NUMBER OF PEDIATRIC TONSILLECTOMIES IN THE LAST 10 YEARS AND THE ROLE OF ANESTHESIA IN THE PREVENTION OF COMPLICATIONS AND MORBIMORTALITY
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512222154
Drª Deborah Carvalho Nascimento1
Drª Ana Luíza Barros Parreira2
RESUMO
A amigdalectomia é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados em pediatria, especialmente indicada para hipertrofia de amígdalas palatinas e apneia obstrutiva do sono (AOS). Nas últimas décadas, observou-se aumento do número de cirurgias, associado à consolidação de práticas anestésicas mais seguras. O manejo anestésico desempenha papel fundamental na prevenção de complicações respiratórias e hemorrágicas, influenciando diretamente a morbimortalidade. Objetivo: Avaliar a evolução do número de amigdalectomias pediátricas realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos 10 anos e discutir o impacto das estratégias anestésicas na prevenção de complicações e desfechos adversos. Metodologia: Estudo retrospectivo, observacional e analítico, baseado em dados secundários do SIH/SUS (2015–2024), complementado por revisão integrativa da literatura em bases nacionais e internacionais. Foram analisadas informações referentes a internações, óbitos e taxas de mortalidade em crianças e adolescentes (0–19 anos). Resultados: Entre 2015 e 2024, registraram-se 345.449 amigdalectomias e adenoamigdalectomias no SUS, com taxa média de mortalidade de 0,01%, demonstrando elevada segurança do procedimento. A literatura analisada evidencia que técnicas anestésicas multimodais, uso de dexmedetomidina e dexametasona, além de estratégias individualizadas de manejo de via aérea, reduzem complicações respiratórias, dor pós-operatória e necessidade de opioides. Conclusão: A amigdalectomia pediátrica apresenta alta prevalência e baixa mortalidade quando adequadamente indicada e acompanhada de manejo anestésico criterioso. O aprimoramento das práticas anestésicas tem papel decisivo na prevenção de complicações, reforçando a importância de protocolos multimodais e individualizados, especialmente em crianças com AOS.
Palavras-chave: amigdalectomia; anestesia pediátrica; via aérea; complicações pósoperatórias; morbimortalidade.
ABSTRACT
Tonsillectomy is one of the most commonly performed surgical procedures in pediatrics, especially indicated for palatine tonsil hypertrophy and obstructive sleep apnea (OSA). In recent decades, an increase in the number of surgeries has been observed, associated with the consolidation of safer anesthetic practices. Anesthetic management plays a fundamental role in preventing respiratory and hemorrhagic complications, directly influencing morbidity and mortality. Objective: To evaluate the trend in the number of pediatric tonsillectomies performed within the Brazilian Unified Health System (SUS) over the past 10 years and to discuss the impact of anesthetic strategies on the prevention of complications and adverse outcomes. Methodology: A retrospective, observational, and analytical study based on secondary SIH/SUS data (2015–2024), complemented by an integrative literature review in national and international databases. Information regarding hospitalizations, deaths, and mortality rates in children and adolescents (0–19 years) was analyzed. Results: Between 2015 and 2024, 345,449 tonsillectomies and adenotonsillectomies were recorded in the SUS, with an average mortality rate of 0.01%, demonstrating the procedure’s high safety. The analyzed literature shows that multimodal anesthetic techniques, the use of dexmedetomidine and dexamethasone, and individualized airway management strategies reduce respiratory complications, postoperative pain, and opioid requirements. Conclusion: Pediatric tonsillectomy has high prevalence and low mortality when appropriately indicated and accompanied by careful anesthetic management. The enhancement of anesthetic practices plays a decisive role in preventing complications, reinforcing the importance of multimodal and individualized protocols, especially in children with OSA.
Keywords: tonsillectomy; pediatric anesthesia; airway management; postoperative complications; morbidity and mortality.
