O IMPACTO CAUSADO NA CADEIA PRODUTIVA POR TRICOMONOSE BOVINA

THE IMPACT CAUSED BY BOVINE TRICHOMONIASIS ON THE PRODUCTION CHAIN

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510110930


Daiane Dias Siqueira1; Gustavo nery Soares Furtado2; João Victor Freire de Souza3; Maiara Marques Alvarenga4; Rayan Cardoso Viana5; Ricardo dos Santos Alcântara6; Paola Cristini Santos Silva7; Karina Abrahamsen Aguiar8; Luciana de Lima Bezerra9


RESUMO

A tricomonose bovina, enfermidade de transmissão venérea causada pelo protozoário Tritrichomonas foetus, constitui um dos principais entraves sanitários à reprodução bovina em diversos países, inclusive no Brasil. Essa parasitose apresenta grande importância econômica e epidemiológica, sobretudo em sistemas de produção extensivos que utilizam a monta natural como estratégia reprodutiva. Os touros atuam como portadores assintomáticos e carreiam o protozoário no trato prepucial por toda a vida, tornando-se a principal fonte de disseminação da infecção. Nas fêmeas, a doença manifesta-se por infertilidade temporária, repetição de cios, mortes embrionárias e abortos, ocasionando falhas reprodutivas que comprometem significativamente a produtividade do rebanho. Os impactos da tricomonose vão além das perdas zootécnicas, repercutindo em prejuízos econômicos diretos, como a redução da taxa de prenhez e o descarte precoce de animais, e indiretos, como custos com diagnóstico, aquisição de novos reprodutores e diminuição da competitividade do setor pecuário. A enfermidade, embora conhecida há mais de um século, ainda é negligenciada em muitos sistemas de produção, especialmente em pequenas propriedades que carecem de assistência técnica contínua. O controle da doença exige estratégias integradas que envolvem diagnóstico precoce, descarte de touros positivos, uso de inseminação artificial e manejo sanitário adequado. Este artigo tem como objetivo revisar a literatura acerca da tricomonose bovina, apresentando seus aspectos históricos, morfológicos, epidemiológicos, clínicos e econômicos, bem como discutir medidas de prevenção e controle. Busca-se, assim, destacar sua relevância no contexto da cadeia produtiva de carne e leite, ressaltando a necessidade de políticas públicas e pesquisas voltadas à redução de seus impactos.

Palavras-chave: Tricomonose bovina. Tritrichomonas foetus. reprodução animal. perdas econômicas. pecuária.

ABSTRACT

Bovine trichomoniasis, a venereal disease caused by the protozoan *Tritrichomonas foetus*, represents one of the main sanitary obstacles to cattle reproduction in several countries, including Brazil. This parasitic infection has great economic and epidemiological importance, especially in extensive production systems that rely on natural mating as a reproductive strategy. Bulls act as asymptomatic carriers, harboring the protozoan in the preputial tract throughout their lives and becoming the primary source of infection dissemination.
In females, the disease manifests through temporary infertility, estrus repetition, embryonic death, and abortion, leading to reproductive failures that significantly compromise herd productivity. The impacts of trichomoniasis extend beyond zootechnical losses, resulting in both direct economic damages such as reduced pregnancy rates and premature culling and indirect losses, including diagnostic costs, replacement of breeding animals, and decreased competitiveness in the livestock sector.
Although the disease has been known for over a century, it remains neglected in many production systems, particularly on small farms that lack continuous technical assistance. Effective control requires integrated strategies involving early diagnosis, culling of positive bulls, the use of artificial insemination, and proper sanitary management.
This article aims to review the literature on bovine trichomoniasis, presenting its historical, morphological, epidemiological, clinical, and economic aspects, as well as discussing prevention and control measures. The goal is to highlight its relevance within the meat and dairy production chains, emphasizing the need for public policies and research focused on mitigating its impacts.

