O IMPACTO MULTIFATORIAL DAS QUEDAS NA SAÚDE DO IDOSO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

THE MULTIFACTORIAL IMPACT OF FALLS ON ELDERLY HEALTH: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510080959


Natalia de Sousa Pereira Calderon1*
Daylane Souza Pereira Gomes1
Catarina Maciel de Souza Cavalcante1
Leticia Gurgel Calderon 1
Karoliny Rodrigues Santini Barretto1


RESUMO 

INTRODUÇÃO: As quedas em idosos constituem um grave problema de saúde pública, sendo uma das principais causas de lesões, incapacidade e mortalidade nesse grupo etário. O impacto das quedas não se restringe apenas às consequências físicas, mas também a desfechos psicológicos e sociais, como o aumento do medo de cair, à restrição de atividades, perda de independência e isolamento social. Diante desse cenário, este artigo teve como objetivo principal analisar e descrever os fatores de risco mais prevalentes associados às quedas em pacientes idosos. METODOLOGIA: Foi realizada uma revisão integrativa da literatura de artigos originais e de revisão, publicados a partir de 2020, nos idiomas português e inglês, pelas plataformas de busca Scielo e PubMed. No total, 36 publicações foram selecionadas e sintetizadas. RESULTADO E DISCUSSÃO: Os resultados demonstraram que as quedas são um evento multifatorial, resultante da interação de fatores de risco biológicos e fisiológicos (como sarcopenia, fragilidade e comorbidades), farmacológicos (principalmente a polifarmácia) e ambientais (perigos domiciliares e institucionais). A análise revelou a necessidade de uma abordagem clínica e multidisciplinar para a avaliação do risco de quedas. CONCLUSÃO: Conclui-se que a identificação e o manejo desses múltiplos fatores são essenciais para a implementação de estratégias preventivas eficazes, visando a promoção de um envelhecimento seguro, autônomo e com maior qualidade de vida.

Palavras-chave: Quedas. Idoso. Fatores de risco.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Falls in the elderly constitute a serious public health problem, being one of the main causes of injuries, disability, and mortality in this age group. Given this scenario, the main objective of this article was to analyze and describe the most prevalent risk factors associated with falls in elderly patients. METHODOLOGY: An integrative literature review of original and review articles, published from 2020 onwards in Portuguese and English, was conducted using the Scielo and PubMed search platforms. In total, 36 publications were selected and synthesized. RESULTS AND DISCUSSION: The results demonstrated that falls are a multifactorial event, resulting from the interaction of biological and physiological (such as sarcopenia, frailty, and comorbidities), pharmacological (mainly polypharmacy), and environmental risk factors (domestic and institutional hazards). The analysis revealed the need for a clinical and multidisciplinary approach to assessing the risk of falls. CONCLUSION: The identification and management of these multiple factors are essential for implementing effective preventive strategies, aiming to promote safe, autonomous aging with a higher quality of life.

Keywords: Falls. Elderly. Risk factors.

INTRODUÇÃO

As quedas em idosos representam um dos principais desafios de saúde pública global, sendo uma das causas mais recorrentes de lesões, hospitalização, incapacidade funcional e mortalidade nesse grupo etário. Estima-se que a prevalência de quedas em idosos na China, por exemplo, seja de 21,6%, com taxas ainda mais elevadas entre mulheres (24,6%)1. No Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o evento é responsável por muitos internações e óbitos, reforçando a urgência de intervenções preventivas2. O impacto das quedas não se restringe apenas às consequências físicas, mas também a desfechos psicológicos e sociais, como o aumento do medo de cair, que por sua vez, pode levar à restrição de atividades, perda de independência e isolamento social3, 4.

A natureza multifatorial das quedas é amplamente reconhecida na literatura, sendo o resultado da interação complexa de fatores intrínsecos e extrínsecos. Entre os fatores de risco biológicos e fisiológicos, destacam-se a fraqueza muscular, os distúrbios da marcha e do equilíbrio, e o comprometimento visual e auditivo1, 5, 6. Além disso, condições clínicas como a multimorbidade, sarcopenia e a síndrome da fragilidade têm sido consistentemente associadas a um risco elevado de quedas7, 8, 9. Publicações recentes também indicam que comorbidades específicas, como o Diabetes Mellitus Tipo 2, distúrbios cardiovasculares e doenças neurológicas como a Doença de Parkinson e a Doença de Alzheimer, aumentam a suscetibilidade a este evento6, 10, 11, 12.

