REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202602261531
Paula Nayara Jesus Freitas1
Ângela Aparecida Silveira2
Kamila Noleto Bastos3
Caio Castanheira Melo Ribeiro4
Talysson Almeida Rodrigues5
Isabela Felipe Ribeiro6
Vitor De Franco Gomes Filgueira7
Aline Almeida da Silva8
Samanta Garcia de Souza9
Lídia Acyole de Souza10
RESUMO
O envelhecimento é um processo biológico natural, acumulativo, universal e não patológico, que está associado a perda da funcionalidade de todo organismo. Associado ao envelhecimento, tem-se o surgimento de doenças crônicas não degenerativas, dentre estas a Hipertensão Arterial Sistêmica. A Hipertensão é caracterizada pela manutenção da pressão arterial acima de níveis considerados adequados, e é o principal fator de risco para doenças cardiovasculares. Dentre as formas de tratamento, tem-se prescrição de medicações no “tratamento medicamentoso” e orientações sobre mudança de estilo de vida no “tratamento não medicamentoso”. O objetivo deste manuscrito é apresentar a experiência da orientação da prática de exercício físico junto à uma paciente idosa com Hipertensão Arterial, para controle da condição de saúde. Utilizou-se como referência metodológica a problematização e como estratégia o Arco de Maguerez, que conforme descrito por Villardi, Cyrino e Berbel (2015), possui cinco etapas, que se desenvolvem iniciando em um recorte da realidade e que para ela se retorna. São elas: a observação da realidade e a identificação do problema, os pontos-chave, a teorização, as hipóteses de solução e a aplicação à realidade. Com acompanhamento multidisciplinar foi possível disponibilizar uma proposta de exercícios físicos aeróbios e de alongamento e resistência para ser realizado em casa e minimizar as dores osteomusculares. A partir das estratégias propostas, foi possível promover o autocuidado em relação à prática de atividade física, bem como levar o reforço positivo e gestão de rotina, com foco no controle da HAS.
Palavras-chaves: Envelhecimento; Hipertensão Arterial Sistêmica; Exercício Físico; Tratamento não farmacológico; Arco de Maguerez
ABSTRACT
Aging is a natural, cumulative, universal and non-pathological biological process, which is associated with the loss of functionality of the entire organism. Associated with aging, there is the emergence of non-degenerative chronic diseases, including Systemic Arterial Hypertension. Hypertension is characterized by the maintenance of blood pressure above levels considered adequate, and is the main risk factor for cardiovascular disease. Among the forms of treatment, there are medication prescriptions in the “medical treatment” and guidelines on lifestyle change in the “non-drug treatment”. The objective of this manuscript is to present the experience of the guidance of physical exercise practice with an elderly patient with Arterial Hypertension, to control her health condition. It was used as a methodological reference to the problematization and as a strategy the Arch of Marguerez, which, as described by Villardi, Cyrino and Berbel (2015), has five stages, which are developed starting in a cut of reality and returning to it. They are: observation of reality and identification of the problem, key points, theorization, solution hypotheses and application to reality. With multidisciplinary monitoring, it was possible to provide a proposal for aerobic physical exercises and stretching and resistance exercises to be performed at home and to minimize musculoskeletal pain. From the proposed strategies, it was possible to promote self-care in relation to the practice of physical activity, as well as positive reinforcement and routine management, with a focus on controlling SAH.
Keywords: Aging; Systemic Arterial Hypertension; Physical exercise; Non-pharmacological treatment; Arch of Maguerez.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento é um processo acumulativo, universal e não patológico caracterizado pela perda funcional gradativa em todo organismo do indivíduo (BRASIL, 2007). Nesta fase é possível identificar redução do metabolismo corporal, diminuição da flexibilidade e do tônus da musculatura e consequentemente o surgimento de condições crônicas (GASPAR et al, 2017; SANTOS et al, 2019).
Devido às alterações físicas e fisiológicas, a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) está associado ao envelhecimento, e apresenta-se como doença crônica não transmissível mais predominante na população, e como principal fator de risco modificável para as doenças cardiovasculares (SBGG, s/d; BARROSO et al, 2021). As Diretrizes Brasileiras de Hipertensão – 2020 (BARROSO et al, 2021), apresentam propostas de tratamentos farmacológicos e não farmacológicos, e reforça, em sua mais recente atualização o Exercício físico como um aliado no combate e tratamento da HAS.
