THE INCREASE IN PSYCHOPHARMACEUTICAL CONSUMPTION AFTER THE PANDEMIC
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512120027
Amanda de Sousa Noleto1
Carlos Eduardo Noleto Ribeiro1
Mariana da Silva Bandeira1
Renato Santana Vieira de Sousa2
RESUMO
A pandemia da COVID-19 desencadeou importantes impactos na saúde mental, com aumento de sintomas de ansiedade, depressão e estresse em diferentes grupos populacionais. Esse contexto favoreceu maior demanda por psicofármacos e intensificou discussões sobre medicalização, vulnerabilidade social e acesso ao cuidado em saúde mental. Diante desse cenário, torna-se relevante analisar como o consumo de psicotrópicos evoluiu durante e após a pandemia, bem como os fatores associados a esse fenômeno. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases BVS, PubMed e SciELO, com publicações selecionadas entre 2019 e 2025. Utilizaram-se os descritores “psicofármacos”, “COVID-19” e “saúde mental”, incluindo variações e termos correlatos. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 07 compuseram a amostra final. Os dados foram analisados de maneira descritiva, considerando população estudada, tipo de psicofármacos utilizados e fatores associados ao consumo. Resultados: Os estudos evidenciaram aumento significativo do uso de antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores de humor durante a pandemia, especialmente entre universitários, profissionais da saúde e grupos vulneráveis, como mulheres, pessoas trans e indivíduos LGBTQIAPN+. Fatores como sobrecarga emocional, isolamento social, insegurança econômica e estresse ocupacional foram determinantes para a intensificação do sofrimento psíquico. Também foram observadas variações regionais na dispensação de psicofármacos e maior presença de resíduos desses fármacos em sistemas ambientais, refletindo sua ampliação no consumo populacional. Conclusão: Os achados demonstram que a pandemia acentuou a medicalização do sofrimento psíquico e elevou o consumo de psicofármacos no país. O estudo destaca a importância do acompanhamento farmacoterapêutico e do papel do farmacêutico na promoção do uso racional desses medicamentos, na vigilância de padrões de consumo e na atuação integrada com equipes de saúde mental. As evidências reunidas apontam ainda para a necessidade de pesquisas futuras que investiguem o cenário pós-pandêmico, a efetividade de políticas públicas e as estratégias de cuidado que reduzam a dependência de soluções exclusivamente medicamentosas.
Palavras-chave: Psicofármacos; COVID-19; Saúde Mental.
ABSTRACT
The COVID-19 pandemic produced significant impacts on mental health, increasing symptoms of anxiety, depression, and stress across diverse populations. This scenario intensified the demand for psychotropic medications and expanded discussions on medicalization, social vulnerability, and access to mental health care. This integrative literature review searched the BVS, PubMed, and SciELO databases for studies published between 2019 and 2025, using the descriptors “psychopharmaceuticals,” “COVID-19,” and “mental health,” including variations and related terms. After applying eligibility criteria, seven studies were included. Data were analyzed descriptively, considering the populations studied, types of psychotropic drugs used, and factors associated with consumption. Results: The findings revealed a significant increase in the use of antidepressants, anxiolytics, and mood stabilizers during the pandemic, particularly among university students, healthcare workers, and vulnerable groups such as women, transgender individuals, and LGBTQIAPN+ populations. Emotional overload, social isolation, economic insecurity, and occupational stress were major determinants of heightened psychological distress. Regional variations in psychotropic dispensing and increased environmental residues of these substances were also identified, reflecting their growing population-level consumption. Conclusion: The pandemic intensified the medicalization of psychological distress and increased psychotropic use nationwide. The study highlights the relevance of pharmaceutical care and the pharmacist’s role in promoting rational medication use, monitoring consumption patterns, and collaborating with mental health teams. The evidence also underscores the need for future research on post-pandemic trends, the effectiveness of public policies, and strategies that reduce reliance on exclusively pharmacological interventions.
