NUMBER OF MAJOR CARDIOVASCULAR EVENTS IN GOIÁS OVER THE LAST 10 YEARS AND THE IMPACT OF EMERGENCY MEDICINE SPECIALISTS ON MORBIDITY AND MORTALITY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202512141518
Dra. Lorena Torres Magalhães1
Dr. Thiago Dos Santos Vieira2
RESUMO
As doenças cardiovasculares constituem uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil, destacando-se o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular cerebral (AVC) como emergências tempo dependentes cuja evolução clínica é diretamente influenciada pela qualidade e rapidez do atendimento inicial. No estado de Goiás, observa- se aumento progressivo da demanda por cuidados emergenciais, o que reforça a relevância de analisar a organização dos serviços hospitalares e o papel do especialista em Medicina de Emergência. Este estudo tem como objetivo quantificar a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores no estado nos últimos dez anos e investigar a relação entre a presença do médico emergencista e indicadores assistenciais relacionados à morbimortalidade. Trata-se de um estudo retrospectivo, observacional e analítico, utilizando dados secundários provenientes do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) e complementado por revisão narrativa da literatura. O recorte temporal abrange o período de 2015 a 2024, incluindo casos atendidos em serviços de urgência e emergência com diagnóstico de IAM ou AVC. Serão analisados indicadores como taxas de mortalidade, tempos críticos de atendimento e organização dos fluxos assistenciais, considerando a influência da especialização médica na condução inicial desses agravos. A discussão abordará o papel da Medicina de Emergência na redução de atrasos terapêuticos, manejo de condições tempo-dependentes e impacto no desfecho clínico, evidenciando suas implicações para a qualificação da Rede de Atenção às Urgências e para políticas públicas de saúde.
Palavras-chave: Eventos Cardiovasculares. Medicina de Emergência. Morbimortalidade.
ABSTRACT
Cardiovascular diseases are among the leading causes of morbidity and mortality in Brazil, with acute myocardial infarction (AMI) and stroke standing out as time-dependent emergencies whose clinical outcomes are directly influenced by the quality and promptness of initial care. In the state of Goiás, there has been a progressive increase in the demand for emergency services, reinforcing the importance of analyzing hospital service organization and the role of the Emergency Medicine specialist. This study aims to quantify the occurrence of major cardiovascular events in the state over the past ten years and to investigate the relationship between the presence of an emergency physician and care indicators related to morbidity and mortality. This is a retrospective, observational, and analytical study using secondary data from the Brazilian Unified Health System Hospital Information System (SIH/SUS), complemented by a narrative literature review. The time frame includes the period from 2015 to 2024, encompassing cases treated in urgent and emergency services with a diagnosis of AMI or stroke. Indicators such as mortality rates, critical care time intervals, and organization of care pathways will be analyzed, considering the influence of medical specialization on initial management. The discussion will address the role of Emergency Medicine in reducing therapeutic delays, managing time-dependent conditions, and improving clinical outcomes, highlighting its implications for strengthening the Emergency Care Network and informing public health policies.
Keywords: Cardiovascular Events. Emergency Medicine. Morbidity and Mortality.
1. INTRODUÇÃO
As doenças cardiovasculares permanecem como uma das principais causas de morbimortalidade no mundo e no Brasil, com destaque para o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular cerebral (AVC), os quais constituem importantes emergências tempo dependentes. No contexto brasileiro, estudos recentes apontam que, embora haja avanços em políticas públicas e expansão das redes de atenção, a carga desses agravos permanece elevada, com variações regionais significativas quanto à incidência, mortalidade e acesso ao cuidado especializado (BRASIL et al., 2024; COSTA et al., 2023; DA SILVA et al., 2024; DOS SANTOS et al., 2025).
