IMBALANCE IN THE INTESTINAL MICROBIOTA AS A RISK FACTOR FOR DEPRESSION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202509262342
Darcizete Meireles Freitas¹; Darcila Socorro Couto do Nascimento¹; Ivone Regina Reis do Nascimento¹; Orientadora: Francisca Marta Nascimento de Oliveira Freitas²; Coorientadora: Rosimar Honorato Lobo³
RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo investigar a relação entre o desequilíbrio da microbiota intestinal e o desenvolvimento de sintomas depressivos. Trata-se de uma revisão sistemática realizada em bases de dados científicas (PubMed, SciELO e Google Scholar), considerando artigos publicados nos últimos dez anos, incluindo alguns clássicos anteriores a esse período para fortalecer a fundamentação teórica que representam marcos na compreensão do eixo intestino-cérebro. Os estudos selecionados demonstraram que a disbiose intestinal está associada à redução da diversidade microbiana, comprometendo a produção de neurotransmissores, a modulação imunológica e a integridade da barreira intestinal, fatores diretamente relacionados à fisiopatologia da depressão. Observou-se que dietas pobres em fibras, consumo de ultraprocessados, uso indiscriminado de antibióticos, estresse crônico e sedentarismo são os principais fatores que contribuem para esse desequilíbrio. Em contrapartida, intervenções como o uso de probióticos, prebióticos, dietas anti-inflamatórias e, em casos específicos, o transplante de microbiota fecal, mostraram resultados promissores na atenuação dos sintomas depressivos. Conclui-se que a manutenção da saúde intestinal representa uma estratégia complementar importante na prevenção e no tratamento da depressão.
Palavras-chave: Microbiota intestinal. Disbiose. Depressão. Saúde mental. Probióticos.
ABSTRACT
This study aimed to investigate the relationship between intestinal microbiota imbalance and the development of depressive symptoms. This is a systematic review conducted in scientific databases (PubMed, SciELO, and Google Scholar), considering articles published in the last ten years, including some classics from before that period, to strengthen the theoretical foundation that represent milestones in the understanding of the gut-brain axis. The selected studies demonstrated that intestinal dysbiosis is associated with a reduction in microbial diversity, compromising neurotransmitter production, immune modulation, and the integrity of the intestinal barrier, factors directly related to the pathophysiology of depression. It was observed that low-fiber diets, consumption of ultra-processed foods, indiscriminate antibiotic use, chronic stress, and a sedentary lifestyle are the main factors contributing to this imbalance. Conversely, interventions such as the use of probiotics, prebiotics, anti-inflammatory diets, and, in specific cases, fecal microbiota transplantation, have shown promising results in mitigating depressive symptoms. It is concluded that maintaining intestinal health represents an important complementary strategy in the prevention and treatment of depression.
Keywords: Gut microbiota. Dysbiosis. Depression. Mental health. Probiotics.1
1. INTRODUÇÃO
A microbiota intestinal corresponde ao conjunto de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal, sobretudo o intestino grosso, incluindo bactérias, fungos, vírus e arqueas. Essa comunidade estabelece uma relação simbiótica com o hospedeiro e exerce funções fundamentais para a saúde, como a fermentação de fibras não digeríveis, a síntese de vitaminas (K e algumas do complexo B), a proteção contra patógenos e a modulação do sistema imunológico. Além disso, influencia diretamente a produção de neurotransmissores relacionados ao humor e ao bem estar, o que explica sua associação tanto com a manutenção da saúde quanto com o desenvolvimento de condições patológicas, como doenças metabólicas, inflamatórias e transtornos mentais (Lima, 2020; Pereira et al., 2022; Zuo et al., 2023).
A microbiota tem se mostrado fundamental não apenas para a digestão e absorção de nutrientes, mas também para a manutenção da saúde como um todo. Com o avanço das pesquisas científicas, cresce a compreensão de que os microrganismos que habitam o intestino exercem influência direta sobre diversas funções do organismo, incluindo a regulação do sistema imunológico e do metabolismo. Um dos aspectos que tem ganhado destaque recentemente é o impacto dessa microbiota na saúde mental (Farahani et al., 2021).
