NEURONUTRITION: THE INTERFACE BETWEEN NUTRITION AND BRAIN HEALTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511062016
Bruno dos Santos Cardoso1
Francisca Marta Nascimento de Oliveira Freitas2
David Silva dos Reis3
RESUMO
A neuronutrição investiga como nutrientes e padrões alimentares modulam processos neurais e protegem a saúde cerebral ao longo do ciclo da vida. Este trabalho teve como objetivo sintetizar as evidências sobre o papel de nutrientes-chave como ômega-3, vitaminas do complexo B, antioxidantes, magnésio e colina e de padrões dietéticos Mediterrânea, DASH e MIND na cognição, na neuroproteção e na prevenção do declínio cognitivo. Os resultados indicam associação consistente entre a adequação desses nutrientes e melhor desempenho cognitivo, redução de neuroinflamação e estresse oxidativo, além de favorecimento da neuroplasticidade. Padrões alimentares ricos em frutas, verduras, grãos integrais, leguminosas, nozes, azeite e peixes mostraram-se relacionados a menor risco de doenças neurodegenerativas. A discussão aponta que intervenções precoces e contínuas tendem a produzir maior benefício, e que combinações de nutrientes podem atuar de forma sinérgica sobre vias antioxidantes, anti inflamatórias, vasculares e sobre o eixo intestino-cérebro. Reconhece-se diversidade metodológica entre estudos e necessidade de ensaios clínicos robustos. Conclui-se que estratégias alimentares baseadas em alimentos minimamente processados e fontes de ômega-3, vitaminas B, antioxidantes e minerais constituem abordagem promissora e factível para promoção da saúde cerebral e mitigação do declínio cognitivo na população.
Palavras-chave: neuronutrição; saúde cerebral; ômega-3; vitaminas do complexo B; dieta MIND/Mediterrânea.
ABSTRACT
The field of neuronutrition investigates how nutrients and dietary patterns modulate neural processes and protect brain health across the lifespan. This study aimed to synthesize evidence on the roles of key nutrients—such as omega-3s, B-complex vitamins, antioxidants, magnesium, and choline—and of dietary patterns including the Mediterranean, DASH, and MIND diets in cognition, neuroprotection, and the prevention of cognitive decline. The results indicate a consistent association between adequate intake of these nutrients and better cognitive performance, reduced neuroinflammation and oxidative stress, and enhanced neuroplasticity. Dietary patterns rich in fruits, vegetables, whole grains, legumes, nuts, olive oil, and fish were associated with a lower risk of neurodegenerative diseases. The discussion highlights that early and continuous interventions tend to yield greater benefits and that combinations of nutrients may act synergistically on antioxidant, anti-inflammatory, and vascular pathways, as well as on the gut–brain axis. Methodological diversity across studies is acknowledged, along with the need for robust clinical trials. It is concluded that food-based strategies emphasizing minimally processed foods and sources of omega-3s, B vitamins, antioxidants, and minerals represent a promising and feasible approach to promoting brain health and mitigating cognitive decline in the population.
Keywords: neuronutrition; brain health; omega-3; B-complex vitamins; MIND/Mediterranean diet.
1. INTRODUÇÃO
A saúde do cérebro é fundamental para manter a qualidade de vida, influenciando diretamente funções como memória, raciocínio, humor e a prevenção de doenças neurodegenerativas. Com o aumento da expectativa de vida e o crescimento de distúrbios como Alzheimer, Parkinson e depressão, a ciência tem buscado respostas em um campo promissor: a neuronutrição. Essa área estuda como os nutrientes e compostos bioativos presentes na alimentação podem melhorar o funcionamento do cérebro, proteger os neurônios e até mesmo estimular a formação de novas conexões nervosas (WHO, 2022). Assim, a neuronutrição investiga a influência dos nutrientes no desenvolvimento, funcionamento e proteção do sistema nervoso, estabelecendo relações diretas entre alimentação e saúde cerebral (Badaeva et al., 2023).