Keywords: Psychopharmaceuticals; COVID-19; Mental Health.
INTRODUÇÃO
A Coronavirus Diease – 2019, comumente conhecida pela sigla COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, foi identificada em dezembro de 2019 em Wuhan, China, e rapidamente se espalhou pelo mundo, levando a Organização Mundial da Saúde – OMS, a declarar pandemia em março de 2020. Além das consequências respiratórias diretas, a doença trouxe importantes repercussões neurológicas e psicológicas, sendo a chamada “COVID longa”, responsável por sintomas persistentes como depressão, ansiedade e déficits cognitivos (OMS, 2020; Le et al., 2023; OMS, 2024).
Diante dos desafios impostos pela gênese da pandemia, diversas medidas de controle sanitário foram implantadas, para conter a transmissão viral, entre elas, o isolamento social. Tais medidas de contenção alteraram significativamente a rotina das pessoas e contribuíram para o aumento de transtornos mentais, especialmente entre jovens, mulheres e profissionais da saúde. O medo, a incerteza e a insegurança financeira levaram muitos indivíduos a buscarem o uso de psicofármacos, principalmente antidepressivos e ansiolíticos, como forma de aliviar o sofrimento emocional (Davis et al., 2023).
A presente pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender como o cenário instaurado pela COVID-19 influenciou o uso ampliado de psicofármacos e suas repercussões para a saúde pública. Pretende-se identificar os fatores que contribuíram para a intensificação da medicalização, discutir os riscos de dependência e propor estratégias voltadas à prevenção e ao uso racional desses fármacos, considerando as implicações desse fenômeno para a saúde coletiva e para o fortalecimento das políticas de atenção psicossocial.
Nesta perspectiva, portanto, este estudo tem como objetivo analisar o aumento do consumo de psicofármacos no Brasil durante o período pandêmico, destacando sua relação com os impactos sobre a saúde mental da população. Parte-se da hipótese de que houve um crescimento significativo na utilização desses medicamentos, associado ao aumento dos casos de ansiedade e depressão observados no mesmo período.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que se caracteriza como um método de pesquisa voltado à reunião, análise e síntese de estudos primários sobre uma temática previamente investigada, possibilitando a construção de um panorama abrangente e atualizado das evidências científicas disponíveis (Souza; Silva; Carvalho, 2010). O estudo teve como questão norteadora: Como o contexto pandêmico da COVID-19 influenciou o crescimento do uso de psicofármacos no Brasil e quais evidências científicas apontam sua relação com o agravamento dos transtornos mentais na população?
Para a busca dos estudos de interesse, foi utilizada a estratégia PICo, modelo amplamente empregado na formulação de perguntas de pesquisa em estudos qualitativos e revisões integrativas. O acrônimo representa os elementos: P (População ou Problema), I (Interesse ou Fenômeno de Investigação) e Co (Contexto), permitindo delimitar de forma clara o foco da investigação e direcionar a busca nas bases de dados científicas (Santos; Pimenta; Nobre, 2007).
Assim, definiu-se P: população brasileira e o aumento do consumo de psicofármacos; I: impactos do contexto pandêmico sobre o uso exacerbado desses fármacos e suas repercussões na saúde mental; Co: período pandêmico da COVID-19 no Brasil.
A coleta de dados foi realizada em agosto de 2024, por meio das bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed – National Library of Medicine e SciELO – Scientific Electronic Library Online. Utilizaram-se descritores e sinônimos em português, extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), e suas respectivas traduções em inglês, provenientes do Medical Subject Headings (MeSH). O operador booleano AND foi empregado para cruzamento dos termos. Foram considerados os descritores “psicofármacos”, “COVID19” e “saúde mental”, bem como suas variações e termos correlatos, tais como “medicamentos psicotrópicos”, “fármacos psiquiátricos”, “tratamento psicofarmacológico”, “pandemia de SARS-CoV-2”, “coronavírus”, “impactos psicossociais da pandemia”, “transtornos mentais”, “sofrimento psíquico” e “assistência em saúde mental”. Esses descritores e expressões relacionadas foram utilizados de forma combinada para ampliar a sensibilidade da busca e garantir a abrangência temática necessária ao estudo.