1. INTRODUÇÃO
A amigdalectomia é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados em crianças no mundo, sendo indicada principalmente para o tratamento da hipertrofia de amígdalas palatinas e da apneia obstrutiva do sono (AOS) pediátrica (FERNANDES; SUVARNA, 2015). Nos últimos dez anos, observou-se um aumento significativo no número de cirurgias, impulsionado tanto pelo diagnóstico mais precoce da AOS quanto pela ampliação da segurança anestésica e cirúrgica (ALBORNOZ et al., 2024; MCGUIRE; DOYLE, 2021).
Embora a amigdalectomia seja considerada um procedimento de baixo risco, complicações respiratórias e hemorrágicas continuam a representar desafios clínicos, sobretudo em pacientes pediátricos com comorbidades respiratórias ou sindrômicas (EKSTEIN et al., 2020; TOLOSAPÉREZ et al., 2021). A escolha da técnica anestésica, da via aérea e das estratégias de extubação são fatores críticos para a segurança desses pacientes.
O manejo anestésico adequado desempenha papel essencial na prevenção dessas intercorrências, influenciando diretamente os desfechos pósoperatórios e a morbimortalidade associada (SHAWAHNA et al., 2025). McGuire e Doyle (2021) destacaram que os avanços na farmacologia e nas técnicas anestésicas têm contribuído para uma redução de até 60% nas complicações anestésicas graves nas duas últimas décadas.
A escolha da técnica anestésica para amigdalectomia pediátrica baseia-se em princípios de via aérea segura, controle da dor perioperatória e minimização de eventos respiratórios pós-operatórios. A indução inalatória com sevoflurano continua amplamente empregada em lactentes e crianças pequenas que não toleram acesso venoso prévio, enquanto a indução intravenosa com propofol é preferida quando acesso venoso já existe ou para reduzir irritabilidade das vias aéreas; a manutenção pode ser realizada com sevoflurano ou anestésicos balanceados conforme familiaridade institucional e risco individual do paciente (FERNANDES; SUVARNA, 2015; ALBORNOZ et al., 2024). A intubação traqueal ainda é considerada padrão ouro quando há risco aumentado de aspiração, sangramento cirúrgico ou necessidade de controle mais seguro da via aérea; o uso de máscara laríngea tem sido validado em séries e meta-análises como alternativa segura em casos selecionados, com benefícios práticos (redução de estímulo traqueal) mas exigindo seleção cuidadosa do paciente. (KHOURY et al., 2024; ALBORNOZ et al., 2024).
A profilaxia e o manejo da dor perioperatória na tonsilectomia pediátrica evoluíram para esquemas multimodais visando reduzir opioides e seus efeitos adversos. Analgésicos não opioides (paracetamol, AINEs quando não contraindicados) são recomendados como pilares, com opioides (p. ex. fentanil) reservados para necessidades agudas intraoperatórias e para controle de dor imediata. Bloqueios locais peritonsilares ou infiltração de anestésico local apresentam evidência de redução da dor subjetiva e consumo analgésico pós-operatório em meta-análises, embora a técnica deva ser realizada com atenção à dosagem e anatomia para evitar complicações locais. (STRAMIELLO et al., 2023).
Técnicas adjuvantes como o uso de dexmedetomidina têm ganhado espaço por efeitos sedativos, ansiolíticos e pela redução do delirium de emergência e da necessidade de opioides; revisões sistemáticas recentes demonstram redução do delirium de emergência e benefícios analgésicos comparados a benzodiazepínicos, além de permitirem manobras de extubação mais calmas quando usadas em pré-medicação ou como infusão intraoperatória. (JEIZAN et al., 2025; OLSEN et al., 2025; DI et al., 2017).
Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender a evolução das amigdalectomias pediátricas na última década e a influência dos avanços anestésicos sobre seus resultados clínicos. A análise do número de procedimentos realizados e da literatura recente sobre anestesia e segurança permite identificar tendências, consolidar boas práticas e direcionar protocolos que minimizem complicações e mortalidade associadas a esse procedimento de alta prevalência na infância (ALBORNOZ et al., 2024; SHAWAHNA et al., 2025).
2. METODOLOGIA
O presente estudo adota um delineamento retrospectivo, de natureza observacional e analítica, baseado na análise de dados secundários obtidos por meio do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), acessados por intermédio da plataforma DATASUS.