Keywords: Bovine trichomoniasis. Tritrichomonas foetus. Animal reproduction. Economic losses. Livestock production.

1 INTRODUÇÃO

A pecuária bovina ocupa posição de destaque no cenário econômico mundial, e o Brasil figura entre os principais produtores e exportadores de carne bovina e leite. A atividade, além de sustentar o abastecimento interno, constitui importante fonte de divisas internacionais e representa um dos pilares do agronegócio brasileiro (da Rocha et al., 2025). Nesse contexto, a eficiência reprodutiva dos rebanhos assume papel estratégico, uma vez que a produtividade da cadeia de carne e leite está diretamente relacionada ao desempenho reprodutivo dos animais. Entretanto, a reprodução bovina enfrenta desafios expressivos relacionados a fatores ambientais, nutricionais, de manejo e, sobretudo, a enfermidades de caráter reprodutivo.

Dentre estas, destacam-se as doenças infecciosas, que comprometem significativamente os índices zootécnicos, resultando em infertilidade, abortos e redução da produção (de Oliveira et al., 2023). Estudos têm apontado que as doenças reprodutivas constituem uma das principais causas de prejuízos econômicos na bovinocultura, com destaque para as enfermidades infecciosas e parasitárias que afetam a fertilidade (França et al., 2023). A tricomonose bovina, causada pelo protozoário flagelado Tritrichomonas foetus, insere-se nesse grupo de enfermidades de grande impacto produtivo e econômico. O agente é transmitido principalmente pela monta natural, prática ainda comum em propriedades de manejo extensivo. Touros infectados permanecem como portadores assintomáticos, alojando o parasito em criptas prepuciais e disseminando-o a cada cópula. Nas vacas, a infecção provoca infertilidade temporária, morte embrionária precoce, repetição de cios e abortos, resultando em atraso na concepção, aumento do intervalo entre partos e, por consequência, menor eficiência produtiva (Amaral & Tremori, 2024).

Além das perdas zootécnicas diretas, a tricomonose acarreta impactos econômicos significativos. O descarte precoce de matrizes e reprodutores, a necessidade de reposição de animais e os custos associados ao diagnóstico da doença aumentam os gastos de produção e reduzem a margem de lucro dos produtores (Faria, 2022). Em sistemas leiteiros, o impacto torna-se ainda mais expressivo, uma vez que o aborto em vacas representa perda não apenas de bezerros, mas também de produtividade leiteira durante todo o ciclo subsequente (Faria, 2022).

Segundo da Rocha et al. (2025), fatores específicos e inespecíficos associados a abortos em bovinos constituem entraves importantes à produção pecuária, sendo a tricomonose uma das principais doenças infecciosas envolvidas. França et al. (2023) acrescentam que, no caso dos bubalinos e bovinos, a ocorrência de perdas embrionárias e abortos por agentes infecciosos impacta tanto a produtividade quanto a qualidade do material genético, comprometendo programas de melhoramento animal.

No Brasil, a doença ainda é considerada subnotificada e, muitas vezes, negligenciada em programas de controle sanitário, sobretudo em pequenas propriedades e em sistemas de produção extensiva, nos quais predomina a monta natural (de Oliveira et al., 2023). Esse cenário agrava-se pela ausência de tratamento eficaz e pela dificuldade de erradicação do parasito, já que touros portadores permanecem infectados por toda a vida. Assim, a prevenção torna-se o principal mecanismo de controle, envolvendo medidas como a inseminação artificial, a testagem periódica de touros e o descarte dos positivos (Amaral & Tremori, 2024). Nesse sentido, compreender o impacto da tricomonose bovina na cadeia produtiva é essencial para a elaboração de estratégias de manejo sanitário e para o fortalecimento da competitividade do setor pecuário brasileiro. O presente artigo tem como objetivo revisar a literatura científica disponível sobre a enfermidade, abordando seus aspectos históricos, biológicos, epidemiológicos, clínicos e econômicos. Pretende-se, ainda, discutir medidas de profilaxia e controle, bem como ressaltar a importância de políticas públicas e pesquisas voltadas à mitigação de seus efeitos.