Como critérios de elegibilidade, incluíram-se publicações em português, inglês e espanhol, que abordassem a temática relacionada à questão norteadora, indexadas nas bases supracitadas e publicadas no período de 2019 a 2025.
Foram excluídos estudos duplicados, incompletos, que tratassem apenas do contexto pandêmico sem relação com o uso de psicofármacos, além de monografias, dissertações, teses e outros documentos não revisados por pares.
Após a filtragem da amostra, procedeu-se à análise minuciosa das publicações selecionadas, a fim de extrair informações consistentes para o estudo. Os resultados foram organizados por título, autores, ano, resultados e conclusão. Na fase de discussão, os achados foram comparados com outras evidências disponíveis na literatura, possibilitando a interpretação crítica e integrada dos principais resultados identificados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Inicialmente, 184 publicações foram selecionadas para leitura e interpretação dos dados. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos, 07 estudos foram inclusos na amostra final, por atenderem aos requisitos da presente pesquisa. As principais características desses estudos estão sintetizadas no quadro abaixo, com vistas a proporcionar uma visão comparativa das evidências analisadas. Com vistas a sintetizar os dados obtidos, gráficos foram elaborados, representando a distribuição dos estudos selecionados por ano de publicação e grupos populacionais. Tal organização gráfica colabora para a compreensão do panorama geral da produção científica sobre a temática.
Quadro 1. Análise dos estudos incluídos na amostra.
| TÍTULO | AUTOR(ES)/ANO | RESULTADOS | CONCLUSÃO |
| Factores asociados al sufrimiento mental de estudiantes universitarios en São Paulo entre 2017 y 2021 | Leonardi, F. G.; Andreazza, R.; Wagner, G. A., 2021 | Observou-se um aumento significativo nos indicadores de sofrimento mental durante o contexto pandêmico, acompanhado de maior uso de psicofármacos. Os resultados evidenciaram maior vulnerabilidade entre estudantes pertencentes a grupos específicos, como mulheres, pessoas transgênero e indivíduos com deficiência, que apresentaram maior probabilidade de sofrimento psíquico. | O sofrimento mental entre estudantes universitários é influenciado por fatores individuais e contextuais, sendo intensificado por condições de vulnerabilidade e agravado pela pandemia. Os autores destacam a necessidade de implementação de políticas institucionais permanentes de apoio à saúde mental e à permanência estudantil, com enfoque em ações preventivas e inclusivas. |
| Did the COVID-19 pandemic influence the use of psychotropic medications by university students and LGBTQIAPN+? A Brazilian multicenter study. | Paula, W. et al., 2025 | Entre os usuários da amostra, 44,9% iniciaram o uso durante a pandemia, 29,8% já usavam e adicionaram novos medicamentos durante a pandemia, e 25,3% já usavam antes da pandemia. A regressão logística multinomial revelou que ser do sexo feminino ou não heterossexual elevou as chances de uso de psicotrópicos durante a pandemia. Estudantes com pele preta, parda ou de outras etnias declaradas apresentaram menor probabilidade de iniciar ou aumentar o uso de psicotrópicos em comparação a estudantes brancos. | A pandemia de COVID‑19 contribuiu para o aumento no uso de medicamentos psicotrópicos entre estudantes universitários, especialmente entre mulheres e integrantes de grupos LGBTQIAPN+. Há, portanto, evidências de que esses grupos minoritários apresentaram maior propensão a adoção ou aumento do uso de tais medicamentos em resposta ao sofrimento mental durante o período pandêmico. Os achados ressaltam a necessidade de políticas institucionais e de saúde mental dirigidas a estudantes universitários, com atenção especial às vulnerabilidades associadas ao gênero e à orientação sexual. |