Simultaneamente, realizou-se uma revisão da literatura científica disponível sobre o tema. O recorte temporal definido abrange o período de 2015 a 2024, e o recorte populacional restringe-se a crianças e adolescentes com idade entre 0 e 19 anos, submetidos à amigdalectomia no território nacional. O objetivo principal é quantificar o número de procedimentos realizados no intervalo proposto, além de investigar a influência da modalidade anestésica utilizada na incidência de complicações intra e pós-operatórias, assim como na morbidade e mortalidade associadas à cirurgia.
A coleta de dados no DATASUS foi realizada mediante seleção dos registros de internação hospitalar vinculados a procedimentos de amigdalectomia, classificados conforme o código da Tabela de Procedimentos do SUS. Esses dados foram organizados por ano, região geográfica e faixa etária. Considerando-se que o sistema não disponibiliza informações detalhadas sobre a técnica anestésica empregada ou desfechos clínicos específicos, tornou-se necessário complementar a análise com uma revisão narrativa integrativa da literatura científica pertinente ao tema.
A revisão de literatura foi conduzida em bases de dados nacionais e internacionais de reconhecida relevância, incluindo PubMed, Scopus, Web of Science e SciELO. Foram utilizados descritores controlados e não controlados, como “tonsillectomy”, “pediatric anesthesia”, “complications”, “airway management”, “perioperative care”, “morbidity”, “mortality” e “postoperative outcomes”. Foram considerados elegíveis os estudos publicados entre 2005 e 2025, nos idiomas inglês, português ou espanhol, que abordassem a relação entre diferentes estratégias anestésicas e os desfechos clínicos de pacientes pediátricos submetidos à amigdalectomia. Foram excluídos artigos sem dados clínicos primários, relatos de caso, comunicações curtas e estudos que não envolveram populações pediátricas. Trabalhos de relevância clínica reconhecida foram incluídos mesmo fora do intervalo temporal previamente estabelecido.
Entre os estudos selecionados, foram priorizados ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas, metanálises e estudos observacionais multicêntricos. As variáveis extraídas englobaram o tipo de anestesia aplicada (inalatória, intravenosa, balanceada, ou com uso de bloqueios regionais), o número de pacientes avaliados, os principais desfechos clínicos (incidência de complicações respiratórias, sangramentos pós-operatórios, náusea e vômito pós-anestésicos, tempo de recuperação, necessidade de reintervenção e taxa de mortalidade), além dos parâmetros estatísticos reportados (valores de p, intervalos de confiança, odds ratios e razões de risco).
3. RESULTADOS
De acordo com os dados fornecidos pelo DATASUS, na plataforma TABNET, para a população em geral (tabela 1), observa-se uma variação significativa no número de internações ao longo dos anos, com destaque para o aumento expressivo em 2024, que registrou 76.566 internações, o maior número da série histórica. Em contraste, os anos de 2020 e 2021 apresentaram os menores números de internações, com 23.803 e 21.354 casos, respectivamente, o que pode estar relacionado aos efeitos da pandemia da COVID-19, que impactou diretamente o acesso e a realização de procedimentos eletivos no sistema de saúde. Após esse período, verifica-se uma retomada progressiva nos atendimentos, culminando com o pico observado em 2024. Em relação aos óbitos, o total registrado na década foi de 34, com o maior número ocorrendo em 2023 (8 óbitos). A letalidade associada a essas doenças, no entanto, é muito baixa, o que se reflete nas taxas de mortalidade, que variaram entre 0% e 0,02% ao longo do período. A maior taxa de mortalidade foi registrada em 2021, atingindo 0,02%, valor relativamente alto para o padrão observado, e possivelmente influenciado pelo baixo número de internações naquele ano, o que pode ter aumentado a proporção de casos mais graves.
Por outro lado, mesmo com um número elevado de internações em 2024, foram registrados apenas dois óbitos, o que resultou em uma taxa de mortalidade de 0%. Os dados indicam que, embora as doenças crônicas das amígdalas gerem um número significativo de internações no Brasil, especialmente em anos de normalidade no sistema de saúde, elas apresentam baixa letalidade. A oscilação nos números ao longo da década analisada reflete não apenas a dinâmica epidemiológica dessas doenças, mas também fatores externos, como a pandemia, que influenciaram diretamente a oferta e a demanda por serviços de saúde.