Uma vez que esta diversidade de microrganismo esteja em equilíbrio, é chamada de eubiose, em contrapartida, alterações em sua composição podem ocasionar uma série de desequilíbrios conhecidos como disbiose, com potenciais consequências para a saúde do hospedeiro. O termo disbiose refere-se ao desequilíbrio na composição das bactérias intestinais, caracterizado por alterações na diversidade e na proporção de microrganismos benéficos e patogênicos. Esse estado tem sido associado não apenas a doenças autoimunes e metabólicas, mas também a transtornos mentais, como a depressão, evidenciando a importância de compreender os fatores que alteram a microbiota (Malik et al., 2020).
A disbiose pode desencadear uma série de alterações fisiológicas e imunológicas. Entre os efeitos mais estudados estão a redução da produção de neurotransmissores e de compostos anti-inflamatórios, o aumento de marcadores inflamatórios e a alteração da barreira intestinal. Esses processos comprometem não apenas a digestão e a absorção de nutrientes, mas também a comunicação entre o intestino e o cérebro, sugerindo um papel direto da disbiose no desenvolvimento de sintomas depressivos e em outros transtornos mentais. Além disso, alterações na microbiota podem afetar a produção de neurotransmissores essenciais como a serotonina, dopamina e GABA, interferindo na regulação do humor, sono, apetite e respostas ao estresse (Clapp et al., 2017).
Quando a microbiota se encontra equilibrada, favorece a síntese de neurotransmissores fundamentais para o bem-estar emocional; em contrapartida, o seu desequilíbrio pode desencadear alterações químicas e inflamatórias que impactam negativamente o humor e o comportamento (Cryan; Dinan, 2017).
A depressão é um transtorno que afeta milhões de pessoas em diferentes partes do mundo, que ainda representa um desafio tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento eficaz. Embora fatores genéticos, emocionais e sociais já sejam amplamente considerados, o funcionamento do intestino em especial, o equilíbrio da microbiota pode exercer um papel relevante nesse cenário. Um intestino saudável contribui para o bom funcionamento do sistema nervoso central, especialmente na regulação de substâncias como a serotonina, que influencia diretamente aspectos como sono, apetite e bem-estar emocional (Goehler et al., 2008).
Além disso, desequilíbrios intestinais podem intensificar processos inflamatórios que, por sua vez, estão associados a sintomas depressivos (Eltokhi et al., 2022). Isso reforça a ideia de que o cuidado com a saúde intestinal não deve ser visto de forma isolada, mas como parte de uma abordagem integrada na prevenção e no tratamento de transtornos mentais.
A pesquisa tem como objetivo geral investigar a forma como o desequilíbrio da microbiota intestinal pode estar associado ao desenvolvimento de quadros depressivos, compreendendo o papel desempenhado pela microbiota intestinal na saúde humana, com ênfase nos impactos do seu desequilíbrio, explorando os principais fatores que podem estar associados ao desencadeamento da depressão, levantando possíveis intervenções terapêuticas voltadas à regulação da microbiota em indivíduos com sintomas depressivos diagnosticados.
2. METODOLOGIA
2.1 Tipo de estudo
Este estudo caracteriza-se como uma revisão sistemática da literatura, abordagem metodológica que visa reunir, analisar e sintetizar estudos científicos previamente publicados sobre o tema específico, de forma criteriosa e estruturada. Essa estratégia foi escolhida por permitir uma compreensão abrangente da relação entre o desequilíbrio da microbiota intestinal e o desenvolvimento da depressão, sem a realização de experimentos diretos com seres humanos. O método possibilita a identificação de padrões, contradições e lacunas na produção científica atual, oferecendo base sólida para discussões e futuras investigações.
