MOTIVAÇÃO PARA O DIVÓRCIO: UM OLHAR SOBRE CASAIS HETEROSSEXUAIS NA REALIDADE BRASILEIRA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511192249


Ana Paula San Martin Peralta¹
Antônia Otília Monteiro Koop²
Marcelo Moreira de Melo³
Orientador: Hytalo Mangela


Resumo: O presente estudo analisou os principais fatores motivadores do divórcio entre casais heterossexuais no Brasil, por meio de uma revisão bibliográfica qualitativa de artigos, teses e dissertações publicadas entre 2018 e 2025. Foram selecionados estudos que abordassem aspectos sociais, econômicos, emocionais e culturais relacionados à dissolução conjugal. A pesquisa revelou que a comunicação deficitária, divergências nas expectativas de vida, conflitos financeiros e influência de fatores externos, como familiares e pressão social, estão entre os principais elementos que contribuem para a separação. Além disso, mudanças nas dinâmicas familiares, maior autonomia individual e busca por bem-estar pessoal têm impactado a estabilidade conjugal. Os dados indicam que processos consensuais e extrajudiciais de divórcio vêm crescendo, refletindo maior pragmatismo na resolução de conflitos. Conclui-se que compreender esses fatores é essencial para orientar políticas públicas, programas de mediação familiar e estratégias de apoio emocional, visando minimizar os impactos negativos da separação sobre adultos e filhos. O estudo contribui para a compreensão das dinâmicas conjugais contemporâneas no contexto brasileiro.

Palavras-chave: Divórcio”, “Separação conjugal”, “Casais heterossexuais”, “Fatores sociais” e “Fatores econômicos”.

Abstract: This study analyzed the main factors motivating divorce among heterosexual couples in Brazil through a qualitative literature review of articles, theses, and dissertations published between 2018 and 2025. Studies addressing social, economic, emotional, and cultural aspects related to marital dissolution were selected. The research revealed that poor communication, divergent life expectations, financial conflicts, and the influence of external factors, such as family and social pressure, are among the main elements contributing to separation. In addition, changes in family dynamics, greater individual autonomy, and the pursuit of personal well-being have impacted marital stability. The data indicate that consensual and extrajudicial divorce proceedings are on the rise, reflecting greater pragmatism in conflict resolution. It is concluded that understanding these factors is essential to guide public policies, family mediation programs, and emotional support strategies, aiming to minimize the negative impacts of separation on adults and children. The study contributes to the understanding of contemporary marital dynamics in the Brazilian context.

Keywords: Divorce, Marital separation, Heterosexual couples, Social factors, and Economic factors

INTRODUÇÃO

A família é uma instituição social fundamental que, ao longo da história, desempenhou papéis cruciais na formação e organização das sociedades. De forma geral, pode ser compreendida como um grupo de pessoas que compartilham laços de parentesco, afetividade e convivência — vivendo sob o mesmo teto ou não — e que exercem funções de apoio emocional, econômico, educacional e social. No entanto, a concepção de família tem passado por transformações significativas ao longo do tempo, influenciada por mudanças culturais, sociais, políticas e econômicas (Sombrio, 2020).

Ao abordar a família, é indispensável considerar o casamento, representação social que historicamente tem sido central na formação familiar. Etimologicamente, o termo “casamento” pode ter origem na palavra “casa”, relacionando-se à ideia de moradia e propriedade. No contexto patriarcal, o ato de casar era atribuído aos pais, que determinavam os casamentos dos filhos, em contraste com a autonomia atual das escolhas afetivas (Delatorre, 2020). 

Na contemporaneidade, o casamento é frequentemente resultado de uma atração afetiva e emocional entre duas pessoas, impulsionada por desejos, sonhos e expectativas individuais, o que lhe confere um sentido subjetivo profundo. Além disso, fatores como a convivência diária, o apoio mútuo e a construção de projetos de vida compartilhados têm sido fundamentais na consolidação do vínculo conjugal. Estudos recentes indicam que, mesmo diante de desafios, muitos casais encontram no casamento uma base sólida para o enfrentamento das adversidades da vida cotidiana (Delatorre & Wagner, 2021; Scorsolini-Comin & Santos, 2018). Essas pesquisas reforçam que o diálogo, a empatia e o suporte emocional são elementos centrais na manutenção da satisfação conjugal e na redução de conflitos no contexto contemporâneo.