| Sintomas de depressão em trabalhadores da saúde durante a pandemia de COVID-19: estudo transversal | Oliveira, M. M. et al., 2024 | O estudo realizado com 108 trabalhadores da saúde brasileiros identificou uma prevalência de sintomas de depressão de 51,9%. Observou-se associação significativa entre sintomas de depressão e o uso contínuo de fármacos, especialmente psicotrópicos. Além disso, profissionais com diagnóstico prévio de transtornos mentais e aqueles que relataram pior autopercepção de saúde apresentaram maior probabilidade de utilizar medicações psicotrópicas durante o período pandêmico, evidenciando uma tendência de aumento no consumo desses medicamentos como resposta ao sofrimento psíquico associado ao contexto de trabalho e à pandemia de COVID-19. | Houve uma relação direta entre sintomas depressivos e o aumento no uso de medicações psicotrópicas entre trabalhadores da saúde durante a pandemia. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental e ao uso racional de psicofármacos, com foco na prevenção do sofrimento psíquico e na oferta de suporte psicológico contínuo a profissionais expostos a condições laborais intensas e estressoras. |
| Tracking the surge of psychiatric pharmaceuticals in urban rivers of Curitiba amidst and beyond the SARS-CoV-2 pandemic. | Gomes, M. P.; Gomes, L. P., 2024 | Os resultados mostraram que os antidepressivos fluoxetina e sertralina foram os mais prevalentes. Observou-se que, em comparação ao período pré-pandemia, as concentrações de fluoxetina e alprazolam aumentaram em até 741% e 524%, respectivamente. Após a pandemia, as concentrações continuaram elevadas, com aumento médio de cerca de 20% para fluoxetina e 15% para alprazolam. | O estudo identificou um aumento expressivo nas concentrações de fármacos psiquiátricos durante e após a pandemia. Entre os medicamentos detectados, destacaram-se a fluoxetina e o alprazolam, que apresentaram elevações significativas, evidenciando o impacto do aumento do consumo desses psicofármacos pela população e sua consequente presença no ambiente urbano. |
| Use of Psychotropic Drugs during the COVID-19 pandemic in Minas Gerais, Brazil | Barros, J .C.; Nascimento, S., 2023 | Foi observado um aumento geral no consumo de psicofármacos. Na componente básica de assistência farmacêutica, os medicamentos com maiores valores de dose diária definida foram: Fluoxetina cloridrato, Diazepam e Fenobarbital sódico. Os maiores aumentos percentuais foram para Clonazepam (75,37 %) e Carbonato de Lítio (35,35 %) durante o período pandêmico. Na componente especializada, os medicamentos mais consumidos foram Olanzapina, Risperidona e Quetiapina hemifumarato. Os maiores aumentos percentuais ocorreram com Levetiracetam (3.000%) e Memantina cloridrato (340,0%) no período estudado. | Houve uma alteração significativa no perfil de dispensação de medicamentos psicotrópicos durante a pandemia de COVID-19 no SUS de Minas Gerais, com aumento expressivo no consumo de ansiolíticos, antidepressivos e outros fármacos psiquiátricos. Essa mudança evidencia a necessidade de estudos adicionais para aprofundar o entendimento desse fenômeno e de monitoramento contínuo do uso desses medicamentos pela população no cenário pós-pandêmico, com vistas à formulação de políticas adequadas de saúde mental e farmacêutica. |
| Psicotrópicos: uso por estudantes universitários antes e durante a pandemia de doença por coronavírus 2019 | Kantorski, L. P. et al., 2022 | Da amostra, 37,3% relataram o uso de medicamento psicotrópico antes ou durante a pandemia. Desses, mais de 80% já usavam antes da pandemia e 17,5% iniciaram o uso após o início do período pandêmico. A maioria dos usuários era do sexo feminino, solteira e cursando o primeiro ou último semestre da graduação. Os antidepressivos foram os fármacos mais utilizados (64,0%). | Os autores sugerem que a pandemia de COVID-19 pode ter intensificado a prevalência do uso de psicotrópicos entre estudantes universitários, o que aponta para a necessidade de desenvolvimento de programas e políticas voltadas à promoção e ao cuidado da saúde mental neste segmento. |
