THE IMPACT OF DIET ON ORAL HEALTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512051640
Fabiana Moura da Costa1
Ingrid Drago2
Resumo
O presente estudo delimitou como tema a análise da influência da alimentação na saúde bucal, considerando como diferentes padrões dietéticos e nutrientes impactam a ocorrência de cárie dentária, doença periodontal, erosão dental e alterações da microbiota oral. Teve como objetivo geral descrever a relação entre dieta, nutrição e saúde bucal, destacando os principais efeitos dos macronutrientes e micronutrientes sobre os tecidos orais. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, LILACS e Google Acadêmico, utilizando descritores em português e inglês relacionados à alimentação, nutrição e doenças bucais. Após aplicação dos critérios de seleção, foram incluídos 14 estudos publicados entre 2015 e 2025. Os resultados apontaram consenso científico de que dietas ricas em açúcares e ultraprocessados estão diretamente associadas à desmineralização dentária, inflamação periodontal e desequilíbrios na microbiota oral, enquanto padrões alimentares equilibrados, ricos em fibras, vitaminas e minerais, favorecem a proteção do esmalte, a estabilidade microbiana e o fortalecimento dos tecidos periodontais. Conclui-se que a alimentação constitui fator determinante para a saúde bucal, sendo essencial que práticas preventivas integrem aconselhamento nutricional e educação em saúde como estratégias para reduzir a incidência de doenças orais e promover qualidade de vida.
Palavras-chave: Saúde Bucal. Alimentação. Nutrição. Cárie Dentária. Doença Periodontal.
1 INTRODUÇÃO
A Federação Odontológica Internacional (FDI) conceituou a saúde oral como “abrangente e englobando a aptidão para falar, sorrir, inalar, degustar, tocar, mastigar, engolir e manifestar uma série de sentimentos por meio de expressões faciais com segurança e sem dor, incômodo ou enfermidade” (Glick et al., 2016, p. 322). Essa recente definição reconhece a relevância da saúde oral na absorção de nutrientes. Um modo de vida equilibrado, com consumo nutricional adequado, pode evitar ou desacelerar o desenvolvimento de várias enfermidades crônicas (Chan et al., 2023).
A boca é uma das cavidades do organismo humano que mantém contato direto com o ambiente externo, integrando o sistema digestório. Assim, os alimentos são inicialmente processados pela ação dos dentes e da saliva nessa cavidade, favorecendo seu amolecimento e trituração, que são essenciais para a continuidade do processo digestivo e a posterior absorção de nutrientes pelo corpo. Embora a alimentação tenha como objetivo principal essa função nutricional benéfica, nem sempre os alimentos passam pela cavidade oral de maneira inofensiva. A textura dos alimentos, a frequência com que são consumidos e sua composição podem gerar efeitos indesejados (Foratori Junior, 2016).
A alimentação contém elementos que afetam de maneira significativa o desenvolvimento dentário, a erupção e a manutenção dos dentes saudáveis, e por vezes, até a sua anatomia. Isso ocorre devido à alta vulnerabilidade da mucosa oral a modificações anatômicas e fisiológicas resultantes de desequilíbrios nutricionais (Lima et al., 2023).
Nesse sentido, a literatura destaca que os impactos de maus hábitos alimentares, como o consumo frequente de alimentos processados e ricos em açúcar, combinado com a baixa frequência de escovação dental, podem ocasionar a perda precoce de dentes (Pimentel; Pinheiro, 2019; Oliveira Neto, 2024).
Uma alimentação desequilibrada ou inadequada é considerada um fator de risco para o desenvolvimento de doenças como cáries, doenças periodontais e erosão dentária. A nutrição também interfere no desenvolvimento dos dentes, na integridade da gengiva e da mucosa, além de afetar a força óssea do maxilar (Chan et al., 2023).
As doenças bucais têm um grande impacto na qualidade de vida, já que a boca influencia nossa interação social e participa de funções orgânicas como mastigar, engolir e falar (Silva, 2022). Comportamentos alimentares, como o consumo de açúcar, são influenciados pelas atitudes familiares. A escolha dos alimentos e as atitudes em relação ao consumo de açúcar podem variar entre diferentes culturas. O uso excessivo de açúcar é potencialmente prejudicial, sendo imposto por condições ambientais e psicossociais, e está associado a padrões de sobrepeso, obesidade, maior incidência de cáries e doenças crônico-degenerativas secundárias (Barbosa et al., 2021).