Contudo, à medida que as relações se tornam mais complexas e a sociedade passa por transformações significativas, o casamento também enfrenta novas formas de tensão e instabilidade. Mudanças nas expectativas individuais, no papel social dos gêneros e na valorização da autonomia pessoal têm modificado a forma como os casais percebem o compromisso conjugal. Assim, o casamento contemporâneo, embora ainda seja visto como espaço de afeto e apoio, convive com desafios ligados à comunicação, ao equilíbrio de responsabilidades e à conciliação entre vida profissional e familiar (Silva & Moura, 2023; Oliveira, 2024).

O crescimento das separações tem chamado a atenção de diferentes setores da sociedade, refletindo mudanças nas dinâmicas familiares e maior autonomia individual nas decisões conjugais. Em 2022, por exemplo, o país contabilizou 420.039 divórcios, um aumento de 8,6% em relação a 2021; desses, 340.459 ocorreram judicialmente e 79.580 de forma extrajudicial, indicando uma preferência crescente por meios consensuais e menos burocráticos de dissolução conjugal. Esses números também apontam para a necessidade de políticas públicas e apoio social voltados para a mediação e o acompanhamento de famílias em processo de separação, promovendo o bem-estar dos envolvidos, especialmente de filhos menores e dependentes (BRASIL; IBGE, 2025).

Diante do aumento expressivo do número de divórcios no Brasil, esta pesquisa teve como objetivo analisar a literatura nacional sobre os principais fatores motivadores da dissolução conjugal entre casais heterossexuais. Buscou-se compreender os elementos mais recorrentes que contribuem para o divórcio, incluindo aspectos culturais, sociais e econômicos, como diferenças financeiras, expectativas divergentes e falhas de comunicação. Além disso, pretendeu-se identificar tendências recentes nas dinâmicas familiares que impactam a estabilidade conjugal. A pesquisa também visou levantar a influência de fatores sociais e econômicos nas decisões de separação e propôs recomendações para intervenções que auxiliem no manejo do processo, fornecendo subsídios para políticas públicas e programas de apoio emocional, minimizando impactos negativos sobre indivíduos, especialmente crianças e adolescentes (Revista Vida no Campo, 2023).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O aumento expressivo do número de divórcios no Brasil reflete mudanças significativas nas dinâmicas familiares e nas expectativas individuais. Estudos recentes destacam que problemas de comunicação, infidelidade e divergências financeiras são fatores determinantes comuns na dissolução conjugal. Por exemplo, Delatorre (2021) aponta que eventos estressantes no contexto do casal e vulnerabilidades individuais influenciam os processos de ruptura conjugal. Além disso, pesquisas apresentadas por Silva et al., (2023) indicam que muitos desses problemas, como dificuldades de comunicação e infidelidade, já estão presentes no início do relacionamento, enquanto a falta de intimidade sexual e os vícios também são causas frequentes de separação. Esses achados evidenciam a complexidade das relações conjugais e a importância de compreender as múltiplas dimensões que influenciam a decisão de se separar (Travers, 2023).

A literatura destaca que a personalidade dos parceiros desempenha um papel crucial na estabilidade conjugal. De acordo com Weidmann et al. (2023), traços como neuroticismo elevado, baixa abertura à experiência e instabilidade emocional estão associados a maiores índices de conflito e separação. Ferreira e Ramos (2021) apontam que a semelhança ou diferença nos traços de personalidade entre os cônjuges pode influenciar tanto a satisfação no relacionamento quanto a probabilidade de divórcio, sendo que casais com perfis emocionais complementares tendem a apresentar maior resiliência conjugal. Além disso, Oliveira e Santos (2021) ressaltam que fatores sociais e culturais, como a pressão familiar e as expectativas sociais, também exercem influência sobre as decisões de separação, especialmente em contextos em que o divórcio ainda carrega estigma moral. Compreender esses elementos é essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes que promovam a saúde conjugal e a prevenção do divórcio.