No estado de Goiás, tal realidade se insere em um cenário de crescente número de eventos cardiovasculares maiores nos últimos anos, influenciado por fatores demográficos, epidemiológicos e pela organização dos serviços de urgência e emergência (LIMA et al., 2024). O atendimento inicial no pronto-socorro é determinante para o prognóstico, especialmente porque as intervenções terapêuticas para IAM e AVC dependem diretamente da redução dos tempos porta- agulha, porta-balão e início precoce de estratégias de repercussão ou recanalização (GANTI et al., 2023; GANTI, 2025).
A literatura tem demonstrado que a superlotação dos serviços de emergência, frequentemente associada à escassez de leitos e ao fluxo lento de internação, aumenta o tempo de permanência dos pacientes e está relacionada a piores desfechos clínicos, incluindo mortalidade e complicações evitáveis (AF UGGLAS et al., 2020; WOODWORTH, 2020; WESSMAN et al., 2022; BURGESS; RAY-BARRUEL; KYNOCH, 2022). Nesse contexto, a presença e a atuação de médicos especialistas em medicina de emergência têm sido apontadas como elementos capazes de reduzir atrasos na tomada de decisão, melhorar o gerenciamento do fluxo assistencial e diminuir tempos críticos na condução de eventos cardiovasculares (CHOI; JEONG; KIM, 2020; TROTZKY et al., 2021; MOON et al., 2023).
A Medicina de Emergência consolidou-se como especialidade ao longo de um processo histórico marcado por transformações nos sistemas de saúde e pela crescente demanda por assistência rápida e qualificada a condições clínicas tempo- dependentes. No cenário internacional, sua estruturação ocorreu inicialmente em países como Estados Unidos e Reino Unido, a partir da década de 1960, em um contexto de urbanização acelerada, aumento da complexidade hospitalar e necessidade de organizar o atendimento a situações críticas em um único ponto da rede (MERRIT, 2014). Nos Estados Unidos, a primeira residência formal em Emergency Medicine foi criada na Universidade de Cincinnati em 1970, sendo a especialidade reconhecida pelo American Board of Medical Specialties em 1979 (MUNDT et al., 2008). O modelo norte-americano enfatizou a formação de médicos aptos a realizar avaliação imediata, estabilização hemodinâmica, tomada de decisão rápida e coordenação de fluxos assistenciais em ambientes de alta pressão clínica.
No Reino Unido, a consolidação da especialidade ocorreu de maneira mais gradual, refletindo tradições históricas diferenciadas na organização dos serviços de pronto-atendimento. A especialidade passou a ser formalmente reconhecida apenas em 2005 pelo Royal College of Emergency Medicine, ainda que políticas de fortalecimento dos departamentos de emergência tenham sido desencadeadas desde as décadas anteriores (ROYAL COLLEGE OF EMERGENCY MEDICINE, 2021). Processos semelhantes ocorreram em países como Canadá, Austrália e Nova Zelândia, nos quais a formação em Medicina de Emergência foi incorporada aos sistemas de saúde como estratégia para otimizar a resposta a agravos agudos e reduzir desfechos adversos em eventos críticos (ROYAL COLLEGE OF EMERGENCY MEDICINE, 2021).
No Brasil, o desenvolvimento da especialidade foi mais tardio. Historicamente, o atendimento às urgências era predominantemente realizado por clínicos gerais, cirurgiões e anestesiologistas, sem um campo formativo próprio dedicado às demandas de avaliação e intervenção imediata (BENINCÁ; GUIMARÃES, 2024). A institucionalização da residência médica em Medicina de Emergência ocorreu apenas em 2015, mediante resolução do Conselho Nacional de Residência Médica (CNRM), com início das primeiras turmas no ano de 2016 (OLIVEIRA et al., 2021). O programa brasileiro de formação estruturou-se com base em competências essenciais para o manejo de condições agudas, incluindo avaliação inicial, estabilização avançada, suporte ventilatório e hemodinâmico, atendimento ao trauma, e condução de síndromes tempo-dependentes, como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e sepse.