2 REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Histórico da doença

A tricomonose bovina foi descrita pela primeira vez no início do século XX, quando pesquisadores observaram falhas reprodutivas associadas à presença de protozoários flagelados em touros e vacas. Inicialmente confundida com outras enfermidades venéreas, sua etiologia foi posteriormente confirmada como sendo causada pelo Tritrichomonas foetus.

Desde então, relatos da doença têm sido registrados em diversos países, incluindo os principais produtores pecuários (Amaral & Tremori, 2024).

No Brasil, embora não haja estatísticas oficiais consolidadas, estudos regionais indicam prevalências variáveis, geralmente mais elevadas em sistemas de produção extensiva, onde a monta natural é predominante (de Oliveira et al., 2023). Historicamente, o controle da tricomonose bovina sempre representou um desafio, especialmente pela ausência de tratamento eficaz em touros, que permanecem portadores assintomáticos ao longo da vida. Apesar dos avanços nas técnicas de diagnóstico e no desenvolvimento de programas de inseminação artificial, a enfermidade persiste como causa relevante de perdas reprodutivas, sobretudo em pequenas e médias propriedades, nas quais práticas modernas de manejo sanitário ainda são pouco difundidas (França et al., 2023).

2.2 Agente Etiológico

O agente etiológico da tricomonose bovina é o protozoário flagelado Tritrichomonas foetus, pertencente ao filo Parabasalia. Trata-se de um organismo anaeróbio facultativo, que habita o trato genital de bovinos, sendo transmitido principalmente pelo contato direto durante a cópula. Diferentemente de outros protozoários de importância veterinária, o T. foetus não apresenta forma cística, característica que contribui para sua sobrevivência restrita ao hospedeiro e à sua transmissão direta entre os animais (Amaral & Tremori, 2024). Nos touros, o parasito coloniza criptas prepuciais, sem causar manifestações clínicas perceptíveis, o que favorece sua disseminação silenciosa nos rebanhos. Já nas vacas, instala-se no trato genital superior, provocando inflamações e alterações que comprometem a fertilidade. Essa dualidade de comportamento entre machos e fêmeas é fundamental para entender a epidemiologia da doença.

Estudos recentes têm demonstrado que a diversidade genética de isolados de T. foetus pode estar relacionada a variações na patogenicidade e no impacto clínico da doença (da Rocha et al., 2025). Tal fato reforça a necessidade de mais pesquisas moleculares que permitam compreender melhor a biologia do agente e suas interações com o hospedeiro.

2.3 Morfologia

Do ponto de vista morfológico, o Tritrichomonas foetus apresenta formato piriforme ou alongado, medindo entre 10 a 25 μm de comprimento. O protozoário possui três flagelos anteriores livres e uma membrana ondulante sustentada por um flagelo posterior, que confere motilidade característica em movimentos irregulares. Uma estrutura denominada axóstilo atravessa longitudinalmente a célula e projeta-se posteriormente, funcionando como elemento de sustentação.

Sua morfologia, embora semelhante à de outros tripanossomatídeos, apresenta particularidades que auxiliam na identificação microscópica. Entretanto, devido à possibilidade de confusão com outras espécies morfologicamente próximas, métodos complementares de diagnóstico, como cultivo in vitro e técnicas moleculares, são frequentemente empregados para confirmação (de Oliveira et al., 2023).

A ausência de forma cística, já mencionada, limita a sobrevivência do protozoário fora do hospedeiro, mas, paradoxalmente, garante sua transmissão eficiente nos rebanhos que utilizam monta natural, tornando o ciclo epidemiológico altamente dependente da presença de touros portadores crônicos (Amaral & Tremori, 2024).

