REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511192241
Mariana Kaline Sousa Fernandes Rocha, Richardson Lima Sousa, Bruna Bárbara Nogueira Bueno, Ana Clara Santos Reis, Heitor da Silva Sousa, Gisele de Sousa Absolon da Silva, Lívia Marina Amaral Albuquerque, Francisca Jacinta Feitoza de Oliveira
RESUMO
O envelhecimento populacional constitui um dos fenômenos mais marcantes do século XXI, trazendo desafios expressivos para os sistemas de saúde e exigindo novas estratégias de cuidado e políticas públicas voltadas à população idosa. O aumento da expectativa de vida, aliado à queda da fecundidade, tem alterado significativamente a estrutura etária mundial e nacional, como evidenciam dados da Organização das Nações Unidas e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, resultando em maior demanda por serviços de atenção à saúde. Nesse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar o papel da enfermagem na promoção da saúde do idoso, enfatizando os desafios e as perspectivas para a prática profissional diante do processo de envelhecimento. Trata-se de uma revisão bibliográfica, desenvolvida a partir de obras e artigos científicos que abordam a temática do envelhecimento populacional, as políticas de atenção à pessoa idosa e as atribuições do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde. Os resultados evidenciaram que a enfermagem exerce função essencial na manutenção da capacidade funcional, prevenção de agravos e promoção da autonomia dos idosos, atuando de forma integral, humanizada e interdisciplinar. Verificou-se, contudo, que a escassez de recursos, a sobrecarga de trabalho e a necessidade de formação continuada ainda representam barreiras significativas à consolidação de uma assistência qualificada. Conclui-se que o objetivo do estudo foi plenamente alcançado, ao destacar que o fortalecimento da prática de enfermagem é fundamental para a construção de um envelhecimento saudável, digno e ativo, sendo indispensável o investimento em políticas públicas, capacitação profissional e reconhecimento social da enfermagem como agente central no cuidado ao idoso.
Palavras-chave: Enfermagem; Envelhecimento populacional; Saúde do idoso.
ABSTRACT
Population aging is one of the most remarkable phenomena of the 21st century, bringing significant challenges to health systems and demanding new care strategies and public policies aimed at the elderly population. The increase in life expectancy, combined with declining fertility rates, has significantly altered both global and national age structures, as evidenced by data from the United Nations and the Brazilian Institute of Geography and Statistics, resulting in greater demand for health care services. In this context, the present study aimed to analyze the role of nursing in promoting the health of older adults, emphasizing the challenges and perspectives for professional practice in the context of population aging. This is a bibliographic review based on books and scientific articles addressing population aging, policies for elderly care, and the role of nurses in Primary Health Care. The findings revealed that nursing plays an essential role in maintaining functional capacity, preventing health complications, and promoting autonomy among the elderly, acting in an integrated, humanized, and interdisciplinary manner. However, the shortage of resources, work overload, and the need for continuous professional training remain significant barriers to achieving qualified care. It is concluded that the objective of the study was fully achieved by highlighting that strengthening nursing practice is fundamental to building healthy, dignified, and active aging, making investment in public policies, professional training, and social recognition of nursing as a central agent in elderly care indispensable.
Keywords: Nursing; Population aging; Elderly health.
1 INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional, considerado um avanço em termos de qualidade de vida da população, representa um dos maiores desafios contemporâneos para os sistemas de saúde em escala global. Esse fenômeno exerce crescente pressão orçamentária sobre a sociedade, uma vez que o número de trabalhadores vem diminuindo em relação ao número de contribuintes (Lee; Mason, 2017; Ceccon; Vieira et al., 2021). No caso do Brasil, a combinação entre a redução dos níveis de fecundidade e o aumento da longevidade tem impulsionado a elevação do número de idosos na população brasileira (Tavares; Neto, 2020). Assim, o envelhecimento populacional emerge como uma conquista social, mas também como um fenômeno que exige políticas públicas consistentes e práticas profissionais alinhadas à promoção da saúde e à manutenção da autonomia da pessoa idosa.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a velhice tem início aos 65 anos em países desenvolvidos e aos 60 anos em países em desenvolvimento (OMS, 2005). Mendes (2020) define o envelhecimento como um processo idiossincrásico e irreversível, caracterizado por transformações biopsicossociais que ocorrem de maneira gradual e única em cada indivíduo. Esse processo demanda atenção contínua e integral, uma vez que o avanço da idade está associado a mudanças fisiológicas e funcionais que podem comprometer a qualidade de vida. Evidências da literatura reforçam que o envelhecimento terá efeitos crescentes sobre os gastos públicos e sobre a necessidade de reorganização dos sistemas de atenção à saúde (Souza; Melo, 2017).
