NEURONUTRIÇÃO: A INTERFACE ENTRE NUTRIÇÃO E SAÚDE CEREBRAL 

NEURONUTRITION: THE INTERFACE BETWEEN NUTRITION AND BRAIN  HEALTH 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511062016


Bruno dos Santos Cardoso1
Francisca Marta Nascimento de Oliveira Freitas2
David Silva dos Reis3


RESUMO  

A neuronutrição investiga como nutrientes e padrões alimentares modulam processos neurais e protegem a saúde  cerebral ao longo do ciclo da vida. Este trabalho teve como objetivo sintetizar as evidências sobre o papel de  nutrientes-chave como ômega-3, vitaminas do complexo B, antioxidantes, magnésio e colina e de padrões  dietéticos Mediterrânea, DASH e MIND na cognição, na neuroproteção e na prevenção do declínio cognitivo. Os  resultados indicam associação consistente entre a adequação desses nutrientes e melhor desempenho cognitivo,  redução de neuroinflamação e estresse oxidativo, além de favorecimento da neuroplasticidade. Padrões alimentares  ricos em frutas, verduras, grãos integrais, leguminosas, nozes, azeite e peixes mostraram-se relacionados a menor  risco de doenças neurodegenerativas. A discussão aponta que intervenções precoces e contínuas tendem a produzir  maior benefício, e que combinações de nutrientes podem atuar de forma sinérgica sobre vias antioxidantes, anti inflamatórias, vasculares e sobre o eixo intestino-cérebro. Reconhece-se diversidade metodológica entre estudos e  necessidade de ensaios clínicos robustos. Conclui-se que estratégias alimentares baseadas em alimentos  minimamente processados e fontes de ômega-3, vitaminas B, antioxidantes e minerais constituem abordagem  promissora e factível para promoção da saúde cerebral e mitigação do declínio cognitivo na população. 

Palavras-chave: neuronutrição; saúde cerebral; ômega-3; vitaminas do complexo B; dieta MIND/Mediterrânea.

ABSTRACT 

The field of neuronutrition investigates how nutrients and dietary patterns modulate neural processes and protect  brain health across the lifespan. This study aimed to synthesize evidence on the roles of key nutrients—such as  omega-3s, B-complex vitamins, antioxidants, magnesium, and choline—and of dietary patterns including the  Mediterranean, DASH, and MIND diets in cognition, neuroprotection, and the prevention of cognitive decline.  The results indicate a consistent association between adequate intake of these nutrients and better cognitive  performance, reduced neuroinflammation and oxidative stress, and enhanced neuroplasticity. Dietary patterns rich  in fruits, vegetables, whole grains, legumes, nuts, olive oil, and fish were associated with a lower risk of  neurodegenerative diseases. The discussion highlights that early and continuous interventions tend to yield greater  benefits and that combinations of nutrients may act synergistically on antioxidant, anti-inflammatory, and vascular  pathways, as well as on the gut–brain axis. Methodological diversity across studies is acknowledged, along with  the need for robust clinical trials. It is concluded that food-based strategies emphasizing minimally processed foods  and sources of omega-3s, B vitamins, antioxidants, and minerals represent a promising and feasible approach to  promoting brain health and mitigating cognitive decline in the population. 

Keywords: neuronutrition; brain health; omega-3; B-complex vitamins; MIND/Mediterranean diet.

1. INTRODUÇÃO 

A saúde do cérebro é fundamental para manter a qualidade de vida, influenciando  diretamente funções como memória, raciocínio, humor e a prevenção de doenças  neurodegenerativas. Com o aumento da expectativa de vida e o crescimento de distúrbios como  Alzheimer, Parkinson e depressão, a ciência tem buscado respostas em um campo promissor: a  neuronutrição. Essa área estuda como os nutrientes e compostos bioativos presentes na  alimentação podem melhorar o funcionamento do cérebro, proteger os neurônios e até mesmo  estimular a formação de novas conexões nervosas (WHO, 2022). Assim, a neuronutrição investiga a influência dos nutrientes no desenvolvimento, funcionamento e proteção do sistema  nervoso, estabelecendo relações diretas entre alimentação e saúde cerebral (Badaeva et al.,  2023).  