Como objetivo, busca-se descrever a influência da alimentação na saúde bucal dos indivíduos. Como objetivos específicos procura-se: analisar a importância da dieta e da nutrição na saúde bucal; abordar as principais doenças orais causadas pela má alimentação; examinar o papel de nutrientes essenciais, como cálcio e vitamina D, na manutenção da saúde bucal.
Assim, esta pesquisa busca responder qual é a influência das dietas e dos nutrientes para a saúde bucal dos indivíduos. Observa-se que as condições de saúde bucal, como a cárie dentária, representam uma carga significativa em todo o mundo. Embora existam muitos fatores de risco para a saúde bucal deficiente, a alimentação é frequentemente apontada como uma das causas desses problemas.
A justificativa deste estudo tem como base a importância da relação entre alimentação e saúde bucal ao evidenciar como hábitos alimentares inadequados contribuem para o surgimento de cáries, doenças periodontais e erosão dentária. Sua relevância se estende à comunidade acadêmica de odontologia, ao ampliar o conhecimento sobre fatores externos que influenciam a saúde bucal e fornecer bases para novas pesquisas, estratégias preventivas e práticas clínicas integradas ao aconselhamento nutricional. Para a área da saúde, reforça a necessidade de ações multidisciplinares e campanhas educativas que promovam hábitos alimentares saudáveis, reduzam custos com tratamentos e melhorem a qualidade de vida. Para a sociedade, contribui ao estimular maior conscientização sobre a influência da dieta na saúde bucal, favorecendo mudanças de comportamento e prevenção de doenças. Assim, o estudo se alinha ao objetivo de promover saúde pública, bem-estar e políticas eficazes na área odontológica.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 O IMPACTO DA DIETA E NUTRIÇÃO NA SAÚDE BUCAL
“Dieta” diz respeito aos alimentos e líquidos ingeridos por um indivíduo, bem como às condições psicológicas e fisiológicas (regularidade e formas de consumo) relacionadas à alimentação. “Nutrição” refere-se aos macronutrientes (proteínas, glicídios e lipídios) e micronutrientes (vitaminas e minerais) fundamentais para o funcionamento do corpo (Nutrition and Oral Health, 2021). A ingestão de determinados tipos de macronutrientes ou micronutrientes, assim como os hábitos alimentares, incluindo a periodicidade do consumo, pode impactar a saúde oral (Chapple et al., 2017). A má nutrição, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como “carências ou excessos na ingestão de nutrientes, desequilíbrio de nutrientes essenciais ou prejuízo na absorção dos nutrientes”, também está vinculada à saúde bucal (Algra, 2021).
Alimentos com alto teor de açúcar e gordura saturada, frequentemente escolhidos por sua aparência atrativa, são ingeridos diariamente por crianças e adultos, resultando em diversas enfermidades que comprometem a saúde. A saúde oral tem um impacto significativo na construção de uma autoimagem positiva e exerce um papel fundamental na preservação das funções orais, sendo essencial para a alimentação, o crescimento e a fluência da fala (Anil; Anand, 2017).
Uma alimentação rica em gorduras saturadas e açúcares, sem fontes adequadas de proteínas, pode contribuir para o surgimento de diversas enfermidades, como obesidade e distúrbios bucais, incluindo cáries e desgaste dentário. Dessa forma, uma dieta equilibrada e nutritiva proporciona inúmeros benefícios. A qualidade de vida das pessoas e das comunidades tem sido prejudicada por problemas de saúde oral, que afetam negativamente o desempenho de atividades cotidianas (Barbosa et al., 2021).
Em outra seara, uma alimentação composta por frutas, vegetais, legumes, proteínas magras e cereais integrais é fundamental para a saúde bucal. Esses alimentos fornecem nutrientes essenciais, como cálcio, vitamina D e fósforo, que são indispensáveis para a formação e manutenção dos dentes. Além disso, alimentos ricos em fibras auxiliam na limpeza dos dentes e estimulam a produção de saliva, que desempenha um papel essencial na proteção contra cáries e outras doenças orais. Por outro lado, uma dieta abundante em açúcares e carboidratos simples favorece a proliferação de bactérias na boca que geram ácidos, resultando na cárie dentária e na erosão do esmalte dental. O consumo excessivo de refrigerantes e bebidas ácidas também pode contribuir para o desgaste dos dentes (Lieffers et al., 2021).