As estimativas da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023) apontam que, até 2050, o contingente de idosos ultrapassará dois bilhões de pessoas no mundo, o que impõe desafios significativos para os sistemas de saúde, previdência e assistência social. Esse cenário demanda estratégias de cuidado centradas na pessoa, voltadas não apenas para o tratamento de doenças, mas também para a promoção da saúde, prevenção de agravos e manutenção da funcionalidade. A atenção à pessoa idosa requer uma abordagem multiprofissional e intersetorial, na qual o enfermeiro desempenha papel fundamental por estar em contato direto com o usuário e atuar na educação em saúde, acompanhamento clínico e apoio psicossocial.
Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) se destaca como eixo estratégico da assistência, por ser a porta de entrada preferencial e coordenadora do cuidado. No Brasil, instrumentos legais como o Estatuto da Pessoa Idosa (Brasil, 2003) e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (Brasil, 2006) estabelecem diretrizes para um cuidado integral, longitudinal e humanizado. Em nível internacional, a “Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030”, proposta pela OMS, reforça a importância de modelos assistenciais centrados na manutenção da capacidade funcional, prevenção da dependência e integração intersetorial (WHO, 2021; OPAS, 2022). Assim, a prática da enfermagem, alinhada a esses princípios, assume papel estratégico na implementação de políticas públicas e na consolidação de ações que promovem o envelhecimento ativo.
Quando a pessoa idosa adoece, torna-se frequentemente dependente de terceiros para garantir seus direitos, incluindo a autonomia nas decisões, a integridade física e psíquica, e o respeito à sua imagem e privacidade nas instituições de saúde (Gaspar et al., 2020). Diante dessa vulnerabilidade, a atuação do enfermeiro é essencial para assegurar que o cuidado seja pautado na ética, na humanização e na promoção da dignidade do paciente. O fortalecimento das práticas de enfermagem voltadas à saúde do idoso, portanto, é indispensável para a efetividade das políticas públicas e para a melhoria da qualidade de vida dessa população.
Dessa forma, justifica-se a realização deste estudo pela relevância de compreender como a enfermagem tem contribuído para a promoção da saúde do idoso em diferentes contextos assistenciais. Considerando o crescimento contínuo da população idosa e as demandas específicas desse grupo, torna-se fundamental analisar as práticas, desafios e perspectivas da atuação do enfermeiro. O objetivo geral deste artigo é analisar, por meio de uma revisão bibliográfica, o papel da enfermagem na promoção da saúde do idoso, identificando estratégias de cuidado, fatores que influenciam a prática profissional e os impactos dessas ações na qualidade de vida da pessoa idosa.
Trata-se de um estudo de Revisão Bibliográfica, metodologia que permite reunir e analisar resultados de pesquisas anteriores, tanto empíricas quanto teóricas, a fim de sintetizar o conhecimento disponível e gerar novas compreensões sobre o tema (Alves et al., 2022, p. 49). A pergunta norteadora deste estudo é: “Qual é o papel da enfermagem na promoção da saúde do idoso e como essa atuação contribui para o envelhecimento saudável?”. Para responder a essa questão, o artigo está estruturado em três capítulos principais: o primeiro aborda o envelhecimento populacional e seus desafios para a saúde pública; o segundo discute a atuação do enfermeiro na promoção da saúde do idoso; e o terceiro apresenta os desafios e perspectivas para a prática de enfermagem no cuidado ao idoso, culminando com as considerações finais do estudo.