O contexto socioeconômico também exerce forte influência sobre as taxas de divórcio no Brasil. Em períodos de instabilidade econômica, os casais enfrentam maior estresse financeiro, o que pode gerar conflitos recorrentes e comprometer a harmonia conjugal. A desigualdade de renda e o desemprego estão entre os fatores que mais afetam a convivência, aumentando a pressão sobre a relação. Além disso, a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho tem modificado os papéis tradicionais dentro da família, promovendo maior autonomia feminina e, consequentemente, maior disposição para romper vínculos insatisfatórios. Essa transformação, embora positiva em termos de emancipação, também desafia estruturas familiares ainda baseadas em padrões patriarcais (Oliveira & Castro, 2022).

Outro aspecto relevante refere-se à influência das mídias digitais e das redes sociais nas relações conjugais contemporâneas. O uso excessivo da tecnologia pode afetar a comunicação presencial, gerar ciúmes e facilitar comportamentos de infidelidade emocional. A exposição constante a conteúdos idealizados sobre relacionamentos também cria expectativas irreais, o que pode levar à insatisfação e ao distanciamento entre os parceiros. Por outro lado, as redes podem funcionar como espaços de apoio e diálogo, dependendo do modo como são utilizadas. Assim, compreender o impacto das tecnologias na vida conjugal é essencial para analisar as novas dinâmicas afetivas do século XXI (Silva & Moura, 2023).

Por fim, é importante considerar o papel das políticas públicas e dos serviços de apoio psicológico no enfrentamento das crises conjugais. A terapia de casal, os programas de mediação familiar e as ações de orientação psicológica têm se mostrado eficazes na melhoria da comunicação e na reconstrução dos vínculos afetivos. A ampliação do acesso a esses serviços pode reduzir o número de separações impulsivas, possibilitando que os casais encontrem alternativas saudáveis para lidar com conflitos. Além disso, investir em educação emocional e em estratégias de resolução de problemas desde a adolescência contribui para a formação de relacionamentos mais equilibrados e duradouros (Ferreira & Ramos, 2021).

MATERIAL(IS) E MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com o objetivo de analisar os principais fatores motivadores do divórcio entre casais heterossexuais na realidade brasileira. Foram incluídos estudos empíricos, artigos científicos, teses e dissertações publicados em periódicos revisados por pares no período de 2018 a 2025, nos idiomas português, inglês, francês e espanhol. Foram excluídos estudos que não abordassem diretamente o divórcio, artigos não revisados por pares, revisões integrativas ou sistemáticas, trabalhos fora do período definido ou em idiomas diferentes dos especificados.

A pesquisa foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo SciELO, PubMed, Google Scholar e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando-se como descritores os termos “Divórcio”, “Separação conjugal”, “Casais heterossexuais”, “Fatores sociais” e “Fatores econômicos”. Foram selecionados estudos que apresentassem dados sobre os fatores motivadores do divórcio, abrangendo aspectos sociais, emocionais, econômicos e culturais. Trabalhos sem acesso ao texto completo ou que não descrevessem claramente os fatores analisados foram excluídos da revisão.

A seleção dos estudos seguiu critérios de relevância, rigor metodológico e clareza na apresentação dos resultados. Após leitura completa, os dados foram organizados em categorias temáticas, destacando os fatores mais recorrentes que contribuem para a dissolução conjugal, incluindo comunicação, expectativas divergentes, questões financeiras e influência de fatores sociais. A análise foi conduzida de forma sistemática, permitindo a síntese das informações e a interpretação crítica dos resultados, garantindo consistência e confiabilidade nas conclusões.

Foram inicialmente identificados 60 artigos nas bases selecionadas. Após triagem de títulos e resumos, 10 estudos duplicados foram excluídos, resultando em 50 artigos. A avaliação completa desses artigos levou à exclusão de 20 estudos por apresentarem temas irrelevantes e de 10 que não atenderam à proposta do estudo, restando 20 artigos incluídos na análise final. O processo de seleção e verificação dos estudos está detalhado na Figura 1, garantindo transparência metodológica e rigor científico.

Figura 1. Fluxograma de artigos incluídos na revisão sistemática.