Evidências científicas apontam que nutrientes, como ômega-3 (Dyall, 2015), polifenóis  encontrados em frutas e vegetais (Spencer et al., 2017), magnésio (Kirkland; Sarlo; Randazzo,  2018) e vitaminas do complexo B (Kennedy, 2016), desempenham papéis essenciais na saúde  cerebral. Esses nutrientes ajudam a reduzir o estresse oxidativo, controlar a inflamação no  sistema nervoso e até mesmo promover a formação de novos neurônios (Dyall, 2015; Kennedy,  2016; Spencer et al., 2017). Além disso, a neurociência nutricional revela que a dieta não serve  apenas como combustível para o cérebro, mas também pode influenciar a expressão gênica, a  comunicação entre neurônios e a proteção da barreira hematoencefálica, que age como um  “filtro” para substâncias nocivas (Spencer et al., 2017; Dyall, 2015).  

Diante dessas descobertas, fica claro que a alimentação vai muito além da nutrição  básica ela pode ser uma poderosa aliada na preservação da saúde mental e na prevenção de  doenças cerebrais. Compreender esses mecanismos é um passo importante para desenvolver  estratégias que promovam um envelhecimento saudável e uma mente mais ativa ao longo da  vida (Kennedy, 2016; Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018).  

Do ponto de vista social, a má nutrição está associada ao aumento de transtornos  cognitivos e mentais, sendo evidenciado que a desnutrição agravada na infância prejudica o  desempenho neuropsicológico como atenção, memória de trabalho e funções executivas (KAR;  Mishra; Panda, 2008). Revisões sistemáticas também apontam que a desnutrição infantil está  fortemente relacionada a déficits de cognição, desempenho acadêmico e problemas  comportamentais, o que justifica a pesquisa em neuronutrição como suporte a estratégias preventivas e terapêuticas capazes de melhorar a qualidade de vida e reduzir a sobrecarga nos  sistemas de saúde.  

No âmbito econômico, os custos relacionados a doenças neurodegenerativas e à perda  de produtividade são elevados: o custo mundial da demência foi estimado em US$ 818 bilhões  em 2015 e já ultrapassa US$ 1,3 trilhão; projeções indicam cenários de múltiplos trilhões para  as próximas décadas, podendo alcançar estimativas de US$ 9,12 trilhões em 2050 quando  considerados custos diretos e indiretos (WIMO et al., 2017; WHO, 2021; ADI, 2024;  MORGAN et al., 2022).  

Do ponto de vista tecnológico, a área se insere na interseção com avanços em  nutrigenômica, suplementos “inteligentes” e monitoramento alimentar personalizado;  abordagens baseadas em neuro nutrição podem atuar em alvos como neuroinflamação, estresse  oxidativo, eixo intestino-cérebro e desequilíbrios de neurotransmissores (BADAEVA et al.,  2023). Diante desse cenário multidimensional, este estudo tem como objetivo investigar a  influência de nutrientes (ômega 3, vitamina do complexo B, magnésio e colina) e compostos bioativos (Polifenóis) presentes na alimentação sobre a saúde cerebral, contribuindo para o  avanço do conhecimento na área da neuronutrição. 

2. METODOLOGIA  

2.1 Tipo de estudo  

Este trabalho consiste em uma revisão narrativa da literatura, com análise e a síntese de  evidências diversas (estudos experimentais, clínicos e teóricos) sobre a relação entre nutrição e  saúde cerebral. A abordagem qualitativa foi empregada para integrar o conhecimento  disponível em neuronutrição, conforme recomendado por Souza, Silva e Carvalho (2010). 

2.2 Coleta de dados  

A coleta de dados foi realizada por meio das bases de dados PubMed/MEDLINE,  SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science, cobrindo o período de 2015 a 2025. Foram  utilizados os descritores padronizados pelo DeCS/MeSH utilizando os operadores booleanos  (AND/OR) relacionadas a nutrientes com possível efeito neuroprotetor com foco em ômega-3,  polifenóis, vitaminas do complexo B e magnésio. Foram incluídos estudos nos idiomas  português e inglês com metodologia claramente descrita e resultados consistentes sobre desfechos cognitivos (memória, atenção, função executiva), neuroinflamação, estresse  oxidativo, neuroplasticidade e/ou risco de declínio cognitivo, considerando a plausibilidade  biológica e a evidência acumulada para esses nutrientes e mecanismos. Excluiu-se estudos fora  do escopo, duplicados, escritos em outros idiomas, fora do período de publicação estabelecido  e artigos incompletos, com a apresentação apenas do resumo, estando seu conteúdo  indisponível. Todo o processo abrangeu a identificação das referências, a aplicação de critérios  de inclusão/exclusão e a seleção final dos estudos, com registro das datas de busca para  assegurar transparência e reprodutibilidade. 