O uso de fármacos, especialmente a polifarmácia (uso de múltiplos medicamentos), emerge como um fator de risco farmacológico significativo7, 13. Medicamentos sedativos e psicotrópicos, em particular, têm um papel relevante no aumento do risco de quedas13. Adicionalmente, o ambiente doméstico, com a presença de perigos como iluminação inadequada, tapetes soltos e superfícies escorregadias, contribui de forma crucial para a ocorrência de quedas2, 5, 14. Esses fatores extrínsecos, muitas vezes negligenciados, são causas recorrentes de quedas e reforçam a necessidade de estratégias de prevenção que vão além da avaliação clínica2, 14.

As quedas em idosos representam um grave problema de saúde pública, sendo uma das principais causas de lesões, internações, incapacidade e mortalidade nesse grupo etário. Embora frequentemente associadas a um único evento, as quedas são, na verdade, resultado da interação de múltiplos fatores de risco, que podem ser intrínsecos ao indivíduo (relacionados à saúde) ou extrínsecos (relacionados ao ambiente). Perante o exposto, este artigo tem como objetivo principal analisar e descrever os fatores de risco mais prevalentes associados às quedas em pacientes idosos. Além disso, busca-se discutir o impacto desses fatores na funcionalidade e na qualidade de vida, enfatizando a importância de uma avaliação abrangente para a implementação de estratégias preventivas eficazes.

MÉTODO

Este estudo é uma revisão integrativa da literatura, método que permite a síntese e a análise de pesquisas já publicadas para análise abrangente do tema. A metodologia adotada possibilitou a inclusão de estudos quantitativos e qualitativos para descrever os fatores de risco mais prevalentes associados às quedas em pacientes idosos, incluindo fatores biológicos, farmacológicos e ambientais.

A busca por artigos foi conduzida nas bases de dados eletrônicas PubMed e SciELO. Utilizou-se uma combinação de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e palavras-chave para otimizar os resultados, conforme a seguir:

  • (“falls” OR “fall related injuries”) AND (“risk factors” OR “etiology”) AND (“elderly” OR “older adults”)

Os critérios de inclusão para a seleção dos estudos foram: artigos originais e de revisão, publicados a partir do ano 2020, nos idiomas português e inglês, com texto completo disponível. As publicações duplicadas, teses, dissertações, editoriais, cartas, resumos de congresso e artigos que não abordavam a temática proposta foram excluídos.  

O processo de seleção dos artigos foi realizado em três etapas. Primeiramente, as publicações foram selecionadas com base na leitura de seus títulos (IDENTIFICAÇÃO). Em seguida, os resumos foram avaliados para verificar a relevância inicial (TRIAGEM). Por fim, os textos completos dos artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra (ELEGIBILIDADE). A seleção foi conduzida por dois revisores independentes em momentos distintos.

A amostra final da pesquisa consistiu em um total de 36 trabalhos relevantes. O processo de seleção dos estudos está detalhado no Fluxograma PRISMA (Ilustração 1), que demonstra as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos.

Ilustração 1: Fluxograma PRISMA do método de pesquisa:

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise da literatura selecionada, composta por 36 publicações originais e de revisão de um recorte temporal de cinco anos, permitiu uma síntese abrangente sobre os mecanismos e fatores de risco associados às quedas em idosos. Os resultados deste estudo estão organizados em eixos temáticos que exploram a natureza multifatorial do problema, contemplando os principais fatores de risco biológicos e fisiológicos, farmacológicos, e ambientais, conforme discutido nos parágrafos subsequentes.

  • Fatores de Risco Biológicos e Fisiológicos

A fisiologia do envelhecimento, por si só, predispõe o indivíduo idoso a um maior risco de quedas. A diminuição da massa muscular e da força, um processo conhecido como sarcopenia, é uma das principais condições associadas a esse risco. Diversos estudos incluídos nesta revisão corroboram essa relação, destacando a sarcopenia não apenas como um fator de risco, mas também como uma síndrome que agrava outras comorbidades e aumenta a suscetibilidade a quedas8, 9, 15. A velocidade da marcha, um indicador direto da capacidade funcional, tem se mostrado um preditor robusto para quedas, com um dos estudos indicando que uma velocidade reduzida aumenta a chance de fratura de quadril em quase duas vezes16, 17. Além disso, a perda da potência total dos membros inferiores foi identificada como um forte indicador de quedas potenciais, ressaltando a importância do fortalecimento muscular para a prevenção18.