2.2 Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada por meio de buscas em bases científicas reconhecidas, como PubMed, SciELO e Google Scholar, entre os meses de março e junho de 2025. Foram utilizados descritores em português e inglês, como: “microbiota intestinal”, “depressão”, “disbiose”, “eixo intestino-cérebro”, “saúde mental”, “probióticos” e “prebióticos”. A seleção dos artigos considerou os seguintes critérios de inclusão: publicações com texto completo disponível, que apresentassem relação direta entre microbiota intestinal e depressão. Foram excluídos estudos duplicados, trabalhos com abordagem superficial e artigos sem rigor metodológico evidente.
2.3 Análise de dados
Os dados extraídos dos estudos selecionados foram organizados de forma qualitativa. Para cada artigo, foram registrados: autores, ano de publicação, tipo de intervenção, principais achados e conclusões. A análise seguiu uma abordagem interpretativa, buscando compreender as convergências entre os resultados, identificar tendências e destacar evidências que sustentem a hipótese da influência da microbiota intestinal sobre o estado emocional. Essa leitura crítica permitiu estabelecer um panorama atualizado da temática, contribuindo para a elaboração de uma discussão fundamentada e relevante do ponto de vista clínico e nutricional.
Figura 1: Fluxograma do processo de seleção do material estudado

Fonte: Elaborado pelas autoras (2025)
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A existência de uma relação significativa entre o desequilíbrio da microbiota intestinal e o surgimento de sintomas depressivos, mostra uma conexão do chamado eixo microbiota intestino e cérebro, uma via de comunicação bidirecional que permite a interação contínua entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso central, mediada por vias neurais, hormonais e imunológicas (Dinan; Cryan, 2017; Bastiaanssen et al., 2020).
Conforme destacado por Mayer (2016), o intestino pode ser compreendido como um verdadeiro segundo cérebro, dada a capacidade da microbiota de modular funções emocionais e cognitivas por meio da sinalização nervosa e da regulação imunológica. Essa perspectiva reforça a noção de que alterações intestinais não afetam apenas processos digestivos, mas também desempenham papel central na saúde mental. Indivíduos com depressão frequentemente apresentam redução da diversidade microbiana intestinal, com predomínio de espécies potencialmente patogênicas, o que caracteriza um quadro de disbiose (Kelly et al., 2016; Zheng et al., 2016).
Rucklidge et al., (2019) demonstraram que estratégias nutricionais voltadas à recomposição da microbiota podem reduzir significativamente sintomas depressivos, indicando que intervenções dietéticas bem estruturadas representam uma via terapêutica de baixo custo e impacto positivo para a saúde mental. Esse desequilíbrio pode desencadear processos inflamatórios sistêmicos, alterações na integridade da barreira intestinal e desequilíbrios na produção de neurotransmissores como serotonina, dopamina e GABA, substâncias diretamente ligadas à regulação do humor e da resposta emocional (Cryan; O’Mahony, 2011; Pereira et al., 2022 ; Strandwitz, 2018).
Sudo et al., (2004), em estudo experimental, observaram que a ausência de microbiota intestinal em modelos animais resultou em hiperativação do eixo hipotálamo hipófise adrenal (HPA), o que levou a respostas exacerbadas ao estresse. Esses dados sugerem que a presença de bactérias comensais é indispensável para o desenvolvimento equilibrado da resposta neuroendócrina.
A disbiose também influencia negativamente a produção dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o butirato, que são fundamentais para a saúde do cólon e para a modulação da inflamação (Silva et al., 2019). A queda desses compostos está associada ao aumento da permeabilidade intestinal, permitindo a passagem de endotoxinas para a corrente sanguínea, o que contribui para o desenvolvimento de neuroinflamações e sintomas depressivos (Malik et al., 2020 ; Dalile et al., 2019).
Miller et al., (2009) reforçam esse achado ao identificarem que indivíduos com depressão apresentam níveis mais elevados de marcadores inflamatórios, como interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), indicando que a inflamação de baixo grau é um dos mecanismos biológicos que ligam disbiose à saúde mental. Além disso, a microbiota saudável participa da síntese de até 90% da serotonina periférica, e sua modulação adequada tem sido apontada como uma estratégia promissora no cuidado com a saúde mental (Sjostedt et al., 2021).