Tabela 1. Número de interações, óbitos e taxa de mortalidade por doenças crônicas das amígdalas no Brasil, nos últimos 10 anos (2015 a 2024).

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) (2025)
Tabela 2. Número de internações, óbitos e taxa de mortalidade por doenças crônicas das amigdalas na faixa etária de 0 a 19 anos.

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) (2025)
Já na faixa pediátrica – considerando-se indivíduos de 0 a 19 anos, foco deste estudo, ao todo foram registradas 428.299 internações nesse grupo etário, com 13 óbitos, resultando em uma taxa de mortalidade praticamente
nula (0). A maior concentração de internações ocorreu na faixa de 5 a 9 anos, com 216.675 casos, seguida pela faixa de 1 a 4 anos, com 108.495 internações. As faixas etárias com menores números foram as de menores de 1 ano (249 internações) e de 15 a 19 anos (27.420 internações).
Apesar do número expressivo de internações, especialmente entre 1 e 9 anos, os óbitos são extremamente raros, o que reforça a natureza pouco letal das doenças crônicas das amígdalas em crianças e adolescentes.
Tabela 3. Número de amigdalectomias e amigdalectomias com adenectomias no SUS, nos últimos 10 anos.

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) (2025)
Quanto ao número de amigdalectomias (cirurgias de remoção das amígdalas, com ou sem adenoidectomia), realizadas no SUS nos últimos 10 anos (2015–2024), foram realizadas 345.449 cirurgias, com 19 óbitos, resultando em uma taxa de mortalidade média de 0,01, o que também indica baixa letalidade associada ao procedimento. É possível observar uma redução acentuada no número de procedimentos entre 2020 e 2021, período que coincide com a pandemia de COVID-19, seguida por uma recuperação significativa em 2023 e 2024, atingindo 56.845 cirurgias em 2024, o maior número da série histórica.
Evidencia-se alta prevalência de doenças crônicas das amígdalas na população pediátrica, especialmente nas faixas de 1 a 9 anos, que concentram mais de 75% das internações por essas condições (325.170 de um total de 428.299). Essa prevalência coincide com a alta demanda por amigdalectomias, que são frequentemente indicadas justamente nessa faixa etária, tanto para controle de infecções recorrentes quanto por obstrução respiratória. A comparação entre os dados gerais e da população pediátrica mostra que, embora o número de internações seja elevado, o número de procedimentos cirúrgicos realizados ao longo dos 10 anos (345.449) é um pouco inferior ao total de internações (428.299) registradas apenas em um recorte etário (0 a 19 anos). Isso pode indicar que nem todas as internações resultam em cirurgia, seja por conduta clínica conservadora, ausência de indicação cirúrgica ou por fatores como acesso ao serviço e priorização de casos. Além disso, as taxas de mortalidade são baixíssimas tanto nas internações por doenças crônicas das amígdalas quanto nos procedimentos cirúrgicos, reforçando a segurança clínica do tratamento, especialmente da amigdalectomia, quando bem indicada.
4. DISCUSSÃO
As amigdalectomias pediátricas continuam sendo uma das cirurgias mais frequentes em crianças, com indicações modernas predominantemente por apneia obstrutiva do sono (AOS) ou infecções de repetição (SANKARAN et al., 2017). Embora a mortalidade seja muito baixa, o risco de complicações na faixa pediátrica inspira precauções e comina técnicas adequadas para manejo. Embora não haja consenso sobre número total global exatamente nos últimos dez anos, o estudo de Edmonson et al. (2022) analisou um coorte nos EUA de 504.262 crianças submetidas a amigdalectomia (com ou sem adenoidectomia) entre 2005 e 2017, e esse grande volume serve para estimar taxas de mortalidade e complicações. Nessa população, a mortalidade pós‐operatória global foi de 7 mortes por 100.000 operações, ascendente para 117 mortes por 100.000 operações entre aquelas crianças com condições crônicas complexas (EDMONSON et al., 2022).