Os benefícios relacionados às alterações fisiológicas promovidas pela prática de Exercícios físicos estão associados ao estímulo no qual o organismo é exposto. Isso porque, para cada objetivo tem-se um planejamento (estímulo) e espera-se uma resposta específica. Desta maneira, o Exercício físico é um importante representante do tratamento não medicamentoso e está presente nas principais recomendações clínicas para o tratamento de doenças cardiovasculares (ACSM, 2020; BARROSO et al, 2021; WHO, 2020).
Isso porque, se realizado de forma adequada, uma prática moderada e bem orientada pode produzir efeitos fatores de risco (FR) das Doenças Cardiovasculares (DCV), auxiliando no controle da HAS, combate a obesidade, melhoria na resistência à insulina pelo tecido entre outros (BARROSO et al, 2021). Estudos que reforçam a importância do exercício físico na prevenção e tratamento da HAS auxiliam na criação de estratégias de prevenção e promoção da saúde, principalmente em idosos, visto que contribuem para alcançar um processo de envelhecimento mais saudável e ativo.
Nesse contexto, este trabalho é um relato de experiência, que teve como objetivo descrever a experiência da orientação da prática de exercício físico junto à uma paciente idosa com Hipertensão Arterial, para controle da condição de saúde.
2. METODOLOGIA
Este trabalho é um relato de experiência, realizado na disciplina Programa Integrado de Estudos da Saúde da Família II (PINESF II), ministrada no segundo período do curso de Medicina do Centro Universitário Alfredo Nasser (UNIFAN), cuja preceptora foi a Enfermeira Fernanda Rodrigues Soares. De acordo com Severino (2007), esse tipo de pesquisa se concentra na particularidade de um caso, considerando-o como representativo de um conjunto de casos análogos.
Os caminhos percorridos para a realização deste estudo tiveram como referência a metodologia da problematização e como estratégia, o Arco de Maguerez, tornado público por Juan Diaz Bordenave e Adair Martins Pereira, no livro “Estratégias de ensino-aprendizagem”, primeira edição em 1977 (VILLARDI; CYRINO; BERBEL, 2015). De acordo com Villardi, Cyrino e Berbel (2015), essa estratégia foi uma das referências teóricas iniciais na fundamentação de Berbel (1995; 1998; 2012a; 2012b) quanto à metodologia da problematização.
Conforme reforçado por Villardi, Cyrino e Berbel (2015), são cinco as etapas para a realização do arco, que se desenvolvem iniciando em um recorte da realidade e que para ela se retorna (como apresentado na Figura 1): a observação da realidade e a identificação do problema, os pontos-chave, a teorização, as hipóteses de solução e a aplicação à realidade.
Figura 1. Arco de Maguerez

Fonte: VILLARDI; CYRINO; BERBEL, 2015.
Participou deste estudo a paciente M.A.S.F, de 68 anos, sexo feminino, hipertensa, com controle da PA via utilização de medicação específica. A paciente foi indicada pela Agente Comunitária de Saúde, Abigail, vinculada à Unidade Básica de Saúde, Pedro Gomes, na Cidade de Guapó. Foram realizadas cinco visitas domiciliares de aproximadamente 60 minutos, de setembro a novembro de 2021.
Para a confecção do arco, a observação da realidade concreta correspondeu à observação atenta e registro das informações a fim de formularmos um problema, a partir dos fatos observados instigantes. Iniciamos com a anamnese da paciente, levando em consideração aspectos biopsicossociais, bem como aspectos de moradia, alimentação, questões familiares e elementos relacionados às necessidades básicas, somado aos exames físicos realizados.
A segunda etapa foi a determinação de pontos-chaves. Este foi o momento de definição do aspecto do problema que se tornou nosso objeto de pesquisa. Ele se iniciou com uma reflexão, um questionamento sobre os possíveis fatores associados ao problema constituído. Dessa maneira, os aspectos chaves foram definidos a partir desse trabalho inicial e da discussão junto à paciente.