2.1.1 Cárie Dentária
A cárie dentária ocorre devido à desmineralização dos tecidos duros do dente, causada pelos subprodutos ácidos produzidos pelas bactérias no biofilme dental (placa bacteriana) durante a fermentação dos carboidratos da dieta. Há evidências claras de que os carboidratos fermentáveis (açúcares e amidos) são fundamentais para a iniciação e progressão da cárie. O risco de cárie varia de acordo com o tipo e a quantidade de carboidratos consumidos, bem como a frequência de ingestão (Chapple et al., 2017).
A Organização Mundial da Saúde reconhece que os açúcares livres são os principais agentes no desenvolvimento da cárie e os define como “todos os monossacarídeos e dissacarídeos adicionados a alimentos e bebidas pelo fabricante, cozinheiro ou consumidor, além dos açúcares naturalmente presentes no mel, xaropes, sucos de frutas e concentrados de sucos de frutas” (Chan et al., 2023, p. 3). Entre os açúcares livres, a sacarose merece atenção especial, pois pode ser rapidamente convertida em ácido, levando a uma queda acentuada do pH. Além disso, a sacarose pode ser sintetizada em glucanos extracelulares, frutanos e compostos de armazenamento intracelular, promovendo a formação de biofilme com menor concentração de elementos tampões, como cálcio, fósforo e flúor (Nykänen, 2021).
Há evidências moderadas de que uma dieta em que o consumo de açúcares livres ultrapassa 10% da ingestão calórica total aumenta o risco de cárie dentária. Por essa razão, a Organização Mundial da Saúde recomenda que a ingestão de açúcares livres seja inferior a 10% da ingestão calórica total e que sua redução seja incentivada ao longo da vida (Prata, 2024).
A frequência de ingestão de açúcar também é um fator determinante para o desenvolvimento da cárie. Após o consumo de açúcar, o pH da placa dental pode permanecer baixo por mais de 30 minutos. Assim, se a ingestão de açúcar for frequente, o pH do biofilme dental permanecerá constantemente baixo, aumentando o risco de cárie (Machado, 2023).
2.1.2 Doença Periodontal
A doença periodontal é uma inflamação dos tecidos periodontais, na qual a placa bacteriana desencadeia uma série de respostas do organismo, levando à destruição tecidual, caracterizada pela formação de bolsas periodontais, recessão gengival e reabsorção do osso alveolar em indivíduos suscetíveis (Martins, 2021).
Evidências recentes indicam que a doença periodontal está associada à dieta. Padrões alimentares específicos e a ingestão de determinados nutrientes podem desencadear ou modular respostas inflamatórias mediadas pelo sistema imunológico, influenciando o desenvolvimento da doença periodontal (Mendes et al., 2022). Dietas ricas em carboidratos e gorduras saturadas são pró-inflamatórias e podem aumentar o risco da doença periodontal, enquanto dietas ricas em ácidos graxos poli-insaturados, fibras, frutas, vegetais, antioxidantes e cálcio possuem efeito anti-inflamatório, reduzindo o risco (Chan et al., 2023).
Uma revisão sistemática revelou que o risco de doença periodontal é inversamente proporcional à ingestão de ácidos graxos, vitamina C, vitamina E, betacaroteno, fibras, cálcio derivado de laticínios, frutas e vegetais entre indivíduos que vivem em uma comunidade no Japão. O consumo elevado de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 e antioxidantes dietéticos, como vitamina C, vitamina E e betacaroteno, demonstrou retardar a progressão da doença periodontal, reduzindo o número de dentes com perda de inserção clínica (O’Connor et al., 2020).
2.1.3 Desgaste Dentário
A prevalência do desgaste dentário aumenta com a idade, atingindo até 17% aos 70 anos. O desgaste dentário pode ocorrer por atrição, abrasão, erosão ou uma combinação desses fatores. A erosão dentária está fortemente associada à dieta (Chan et al., 2023).
A Associação Americana de Odontologia define a erosão dentária como a perda progressiva e irreversível dos tecidos duros dos dentes devido a um processo químico de dissolução ácida sem envolvimento de bactérias (Rodrigues et al, 2024). Os ácidos podem ser de origem intrínseca, como no refluxo gástrico, ou extrínseca, advindos do consumo de alimentos e bebidas ácidas, como refrigerantes e sucos cítricos (Oliveira Neto, 2024).