4.1. ANALGESIA
Há guias de prática clínica (clinical practice guidelines ‐ CPGs) que, nos últimos anos, vêm recomendando padronizações no manejo perioperatório, com ênfase em analgesia multimodal, uso cuidadoso de opioides — especialmente em pacientes com AOS — uso de esteróides, AINEs e acetaminofeno; monitoring rigoroso da via aérea, otimização pré‐operatória de condições clínicas (anemia, distúrbios respiratórios, condições crônicas) (KOPP et al., 2023). O emprego de bloqueios regionais e da anestesia livre de opioides, como demonstrado por Mahrose, Shorbagy e Kasem (2024), associa-se a redução significativa dos escores de dor (p = 0,004) e ao encurtamento do tempo de recuperação.
A analgesia multimodal e o uso racional de opioides têm recebido destaque em estratégias modernas. Mahrose, Shorbagy e Kasem (2024) conduziram um ensaio clínico randomizado em 80 pacientes, demonstrando que o bloqueio do gânglio pterigopalatino sem opioides reduziu o escore de dor (VAS) em 32% (p = 0,004) e o tempo de recuperação pós-operatória em cerca de 20 minutos (p = 0,01) em comparação com a anestesia convencional. Niimi et al. (2025) corroboraram tais achados ao identificarem, em meta-análise com 12 ensaios clínicos, que a dexametasona reduziu o consumo médio de opioides em 1,8 mg equivalentes de morfina (p < 0,001). Em sua revisão sistemática, Albornoz et al. (2024) reuniram 65 estudos e propuseram recomendações perioperatórias baseadas em evidências, destacando que o uso de dexametasona intraoperatória reduziu o consumo de opioides em 34% (p < 0,01) e a incidência de náuseas e vômitos em 40% (p = 0,002). O estudo também enfatiza a importância de protocolos multimodais, especialmente em crianças com apneia obstrutiva do sono (AOS), nas quais o risco de complicações respiratórias é significativamente maior.
Stramiello et al. (2023) demonstraram que a infiltração local de anestésico reduziu os escores de dor em 1,9 pontos na escala visual (p < 0,001). Já Qi et al. (2016), em metanálise, relataram que o uso profilático de lidocaína intravenosa reduziu a incidência de laringoespasmo em 55% (RR = 0,45; p = 0,02) em cirurgias pediátricas.
O uso de anestesia baseada em dexmedetomidina com mínima suplementação de opioides em adenotonsilectomias tem mostrado ser seguro e eficaz no controle da dor pós‐operatória, reduzindo dependência de opioides e, consequentemente, os efeitos adversos relacionados (respiratórios, sedação excessiva) (AL‑ MOHAMMAD et al., 2025). A dexmedetomidina intranasal, também têm papel na prevenção de delírio de emergência / agitação pós‐anestésica, as quais, embora sejam complicações menos graves do ponto de vista de mortalidade, pode influir no curso da recuperação e na necessidade de monitoramento prolongado. Meta‐análises recentes indicam que a dexmedetomidina intranasal (1‑ 2 µg/kg) reduz significativamente a incidência de delírio de emergência e de agitação em crianças submetidas a amigdalectomia/adenoamigdalectomia (LIU et al., 2025).
Do mesmo modo, recomendações recentes para manejo perioperatório de crianças com AOS apontam para estratégias de opioid‐sparing, uso de agentes antiinflamatórios não esteroidais (AINEs), acetaminofeno e esteróides como adjuvantes analgésicos, para reduzir risco de depressão respiratória pós‐operação (CHANDRASEKARAN et al., 2024).