| Prescrição e dispensação de benzodiazepínicos em tempos de pandemia da covid-19 no Brasil | Ferreira, D. A. et al., 2022 | Observou-se que os medicamentos alprazolam e clonazepam foram os mais prescritos e dispensados, com maior concentração na região Sudeste, seguida pela região Sul. Apesar da expectativa de aumento expressivo no consumo desses fármacos durante a pandemia, os dados revelaram manutenção relativamente estável das taxas de prescrição e dispensação em comparação aos períodos anteriores à crise sanitária. Entretanto, a análise detalhada por trimestre indicou pequenas variações regionais e sazonais, sugerindo que fatores como medo, ansiedade e distanciamento social podem ter influenciado a procura por benzodiazepínicos de forma localizada, mesmo sem refletir em um aumento nacional significativo. Além disso, a faixa etária mais prevalente entre os usuários concentrava-se entre 30 e 49 anos, predominando mulheres, o que corrobora padrões observados em estudos internacionais sobre consumo de ansiolíticos. | Apesar da pandemia de COVID-19 ter sido associada a um aumento no sofrimento psicológico e na ansiedade da população, a prescrição e dispensação de benzodiazepínicos no Brasil permaneceram relativamente estáveis nos primeiros trimestres de 2020 e 2021. Esses achados sugerem que, embora haja sinais pontuais de aumento de demanda em determinadas regiões e faixas etárias, políticas de controle e monitoramento eficazes do uso de psicofármacos podem ter contribuído para evitar um aumento desordenado do consumo. Ressalta-se a importância de manter o acompanhamento contínuo, principalmente em situações de crise sanitária, para garantir o uso racional desses medicamentos e reduzir riscos de dependência e efeitos adversos. |
Gráfico 1. Distribuição dos estudos selecionados na amostra final segundo ano de publicação.

Gráfico 2. Distribuição dos fármacos mais citados na amostra segundo classes medicamentosas

*IRSR: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina, *BZD: Benzodiazepínicos. Fonte: Pesquisadores proponentes do estudo (2025).
Cerca de 53 milhões de novos casos de ansiedade e 76 milhões de casos de depressão foram notificados em todo o mundo. Os medicamentos mais utilizados no tratamento destas patologias incluíram paroxetina, sertralina, fluvoxamina, citalopram e escitalopram. Apesar de eficazes, o uso indiscriminado desses fármacos pode causar efeitos adversos relevantes, tais como: distúrbios do sono, dependência química e disfunção sexual (Cabral et al., 2021; Andrade et al., 2022; Lopes et al., 2022).
Os resultados obtidos pelos autores Leonardi, Andreazza e Wagner (2021), Paula et al. (2025) e Kantorski et al. (2022) revelaram aumento significativo nos indicadores de sofrimento mental durante o contexto pandêmico, associado ao maior uso de psicofármacos. Os autores destacaram maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico entre estudantes universitários pertencentes a grupos específicos, como mulheres, pessoas transgênero e indivíduos com deficiência.
De modo concordante aos resultados supracitados, Leão et al. (2018) afirma que dentre os diversos grupos sociais, os estudantes universitários possuem maior probabilidade de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão. Ao considerar fatores que fortemente associam-se à prevalência de agravos mentais entre este público, Gaia et al. (2021) destaca a inatividade física, a insatisfação com quantidade de sono e a dificuldade de conciliar a vida acadêmica com afazeres cotidianos.