As quedas, contudo, são frequentemente o resultado de uma interação complexa entre múltiplos fatores. Além do declínio muscular, síndromes geriátricas como a fragilidade e a multimorbidade emergem como preditores significativos. Um estudo revelou que a fragilidade é um fator de risco substancial para quedas, com homens frágeis apresentando um risco ainda maior em comparação com as mulheres19. Da mesma forma, a presença de quatro ou mais doenças crônicas ou o diagnóstico de multimorbidade aumenta o risco de quedas e fraturas, sublinhando a necessidade de uma avaliação clínica abrangente que vá além da condição principal7, 16.

A presença de comorbidades específicas também foi consistentemente associada ao aumento do risco de quedas. Pacientes com doenças neurológicas, como a Doença de Parkinson e a Doença de Alzheimer, demonstram um risco significativamente elevado de quedas, principalmente devido a distúrbios de marcha, instabilidade postural e comprometimento cognitivo6, 11. Adicionalmente, doenças metabólicas como o diabetes mellitus, em especial o tipo 2, elevam o risco de quedas em até 63%10. Distúrbios cardiovasculares, como hipotensão ortostática e arritmias, também são frequentemente correlacionados com episódios de quedas, indicando que a avaliação cardiovascular deve ser parte integrante da avaliação de risco12, 20.

A análise desses fatores biológicos e fisiológicos demonstra a complexidade da etiologia das quedas em idosos. Fica evidente que a prevenção eficaz exige uma abordagem multidisciplinar que contemple desde a avaliação do estado funcional e nutricional do paciente até a gestão de suas múltiplas comorbidades e a avaliação do uso de medicamentos.

  • Fatores de Risco Farmacológicos

Para além dos fatores biológicos, o manejo da saúde do idoso frequentemente envolve a administração de múltiplos medicamentos, o que pode exacerbar a suscetibilidade a quedas. A polifarmácia, definida pelo uso de cinco ou mais medicamentos, é um dos fatores de risco mais consistentemente documentados na literatura3, 7. Um dos estudos desta revisão aponta que a utilização de sete ou mais fármacos aumenta a incidência do medo de cair, um importante preditor de restrição de atividade e quedas3. Além disso, a simples necessidade de gerenciamento de múltiplos medicamentos já se apresenta como um fator de risco significativo, refletindo a complexidade de regimes terapêuticos em pacientes com multimorbidade7.

A discussão sobre o risco farmacológico transcende o número de medicamentos e se aprofunda nos efeitos de classes específicas de fármacos. O uso de psicotrópicos, como sedativos e hipnóticos, foi identificado como um fator de risco prevalente para quedas, especialmente em ambientes institucionais13. Esses medicamentos podem prejudicar o equilíbrio, a coordenação motora e o estado de alerta, resultando em um risco elevado de eventos adversos. Outras classes, como antidepressivos e benzodiazepínicos, também foram citadas, reforçando a importância de uma revisão periódica da farmacoterapia do idoso. Um achado particularmente relevante foi a associação entre o uso de insulina e um risco significativamente maior de quedas em pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 2, evidenciando a necessidade de monitoramento rigoroso e educação do paciente para prevenção de hipoglicemia10.

Dessa forma, a análise farmacológica do paciente geriátrico não deve se limitar à indicação terapêutica, mas também considerar o perfil de risco de cada medicamento e a potencial interação entre eles. A gestão eficaz do risco de quedas demanda que os profissionais de saúde estejam atentos à polifarmácia e busquem estratégias de desprescrição sempre que clinicamente viável, ou que promovam a substituição por fármacos com menor potencial de efeitos colaterais que afetam a mobilidade e o estado cognitivo.

  • Fatores de Risco Ambientais

Embora os fatores biológicos e farmacológicos sejam cruciais, os fatores de risco ambientais desempenham um papel igualmente importante na ocorrência de quedas, frequentemente atuando como gatilhos para eventos que já são facilitados por condições intrínsecas do idoso. A literatura destaca que esses fatores, apesar de muitas vezes negligenciados, são a principal causa de quedas em ambientes residenciais2. A análise dos estudos desta revisão aponta que perigos domiciliares comuns, como a presença de tapetes soltos, iluminação deficiente e a falta de apoio adequado em áreas de risco como o banheiro, são contribuintes significativos para as quedas5, 14.

A percepção do idoso sobre esses riscos também se mostra um elemento crucial para a prevenção. Um estudo brasileiro demonstrou que idosos com menor nível de escolaridade e renda tendem a identificar menos fatores de risco em suas próprias casas, ressaltando a importância da educação em saúde para que essa população possa criar ambientes mais seguros14. As variáveis socioeconômicas, como renda e escolaridade, têm sido consistentemente associadas com a capacidade funcional e a percepção de risco, sugerindo que uma abordagem de prevenção eficaz deve considerar o contexto social e econômico do paciente21.