A teorização, terceira etapa, foi investigativa, na qual se buscam conhecimentos e informações acerca do problema em variadas fontes, usando diferentes estratégias ou formas de coleta de informações. O estudo serviu de base para a transformação da realidade estudada. Para a elaboração da teorização, realizamos um levantamento teórico a respeito do processo de envelhecimento, da hipertensão arterial e do exercício físico como tratamento não medicamentoso nesse contexto.
Em seguida, a partir da análise das informações obtidas, definimos as hipóteses de solução. Na etapa seguinte de aplicação à realidade foram analisadas e escolhidas as propostas de soluções mais viáveis, que puderam ser postas em prática e ajudaram a paciente a superar a problemática constituída, contribuindo para a transformação da realidade investigada.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 OBSERVAÇÃO DA REALIDADE
M.A.F.S, 68 anos, sexo feminino, aposentada, casada, parda, evangélica, brasileira natural de Pedra Branca (CE). Cursou até a segunda série do ensino fundamental. G5P5A0, dois filhos falecidos, possui hipertensão e histórico familiar de problemas cardíacos. Relata ser ex-fumante com carga tabágica de 15 anos/maço, tendo deixado de fumar há quinze anos. Refere não ter antecedentes cirúrgicos e possui vida sexual regular. Reside em uma casa com o marido, uma filha e o neto, em Guapó (GO), zona urbana.
Por meio das descrições da paciente, constatou-se que a residência apresenta o conforto básico e necessário: cômodos mobiliados, ventilados e espaçosos; banheiro higienizado; saneamento básico e coleta de lixo frequente. Todos os gastos com despesas provêm da aposentadoria da paciente e do seu marido. A paciente possui significativo amparo familiar, uma vez que a filha, o neto e o marido demonstram-se bastante presentes e preocupados com a saúde da mesma.
Relata ter sido diagnosticada com Hipertensão há quarenta e três anos e que, desde então, iniciou o tratamento medicamentoso com Losartana 50mg e Hidroclorotiazida 25mg duas vezes ao dia, medicamentos esses que faz uso até hoje, porém, não faz o uso regular recomendado. Sua rotina resume-se em realizar os afazeres domésticos em casa; eventualmente assiste à televisão e vídeos de seu interesse para distrair e frequentar a igreja semanalmente.
Atualmente, afirma estar tentando – com muita dificuldade – manter uma rotina de atividades físicas em casa, porque segundo a mesma, não se sente bem em fazer caminhadas na rua, porque sente dores na região do quadril e tornozelo. A paciente não soube especificar o horário de dormir, entretanto, afirma que possui relativa qualidade de sono sem fazer o uso de medicação.
A alimentação da casa é feita pela paciente, com alimentos variados, havendo ingestão diária de frutas, proteínas, vegetais, carboidratos e hortaliças. Ao narrar sobre a rotina alimentar, informou que não ingere alimentos gordurosos, não utiliza temperos prontos e consome alimentos variados, incluindo frutas e verduras em abundância. O exame físico foi realizado sem nenhuma alteração visível. Pressão Arterial (PA) 120/80 mmHg, Frequência Cardíaca (FC) 80 bpm, Saturação periférica de Oxigênio (SpO2) 99%. A paciente tem 83 kg e uma altura de 1,60 metros, calcula-se um IMC de 32.4 kg/m2, enquadrando-se na categoria “obesidade grau 1”. A pele não apresenta qualquer tipo de lesão ou coloração anormal como cianose e icterícia. Nenhuma estrutura da cabeça/pescoço, tórax ou membros superiores e inferiores apresentam alterações. A paciente possui uma ótima higiene oral e corporal. O último exame completo que fez, revelou hipercolesterolemia (LDL de 400mg/dl) e a mesma fez uso de medicação para controle do colesterol, porém não se recorda do nome da medicação usada.
3.2 PONTOS CHAVES
- Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
- HAS Gestacional
- Envelhecimento
- Obesidade
- Hipercolesterolemia
- Dores articulares
- Sedentarismo
3.3 TEORIZAÇÃO
O envelhecimento é um processo acumulativo, universal e não patológico caracterizado pela perda funcional gradativa em todo organismo do indivíduo (BRASIL, 2007). Neste processo as características fisiológicas e motoras são afetadas, tornando a pessoa idosa mais suscetível a doenças e a um estilo de vida mais dependente, impactando consequentemente nas características psicossocial deste indivíduo (FARINATTI, 2014).