2.4 Epidemiologia

A tricomonose bovina é uma enfermidade de distribuição mundial, cuja ocorrência está fortemente associada a sistemas de produção que utilizam a monta natural como principal estratégia reprodutiva. Em rebanhos onde se adota a inseminação artificial em larga escala, a prevalência da doença tende a ser significativamente menor, embora ainda possam ocorrer surtos em situações de falha no manejo sanitário ou uso de sêmen contaminado (Amaral & Tremori, 2024).

No Brasil, a real dimensão epidemiológica da doença é de difícil mensuração devido à escassez de dados oficiais e à subnotificação (de Oliveira et al., 2023). Pesquisas regionais apontam prevalências variáveis, que podem alcançar níveis alarmantes em áreas de pecuária extensiva, principalmente no Centro-Oeste e Norte do país, onde a monta natural é predominante. A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto durante a cópula, sendo o touro portador assintomático o principal responsável pela manutenção do ciclo. O risco epidemiológico da tricomonose aumenta em propriedades que mantêm reprodutores por longos períodos sem testagem sanitária, bem como em sistemas onde não há descarte sistemático de touros idosos. A presença de múltiplos reprodutores em um mesmo lote de vacas também intensifica a disseminação do protozoário. Além disso, vacas infectadas podem permanecer como portadoras temporárias, contribuindo para a manutenção da infecção no rebanho por meses (França et al., 2023).

Outro aspecto epidemiológico relevante é a maior vulnerabilidade de sistemas de produção com baixa tecnificação, nos quais não há acompanhamento veterinário contínuo. Nessas propriedades, o impacto da tricomonose tende a ser ainda mais significativo, resultando em longos períodos de infertilidade, altas taxas de repetição de cios e abortos, além de prejuízos econômicos diretos e indiretos.

2.5 Características imunológicas

A resposta imunológica à infecção por Tritrichomonas foetus apresenta diferenças marcantes entre machos e fêmeas. Nos touros, a infecção estabelece-se de forma crônica e assintomática, sem induzir resposta imune eficaz capaz de eliminar o parasito. O protozoário aloja-se nas criptas prepuciais, onde encontra ambiente favorável à sua persistência. Essa característica faz com que o macho seja considerado o principal reservatório da enfermidade, mantendo a cadeia epidemiológica por tempo indeterminado (Amaral & Tremori, 2024).

Nas fêmeas, por outro lado, observa-se uma resposta imunológica mais efetiva, capaz de eliminar a infecção em semanas ou meses. Essa resposta envolve tanto mecanismos de imunidade inata, como a produção de muco e alterações inflamatórias do epitélio vaginal e uterino, quanto a imunidade adaptativa, caracterizada pela produção de anticorpos locais (IgA e IgG) no trato reprodutivo. Ainda assim, a imunidade adquirida não é permanente, o que permite a reinfecção em gestações subsequentes (França et al., 2023).

A interação entre o parasito e o sistema imune da fêmea também está relacionada aos eventos reprodutivos. A morte embrionária precoce, frequentemente observada em vacas infectadas, resulta de processos inflamatórios desencadeados no endométrio e de respostas imunes que comprometem a viabilidade embrionária. Essa dinâmica explica a alta taxa de repetição de cios observada em rebanhos acometidos (da Rocha et al., 2025).

Pesquisas recentes sugerem que a variabilidade genética de isolados de T. foetus pode estar associada à intensidade da resposta imune desencadeada nos hospedeiros, o que impacta diretamente na gravidade dos quadros clínicos e na duração da infecção (de Oliveira et al., 2023).

Portanto, compreender as particularidades da resposta imune à tricomonose bovina é essencial para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção, como vacinas que possam induzir imunidade duradoura nas fêmeas e reduzir a disseminação do agente na população bovina.