2.1.4 Câncer Bucal
O câncer bucal é o 13º tipo de câncer mais comum no mundo, e o consumo de álcool é um dos principais fatores de risco. O risco de câncer bucal aumenta com a idade, sendo mais elevado em indivíduos com 65 anos ou mais (Nykänen et al., 2021).
Evidências robustas indicam que o consumo excessivo de álcool aumenta significativamente o risco de câncer bucal. O álcool está associado ao câncer de cabeça e pescoço, com um aumento do risco em duas vezes para aqueles que consomem três ou mais doses diárias, em comparação com abstêmios (Dias, 2018).
Embora a relação entre dieta e câncer bucal ainda não esteja completamente esclarecida, estudos sugerem que o consumo elevado de vegetais não amiláceos pode reduzir o risco da doença, devido à presença de compostos antioxidantes e fitoquímicos. No entanto, mais pesquisas são necessárias para compreender os mecanismos envolvidos (Chan et al., 2023).
3 METODOLOGIA
Este estudo foi conduzido por meio de uma revisão narrativa da literatura, fundamentada em evidências que sistematizam e divulgam os achados científicos sobre a influência da alimentação na saúde bucal. O levantamento de dados foi realizado nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), National Library of Medicine (PubMed) e Google Acadêmico, utilizando os seguintes descritores: “alimentação”, “nutrição”, “saúde bucal”, “cáries”, “erosão dentária” e “doenças periodontais”. Foram utilizados os mesmos termos em inglês “food”, “nutrition”, “oral health”, “cavities”, “dental erosion”, and “periodontal diseases”. Para a busca dos materiais, foram empregados os operadores booleanos “AND” e “OR”, permitindo a combinação dos descritores e a formulação da estratégia de pesquisa com os termos alimentação e/ou saúde bucal.
Os critérios de inclusão estabelecidos abrangeram artigos publicados entre 2015 e 2025; textos disponíveis na íntegra em português ou inglês; revisões narrativas, revisões sistemáticas, revisões integrativas, estudos de campo, ensaios clínicos, pesquisas laboratoriais e estudos teóricos relacionados ao tema; estudos que abordaram a relação entre alimentação, nutrição e saúde bucal de forma direta ou indireta.
Em relação aos critérios de exclusão, foram descartados artigos duplicados; resumos, editoriais sem dados originais, cartas ao editor; estudos fora do escopo temático; materiais indisponíveis na íntegra.
O processo de seleção foi representado graficamente por um fluxograma adaptado do modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que ilustra as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos. Esse fluxograma (Figura 1) apresenta o número total de artigos encontrados, o quantitativo excluído em cada fase e as justificativas correspondentes, garantindo transparência metodológica ao processo de revisão.
A análise dos dados foi realizada a partir de uma busca do material identificado nas bases de dados, seguida por leituras que permitiram extrair informações alinhadas ao tema proposto. Em seguida, os principais aspectos foram organizados e sintetizados. Após a seleção das pesquisas incluídas, foi realizada uma análise categorial, na qual os resultados foram agrupados em categorias de significados e examinados com base na literatura revisada. Inicialmente, foram encontrados 4.423 artigos no PubMed, 535 no LILACS e 4.980 no Google acadêmico e, após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra final ficou composta por 13 artigos, apresentados na Tabela 1.
Posteriormente, foi realizada uma análise categorial, agrupando os achados em eixos temáticos relacionados à nutrição, microbiota oral, saúde periodontal, cárie, erosão dentária e impactos sistêmicos da dieta. A síntese final buscou integrar as evidências produzidas por diferentes delineamentos metodológicos, oferecendo um panorama abrangente sobre a influência da alimentação na saúde bucal.
A análise dos estudos foi realizada por meio de leitura exploratória, seguida de leitura analítica para extração de dados pertinentes ao tema. As informações foram organizadas em uma matriz que contemplou autores, ano, objetivos, métodos, resultados e conclusões.