Evidências científicas apontam que nutrientes, como ômega-3 (Dyall, 2015), polifenóis encontrados em frutas e vegetais (Spencer et al., 2017), magnésio (Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018) e vitaminas do complexo B (Kennedy, 2016), desempenham papéis essenciais na saúde cerebral. Esses nutrientes ajudam a reduzir o estresse oxidativo, controlar a inflamação no sistema nervoso e até mesmo promover a formação de novos neurônios (Dyall, 2015; Kennedy, 2016; Spencer et al., 2017). Além disso, a neurociência nutricional revela que a dieta não serve apenas como combustível para o cérebro, mas também pode influenciar a expressão gênica, a comunicação entre neurônios e a proteção da barreira hematoencefálica, que age como um “filtro” para substâncias nocivas (Spencer et al., 2017; Dyall, 2015).
Diante dessas descobertas, fica claro que a alimentação vai muito além da nutrição básica ela pode ser uma poderosa aliada na preservação da saúde mental e na prevenção de doenças cerebrais. Compreender esses mecanismos é um passo importante para desenvolver estratégias que promovam um envelhecimento saudável e uma mente mais ativa ao longo da vida (Kennedy, 2016; Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018).
Do ponto de vista social, a má nutrição está associada ao aumento de transtornos cognitivos e mentais, sendo evidenciado que a desnutrição agravada na infância prejudica o desempenho neuropsicológico como atenção, memória de trabalho e funções executivas (KAR; Mishra; Panda, 2008). Revisões sistemáticas também apontam que a desnutrição infantil está fortemente relacionada a déficits de cognição, desempenho acadêmico e problemas comportamentais, o que justifica a pesquisa em neuronutrição como suporte a estratégias preventivas e terapêuticas capazes de melhorar a qualidade de vida e reduzir a sobrecarga nos sistemas de saúde.
No âmbito econômico, os custos relacionados a doenças neurodegenerativas e à perda de produtividade são elevados: o custo mundial da demência foi estimado em US$ 818 bilhões em 2015 e já ultrapassa US$ 1,3 trilhão; projeções indicam cenários de múltiplos trilhões para as próximas décadas, podendo alcançar estimativas de US$ 9,12 trilhões em 2050 quando considerados custos diretos e indiretos (WIMO et al., 2017; WHO, 2021; ADI, 2024; MORGAN et al., 2022).
Do ponto de vista tecnológico, a área se insere na interseção com avanços em nutrigenômica, suplementos “inteligentes” e monitoramento alimentar personalizado; abordagens baseadas em neuro nutrição podem atuar em alvos como neuroinflamação, estresse oxidativo, eixo intestino-cérebro e desequilíbrios de neurotransmissores (BADAEVA et al., 2023). Diante desse cenário multidimensional, este estudo tem como objetivo investigar a influência de nutrientes (ômega 3, vitamina do complexo B, magnésio e colina) e compostos bioativos (Polifenóis) presentes na alimentação sobre a saúde cerebral, contribuindo para o avanço do conhecimento na área da neuronutrição.
2. METODOLOGIA
2.1 Tipo de estudo
Este trabalho consiste em uma revisão narrativa da literatura, com análise e a síntese de evidências diversas (estudos experimentais, clínicos e teóricos) sobre a relação entre nutrição e saúde cerebral. A abordagem qualitativa foi empregada para integrar o conhecimento disponível em neuronutrição, conforme recomendado por Souza, Silva e Carvalho (2010).
2.2 Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada por meio das bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science, cobrindo o período de 2015 a 2025. Foram utilizados os descritores padronizados pelo DeCS/MeSH utilizando os operadores booleanos (AND/OR) relacionadas a nutrientes com possível efeito neuroprotetor com foco em ômega-3, polifenóis, vitaminas do complexo B e magnésio. Foram incluídos estudos nos idiomas português e inglês com metodologia claramente descrita e resultados consistentes sobre desfechos cognitivos (memória, atenção, função executiva), neuroinflamação, estresse oxidativo, neuroplasticidade e/ou risco de declínio cognitivo, considerando a plausibilidade biológica e a evidência acumulada para esses nutrientes e mecanismos. Excluiu-se estudos fora do escopo, duplicados, escritos em outros idiomas, fora do período de publicação estabelecido e artigos incompletos, com a apresentação apenas do resumo, estando seu conteúdo indisponível. Todo o processo abrangeu a identificação das referências, a aplicação de critérios de inclusão/exclusão e a seleção final dos estudos, com registro das datas de busca para assegurar transparência e reprodutibilidade.