Fonte: MARTINS, 2025 adaptado com os achados dos autores dessa pesquisa

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise inicial dos estudos selecionados revela que dificuldades de comunicação, conflitos financeiros e desajustes na intimidade emocional são fatores comuns entre casais heterossexuais que se divorciaram no Brasil. Nota-se que esses fatores frequentemente coexistem, gerando um acúmulo de tensões que contribui para a instabilidade conjugal. Além disso, diferenças na percepção de expectativas de vida e projetos em comum também são apontadas como influentes na decisão de separação, com variações na intensidade desses fatores dependendo da faixa etária, tempo de casamento e contexto socioeconômico dos casais (Silva, 2023; Oliveira, 2024).

Além disso, os dados sugerem que fatores externos, como pressões familiares e normas sociais, impactam a dinâmica do relacionamento. A literatura indica que casais expostos a altas expectativas sociais são mais propensos a conflitos conjugais, embora a relação entre essas pressões e a decisão de divórcio seja complexa. Os estudos revisados mostram que a autonomia individual e a busca por bem-estar emocional são cada vez mais valorizadas, mas há divergências sobre a intensidade do impacto desses fatores em diferentes regiões do país. Esses achados preliminares fornecem uma base para uma análise mais aprofundada nos próximos parágrafos (Costa, 2024).

1.1 Diferenças socioeconômicas e divórcio.

As desigualdades socioeconômicas afetam significativamente a estabilidade conjugal no Brasil. Pereira e Santos (2016) analisaram como os casamentos seletivos — uniões formadas por pessoas com níveis educacionais e condições econômicas semelhantes — influenciam tanto a distribuição de renda quanto a dinâmica das uniões e divórcios no país. Segundo os autores, o aumento desse tipo de casamento reforça desigualdades e afeta diretamente a estrutura familiar, tornando as famílias de baixa renda mais vulneráveis a crises financeiras. Ainda de acordo com Pereira e Santos (2016), a estabilidade conjugal tende a ser maior quando há equilíbrio e segurança econômica entre os parceiros, funcionando o capital financeiro como um amortecedor de tensões. Os mesmos autores destacam que a divisão desigual de poder econômico e a insegurança material tornam as relações mais frágeis, sobretudo nas camadas de menor renda. Assim, a estabilidade financeira mostra-se essencial para a manutenção da união conjugal e para a redução das vulnerabilidades sociais que afetam as famílias brasileiras (Aguiar, 2018).

Além disso, as disparidades socioeconômicas também influenciam o perfil da separação no Brasil. Em 2023, houve 440.827 divórcios no país, com aumento de 4,9% em relação a 2022, e o tempo médio entre casamento e divórcio caiu para 13,8 anos (IBGE, 2023). Isso sugere que mudanças socioeconômicas rápidas estão afetando as famílias. Reportagens sobre educação financeira e patrimônio no Brasil mostram que muitas mulheres se surpreendem com a extensão dos bens do casal no divórcio, destacando a importância da acumulação patrimonial e gestão financeira conjugal (Valor Investe, 2025). Esses dados reforçam a ideia de que a renda corrente, o acúmulo de bens e a segurança econômica influenciam a decisão de manter ou dissolver a união.

1.2 Influência da idade e tempo de casamento.

A idade média dos cônjuges no divórcio tem aumentado nos últimos anos. Em 2023, os homens divorciados tinham em média 44,3 anos, enquanto as mulheres tinham 41,4 anos (IBGE, 2023). Esse aumento reflete mudanças sociais, como maior autonomia financeira, transformações nas expectativas de vida e maior aceitação do divórcio. Além disso, a maior longevidade e a busca por realização pessoal têm levado indivíduos a reavaliar uniões que antes poderiam ser mantidas por convenção social ou dependência financeira.

O tempo de casamento influencia significativamente a decisão de separação. Em 2023, cerca de 48% dos divórcios ocorreram em casamentos com menos de 10 anos (IBGE, 2023). Isso pode estar relacionado às mudanças nas expectativas dos cônjuges, que buscam maior satisfação pessoal e realização individual. A busca por identidade própria e a transição de papéis tradicionais têm levado casais a reavaliar relacionamentos que não atendem mais às suas necessidades emocionais e psicológicas.