Siqueira e Pereira (2007), colocam que a população idosa vem aumentando, especialmente em virtude dos avanços da ciência e da tecnologia e medidas sanitárias que têm garantido a redução da mortalidade e o aumento da expectativa de vida. No entanto, ainda enfrentamos o desafio de favorecer um envelhecimento com qualidade de vida, compreendendo a saúde como bem-estar biopsicossocial e também espiritual, em uma perspectiva mais abrangente.
A Organização Mundial de Saúde (OMS/OPAS,2021), considera o/a idoso/a qualquer pessoa que tenha 60 anos ou mais, entretanto, compreender a velhice é desafiador, uma vez que envolve muitos preconceitos e temores. Para Martins, Abrantes e Facci (2020), mudanças que ocorrem na estrutura da atividade do idoso em razão das alterações do lugar social que passa a ocupar, problematizam até mesmo a sua própria concepção de velhice. Por isso, é necessário superar a visão negativa do envelhecimento, mostrando como alternativa possível a vivência dessa fase da vida de forma ativa, lúcida, saudável, com disposição para a continuação das realizações pessoais.
A senilidade envolve dentre outros pontos a redução do metabolismo corporal, diminuição da flexibilidade e do tônus da musculatura, perda de massa muscular e consequente perda de força, agilidade e coordenação motora, e surgimento de condições crônicas (GASPAR et al, 2017; SANTOS et al, 2019). Por isso, a orientação para adoção de um estilo de vida adequado é indispensável para um envelhecimento ativo e saudável, cumprindo assim a Legenda de Boa saúde e Bem-Estar do Idoso da OMS/OPAS (2021) para a próxima década, visto que contribui para a redução de mortalidade por doença cardiovascular e outras doenças crônicas nesta população.
A hipertensão arterial sistemática (HAS) é uma condição clínica caracterizada pelo aumento e sustentação dos níveis pressóricos maiores que 140mmHg na Sístole e 90mmHg na diástole. Está associada muitas vezes a distúrbios metabólicos, alterações estruturais ou funcionais de órgãos-alvo e pode ser agravada caso exista outros fatores de risco (BARROSO et al, 2021).
A maioria das pessoas normotensas poderão desenvolver HAS após os 55 anos de idade, isso porque, o envelhecimento resulta em um enrijecimento constante e diminuição da complacência arterial. Atualmente, 65% dos indivíduos com mais de 60 anos apresentam diagnósticos de HA, e devido a transição epidemiológica e aumento da população idosa, esse cenário poderá ser agravado nas próximas décadas (BARROSO et al, 2021). Confirmando estas informações, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG, s/d) coloca que HAS é a doença crônica não transmissível mais predominante na população idosa além de ser o principal fator de risco modificável para as doenças cardiovasculares.
As Diretrizes de Hipertensão Arterial (BARROSO et al, 2021), trazem recomendações para tratamento farmacológico e não farmacológico na abordagem do paciente com HAS. Dentre as recomendações de tratamento não farmacológico tem-se orientações sobre tabagismo, alimentação, espiritualidade e religiosidade, respiração, controle do estresse entre outros. A Figura 2 apresenta a mensagem principal destas orientações.
Figura 2. Mensagens principais, tratamento.

Fonte: BARROSO et al, 2021. p.566
Para compreensão dos benefícios da prática do Exercício físico no tratamento do paciente com HAS, é indispensável a reflexão sobre os conceitos e características que permeiam esta prática. Por vezes, o senso comum apresenta a atividade física como sinônimo de Exercício físico, entretanto, é necessário ressaltar que a diferença entre os termos não está associada apenas a semântica, mas também, ao seu intento e metodologia.
A Atividade física é apresentada por Caspersen (1985), em sua definição mais clássica, como “qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos, que resulta em um gasto energético maior que os níveis de repouso” (CASPERSEN, 1985 p.126). Esta prática pode ser classificada de acordo com intensidade, frequência e duração, além de apresentar subcategorias, no qual, o exercício físico é o principal representante.