Desde sua implementação, observa-se progressiva expansão da especialidade no território nacional, embora com distribuição desigual entre regiões, concentrando-se majoritariamente nos grandes centros urbanos das regiões Sul e Sudeste (BENINCÁ; GUIMARÃES, 2024). Evidências recentes sugerem que a atuação do médico emergencista contribui para redução de tempos assistenciais, maior eficiência na triagem e melhores desfechos clínicos, especialmente em situações críticas que exigem intervenções rápidas e coordenadas (SINGH et al., 2025). Assim, a Medicina de Emergência se consolida no Brasil não apenas como campo assistencial, mas também como componente estratégico para qualificação da Rede de Atenção às Urgências no Sistema Único de Saúde.
Modelos assistenciais onde o médico emergencista participa diretamente das decisões de admissão, da condução inicial e da coordenação do cuidado mostraram impacto positivo na redução da permanência no setor e em melhores desfechos para o paciente (MCKENNA et al., 2019; FIRMAN; IRWAN; BUCKENMEYER, 2025; SINGH et al., 2025). Essas evidências sugerem que a qualificação profissional da equipe de emergência pode ser especialmente relevante em condições tempo-dependentes como IAM e AVC, nas quais minutos perdidos se traduzem em perda funcional e maior risco de morte.
Diante disso, torna-se relevante analisar o comportamento dos eventos cardiovasculares maiores no estado de Goiás nos últimos anos, bem como investigar o impacto da presença de especialistas em emergência nos desfechos gerais relacionados a essas morbidades. A presente pesquisa busca explorar essa relação, contribuindo para a compreensão do papel da formação e da organização da atenção em emergências na morbimortalidade cardiovascular. As implicações clínicas, organizacionais e de política pública decorrentes dessa análise serão discutidas ao longo do artigo.
2. METODOLOGIA
O presente trabalho consiste em um estudo retrospectivo, de delineamento observacional e analítico, fundamentado na utilização de dados secundários extraídos do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), disponibilizados pela plataforma DATASUS.
Paralelamente, procedeu-se à realização de uma revisão narrativa da literatura científica pertinente. O recorte temporal adotado abrange o período de 2015 a 2024, enquanto o recorte populacional se restringe a indivíduos atendidos em serviços de urgência e emergência do estado de Goiás com diagnóstico de eventos cardiovasculares maiores, incluindo infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC). O propósito central da investigação é quantificar a ocorrência desses eventos no período especificado e, sobretudo, examinar a associação entre a presença de médicos especialistas em medicina de emergência no atendimento inicial e os principais desfechos clínicos, com destaque para mortalidade, tempo porta-intervenção (porta-agulha e porta-balão) e tempo de permanência no pronto-socorro.
A obtenção dos dados provenientes do DATASUS foi realizada por meio da seleção dos registros de internação e atendimento de urgência relacionados aos códigos correspondentes de IAM e AVC na Classificação Internacional de Doenças (CID-10: I21–I24; I60–I64), organizados por ano e por unidade hospitalar. Considerando que o sistema de informações hospitalares não disponibiliza de forma padronizada informações sobre a especialidade médica do profissional responsável pelo atendimento inicial, tornou-se necessária a complementação metodológica com a revisão narrativa integrativa da produção científica disponível, visando contextualizar e interpretar os achados epidemiológicos sob a perspectiva da capacidade assistencial e especialização da equipe de emergência.
A revisão de literatura foi conduzida nas bases PubMed, Scopus, Web of Science e SciELO, utilizando descritores controlados e não controlados tais como: “acute myocardial infarction”, “stroke”, “emergency physician”, “emergency department crowding”, “door-to-needle time”, “door-to-balloon time”, “emergency care outcomes” e “critical time-dependent conditions”. Foram considerados elegíveis artigos publicados entre 2005 e 2025, em inglês, português ou espanhol, que abordassem fatores associados à mortalidade cardiovascular em contexto de urgência, organização do fluxo assistencial ou impacto da especialização médica no desfecho de pacientes com IAM ou AVC. Foram excluídas publicações sem dados clínicos primários, relatos de caso, notas técnicas e estudos restritos a populações pediátricas ou não relacionadas ao contexto de pronto-socorro.