A importância de um ambiente seguro não se restringe ao domicílio. Em ambientes institucionais, como hospitais e casas de repouso, a avaliação e a comunicação dos riscos ambientais são fundamentais22, 23. Uma pesquisa de 2018 determinou as propriedades psicométricas da Escala de Práticas de Avaliação dos Fatores de Risco de Quedas durante a Institucionalização de Idosos, realizada em seis instituições de longa permanência para idosos, indicou que, mesmo em instituições, há uma desvalorização da informação sobre esses riscos nas equipes de trabalho, o que aponta para uma lacuna na gestão da segurança do paciente23.

Dessa forma, a prevenção de quedas deve ser uma abordagem multifacetada que inclua a adaptação do ambiente físico. Intervenções simples, como a instalação de barras de apoio, a remoção de obstáculos e a melhoria da iluminação, podem reduzir drasticamente o risco de quedas. A discussão desses fatores ambientais reforça que a prevenção eficaz depende da integração da avaliação clínica com uma análise detalhada do ambiente em que o idoso vive, seja em casa ou em uma instituição.

  • Fatores Específicos e Implicações Adicionais

A complexidade da etiologia das quedas em idosos exige que a avaliação de risco não se restrinja aos fatores biológicos, farmacológicos e ambientais mais evidentes, mas que também contemple aspectos e condições específicas que podem passar despercebidos. Nesse contexto, a percepção de risco do próprio idoso é fundamental. Um estudo transversal analítico realizado com 190 idosos do Programa Longevidade Saudável de uma universidade pública de Mato Grosso, em 2016, apontou que uma proporção significativa de idosos com baixo risco de quedas apresenta uma percepção insatisfatória dos perigos, o que reforça a necessidade de programas de educação em saúde para que eles possam identificar e agir sobre os riscos24.

Além disso, a avaliação de síndromes geriátricas menos comuns ou de condições específicas deve ser uma prioridade. A osteossarcopenia, por exemplo, uma síndrome que combina a perda de massa muscular e óssea, aumenta significativamente o risco de quedas e fraturas, sendo um desafio que exige uma abordagem multidisciplinar integrada25. De forma similar, condições como a tontura26 e a hipotensão pós-prandial20 foram identificadas como preditores independentes de quedas futuras, ressaltando a importância de uma investigação detalhada dessas queixas durante a consulta geriátrica.

O risco de quedas também é elevado em grupos específicos, como em pacientes com câncer geriátrico27 e naqueles com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)28, devido a fatores relacionados à doença e ao tratamento. Da mesma forma, o delírio pós-cirúrgico pode aumentar significativamente o risco de quedas em idosos29, 30, indicando que a avaliação deve ser contínua em diferentes contextos clínicos.

A partir desses achados, fica evidente que a prevenção de quedas não é uma tarefa isolada. Ela requer a integração de múltiplas estratégias. Os estudos destacam a necessidade de programas de intervenção eficazes31, que promovam não apenas a identificação dos riscos, mas também o desenvolvimento de comportamentos seguros e o estímulo ao autocuidado32. As pesquisas demonstram que, ao se concentrar em múltiplos fatores, as intervenções podem melhorar a comunicação entre as equipes de saúde e aumentar a adesão a medidas preventivas31, 33.

  • Considerações sobre Fatores Demográficos e Estilo de Vida

A prevalência e os fatores de risco para quedas variam significativamente entre diferentes populações. Um estudo em larga escala na China, por exemplo, demonstrou que as mulheres apresentam uma prevalência maior de quedas, enquanto fatores como a dificuldade de audição, catarata e artrite são riscos comuns a ambos os sexos1. Além disso, o envelhecimento natural das funções biológicas também foi associado ao aumento da idade, sendo um fator de risco universalmente reconhecido4.

O estilo de vida e fatores demográficos também desempenham um papel importante. Fatores como a idade avançada, menor escolaridade, desnutrição e morar sozinho aumentaram o risco de quedas na população idosa. Da mesma forma, fatores comportamentais como o tabagismo, o consumo de álcool e a inatividade física também foram consistentemente associados a um maior risco34. A relação entre sarcopenia e quedas, inclusive, demonstra particularidades de gênero, com o risco de quedas nos últimos seis meses sendo um fator de risco para sarcopenia em homens35.