Segundo Araújo et al. (2021) o aumento do consumo de psicofármacos entre universitários não apresentou associação significativa com o contexto pandêmico. De acordo com os autores, o consumo de medicamentos entre estudantes representa uma estratégia utilizada para lidar com o desequilíbrio psíquico e as demandas emocionais, funcionando, em muitos casos, como um mecanismo de refúgio.
De modo semelhante, Amaral et al. (2022) salienta que a automedicação apresenta um crescimento expressivo entre jovens universitários em diversas partes do mundo, favorecida pela ampla disponibilidade de medicamentos e pela crença incorreta de que são inteiramente seguros. Assim, o desejo de minimizar desconfortos emocionais, como ansiedade e depressão, ou de enfrentar as exigências do cotidiano, pode conduzir o estudante ao uso de psicofármacos, independentemente da orientação médica.
No que concerne à vulnerabilidade de grupos minoritários apontada nos estudos de Leonardi, Andreazza e Wagner (2021), Paula et al. (2025) e Kantorski et al. (2022), Sacramento et al. (2021) destaca que universitários com identidades sexuais divergentes da orientação heterossexual apresentam maior vulnerabilidade emocional. No contexto pandêmico, tais fatores podem ter sido agravados pelo isolamento e pela ruptura das redes de apoio, o que intensificou o sofrimento psíquico e contribuiu para o aumento do consumo de psicofármacos.
Pelo exposto, é possível refletir que o contexto pandêmico intensificou condições previamente existentes, potencializando o sofrimento psíquico e ampliando o consumo de psicofármacos entre universitários. O isolamento social, a ruptura de vínculos de apoio e a incerteza em relação ao futuro podem ter atuado como novos fatores agravantes, sobretudo entre grupos que já se encontravam em situação de maior vulnerabilidade, evidenciando a fragilidade das estratégias institucionais de cuidado e acolhimento voltadas à saúde mental dos estudantes.
As análises realizadas por Oliveira et al. (2024) apontaram uma relação direta entre a presença de sintomas depressivos e o aumento do uso de psicofármacos entre profissionais da saúde durante a pandemia. De forma concordante, Ornell et al. (2020) os profissionais de saúde costumam experienciar estressores como: riscos aumentados de ser infectado, adoecer e morrer, sobrecarga e fadiga, exposição a mortes em larga escala, frustração por não conseguir salvar vidas. Tais desafios enfrentados pelos profissionais de saúde podem ser um gatilho para o desenvolvimento ou intensificar sintomas de ansiedade, depressão e estresse.
Em convergência com tais achados, Oliveira, Santos e Dallaqua (2021) identificaram um aumento expressivo no consumo de psicofármacos entre profissionais da saúde durante a pandemia da COVID-19, atribuído à sobrecarga de trabalho e ao estresse contínuo. Os autores ressaltam que o contexto pandêmico intensificou sintomas de ansiedade, depressão e insônia, levando muitos trabalhadores a recorrerem ao uso de medicamentos psicotrópicos como forma de aliviar o sofrimento psíquico e lidar com a exaustão emocional.
Os resultados obtidos por Gomes, Gomes (2024), Barros e Nascimento (2023) e Ferreira et al. (2022) demonstram a dispensação de medicamentos psicotrópicos segundo amostra e região pesquisada. As variações demonstram que a dispensação de psicotrópicos não ocorre de forma homogênea no território nacional. Tal fato evidencia a influência de fatores culturais e socioeconômicos que modulam a busca por tratamento e o consumo de psicofármacos.
Ao analisar o total de medicamentos dispensados em um contexto distinto dos supracitados, identificou-se que o clonazepam, a risperidona, a fluoxetina e a carbamazepina foram os fármacos com maior número de dispensações durante o período estudado. Entretanto, quando comparados os anos que antecederam a pandemia com aqueles que a compreendem, verificou-se que sete medicamentos apresentaram maiores chances de serem prescritos durante a COVID-19: carbonato de lítio, clorpromazina, haloperidol, fluoxetina, clomipramina, diazepam e ácido valproico, que registraram aumento de 30% e 19% nas prescrições de carbonato de lítio e risperidona, respectivamente, em relação ao ano de 2019 (Alcântara et al. 2022).