Além disso, observa-se que o aumento da idade média no momento do divórcio também reflete a tendência de casamentos mais maduros e conscientes, nos quais os cônjuges priorizam o autoconhecimento e a estabilidade emocional antes de formalizar a união. Entretanto, mesmo entre casais mais velhos, há indícios de que o distanciamento emocional e as diferenças de objetivos de vida tornam-se mais perceptíveis com o passar do tempo, especialmente após a saída dos filhos de casa ou a aposentadoria, quando as rotinas se transformam e as prioridades individuais se redefinem (Costa, 2024). Esse fenômeno, conhecido como “divórcio prateado”, tem crescido no Brasil e evidencia que a dissolução conjugal não é mais exclusiva de casamentos recentes, mas também de uniões longas que perdem o sentido de parceria afetiva e compartilhamento de propósito (Silva, 2023).

1.3 Impacto da educação e carreira.

A influência da educação e da carreira na dinâmica conjugal é um tema relevante no Brasil. Mulheres com maior nível educacional tendem a adiar o casamento e o nascimento de filhos para buscar estabilidade profissional e financeira. Isso pode levar a casamentos mais tardios, que, paradoxalmente, estão associados a taxas mais altas de divórcio (Teixeira & Pereira, 2025). Além disso, estudos apontam que a elevação da escolaridade feminina e a inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho modificaram profundamente as relações de gênero e o equilíbrio de poder dentro do casamento (Santos & Melo, 2024). 

A independência econômica, embora contribua para a autonomia e autoestima feminina, também reduz a tolerância diante de relações insatisfatórias ou desiguais, favorecendo a decisão pela separação quando há falta de apoio emocional ou sobrecarga doméstica (Carvalho, 2023). Em contrapartida, casais que conseguem conciliar as demandas profissionais com o tempo de qualidade na vida conjugal tendem a apresentar níveis mais altos de satisfação e estabilidade emocional. Dessa forma, a educação e a carreira exercem papel ambíguo: ao mesmo tempo em que fortalecem a autonomia individual, também desafiam a manutenção do vínculo conjugal diante das exigências do mundo contemporâneo.

Fatores que contribuem para essa dinâmica:

  • Maior autonomia financeira: Mulheres com carreiras estabelecidas têm mais capacidade de tomar decisões sobre sua vida pessoal e financeira.
  • Realização profissional: A busca por realização profissional pode levar as mulheres a priorizar suas carreiras em detrimento da vida conjugal.
  • Mudanças nos papéis de gênero: A maior participação das mulheres no mercado de trabalho pode levar a mudanças nos papéis de gênero tradicionais e aumentar a autonomia feminina.
  • Consequências para a estabilidade conjugal:
  • Maior capacidade de decisão: Mulheres com maior nível educacional e autonomia financeira têm mais capacidade de decidir sobre a continuidade do relacionamento.
  • Mudanças nas expectativas: A busca por realização profissional e pessoal pode levar a mudanças nas expectativas sobre o casamento e a vida conjugal.

A relação entre educação, carreira e estabilidade conjugal é complexa e depende de fatores individuais e culturais. A carreira profissional pode afetar a qualidade do relacionamento conjugal, especialmente quando há demandas excessivas de trabalho, estresse profissional e falta de tempo para a convivência familiar. Isso pode levar a conflitos conjugais e aumentar a probabilidade de separação. Portanto, é essencial encontrar um equilíbrio saudável entre educação, carreira e vida conjugal para manter relacionamentos estáveis (Jardim, 2024).

1.4 Papel da comunicação e conflitos emocionais.

A comunicação eficaz é fundamental para a estabilidade conjugal. Dificuldades na expressão de sentimentos, má interpretação das intenções e falta de diálogo sobre decisões importantes contribuem para o estresse conjugal e a insatisfação no relacionamento (Santos & Almeida, 2022). A falta de comunicação eficaz pode gerar ressentimentos, diminuir a intimidade emocional e aumentar os conflitos. Assim, a qualidade da comunicação está diretamente relacionada à capacidade do casal de resolver problemas e manter vínculos saudáveis ao longo do tempo.

Conflitos emocionais não resolvidos podem se tornar crônicos e comprometer a relação. Divergências sobre expectativas, afetos e prioridades podem levar a discussões repetidas, desgaste psicológico e distanciamento afetivo (Lopes & Ferreira, 2023). A incapacidade de gerenciar emoções e negociar soluções conjuntas aumenta o risco de rupturas conjugais. Portanto, desenvolver habilidades de comunicação e regulação emocional é crucial para prevenir o divórcio e fortalecer a resiliência do relacionamento.