2 O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL E SEUS DESAFIOS PARA A SAÚDE PÚBLICA
O envelhecimento populacional é um fenômeno global caracterizado pelo aumento da expectativa de vida e pela redução das taxas de fecundidade, o que altera significativamente a estrutura etária das populações (United Nations, 2020a). A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, em 2020, havia cerca de 727 milhões de pessoas com 65 anos ou mais no mundo, com projeção de crescimento para mais de 1,5 bilhão até 2050 (United Nations, 2019; 2020b). Nesse período de três décadas, a proporção de idosos na população mundial deve passar de 9,3% para 16%, refletindo um expressivo avanço da longevidade. Essas transformações demográficas representam conquistas sociais, mas também impõem desafios aos sistemas de proteção social, previdenciária e de saúde, que precisam se adaptar às novas demandas decorrentes do envelhecimento populacional.
No Brasil, o processo de envelhecimento ocorre de forma acelerada. Os Censos Demográficos revelam que o percentual de pessoas com 65 anos ou mais cresceu de 4,8% em 1991 para 10,9% em 2022. Em números absolutos, esse grupo passou de 10 milhões de pessoas em 2000 para 22,2 milhões em 2022 (IBGE, 2011; 2023). Quando considerada a faixa etária de 60 anos ou mais, que é o marco adotado para países em desenvolvimento, o número de idosos alcançou 32,1 milhões em 2022, representando 15,8% da população (Brasil, 2003; IBGE, 2011; 2023). Essa rápida transição demográfica, que no Brasil se deu em poucas décadas, contrastando com o ritmo mais lento observado em países desenvolvidos, gera impactos diretos nas políticas públicas e nas estruturas de atendimento social e de saúde.
Segundo o IBGE (2020), a esperança de vida ao nascer no Brasil aumentou de 54 anos em 1960 para 76,6 anos em 2020, resultado de avanços nas condições sanitárias, nutricionais e tecnológicas. No entanto, esse progresso vem acompanhado de novas demandas econômicas e sociais (Alves, 2020), pois o crescimento da população idosa implica aumento das despesas com aposentadorias, pensões e, sobretudo, com cuidados em saúde. Assim, o envelhecimento, embora seja um indicativo positivo de desenvolvimento humano, traz repercussões econômicas significativas que exigem planejamento e políticas integradas entre os setores público e privado.
No campo da saúde, os impactos do envelhecimento são particularmente evidentes. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os custos assistenciais de uma pessoa acima de 60 anos são, em média, 7,5 vezes maiores em exames complementares e 6,9 vezes maiores em internações hospitalares, quando comparados aos de indivíduos mais jovens. As projeções indicam que, até 2030, os gastos médico-hospitalares poderão crescer até 157%, passando de R$ 149 bilhões para R$ 383 bilhões (Santos; Turra; Noronha, 2019). Esse cenário revela o aumento expressivo da sinistralidade nos planos de saúde e reforça a necessidade de fortalecer a atenção primária e o cuidado preventivo para reduzir internações e custos de alta complexidade.
A análise demográfica do envelhecimento depende diretamente de como se definem as faixas etárias e os conceitos associados à velhice. De acordo com Sanderson e Scherbov (2005) e Lutz et al. (2020), a caracterização do envelhecimento populacional requer parâmetros objetivos que considerem não apenas a idade cronológica, mas também os aspectos funcionais e sociais do envelhecer. Essa abordagem amplia a compreensão sobre o envelhecimento, permitindo avaliar o impacto das transformações demográficas em diferentes contextos sociais e econômicos.