Kelly et al., (2016) acrescentam que a redução da diversidade microbiana está diretamente associada à menor produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina, comprometendo a estabilidade emocional. Esses dados sugerem que a depressão deve ser entendida não apenas como um transtorno psicológico, mas como condição multifatorial de origem também metabólica e imunológica.
Alterações no metabolismo do triptofano, precursor da serotonina, também são observadas em indivíduos com disbiose. Estudos com modelos animais demonstram que a exposição a antibióticos ou dietas pró-inflamatórias reduz os níveis de triptofano e aumenta a produção de quinurenina, substância associada a quadros de ansiedade e depressão (Kasprowicz et al., 2022 ; Clarke et al., 2013).
Desbonnet et al., (2010) identificaram que a administração de cepas de Bifidobacterium infantis em animais deprimidos normalizou o metabolismo do triptofano, reduzindo a conversão excessiva para quinurenina e restabelecendo parcialmente os níveis de serotonina. Esse achado reforça a relevância da microbiota na regulação da bioquímica cerebral.
A alimentação tem papel de extrema importância na composição e firmeza da microbiota intestinal. Dietas ricas em fibras, frutas, vegetais e grãos integrais promovem o crescimento de bactérias benéficas, fortalecendo a barreira intestinal e reduzindo processos inflamatórios (Medscape 2025).
Evidenciado por Pereira et al., (2020), dietas ricas em açúcares podem elevar marcadores inflamatórios, contribuindo para processos patológicos. Além disso, Silva et al., (2021) destacam que esse padrão alimentar compromete a integridade da barreira intestinal, facilitando a translocação de patógenos. Complementando, Lai et al., (2022) apontam que tais alterações na microbiota intestinal afetam diretamente a regulação do humor, reforçando a conexão entre dieta e saúde mental.
Cunha et al., (2021) destacam que padrões alimentares ocidentais, caracterizados pelo excesso de gorduras e açúcares, estão associados não apenas à alteração da microbiota intestinal, mas também ao aumento de biomarcadores inflamatórios. Essa condição cria um ambiente propício ao agravamento de sintomas depressivos. Jacka et al., (2017), em um estudo clínico randomizado, observaram que indivíduos diagnosticados com depressão moderada apresentaram melhora significativa após intervenção dietética baseada em alimentos integrais e minimamente processados. Esse achado reforça que a dieta deve ser considerada parte essencial no manejo terapêutico da depressão. Outros fatores também afetam a composição da microbiota, como o uso indiscriminado de antibióticos, o estresse crônico, o sedentarismo e a má qualidade do sono (Rodrigues et al., 2021).
Andrade e Lima (2022) afirmam que antibióticos de amplo espectro, quando usados sem critério, eliminam não apenas bactérias patogênicas, mas também as benéficas, comprometendo o equilíbrio microbiano e favorecendo infecções oportunistas e alterações metabólicas.
Almeida et al., (2009) acrescentam que o uso recorrente de anti-inflamatórios e antibióticos pode reduzir drasticamente a diversidade microbiana, predispondo a desordens metabólicas e emocionais. O estresse psicológico prolongado também afeta diretamente a microbiota, interferindo na motilidade intestinal, na secreção de muco e na integridade da mucosa intestinal.
Santos et al., (2019) ressaltam que o estresse crônico pode induzir a uma resposta neuroendócrina exacerbada, ativando o eixo HPA e gerando alterações na flora intestinal, o que pode contribuir para o agravamento de sintomas depressivos. Monteiro et al., (2018) complementam que fatores de estilo de vida, como privação do sono e sedentarismo, potencializam os efeitos negativos do estresse sobre a microbiota intestinal, criando um ciclo vicioso que intensifica os sintomas depressivos.