Por fim, o comprometimento cognitivo, especificamente em idosos com demência, é um fator de risco significativo e exige atenção especializada, uma vez que pessoas com essas condições caem de 2 a 3 vezes mais do que idosos cognitivamente saudáveis, o que ressalta a necessidade de estratégias de prevenção adaptadas para essa população36. O atendimento de idosos em serviços de emergência também ressalta a relevância das variáveis socioeconômicas e do seu impacto na capacidade funcional, reforçando a importância de uma abordagem clínica completa21.

Em suma, a abordagem integral do risco de quedas deve ser incorporada à prática clínica diária. A identificação de múltiplos fatores de risco, desde os mais comuns até os mais específicos e particulares, é a base para a implementação de estratégias de prevenção eficazes e personalizadas que visam não apenas a reduzir o número de quedas, mas também a preservar a independência e a qualidade de vida do idoso.

A Figura 1 apresenta como a literatura revisada se distribui entre os diversos temas correlacionados em quatro principais grupos de interesse nas pesquisas sobre as quedas de pessoas idosas: Fatores Biológicos e Fisiológicos; Fatores Farmacológicos; Fatores Ambientais e; Fatores Psicossociais.

Figura 1: Síntese dos artigos por foco principal de pesquisa correlacionando causas e efeitos de quedas em pessoas idosas:

O Fluxograma de Avaliação do Risco de Queda em Pacientes Idosos (Figura 2), desenvolvido a partir da síntese dos achados desta revisão integrativa, representa um modelo prático e multidisciplinar para a tomada de decisão clínica. Estruturado em cinco etapas sequenciais, o modelo tem como ponto de partida a Triagem Inicial e o Histórico Clínico, que estabelecem a base de risco do paciente, incluindo a presença do medo de cair e o histórico de quedas prévias. A progressão para as etapas de Avaliação Médica, Farmacêutica e Funcional garante que fatores críticos – como a polifarmácia, a sarcopenia e as comorbidades específicas (neurológicas e cardiovasculares) – sejam sistematicamente identificados e quantificados. Finalmente, a inclusão da Avaliação do Ambiente Físico e a Elaboração do Plano de Intervenção reforçam a natureza holística e preventiva exigida no manejo das quedas, traduzindo os achados da literatura em um guia de ação clínica para profissionais de saúde.

Figura 2: Fluxograma de Avaliação do Risco de Queda em Pacientes Idosos.

CONCLUSÃO

Este estudo, por meio de uma revisão integrativa da literatura, demonstrou que as quedas em pacientes idosos são um problema multifatorial de saúde pública, impulsionado pela complexa interação de fatores biológicos, farmacológicos e ambientais. A análise dos estudos revelou que a vulnerabilidade do idoso é exacerbada por uma combinação de fatores intrínsecos — como a sarcopenia, a fragilidade e comorbidades como o diabetes, doenças cardíacas e neurológicas — e fatores extrínsecos, como a polifarmácia e os perigos do ambiente físico. Fica evidente que a avaliação de risco não pode ser simplista, exigindo uma abordagem abrangente que contemple a funcionalidade do paciente, sua farmacoterapia e o contexto em que vive.

As descobertas reforçam a necessidade de uma prática clínica baseada em uma avaliação de risco robusta e contínua, conforme demonstrado no fluxograma proposto. A implementação de estratégias de prevenção deve ser multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e educadores para a saúde. Intervenções bem-sucedidas não se limitam à correção de déficits físicos, mas incluem a otimização da farmacoterapia, a adaptação do ambiente domiciliar e a educação do paciente e de seus cuidadores para aumentar a percepção dos riscos.

Apesar da vasta literatura sobre o tema, algumas lacunas de pesquisa persistem. Estudos futuros podem se aprofundar na eficácia de intervenções específicas para grupos populacionais vulneráveis, como idosos com câncer ou doenças neurológicas, e avaliar o impacto de programas educacionais na adesão a comportamentos preventivos. Adicionalmente, pesquisas com foco em fatores de risco psicossociais e em diferentes contextos culturais podem oferecer insights valiosos para a personalização de estratégias de prevenção.

Em suma, a prevenção de quedas em idosos é um imperativo clínico e social que demanda uma atenção contínua e integrada. Ao reconhecer e intervir sobre a multiplicidade de fatores de risco, é possível não apenas reduzir a morbidade e a mortalidade associadas às quedas, mas também promover um envelhecimento mais seguro, independente e com maior qualidade de vida.

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¹Acadêmico de Medicina. Centro Universitário Uninorte, AC, Brasil
*Autor correspondente: natalia.s.calderon1@gmail.com