1.5 Pressão social, família e normas culturais

A pressão social e familiar desempenha um papel significativo nas decisões relacionadas à permanência ou dissolução do casamento. Zarth, Haack e Razera (2021) destacam, em estudo qualitativo com homens que vivenciaram separações conjugais, que a influência da família de origem e das redes sociais pode reforçar a manutenção de uniões insatisfatórias, sobretudo em contextos nos quais o divórcio ainda é visto como um tabu ou como uma falha pessoal. Essa influência pode gerar conflitos internos nos cônjuges, que se sentem pressionados a permanecer na relação para atender às expectativas externas, mesmo diante de insatisfação ou dificuldades conjugais, demonstrando que fatores sociais e culturais exercem impacto direto sobre a estabilidade conjugal. Essa influência pode gerar conflitos internos nos cônjuges, que se sentem pressionados a permanecer na relação para atender a expectativas externas, mesmo diante de insatisfação ou dificuldades conjugais (Oliveira & Santos, 2021).

Além disso, a interferência familiar muitas vezes ultrapassa os limites da convivência do casal, impactando diretamente na autonomia das decisões conjugais. Essa pressão pode resultar em sentimentos de culpa e frustração, dificultando o rompimento de relações que já não proporcionam crescimento mútuo ou bem-estar emocional. Pesquisas mostram que padrões culturais relacionados a papéis de gênero, divisão de tarefas domésticas e expectativas sobre maternidade e paternidade podem contribuir para desentendimentos entre os parceiros (Pereira & Lima, 2022). Quando as normas culturais entram em conflito com aspirações individuais, surgem tensões que podem aumentar o risco de separação. Em muitos casos, a reprodução de modelos familiares tradicionais impede a construção de relações igualitárias, baseadas em diálogo e corresponsabilidade. Assim, compreender o impacto da cultura e da pressão social é essencial para analisar as causas da instabilidade conjugal no contexto brasileiro contemporâneo e propor estratégias que favoreçam relações mais equilibradas e saudáveis.

1.6 Tendência crescente de divórcios consensuais e extrajudiciais.

O aumento dos divórcios consensuais e extrajudiciais no Brasil reflete uma mudança na forma como os casais abordam a dissolução conjugal. Em 2023, cerca de 70% dos divórcios foram consensuais, de acordo com o IBGE (2023). Esse crescimento está associado à simplificação dos procedimentos legais, redução de custos e maior acessibilidade de cartórios para oficializar o divórcio sem necessidade de ação judicial prolongada.

O aumento dos divórcios extrajudiciais também reflete mudanças culturais na percepção do casamento e da separação. Casais mais jovens e com maior acesso à informação tendem a optar pelo divórcio consensual, evitando litígios e buscando soluções rápidas e amigáveis (Silva & Oliveira, 2022). Isso demonstra uma maior valorização da autonomia individual e do respeito mútuo, permitindo uma dissolução mais organizada e menos conflituosa, com menores impactos emocionais e financeiros.

Fatores internos, como dificuldades de comunicação, conflitos financeiros e desajustes na intimidade emocional, desempenham um papel central na instabilidade conjugal no Brasil. Esses fatores frequentemente coexistem, criando tensões que aumentam o risco de divórcio. A percepção divergente sobre expectativas de vida e projetos em comum também contribui para a decisão de separação, que varia de acordo com a faixa etária, tempo de casamento e contexto socioeconômico. Isso confirma que a dinâmica interna do casal é determinante para a manutenção ou dissolução da união. (Silva, 2023; Oliveira, 2024). 

A instabilidade conjugal é influenciada por fatores internos e externos. Entre os fatores internos, destacam-se dificuldades de comunicação, conflitos financeiros e desajustes na intimidade emocional. Já os fatores externos incluem pressões familiares, em que expectativas sociais e familiares podem prolongar uniões insatisfatórias; normas culturais, nas quais a valorização da autonomia individual e do bem-estar emocional está alterando a dinâmica conjugal; e mudanças socioeconômicas, em que a segurança financeira, a acumulação de bens e o equilíbrio na divisão de recursos contribuem para reduzir a vulnerabilidade conjugal. Esses fatores interagem de forma complexa, tornando a estabilidade conjugal um desafio multifacetado. A análise desses dados pode ajudar a entender melhor como esses fatores se relacionam e como podem ser abordados para fortalecer as relações conjugais (Aguiar, 2018; IBGE, 2023; Valor Investe, 2025).