2.3 Análise de dados
A análise dos dados ocorreu em duas etapas complementares. Inicialmente, empregou se análise temática para identificar padrões, categorias e temas recorrentes sobre mecanismos de ação de nutrientes e seus efeitos em cognição e neuroproteção, conforme a abordagem proposta por Braun e Clarke (2006). Em seguida, realizou-se síntese crítica integrativa, alinhada ao escopo da revisão de Whittemore e Knafl (2005), discutindo convergências, lacunas e a força das evidências por tipo de estudo, com ênfase em neuroplasticidade, modulação do estresse oxidativo e inflamação, e possíveis sinergias entre compostos bioativos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A neuronutrição é um campo interdisciplinar emergente que integra conhecimentos da nutrição, neurociência, neurologia e dietética clínica, com o objetivo de compreender como os nutrientes e padrões alimentares influenciam o desenvolvimento, funcionamento e proteção do sistema nervoso central. Essa abordagem reconhece que a alimentação não apenas fornece energia, mas também atua como moduladora ativa de processos fisiológicos e bioquímicos essenciais para a saúde cerebral (Badaeva et al., 2023).
A neuronutrição oferece perspectivas promissoras na prevenção e tratamento de doenças neurológicas, como Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla, transtornos de ansiedade, depressão, enxaqueca e dor crônica. A implementação de intervenções neuronutricionais pode ser realizada por meio da correção de padrões alimentares, cultura alimentar e ingestão de nutrientes, visando otimizar a saúde neurológica e prevenir/tratar distúrbios neurológicos (Badaeva et al., 2023).
Em suma, a neuronutrição propõe uma visão integrativa do papel da alimentação na saúde cerebral, enfatizando que os nutrientes não atuam apenas como fontes de energia ou matéria-prima, mas como moduladores ativos de processos neurais, neuroquímicos e neuroprotetores. Essa perspectiva amplia as possibilidades de estratégias para promover a saúde mental e prevenir doenças cerebrais ao longo da vida. A Tabela 1 sintetiza nutrientes com potencial neuroprotetor e seus mecanismos centrais.
Tabela 1. Principais nutrientes e seus mecanismos de ação

Os ácidos graxos ômega-3 DHA (ácido docosahexaenoico) integra estruturalmente as membranas neuronais, contribuindo para sua fluidez e para a eficiência sináptica; há evidências de que favorece vias de neuroplasticidade (ex.: BDNF), com reflexo em memória e aprendizagem (Dyall, 2015; Suzuki et al., 2017). O EPA (ácido hexapentaenoico), por sua vez, destaca-se pelo efeito anti-inflamatório e modulador de eicosanoides e citocinas, o que é relevante na neuroinflamação associada ao declínio cognitivo (Dyall, 2015; Calder, 2020). Em conjunto, DHA e EPA oferecem um perfil neuroprotetor complementar: o primeiro mais estrutural/neuro regenerativo, o segundo mais anti-inflamatório (Dyall, 2015; Calder, 2020).
As vitaminas do complexo B, a B9 (folato) e B12 são centrais na metilação do DNA e no metabolismo de homocisteína; níveis inadequados associam-se a alterações de mielina, declínio cognitivo e pior desempenho em testes de memória e atenção (Kennedy, 2016; SMITH et al., 2018). A B6 participa de etapas-chave na síntese de neurotransmissores (p.ex., GABA, serotonina e dopamina) e na mielinização, apoiando transmissão nervosa eficiente (Kennedy, 2016). Assim, a adequação do complexo B sustenta tanto a integridade estrutural (mielina/ DNA) quanto a função sináptica (Smith et al., 2018; Kennedy, 2016).