Diante da relevância da microbiota intestinal para o equilíbrio emocional e da sua relação com quadros depressivos, diversas estratégias terapêuticas têm sido estudadas com o objetivo de restaurar a composição microbiana saudável (Kazemi et al., 2019).
Blay Cortés (2025) Destacam-se o uso de probióticos e prebióticos, a adoção de dietas anti-inflamatórias e, mais recentemente, o transplante de microbiota fecal, sobretudo em casos mais graves de disbiose. Probióticos correspondem a microrganismos vivos que, ao serem ingeridos em quantidades apropriadas, contribuem para a promoção da saúde do organismo do hospedeiro.
Segundo Gomes et al., (2021), sua ingestão regular pode contribuir para a modulação do sistema imune, melhoria da barreira intestinal, redução de inflamações e aumento da produção de neurotransmissores benéficos, como a serotonina.
Desbonnet et al., (2010), em estudo experimental, observaram que o uso de Bifidobacterium infantis em modelos animais não apenas modulou o eixo intestino cérebro, mas também resultou em menor produção de citocinas inflamatórias, reforçando o potencial dos probióticos na redução de sintomas depressivos. Já os prebióticos consistem em substâncias não digeríveis, geralmente fibras alimentares, que servem de alimento para as bactérias benéficas do intestino, estimulando seu crescimento e atividade (Ribeiro et al., 2022 ; Sandhu et al., 2017).
Kasprowicz et al., (2022) denominam os probióticos com ação no sistema nervoso central de psicobióticos, ressaltando sua capacidade de modular a resposta ao estresse e de influenciar diretamente a produção de serotonina e dopamina, há resultados positivos com o uso de cepas específicas de probióticos na modulação do humor.
Em um experimento conduzido por Pinto-Sanchez et al., (2017), pacientes com Síndrome do Intestino Irritável e sintomas depressivos leves a moderados apresentaram significativa redução desses sintomas após o uso de Bifidobacterium longum NC3001. Além da melhora clínica, exames de imagem mostraram menor ativação em regiões cerebrais associadas ao medo e à ansiedade, como a amígdala e o córtex pré-frontal. Resultados semelhantes foram observados em estudos com Lactobacillus helveticus e Bifidobacterium infantis, em que indivíduos apresentaram menor incidência de ansiedade e depressão após o uso dessas cepas por algumas semanas (Furtado et al., 2018).
Oliveira et al., (2023) apontam que o transplante de microbiota fecal (TMF) tem apresentado resultados promissores não apenas em casos de infecção por Clostridium difficile, mas também como intervenção experimental para melhora de sintomas psiquiátricos relacionados à disbiose. Além das intervenções, o transplante de microbiota fecal tem emergido como uma abordagem promissora para restaurar rapidamente a diversidade microbiana em pacientes com disbiose severa, essa técnica tem demonstrado eficácia no tratamento de infecções recorrentes por Clostridium difficile, e há estudos em andamento avaliando seus efeitos na regulação do humor em indivíduos com distúrbios psiquiátricos (Johnstone et al., 2021).
Christofolett et al., (2022) ressaltam, no entanto, que apesar dos avanços, os protocolos de TMF ainda carecem de padronização e segurança para aplicação rotineira em saúde mental. Da mesma forma, Zhang et al., (2022) reforçam que os resultados positivos precisam ser confirmados em ensaios clínicos de longo prazo.
Brito et al., (2024) indicam que a utilização de probióticos e prebióticos pode funcionar como uma estratégia complementar no tratamento de distúrbios emocionais, como ansiedade e depressão. Esses suplementos ajudam a regular a produção de neurotransmissores e a reduzir processos inflamatórios, contribuindo para a manutenção da saúde mental.
O uso terapêutico de probióticos e prebióticos não substitui as abordagens convencionais, mas pode atuar como complemento, especialmente em quadros leves a moderados, ou como parte de uma estratégia de prevenção. Nesse contexto, destaca-se o papel do nutricionista na avaliação do estado de saúde intestinal, na orientação alimentar personalizada e no acompanhamento do uso seguro de suplementos probióticos (Jacoby et al., 2017). Além de orientar sobre a adoção de dietas ricas em fibras e alimentos fermentados, o profissional deve monitorar o uso seguro de suplementos, considerando as necessidades individuais de cada paciente (Soares et al., 2025).
