AS COMPETIÇÕES “KIDS” NO TÊNIS: UMA ANÁLISE A PARTIR DA PEDAGOGIA DO ESPORTE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512222232


Rafael Gambino Teixeira1


Resumo

O objetivo deste estudo foi analisar o Regulamento do Circuito Nacional Tennis Kids Categorias 8, 9, 10 e 11 anos da Confederação Brasileira de Tênis a partir das abordagens e princípios da Pedagogia do Esporte. Pode-se observar que o referido regulamento está estruturado para proporcionar um ambiente seguro, educativo e divertido para as crianças, promovendo o desenvolvimento técnico e comportamental. Ao analisar esse regulamento à luz da pedagogia do esporte, podemos fazer uma associação com os princípios pedagógicos que norteiam a formação esportiva infantil. Observa-se nas duas categorias analisadas: Participação e Estruturação que as competições “Kids” do Tênis nacional corroboram com abordagens e princípios da Pedagogia do Esporte quando elaboradas para a participação de crianças, promovendo motivação e aprendizado, colaborando com a permanência da criança na modalidade.

Palavras-chave: Tênis; Regulamento; Pedagogia do Esporte.

Abstract

The objective of this study was to analyze the Regulations of the National Circuit Tennis Kids Categories 8, 9, 10 and 11 years old of the Brazilian Tennis Confederation based on the approaches and principles of Sports Pedagogy. It can be seen that the aforementioned regulation is structured to provide a safe, educational and fun environment for children, promoting technical and behavioral development. By analyzing this regulation in light of sports pedagogy, we can make an association with the pedagogical principles that guide children’s sports training. It is observed in the two categories analyzed: Participation and Structuring that the national Tennis “Kids” competitions corroborate with approaches and principles of Sports Pedagogy when designed for the participation of children, promoting motivation and learning, contributing to the child’s permanence in the sport.

Keywords: Tennis; Regulation; Sports Pedagogy.

Introdução

O estudo sobre o esporte infantil, seus formatos e competições vem ganhando crescente atenção na pesquisa nacional (SILVA, 2017; LIMA; COSTA, 2019). A prática regular de esportes na infância desempenha um papel crucial no desenvolvimento físico, contribuindo para a melhoria da coordenação motora, o fortalecimento muscular e ósseo, o aprimoramento da saúde cardiovascular e o controle do peso (BORGES, 2015), cognitivo, promovendo o aumento da capacidade de concentração, o desenvolvimento da memória e a agilidade na resolução de problemas (FREIRE, 2000) e psicossocial das crianças, estimulando a cooperação, a melhoria da autoestima e o respeito às regras, além de promover a socialização entre os praticantes (SILVA; OLIVEIRA, 2021).

Assim, podemos considerar que a prática do Tênis na infância desenvolve uma série de habilidades que ajudam os seus praticantes não só no contexto do jogo, mas fora dele, com atitudes de determinação, vontade, paciência, disciplina, coragem, flexibilidade e respeito entre outras (SILVA, 2003). É comum em nossos dias que muitas crianças e adolescentes procurem meios para praticar o Tênis, o que nos transmite a consciência de que o esporte é, ou esta se tornando popular e, que a sociedade quer praticá-lo, por simples prazer ou para se tornar um profissional da área.

Mas, como se fundamenta o ensino do Tênis para as crianças, e mais precisamente, como são estruturadas suas competições para este público? Segundo a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), o regulamento de suas competições “kids” está estruturado para proporcionar um ambiente seguro, educativo e divertido para as crianças, promovendo o desenvolvimento técnico e comportamental (CBT, 2025). Ainda, consideram que seu formato e prática estão de acordo com teorias que fundamentam o ensino esportivo para esta faixa etária tentando alinhar as práticas e estruturas das competições com as necessidades de desenvolvimento infantil (SILVA, 2017). 

Nesta perspectiva, este estudo busca analisar, através do documento norteador e regulamento das competições “Kids” do Tênis nacional proposto pela CBT (disponível em https://cbttenis.com.br/kids/attached/11) como as competições desta categoria associam-se com as abordagens e princípios da Pedagogia do Esporte. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é analisar a relação entre os princípios pedagógicos do esporte e o regulamento das competições “Kids” de Tênis, discutindo seus impactos na formação dos jovens praticantes em dois quesitos: Participação e Estruturação do Jogo.