2.3 Análise de dados  

A análise dos dados ocorreu em duas etapas complementares. Inicialmente, empregou se análise temática para identificar padrões, categorias e temas recorrentes sobre mecanismos  de ação de nutrientes e seus efeitos em cognição e neuroproteção, conforme a abordagem  proposta por Braun e Clarke (2006). Em seguida, realizou-se síntese crítica integrativa, alinhada  ao escopo da revisão de Whittemore e Knafl (2005), discutindo convergências, lacunas e a força  das evidências por tipo de estudo, com ênfase em neuroplasticidade, modulação do estresse  oxidativo e inflamação, e possíveis sinergias entre compostos bioativos. 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO  

A neuronutrição é um campo interdisciplinar emergente que integra conhecimentos da  nutrição, neurociência, neurologia e dietética clínica, com o objetivo de compreender como os  nutrientes e padrões alimentares influenciam o desenvolvimento, funcionamento e proteção do  sistema nervoso central. Essa abordagem reconhece que a alimentação não apenas fornece  energia, mas também atua como moduladora ativa de processos fisiológicos e bioquímicos  essenciais para a saúde cerebral (Badaeva et al., 2023). 

A neuronutrição oferece perspectivas promissoras na prevenção e tratamento de doenças  neurológicas, como Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla, transtornos de ansiedade,  depressão, enxaqueca e dor crônica. A implementação de intervenções neuronutricionais pode  ser realizada por meio da correção de padrões alimentares, cultura alimentar e ingestão de  nutrientes, visando otimizar a saúde neurológica e prevenir/tratar distúrbios neurológicos  (Badaeva et al., 2023).

Em suma, a neuronutrição propõe uma visão integrativa do papel da alimentação na  saúde cerebral, enfatizando que os nutrientes não atuam apenas como fontes de energia ou  matéria-prima, mas como moduladores ativos de processos neurais, neuroquímicos e  neuroprotetores. Essa perspectiva amplia as possibilidades de estratégias para promover a saúde  mental e prevenir doenças cerebrais ao longo da vida. A Tabela 1 sintetiza nutrientes com  potencial neuroprotetor e seus mecanismos centrais.  

Tabela 1. Principais nutrientes e seus mecanismos de ação 

Os ácidos graxos ômega-3 DHA (ácido docosahexaenoico) integra estruturalmente as  membranas neuronais, contribuindo para sua fluidez e para a eficiência sináptica; há evidências  de que favorece vias de neuroplasticidade (ex.: BDNF), com reflexo em memória e  aprendizagem (Dyall, 2015; Suzuki et al., 2017). O EPA (ácido hexapentaenoico), por sua vez,  destaca-se pelo efeito anti-inflamatório e modulador de eicosanoides e citocinas, o que é  relevante na neuroinflamação associada ao declínio cognitivo (Dyall, 2015; Calder, 2020). Em  conjunto, DHA e EPA oferecem um perfil neuroprotetor complementar: o primeiro mais  estrutural/neuro regenerativo, o segundo mais anti-inflamatório (Dyall, 2015; Calder, 2020). 

As vitaminas do complexo B, a B9 (folato) e B12 são centrais na metilação do DNA e  no metabolismo de homocisteína; níveis inadequados associam-se a alterações de mielina,  declínio cognitivo e pior desempenho em testes de memória e atenção (Kennedy, 2016; SMITH  et al., 2018). A B6 participa de etapas-chave na síntese de neurotransmissores (p.ex., GABA,  serotonina e dopamina) e na mielinização, apoiando transmissão nervosa eficiente (Kennedy,  2016). Assim, a adequação do complexo B sustenta tanto a integridade estrutural (mielina/  DNA) quanto a função sináptica (Smith et al., 2018; Kennedy, 2016). 

