas regionais e mosaicos culturais tiveram impacto significativo na participação e no desempenho dos estudantes. A análise das fotografias e registros de campo mostrou que as atividades que dialogavam com elementos da cultura amazônica despertavam maior engajamento, curiosidade e envolvimento afetivo.

Os alunos se mostraram mais motivados a ler quando os textos tratavam de lendas, personagens regionais, fauna, flora ou práticas culturais da comunidade. Esse resultado confirma a hipótese de que a integração entre cultura local e ensino contribui para o fortalecimento da identidade e para a ampliação dos sentidos atribuídos ao aprender (Carvalho, 2015; Barreto, 2010).

A ludicidade emergiu como elemento facilitador do processo de aprendizagem, permitindo que os alunos interagissem com os conteúdos de forma significativa. Essa constatação dialoga com a literatura que afirma que metodologias ativas ou baseadas em experiências concretas tendem a ampliar a retenção e a compreensão conceitual, sobretudo em turmas do Ensino Fundamental I (Magalini; Rosales, 2007).

4.4 Uso pedagógico das tecnologias digitais: potencial e limites

Apesar das limitações de infraestrutura, o uso de vídeos, músicas e outros recursos digitais contribuiu de maneira expressiva para a ampliação das práticas multimodais dos estudantes. O recurso audiovisual facilitou a compreensão de conteúdos e funcionou como mediador de atenção, especialmente entre alunos com dificuldades de concentração.

Lévy (2010) e Moran (2018) defendem que as tecnologias podem expandir o repertório linguístico e cognitivo dos estudantes quando integradas de forma intencional e crítica ao planejamento pedagógico. Na pesquisa, esse papel foi evidente: a tecnologia funcionou como amplificadora de sentidos e como ponte para o letramento multissemiótico.

Entretanto, os professores ressaltaram que o uso consistente das TICs é dificultado pela ausência de equipamentos adequados e formação específica. Tal resultado evidencia a persistência de uma “desigualdade digital escolar” que, conforme Kenski (2010), perpetua barreiras históricas no acesso às oportunidades educacionais.

4.5 Cultura amazônica como eixo estruturante do processo de letramento

Um dos achados mais expressivos refere-se ao papel mobilizador da cultura amazônica no processo de ensino e aprendizagem. As atividades contextualizadas favoreceram: fortalecimento da autoestima e do sentimento de pertencimento dos estudantes; aproximação entre oralidade, escrita e identidade; construção de significados ancorados em experiências reais; maior espontaneidade nas produções orais e escritas; reconhecimento da cultura local como forma legítima de conhecimento.

Esse resultado converge com a perspectiva etnolinguística, segundo a qual a linguagem é inseparável das práticas culturais e dos modos locais de significação (Barreto, 2010). Assim, o letramento torna-se não apenas instrumento técnico, mas prática social que articula saberes comunitários e escolares.

4.6 Síntese interpretativa

Em síntese, os dados revelam que: o letramento dos estudantes sofre impactos diretos das desigualdades socioculturais e das lacunas pós-pandemia; professores enfrentam obstáculos estruturais que limitam práticas inovadoras; intervenções culturalmente situadas ampliam o engajamento e a compreensão dos alunos; tecnologias, embora limitadas, funcionam como mediadoras potentes; a cultura amazônica emerge como elemento identitário fundamental para o processo de aprendizagem.

Esses resultados indicam que práticas pedagógicas contextualizadas e culturalmente relevantes constituem caminhos promissores para fortalecer o letramento dos estudantes e ressignificar o papel da escola no território amazônico.

5. Análise Crítica dos Dados 

A leitura integrada dos dados obtidos ao longo da pesquisa revela um cenário educacional marcado por tensões estruturais, contradições pedagógicas e potências culturais que atravessam o processo de letramento no 5º ano do Ensino Fundamental. Os resultados evidenciam, em primeiro lugar, que a heterogeneidade das habilidades de leitura e escrita não pode ser atribuída exclusivamente a fatores individuais dos estudantes, mas está diretamente relacionada às desigualdades estruturais que permeiam a educação amazônica. 

A pandemia intensificou disparidades já existentes, aprofundando lacunas de aprendizagem que se manifestam nas dificuldades de decodificação, compreensão textual e produção escrita registradas durante as intervenções. Como destacam Soares (2017) e Charlot (2013), o letramento é multideterminado e vincula-se às condições concretas de existência dos sujeitos; assim, a diversidade de desempenhos observada na turma traduz, sobretudo, desigualdades de acesso a práticas culturais e letradas dentro e fora da escola.