Heringer et al., (2023) destaca que a atuação do nutricionista deve ir além da prescrição de dietas, envolvendo também educação alimentar e estratégias de adesão terapêutica. Essa abordagem amplia as chances de sucesso na modulação da microbiota. A atuação em conjunto com psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde permite uma abordagem mais ampla e humanizada, considerando as múltiplas dimensões que envolvem o adoecimento mental.
Melo et al., (2023) apontam que a integração multiprofissional é essencial para garantir o acompanhamento contínuo e reduzir recaídas em quadros depressivos. Janssen et al., (2018) complementam que o suporte interdisciplinar proporciona ao paciente maior adesão ao tratamento e melhor qualidade de vida.
Tabela 1: Evidências experimentais, observacionais e clínicas sobre o eixo microbiota intestino cérebro




Fonte: Elaborado pelas autoras (2025)
A análise dos estudos reunidos na tabela evidencia, de forma consistente, que o desequilíbrio da microbiota intestinal está associado ao desenvolvimento de sintomas depressivos, confirmando a importância do eixo intestino-cérebro como mediador dessa relação. De modo geral, tanto a ausência ou a perda da diversidade microbiana quanto a recomposição da flora intestinal por meio de dieta, probióticos e prebióticos demonstram impacto significativo no humor, no metabolismo de neurotransmissores e na modulação imunológica.
Os achados experimentais em modelos animais oferecem bases fisiológicas robustas para essa compreensão. Pesquisas como a de Sudo et al., (2004) mostraram que a ausência de microbiota em animais germ-free resulta em hiperativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o que reforça a necessidade da presença bacteriana para o equilíbrio da resposta ao estresse. De forma semelhante, Desbonnet et al., (2010) observaram que a administração de Bifidobacterium infantis foi capaz de normalizar o metabolismo do triptofano, essencial para a síntese de serotonina, reduzindo marcadores inflamatórios. Esses dados indicam que a microbiota não apenas participa da homeostase intestinal, mas atua diretamente na bioquímica cerebral e, por consequência, no comportamento.
Estudos translacionais como o de Kelly et al., (2016) acrescentam evidências ainda mais relevantes, ao mostrarem que a transferência da microbiota de pacientes com depressão para animais saudáveis induziu comportamentos semelhantes à depressão. Esse resultado sugere que a microbiota pode funcionar não apenas como reflexo do estado clínico, mas como fator determinante no desencadeamento de sintomas. Além disso, pesquisas observacionais, como a de Silva et al., (2019), destacam o papel dos ácidos graxos de cadeia curta, cujos níveis reduzidos aumentam a inflamação e a permeabilidade intestinal, criando um ambiente propício para alterações emocionais.
Por outro lado, ensaios clínicos, como o conduzido por Jacka et al., (2017), demonstraram que uma intervenção dietética baseada em alimentos integrais e minimamente processados foi capaz de reduzir sintomas depressivos em pacientes. Esse resultado reforça o potencial da alimentação como recurso terapêutico acessível e de baixo custo. Da mesma forma, Pinto-Sanchez et al., (2017) observaram que o uso da cepa Bifidobacterium longum NCC3001 em indivíduos com síndrome do intestino irritável e depressão leve a moderada resultou não apenas em melhora clínica, mas também em alterações cerebrais detectáveis por exames de imagem. Esses achados fortalecem a ideia de que a modulação da microbiota pode repercutir positivamente no funcionamento emocional e cognitivo.
O papel dos prebióticos também se mostra relevante. Ao estimularem seletivamente o crescimento de bactérias benéficas, essas fibras contribuem para a redução de processos inflamatórios e para a manutenção da integridade da barreira intestinal. Apesar de apresentarem efeitos clínicos mais discretos em comparação aos probióticos, seu baixo custo e fácil inserção na dieta cotidiana representam vantagens importantes para estratégias preventivas e complementares.