Figura 1 – Fluxograma PRISMA da seleção dos estudos

Fonte: Page et al. (2021)
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A Tabela 1 sintetiza os principais achados dos estudos selecionados para compor esta revisão narrativa, permitindo visualizar, de forma organizada e comparativa, como diferentes autores abordam a relação entre alimentação, nutrição e saúde bucal. Os materiais estão dispostos em ordem cronológica, do mais atual para o mais antigo. Para isso, foram reunidas informações sobre objetivos, metodologias empregadas, resultados e conclusões de cada pesquisa incluída, contemplando produções nacionais e internacionais publicadas entre 2015 e 2025. Essa sistematização possibilita identificar convergências e divergências entre os estudos, evidenciar lacunas científicas e compreender como os padrões alimentares influenciam a ocorrência de cárie dentária, erosão, doença periodontal, alterações da microbiota e condições sistêmicas relacionadas à saúde bucal.
Tabela 1 – Resultados da pesquisa


Fonte: elaborado pela pesquisadora (2025)
Os resultados apresentados demonstram que existe forte consenso na literatura quanto à influência direta da alimentação na saúde bucal, particularmente no desenvolvimento e progressão de cárie, erosão dentária e doenças periodontais. Observa-se que tanto fatores nutricionais específicos (como ingestão de cálcio, vitaminas antioxidantes e açúcares fermentáveis) quanto padrões alimentares gerais (dieta rica em ultraprocessados, baixa ingestão de fibras e alimentos reguladores) desempenham papel decisivo na manutenção da integridade oral. A partir dos dados sistematizados, torna-se possível aprofundar a análise crítica sobre como a dieta interage com a microbiota oral, as funções salivares e os processos de mineralização, bem como compreender as implicações dessas evidências para práticas preventivas e terapêuticas em Odontologia. Dessa forma, a seguir, apresenta-se a discussão, na qual os achados serão comparados, integrados e interpretados à luz da literatura científica contemporânea.
4.1 Discussão – o papel de macronutrientes e micronutrientes na manutenção da saúde bucal
Os autores convergem ao afirmar que a nutrição exerce papel decisivo na formação, manutenção e reparo dos tecidos bucais. Foratori Junior (2016) e Silva (2022) destacam que desequilíbrios nutricionais afetam diretamente a função mastigatória, o metabolismo ósseo e a susceptibilidade às doenças como cárie e periodontite, visão que é complementada por Chapple et al. (2017), ao apontar que a inadequação nutricional altera a homeostase oral, favorecendo inflamação e desmineralização.
No debate sobre macronutrientes, Machado (2023) evidencia o papel crítico dos carboidratos simples, frequentemente associados à cárie devido ao metabolismo bacteriano que reduz o pH bucal. Lieffers et al. (2021) acrescentam que carboidratos complexos e fibras exercem efeito protetor, estimulando a salivação e contribuindo para a autolimpeza e modulação da microbiota. Assim, os autores concordam que o tipo e a frequência de consumo são determinantes para o risco cariogênico.
Quanto às proteínas, Foratori Junior (2016) e Chan et al. (2023) reforçam que sua deficiência prejudica o reparo tecidual e a formação de estruturas dentárias e periodontais, o que pode culminar em maior vulnerabilidade a lesões. Sobre os lipídios, Mendes et al. (2022) e Martins (2021) têm posições complementares: enquanto destacam os benefícios antiinflamatórios de ácidos graxos poli-insaturados, alertam que o consumo excessivo de gorduras saturadas intensifica processos inflamatórios gengivais.
No campo dos micronutrientes, há unanimidade quanto à importância do cálcio, fósforo e vitamina D para a mineralização e estabilidade dos dentes e ossos alveolares (O’Connor et al., 2020; Lima et al., 2023). Mendes et al. (2022) reforçam o papel das vitaminas antioxidantes – especialmente C, E e A – como elementos essenciais para a regeneração da mucosa, síntese de colágeno e proteção contra danos oxidativos. Algra et al. (2021) destacam ainda a relevância do zinco, ferro e magnésio, cuja deficiência resulta em glossite, queilite, palidez mucosa e fragilidade dentária.
Por fim, os autores convergem que uma alimentação variada e completa é indispensável para a integridade oral, e que profissionais da saúde devem orientar a população sobre a importância da ingestão adequada de nutrientes para prevenção de doenças bucais.