Entre os estudos selecionados, privilegiaram-se coortes multicêntricas, estudos observacionais de grande base populacional, revisões sistemáticas e metanálises, bem como publicações que discutissem o impacto da superlotação, do tempo de permanência no pronto-socorro e da formação do médico emergencista sobre o prognóstico de condições tempo-dependentes. As variáveis extraídas contemplaram: número de eventos cardiovasculares por ano, taxas de mortalidade hospitalar e intra hospitalar em 30 dias, tempos de atendimento crítico (porta-agulha e porta-balão), presença ou ausência de especialista em emergência na equipe responsável, além de indicadores estatísticos apresentados (valores de p, intervalos de confiança, razões de risco e odds ratios).
3. RESULTADOS
A tabela abaixo (tabela 1) apresenta os dados de morbidade hospitalar por Acidente Vascular Cerebral (AVC), incluindo formas isquêmicas transitórias, síndromes correlatas e casos não especificados, registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) no estado de Goiás, no período compreendido entre 2015 e 2024. Foram consideradas as variáveis: número de internações, número de óbitos e taxa de mortalidade hospitalar anual.
Tabela 1. Número total de internações, óbitos e taxa de mortalidade por Acidente Vascular Cerebral, em Goiás, de 2015 a 2024.

FONTE: SIM, DATASUS (2025)
Observa-se que o número total de internações por AVC no intervalo analisado foi de 52.160 registros, com 7.053 óbitos, resultando em uma taxa média de mortalidade hospitalar de 13,52% no período. Embora a série histórica indique flutuações, verifica-se uma tendência geral de aumento cumulativo no número de internações ao longo dos anos, especialmente entre 2015 (4.968 internações) e o pico em 2023 (6.540 internações). A partir de 2024, nota-se uma redução relativa no volume de casos internados (5.820), o que pode estar associado a variações na vigilância epidemiológica, acesso ao cuidado, estratégias preventivas ou fatores populacionais (gráfico 1).
Gráfico 1. Internações e óbitos por AVC, de 2015 a 2024, em Goiás.

FONTE: SIM, DATASUS (2025)
No que diz respeito aos óbitos, observa-se também um crescimento gradual, com variações anuais. O número de óbitos passa de 628 em 2015 para um valor máximo de 906 em 2022, seguido de leve redução em 2023 (901) e 2024 (757). Esse comportamento aponta para uma persistência elevada na letalidade da doença, apesar de avanços terapêuticos e aumento na disponibilidade de serviços especializados, como as unidades de AVC.
A taxa de mortalidade hospitalar apresenta oscilações ao longo da série, variando entre 11,77% (menor valor registrado em 2017) e 14,77% (maior valor em 2022). Destaca-se o aumento progressivo da taxa entre 2019 e 2022, período que coincide com a pandemia de COVID-19, a qual pode ter impactado a dinâmica de atendimento, sobrecarregado serviços de emergência e influenciado negativamente o prognóstico de pacientes neurológicos agudos. A redução observada em 2023 e 2024 pode sinalizar uma reestruturação do cuidado e reorganização da rede hospitalar após o período pandêmico, embora necessite de análise contextual aprofundada.
Analisando os números conforme a faixa etária (tabela 2), evidencia um aumento progressivo da ocorrência e da letalidade conforme o avanço da idade. Enquanto na faixa de 20 a 29 anos foram registrados 685 casos com taxa de óbito de 4,38%, observa-se um incremento significativo nas faixas subsequentes, alcançando 1.731 casos entre 30 e 39 anos (8,15%) e 4.374 casos entre 40 e 49 anos (9,83%). A partir dos 50 anos, o aumento torna-se ainda mais expressivo, com 8.323 internações entre 50 e 59 anos (10,65%) e 13.010 entre 60 e 69 anos (11,92%). As maiores frequências concentram-se nas faixas de 70 a 79 anos, com 13.571 casos (14,65%), e especialmente nos indivíduos com 80 anos ou mais, que apresentam 10.204 internações e a maior taxa de mortalidade proporcional (19,72%). No total, foram registradas 52.160 internações e 7.053 óbitos, resultando em uma taxa geral de mortalidade de 13,52%, reforçando o impacto do envelhecimento populacional na carga de AVC e a necessidade de ações preventivas e de cuidado especialmente voltadas às faixas etárias mais avançadas.