2.6 Patogenia

A patogenia da tricomonose bovina envolve uma interação complexa entre o Tritrichomonas foetus e o trato reprodutivo do hospedeiro. Após a cópula com um touro portador, o protozoário é introduzido no trato genital da vaca, colonizando inicialmente a vagina e o cérvix. A partir daí, migra para o útero, onde desencadeia inflamação e altera o ambiente uterino, interferindo na fertilização e no desenvolvimento inicial do embrião (Amaral & Tremori, 2024).

O processo inflamatório induzido pelo parasito inclui a infiltração de células polimorfonucleares, a produção de muco e alterações histopatológicas que comprometem a receptividade endometrial. Em muitos casos, ocorre morte embrionária precoce, geralmente entre duas e quatro semanas após a concepção, levando à repetição de cios. Quando a gestação prossegue, podem ocorrer abortos em diferentes estágios, mas são mais comuns no primeiro terço (França et al., 2023).

Nos touros, a patogenia é caracterizada pela colonização das criptas prepuciais e do pênis, sem induzir resposta inflamatória significativa. Essa ausência de reação imune efetiva permite a persistência do protozoário por toda a vida do animal, que se torna um portador assintomático. Esse aspecto é particularmente preocupante, pois torna o macho a principal fonte de disseminação do agente em rebanhos dependentes de monta natural (de Oliveira et al., 2023).

Estudos recentes destacam ainda que a intensidade da resposta inflamatória nas fêmeas e a gravidade dos desfechos reprodutivos podem variar conforme a cepa do T. foetus envolvida e as condições imunológicas do hospedeiro (da Rocha et al., 2025).

2.7 Sinais clínicos

Os sinais clínicos da tricomonose bovina variam de acordo com o sexo do animal. Nos touros, a infecção é assintomática, o que representa um dos maiores desafios para o controle da enfermidade. Machos de qualquer idade podem se infectar, mas a prevalência e a persistência aumentam em animais mais velhos, devido à maior profundidade e número de criptas prepuciais, que favorecem a colonização do protozoário (Amaral & Tremori, 2024).

Nas vacas, os sinais clínicos estão relacionados às alterações reprodutivas. O principal achado é a infertilidade temporária, resultante da morte embrionária precoce e da repetição de cios em intervalos irregulares. Em alguns casos, observa-se corrimento vaginal mucopurulento, associado à vaginite e endometrite (de Oliveira et al., 2023). Abortos também podem ocorrer, especialmente durante o primeiro terço da gestação, com eliminação de fetos mortos ou macerados.

As consequências produtivas incluem aumento do intervalo entre partos, redução da taxa de prenhez e diminuição da produção de bezerros, impactando diretamente a eficiência reprodutiva do rebanho (França et al., 2023). Em sistemas leiteiros, a ocorrência de aborto implica ainda em redução da produção de leite durante a lactação subsequente, gerando perdas econômicas adicionais (Faria, 2022).

Um aspecto importante é que, embora a infecção em vacas possa ser autolimitante, com eliminação espontânea do parasito após alguns meses, a persistência de touros infectados garante a reinfecção contínua do rebanho, perpetuando o ciclo epidemiológico (da Rocha et al., 2025).

2.8 Diagnóstico

O diagnóstico da tricomonose bovina é um desafio devido à natureza assintomática da infecção nos touros e à inespecificidade dos sinais clínicos nas fêmeas. A repetição de cios e os abortos precoces levantam suspeita, mas a confirmação depende de exames laboratoriais. O método clássico de diagnóstico consiste na coleta de material prepucial de touros, realizada por raspado, lavagem ou uso de pipetas especiais, seguida de cultivo in vitro do protozoário em meios específicos, como o Diamond’s medium. Após incubação, o crescimento do Tritrichomonas foetus pode ser confirmado por microscopia óptica, observando sua morfologia e motilidade característica (Amaral & Tremori, 2024).