4.2 A saliva como fator protetor e indicador do estado nutricional
A saliva é tratada pelos autores como um elemento central na homeostase oral, com funções que vão desde a lubrificação até o controle antimicrobiano. Lima et al. (2023) enfatizam que sua composição reflete diretamente o estado nutricional, funcionando como um marcador biológico do metabolismo. Chapple et al. (2017) reforçam que sua capacidade tampão depende da ingestão adequada de água e nutrientes.
Foratori Junior (2016) acrescenta que dietas ricas em fibras aumentam o fluxo salivar, reduzindo o risco de desmineralização, enquanto Chan et al. (2023) alertam que dietas restritivas podem causar hipossalivação, favorecendo cáries, halitose e infecções.
O papel dos micronutrientes na composição salivar é destacado por O’Connor et al. (2020), que descrevem o cálcio, fósforo e a vitamina D como essenciais para a remineralização. Mendes et al. (2022) complementam ao apontar que a deficiência de vitamina C e zinco compromete a atividade antioxidante e enzimas antimicrobianas da saliva.
Além disso, Algra et al. (2021) destacam que proteínas salivares, como imunoglobulinas, funcionam como indicadores imunológicos, podendo revelar deficiências nutricionais antes de manifestações clínicas. Pimentel e Pinheiro (2019) sustentam que a análise salivar deve ser integrada ao acompanhamento nutricional por sua capacidade diagnóstica precoce.
Assim, os autores convergem ao reconhecer a saliva como peça-chave na proteção oral e como ferramenta de avaliação nutricional.
4.3 Interação entre alimentação, microbiota oral e doenças bucais
A microbiota oral é compreendida como ecossistema altamente influenciado pela alimentação. Foratori Junior (2016) afirma que alimentos determinam a composição microbiana, podendo favorecer ou inibir patógenos bucais. Machado (2023) e Oliveira Neto et al. (2024) reforçam que açúcares simples alimentam bactérias acidogênicas responsáveis pela cárie, enquanto Lieffers et al. (2021) e Chapple et al. (2017) demonstram que dietas ricas em fibras e vegetais promovem diversidade e estabilidade microbiana, fatores associados à saúde oral.
Martins (2021) discute o impacto negativo dos ultraprocessados e bebidas açucaradas, relacionando-os ao biofilme cariogênico e à inflamação gengival. Mendes et al. (2022) acrescentam que micronutrientes antioxidantes modulam o estresse oxidativo e preservam microbiota benéfica, ao passo que O’Connor et al. (2020) destacam que vitamina D e cálcio fortalecem a resposta imune local contra patógenos periodontais.
Lima et al. (2023) ampliam a discussão ao relacionar alterações microbianas orais a repercussões sistêmicas, como diabetes e doenças cardiovasculares, defendendo uma dieta antiinflamatória como estratégia preventiva. Chan et al. (2023) também defendem que o cirurgiãodentista deve orientar alimentos que favoreçam o equilíbrio da microbiota, como probióticos naturais.
Assim, os autores concordam que compreender a interação entre dieta, microbiota e saúde bucal é fundamental para estratégias de prevenção e promoção da saúde integral.
4.4 Cálcio e fósforo: minerais estruturais na integridade dental
Todos os autores são unânimes ao afirmar que cálcio e fósforo constituem minerais indispensáveis à formação e manutenção dos tecidos duros da cavidade oral. Foratori Junior (2016) e Mendes et al. (2022) destacam que esses minerais são fundamentais na formação da hidroxiapatita, garantindo resistência e rigidez ao esmalte. A deficiência resulta em hipomineralização, aumento de sensibilidade e maior susceptibilidade à cárie.
Lima et al. (2023) e O’Connor et al. (2020) reforçam que a vitamina D é crucial para a absorção e metabolismo desses minerais, sendo essencial para a manutenção do osso alveolar e prevenção da reabsorção óssea. Chapple et al. (2017) acrescentam que a saliva atua como reservatório natural desses minerais, promovendo remineralização após desafios ácidos.
Por outro lado, Machado (2023) e Martins (2021) alertam que a dieta moderna, rica em ultraprocessados e ácidos, reduz o aporte mineral e compromete o equilíbrio iônico da cavidade oral, aumentando o risco de erosão e lesões cariosas. Prata (2024) argumenta que a suplementação deve ser cautelosa, pois o excesso pode gerar descompensações metabólicas.