Tabela 2. Número total de internações, óbitos e taxa de mortalidade por Acidente Vascular Cerebral, em Goiás, de 2015 a 2024, conforme a faixa etária, a partir dos 20 anos.

FONTE: SIM, DATASUS (2025)
Já quanto ao número de IAMs, os dados referentes às internações em Goiás entre 2015 e 2024 mostram um aumento gradual e consistente do número de casos atendidos pelo sistema hospitalar ao longo do período (tabela 3).
Tabela 3. Número total de internações, óbitos e taxa de mortalidade por Infarto Agudo do Miocárdio, em Goiás, de 2015 a 2024

FONTE: SIM, DATASUS (2025)
Em 2015, foram registradas 2.161 internações, enquanto em 2024 esse número atingiu 7.856, representando um crescimento expressivo na demanda por cuidado cardiovascular especializado. Apesar do aumento das internações, observa- se tendência de redução progressiva da taxa de mortalidade hospitalar, que passou de 12,03% em 2015 para 6,92% em 2024. Essa redução pode refletir avanços no acesso à terapia de reperfusão, organização das redes de atenção ao infarto, melhora na qualificação dos serviços de urgência e difusão de protocolos clínicos. No total do período, contabilizaram-se 46.389 internações e 3.992 óbitos, resultando em uma taxa geral de mortalidade de 8,61% (gráfico 2).
Gráfico 2. Internações e óbitos por IAM, de 2015 a 2024, em Goiás.

FONTE: SIM, DATASUS (2025)
A análise por faixa etária evidencia que o risco de mortalidade por IAM aumenta significativamente com o envelhecimento (tabela 4).
Tabela 4. Número total de internações, óbitos e taxa de mortalidade por Infarto Agudo do Miocárdio, em Goiás, de 2015 a 2024, conforme a faixa etári, a partir dos 20 anos.

Embora ocorram casos raros em crianças e jovens, o número de internações cresce de maneira marcada a partir dos 40 anos, atingindo 10.536 internações na faixa de 50 a 59 anos e 13.484 entre 60 a 69 anos. As maiores taxas de mortalidade se concentram nas faixas etárias mais avançadas, chegando a 11,92% entre 70 e 79 anos e 18,37% na população com 80 anos ou mais. Esse padrão reforça a forte associação entre infarto, envelhecimento e presença de múltiplas comorbidades, destacando a importância do controle de fatores de risco cardiovascular desde a meia-idade.
4. DISCUSSÃO
No contexto da emergência, a rapidez e a precisão das condutas iniciais diante de quadros tempo-dependentes como o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), particularmente aqueles classificados como Major Adverse Cardiac Events (MACE), representam determinantes cruciais para o prognóstico e a morbimortalidade dos pacientes (BURGESS; RAY-BARRUEL; KYNOCH, 2022).
No AVC isquêmico agudo, a atuação imediata envolve identificação clínica precoce utilizando escalas validadas (como FAST, RACE ou NIHSS), estratificação do tempo de início dos sintomas, realização urgente de neuroimagem para diferenciação entre etiologia isquêmica e hemorrágica, avaliação de elegibilidade para trombólise endovenosa ou trombectomia mecânica, além do manejo rigoroso de parâmetros fisiológicos como pressão arterial, glicemia e oxigenação (CHOI; JEONG; KIM, 2020).