Nos últimos anos, surgiu o conceito de idade prospectiva, que vem ganhando relevância nas pesquisas latino-americanas (Gietel-Basten; Saucedo; Scherbov, 2020; Randow; Souza; Wong, 2020). Essa perspectiva considera o tempo restante de vida média de uma população, em vez da idade cronológica isolada, como indicador de envelhecimento. No Brasil, o conceito começou a ser debatido a partir de 2018, em uma apresentação à 247ª reunião do Conselho Nacional de Previdência (CNP, 2018; Soares, 2018), e vem sendo incorporado gradualmente ao debate sobre políticas de previdência e saúde pública. Essa nova forma de mensuração oferece uma visão mais dinâmica do envelhecimento e ajuda a orientar o planejamento de políticas que promovam a autonomia e a funcionalidade dos idosos.
Portanto, é importante destacar que o aumento da expectativa de vida, embora seja um marco positivo, está associado à elevação da incidência de doenças crônicas não transmissíveis, como demências, Alzheimer, insuficiência cardíaca e câncer, o que intensifica a necessidade de cuidados médicos personalizados (Sapci et al., 2019). Nesse contexto, o desafio da saúde pública não se limita apenas a prolongar a vida, mas a garantir qualidade de vida, independência funcional e bem-estar psicológico ao idoso. Assim, compreender o envelhecimento populacional sob múltiplas dimensões é fundamental para subsidiar políticas eficazes e estratégias de cuidado centradas na pessoa idosa.
3 A ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO NA PROMOÇÃO DA SAÚDE DO IDOSO
A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo estratégica por sua atuação integral, contínua e coordenadora do cuidado. O Estatuto da Pessoa Idosa (Brasil, 2003) e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (Brasil, 2006) reforçam a necessidade de um cuidado longitudinal e centrado na promoção da autonomia e qualidade de vida. Em âmbito global, a Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030, proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), reforça a importância de estratégias voltadas à manutenção da capacidade funcional, à prevenção da dependência e à integração intersetorial nas políticas públicas de saúde (WHO, 2021; OPAS, 2022).
De acordo com a Lei nº 7.498/1986, que regulamenta o exercício da enfermagem no Brasil, compete ao enfermeiro realizar consultas de enfermagem, prescrever medicamentos conforme protocolos institucionais, solicitar exames e implementar programas de saúde pública. Tais atribuições são fundamentais no contexto da APS, pois asseguram a resolutividade e a continuidade do cuidado prestado ao usuário. Além disso, a Resolução COFEN nº 564/2017, que estabelece o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, determina que a prática profissional deve ser pautada pelos princípios da universalidade, integralidade e equidade, reforçando o compromisso ético e humanizado com os grupos mais vulneráveis, entre eles a população idosa.
O enfermeiro desempenha papel central na organização e execução das ações nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Conforme Almeida e Lopes (2019), cabe a esse profissional realizar assistência de enfermagem individual e coletiva, coordenar cargos técnicos da vigilância epidemiológica, planejar e avaliar ações em saúde junto à equipe multiprofissional, além de promover atividades educativas com a comunidade.
Conforme Almeida e Lopes (2019, p.171), o Enfermeiro é responsável pelas seguintes atribuições nas UBS:
Assistência de enfermagem individual; ações educativas; coordenação de cargos técnicos da Vigilância Epidemiológica; ações relativas ao gerenciamento da equipe de enfermagem; participação com a equipe de saúde no planejamento, coordenação e avaliação das ações em saúde; promove ações educativas com a população intermitentes as consultas; realiza visitas a domicílios e em trabalhos de grupo, visando a autonomia individual em relação à prevenção, promoção e reabilitação da saúde; e supervisiona o direcionamento da equipe multidisciplinar.
O enfermeiro também realiza visitas domiciliares e grupos de apoio, incentivando a autonomia dos indivíduos e fortalecendo a educação em saúde como instrumento de prevenção, promoção e reabilitação.