Assim, os autores defendem que o consumo adequado de alimentos fontes de cálcio e fósforo, aliado a orientações preventivas e acompanhamento odontológico, constitui medida central para a saúde bucal e sistêmica ao longo da vida.
5 CONCLUSÃO
A presente revisão narrativa evidenciou, de forma consistente, que a alimentação exerce influência decisiva na saúde bucal, constituindo um dos principais determinantes para a manutenção da integridade dos tecidos orais e para a prevenção de doenças como cárie dentária, doença periodontal, erosão dental e outras condições associadas. As evidências analisadas demonstram que tanto a qualidade quanto a quantidade e a frequência de ingestão dos alimentos modulam diretamente os processos fisiológicos da cavidade oral, impactando desde a formação e mineralização dos dentes até o equilíbrio da microbiota e o desempenho das funções salivares.
Os estudos analisados convergem ao apontar que dietas ricas em açúcares livres, carboidratos fermentáveis e gorduras saturadas estão fortemente associadas à desmineralização, inflamação e perda estrutural dos tecidos dentários e periodontais. A sacarose, em particular, destaca-se como o agente dietético mais diretamente relacionado à instalação e progressão da cárie, não apenas por seu potencial de acidificação do biofilme, mas também por favorecer a formação de uma matriz bacteriana mais aderente e desbalanceada. Da mesma forma, padrões alimentares caracterizados por ultraprocessados e bebidas ácidas contribuem significativamente para o desgaste dentário erosivo e para alterações disbióticas na microbiota oral.
Por outro lado, os estudos reforçam que uma alimentação equilibrada, rica em frutas, vegetais, fibras, proteínas magras e gorduras saudáveis, promove benefícios expressivos para a saúde bucal. Micronutrientes como cálcio, fósforo, vitamina D, vitaminas antioxidantes (A, C e E), zinco, ferro e magnésio desempenham funções essenciais na mineralização dentária, na manutenção do tecido periodontal, na resposta imunológica e na integridade da mucosa oral. Esses nutrientes, quando adequadamente consumidos, atuam como fatores de proteção, fortalecendo o esmalte, modulando a inflamação e favorecendo um ambiente bucal mais equilibrado.
A saliva também emergiu como elemento central nesse processo. Sua composição, volume e capacidade tampão refletem diretamente o estado nutricional do indivíduo, funcionando como indicador metabólico e como primeira linha de defesa contra agentes ácidos e microbianos. Assim, dietas ricas em fibras, que estimulam o fluxo salivar, bem como adequada hidratação e ingestão de minerais, contribuem de forma significativa para a homeostase da cavidade oral.
Outro ponto relevante diz respeito à interação entre alimentação e microbiota oral. A literatura aponta que dietas equilibradas favorecem diversidade bacteriana e estabilidade ecológica, enquanto padrões alimentares inadequados promovem um ambiente acidogênico e pró-inflamatório que favorece disbiose, cárie e periodontite. Tais achados demonstram que a saúde bucal não é apenas resultado da higiene mecânica, mas de um complexo equilíbrio entre dieta, microbiota e fatores imunológicos.
No conjunto, os resultados revelam uma forte convergência científica: a promoção da saúde bucal depende da integração entre práticas alimentares saudáveis, orientação nutricional e acompanhamento odontológico contínuo. Tal integração deve incluir ações educativas, políticas públicas e abordagens interdisciplinares entre odontologia e nutrição, especialmente considerando-se populações mais vulneráveis, como crianças, idosos e indivíduos com baixa escolaridade nutricional.
Portanto, conclui-se que a alimentação desempenha papel central na saúde bucal, influenciando aspectos estruturais, funcionais, microbiológicos e imunológicos da cavidade oral. Uma dieta variada e equilibrada constitui uma das estratégias mais eficazes e acessíveis para prevenir doenças bucais e promover qualidade de vida. Nesse sentido, torna-se imprescindível que profissionais da saúde reconheçam a importância do aconselhamento nutricional no contexto odontológico e adotem práticas integradas que fortaleçam a relação entre nutrição adequada e saúde bucal ao longo de toda a vida.
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1Discente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Uninassau Campus Brasília – DF. e-mail: fabymoura171@gmail.com
2Docente do Curso Superior Odontologia da Faculdade Uninassau Campus Brasília – DF. Mestre em Ortodontia (Faculdade Funorte). e-mail: ingriddraco20108@gmail.com