Os antioxidantes, como a vitamina E (alfa-tocoferol), atua como antioxidante lipofílico  de membrana, protegendo fosfolipídios neuronais contra peroxidação e preservando a  funcionalidade sináptica. A vitamina C contribui na reciclagem antioxidante e no controle do  estresse oxidativo. Os polifenóis (ex.: flavonoides) modulam vias de sinalização (ERK/CREB),  angiogênese e neurogênese, além de atenuarem neuroinflamação e estresse oxidativo, com  benefícios observados em marcadores cognitivos. Em síntese, esse conjunto atua de forma  sinérgica, protegendo membranas, mitocôndrias e redes sinápticas (Spencer; Vauzour;  Rendeiro, 2017). 

A colina, essencial como precursora de acetilcolina, impacta a memória e atenção;  também integra fosfolipídios de membrana (p.ex., fosfatidilcolina), influenciando neurogênese  e maturação neuronal—com destaque para o hipocampo, região crítica para formação de  memória. A ingestão adequada, sobretudo em fases de desenvolvimento e envelhecimento,  relaciona-se a melhor eficiência sináptica e reserva cognitiva (Zeisel, 2017). 

O magnésio modula receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), regula a excitabilidade  neuronal e favorece plasticidade sináptica (LTP/LTD), com potenciais efeitos em aprendizagem  e resistência a insultos excitotóxicos (Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018). O zinco participa da  transmissão glutamatérgica, da atividade de diversas metaloproteínas e influencia mecanismos  de memória; alterações no balanço de zinco no hipocampo podem impactar cognição (Takeda,  2017). Em conjunto, ambos os minerais são cofatores de amplo espectro, conectando  bioenergética, neurotransmissão e homeostase sináptica (Kirkland; Sarlo; Randazzo, 2018;  Takeda, 2017). 

O magnésio é um cofator central na excitabilidade neuronal e na comunicação sináptica.  No sistema glutamatérgico, atua como bloqueador fisiológico dependente de voltagem do  receptor NMDA, modulando o influxo de cálcio e contendo a hiperexcitabilidade mecanismos  ligados à neuroproteção e à plasticidade sináptica (KIRKLAND; SARLO; HOLTON, 2018). A  deficiência de magnésio associa-se a maior vulnerabilidade ao estresse e piores desfechos de  saúde mental (MURCK, 2002). Em intervenção clínica, idosos com insônia apresentaram  melhora de parâmetros objetivos e subjetivos de sono após suplementação (ABBASI et al.,  2012). No domínio afetivo, há evidências de redução de sintomas de ansiedade em subgrupos  com baixo status de magnésio (BOYLE; LAWTON; DYE, 2017) e de associação entre ingestão  inadequados e sintomas depressivos (TARLETON; LITTENBERG, 2017). Em modelos  animais, a elevação do magnésio cerebral por exemplo, com magnésio L-treonato aumentou  marcadores de plasticidade sináptica e desempenho de memória (SLUTSKY et al., 2010). Na  prática clínica, sais orgânicos como bisglicinato e citrato mostram boa tolerabilidade, enquanto  o L-treonato é promissor para o SNC, mas com evidência clínica ainda limitada (KIRKLAND;  SARLO; HOLTON, 2018). Em síntese, ao modular receptores NMDA, favorecer o equilíbrio  inibitório-excitatório e interagir com eixos de estresse e sono, o magnésio pode auxiliar a saúde  mental; a magnitude do efeito depende do status basal, da forma química e da duração da  intervenção (MURCK, 2002; BOYLE; LAWTON; DYE, 2017; KIRKLAND; SARLO;  HOLTON, 2018; ABBASI et al., 2012; TARLETON; LITTENBERG, 2017; SLUTSKY et al.,  2010).  

Pesquisas recentes reforçam a importância dos ácidos graxos ômega‑3 em especial o  DHA (ácido docosa-hexaenóico) e o EPA (ácido eicosapentaenóico) para a saúde cerebral na  meia‑idade. Evidências de Satizabal et al. (2022) apontam que maiores concentrações  sanguíneas desses lipídios associam‑se a maior volume de hipocampo, região-chave para a  formação de memórias, além de melhor desempenho cognitivo nessa faixa etária. Um achado particularmente relevante diz respeito aos portadores do alelo APOE4: os mesmos autores  observaram indícios de efeito protetor quando níveis adequados de DHA/EPA são mantidos,  possivelmente pela modulação de processos vasculares e inflamatórios cerebrais.A tabela 2  apresenta a ação anti-inflamatória do ômega 3. 