De modo geral, a literatura converge para a ideia de que o manejo anestésico adequado — especialmente com o uso de agentes como dexmedetomidina, dexametasona e bloqueios regionais — é determinante para reduzir complicações e otimizar a recuperação. A implementação de protocolos anestésicos multimodais contribui para menor morbidade, menor tempo de recuperação e redução significativa do uso de opioides e de eventos respiratórios adversos. Esses achados reforçam a importância da analgesia multimodal na melhoria dos desfechos e na redução da necessidade de internações prolongadas
4.1.2. TÉCNICAS DE INDUÇÃO, MANUTENÇÃO E EXTUBAÇÃO
As principais complicações relacionadas à anestesia em crianças submetidas à amigdalectomia estão frequentemente associadas a eventos respiratórios, como laringoespasmo, broncoespasmo e obstrução de vias aéreas, especialmente em pacientes com Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), que apresentam risco significativamente aumentado (RR = 3,8; p < 0,001) (EKSTEIN et al., 2020). O laringoespasmo a complicação mais comum (TOLOSA-PÉREZ et al., 2021).
A técnica de indução anestésica mais convencional envolve o uso de agentes inalatórios, como sevoflurano, com manutenção venosa ou inalatória. A extubação deve ser cuidadosamente planejada, preferencialmente em plano profundo ou completamente desperto, conforme o perfil de risco respiratório. O emprego de dexmedetomidina durante a anestesia, associado ao sevoflurano, mostrou reduzir laringoespasmo e agitação (DI et al., 2017), além de diminuir delirium no pós cirúrgico quando comparada ao midazolam (JEIZAN et al., 2025).
Em relação ao manejo das vias aéreas, o uso da máscara laríngea (LMA) tem se mostrado uma alternativa segura e eficaz à intubação orotraqueal, sem aumento significativo de eventos adversos, considerando-se fatores anatômicos e o risco de sangramento (RR = 0,94; p = 0,37) (KHOURY et al., 2024). Além disso, estratégias adjuvantes, como infiltração local de anestésico (STRAMIELLO et al., 2023), lidocaína intravenosa para redução de laringoespasmo (QI et al., 2016) e bloqueios regionais, como o do gânglio pterigopalatino, podem contribuir para analgesia mais eficaz e menor tempo de recuperação (MAHROSE et al., 2024). Destaca-se que a individualização do manejo anestésico permanece fundamental para reduzir complicações e otimizar a recuperação (SHAWAHNA et al., 2025).
O papel da pré-medicação e da escolha dos agentes anestésicos mostrou impacto estatisticamente significativo. Di et al. (2017) compararam a extubação profunda com sevoflurano isolado e a combinação de sevoflurano com dexmedetomidina, demonstrando redução de 45% na incidência de laringoespasmo (p = 0,03) e menor agitação ao despertar (p = 0,01) no grupo que recebeu dexmedetomidina. De forma consistente, Jeizan et al. (2025) observaram em meta-análise que a dexmedetomidina reduziu a incidência de delirium emergencial em 57% (OR = 0,43; IC95%: 0,31–0,59; p < 0,001) em comparação ao midazolam.
Outra técnica relevante é a administração de propofol em doses repetidas antes da extubação para suavizar a transição da anestesia e reduzir eventos respiratórios adversos no pós‐extubação, como tosse grave, agitação e laringoespasmo. Em estudo randomizado, crianças de 3 a 8 anos submetidas a amigdalectomia/adenoamigdalectomia, recebendo propofol antes da extubação, mostraram redução significativa da tosse moderada a grave e da agitação pós‐operatória, embora a taxa global de eventos respiratórios adversos não tenha caído de forma estatisticamente significativa (SHI et al., 2023).
Ekstein et al. (2020) constataram aumento de 3,8 vezes no risco relativo (RR = 3,8; p <0,001) de eventos adversos respiratórios após denotonsilectomia em crianças com AOS, ressaltando a importância da monitorização pós-operatória intensiva. Em casos de hemorragia pós‐amigdalectomia, o manejo anestésico se torna particularmente crítico.
Indução rápida (rapid sequence induction), muitas vezes com intubação traqueal, uso de succinilcolina, e atenção à hipovolemia, anemia, e risco de via aérea difícil são descritos (SNYDER et al., 2010). A incidência de hipóxia durante tais intervenções é alta, especialmente durante a emergên-cia ou extubação.