Metodologia

Este estudo tem caráter qualitativo, focalizado em uma análise de documento (Regulamento das competições “Kids” do Tênis Nacional) objetivando a identificação dos aspectos pedagógicos com as normas presentes no documento. Foi realizada uma análise comparativa do texto do documento com os princípios da pedagogia do esporte na literatura vigente a fim de se verificar se as competições “Kids” do Tênis são estruturadas e pensadas objetivando o desenvolvimento das crianças praticantes em dois quesitos: Participação e Estruturação do Jogo

As Competições Infantis

No contexto esportivo, as competições para crianças, como já mencionado anteriormente, desempenham um importante papel no que diz respeito ao desenvolvimento pleno dos participantes. Colaboram de forma efetiva na construção e promoção de habilidades que serão fundamentais ao longo de toda a vida. Para Silva (2017), participar de competições ajuda na melhoria da autoestima, disciplina, trabalho em equipe e perseverança, além claro, de aprofundar e qualificar as ações motoras do esporte e da vida cotidiana. As competições para os praticantes de esportes ainda oferecem possibilidades de testar limites, aprender novas estratégias contribuindo para a motivação com uma sensação de realização e pertencimento (Borges, 2021).

Porém, cabe-se salientar que, as competições quando elaboradas para crianças, necessitam estar diretamente estruturadas com enfoque pedagógico, promovendo atividades formativas e saudáveis ao desenvolvimento destas. Marques (1997) justifica que as competições infantis necessitam de modificações quando comparadas ao desenvolvimento de jogos adultos e de alto rendimento. Devem criar situações que facilitem e permitam a participação de crianças ao nível de suas qualidades e capacidades técnicas observando seus estágios de desenvolvimento e idade, sem pular ou tentar avançar etapas. Assim, as competições “Kids” devem promover a diversão, motivar as crianças durante os jogos, ter caráter de aprendizagem ao contrário de destacar apenas a vitória e causar efeitos negativos nos participantes, como por exemplo, a desmotivação e o estresse (COSTA, 2018).

Mais especificamente, quanto à prática do Tênis, a competição infantil tem observado um aumento na participação de atletas em seus torneios. As competições “Kids” são importantes para a motivação e permanência de crianças na prática da modalidade colaborando para a consolidação do esporte e na formação de novos talentos (AIRES; GONÇALVES; KIERING; BALBINOTTI, 2017). No entanto, como a realização de competições esportivas para crianças no geral, as competições de Tênis devem ser planejadas com o intuito de se priorizar o processo educativo dos participantes, estimulando o prazer sempre respeitando as características da idade dos competidores.

Neste sentido, a CBT aponta que em suas competições “Kids” são proporcionadas as crianças experiências de convivência e aprendizado muito além de apenas jogar, vencer ou perder. Lima e Costa (2019) ressaltam a importância do enfoque a estas experiências deixando claro que, é importante que a pressão por resultados não ofusque o desenvolvimento integral da criança, sendo essencial que treinadores e organizadores garantam um ambiente saudável e estimulante para os jovens atletas.

Competições infantis devem, portanto, estimular estratégias educacionais para a consolidação de mudanças nas habilidades das crianças, reforçando a motivação das mesmas, proporcionando desafios adequados para todas. Devem ainda, guiar as crianças a persistirem na prática das atividades, o que conseqüentemente conduz a novas aprendizagens, a conquistas de novas habilidades e a uma melhoria na qualidade ao longo da vida (BERLEZE, 2008).

A Pedagogia do Esporte

A Pedagogia do Esporte, uma ciência, envolve a interdisciplinaridade na busca constante da associação dos princípios teóricos dos processos de ensinoaprendizagem integrados a prática esportiva. Para tal, utiliza o esporte como ferramenta observando através de sua prática, questões referentes ao desenvolvimento integral do indivíduo (PRADO, 2019). 