Os antioxidantes, como a vitamina E (alfa-tocoferol), atua como antioxidante lipofílico de membrana, protegendo fosfolipídios neuronais contra peroxidação e preservando a funcionalidade sináptica. A vitamina C contribui na reciclagem antioxidante e no controle do estresse oxidativo. Os polifenóis (ex.: flavonoides) modulam vias de sinalização (ERK/CREB), angiogênese e neurogênese, além de atenuarem neuroinflamação e estresse oxidativo, com benefícios observados em marcadores cognitivos. Em síntese, esse conjunto atua de forma sinérgica, protegendo membranas, mitocôndrias e redes sinápticas (Spencer; Vauzour; Rendeiro, 2017).
A colina, essencial como precursora de acetilcolina, impacta a memória e atenção; também integra fosfolipídios de membrana (p.ex., fosfatidilcolina), influenciando neurogênese e maturação neuronal—com destaque para o hipocampo, região crítica para formação de memória. A ingestão adequada, sobretudo em fases de desenvolvimento e envelhecimento, relaciona-se a melhor eficiência sináptica e reserva cognitiva (Zeisel, 2017).
O magnésio modula receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), regula a excitabilidade neuronal e favorece plasticidade sináptica (LTP/LTD), com potenciais efeitos em aprendizagem e resistência a insultos excitotóxicos (Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018). O zinco participa da transmissão glutamatérgica, da atividade de diversas metaloproteínas e influencia mecanismos de memória; alterações no balanço de zinco no hipocampo podem impactar cognição (Takeda, 2017). Em conjunto, ambos os minerais são cofatores de amplo espectro, conectando bioenergética, neurotransmissão e homeostase sináptica (Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018; Takeda, 2017).
O magnésio é um cofator central na excitabilidade neuronal e na comunicação sináptica. No sistema glutamatérgico, atua como bloqueador fisiológico dependente de voltagem do receptor NMDA, modulando o influxo de cálcio e contendo a hiperexcitabilidade mecanismos ligados à neuroproteção e à plasticidade sináptica (KIRKLAND; SARLO; HOLTON, 2018). A deficiência de magnésio associa-se a maior vulnerabilidade ao estresse e piores desfechos de saúde mental (MURCK, 2002). Em intervenção clínica, idosos com insônia apresentaram melhora de parâmetros objetivos e subjetivos de sono após suplementação (ABBASI et al., 2012). No domínio afetivo, há evidências de redução de sintomas de ansiedade em subgrupos com baixo status de magnésio (BOYLE; LAWTON; DYE, 2017) e de associação entre ingestão inadequados e sintomas depressivos (TARLETON; LITTENBERG, 2017). Em modelos animais, a elevação do magnésio cerebral por exemplo, com magnésio L-treonato aumentou marcadores de plasticidade sináptica e desempenho de memória (SLUTSKY et al., 2010). Na prática clínica, sais orgânicos como bisglicinato e citrato mostram boa tolerabilidade, enquanto o L-treonato é promissor para o SNC, mas com evidência clínica ainda limitada (KIRKLAND; SARLO; HOLTON, 2018). Em síntese, ao modular receptores NMDA, favorecer o equilíbrio inibitório-excitatório e interagir com eixos de estresse e sono, o magnésio pode auxiliar a saúde mental; a magnitude do efeito depende do status basal, da forma química e da duração da intervenção (MURCK, 2002; BOYLE; LAWTON; DYE, 2017; KIRKLAND; SARLO; HOLTON, 2018; ABBASI et al., 2012; TARLETON; LITTENBERG, 2017; SLUTSKY et al., 2010).
Pesquisas recentes reforçam a importância dos ácidos graxos ômega‑3 em especial o DHA (ácido docosa-hexaenóico) e o EPA (ácido eicosapentaenóico) para a saúde cerebral na meia‑idade. Evidências de Satizabal et al. (2022) apontam que maiores concentrações sanguíneas desses lipídios associam‑se a maior volume de hipocampo, região-chave para a formação de memórias, além de melhor desempenho cognitivo nessa faixa etária. Um achado particularmente relevante diz respeito aos portadores do alelo APOE4: os mesmos autores observaram indícios de efeito protetor quando níveis adequados de DHA/EPA são mantidos, possivelmente pela modulação de processos vasculares e inflamatórios cerebrais.A tabela 2 apresenta a ação anti-inflamatória do ômega 3.