Assim, compreendido como uma categoria de Atividade física, o Exercício físico é definido como uma “atividade física planejada, estruturada e repetitiva que tem por objetivo a melhora e a manutenção de um ou mais componentes da aptidão física” (CASPERSEN, 1985 p.126). No geral, os dois termos são comumente diferenciados pela intenção da prática, no qual o Exercício físico deve ser orientado e planejado com o intuito de alcançar um objetivo específico, enquanto na atividade física, a movimento corporal e está associado unicamente a realização de tarefas e/ou deslocamento.
Os benefícios associados às alterações fisiológicas promovidas pela prática de Exercícios físicos estão associados ao estímulo no qual o organismo é exposto. Isso porque, para objetivo tem-se um planejamento (estímulo) e espera-se uma resposta específica. Para melhor compreensão destes benefícios, é fundamental compreender que o músculo estriado esquelético é responsável pelo movimento humano, e existem particularidades associadas ao seu funcionamento.
O músculo esquelético é composto por dois tipos de fibras, apresentadas como contração rápida (tipo II) e as de contração lenta (tipo I), no qual cada uma está associada por tipo de movimento, com alterações fisiológicas específica (MCARDLE;KATCH; KATCH,2008). As fibras de contração rápida (tipo II) utilizam a via glicolítica como principal sistema energético responsável pela transferência rápida de energia.
Segundo Mcardle, Katch e Katch (2008) as fibras tipo I, ou fibras de contração lenta são altamente resistentes à fadiga e aprimoradas para o exercício aeróbico prolongado. Trata-se de fibras lentas-oxidativas (LO), que apresentam velocidade de encurtamento lenta e dependem do metabolismo oxidativo, e são as principais responsáveis por em modalidades que exigem uma duração contínua e superior a 3 minutos, os “Exercícios aeróbios”.
As fibras de contração rápida (tipo II) utilizam-se da via glicolítica como sistema energético responsável pela transferência rápida de energia. Segundo Mcardle, Katch e Katch (2008) a utilização destas é predominante em exercícios de contração rápida, os chamados “Exercícios aeróbios”, caracterizados pela alta velocidade e curta duração. Exemplos de modalidades que utilizam desses exercícios são corrida de 100 metros, exercícios de explosão, paradas, arranques, mudança rápida de direção, contração muscular vigorosa, entre outros.
O Exercício físico é um importante representante do tratamento não medicamentoso e está presente nas principais recomendações clínicas para o tratamento de doenças cardiovasculares (ACSM, 2020; BARROSO et al, 2021; WHO, 2020). Se implementado de forma adequada, uma prática moderada e bem orientada pode produzir efeitos fatores de risco (FR) das DCVs, auxiliando no controle da HAS, combatendo a obesidade, melhoria na resistência à insulina pelo tecido entre outros (BARROSO et al, 2021).
Na HAS, em particular, a contribuição desta ferramenta não farmacológica auxilia na redução do risco de morbi-mortalidade, uma vez que promove aumento na débito cardíaco (DC), visto a necessidade de aumento de perfusão dos músculos ativos, seguido da diminuição da resistência vascular periférica, caracterizando-se como agente hipotensivo (RUIVO;ALCANTARA, 2019; CORDEIRO et al, 2019).
3.4 HIPÓTESES DE SOLUÇÃO
- Encaminhar a paciente para a realização da aferição da pressão arterial na UBS Pedro Gomes localizada no município de Guapó, Goiás, a fim de monitorar a pressão arterial da paciente por cinco dias seguidos no mesmo horário.
- Reforçar à paciente sobre a importância da manutenção de comportamentos alimentares e prática de atividade física com acompanhamento multidisciplinar regular (envolvendo médico, nutricionista e educador físico);
- Propor exercícios físicos aeróbios e de alongamento e resistência para ser realizado em casa e minimizar as dores osteomusculares;
- Incentivar estratégias de autocuidado, reforço positivo e gestão de rotina, com foco no controle da ansiedade e no incentivo à autodisciplina da paciente.
3.5 APLICAÇÃO À REALIDADE
Inicialmente a paciente estava um pouco relutante quanto às nossas visitas e sugestões sobre a mudança de hábitos. Parecia tímida e falava pouco, respondendo objetivamente às nossas indagações.
Devido ao não monitoramento da pressão arterial e o não compromisso com o tratamento medicamentoso, anteriormente empregado, a paciente foi submetida à realização de monitoramento da pressão arterial na UBS, por cinco dias consecutivos, nos mesmos horários (com diferença máxima de 40 minutos).