A Pedagogia do Esporte se fundamenta em alguns princípios que norteiam suas práticas e objetivos. Um dos princípios norteadores das práticas na Pedagogia do Esporte seria o da valorização do indivíduo como sujeito ativo no processo de aprendizagem, considerando suas características individuais, necessidades e interesses (VASCONCELOS; PRAIA; ALMEIDA, 2003). Outro principio que guia a Pedagogia do Esporte é a promoção da inclusão e da diversidade, garantindo que todos os indivíduos tenham acesso e oportunidades iguais no contexto esportivo (SANCHES; RUBIO, 2011).

Assim, pode-se considerar que a abordagem da Pedagogia do Esporte vai muito além das especificidades da técnica, da tática, do jogo e da competição observando como os vínculos esportivos refletem diretamente as dimensões motoras, cognitivas e psicossociais dos praticantes (VASCONCELOS; PRAIA; ALMEIDA, 2003). Sanches e Rubio (2011) consideram, neste contexto, que então, a prática de esportes torna-se um espaço de múltiplas aprendizagens contribuindo para a formação integral de cidadão críticos, com habilidades e valores necessários para a vida cotidiana.

Análise e Discussão

O Regulamento “Kids” da CBT e sua relação com a Pedagogia do Esporte

O regulamento das competições kids do Tênis Nacional está estruturado para proporcionar um ambiente seguro, educativo e divertido para as crianças, promovendo o desenvolvimento técnico e comportamental. Ao analisar esse regulamento à luz da pedagogia do esporte, podemos fazer uma associação com os princípios pedagógicos que norteiam a formação esportiva infantil.

Participação

Quanto ao critério Participação, pode-se considerar que o regulamento da CBT corrobora com o princípio da Pedagogia do Esporte que enfatiza a importância da inclusão de todas as crianças no contexto esportivo, novamente, garantindo que todos os indivíduos tenham acesso e oportunidades iguais no contexto esportivo (SANCHES; RUBIO, 2011). Independentemente de seu nível técnico ou habilidades, o regulamento prevê a gratuidade para as crianças, na inscrição em competições e no processo de cadastro junto às federações tornando a prática do Tênis infantil uma possibilidade para todos os que possuírem interesse e vontade. 

As competições “kids”, ainda, promovem estratégias como, por exemplo, a distribuição de prêmios para todos os participantes e a ênfase na participação ao invés da simples competição pela vitória deixando claro sua associação com princípios teóricos e metodológicos das Teorias da Pedagogia do Esporte.

Estruturação do Jogo

Quanto ao critério Estruturação, que leva em conta como as competições “Kids” são estruturadas para as crianças, observa-se que o regulamento da CBT leva em consideração aspectos importantes para valorizar a participação e a continuidade das crianças na modalidade. Neste critério podemos destacar três pontos importantes: Formato das partidas; Adaptação de regras e; Infraestrutura e equipamentos.

O formato das partidas “Kids” são em forma de jogos mais reduzidos, como, por exemplo, sets mais curtos e sets sem vantagens tornando o jogo mais rápido e dinâmico. Nesta linha, Martin (2004) propõe que, as competições para crianças e jovens se de em formato onde o importante não seja apenas o desempenho individual, mas sim a participação, pois proporciona aos participantes a oportunidade de viver a competição e se divertir.

Adaptar as regras é fundamental para que as crianças atinjam nível de compreensão do jogo de acordo com seus níveis de maturação cognitiva. O regulamento da CBT aponta para mudanças em contagem de pontos, espaço de jogo e duração da partida, coerente com as propostas da Pedagogia do Esporte para o ensino de crianças. Rost (1997) ressalta que as crianças não devem participar de competições em formato oficial, pois, não estão prontas para lidar com número grande de informações, muitas vezes sem compreender porque foram derrotadas, desmotivando-se assim de continuar no esporte.

Quanto à infraestrutura e os equipamentos, o regulamento da CBT faz referência a dimensões de espaço de jogo e adaptação de material (bolas, raquetes e uniformes) levando em consideração as fases de desenvolvimento dos participantes. Estas adaptações levam em conta aspectos da pedagogia do esporte que dizem que a competição de crianças é apenas uma ferramenta onde se possibilita o teste de habilidades em ambientes seguros e controlados. Para Marque e Oliveira (2002) as crianças ainda não conseguem lidar com as exigências das competições, não compreendem ainda as relações sociais que elas fornecem, não fazem associação sobre suas técnicas e habilidades e quando serão necessárias alterações para modificar padrões de jogo e ainda, não lidam bem em experimentar o sucesso e o insucesso.