Tabela 2. Ácidos Graxos Ômega-3 (DHA e EPA) e sua Ação Anti-Inflamatória

Os achados do Framingham Heart Study (SCHAEFER et al., 2006) apontam na mesma direção: concentrações plasmáticas mais altas de DHA associam-se a menor risco futuro de demência e doença de Alzheimer, sugerindo que intervenções nutricionais e o monitoramento de marcadores podem atuar muitos anos antes do surgimento de sintomas clínicos um argumento consistente para estratégias de prevenção primária (SCHAEFER et al., 2006).
A eficácia clínica do ômega-3 parece depender do estágio ao longo do continuum cognitivo. Em fases iniciais como declínio cognitivo relacionado à idade ou comprometimento cognitivo leve (CCL) os sinais de benefício tendem a ser mais consistentes, com melhorias discretas a moderadas em domínios como memória e atenção quando o estado nutricional é adequado e a intervenção é suficientemente prolongada (YURKO-MAURO et al., 2010; SINN et al., 2012). Por outro lado, há ensaios com resultados nulos em populações sem declínio estabelecido ou em estágios mais avançados, o que indica que o efeito não é universal e pode depender de dose, duração e do nível basal de DHA/EPA (AREDS2 RESEARCH GROUP, 2013). Em síntese, a literatura apoia o papel do ômega-3 sobretudo em estágios iniciais ou em tempo oportuno, desde que acompanhados de estado nutricional favorável e adesão suficiente ao protocolo de suplementação.
Por outro lado, em estágios avançados, os resultados são mais limitados: em ensaio clínico duplo‑cego, (Quinn et al. 2010) observaram que a suplementação com DHA (2 g/dia por 18 meses) não retardou o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer estabelecido. Em conjunto, os dados sustentam a hipótese de que o tempo da intervenção importa: quanto mais cedo, maior a chance de observar efeitos clínicos significativos.
Os polifenóis do cacau, em especial os flavanóis, têm sido amplamente estudados pelos seus potenciais benefícios para o cérebro. O estudo de Efraim et al. (2011), destaca três propriedades principais, conforme pode ser visualizado no quadro 1.
Quadro 1. Propriedades principais dos polifenóis.

Fonte: Efraim et al. (2011).
Evidências recentes sugerem ainda sinergia entre polifenóis e ácidos graxos ômega‑3: combinações dietéticas ou intervenções que agregam flavanóis do cacau e DHA podem potencializar a plasticidade sináptica e proteger contra o declínio cognitivo efeito plausível porque o DHA integra as membranas neuronais enquanto os polifenóis modulam vias redox‑inflamatórias e de sinalização (Efraim et al., 2011; Silva, 2025). A tabela 3 mostra os principais polifenóis e a sua ação antioxidante.
Tabela 3. Polifenóis (Resveratrol e Curcumina) e sua Ação Antioxidante


Existe robusta relação entre níveis elevados de homocisteína (Hcy) e maior risco de comprometimento cognitivo. A revisão de Sachdev (2004), no Brazilian Journal of Psychiatry, descreve associações consistentes com demência vascular e doença de Alzheimer, além de efeitos pró‑trombóticos e neurotoxicidade direta. Confirmando esse quadro, a meta‑análise de Shen e Ji (2015) no Journal of Alzheimer’s Disease, que reuniu 68 estudos, mostrou que pacientes com Alzheimer apresentam homocisteína plasmática mais alta e menores concentrações de folato e vitamina B12 sinalizando a importância do status de vitaminas do complexo B, sobretudo no idoso. O quadro 2 apresenta os mecanismos fisiopatológicos da hiper-homocisteína.
Quadro 2. Mecanismos fisiopatológicos da hiper-homocisteína.

Fonte: (Kamat et al., 2015; Beard junior et al., 2011; Kruman et al., 2000; ho et al., 2001; Mandaviya; franken; Peeters, 2014; Zhang et al., 2008; li et al., 2014; Moretti; Caruso; Vita, 2019)
Em termos práticos para saúde pública e clínica, esses dados sustentam estratégias de prevenção e rastreio do estado de folato e vitamina B12, especialmente em idosos, além de intervenções dietéticas que priorizem padrões ricos em micronutrientes sempre considerando avaliação individual, duração adequada e monitoramento laboratorial quando indicado (Sachdev, 2004; Shen & Ji, 2015), conforme pode ser observado na tabela 4.