Essa heterogeneidade se articula com outro aspecto revelado pelos dados: o descompasso entre o currículo prescrito e a realidade sociocultural da escola manauense. Os professores relataram ausência de materiais didáticos que representem a cultura amazônica, sendo obrigados a produzir seus próprios recursos. Essa lacuna não é apenas operacional, mas epistêmica: evidencia que a estrutura curricular vigente ainda opera sob um modelo centralizado e pouco sensível às identidades locais. 

Tal invisibilização curricular entra em conflito direto com os resultados da pesquisa, que mostram que os estudantes respondem de forma muito mais significativa quando as atividades incluem elementos de suas vivências culturais, como lendas, fauna, flora, músicas e narrativas regionais. Essa contradição aponta para o que diversos autores denominam “colonialidade curricular”, ou seja, a manutenção de epistemologias externas que negligenciam saberes e modos de vida locais, mesmo quando tais saberes se mostram altamente promotores de aprendizagem.

Outro elemento crítico emergente dos dados refere-se às condições materiais e tecnológicas disponíveis na escola. Embora as tecnologias digitais tenham demonstrado potencial para ampliar práticas multimodais, facilitar a compreensão de conteúdos e motivar os estudantes, sua utilização efetiva é limitada por barreiras estruturais: equipamentos insuficientes, conectividade precária e falta de formação docente específica. Isso revela um paradoxo já evidenciado em estudos sobre educação e TICs (Kenski, 2010; Moran, 2018): as tecnologias são apresentadas como demandas incontornáveis da educação contemporânea, mas não são tratadas como direito garantido aos estudantes da escola pública. Assim, enquanto as intervenções mostram que recursos audiovisuais ampliam as possibilidades de letramento, a ausência de políticas públicas estruturadas impede que tais práticas se consolidem de forma sistemática.

A análise crítica dos dados também evidencia o papel central dos professores. Mesmo diante de adversidades, eles atuam como mediadores, criadores de materiais e agentes de resistência, mobilizando criatividade e sensibilidade pedagógica para garantir aprendizagens mais significativas. Entretanto, esse protagonismo docente, embora positivo, revela outra contradição: a responsabilização individual dos professores por problemas que são essencialmente estruturais. Quando a rede de ensino não assegura formação contínua, infraestrutura tecnológica ou materiais culturalmente situados, transfere-se ao professor a tarefa de “suprir” lacunas por seus próprios meios, o que gera sobrecarga e limita o alcance das práticas inovadoras.

Ao mesmo tempo, as intervenções demonstraram que a cultura amazônica funciona como eixo estruturante do processo de letramento. Os estudantes se engajaram de forma mais intensa com atividades que dialogavam com seus repertórios culturais, demonstrando pertencimento, motivação e ampliação da capacidade de produzir sentidos. A valorização desses elementos não apenas melhorou o desempenho nas práticas de leitura e escrita, mas também fortaleceu a identidade dos alunos e aproximou a escola da comunidade. Essa constatação reforça a tese de que o letramento, quando articulado à cultura local, torna-se mais significativo e emancipatório, funcionando como ponte entre saberes escolares e saberes comunitários.

Em síntese, a análise crítica dos dados revela que as práticas de letramento desenvolvidas na escola manauense ocorrem em meio a contradições entre políticas educacionais centralizadas, condições materiais insuficientes, diversidade sociocultural e potências pedagógicas negligenciadas. Os resultados indicam que a melhoria do letramento não depende apenas de metodologias específicas, mas exige transformações estruturais, incluindo valorização das epistemologias amazônicas, fortalecimento da formação docente, ampliação da infraestrutura tecnológica e reorientação curricular que reconheça a cultura local como fundamento legítimo da aprendizagem. Assim, a pesquisa aponta caminhos importantes, mas também evidencia que práticas inovadoras só se sustentarão quando acompanhadas por políticas públicas consistentes que compreendam a complexidade social e cultural da Amazônia.