O cuidado de enfermagem voltado à pessoa idosa deve abranger não apenas as necessidades biológicas, mas também os aspectos psicológicos, sociais e emocionais, respeitando a subjetividade e os direitos de cada indivíduo (Barros; Cardoso; Cruz, 2025). O envelhecimento populacional impõe ao enfermeiro o desafio de compreender a complexidade desse processo, desenvolvendo competências técnico-científicas que favoreçam a promoção de um envelhecimento ativo, saudável e digno. Nesse sentido, a atuação do enfermeiro torna-se indispensável para o fortalecimento das políticas de saúde voltadas a essa faixa etária (Pontes et al., 2019).
Entre as principais atribuições do enfermeiro na atenção à saúde do idoso, destaca-se a consulta de enfermagem, que consiste em um processo metodológico e sistematizado voltado à compreensão integral do paciente. Essa prática permite identificar demandas específicas, planejar intervenções e oferecer orientações individualizadas, considerando a singularidade de cada idoso e promovendo a educação em saúde como ferramenta de empoderamento e autocuidado (Silva; Ferreira, 2019).
A atuação do enfermeiro na Atenção Básica não se limita ao tratamento de doenças. Segundo Henderson et al. (2018), esse profissional exerce funções que envolvem ações educativas, acompanhamento de grupos vulneráveis, visitas domiciliares e gestão de processos de trabalho nas unidades de saúde. Essas atividades contribuem para o fortalecimento do vínculo entre equipe e comunidade, ampliando a capacidade de resposta do sistema de saúde às necessidades da população idosa e estimulando a corresponsabilidade no cuidado.
Dessa forma, o enfermeiro se consolida como um agente estratégico na promoção da saúde do idoso, especialmente no contexto da Estratégia de Saúde da Família (ESF). Seu papel transcende a assistência clínica, abrangendo a prevenção de agravos, o incentivo à autonomia e a orientação aos familiares quanto ao autocuidado e ao manejo das condições crônicas. Com o avanço do envelhecimento populacional, a presença de profissionais capacitados e sensíveis às demandas da pessoa idosa é fundamental para garantir uma atenção humanizada, integral e promotora da qualidade de vida (Brasil, 2018).
4 DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A PRÁTICA DE ENFERMAGEM NO CUIDADO AO IDOSO
O envelhecimento populacional tem imposto novos e complexos desafios à saúde pública, exigindo da enfermagem uma atuação cada vez mais qualificada e adaptada às necessidades dessa população. O aumento da expectativa de vida e o crescimento acelerado do número de pessoas idosas, conforme demonstram dados do IBGE (2023) e das Nações Unidas (2020), refletem uma transição demográfica que amplia a demanda por cuidados contínuos e especializados. Esse cenário acarreta pressões sobre os sistemas de saúde, especialmente no que se refere à gestão de doenças crônicas, à reabilitação funcional e à promoção da autonomia. Assim, torna-se essencial o desenvolvimento de políticas públicas integradas e sustentáveis, capazes de garantir uma assistência humanizada e eficiente.
Entre os principais desafios enfrentados pela enfermagem estão a escassez de recursos humanos e estruturais, a sobrecarga de trabalho e a necessidade de atualização constante diante das novas demandas do cuidado geriátrico (Melo Moura et al., 2022). A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aponta que os custos assistenciais aumentam significativamente com o envelhecimento, sendo o gasto de uma pessoa acima de 60 anos até sete vezes maior que o de um jovem. Esse contexto evidencia a urgência de aprimorar a gestão e a capacitação das equipes de enfermagem para lidar com o aumento das demandas clínicas e psicossociais dos idosos, promovendo um cuidado integral, equitativo e financeiramente sustentável (Santos; Turra; Noronha, 2019).
Do ponto de vista prático, o enfermeiro na Atenção Primária à Saúde enfrenta o desafio de conciliar ações curativas com estratégias de promoção e prevenção. Como destacam Henderson et al. (2018) e Silva e Ferreira (2019), o cuidado ao idoso exige uma abordagem que transcenda o tratamento de doenças, incorporando atividades educativas, acompanhamento de grupos vulneráveis, visitas domiciliares e fortalecimento do autocuidado. Entretanto, para que essas ações sejam efetivas, é necessário que o profissional disponha de condições adequadas de trabalho, tempo para o atendimento e suporte institucional que valorize a sistematização da assistência e a prática baseada em evidências.