Assim, foi identificado o seguinte resultado: Primeiro dia 140 x 90 mmHg, Segundo dia 120 x 80 mmHg, Terceiro dia 120 x 80 mmHg, Quarto dia 140 x 70 mmHg e no Quinto dia 130×80 mmHg. Tais informações foram encaminhadas à médica da unidade, que manteve o tratamento medicamentoso atual da paciente, conforme imagem 1.
Imagem 1. Resultados do monitoramento de PA da paciente M.A.S.F

Fonte: Arquivo pessoal
Nos encontros seguintes, conversamos sobre o estado de saúde da mesma, e buscamos outras queixas que pudessem nortear uma melhor intervenção. Foi possível identificar que, apesar de adotar um estilo de vida adequado para um paciente hipertenso (ausência de tabagismo, de etilismo, IMC e CC adequados, bom controle de sal referido), a paciente reportou algumas vezes a tentativa frustrada de realizar atividade física.
Isso porque, a paciente sentia dores articulares ao realizar uma simples caminhada, e demonstrou interesse em receber orientação para alívio destas e mudança de hábito. Assim, após a identificação do controle e do cuidado com a pressão, propomos intervenções para melhoria da condição física bem como um protocolo de atividade física específico.
Um dos componentes do grupo é Professor de Educação Física, e junto com os outros, foi possível elaborar um programa de atividade física e alongamento para melhoria de flexibilidade e condicionamento cardiorrespiratório. Para isso, entregamos um material ilustrativo ao paciente sobre como fazer os alongamentos de forma correta, e ensinamos cada um deles com demonstração.
Para complementação, entregamos uma pirâmide alimentar para estimular uma alimentação saudável, e auxiliar no preparo do alimento em relação a quantidade, porções e escolha dos alimentos (Imagem 2).
Imagem 2. Registro da entrega de material ilustrativo para prática de atividade física e alimentação a paciente M.A.S.F

Fonte: Arquivo pessoal
Explicamos sobre a importância de manter uma atividade física e alimentação regular, ressaltando os benefícios que estas práticas trariam para o seu dia a dia. Nas visitas seguintes, a paciente relatou uma tímida melhora, mas informou que ainda não conseguiu constância em relação à prática de atividade física.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A hipertensão arterial é uma doença crônica e que demanda intervenções medicamentosas e não medicamentosas. No contexto da velhice, essa problemática requer um cuidado e uma atenção redobrada no sentido de incluir estratégias e lidar com as resistências do contexto físico e relacionados aos aspectos psicológicos e emocionais do paciente.
Durante as visitas iniciamos com a observação da realidade da nossa paciente e identificação da problemática que demandava e era passível da nossa intervenção, em seguida elaboramos os pontos-chaves para o planejamento da nossa ação, a partir também dos referenciais sobre velhice, hipertensão arterial e exercício físico como parte do tratamento não medicamentoso. Especificamente as estratégias envolveram o monitoramento da pressão arterial na UBS mais próxima, a orientação quanto ao estabelecimento e manutenção de comportamentos alimentares adequados e prática de atividade física.
Com acompanhamento multidisciplinar foi possível disponibilizar uma proposta de exercícios físicos aeróbios e de alongamento e resistência para ser realizado em casa e minimizar as dores osteomusculares. A partir das estratégias propostas, foi possível promover o autocuidado em relação à prática de atividade física, bem como levar o reforço positivo e gestão de rotina, com foco no controle da HAS.
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1Acadêmica de Medicina. Centro Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN. paulanayarajf@hotmail.com
2Acadêmica de Medicina. Centro Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN. angelaap13@hotmail.com
3Acadêmica de Medicina. Centro Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN. kamilamiranda1985@hotmail.com
4Acadêmico de Medicina. Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado. castanheiracaio9@gmail.com
5Acadêmico de Medicina. Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE. Talyssonbr@gmail.com
6Acadêmica de Medicina. Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado. isabelafribeiro08@gmail.com
7Acadêmico de Medicina. Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado. vitordf97@gmail.com
8Acadêmica de Medicina. Centro Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN
9Doutora em Ciências da Saúde. Universidade Estadual de Goiás – UEG. samanta.souza@ueg.br
10Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Goiás – UFG. lidia.acyole@gmail.com