A dissolução conjugal é influenciada por fatores multidimensionais, incluindo educação, carreira, idade, tempo de casamento e adoção de divórcios consensuais e extrajudiciais. Mulheres com maior nível educacional e autonomia financeira tendem a adiar o casamento e buscar realização profissional, influenciando a decisão sobre a continuidade da união (Teixeira & Pereira, 2025; Jardim, 2024). A idade avançada e o tempo de casamento mais longo, bem como a adoção de divórcios extrajudiciais, refletem mudanças culturais e legais que facilitam processos mais ágeis e menos conflituosos (IBGE, 2023; Silva & Oliveira, 2022).

CONSIDERAÇÕES FINAIS  

A análise desenvolvida ao longo deste trabalho evidencia que o divórcio no Brasil é um fenômeno multifatorial, influenciado por fatores internos (comunicação, conflitos emocionais, expectativas de vida e projetos compartilhados) e externos (pressões familiares, normas culturais e desigualdades socioeconômicas). A combinação desses elementos cria um cenário complexo, onde a instabilidade conjugal resulta da interação entre contextos pessoais, sociais e econômicos. Transformações recentes na sociedade brasileira, como aumento da autonomia feminina, mudanças nos papéis de gênero, maior escolaridade e participação no mercado de trabalho, além da adoção de divórcios consensuais e extrajudiciais, estão mudando a forma como os casais encaram a união e a separação. Essas mudanças refletem uma maior valorização da autonomia individual, segurança econômica e bemestar emocional, priorizando a qualidade de vida e satisfação pessoal nas decisões sobre relacionamentos.

Os resultados destacam a importância de políticas públicas, programas de educação familiar e intervenções psicológicas que promovam comunicação efetiva, gestão de conflitos e segurança econômica nos relacionamentos conjugais. Compreender os fatores que contribuem para a instabilidade conjugal permite desenvolver estratégias preventivas e de apoio para relações mais saudáveis, reduzir os impactos emocionais do divórcio e promover a resiliência das famílias brasileiras. Dessa forma, o estudo reafirma a necessidade de compreender o divórcio não apenas como um rompimento jurídico, mas como um processo social e emocional que envolve reconstruções identitárias e familiares. 

Adicionalmente, o fortalecimento da educação emocional, do diálogo e da autonomia pessoal se apresenta como elemento central na promoção de relações conjugais mais equilibradas. Intervenções que visem melhorar a comunicação, a gestão de conflitos e a igualdade de recursos entre parceiros podem reduzir significativamente a instabilidade conjugal, prevenindo separações conflituosas e promovendo a resiliência familiar. Assim, a abordagem do divórcio como um fenômeno multifatorial reforça a necessidade de políticas públicas e programas educativos que apoiem tanto a prevenção quanto o acompanhamento pós-divórcio, contribuindo para a construção de famílias mais saudáveis e uma sociedade mais solidária e consciente em suas relações afetivas. 

A literatura evidencia que o divórcio no Brasil está intimamente ligado à interação entre fatores econômicos e sociais. Estudos utilizados no desenvolvimento do trabalho, mostram que a desigualdade de renda, a instabilidade financeira e os casamentos seletivos aumentam a vulnerabilidade das famílias, especialmente aquelas em contextos de menor poder aquisitivo. Ao mesmo tempo, pressões sociais e familiares, normas culturais e expectativas externas podem influenciar a permanência em uniões insatisfatórias, gerando conflitos internos nos cônjuges e impactando diretamente a saúde emocional e o bem-estar familiar. Dessa forma, a compreensão da dissolução conjugal exige uma análise integrada, que considere simultaneamente aspectos econômicos, sociais, culturais e emocionais. 

A dissolução conjugal, embora represente o fim de uma fase, pode também significar o início de um novo ciclo de autoconhecimento e amadurecimento pessoal. Nesse contexto, promover uma cultura de diálogo, empatia e educação emocional é essencial para fortalecer os vínculos afetivos e reduzir o impacto negativo das separações, contribuindo para uma sociedade mais consciente e acolhedora nas suas relações familiares.

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