Entretanto, os cultivos apresentam limitações: baixa sensibilidade em infecções crônicas, risco de contaminação bacteriana e necessidade de repetição das coletas para aumentar a confiabilidade. Por isso, técnicas moleculares como a reação em cadeia da polimerase (PCR) têm sido cada vez mais utilizadas, oferecendo maior sensibilidade e especificidade para a detecção do agente (de Oliveira et al., 2023).

Nas fêmeas, o diagnóstico é mais difícil, pois a eliminação do parasito tende a ocorrer espontaneamente após alguns meses. Em vacas, a coleta de material vaginal ou uterino pode ser utilizada, mas a baixa carga parasitária reduz a sensibilidade dos testes (França et al., 2023).

A escolha do método diagnóstico depende dos recursos disponíveis e do objetivo do exame. Para programas de controle, recomenda-se o uso combinado de testes, com repetição periódica em touros, visando identificar e descartar portadores assintomáticos.

2.9 Tratamento

Atualmente, não existe tratamento eficaz e seguro para a tricomonose bovina aprovado para uso em rebanhos comerciais. Nos touros, a infecção é considerada permanente, uma vez que o parasito persiste nas criptas prepuciais ao longo da vida do animal. Assim, a recomendação sanitária é o descarte dos reprodutores positivos, evitando sua utilização em programas de monta natural (Amaral & Tremori, 2024).

Nas fêmeas, a infecção pode ser autolimitante, com eliminação espontânea do parasito após alguns ciclos estrais. Contudo, as perdas reprodutivas durante o período de infecção podem ser significativas. Tentativas de tratamento com compostos como o metronidazol já foram relatadas, mas seu uso em bovinos não é permitido devido à ausência de registro para essa finalidade e aos riscos de resíduos em produtos de origem animal (de Oliveira et al., 2023). A inexistência de opções terapêuticas torna a profilaxia a principal medida de enfrentamento da tricomonose. Nesse contexto, práticas como a utilização de inseminação artificial, a testagem sistemática de touros, o descarte de positivos e o manejo adequado do plantel assumem papel central na prevenção da disseminação da enfermidade (França et al., 2023). Assim, a abordagem da tricomonose bovina deve priorizar estratégias de manejo e biosseguridade, em detrimento de tentativas terapêuticas ineficazes. Essa característica reforça a importância do diagnóstico precoce e do monitoramento contínuo dos rebanhos.

2.10 Profilaxia

A profilaxia da tricomonose bovina baseia-se em um conjunto de medidas integradas de biosseguridade e manejo reprodutivo, uma vez que não há terapia eficaz e licenciada para erradicar o Tritrichomonas foetus de touros (Amaral & Tremori, 2024). As estratégias centrais incluem:

Uso preferencial de inseminação artificial (IA) e IATF – A substituição (total ou parcial) da monta natural pela inseminação reduz drasticamente a probabilidade de contato direto entre touros portadores e vacas suscetíveis, quebrando o principal elo de transmissão. Em rebanhos de corte, a adoção de IATF, mesmo de forma estratégica (por lotes ou estações de monta críticas), já é suficiente para diminuir a prevalência ao longo de poucos ciclos reprodutivos (Amaral & Tremori, 2024; de Oliveira et al., 2023).

Testagem periódica de touros – O monitoramento sanitário dos reprodutores, com coletas seriadas de material prepucial para cultura e/ou PCR, eleva a sensibilidade do programa de detecção de portadores crônicos. Recomenda-se múltiplas coletas em intervalos semanais no início da estação de monta e antes da introdução de animais recém-adquiridos (de Oliveira et al., 2023; França et al., 2023).

Descarte de positivos e manejo etário – Touros positivos devem ser retirados da reprodução. A prevalência aumenta com a idade devido ao aprofundamento das criptas prepuciais; assim, políticas de renovação etária dos reprodutores (limites máximos de idade para monta natural) reduzem o risco de manutenção de portadores (Amaral & Tremori, 2024).