De forma semelhante, no IAM com supra de ST (IAMCSST), a conduta adequada inclui reconhecimento precoce da dor torácica típica ou atípica, eletrocardiograma em até 10 minutos da admissão, administração imediata de antiagregantes plaquetários e anticoagulantes quando indicados, avaliação de risco e definição da estratégia de reperfusão (angioplastia primária preferencialmente ou trombólise quando não houver acesso rápido ao cateterismo) (LIMA et al., 2024).
Em ambos os cenários, o emergencista, por ter treinamento específico em fluxos de decisão rápidos, protocolos baseados em evidências e manejo integrado com equipes de hemodinâmica e neurologia intervencionista, tende a reduzir significativamente o tempo “porta–agulha” ou “porta–balão”, elementos diretamente associados à preservação tecidual e desfechos clínicos favoráveis (TROTZKY et al., 2021).
Em contraste, médicos clínicos-gerais podem apresentar abordagem mais abrangente, porém menos orientada a protocolos tempo-dependentes, o que potencialmente prolonga o tempo até a intervenção adequada e aumenta o risco de incapacidade neurológica permanente no AVC ou de remodelamento ventricular adverso e arritmias potencialmente fatais no IAM. A capacitação do emergencista em protocolos avançados, a integração com sistemas pré-hospitalares e a padronização de linhas de cuidado configuram-se como estratégias essenciais para reduzir mortalidade, complicações a longo prazo e custos ao sistema de saúde, reforçando o impacto direto que a conduta inicial, ainda nos primeiros minutos da abordagem clínica, exerce sobre a trajetória de recuperação dos pacientes (MOON et al., 2023).
A mortalidade por AVC e IAM permanece elevada no cenário brasileiro., indicando que a reorganização das linhas de cuidado deve priorizar protocolos estruturados e manejo inicial qualificado. Houve um aumento proporcional de IAM e AVC em regiões com menor cobertura de unidades de emergência estruturadas (BRASIL et al., 2024; LIMA et al., 2024). No campo da epidemiologia cardiovascular, análises nacionais sobre AVC demonstraram redução progressiva da letalidade até 2016, seguida de estabilização. Entre 2018 e 2023, observou-se recrudescimento das taxas de mortalidade, sobretudo em regiões com menor disponibilidade de serviços especializados. Diferenças regionais expressivas foram relatadas, sugerindo que desigualdades estruturais e formativas influenciam diretamente os desfechos (COSTA et al., 2023; DA SILVA et al., 2024; DOS SANTOS et al., 2025).
Uma coorte de 2020, a qual investigou a associação entre ocupação de leitos e desfechos no atendimento de urgência, demonstra que níveis elevados de lotação hospitalar estão significativamente relacionados ao aumento da mortalidade e de eventos adversos em até 30 dias. Em hospitais com ocupação superior a 105%, observou-se incremento de 8 a 12% na mortalidade (p < 0,05), sugerindo que a capacidade de resposta rápida — frequentemente otimizada em contextos com equipes especializadas em emergência — constitui um componente crítico para a redução de desfechos negativos em eventos cardiovasculares agudos (AF UGGLAS et al., 2020).
Numa revisão sistemática relativamente recente, foi percebida correlação entre o tempo prolongado de permanência no pronto-socorro (ED length of stay) e o aumento da morbimortalidade. Pacientes com permanência superior a seis horas apresentaram risco aumentado de mortalidade em até 24% (IC95% 1,10–1,42), especialmente em quadros tempo-dependentes como infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC), reforçando a importância de decisões céleres e manejo por profissionais treinados (BURGESS; RAY-BARRUEL; KYNOCH, 2022).