Tabela 4 Compara duas dietas de maior respaldo para saúde do cérebro.

4. MECANISMOS DE AÇÃO NEUROPROTETORA
A dieta MIND integra elementos Mediterrâneo + DASH e propõe mecanismos complementares para explicar os achados em cognição e demência (MORRIS, 2015; DHANA et al., 2021; AGARWAL, 2023; SAWYER et al., 2024). Primeiro, há redução do estresse oxidativo: a ênfase em frutas vermelhas e folhosos verde-escuros fornece antioxidantes que atenuam danos neuronais ligados ao envelhecimento cerebral (MORRIS, 2015; AGARWAL, 2023). Em paralelo, observa-se ação anti-inflamatória sistêmica, com menores níveis de marcadores como IL-6 e PCR em maiores escores de adesão condição associada a progressão mais lenta de processos neurodegenerativos (DHANA et al., 2021; SAWYER et al., 2024). A proteção vascular cerebral decorre do padrão de gorduras saudáveis (azeite, nozes) e da menor ingestão de alimentos pró-inflamatórios, favorecendo função endotelial, perfusão e integridade da barreira hematoencefálica (MORRIS, 2015; DHANA et al., 2021). Soma-se a modulação da microbiota intestinal por fibras e polifenóis, com efeitos anti-inflamatórios ao longo do eixo intestino-cérebro (AGARWAL, 2023; SAWYER et al., 2024).
Por fim, a MIND prioriza micronutrientes com plausível benefício cognitivo vitamina E (nozes/sementes), folato (folhosos), carotenoides como luteína (ovos e vegetais amarelos/alaranjados) e ômega-3 (peixes gordurosos) compondo um aporte neuroprotetor (MORRIS, 2015; AGARWAL, 2023). Em conjunto, esses caminhos sustentam as associações entre maior adesão à MIND, melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo e menor risco de Alzheimer/demência (MORRIS, 2015; DHANA et al., 2021; AGARWAL, 2023; SAWYER et al., 2024).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este TCC mostrou que neuronutrição não é moda passageira nem promessa milagrosa: é um campo sólido, onde mecanismos biológicos (anti-inflamação, antioxidantes, integridade vascular, eixo intestino-cérebro) conversam com evidências de coortes e ensaios para orientar decisões de vida real. Ao integrar ômega-3, vitaminas do complexo B, magnésio, polifenóis e padrões alimentares como Mediterrânea/DASH/MIND, o trabalho constrói uma ponte entre o que acontece na célula e o que importa no cotidiano: memória preservada, atenção mais estável, humor mais equilibrado e envelhecimento com autonomia.
De forma séria e pragmática, os achados sustentam três mensagens centrais. Primeiro, o tempo de intervenção importa: quanto mais cedo e consistente o cuidado nutricional, maior a chance de proteger o cérebro ao longo do curso de vida. Segundo o foco em padrões alimentares como frutas, folhosos, grãos integrais, leguminosas, nozes/sementes, azeite e peixes gordurosos é mais efetivo e sustentável do que apostar em um único nutriente isolado. Terceiro, a prática clínica e as políticas públicas devem personalizar estado basal, cultura, acesso, comorbidade reconhecendo limites da literatura sem perder a direção do benefício.
Em síntese, este TCC entrega um mapa confiável e aplicável onde começa na bioquímica, passa pela evidência clínica e termina no serviço de saúde. O recado final é simples e sério a nutrição é plataforma de neuroproteção. Começar cedo, manter por longo prazo e adaptar à realidade local são as três regras que podem transformar ciência em qualidade de vida, memória preservada e mais anos com independência.
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1Graduando do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: bc09092000@gmail.com;
2Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: francisca.freitas@fametro.edu.br;
3 Co-orientador(a) do TCC, Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Católica de Santos, Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: david.reis@fametro.edu.br