A atuação do enfermeiro nesse contexto também requer sensibilidade para lidar com os aspectos emocionais e sociais do envelhecimento. Como defendem Barros, Cardoso e Cruz (2025), o cuidado à pessoa idosa deve ser pautado na integralidade, considerando as dimensões biopsicossociais que envolvem o processo de envelhecer. Além disso, o profissional precisa desenvolver competências comunicativas e empáticas, capazes de fortalecer o vínculo terapêutico e promover a autonomia do idoso. Essa postura é fundamental para que o cuidado não se restrinja ao controle de doenças, mas inclua a valorização da dignidade, da independência e da qualidade de vida.
Diante dessas demandas, as perspectivas futuras da enfermagem no cuidado ao idoso apontam para a necessidade de investimentos em educação permanente, inovações tecnológicas e políticas de valorização profissional. A OMS (2021) e a OPAS (2022) reforçam a importância de modelos centrados na capacidade funcional e na integração intersetorial, o que requer enfermeiros preparados para atuar de forma crítica, reflexiva e interdisciplinar. Assim, o fortalecimento da prática de enfermagem passa pelo reconhecimento do seu papel estratégico na promoção de um envelhecimento saudável e pela construção de uma rede de cuidados que seja acessível, acolhedora e resolutiva para a população idosa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como propósito analisar o papel da enfermagem na promoção da saúde do idoso, considerando os desafios e perspectivas que permeiam a prática profissional diante do envelhecimento populacional. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível compreender que o aumento expressivo da população idosa, apontado por órgãos como o IBGE (2023) e a Organização das Nações Unidas (2020), representa uma das maiores transformações demográficas do século XXI, com impactos diretos nos sistemas de saúde e nas formas de cuidado. Nesse contexto, a enfermagem emerge como uma profissão essencial para garantir a integralidade da assistência e a manutenção da qualidade de vida dessa população.
Verificou-se que o enfermeiro possui papel estratégico na Atenção Primária à Saúde (APS), atuando não apenas no tratamento de doenças, mas principalmente na promoção do autocuidado, prevenção de agravos e fortalecimento da autonomia funcional do idoso. Conforme apontam autores como Henderson et al. (2018) e Silva e Ferreira (2019), o exercício da enfermagem deve ser pautado na escuta qualificada, na sistematização da assistência e no enfoque humanizado. Além disso, as diretrizes da OMS (2021) e da OPAS (2022) reforçam a importância de práticas integradas, intersetoriais e centradas na capacidade funcional, aspectos que foram amplamente discutidos neste estudo.
Os desafios identificados ao longo da pesquisa, como a escassez de recursos, a sobrecarga de trabalho e a necessidade de capacitação contínua, revelam a urgência de políticas públicas voltadas à valorização e formação permanente dos profissionais de enfermagem. Apesar das dificuldades, também foram observadas perspectivas promissoras, como o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e o uso de tecnologias de cuidado e educação em saúde, que podem contribuir significativamente para a autonomia e o bem-estar da pessoa idosa. Assim, destaca-se que o alcance da equidade e da integralidade no cuidado depende do comprometimento profissional e da efetiva implementação de políticas de saúde voltadas ao envelhecimento digno.
Dessa forma, conclui-se que o objetivo deste estudo foi plenamente alcançado, uma vez que se identificaram e discutiram de forma abrangente as atribuições do enfermeiro, os principais desafios enfrentados e as perspectivas futuras no cuidado à pessoa idosa. O estudo evidencia que a prática de enfermagem é indispensável para a consolidação de um envelhecimento saudável e ativo, sendo fundamental o investimento em formação profissional, estrutura de trabalho e reconhecimento social. Por fim, reafirma-se a necessidade de fortalecer a atuação da enfermagem como agente transformador nas políticas de atenção ao idoso, contribuindo para um sistema de saúde mais humano, inclusivo e sustentável.
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