Os achados de Nicolaidis et al (2025), por sua vez, reforçam a importância da presença do médico emergencista no pronto-socorro para a redução da morbimortalidade. O estudo mostrou que pacientes submetidos ao boarding superior a 24 horas apresentaram aumento relativo de 32% no risco de mortalidade hospitalar (RR = 1,32), enquanto esperas superiores a 48 horas elevaram esse risco para 57% (RR = 1,57; p < 0,001), mesmo após ajuste para gravidade, idade e comorbidades. Além disso, o odds ratio ajustado para mortalidade entre pacientes que permaneceram mais de dois dias na emergência foi de OR = 1,48 (IC95%:
1,41–1,55), reforçando a robustez da associação. No contexto das emergências cardiovasculares, esses atrasos representam perda direta da janela terapêutica para intervenções tempo-dependentes como trombólise ou angioplastia primária no IAM e trombólise/trombectomia no AVC impactando de forma crítica a sobrevida. Assim, a presença do emergencista, profissional capacitado para reduzir tempos porta-agulha, porta-balão e porta-tomografia, torna-se elemento estratégico para otimizar fluxos, reduzir boarding e, portanto, melhorar desfechos clínicos e diminuir mortes evitáveis decorrentes de IAM e AVC
Na mesma linha, um estudo retrospectivo demonstrou que a expertise médica influencia diretamente o tempo de permanência e os desfechos clínicos. Emergencistas reduziram em 17% o tempo total de permanência no pronto-socorro quando comparados a médicos generalistas (p < 0,01), sem aumento nas taxas de readmissão. Esses achados indicam que a formação específica favorece decisões diagnósticas e terapêuticas mais assertivas, determinantes em eventos cardiovasculares maiores (TROTZKY et al., 2021). Outro trabalho, de caso-controle, mostrou que unidades de curta permanência gerenciadas por emergencistas reduzem o tempo de atendimento e melhoram os desfechos clínicos. Pacientes alocados nessas unidades apresentaram redução de 2,4 horas no tempo total de permanência (p < 0,001) e menor necessidade de internação definitiva (OR 0,76; IC95% 0,60–0,91), sugerindo que a organização assistencial sob liderança especializada otimiza fluxos e preserva leitos hospitalares para cenários críticos (MOON et al., 2023).
Em estudo intervencional, foi observado que decisões de admissão tomadas por médicos emergencistas resultaram em redução significativa da permanência hospitalar sem prejuízo da segurança do paciente. A média foi reduzida de 7,8 horas para 5,6 horas (p < 0,01), indicando que o atendimento especializado pode representar diferença entre intervenção efetiva e atraso potencialmente letal em condições cardiovasculares agudas (CHOI; JEONG; KIM, 2020). O tempo de chegada à emergência, do mesmo modo, influencia diretamente o tempo porta-agulha, sendo que atendimento especializado reduz o tempo de trombólise em 15 a 27 minutos (p < 0,001). Além disso, destaca-se que o manejo otimizado do AVC agudo requer reconhecimento imediato, triagem direcionada e experiência em protocolos tempo-dependentes características intrínsecas à formação em Medicina de Emergência (GANTI et al., 2023; GANTI, 2025).
Revisões recentes mostraram que múltiplos fatores influenciam o tempo de permanência no pronto-socorro; entretanto, a variável mais fortemente associada à eficiência operacional foi a presença de médicos com treinamento específico em emergência (FIRMAN; IRWAN; BUCKENMEYER, 2025).
Estudos sobre superlotação reforçam que esta constitui determinante independente de mortalidade, sendo que o prolongamento da permanência no pronto-socorro aumenta a mortalidade em até 3,4 vezes em pacientes críticos (p < 0,001). Instituições com equipes emergencistas tendem a apresentar maior agilidade nos processos assistenciais e melhor desempenho em desfechos clínicos (MCKENNA et al., 2019; WOODWORTH, 2020; WESSMAN et al., 2022).
Quadro 1. Síntese dos estudos incluídos no trabalho



Fonte: própria autora, 2025.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os achados dos estudos analisados reforçam que o manejo inicial e a rapidez na tomada de decisão são fatores determinantes para desfechos favoráveis em eventos cardiovasculares maiores, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Evidências consistentes demonstram que tanto a superlotação, quanto o tempo de permanência prolongado no pronto-socorro, estão diretamente associados ao aumento da morbidade e mortalidade. Nesse contexto, a presença de médicos emergencistas nas unidades de pronto atendimento se destaca como um fator estratégico e potencialmente modificador desse cenário.