Tabela 2. Ácidos Graxos Ômega-3 (DHA e EPA) e sua Ação Anti-Inflamatória

Os achados do Framingham Heart Study (SCHAEFER et al., 2006) apontam na mesma  direção: concentrações plasmáticas mais altas de DHA associam-se a menor risco futuro de  demência e doença de Alzheimer, sugerindo que intervenções nutricionais e o monitoramento  de marcadores podem atuar muitos anos antes do surgimento de sintomas clínicos um  argumento consistente para estratégias de prevenção primária (SCHAEFER et al., 2006). 

A eficácia clínica do ômega-3 parece depender do estágio ao longo do continuum  cognitivo. Em fases iniciais como declínio cognitivo relacionado à idade ou comprometimento  cognitivo leve (CCL) os sinais de benefício tendem a ser mais consistentes, com melhorias  discretas a moderadas em domínios como memória e atenção quando o estado nutricional é  adequado e a intervenção é suficientemente prolongada (YURKO-MAURO et al., 2010; SINN  et al., 2012). Por outro lado, há ensaios com resultados nulos em populações sem declínio  estabelecido ou em estágios mais avançados, o que indica que o efeito não é universal e pode  depender de dose, duração e do nível basal de DHA/EPA (AREDS2 RESEARCH GROUP,  2013). Em síntese, a literatura apoia o papel do ômega-3 sobretudo em estágios iniciais ou em  tempo oportuno, desde que acompanhados de estado nutricional favorável e adesão suficiente  ao protocolo de suplementação. 

Por outro lado, em estágios avançados, os resultados são mais limitados: em ensaio  clínico duplo‑cego, (Quinn et al. 2010) observaram que a suplementação com DHA (2 g/dia  por 18 meses) não retardou o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer estabelecido. Em  conjunto, os dados sustentam a hipótese de que o tempo da intervenção importa: quanto mais  cedo, maior a chance de observar efeitos clínicos significativos. 

Os polifenóis do cacau, em especial os flavanóis, têm sido amplamente estudados pelos  seus potenciais benefícios para o cérebro. O estudo de Efraim et al. (2011), destaca três  propriedades principais, conforme pode ser visualizado no quadro 1. 

Quadro 1. Propriedades principais dos polifenóis. 

Fonte: Efraim et al. (2011). 

Evidências recentes sugerem ainda sinergia entre polifenóis e ácidos graxos ômega‑3:  combinações dietéticas ou intervenções que agregam flavanóis do cacau e DHA podem  potencializar a plasticidade sináptica e proteger contra o declínio cognitivo efeito plausível  porque o DHA integra as membranas neuronais enquanto os polifenóis modulam vias  redox‑inflamatórias e de sinalização (Efraim et al., 2011; Silva, 2025). A tabela 3 mostra os  principais polifenóis e a sua ação antioxidante. 

Tabela 3. Polifenóis (Resveratrol e Curcumina) e sua Ação Antioxidante

Existe robusta relação entre níveis elevados de homocisteína (Hcy) e maior risco de  comprometimento cognitivo. A revisão de Sachdev (2004), no Brazilian Journal of Psychiatry,  descreve associações consistentes com demência vascular e doença de Alzheimer, além de  efeitos pró‑trombóticos e neurotoxicidade direta. Confirmando esse quadro, a meta‑análise de  Shen e Ji (2015) no Journal of Alzheimer’s Disease, que reuniu 68 estudos, mostrou que  pacientes com Alzheimer apresentam homocisteína plasmática mais alta e menores  concentrações de folato e vitamina B12 sinalizando a importância do status de vitaminas do  complexo B, sobretudo no idoso. O quadro 2 apresenta os mecanismos fisiopatológicos da  hiper-homocisteína. 

Quadro 2. Mecanismos fisiopatológicos da hiper-homocisteína. 

Fonte: (Kamat et al., 2015; Beard junior et al., 2011; Kruman et al., 2000; ho et al., 2001; Mandaviya; franken;  Peeters, 2014; Zhang et al., 2008; li et al., 2014; Moretti; Caruso; Vita, 2019) 

Em termos práticos para saúde pública e clínica, esses dados sustentam estratégias de  prevenção e rastreio do estado de folato e vitamina B12, especialmente em idosos, além de  intervenções dietéticas que priorizem padrões ricos em micronutrientes sempre considerando  avaliação individual, duração adequada e monitoramento laboratorial quando indicado  (Sachdev, 2004; Shen & Ji, 2015), conforme pode ser observado na tabela 4. 