Esses achados se alinham aos resultados de Alves et al. (2022), que também identificaram elevação na dispensação de clorpromazina durante a pandemia. Em outro cenário, o haloperidol, pertencente à classe das butirofenonas, medicamento amplamente utilizado no manejo de esquizofrenia, distúrbios comportamentais e crises de ansiedade grave (Margonato et al., 2004), foi recomendado amplamente para o controle de delírios e alucinações em pacientes com manifestações neuropsiquiátricas associadas à COVID-19 (Kahl; Correll, 2020).
Outros estudos igualmente apontaram crescimento na dispensação de clomipramina, diazepam e ácido valproico, como reflexo do contexto pandêmico (Piga et al., 2021; Meira et al., 2021; Alcântara et al., 2022). Em contrapartida, outros psicofármacos como amitriptilina, nortriptilina, carbamazepina, clonazepam e risperidona apresentaram menores taxas de prescrição no mesmo período. Vale destacar que amitriptilina e nortriptilina, compartilham mecanismo de ação semelhante ao da clomipramina, atuando na modulação de neurotransmissores relacionados ao humor (Silva et al., 2012).
De modo geral, os resultados evidenciam que a pandemia da COVID-19 intensificou a medicalização dos sofrimentos psíquicos, refletida no aumento da dispensação de diversos psicofármacos em diferentes regiões do país. Essa ampliação, contudo, não se deu de maneira uniforme, uma vez que fatores como disponibilidade de serviços especializados, políticas locais de saúde mental e condições socioeconômicas influenciam diretamente os padrões de prescrição e acesso aos medicamentos. Essa realidade reforça a necessidade de políticas públicas que promovam o uso racional de psicofármacos, ao mesmo tempo em que ampliem estratégias psicossociais e interdisciplinares voltadas à promoção e ao cuidado integral em saúde mental.
CONCLUSÃO
A análise integrativa realizada demonstrou que a pandemia de COVID-19 intensificou o sofrimento psíquico em diferentes grupos populacionais e corroborou, de maneira expressiva, para o aumento do consumo de psicofármacos. Os estudos incluídos demonstraram elevação do uso de antidepressivos, ansiolíticos e outros psicotrópicos entre universitários, profissionais da saúde e na população geral, além de ampliarem a compreensão sobre desigualdades de gênero, orientação sexual e condições de trabalho relacionadas ao uso dessas medicações. As variações regionais observadas na dispensação também indicam que fatores socioeconômicos e estruturais modulam o acesso e o padrão de utilização desses medicamentos.
Os achados reforçam a necessidade de fortalecimento das políticas de saúde mental, com foco em estratégias de prevenção, acolhimento psicossocial e monitoramento do uso de psicofármacos. Nesse contexto, o estudo contribui diretamente para a atuação do farmacêutico, ao destacar a importância do acompanhamento sistemático da farmacoterapia, da identificação de padrões inadequados de consumo, do manejo de possíveis riscos e da promoção do uso racional desses medicamentos, especialmente em períodos de crise sanitária e social.
Por fim, as evidências reunidas apontam para a necessidade de investigações futuras que explorem a evolução desse consumo no período pós-pandêmico, as motivações subjetivas que levam à busca por psicofármacos, o impacto das políticas públicas de saúde mental e a efetividade das intervenções farmacêuticas voltadas à segurança do paciente e à redução da medicalização ampliada do sofrimento psíquico.
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1Discente do curso de Bacharelado em Farmácia – UNIFAESF Centro Universitário
2Farmacêutico Graduado pelo Centro Universitário Santo Agostinho. Docente do curso de Bacharelado em Farmácia – UNIFAESF Centro Universitário.