Profissionais com formação específica em Medicina de Emergência apresentam maior aptidão para reconhecer precocemente sinais críticos, aplicar protocolos tempo-dependentes (como trombólise e terapia antitrombótica precoce), otimizar fluxos assistenciais e reduzir atrasos diagnósticos. Nos estudos avaliados, emergencistas reduziram significativamente o tempo de permanência nos serviços, aceleraram intervenções terapêuticas fundamentais e diminuíram taxas de internação e de complicações. Tais efeitos traduzem-se em maior eficiência assistencial e potencial redução da mortalidade, especialmente em regiões onde os indicadores epidemiológicos demonstram maior vulnerabilidade.
A presença do médico emergencista no pronto-socorro configura-se como um fator determinante para a melhoria dos desfechos em pacientes acometidos por IAM ou AVC, especialmente por se tratar de condições tempo-dependentes que exigem reconhecimento precoce, estratificação ágil do risco e implementação imediata de condutas baseadas em protocolos bem estabelecidos. O emergencista é treinado para reduzir atrasos críticos, como o tempo porta-agulha na trombólise e o tempo porta-balão na angioplastia, além de atuar de forma integrada com equipes de hemodinâmica, neurologia e terapia intensiva, promovendo fluxos assistenciais mais eficientes e coordenados. Sua formação inclui manejo avançado de suporte de vias aéreas, controle hemodinâmico, interpretação rápida de exames e tomada de decisão sob estresse, o que contribui para reduzir complicações, minimizar lesões teciduais permanentes e diminuir mortalidade. Ademais, a padronização do cuidado por meio de protocolos liderados por emergencistas favorece a organização da rede de atenção, melhora a comunicação entre níveis assistenciais e otimiza o uso de recursos, resultando em atendimentos mais seguros, resolutivos e com melhor custo-efetividade para o sistema de saúde. Dessa forma, a inserção e valorização do emergencista não apenas qualifica o atendimento imediato, como também repercute diretamente na redução da morbimortalidade e na reabilitação funcional dos pacientes acometidos.
Dessa forma, a hipótese de que a presença de emergencistas nos pronto socorros pode impactar positivamente os desfechos clínicos, particularmente na morbimortalidade associada aos eventos cardiovasculares maiores, encontra respaldo consistente na literatura analisada.
6. REFERÊNCIAS
AF UGGLAS, B. et al. Association between hospital bed occupancy and outcomes in emergency care: a cohort study in Stockholm region, Sweden, 2012 to 2016. Annals of Emergency Medicine, v. 76, n. 2, p. 179-190, 2020.
BENINCÁ, V.; GUIMARÃES, H.. The history of Brazilian emergency medicine: the stones on the paths shaped our protagonism. JBMEDE, v. 4, n. 1, e24001, 2024. DOI: 10.54143/jbmede.v4i1.172.
BRASIL, L. et al. Análise da mortalidade por acidente vascular cerebral no Brasil entre 2018 e 2021. Revista Sociedade Científica, v. 7, n. 1, p. 1238-1250, 2024.
BURGESS, L.; RAY‐BARRUEL, G.; KYNOCH, K. Association between emergency department length of stay and patient outcomes: a systematic review. Research in Nursing & Health, v. 45, n. 1, p. 59-93, 2022.
CHOI, Y.; JEONG, J.; KIM, B. Admission decisions made by emergency physicians can reduce the emergency department length of stay for medical patients. Emergency medicine international, v. 2020, n. 1, p. 8392832, 2020.
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1MÉDICA RESIDENTE EM MEDICINA DE EMERGÊNCIA AUTORA
UNIVERSIDADE EVANGÉLICA DE GOIÁS
2MÉDICO ESPECIALISTA EM CLÍNICA MÉDICA E MEDICINA DE EMERGÊNCIA
ORIENTADOR UNIVERSIDADE EVANGÉLICA DE GOIÁS