5. CONCLUSÃO
A análise dos últimos dez anos evidencia avanços expressivos nas práticas anestésicas aplicadas à amigdalectomia pediátrica, tanto na segurança intraoperatória quanto na redução de complicações pós-operatórias. A literatura recente reforça que o manejo anestésico adequado é determinante para os desfechos clínicos favoráveis, contribuindo para a queda da morbimortalidade associada a esse procedimento (ALBORNOZ et al., 2024; SHAWAHNA et al., 2025).
Os estudos revisados evidenciam que a anestesia pediátrica evoluiu de um enfoque centrado em segurança básica para uma abordagem personalizada, voltada à prevenção de complicações respiratórias, otimização da analgesia e redução do consumo de opioides. Estratégias como o uso da dexmedetomidina mostraram impacto estatisticamente significativo em parâmetros clínicos relevantes, como a diminuição do delirium emergencial (p < 0,001), do consumo de opioides (p < 0,001) e das náuseas e vômitos pós-operatórios (p = 0,002) (JEIZAN et al., 2025; NIIMI et al., 2025; ALBORNOZ et al., 2024).
A escolha criteriosa da via aérea, conforme demonstrado por Khoury et al. (2024) e Ekstein et al. (2020), também é fator determinante na segurança intra e pós-operatória, especialmente em crianças com apneia obstrutiva do sono. O uso da máscara laríngea e da extubação em plano profundo, quando indicados, associam-se a menores índices de laringoespasmo e recuperação mais estável.
De forma geral, as evidências apontam que o manejo anestésico tem papel central na redução de complicações e na promoção da segurança em amigdalectomias pediátricas. A integração entre anestesiologistas e cirurgiões otorrinolaringologistas é essencial para o sucesso terapêutico, com enfoque em protocolos individualizados que considerem idade, comorbidades e risco respiratório.
Há, portanto, evidências suficientes para afirmar que o papel da anestesia — através de técnicas atualizadas
de indução, manutenção, extubação, analgesia multimodal e redução do uso de opioides, assim como estratégias específicas em casos de AOS ou condições crônicas — tem sido central para reduzir tanto
complicações (hemorrágicas, respiratórias, delírio/agitação, dor inadequada) quanto mortalidade,
especialmente em populações de risco.
6. REFERÊNCIAS
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DI, M. et al. Tracheal extubation in deeply anesthetized pediatric patients after tonsillectomy: a comparison of high-concentration sevoflurane alone and lowconcentration sevoflurane in combination with dexmedetomidine pre-medication. BMC anesthesiology, v. 17, n. 1, p. 28, 2017.
EKSTEIN, M. et al. Respiratory complications after adenotonsillectomy in high‐risk children with obstructive sleep apnea: a retrospective cohort study. Acta Anaesthesiologica Scandinavica, v. 64, n. 3, p. 292-300, 2020.
FERNANDES, S.; SUVARNA, Deepa. Anesthesia management of adenotonsillectomy. An International Journal of Otorhinolaryngology Clinics, v. 7, n. 1, p. 17-21, 2015.
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MCGUIRE, S.; DOYLE, N.. Update on the safety of anesthesia in young children presenting for adenotonsillectomy. World Journal of Otorhinolaryngology-Head and Neck Surgery, v. 7, n. 03, p. 179-185, 2021.
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QI, X. et al. The efficacy of lidocaine in laryngospasm prevention in pediatric surgery: a network meta-analysis. Scientific reports, v. 6, n. 1, p. 32308, 2016.
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STRAMIELLO, J. et al. Effect of Local Anesthetic Injections on Subjective Pain Scales in Pediatric Tonsillectomies: A Meta‐analysis. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 168, n. 4, p. 619-627, 2023.
TOLOSA-PÉREZ, H. et al. Incidence of post-anesthetic respiratory complications in pediatrics. Observational, single-center study in Medellin, Colombia. Colombian Journal of Anestesiology, v. 49, n. 3, 2021.
1 Médica – Residente De Anestesiologia Universidade Evangélica De Goiás
2 Orientadora – Anestesiologista – Sociedade Brasileira De Anestesiologia – Hospital Evangélico Goiano