Quarentena e aquisição responsável Todo reprodutor introduzido deve cumprir quarentena com testagem antes de entrar no plantel. A compra de touros com atestados sanitários e histórico reprodutivo conhecido é parte crucial de um programa preventivo (de Oliveira et al., 2023).

Gestão de fêmeas – Diante de surtos, recomenda-se o manejo reprodutivo para minimizar repiques de cobertura: delimitar estações de monta (janelas curtas), separar vacas com histórico de repetição de cios e priorizar IA nesses grupos. Em vacas, a infecção tende a ser autolimitante em meses, mas o manejo adequado acelera a recuperação dos índices (França et al., 2023; da Rocha et al., 2025).

Educação sanitária e registros Programas de treinamento de equipe e consultoria veterinária devem incluir coleta correta de amostras, biosseguridade na manipulação de material genital, registro de taxas de prenhez, perdas gestacionais e abortos, permitindo detecção precoce de alterações compatíveis com tricomonose (da Rocha et al., 2025; França et al., 2023).

Integração com outras medidas reprodutivas A tricomonose frequentemente coexiste com outras causas infecciosas de aborto e falhas reprodutivas; portanto, os planos de profilaxia devem ser multifatoriais, contemplando vacinação disponível para outros agentes, controle nutricional, mineralização e sanidade do pós-parto (da Rocha et al., 2025; Faria, s.d.). Em síntese, programas bem-sucedidos combinam IA/IATF, vigilância ativa de touros, descarte de positivos, quarentena e gestão reprodutiva por estação, com acompanhamento técnico contínuo (Amaral & Tremori, 2024; de Oliveira et al., 2023).

2.11 Notificação

A notificação da tricomonose bovina varia entre jurisdições e, em muitos contextos, permanece subnotificada, o que dificulta estimar sua real distribuição e impacto (de Oliveira et al., 2023). Ainda que não seja universalmente listada como doença de notificação compulsória, há forte recomendação de que casos confirmados sejam comunicados aos serviços veterinários oficiais e registrados nos programas de sanidade reprodutiva da propriedade e/ou cooperativas, pelos seguintes motivos:

Vigilância epidemiológica: a comunicação sistemática permite mapear áreas de risco, orientar campanhas de educação sanitária e dimensionar a necessidade de ações coletivas (de Oliveira et al., 2023).

Gestão regional do risco: em bacias leiteiras e regiões de pecuária de corte com trânsito intenso de reprodutores, a informação compartilhada favorece decisões coordenadas (estações de monta, testagem prévia a leilões, quarentenas) (Amaral & Tremori, 2024).

Rastreabilidade e bem-estar: registros de perdas gestacionais e abortos (inclusive “retornos silenciosos”) melhoram a rastreabilidade de eventos sanitários e embasam auditorias de bemestar e qualidade (da Rocha et al., 2025).

Na prática, a subnotificação decorre de três fatores principais: (i) sinais clínicos inespecíficos, confundidos com falhas nutricionais ou de manejo; (ii) dificuldade logística para coletas seriadas e confirmação laboratorial; e (iii) receio de estigmatização comercial de rebanhos positivos (França et al., 2023; de Oliveira et al., 2023). Por isso, recomenda-se que associações de produtores e serviços de assistência técnica incentivem protocolos padronizados de investigação de falhas reprodutivas (checklists diagnósticos), com confidencialidade de dados e devolutivas agregadas (indicadores regionais), a fim de estimular a participação sem prejuízo à competitividade dos produtores (Faria, s.d.). Em contextos onde programas regionais de controle de doenças reprodutivas existam, a tricomonose deve ser inserida formalmente nos fluxos de notificação interna e monitoramento por indicadores (taxa de prenhez por estação, taxa de repetição de cio, perdas gestacionais por trimestre), com auditorias técnicas anuais (Amaral & Tremori, 2024).

CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A tricomonose bovina, ao longo deste trabalho, foi discutida sob diferentes perspectivas: histórica, biológica, epidemiológica, clínica e econômica. A análise da literatura evidencia que a enfermidade representa um dos principais desafios sanitários da pecuária de corte e leite no Brasil, especialmente em sistemas baseados na monta natural. Sua importância decorre não apenas da redução direta da taxa de prenhez e do aumento dos índices de repetição de cios, mas também dos impactos indiretos relacionados a abortos, descarte precoce de animais e elevação dos custos de produção.

Retomando os objetivos iniciais, pode-se afirmar que o impacto da tricomonose bovina na cadeia produtiva é significativo e multifatorial. Em rebanhos de corte, a menor taxa de bezerros desmamados compromete a reposição e a oferta de animais ao mercado. Em rebanhos leiteiros, além das falhas na concepção e dos abortos, há queda expressiva na produção de leite, que afeta tanto a rentabilidade individual do produtor quanto a competitividade do setor. Para os profissionais que atuam na pecuária, o desafio está em implementar estratégias de diagnóstico e manejo em propriedades muitas vezes caracterizadas pela baixa tecnificação e pela dependência da monta natural.

Nesse sentido, torna-se fundamental o fortalecimento de programas de vigilância e a ampliação da conscientização dos produtores sobre a importância do diagnóstico precoce e do descarte de touros positivos. O uso crescente da inseminação artificial, aliado à testagem periódica de reprodutores, configura-se como a principal ferramenta de prevenção. No entanto, tais medidas exigem investimentos financeiros e suporte técnico, o que reforça a necessidade de políticas públicas de incentivo e capacitação.

Por fim, é imperativa a continuidade de pesquisas voltadas à biologia do Tritrichomonas foetus, à variabilidade genética de seus isolados e ao desenvolvimento de vacinas capazes de induzir imunidade protetora duradoura. O enfrentamento da tricomonose bovina, portanto, deve ser visto como prioridade estratégica para a sanidade reprodutiva, assegurando a produtividade, a sustentabilidade e a competitividade da cadeia pecuária brasileira em um mercado global cada vez mais exigente.

REFERÊNCIAS

AMARAL, B. A.; TREMORI, T. M. O impacto da tricomonose bovina na reprodução de bovinos de corte. Revista de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 71, n. 2, p. 214-229, 2024. DA ROCHA, G. L.; MENDES, P. S.; SANTOS, V. P. Avanços recentes na compreensão da tricomonose bovina e implicações para o manejo reprodutivo. Brazilian Journal of Veterinary Research, v. 44, n. 1, p. 87-104, 2025.

DE OLIVEIRA, R. F.; CUNHA, J. L.; MARTINS, D. P. Epidemiologia e estratégias de controle da tricomonose em rebanhos bovinos. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 32, n. 4, p. 543-559, 2023.

FARIA, M. L. Perdas econômicas associadas à tricomonose bovina em sistemas leiteiros. Anais do Congresso Brasileiro de Buiatria. Belo Horizonte: Colégio Brasileiro de Buiatria, 2022.

FRANÇA, R. P.; PEREIRA, H. G.; LIMA, D. F. Diagnóstico e controle da tricomonose em bovinos de corte e leite. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 75, n. 3, p. 412-428, 2023.


1Acadêmica de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil daianedias32747@gmail.com

2Acadêmico de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil Gustavonerysoares98@gmail.com

3Acadêmico de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil J_victorsakua@hotmail.com

4Acadêmica de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil maiaramarques278@gmail.com

5Acadêmico de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil Rayancardoso@hotmail.com

6Acadêmico de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil Rick.abh.ef@gmail.com

7Acadêmica de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil Spaolla638@gmail.com

8Acadêmico de Medicina Veterinária Faculdade Univassouras Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil karinasaqua2@hotmail.com

9Doutorado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa Atual professora adjunta da faculdade Univassouras
luluzootec@uol.com.br