Considerações Finais

Ao analisarmos o regulamento das competições “kids” de Tênis no Brasil, podemos considerar que este se associa efetivamente a abordagens e princípios da Pedagogia do Esporte. A prática do Tênis para crianças, conforme o regulamento da CBT promove uma abordagem que visa ao desenvolvimento integral das crianças em vez de priorizar resultados e desempenho físico em alto nível.

As competições “Kids” favorecem aos participantes o prazer de jogar e a vivência dos valores esportivos além, claro, da oportunidade de aprendizado da modalidade. O esporte, especialmente para crianças, deve servir como ferramenta pedagógica importante para a formação e estimular estratégias educacionais para a consolidação de mudanças nas habilidades das crianças, reforçando a motivação das mesmas, proporcionando desafios adequados para todas. Devem ainda, guiar as crianças a persistirem na prática das atividades, o que conseqüentemente conduz a novas aprendizagens, a conquistas de novas habilidades e a uma melhoria na qualidade ao longo da vida (BERLEZE, 2008).

Referências

AIRES, H.; GONÇALVES, G.H.T; KIERING, R.T.; BALBINOTTI, C.A.A. As Competições Infantojuvenis à Luz da Pedagogia do Esporte. In: Revista Knesis, (34), 2017.

BERLEZE, A. Efeitos de um Programa de Intervenção Motora, em crianças obesas e não-obesas, nos parâmetros motores, nutricionais e psicossociais. Porto Alegre: UFRGS, 2008. TESE (Doutorado em Ciência do Movimento Humano), Escola de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.

BORGES, L. A importância das competições infantis no processo de aprendizagem. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2021.

CBT. Regulamento do Circuito Nacional Tennis Kids Categorias 8, 9, 10 e 11 anos. 20025 – Disponível em: https://cbttenis.com.br/kids/attached/11 – Acesso: 02/01/2025.

COSTA, P. O impacto da pressão nas competições infantis. Porto Alegre: Editora Sul, 2018.

FREIRE, J.B. Pedagogia do esporte. In: MOREIRA, W. W; SIMÕES, R. (Org.) Fenômeno esportivo no início de um novo milênio. Piracicaba: Editora Unimep, 2000.

LIMA, R.; COSTA, M. O impacto das competições esportivas infantis no desenvolvimento motor e emocional. In: Revista Brasileira de Educação Física, 28(4), 2019. 

MARQUES, A. A preparação desportiva de crianças e jovens: o sistema de competições. In: GUEDES, O. Atividade física: uma abordagem multidimensional. João Pessoa: Ideia, 1997.

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MARTIN, D. Metodología general Del entrenamiento infantil y juvenil.  Barcelona: Paidotribo, 2004.

PRADO, M.A. Pedagogia do esporte: Contribuições e desafios na educação física. Editora do Autor, 2019.

ROST, K. As Competições no Desporto Juvenil. In: Treino Desportivo, jul. 1997.

SANCHES, S.M.; RUBIO, K. A prática Esportiva como Ferramenta Educacional: Trabalhando Valores e a Resiliência. In: Educação e Pesquisa, 37(4), 2011.

SILVA, J. A importância das competições esportivas para o desenvolvimento físico e social das crianças. São Paulo: Editora A, 2017.

SILVA, J.; OLIVEIRA, M. O esporte como ferramenta de inclusão social: efeitos no comportamento e autoestima infantil. Revista Brasileira de Psicologia, 39, 2021.

SILVA, S. Tênis para crianças: Manual para pais, filhos e mestres. São Paulo, SP. Ed: Via Lettera, 2003.

VASCONCELOS, C.; PRAIA, J.F.; ALMEIDA, L.S. Teorias de aprendizagem e o ensino/aprendizagem das ciências: da instrução à aprendizagem. In: Psicologia Escolar e Educacional, 7(1), 2003.


1Graduado em Educação Física pela UFRGS. Doutorando em Ciências do Movimento Humano – PPGCMH/UFRGS. e-mail: rgambinot@gmail.com