Tabela 4 Compara duas dietas de maior respaldo para saúde do cérebro.

4. MECANISMOS DE AÇÃO NEUROPROTETORA 

A dieta MIND integra elementos Mediterrâneo + DASH e propõe mecanismos  complementares para explicar os achados em cognição e demência (MORRIS, 2015; DHANA  et al., 2021; AGARWAL, 2023; SAWYER et al., 2024). Primeiro, há redução do estresse  oxidativo: a ênfase em frutas vermelhas e folhosos verde-escuros fornece antioxidantes que  atenuam danos neuronais ligados ao envelhecimento cerebral (MORRIS, 2015; AGARWAL, 2023). Em paralelo, observa-se ação anti-inflamatória sistêmica, com menores níveis de  marcadores como IL-6 e PCR em maiores escores de adesão condição associada a progressão  mais lenta de processos neurodegenerativos (DHANA et al., 2021; SAWYER et al., 2024). A  proteção vascular cerebral decorre do padrão de gorduras saudáveis (azeite, nozes) e da menor  ingestão de alimentos pró-inflamatórios, favorecendo função endotelial, perfusão e integridade  da barreira hematoencefálica (MORRIS, 2015; DHANA et al., 2021). Soma-se a modulação da  microbiota intestinal por fibras e polifenóis, com efeitos anti-inflamatórios ao longo do eixo  intestino-cérebro (AGARWAL, 2023; SAWYER et al., 2024).  

Por fim, a MIND prioriza micronutrientes com plausível benefício cognitivo vitamina E  (nozes/sementes), folato (folhosos), carotenoides como luteína (ovos e vegetais  amarelos/alaranjados) e ômega-3 (peixes gordurosos) compondo um aporte neuroprotetor  (MORRIS, 2015; AGARWAL, 2023). Em conjunto, esses caminhos sustentam as associações  entre maior adesão à MIND, melhor desempenho cognitivo ao longo do tempo e menor risco  de Alzheimer/demência (MORRIS, 2015; DHANA et al., 2021; AGARWAL, 2023; SAWYER  et al., 2024). 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este TCC mostrou que neuronutrição não é moda passageira nem promessa milagrosa:  é um campo sólido, onde mecanismos biológicos (anti-inflamação, antioxidantes, integridade  vascular, eixo intestino-cérebro) conversam com evidências de coortes e ensaios para orientar  decisões de vida real. Ao integrar ômega-3, vitaminas do complexo B, magnésio, polifenóis e  padrões alimentares como Mediterrânea/DASH/MIND, o trabalho constrói uma ponte entre o  que acontece na célula e o que importa no cotidiano: memória preservada, atenção mais estável,  humor mais equilibrado e envelhecimento com autonomia. 

De forma séria e pragmática, os achados sustentam três mensagens centrais. Primeiro, o  tempo de intervenção importa: quanto mais cedo e consistente o cuidado nutricional, maior a  chance de proteger o cérebro ao longo do curso de vida. Segundo o foco em padrões alimentares  como frutas, folhosos, grãos integrais, leguminosas, nozes/sementes, azeite e peixes gordurosos  é mais efetivo e sustentável do que apostar em um único nutriente isolado. Terceiro, a prática  clínica e as políticas públicas devem personalizar estado basal, cultura, acesso, comorbidade reconhecendo limites da literatura sem perder a direção do benefício.

Em síntese, este TCC entrega um mapa confiável e aplicável onde começa na  bioquímica, passa pela evidência clínica e termina no serviço de saúde. O recado final é simples  e sério a nutrição é plataforma de neuroproteção. Começar cedo, manter por longo prazo e  adaptar à realidade local são as três regras que podem transformar ciência em qualidade de vida,  memória preservada e mais anos com independência.

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1Graduando do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: bc09092000@gmail.com;
2Orientadora do TCC, Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de  Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: francisca.freitas@fametro.edu.br;
3 Co-orientador(a) do TCC, Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Católica de Santos, Docente do Curso  de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: david.reis@fametro.edu.br