O transplante de microbiota fecal (TMF), por sua vez, surge como uma intervenção promissora, com estudos piloto demonstrando redução de sintomas ansiosos e depressivos em indivíduos com disbiose severa. No entanto, revisões sistemáticas apontam que ainda há carência de protocolos padronizados, além de limitações relacionadas ao número reduzido de participantes e ao curto tempo de acompanhamento. Dessa forma, o TMF deve ser interpretado com cautela, permanecendo no campo experimental quando aplicado à saúde mental.
Apesar da riqueza de resultados, a análise crítica da tabela evidencia limitações importantes. Muitos dos mecanismos mais detalhados foram identificados em modelos animais, o que dificulta a extrapolação direta para humanos. Além disso, os ensaios clínicos disponíveis contam, em sua maioria, com amostras pequenas e seguimento de curto prazo, o que não permite afirmar com segurança a durabilidade dos efeitos observados. A heterogeneidade metodológica entre os estudos, envolvendo diferentes cepas probióticas, doses, populações-alvo e critérios de avaliação, também restringe a possibilidade de padronizar protocolos clínicos. Somam-se a isso a ausência de subanálises por idade, sexo e comorbidades, e a possibilidade de viés de publicação, já que estudos com resultados positivos tendem a ser mais frequentemente divulgados.
Em síntese, os achados da tabela permitem afirmar que a microbiota intestinal exerce papel relevante na saúde mental, influenciando processos fisiológicos, metabólicos e inflamatórios diretamente relacionados à depressão. Intervenções nutricionais, como a adoção de dietas anti-inflamatórias, a suplementação com probióticos e prebióticos, e, em casos experimentais, o transplante fecal, representam alternativas promissoras no manejo complementar da doença. Contudo, deve-se enfatizar que essas estratégias não substituem os tratamentos convencionais, mas podem atuar como adjuvantes dentro de uma abordagem multiprofissional. Essa interpretação equilibrada reforça a necessidade de novos ensaios clínicos de longo prazo e destaca a importância do nutricionista no contexto da saúde mental, em articulação com outros profissionais da saúde, para promover uma assistência integral, segura e humanizada.
4.CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desequilíbrio da microbiota intestinal está intimamente ligado a alterações fisiológicas que podem favorecer o surgimento de sintomas depressivos. A redução na diversidade microbiana compromete processos essenciais, como a produção de neurotransmissores, a regulação do sistema imunológico e a manutenção da integridade da barreira intestinal, evidenciando a importância da microbiota na saúde mental. Fatores como alimentação inadequada, uso excessivo de antibióticos, estresse prolongado e hábitos de vida sedentários mostraram-se determinantes para o desenvolvimento da disbiose, refletindo diretamente na vulnerabilidade emocional dos indivíduos. Por outro lado, estratégias voltadas à promoção do equilíbrio intestinal incluindo a introdução de probióticos e Prebióticos, dietas ricas em fibras e, em casos específicos, abordagens emergentes como o transplante de microbiota fecal mostraram-se promissoras como ferramentas complementares no cuidado de pessoas com sintomas depressivos.
A saúde intestinal deve ser reconhecida como componente central do cuidado em saúde mental. Integrar estratégias nutricionais e terapêuticas ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico não apenas amplia a compreensão do tratamento da depressão, mas também reforça a importância de práticas humanizadas e preventivas. Cuidar da microbiota intestinal, nesse contexto, significa promover o bem estar físico e emocional de forma integrada, abrindo caminhos para abordagens de saúde mais completas e eficazes.
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¹Graduanda do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: darcizetemeireles@yahoo.com.br , darcilacouto@hotmail.com , ivoneregg@gmail.com;
²Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: francisca.freitas@fametro.edu.br;
³Coorientadora do TCC, Mestranda em Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: rosimar.lobo@fametro.edu.br