6. Considerações Finais

Os resultados apresentados neste artigo, derivados da tese de Doutorado em Ciências da Educação, revelam a complexidade que envolve o desenvolvimento do letramento social, cultural, histórico e tecnológico no contexto amazônico, especialmente em escolas públicas com recursos limitados. Os achados demonstram que, quando a cultura local é incorporada às práticas pedagógicas, os estudantes ampliam sua participação, desenvolvem maior reconhecimento identitário e demonstram avanços significativos na compreensão e na produção textual. Essa constatação reforça a necessidade de práticas de letramento que transcendam modelos uniformizados e valorizem os repertórios culturais que constituem a experiência dos alunos.

Entretanto, as evidências também indicam que o potencial formativo associado ao uso de elementos culturais amazônicos é frequentemente limitado por condições estruturais precárias, currículos descontextualizados e falta de políticas educacionais que reconheçam a pluralidade cultural da região. Além disso, o uso de tecnologias digitais, embora promissoras, continua desigual e instável, devido à falta de equipamentos, ausência de conectividade e insuficiência de formação docente. Tais fatores revelam que a melhoria do letramento não pode ser atribuída apenas à criatividade ou ao esforço individual dos professores, mas depende da consolidação de políticas públicas integradas que assegurem infraestrutura adequada, valorização profissional e diretrizes curriculares sensíveis às especificidades territoriais.

A análise crítica dos dados mostra que a escola pública amazônica opera em permanente tensão entre exigências externas, currículos, avaliações, padrões nacionais e necessidades internas relacionadas à cultura, ao território e às condições de aprendizagem dos alunos. As intervenções realizadas evidenciam que práticas inovadoras, quando ancoradas na cultura local e mediadas por recursos multimodais, têm potencial de ressignificar o processo de letramento, tornando-o mais significativo e emancipador. Porém, para que tais práticas se consolidem, é imprescindível que o sistema educacional reconheça a complexidade da região amazônica e promova políticas que articulem formação docente, investimento tecnológico, material didático contextualizado e participação da comunidade.

Nesse sentido, as reflexões derivadas deste estudo indicam a necessidade de avançar em dois eixos prioritários: (1) repensar os currículos e materiais pedagógicos de forma a incluir epistemologias amazônicas como componentes estruturantes do ensino; e (2) fortalecer processos formativos que preparem os docentes para integrar cultura, linguagem e tecnologia em suas práticas. Ao reconhecer a cultura local como recurso legítimo de produção de conhecimento, a escola amplia seu potencial de promover aprendizagens mais profundas, críticas e conectadas ao mundo vivido dos estudantes.

A partir das lacunas e limitações observadas, este trabalho também aponta caminhos para pesquisas futuras. Uma primeira linha promissora consiste em investigar como diferentes comunidades amazônicas (ribeirinhas, indígenas, urbanas periféricas) constroem práticas próprias de letramento e como essas práticas podem ser integradas ao currículo escolar. Estudos comparativos entre escolas urbanas e rurais da região também poderiam esclarecer de que forma as desigualdades territoriais moldam oportunidades de aprendizagem. Outra perspectiva relevante envolve análises longitudinais, acompanhando o desenvolvimento do letramento ao longo dos anos escolares, de modo a compreender o impacto acumulado das políticas educacionais e das condições socioeconômicas na formação dos estudantes.

Sugere-se ainda o aprofundamento de pesquisas sobre formação docente para o uso crítico e criativo das tecnologias, especialmente em contextos de baixa infraestrutura, e sobre produção de materiais didáticos multimodais que dialoguem com a cultura amazônica. Finalmente, um campo emergente consiste em examinar como práticas de letramento culturalmente situadas podem contribuir para processos decoloniais na educação, questionando modelos curriculares baseados em epistemologias hegemônicas e fortalecendo saberes regionais.

Assim, as considerações finais aqui apresentadas reforçam que o letramento, em sua dimensão etnolinguística, constitui caminho potente para reduzir desigualdades, fortalecer identidades e promover aprendizagens mais significativas. Contudo, sua consolidação depende da articulação entre práticas pedagógicas inovadoras, valorização da cultura local e políticas públicas que reconheçam a complexidade social e cultural da Amazônia.

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SILVA, Rosangela Silva da. Letramento sob o olhar etnolinguístico em uma escola pública manauense: desafios e possibilidades. 2024. Tese (Doutorado em Ciências da Educação) – Universidad de la Integración de las Américas – UNIDA, Assunção, 2024.


1Doutora em Ciências da Educação Instituição: Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA) – Endereço: Asunción, Paraguai. E-mail: raquel.kn@hotmail.com